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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A estranha vida de Román Soto Maior - Do Verão

Nos dias mais quentes, apesar do sol, o verão não havia chegado no coração de Román Soto Maior.

Mandou uma carta indignada para as agências que controlavam o tempo e a temperatura mas ainda assim, recebeu uma resposta que dizia que a temperatura de seu coração não dizia respeito àquele departamento; que procurasse um advogado.

Feita a sugestão, processou o Estado e o Sol. Perdeu as primeiras instâncias e ficou torcendo para que o destino ou a justiça, lhe dessem alguma notícia boa.

Brigou com o advogado e com deus, ruivas não constavam em contratos e nem nasciam sem ajuda de tinta.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Pessimista Saramago, é o mundo!

Alguns dizem que o que escrevo é pessimista.

Pessimista é o mundo que me obriga a escrever o que escrevo.

E se disserem que o mundo não é pessimista. Direi que não conhecem o mundo; que conhecem apenas, um basculhante de sua própria vida.

Se eles não enxergam e se desobrigam a olhar, sou eu, este filho da puta, a terrível cegueira?

Quem assiste o mundo por jornais ou pelo trajeto insoso do cotidiano, deveria olhar nos olhos da notícia: a pupila das favelas exterminadas cotidianamente, o canto da rua doído e infeliz, a criança cuja criança se perdera em trocados na pausa do automóvel e dos basculhantes!

Mas eles não olham.

E quando eu os faço recordar do extermínio dos pobres, da fome, de gente comendo lixo na ceia de natal. O bárbaro, pessimista e anti-cristão sou eu.

E eles, só olham e rezam católicamente à absolver a culpa de um mundo ruim.

Da próxima vez que disserem que sou eu o pessimista, ao invés de um palavrão, eu obrigo-me a dizer...

Que sádico é a imagem, não o espelho!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Namorada de final de ano

Às vezes, melhor seria
Se do fogão permitíssemos
Queimaduras

Que inconfortáveis
Estragam
Todo o poema

E eu, perdido na areia, no concreto
No paralelepípedo

Ou em volta de mim mesmo

Apenas pensasse
Como pensasse

Esquentando a água para o chá: Preciso de um horóscopo ou de uma namorada de final de ano!

Ambos, ou ambas, são particularmente imprevisíveis.

E mesmo assim. Seria melhor.
Se do fogão inconfortável; permitíssemos assim...

Algumas queimaduras.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Violentas Insônias

Confusão por sobre a mesa, por sobre a cama. Perdido. Espelho da alma, o quarto repousa sobre a angústia, por sobre o bilhete amassado, por sobre o livro e o casaco embolado entre a porta e o tapete.

Anda de um lado, caminha por outro, bebe água, respira, respira mal, pesadamente, perdeu-se na pia, lavou o rosto às duas, duas e treze, às três e quarenta.

Continuou sujo.

Os olhos pesados não pesavam, a mão leve coçava a fronte e ajudava a respirar o cigarro, calava-se; e ainda assim, ainda assim os nós dos dedos não conseguiam tatear o silêncio.

Tentou olhar para si, e na bula constava indicação: efeitos psíquicos colaterais, perturbação, insônia, por fim simples angústia. Simples? Pigarreou em tom de deboche.

Olhou para si; um eu que desconhecia; na verdade desconhecimento é falsa palavra.

Desconhecimento supõe contornos novos nunca observados, o que sentia era verdadeiramente estranhamento. Um estranhamento voraz, que o comia a cada ponteiro movido, a cada noite mal dormida, a cada sonho mal interpretado.

Chegara em pontos de ruptura, decisões, frações de si que clamavam por controle ou que verdadeiramente caminhavam para uma morte violenta.

Morria, morria todas as noites. E quando começava a morrer por detrás da luz, coçava a fronte, respirava o cigarro e lavava o rosto, duas e trinta, três e cinqüenta, quatro e cinquenta e nove...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cartolina velha

Perdi o tesão de escrever aqui. Quero ares novos.

Toda viagem me confunde, todo ar rotineiro me embrulha o estômago.

Nunca pedi muita coisa a deus, matei-o semana passada.

Nunca falei alto, só quando precisavam.

Agilizei uma ou duas aplicações de morfina; nunca me prenderam por isto, faço gosto, deixo solto, apesar do pesar.

Faço origamis de cartolina, faço corações de papel, não me sinto privilegiado.

Confundi o ar rotineiro de deus. Embrulhei o estômago de papel e privilegiei os ares novos.

Escrevi solto, precisei alto, me confundi.

Queros ares novos.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O ponto limite, a "dead line"

As coisas estava monótonas Ruiva, monótonas como sempre lhe pareciam, até que momentos antes o desencadear dos fatos contradizia não só a realidade, mas impunham uma nova percepção. Uma percepção irônica, jocosa. Forjada em algum lugar secreto, inacessível para nós, dois mortais que brincávamos de semi-deuses nos finais de semana.

Era como um jogo de dominós, onde os números não poderiam ser memorizados e a cada partida os adversários se encontravam no ponto zero, ou seja; por mais que jogassem, nunca dependiam de suas próprias capacidades ou experiências, mas apenas do desenrolar secreto(se é que isto poderia existir) das combinações, das casualidades, dos encontros e desencontros não arquitetados, enfim da sorte, da maldita sorte.

