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sábado, 4 de abril de 2009

Universitário de Merda

Aquele universitário de merda, era o mesmo que entendia quase tudo, a não ser o que não era ele próprio.

Aquele sarcasmo maldito escondido na terceira cárie, mas universitários não tem cárie. E era ele.

Aquela merda de tabaco ruim. Aquela dura, que eles tomaram. Mas eles eram brancos, brancos e estudavam na PUC.

O policial negro, o capitão do mato, que trata o povo, e o cartão de crédito de medicina com respeito, o juiz mulato, que pra ser exceção, resolve virar uma regra. Reacionária e régua, intransigente, que mede todos pela cor.

Os negros favelados que se fuderam e você só viu naquela página de jornal que o retardado da 406 limpou, sob você e seus risos, comerciais de tv, ali, assim, com famas nos olhos.

E ele, ele assim, no meio de tudo isto, que nem identificação de classe tem, mas já se posicionou, ele aquele merda ousado. Aquele hippie de botique, aquele filho da puta sujo. Sujo.

O oficial de justiça, que sob sete anos de concurso, consegue falar que só cumpre ordens, mas não diz que goza modesto quando tira o extrato do banco, ali, onde se esvai a justiça e o prazer, e avante, adiante de uma ereção do seu caráter curto, desdobra-se uma ética de onze, ou doze centímetros.

Aquele merda, empilhado na calçada, era teu pai, sem o pistolão da Evaristo Freitas, sem o coronel da Gracindo Farias, sem ajuda daquele teu avô canastrão e corno!

Aquela caixa de papelão, era tua tv, com big brother, com quatro arrabaldes de madeira, e ar-condicionado, com aquele corpo sujo estendido no chão, aquele que você estudou na aula de sociologia urbana.

Aquele universitário de merda, aquele merda no espelho, era você. Era você.

Aquele merdão, que sorriu sem graça e não gostou do conto, era você, era você, um homem relativo, empilhado, caráter curto, cego, com um cartão de crédito cretino sem cárie, e que passava pelos capitães do mato assim, completamente regorgitados.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Só cumprem ordens

O juiz só segue a justiça.
O oficial só cumpre a ordem do juiz.
O policial só executa a ação de despejo.
E o povo?
...
O povo só sofre.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Pessimista Saramago, é o mundo!

Alguns dizem que o que escrevo é pessimista.

Pessimista é o mundo que me obriga a escrever o que escrevo.

E se disserem que o mundo não é pessimista. Direi que não conhecem o mundo; que conhecem apenas, um basculhante de sua própria vida.

Se eles não enxergam e se desobrigam a olhar, sou eu, este filho da puta, a terrível cegueira?

Quem assiste o mundo por jornais ou pelo trajeto insoso do cotidiano, deveria olhar nos olhos da notícia: a pupila das favelas exterminadas cotidianamente, o canto da rua doído e infeliz, a criança cuja criança se perdera em trocados na pausa do automóvel e dos basculhantes!

Mas eles não olham.

E quando eu os faço recordar do extermínio dos pobres, da fome, de gente comendo lixo na ceia de natal. O bárbaro, pessimista e anti-cristão sou eu.

E eles, só olham e rezam católicamente à absolver a culpa de um mundo ruim.

Da próxima vez que disserem que sou eu o pessimista, ao invés de um palavrão, eu obrigo-me a dizer...

Que sádico é a imagem, não o espelho!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Hagiografia de pecadores

Júlia queria viajar para o Uruguai e levar a vida junto. O país recortado por fronteiras imaginárias e que nunca existiram esperou.

Renato, com uma ansiedade menor que o preço da passagem, aguardava um ônibus sujo, numa madrugada imunda do dia dezessete de um mês ruim.

Alessandra queria terminar uma poesia e só precisava de uma idéia ou de uma caneta, mas só tinha o número da conta do banco no bolso.

Miguel, transbordava emoção no centro da cidade, e seguia evitando as linhas de uma calçada no cruzamento da rua Ouvidor.

O sorriso de Augusto falava por ele; quando encontrava Luisa, seus dentes não acertavam o compasso.

Nicolai esperava alguma coisa acontecer, mas só lhe chegavam desejos impossíveis e balas de mascar nos ônibus mais desconfortáveis.

O coração de Joana guardava Felipe em um de seus cômodos mais aconchegantes, mas Enrico ainda tinha um esperança que o inquilino atrasaria o aluguel.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Morro vivo mas não vivo morto

Sou feliz. Sou triste.

Do tamanho que esta estrutura assim me permite.

E como a natureza e o mar, mato-me e renasço no coito cotidiano da vida.

Assim, do tamanho que a minha liberdade me permite.

Permito-me assim, a dizer, a gritar, a gozar: mudem as estruturas, mudem as liberdades; permitam-se o mundo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Compro Ouro

Detestava receber papéis na rua
Mas deus
Sempre lhe anunciava
Alguns puteiros

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vida quase normal

Cachorro
Emprego
Contas a pagar

Lúcio um dia, chegava lá

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O homem dentro da caixa


Na Lapa, centro do rio, um homem dorme dentro de uma caixa: Abdômen para fora, cabeça para dentro. Verídico, terrível.

