sábado, 5 de abril de 2008

Tudo é quente em Nurenberg

Havia pedaços de papéis espalhados sobre a mesa, alguém andara brincando com alguma tesoura, ou enviando cartas-ameaças anônimas para alguém. Sobrava insônia e faltava prazer, como denunciavam as pilhas de livros não-lidos, as folhas e folhas corridas meio-dobradas, meio jogadas, que ele teria de revisar. Quem mandou. Ser escritor não é fácil. Um escritor simplório e medíocre, pior ainda. Ocupar-se de revisões e outras burocracias linguísticas não era muito o que sonhara para si, mas era o que tinha de mais concreto naquele momento. E por um breve instante, resolvera abandonar o concreto de suas obrigações para tentar dormir, em vão. Acordado, seria mais útil reconstruindo o concreto, mas preferiu ficar no abstrato e tentou(ensaiou), uns contos concretistas que sua inconsciência guardara dentro de si durante duas semanas.

A maioria calava-se. Alguns poucos, diziam que escrevia muito. E menos ainda, elogiavam. Kafka morreu pobre, Jesus foi crucificado e uns outros tantos, faleceram com tuberculose.

O mal da vez era a dengue hemorrágica, nem de doenças literárias podia morrer. Estava malfadado ao sucesso neste sentido. E que bom...

Assim poderia repetir fórmulas gastas, reinventar neologismos inacabados, e reunir setenta e seis palavras num domingo à noite repleto de nostalgia.

Fazia parte. E ele sabia que seu único remédio(além do álcool), era catarsiar-se, destrinchar-se, cortar nervo por nervo, alimentar com sangue, suor, com tesão e ataques aleatórios no sistema nervoso, as letras. Letras sim, geridas num útero de angústia, e para angústia mal-curada receita-se escrever de cinco a seis vezes por quinzena; abandonando os solstícios, que são datas específicamente relevantes para falsos ensaios acadêmicos.

No outono pediam-lhe mais vigor. No verão, enchiam-lhe de desprezo. Fazia parte da vitrine. E uma vitrine tosca; parecia mais calmo. Não sabia realmente se pelos dois dedos de whisky, ou pela escrita intempestuosa e libertina que se permitiu a fazer às quatro e seis da manhã.

Xingava e falava sozinho, com seus cigarros e com seu cinzeiro; abafava o grito endossado pelas linhas pretéritas com a tensão de suas próprias reservas. As reservas impostas à escrita, incentivavam-o a escrever sem reservas. Plagiador do bom não se nota.

E passa assim. Desapercebido, como uma esquina de carros virados em algum maio de Paris.

Resolveu imprimir uma apostila aos poucos, lia todos os dias antes de dormir. Imprimia algumas páginas, lia um pouco, dormia. No dia seguinte, fazia a mesma coisa. Era como cozinhar. Nunca sabia realmente qual era o diâmetro exato de sua fome; por letras ou por alimento.

Então, pensava, hoje serão dez, amanhã talvez vinte. Às vezes lia noventa por cento. Mas frequentemente ia até o final; odiava desperdícios. Desperdícios de letras, de poemas, de recursos, e principalmente de afetos.

Era sim um balde de afeto desperdiçado. Normalmente desperdiçava pela amanhã. Quando acordava, jogava as duas mãos para os lados, como em um movimento pendular de um relógio. E a cama, prostava-se vazia. Vazia.

E ele não ligava. Apenas ria. Era um ritual engraçado. E sentia graça mesmo. Chegava a rir de si mesmo. E ele lá. Cá dizia. Cheio de afeto e amor para dar. Rimando só para se sentir mais importante.

E nada acontecia. Então, era afeto desperdiçado. E ria novamente, só para ter a certeza de que não perdera o bom humor; e sim, isto sim não tinha desperdiçado.

Às vezes fazia-se de sério, ou jurava a si mesmo que seu estado civil era: desinteressado. Mas a quem iria mentir? A si mesmo? Sim. E desta vez, com convicção. Pois sabia que uma mentira repetida mil vezes, virava verdade. Paráfrase aludida aos malditos nazistas. Que repetiam jargões, incessantemente e convenceram metade do mundo, com panzers e canhões diga-se de passagem.

Não sabia bem por que incluiu os nazistas no texto. Mas logo após, num instante tão curto como uma vírgula, recordou-se vívidamente: pela manhã, sim, aconteceu pela manhã, pois sim, escritores amadores acordam cedo de vez em quando, pela manhã ele já não suportava a si mesmo quanto mais o mundo.

Mas o mundo, o mundo ao seu redor(e os malditos nazistas), movia-se frenéticamente. Num desses flancos, em que a dignidade e o cinismo insistem em conviver juntos, esbarra com uma mulher, mãe e negra, segurando carinhosamente seu filho no colo, o mundo parecia não existir ao seu redor; estava sentada num meio fio sujo, numa rua suja, ao lado de pessoas limpas(sujas).

Nazistas...

Faz frio em Nurenberg. No Rio de Janeiro tudo é quente, exceto Nurenberg.

No tribunal de Nurenberg, a palavra era: diga que cumpriu ordens.

Na av. presidente vargas, são mais econômicos. Falam apenas com o corpo.

O mundo não fala. Está calado, vencido, perdeu a si próprio em seu próprio Füher mercado. E ainda havia amor. Diante da pobreza. Havia amor, de uma mãe, para um filho. Sim, havia amor, cercado, sufocado no entorno do tribunal de Nurenberg.

O fato é que este falso poeta despejou algumas lágrimas no canto esquerdo do olho e do ônibus...

Era um completo louco. Seu doido varrido! Quem chora por desconhecidos às dez da manhã?!

Pois é!

Um comentário:

Castor disse...

Gostei, Durden! Keep writing.

\o