Era exatamente neste ponto, que eu percebia, e nisto eu achei a princípio que era mais eficiente que você, que algo, não algo tão espetacular no sentido de presentes de natais escondidos atrás de mesas, muito menos velhas cartas que descobertas infrigiam regras básicas dos horizontes de expectativa, iria acontecer. Chamávamos de momentos limites, isto quando não estávamos nós dois bêbados, sorrindo, minto, serei mais sincero, gargalhando, perdidos em quartos de motéis baratos, envolvidos nus por colchas evidentemente de mau gosto.

Nunca sabíamos exatamente o roteiro para estes momentos, por que sempre inventávamos coisas novas, como furar os pneus do carro do yuppie atrevido, ou colocar fogo no brinquedo homo-erótico com rodas do filhinho de papai raivoso, que acabara de ser estúpido com o assalariado sincero e gentil do hotel local.

De certa maneira, perdíamos muito mais tempo e isto era algo que crescia exponencialmente, a falar de ações pretéritas do que própriamente em executá-las, por que o risco ficava maior, crescia e nos intimidava até um ponto quase insustentável, e aí retornávamos ao ponto inicial, chutando o tabuleiro como força...

Recomeçávamos o dominó irracional, sempre com a mesma ousadia, sempre com o mesmo amor, sim amor, pois nada explicaria racionalmente aquela gana com a qual vivíamos, um mundo que parecia prestes a se acabar para nós dois, mas continuava vívido, recheado de sentido, pois sabíamos exatamente o que fazer; não como fazer, isto aprendíamos cotidianamente, mas estava claro que havia um sentimento mais forte que envolvia nossas ações, nosso romance inabitual, nossos beijos desencontrados no meio da rua e sim nossa disposição para fuder as estruturas, mesmo que limitadamente.

Quando começamos a aparecer na televisão, eu não sabia mais o que te dizer, não parecia você exatamente naquele retrato mal feito(você era muito, mas muito mais bonita pessoalmente); as coisas começaram a esquentar, mas isto nunca abalou nossas convicções, talvez remodelou-as para objetivos mais concretos tomando todavia um caminho mais complexo que implicava em ceder.

Coisa que pessoalmente não estávamos dispostos.

Você entendeu mal, quer dizer, era o que eu achei, quando você sumiu. Ceder não incluía me abandonar, na época eu tive de mudar tudo. Tive de viajar para outro lugar como você fez, eu poderia ter ficado, talvez seria preso ou morreria, mas acabei "entendendo" seu recado. Decerto se tivéssemos permanecido unidos, estaríamos mortos; era uma pulsão de morte que me corroía, você sacou tudo novamente, ponto para você. Afastando-se, conseguiu não só sobreviver, mas manter-me vivo...

Claro que compreendi, e agora isto fica cada vez mais claro, que um retorno seu, era um novo processo. Você teve de sumir, teve de me esquecer abandonado num lugarzinho hipócrita do lado de perdedores como Anatole, teve de manter-me como um quebra-cabeça fora do lugar, por que enfim, o tabuleiro não estava para nós ruiva... não mesmo...

Não sei como será: talvez você volte, pode ser que fique de vez bem longe de mim, o que decerto não me agradaria, é óbvio no entanto que eu achava que tinha ultrapassado a linha limite, a dead line, mas sempre se pode girar sob seu próprio eixo, se é que existe algum eixo que não esteja aí, pertinho de onde você está.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Homem expectativa vai as compras outra vez

Sou um suicida sem coragem
Um junkie sem culhões
Um revolucionário que não pega em armas

Meu nome é fracasso

Sou um amante sem amada
Um jovem meio velho
Um velho meio jovem
Sou contradição...

No ponto de ônibus
Na sua festa medíocre
No encontro dos chatos

Sou uma sina
Verbo sem palavra
Conto sem final
Poesia sem poeta
Ponto e vírgula sem leitor, sem ator

Sou o acaso, esguio
Passado sem futuro
Lógica sem prosseguimento, copo sem cerveja

Sou um soluço, um soluço de letras...
Sem explicação

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Insoníaco

Definitivamente, estou cansado de ter insônia.

domingo, 13 de abril de 2008

Verde e Vermelho para sempre


O vermelho (do latim vermillus – "vermezinho": a cochonilha) é a cor do sangue, sita no limite do visível do espectro luminoso (abaixo deste comprimento de ondas, o infravermelho, não é mais perceptível pela visão humana). Também é conhecida como escarlate ou encarnado. É cor-luz primária e cor-pigmento secundária, resultante da mistura de amarelo e magenta.

* O prefixo grego para vermelho é Eritro-.


O verde é uma cor-luz primária e uma cor-pigmento secundária composta pelo ciano e amarelo. Está aproximadamente na faixa de freqüência 550 nm do espectro de cores visíveis.

Verde também representa a luta no mundo de movimentos de proteção ao meio-ambiente.

Retirado da wikipedia.

sábado, 5 de abril de 2008

Tudo é quente em Nurenberg

Havia pedaços de papéis espalhados sobre a mesa, alguém andara brincando com alguma tesoura, ou enviando cartas-ameaças anônimas para alguém. Sobrava insônia e faltava prazer, como denunciavam as pilhas de livros não-lidos, as folhas e folhas corridas meio-dobradas, meio jogadas, que ele teria de revisar. Quem mandou. Ser escritor não é fácil. Um escritor simplório e medíocre, pior ainda. Ocupar-se de revisões e outras burocracias linguísticas não era muito o que sonhara para si, mas era o que tinha de mais concreto naquele momento. E por um breve instante, resolvera abandonar o concreto de suas obrigações para tentar dormir, em vão. Acordado, seria mais útil reconstruindo o concreto, mas preferiu ficar no abstrato e tentou(ensaiou), uns contos concretistas que sua inconsciência guardara dentro de si durante duas semanas.