Eu caminho abdominalmente; já perdi minha cabeça na caixa do homem.

Homem? Homens? Mas que papelão!

Ao lado uma placa lhe diz: "Secretaria de Gestão Penitenciária".

E mais adiante um hotel chamado Hilton grita carros importados na calçada; alguns passos para a esquerda, e vejo bancos, caixas eletrônicos e vidraças que pedem... pedem...

E eu só quebrei os retrovisores; sou um covarde sem abdômen!

Sou uma caixa! Uma caixa de papelão!

terça-feira, 3 de junho de 2008

O peso do mundo

Eu olhava nos teus olhos
E você, tão honesta
Reforçava a mesma impressão
Que tínhamos do mundo

Desigual, injusto, voraz...
Algo tinha de mudar

Quando fazíamos poesia
Fazíamos nas ruas, ao lado do povo
Da lama, da luta

E ainda assim, faltava-me fôlego
Fôlego que lhe sobrava
Toda vez que eu o buscava em teus olhos

Quando você foi embora
Não pude mais dividir
O peso do mundo
Com a tua presença

Só me sobraram a memória
As estrelas, e as calçadas, muitas sem vida

Neste ponto, e particularmente neste ponto
O mundo tornava-se muito mais injusto, desigual
E voraz
O peso do mundo aumentava

Eu esquecia meu socialismo libertário
E naquele momento, era só mais um
Mais um reclamão egoísta
Que nem me lembrava mais
Do peso, do peso do mundo

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Das necessidades da Revolução

A revolução precisará de mulheres e homens. De carne e osso, e espírito. Espírito de luta, de revolta, de esperança e amor.

A revolução precisará da liberdade; pois sem ela, tudo estará perdido antes do princípio.

A revolução precisará do acaso, do inesperado; porque mesmo sem deus, é necessário confiar no não controlável.

A revolução precisará da história, mas esta, até hoje, nunca esteve ao lado das revoluções.

A revolução precisará de poetas. Não para escrever sobre ela mesma, por que a única poesia digna de menção é a que se constrói com as próprias mãos.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A arte do desesquecer

Lembrar é fácil. Desesquecer é difícil. Antes que apontem o erro, devo diferenciar. Esquecer pode ser até mais conveniente, mas não funciona.

A arte do desesquecimento nunca foi passada para os ocidentais.

É por isso que todos esquecem. Esquecem e recalcam monstros, alimentam-os no recanto mais escuro de suas almas e inconscientes de sua presença, nos momentos de comoção nacional, quando matam uma menina a pedradas ou um garoto classe média executa a família a golpe de machadinhas e o pilar da falsa normalidade da sociedade parece ruir, conseguem então, por acaso das notícias e dos jornais ensaguentados enxergar o lado obscuro com maior nitidez.

No entanto, desapercebidos de suas próprias constituições psíquicas, o inferno passa a tomar conta do outro e não de si mesmo. Expiando o mal do outro, expia-se o próprio e assim a sociedade cristã e capitalista, termos que para Cristo pareceriam-lhe contraditórios, caso decidisse andar pelas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro ou nos guetos de Gaza, próximo a Hebron, fecha seu próprio ciclo e nega o que sempre existiu em si mesma.

Na verdade, a arte do desesquecimento era uma arte relativamente difundida; e diziam os antigos gritos, que todo ser humano conseguia desesquecer, o que significava, reduzir a um ponto abstrato uma memória concreta e significava literalmente "apagar" e não "esconder".

Há muitas teorias, e não me alongarei sobre nenhuma, mas o desaparecimento do desesquecer se deu segundo os relatos mais confiáveis que tive, em uma tarde de sol forte, num continente que já fora chamado de Australis incógnito pelos mais ambiciosos.

Quando a civilização e as forças reais da coroa britânica chegaram, o evenenamento de crianças e mulheres com Arsênio tornou-se comum e a caça de animais era um diversão secundária comparada a caça de seres humanos. As mulheres violadas e as aldeias queimadas, deram lugar ao sequestro de crianças e ao trabalho semi-servil. Era Deus chegando ao lugar, na presença da senhora majestade da Inglaterra. Contudo, um velho aborígene, o mais velho ancião da tribo, resolveu guardar o maior segredo daquele continente perdido num vaso de barro.

Enquanto um grupo de britânicos, fuzilava os homens e pisoteava as mulheres, o velho escondeu o desesquecimento, para que nenhum britânico revelasse aquela arte para o restante do globo...

E mesmo que todos tentassem esquecer aquelas atrocidades, elas ainda ficariam guardadas num lado escuro, dentro de todos nós.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Miguéis

Miguel gostava de transbordar todo singular em plural.

Quando lhe desejavam boa noite, ele respondia, boas noites, por que uma noite boa, não é de modo algum, suficiente para uma vida toda.

