sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Quando começaram a lhe deixar em paz

A cidade era a mesma de sempre. E isso já o deixava angustiado o suficiente para se permitir uma mudança. Habitualmente lhe traziam sempre uma demanda muito acima do que podemos chamar de normalidade, de problemas, problemas que não eram seus. Vez ou outra chovia, vez ou outra fazia sol, e entre as mudanças, surgiam esses problemas, dilemas, impecilhos internos, que não eram por suposto seus.

Disso decorriam algumas hipóteses iniciais não necessáriamente complementares nem excludentes que ele vinha por formular já há alguns meses, entre uma chícara de café adoçado e o balançar leve e tedioso do vagão do metrô . A primeira era que podiam o considerar um bom formulador de soluções, sua clareza convencia ou indicava as pessoas algum ponto de resolução.

Na verdade era mero discurso, ou melhor, firmeza no discurso, que transformava coisas idiotas ou filosofias de botequim em verdadeiras máximas morais. Esta clareza, convertia-o em um pólo aglutinador, um ponto de apoio de ajuda para resolução de problemas, não os dele é claro, estes nunca conseguia resolver.

A segunda hipótese era a de que seu espírito, já tão acostumado a flutuar sobre terrenas realidades, desprendendo-se de suas próprias dificuldades pessoais, e abandonando um pouco de ego, travando-se perto de um altruísmo não tão objetivo, mas por ocasião desse desprendimento, dessa terrível situação em ater-se a macro soluções e a idéias(adorava idéias) conseguia suportar alguns problemas alheios, já que os seus já tinha préviamente resolvido por meio da limitação prévia de objetivos puramente pessoais.

A última hipótese era mais simples, talvez conseguisse escutar mais do que a regra geral conseguia, e por fim, numa sociedade mecanizada, automatizada, um diálogo é na verdade uma conversa com os próprios complexos de personalidade autônomos que cada um carrega dentro de si.

Entender isso é a principal regra para conseguir viver em uma sociedade pós-industrial. Veja o exemplo da tecnologia ele observava. As intimidades, as confissões, as revelações, adotam o espaço do privado no meio público que é a tecnologia das redes de comunicação.

Não iria perder-se elucubrando novas teorias. Já havia papel demais produzido pela academia, pela inteligentsia das famintas universidades, antros de simulações e realizações pessoais.

Não queria, na verdade, em grande parte da vida nunca quis, a rotina do consumo. De que valeria sua pobre vida se vivesse para adquirir uma certa cota de consumo mensal. Não perderia muito tempo para construir essa cota, não fazia sentido perder grande parte de seu tempo, de sua vida para conseguir atingir esta cota mensal, ao qual chamam carinhosamente de "carreira".

Os problemas continuavam chegando, vez ou outra ele não suportava a imensa quantidade, vez ou outra tudo mudava, e quando tudo muda há um cheiro de mágica no ar.

As coisas começaram a ficar silenciosas, as pessoas começaram a sumir, e os problemas desapareceram e ele teve de se enfrentar, teve de olhar para o fundo de seus próprios abismos por que não sobrara muita coisa para fazer. Compreendia que o movimento e o não-movimento tem enfim, um sentido intríseco, o agir e o não-agir estão inevitávelmente interligados.

A presença e a ausência não são oponentes, mas sim companheiras de jornada....

Ele agora compreendiam por que o deixavam em paz. Por que tudo ficara mais silencioso e por que caminhava pela praia, a noite, esbarrando nas partículas de rocha(outrora estrelas - pó de estrelas) constituindo-se em meio àquela desintregração. Não obstante o desejo de permanecer tão perto, entendia o porquê do sentir tanta saudade.

Um comentário:

Raphael m. disse...

Brilhante! Simplesmente Brilhante!
É impressionante como as vezes precisamos que alguem nos explique o que pensamos, mesmo que inconsientemente.