A maioria calava-se. Alguns poucos, diziam que escrevia muito. E menos ainda, elogiavam. Kafka morreu pobre, Jesus foi crucificado e uns outros tantos, faleceram com tuberculose.

O mal da vez era a dengue hemorrágica, nem de doenças literárias podia morrer. Estava malfadado ao sucesso neste sentido. E que bom...

Assim poderia repetir fórmulas gastas, reinventar neologismos inacabados, e reunir setenta e seis palavras num domingo à noite repleto de nostalgia.

Fazia parte. E ele sabia que seu único remédio(além do álcool), era catarsiar-se, destrinchar-se, cortar nervo por nervo, alimentar com sangue, suor, com tesão e ataques aleatórios no sistema nervoso, as letras. Letras sim, geridas num útero de angústia, e para angústia mal-curada receita-se escrever de cinco a seis vezes por quinzena; abandonando os solstícios, que são datas específicamente relevantes para falsos ensaios acadêmicos.

No outono pediam-lhe mais vigor. No verão, enchiam-lhe de desprezo. Fazia parte da vitrine. E uma vitrine tosca; parecia mais calmo. Não sabia realmente se pelos dois dedos de whisky, ou pela escrita intempestuosa e libertina que se permitiu a fazer às quatro e seis da manhã.

Xingava e falava sozinho, com seus cigarros e com seu cinzeiro; abafava o grito endossado pelas linhas pretéritas com a tensão de suas próprias reservas. As reservas impostas à escrita, incentivavam-o a escrever sem reservas. Plagiador do bom não se nota.

E passa assim. Desapercebido, como uma esquina de carros virados em algum maio de Paris.

Resolveu imprimir uma apostila aos poucos, lia todos os dias antes de dormir. Imprimia algumas páginas, lia um pouco, dormia. No dia seguinte, fazia a mesma coisa. Era como cozinhar. Nunca sabia realmente qual era o diâmetro exato de sua fome; por letras ou por alimento.

Então, pensava, hoje serão dez, amanhã talvez vinte. Às vezes lia noventa por cento. Mas frequentemente ia até o final; odiava desperdícios. Desperdícios de letras, de poemas, de recursos, e principalmente de afetos.

Era sim um balde de afeto desperdiçado. Normalmente desperdiçava pela amanhã. Quando acordava, jogava as duas mãos para os lados, como em um movimento pendular de um relógio. E a cama, prostava-se vazia. Vazia.

E ele não ligava. Apenas ria. Era um ritual engraçado. E sentia graça mesmo. Chegava a rir de si mesmo. E ele lá. Cá dizia. Cheio de afeto e amor para dar. Rimando só para se sentir mais importante.

E nada acontecia. Então, era afeto desperdiçado. E ria novamente, só para ter a certeza de que não perdera o bom humor; e sim, isto sim não tinha desperdiçado.

Às vezes fazia-se de sério, ou jurava a si mesmo que seu estado civil era: desinteressado. Mas a quem iria mentir? A si mesmo? Sim. E desta vez, com convicção. Pois sabia que uma mentira repetida mil vezes, virava verdade. Paráfrase aludida aos malditos nazistas. Que repetiam jargões, incessantemente e convenceram metade do mundo, com panzers e canhões diga-se de passagem.

Não sabia bem por que incluiu os nazistas no texto. Mas logo após, num instante tão curto como uma vírgula, recordou-se vívidamente: pela manhã, sim, aconteceu pela manhã, pois sim, escritores amadores acordam cedo de vez em quando, pela manhã ele já não suportava a si mesmo quanto mais o mundo.

Mas o mundo, o mundo ao seu redor(e os malditos nazistas), movia-se frenéticamente. Num desses flancos, em que a dignidade e o cinismo insistem em conviver juntos, esbarra com uma mulher, mãe e negra, segurando carinhosamente seu filho no colo, o mundo parecia não existir ao seu redor; estava sentada num meio fio sujo, numa rua suja, ao lado de pessoas limpas(sujas).

Nazistas...

Faz frio em Nurenberg. No Rio de Janeiro tudo é quente, exceto Nurenberg.

No tribunal de Nurenberg, a palavra era: diga que cumpriu ordens.

Na av. presidente vargas, são mais econômicos. Falam apenas com o corpo.

O mundo não fala. Está calado, vencido, perdeu a si próprio em seu próprio Füher mercado. E ainda havia amor. Diante da pobreza. Havia amor, de uma mãe, para um filho. Sim, havia amor, cercado, sufocado no entorno do tribunal de Nurenberg.

O fato é que este falso poeta despejou algumas lágrimas no canto esquerdo do olho e do ônibus...

Era um completo louco. Seu doido varrido! Quem chora por desconhecidos às dez da manhã?!

Pois é!

domingo, 16 de março de 2008

Chovia quando ficava triste

Choveu. E então o céu lacrimejou suavemente, como se aguardasse um afago.

O afeto de Vasilli estava espalhado por sobre a mesa, davam o nome de Vodka, e estava distribuída por uma dose de limão, acúcar e gelo. Jazia também, uma caneta por cima da mesa, próximo ao cinzeiro, repleto de guimbas do passado, dor nostálgicamente posicionada por cima do seu horizonte de dúvida.

