quinta-feira, 14 de junho de 2007

Da inteligência do cotidiano

Já faziam três dias que ele não conseguia sonhar direito. Muito menos dormir. Levantou da cama e tateou a mesinha de mogno. Achou as chaves da casa e duas latas de cerveja antes de pegar os cigarros. Sentou na cama, sacou o isqueiro e acendeu-os vislumbrando a janela. Pensou o quão suja estava, e o quão suja era toda aquela pós-modernidade pútrida que o visitava naquele ambiente tão falseado. O mundo não era tão pós-moderno assim. Bastava acordar às sete da manhã e ir comprar pão, que veria o quão clássico era tudo aquilo. Os sorrisos, o padeiro, as notas amassadas no caixa. Não havia muitos cigarros, nem músicas demodé e nem musas de cabelos vermelhos comprando pão naquele horário.

Mas ainda eram 3:40. Mais um sonho incompleto. Pegou a chave e ficou rodando-a, ignorando o tempo, a situação desconfortável. Resolveu levantar e tomar uma cerveja; fudido, fudido e meio, refletiu. Abriu o frigobar, pegou a penúltima lata, pensou que teria de comprar mais cervejas amanhã. Malditos supermercados, suas filas, seu ambiente de neón, sua maldita assepsia. Ambientes de plástico que não o agradavam. A imperfeição é parte do desastre, por que contê-la? Deixe que o caos fale por si e será agradável de certa forma.

Levantou e abriu a janela, que emitiu um ruído que lhe era agradável, talvez por isso não tenha pensado em ajeitar tudo aquilo. Debruçou-se e prosperou a fumar. Gostava da idéia de fazer situações absurdas em momento semânticamente contrários.

A rua estava vazia... mas havia um vulto esgueirando-se por entre as lixeiras da "Bread & Milk". Sim era uma padaria latino-americana. Americanizada. Ou melhor estadosunidensezada. Tudo igual.

Vestia um gorro engraçado, que lhe tapava as orelhas mas deixava seu cabelo grisalho à mostra.

O vulto fuçava algumas latas de lixo, mexia algo no bolso que Vasili não conseguia enxergar.

Continuou a observar a criatura noturna, e por um momento uma identificação fortíssima lhe acometeu: eram irmãos gemêos da mesma desgraça, em graus diferentes é claro.

"Ainda tenho minha cerveja, uma cama, e um quarto sujo, aliás essa mesa de mogno é um insulto. E esse quarto fede a mofo. " Pensou. Mas não posso trocá-la! Seria uma heresia com meu dia anti-pós-moderno(parecia bêbado).

E o que ele tem? Somos dois fudidos em graus diferentes. O mesmo mecanismo. É uma porra de um suicídio coletivo.

Tragava o cigarro e observava o homem remexer as latas de lixo, as caixas de papelão...

Talvez ele tenha sorte.

Não se sabe por que impulso, resolveu assobiar. O homem demorou a perceber o assobio. Tateou suas caixas de papelão como se ignorasse a suposta afronta. Por um momento demonstrou despreocupação e até mesmo ignorância perceptiva sobre o local exato do princípio do assobio.

Após a segunda ou terceira tragada do cigarro, surpreendentemente, caminhou com as mãos para dentro do paletó marrom, sim era marrom e agora dava para ver nítidamente um dos bolsos rasgados, poídos, e pegou uma outra caixa. Do outro lado da rua. Do lado do apart-hotel-pulgueiro em que Vasili encontrava-se instalado, e jogou uma guimba na calçada e olhando para baixo para enxergar o andarilho.

Deve estar pensando que estou querendo repreendê-lo...

Saiu da janela... Pegou mais uns cigarros, colocou no bolso, remexeu embaixo da cama a procura daquela garrafa de vodka russa que Anatole comprara no duty-free shopping em sua viagem, meio burguês, é verdade. Contradições. Parte da modernidade.

Abriu sua porta, o prédio calava-se, desceu as escadas rápidamente, estava frio, era um acaso estar de casaco. Abriu a porta... Caminhou até o portão destravou a fechadura... saiu... acendeu o cigarro... o homem ainda mexia nas caixas de papelão, desta vez num ritmo frenético, quase um trabalho fabril, de desmontar e guardar os pedaços num carrinho de supermercado enferrujado, do qual Vasili não tomara conhecimento desde a primeira visão.

Gaijin. Comentou alto.

Os olhos do andarilho fixaram-se com prontidão na figura de Vasili. Com uma ênfase especial na garrafa de vodka. Bebe comigo?

Ele continou caminhando no ritmo desmonte-caixa / encha o carrinho. Contudo por um momento interrompeu bruscamente a dança e resolveu encarar Vasili. Vodka?

Sim, Vodka.

Tem um cigarro? Perguntou.

Claro, tome, respondeu Vasili.

Está frio, resmungou acendendo o cigarro no isqueiro de metal de Vasili.

Sim... Frio... Mas não é como na Rússia...

Você é russo?

Não... Quer dizer... meio eslavo...

O homem riu. Uma risada roca, a simpatia brilhava nos seus olhos. Era uma boa companhia. Definitivamente uma boa companhia. Sua intuição falava assim e Vasili seguia sua intuição, por que normalmente dava certo.

Você mora aqui?

Moro por enquanto. Essa merda é um pulgueiro.

Ah rapaz, dá um pulo na sé. Lá tem pulgueiros melhores que esse.

Riu novamente... Um sorriso amarelo e uma risada rouca, forte, que abafava Vasili.

Sentaram e começaram a falar do mercado do papelão. Ele vendia, percorria a cidade, vendia, percorria a cidade. Era um ciclo eterno. Fabril. Da sua família, dos problemas, GRANDES problemas. Do governo, da polícia, da repressão, dos golpes, dos amigos mortos. Das drogas. As drogas da pós-modernidade.

Vasili ao contrário falara da ruiva metade do tempo, quão pequeneníssimo burguês tinha se tornado. Partes diferentes e semelhantes de um mesmo problema. No início achou que Gérson só queria a vodka russa. Mas ele era tão atencioso que o desconcertou; acabou que Vasili lhe deu cigarros e algum dinheiro para o almoço de amanhã.

Seus problemas lhe pareciam tão pequenos. Ínfimos. Existiam, mas eram pequenos.

Você tem problemas maiores que eu. Pensou. Não falou. Era óbvio demais. Falar... nem pensar!

Fumaram alguns cigarros. Não vá se perder por aí, apontou Vasili.

Pode deixar. E olha só Vazilo, tudo tem um propósito, quando não tem a gente inventa um cara...

Vasili gargalhou antes de fechar a portaria, e subiu as escadas. Caminhou até o apartamento, escutando o ranger das rodas do velho carrinho enferrujado de compras de Gérson, o "Fuligem". Gérson-fuligem... Parte das cinzas, parte deste mundinho pós-moderno, que tanto os nega, que tanto nos nega, afirmou.

Abriu a porta de casa(se é que poderia se chamar aquele little chiqueiro de casa) e fechou a janela, Gérson já tinha desaparecido na fuligem da noite. O pós-modernismo foi com ele. Teoria não há com barriga vazia, pensou.

E quando não houver um propósito. Invente um.

Um comentário:

Juliana disse...

"Teoria não há com barriga vazia, pensou."
Lembrei do Barão...
=*