Seus amigos já conheciam esta obsessão, e não o incomodavam mais; decerto estranhavam, quando ao no final das conversas, diziam "vá com deus", Miguel os corrigia, por que um deus só, nunca é suficiente; e era melhor ter a proteção de vários, para agradar todas as religiões, mesmo as panteístas.

Para alguns, Miguel aparentaria ser um sistêmico, mas quando sentava no bar, jamais se contentava em pedir uma cerveja, quando diziam, "traz uma cerveja" aos garçons, ele imediatamente os corrigia, e aí a noite acabava como sempre, estatelada na singularidade de seus amigos e na pluralidade de Miguel.

Uma vez num comício quase apanhou; político safado não; políticos safados; e foi o suficiente para arrancar aplausos populares, latas voando e pescotapas de leões de chácara contratados por excusos e distintos candidatos.

Era tão polêmico quão, quando em sua habitual conversa de esquina com seus amigos, afirmava que não havia um ser humano e sim seres humanos.

Miguel e sua pluralidade, era motivo, digo, motivos de discussões, mas permanecia sobretudo singular quando lhe afirmavam que "tinham que lutar sozinhos por uma vida melhor para si", e aí afirmava sem vacilos, que tínhamos que lutar juntos por vidas melhores para todos."


sábado, 26 de abril de 2008

Diferença

Gil queria ser diferente. Tornou-se igual à Roberto.

Roberto apreciava bandas britânicas e gostava de usar roupas com losangos vermelhos.

Roberto era igual a todo mundo, nunca desejou ser diferente. Seu mundo era Júlia, Ricardo e Elaine. Júlia, Ricardo e Elaine também gostavam de losangos vermelhos e bandas britânicas.

Gil agora, fazia parte do time; dos diferentes.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Passivo espectador

Meu quarto, geladeira e fogão podem até não produzir minhas idéias.

Mas que me dão tranquilidade para parí-las isto sim dão. E como.

E como bastante, há noite, claro...

Desta tranquilidade podem vir as coisas mais abstratas, absurdas, abscenas; posso a partir daí simplesmente me acomodar com o controle nas mãos; o da tv, não da vida e por fim renunciar aos problemas com um toque de teclas.

Acessar a informação com um clique e descobrir por exemplo, que a abscena é um dos neologismos possíveis de serem gerados a partir do casamento do senhor obsceno com a senhora barriga cheia.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

Endocardite Infecciosa


Quando morri de Endocardite Infecciosa
E que enterro lindo; com flores e lágrimas abundantes...
Perguntaram-me apenas no óbito
Se a doença se escrevia com letra maiúscula ou não.

O desleixado

Não queria beber mas acabei bebendo.

Não queria sofrer mas acabei sofrendo.

Não queria pegar o ônibus errado, mas acabei pegando.

Não queria voltar pra casa sóbrio e acabei voltando.

Não queria fazer listas do que eu não queria fazer.

E eu consigo sentir apenas a minha respiração?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Idéias na madrugada

As idéias fervilham e me mantém acordado às quatro da manhã. Lembro-me de uma discussão típica dos cursos de graduação: A idéia é determinada pelas condições econômicas? Ou subsiste independente destas?

Enquanto procuram o ovo ou a galinha, eu me sinto um privilegiado, por que ser acordado por idéias ainda é muito melhor do que pela fome.

Perguntas aos socialistas - parte I

Perguntei aos meus amigos socialistas, por que eles lutavam.

- Porque é a coisa certa a se fazer.

- Por que sem isto não viveria tranquilamente.

- Por que esta forma de organização social está profundamente equivocada.

- Por que entre o conformismo generalizado e a luta, escolhi a segunda.

Perguntei aos meus amigos socialistas, o que fariam depois da revolução, caso pudessem vivenciá-la e no mais geral respondiam: - Nunca parei para pensar nisto.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A assembléia I

Gastão falava com emoção. A sinceridade brilhava nos seus olhos, nos seus gestos, em sua voz. O chão de cimento batido, crespo abrigava o povo sentado, reunido; era sua vez de falar e todos ouviam com atenção. Fora das frágeis paredes de madeira, chuva, ladeira e ruas e vielas escuras: um bairro abandonado pelo deus das missas e das hipocrisias de final de semana, fazia frio, e aqueles homens e mulheres ali, debatendo.

- É preciso que nos organizemos companheiros. Um passo após o outro; e em breve uma longa jornada.

Não acreditavam em partidos; seus políticos eram alvos dos intervalos e das piadas. Marcaram outra assembléia, nos apertos de mão, esperança.

Todos ouviam Gastão com atenção, por que acreditavam em si próprios e era sua vez de falar.

As ruas do centro da cidade - II

O tédio invade a face infantil de um filho de um vendedor ambulante. Sobre a banca, frutas, legumes e esperança. Há um aroma de carinho, em torno das frutas e da relação entre pai e filho. A cidade é paisagem, e aquela cena, a moldura.

Ninguém presta atenção nas molduras.