Não havia muito a fazer, a não ser observar os pingos da chuva rabiscarem o céu, a varanda, e seu coração, aguardando que em determinado e específico momento não combinado entre os dois(ele e o céu) algum dos dois teria de parar de lacrimejar.

O céu era forte, amplo, mais Vasilli muito mais infinito, rabiscou o papel a procura de inspiração, ou melhor calma, para expressar o que ele sabia bem que somente o fundo de seus olhos poderia dizer; olhando para os lados, mexendo os dedos por entre o cabelo desgrenhado, abaixando-os a altura dos pés, movia seu pensamento de um lado a outro sem encontrar respostas, mesmo com aquela música de jazz que ouvira semana passada e não conseguia esquecer.

"Procurar não traz a paz. A paz só vem quando a gente esquece. " Filosofou em tom de cinismo, cinismo consigo mesmo, por que naquela casa mal conseguia se carregar, quanto mais conviver com os demais.

A vodka aqueceu a garganta, mas não os paralelepípedos molhados da rua, pouco limão, pouco limão... Levantou, deixou o copo em cima da mesa, debruçou-se na varanda, mover o corpo não era uma estratégia, era uma instinto básico de sobrevivência, o olhar girou seu corpo e olhar em direção ao final da rua, vez ou outra, captava algo. Sensação estranha aquela.

Está no ar. Veja bem. A angústia está no ar... e eu aqui, a captando. O céu está triste, encerrou, como estivesse provando a si mesmo que o motivo daquela tristeza era apenas a de efeitos colaterais que o levavam a desenvolver algo brilhante... uma vida brilhante.... uma idéia brilhante... uma filosofia de botequim brilhante... ou até mesmo uma frase, ou uma poesia brilhante...

Este ledo engano, era teleológico por demais, e ele acabava perdendo partes das esperanças que simularara para si e retornava ao ponto original como num dificultoso jogo de armar castelos de cartas ou de areia... Desistia de enxergar a tristeza com tanto otimismo, na segunda ou na terceira dose de saudade ou de medo.

Voltou a mesa, mexeu no cigarro, como aguardando um reflexo, algo que se movesse, que o tirasse da habitual tristeza. Mas não... ele bem sabia... por quanto sempre estalava nessas horas uma parte de si deixada à própria sorte, que decidia por fim reagir, mesmo que devidamente reduzida de suas forças na tentativa de o animar....

Havia um quê de secreto, naquele pacto silencioso entre Vasilli e o sagrado(considerava aquele ritual sagrado, um sagrado não sacralizado, um sagrado não-divino, um sagrado que agradava por fim, os ateus), entre suas lágrimas e a chuva, entre seu destino e seus passos...

Fingia otimismo quando lhe interessava e o contrário era mais habitual, era verdade, vez ou outra não fingia nada, era sincero, depreendia daí o problema e a incapacidade objetiva de o ajudarem.

Poucos poderiam, já não acreditava em nenhuma ajuda que não cobrasse noventa reais a consulta, afinal desconfiava de boa parte do altruísmo que aguardava cinco minutos a sua vez de falar, que não descortinava a tristeza alheia, que não remoía no fundo o que verdadeiramente se escondia naquelas frases, sim, pois é ali, é mais na parte sul do abismo interior, revelado por cinco ou seis olhares, por dois ou três atos falhos, que Vasilli se escondia, e como todo mal cristão, a introversão fazia parte do pacote.

Não se escondia tão fundo assim, bastava coragem, sensibilidade ou intuição(ou um misto das três), para descobrirem em que parte do penhasco se encontrava, mas tal tarefa, não cabia à desajeitados/as ou a covardes. Ninguém olha espelhos para negar o que sabe, mas sim o inverso.

Começava assim a treinar, a adaptar-se ao kung fu emocional, fundar seu jogo de xadrez fora do instinto, dentro do real e começou a temer, na segunda ou na terceira golada daquele resto de limão com tristeza, a profundidade do abismo em que se jogara.

A grande questão era saber se seria resgatado; ou se queria mesmo.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Disputas Interiores: Durden ou Poulain?


Olhando para tudo o que aconteceu, tinha quase certeza de que o caminho, sim, pois era seu sem dúvida, era um caminho pra lá de interessante. A maneira com que recriava a vida ao seu redor, era em suma, parte de um processo global, isto é verdade, e acreditava e confiava nas redes que o envolviam, e tudo, tudo, dizia lembrando daquela terça-feira mágica, era parte daquela trilha, daquela estrada, deste caminho, ríspido, suave, intenso, jocoso, brilhante.

Poderia encher o copo da vida uma ou duas vezes, antes de experimentar a dor, e o que era a alegria sem a dor, o que era a paixão sem o ódio, o que era o dualismo sem o relativismo, o que era ele próprio sem si mesmo!!! Confiar no sagrado era o início de um processo curto de esperança. Era um feixe de respiração otimista.

Fazendo um balanço sincero e motivado de seus/meus próprios costumes lembrava demasiadamente das músicas tristes, das cartas sinceras, das lágrimas despejadas sob o copo de cerveja preta, que ele, sim, ele tanto adorava. Era um romântico incurável, e românticos incuráveis, necessitam de mais tempo, nenhum tempo é tão escasso, quanto o tempo dos românticos incuráveis. Ele sabia, e demonstrava a cada gesto, que era uma junção de simplicidade explorada demasiadamente pelo destino a ponto de exaurir seu próprio otimismo; e no entanto conseguia a cada respiração, ser visitado pela morte sete vezes, assim como os budistas; e que deus os tenha.

Mas lhe faltava maldade. Não se referia ao mal convencional dos filmes hollywoodianos ou das igrejas de final de semana; faltava-lhe, e podia perceber a cada evento, uma percepção mais nítida, e a este ponto preferia a palavra parceria como o oposto do que ele era e negava.

Era claro e necessário, que ele deveria fortalecer aquele lado escuro, que tanto deixara-se ofuscar por sua parte mais criativa e dera a uma ampla gama de jogadoras, a oportunidade de deliciarem-se com modelos paranóides produzidos sob situações de tensão; ou diria melhor, bonequinhos perfeitos, imagens projetadas no espírito do tempo a partir de espasmos pré-românticos, mas veja bem, e preste atenção neste período, neste momento, tão particular e talvez inovador... espasmos pré-românticos são como comportamentos clichês às sete da manhã.

"Passe-me a manteiga por favor! (me passa a porra da manteiga!!!)."

O espírito do tempo não estava com ele desta vez(nunca esteve). Adaptaria-se?

Adorava utilizar opostos para explicitar a si próprio; água x fogo, yin x yang, sombra x luz e como a modernidade lhe impunha novas e sensacionalistas abordagens, Anatole resolvera escolher a dicotomia durden x poulain, que era um produto de filmes baratos que resolvera rever para explicar a si mesmo e aos leitores(dois ou três - num dia de sorte) o que era dicotômico em sua, em nossa, personalidade. (se você chegou até aqui parabéns! força! continue!)

Oposições que se completavam, mas que neste momento digladiavam-se em torno de uma resposta. Ele vai ter de escolher - diziam nos corredores do inconsciente.

Conseguiria trazer sua sombra?, sim ela dizia faminta - você consegue meu jovem, enquanto jovem; conseguirá empurrar mais para o fundo esta velha, sim, pois anime-se os anos 90 já acabaram junto com suas camisas de flanela, esta velha-idosa Poulain, espírito ultrapassado e prestes a reanimar o velho Durden, este arquétipo raivoso, esta parte de si que calava todas as vezes em que se confrontava com a doçura de uma parte de si que predominara durante todo o jogo; deixe ele tomar as rédeas da situação, deixe o velho durden dominar.

É claro que isso tinha um custo. Ele sabia, e dialogava muito oportunamente com os dois, com meio cigarro na boca, e um copo de cerveja preta, olhando para o horizonte(e seu horizonte era bem limitado por cinco ou seis prédios - isto dependia da quantidade de vodka) que tal tarefa não era tão fácil como poderia aparentar.

Sabia exatamente, que um estava em posição mais vantajosa do que os demais; Vasilli não admitia a princípio, mas as queimaduras de cigarro de quatro ou cinco anos arriscavam palpites de quem ganharia naquele momento o jogo, e isto era suficientemente claro para demonstrar que era hora de cultivar um caos dentro de si, não uma estrela brilhante, mas uma super-nova que talvez conseguiria gerir algo novo... de uma vez por todas.

Matar Poulain, enterrar Durden, talvez seja o caminho.... Ele não sabia exatamente...

Talvez devesse seguir o fluxo, parece fácil quando não se escreve por compulsão. Nada constava como editável, aproveitável; o lixo literário estava aí. O excesso de cerveja preta denunciava que seria mais durden do que poulain e não, ele não aceitava conselhos, por que esta mudança era temporária como toda mudança (normalmente) é. Decerto a maioria inspirava-se e acostumara-se a conviver mais com Vassili em sua fase "Poulain", fazia sentido, já que o espírito do tempo abortava milhares, milhões de Amélies Poulains sistemáticamente...

E a gente costuma projetar no outro o que a gente quer ser. E assim fica fácil pedir para Vasilli ser mais Poulain. Quando o que ele quer. É ser mais sombra, é ser mais durden.

[sorriso da ruiva no canto da sala - cigarro na boca, fumaça no ar, ele dormindo, ela acordada, vestindo preto, sofá sujo, gato preto na casa, lixo no quarto.]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Das vezes em que se meteu com cerveja preta

- Anatole...

- Diga, Vasilli.

- Deixarei meu cabelo crescer...

- E o que tem isso de importância? O que tem, isto de importância perante esta lua. Esta lua linda.

- Nada porra. Reflete apenas falta de compromisso Nato.

- Com o quê Vasilli?

- Com a vida Anatole. Com a porra da vida!

(chega de travessões)

Olha pra praia soltou o russo. Olha pro céu, pro horizonte, e pra lua. Ah! Pra lua você já olhou. Seu cínico! Olhaste pra lua antes de me convencer de alguma coisa. Golpe baixo Nato.

Golpe muito baixo,(expulsou Vasilli) antes de tragar a longneck, ou grande-nariz perante uma tradução chula que insistia em manter; na verdade nunca tinha pensado no longo nariz... longo nariz....

Nato, em algum lugar do inferno há Eric Clapton e Velvet Underground tocando...

Tem o Buckley Vasilli. Deixa de ser anti-intelectual. Tem a porra do Buckley. Tem o Ian Curtis, tem o pop do Cobain tentando convencer a quadrilha de seatle a escutar o Thom Yorke... Tem tudo Vasili. É a igreja do diabo. Escutaremos os anos 90 como se fosse woodstock Vasilli, seremos os mártires do fodase, seremos os provos, a bicicleta branca, a contra-cultura renovada.

Deixaremos de ser os irmão do meio.

É verdade Nato, resmungou Vasilli antes de virar meia long-neck, meio nariz, longo nariz, completo nariz de cerveja; sujo de espuma.

E cerveja preta, pensou Vasilli, cadê a porra da cerveja preta??

Está caída, pensou Nato, pensou também Anatole. Mas não se comunicaram. Não conscientemente. Mas estava lá. O diálogo existia inconscientemente, mas nunca saberiam. A ciência nunca saberia.

Subjetivismos não fazem parte do ocidente, nem da ciência, nem de vagões de metrô ou jogos de futebol.

- Nato, ontem tive sonhos realmente impressionantes.

- Entrava num bunker. Escadas. Lembro-me do cartão. Das pessoas correndo. Lembro-me da bicicleta no pântano, de combates pseudo-medievais, lembro me do céu nato, do céu, virando noite muito rápido(as expressões corporais de Vasilli segundo Anatole pareciam muito, muito infantis), me lembro de me esconder atrás de muros de pedras, muros de pedras frágeis, frágeis como minhas repetições, frágeis como o meu eu Vasilli(e bateu no peito como king kong, o que tornou a cena mais patética do que já era).

- E como você se sentiu(Vasilli aprendera pseudo-psicologia no Discovery Channel)?

- Bem gringo. Até escutei aquela bossinha que você me passou.

- Tá. Tá Vasilli(Anatole começara a ficar realmente bêbado).

- Nato...

- Diga Vasilli vazio....

- Deixarei meu cabelo crescer.

- Fútil... Futilidade (em tom de desdenho).

- Em tom de desdenho Vasilli. Deshhhdenho...

- Tá bem. Chama a ruiva, grita ela, que eu não tô em condições. Grita ela Nato, grita ela que nós vamos juntos pra casa.

Acabara o álcool de Anatole. Precisava resgatar Vasilli. Precisava. Ele está no fundo.... Não há mais chance. Ele chegou ao fundo. É hora de resgatá-lo. Há imagens demasiadas.

O russo enlouqueceu, particularmente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Temas sobre a insônia: Contatos com o Interior

Hoje passei no Largo do Machado. Precisava de 40 minutos de completo ócio, mas é mais fácil preencher espaços vazios com movimento e caoticidade na maior parte das vezes do que com reflexão. A própria geografia urbana não propicia este tipo de tomada de decisão. Resolvi comprar livros, que nada mais são do que uma soma de árvores mortas se formos pensar por um outro ângulo, o que inevitávelmente nos conduz à discussão de que não existe a separação vida x morte. Não chamaríamos a vida de vida e a morte de morte se ambas não fossem no fundo, uma coisa só.

Pois bem, voltando ao assunto dos livros, encontrei uma bela musa de cabelos cor ferrugem, era quase uma ruiva, se talvez levássemos em conta que só descobre-se uma ruiva quando se geralmente está a ponto de perdê-la. É um paradoxo interessante.

Bem, na verdade não podemos chamá-la de quase ruiva, por que era uma mera projeção. O fato é que fui comer um quibe de legumes com muito mais animação que o habitual. O Largo do Machado é cheio de vida e situações emocionalmente carregadas. Assistir uma apresentação de folclore por exemplo faz parte desta situação. Normalmente em época de reis, ou algo assim, nunca fui bom em datas. Coisa que não ocorreu hoje foi algum folclore; teria sido muito mais recompensador, do que comer quibes árabes.

Marco minhas datas com lembranças marcantes. Catarses individuais, situações limite e cartas mal lapidadas, voilá, meu calendário é algo entre isso tudo. Há um quê de passagem no Largo do Machado, algo que é o caminho mas torna-se o fim. É o mesmo com Madureira, porém indubitávelmente com psico-tensões geográficas extremamente particulares.

Há praças do Largo do Machado que ainda são verdadeiramente praças, apesar de dominadas por tipos conservadores e prédios e condomínios que os induzem a esta postura.

Quando a falsa ruiva se foi, eu tive vontade de chorar. Não era um choro própriamente dito. Talvez um insight, uma recordação malquista ou um neurônio e uma sinapse mal-sucedida, o fato é que foi algo tão curto, que não desencadeou nada, particularmente e absolutamente nada.

O que não é uma tentativa pessoal de negação do sentimento. Lembranças surgem é claro. O fato é que como um sentimento pode surgir em milisegundos a ponto de desaparecer em seguida? O que para mim, "ficou na metade", é parte de um gerador, de um verdadeiro gerador de sentimentos novíssimos, e isso é bom.

O fato em si é; transbordar quando assim lhe aprouver. Determinados ambientes podem trazer isto a tona mediante uma relação causal e casual de esforço cognitivo. Isto passa por estar sintonizado consigo mesmo a partir de relações que podem proporcionar este aumento de contato interior. Um contato com o gerador, um gerador de emoções completamente novas.

Talvez um sonho iniciático sufi lhe seja suficiente.

É preciso ter um pó de estrelas dentro de si. É preciso saber que não há sentimento ruim. A tristeza não é ruim. A felicidade não é algo bom. A tristeza também não é boa e muito menos a felicidade seria algo ruim.

Mas elas estão lá. E isso dever ser intensamente aproveitado(e apropriado).

Quando isso for compreendido, o contato estará estabelecido. E será possível viajar por entre o self.

Não faço idéia(racional) do que escrevi exatamente, mas há uma luz que deseja coexistir com a sombra que começa a fazer total sentido para mim(como eu não faço a mínima idéia, aliás, o que é particularmente e cada vez mais interessante).

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Insônia

Meu corpo está clamando por pontos finais seguidos de parágrafos bem longos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Marcadores

Dividi o blog todo em marcadores. Isto significa que, abaixo de todo o texto, há algumas palavra chaves após marcadores. Clicando na palavra escolhida aparecerão apenas os textos onde existem esses marcadores.

Existem vários marcadores. O que mais me atraiu e o que eu acho que pode ser útil, é o marcador: Sob efeito leve, sob efeito moderado e sob efeito pesado de cerveja. Clicando nestes marcadores é possível saber com exatidão quais textos escrevi levemente, parcialmente, ou completamente bêbado. Os textos escritos sob o efeito de insônia também estão devidamente marcados. Agora realmente é que fui entender a praticidade dos temíveis marcadores. Viva a tecnologia, capaz de nos conectar ao mundo todo, nos isolando.

Produzir essas merdas é fácil

Completava seis semanas de isolamento. Era hora de voltar para o Rio. Pegou a BR no dia doze, e pretendia voltar no dia 19, mais por contigências, por determinadas situações acabou ficando seis semanas. Seis longas semanas. Não sabia mais o que era. Tinha apenas uma ligeira impressão.

Amassou o cigarro na bota, fez sinal para o ônibus e partiu.

A janela do coletivo lhe deu boas impressões. O sereno firme, posterior chuva irritante, embaçava os vidros, tocava John Coltrane no fundo. Música ambiente. Tudo proporcionado pela empresa de ônibus.

Não havia mais jeito. Não havia mais fuga. Fugir era inútil. E agora ele sabia disto. O mundo era demasiadamente pequeno. Isto o irritava, por que um viciado pelo novo não conseguiria relaxar no Rio de Janeiro. A cidade inteira se conhecia. Cidade estressante. E era verdade. Não aguentava mais frequentar o velho. Arcos Velhos, festas velhas, pessoas velhas, velhas conhecidas. Antigos bares, festas e situações. Estava exausto disto tudo.

Não via mais honestidade nas pessoas, apenas promessas, teatros. Quando ele odiava odiava mesmo. Era difícil voltar atrás. Conhecia poucos casos onde conseguira voltar atrás.

Poucos mesmo. Mais que merda! Que merda! Gritou dentro do ônibus! Que merda de mundo! Caralho! Que teatrinho de merda! Vão pra puta que pariu! Desceu. Andou. Estava perto do caos. Pegou outra condução, foi para a rodoviária. Perambulou, comprou uma dose de menta, sentou, deitou, olhou as estrelas. Voltou pro apartamento vazio do centro. Abriu a porta. Acendeu um incenso, abriu a janela para entrar ar. O telefone tocou.

Pisou, esmigalhou com raiva e não satisfeito arrancou o fio que o prendia

Foi pra cozinha, colocou algo para cozinhar, comeu, engoliu, merda de alimentação. Abriu uma garrafa de vodka, espremeu alguns limões, tomou uma caipivodka escutando Coltrane novamente. Agora deliberadamente.

Percebeu um ou dois envelopes, por baixo da porta. Largou o copo, pegou-os, rasgou e começou a ler. Promoções, e uma conta de luz. Nada demais. Não era tão importante assim para receber cartas em casa. Chutou a porra dos envelopes.

Não tinha mais nada pra pensar. Dormiu abraçado com a vodka. Se alguém batesse na porta gritaria um foda-se já anteriormente ensaiado.

Mas que merda de dia misantropo, pensou antes de cochilar.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Da inteligência do cotidiano

Já faziam três dias que ele não conseguia sonhar direito. Muito menos dormir. Levantou da cama e tateou a mesinha de mogno. Achou as chaves da casa e duas latas de cerveja antes de pegar os cigarros. Sentou na cama, sacou o isqueiro e acendeu-os vislumbrando a janela. Pensou o quão suja estava, e o quão suja era toda aquela pós-modernidade pútrida que o visitava naquele ambiente tão falseado. O mundo não era tão pós-moderno assim. Bastava acordar às sete da manhã e ir comprar pão, que veria o quão clássico era tudo aquilo. Os sorrisos, o padeiro, as notas amassadas no caixa. Não havia muitos cigarros, nem músicas demodé e nem musas de cabelos vermelhos comprando pão naquele horário.

Mas ainda eram 3:40. Mais um sonho incompleto. Pegou a chave e ficou rodando-a, ignorando o tempo, a situação desconfortável. Resolveu levantar e tomar uma cerveja; fudido, fudido e meio, refletiu. Abriu o frigobar, pegou a penúltima lata, pensou que teria de comprar mais cervejas amanhã. Malditos supermercados, suas filas, seu ambiente de neón, sua maldita assepsia. Ambientes de plástico que não o agradavam. A imperfeição é parte do desastre, por que contê-la? Deixe que o caos fale por si e será agradável de certa forma.

Levantou e abriu a janela, que emitiu um ruído que lhe era agradável, talvez por isso não tenha pensado em ajeitar tudo aquilo. Debruçou-se e prosperou a fumar. Gostava da idéia de fazer situações absurdas em momento semânticamente contrários.

A rua estava vazia... mas havia um vulto esgueirando-se por entre as lixeiras da "Bread & Milk". Sim era uma padaria latino-americana. Americanizada. Ou melhor estadosunidensezada. Tudo igual.

Vestia um gorro engraçado, que lhe tapava as orelhas mas deixava seu cabelo grisalho à mostra.

O vulto fuçava algumas latas de lixo, mexia algo no bolso que Vasili não conseguia enxergar.

Continuou a observar a criatura noturna, e por um momento uma identificação fortíssima lhe acometeu: eram irmãos gemêos da mesma desgraça, em graus diferentes é claro.

"Ainda tenho minha cerveja, uma cama, e um quarto sujo, aliás essa mesa de mogno é um insulto. E esse quarto fede a mofo. " Pensou. Mas não posso trocá-la! Seria uma heresia com meu dia anti-pós-moderno(parecia bêbado).

E o que ele tem? Somos dois fudidos em graus diferentes. O mesmo mecanismo. É uma porra de um suicídio coletivo.

Tragava o cigarro e observava o homem remexer as latas de lixo, as caixas de papelão...

Talvez ele tenha sorte.

Não se sabe por que impulso, resolveu assobiar. O homem demorou a perceber o assobio. Tateou suas caixas de papelão como se ignorasse a suposta afronta. Por um momento demonstrou despreocupação e até mesmo ignorância perceptiva sobre o local exato do princípio do assobio.

Após a segunda ou terceira tragada do cigarro, surpreendentemente, caminhou com as mãos para dentro do paletó marrom, sim era marrom e agora dava para ver nítidamente um dos bolsos rasgados, poídos, e pegou uma outra caixa. Do outro lado da rua. Do lado do apart-hotel-pulgueiro em que Vasili encontrava-se instalado, e jogou uma guimba na calçada e olhando para baixo para enxergar o andarilho.

Deve estar pensando que estou querendo repreendê-lo...

Saiu da janela... Pegou mais uns cigarros, colocou no bolso, remexeu embaixo da cama a procura daquela garrafa de vodka russa que Anatole comprara no duty-free shopping em sua viagem, meio burguês, é verdade. Contradições. Parte da modernidade.

Abriu sua porta, o prédio calava-se, desceu as escadas rápidamente, estava frio, era um acaso estar de casaco. Abriu a porta... Caminhou até o portão destravou a fechadura... saiu... acendeu o cigarro... o homem ainda mexia nas caixas de papelão, desta vez num ritmo frenético, quase um trabalho fabril, de desmontar e guardar os pedaços num carrinho de supermercado enferrujado, do qual Vasili não tomara conhecimento desde a primeira visão.

Gaijin. Comentou alto.

Os olhos do andarilho fixaram-se com prontidão na figura de Vasili. Com uma ênfase especial na garrafa de vodka. Bebe comigo?

Ele continou caminhando no ritmo desmonte-caixa / encha o carrinho. Contudo por um momento interrompeu bruscamente a dança e resolveu encarar Vasili. Vodka?

Sim, Vodka.

Tem um cigarro? Perguntou.

Claro, tome, respondeu Vasili.

Está frio, resmungou acendendo o cigarro no isqueiro de metal de Vasili.

Sim... Frio... Mas não é como na Rússia...

Você é russo?

Não... Quer dizer... meio eslavo...

O homem riu. Uma risada roca, a simpatia brilhava nos seus olhos. Era uma boa companhia. Definitivamente uma boa companhia. Sua intuição falava assim e Vasili seguia sua intuição, por que normalmente dava certo.

Você mora aqui?

Moro por enquanto. Essa merda é um pulgueiro.

Ah rapaz, dá um pulo na sé. Lá tem pulgueiros melhores que esse.

Riu novamente... Um sorriso amarelo e uma risada rouca, forte, que abafava Vasili.

Sentaram e começaram a falar do mercado do papelão. Ele vendia, percorria a cidade, vendia, percorria a cidade. Era um ciclo eterno. Fabril. Da sua família, dos problemas, GRANDES problemas. Do governo, da polícia, da repressão, dos golpes, dos amigos mortos. Das drogas. As drogas da pós-modernidade.

Vasili ao contrário falara da ruiva metade do tempo, quão pequeneníssimo burguês tinha se tornado. Partes diferentes e semelhantes de um mesmo problema. No início achou que Gérson só queria a vodka russa. Mas ele era tão atencioso que o desconcertou; acabou que Vasili lhe deu cigarros e algum dinheiro para o almoço de amanhã.

Seus problemas lhe pareciam tão pequenos. Ínfimos. Existiam, mas eram pequenos.

Você tem problemas maiores que eu. Pensou. Não falou. Era óbvio demais. Falar... nem pensar!

Fumaram alguns cigarros. Não vá se perder por aí, apontou Vasili.

Pode deixar. E olha só Vazilo, tudo tem um propósito, quando não tem a gente inventa um cara...

Vasili gargalhou antes de fechar a portaria, e subiu as escadas. Caminhou até o apartamento, escutando o ranger das rodas do velho carrinho enferrujado de compras de Gérson, o "Fuligem". Gérson-fuligem... Parte das cinzas, parte deste mundinho pós-moderno, que tanto os nega, que tanto nos nega, afirmou.

Abriu a porta de casa(se é que poderia se chamar aquele little chiqueiro de casa) e fechou a janela, Gérson já tinha desaparecido na fuligem da noite. O pós-modernismo foi com ele. Teoria não há com barriga vazia, pensou.

E quando não houver um propósito. Invente um.