terça-feira, 26 de junho de 2007

Da Reader Digest Colections

"A insônia pode ter causas orgânicas e psíquicas. Pesquisas apontam a produção inadequada de serotonina pelo organismo e o estresse provocado pelo desgaste quotidiano ou por situações-limite como causas mais importantes."

-Há. Fala sério. Onde está lendo isto?

- Numa reader digest.. seleções...

- Reader digest! É claro...! Este tipo de lixo é vendido em clínicas de eutanásia e assinada por aspirantes a suicidas... você deveria se envergonhar...

- Isso é muito consolador. Você já tomou chá preto?

- Chá-preto? Em uma semana ruim. Achei que conseguiria trocar a vodka por essa bosta, mas não foi possível a longo prazo, expirou Vasili a fumaça.

Enquanto a ruiva ia marcando o jogo de palavras cruzadas sob a luz furtada que iluminava o carpete da mesa de sinuca, Vasili ia simulando aproximações sinuosas, tomava tragos de cerveja, e parecia rabugento, mas estava feliz por passar aquele final de semana com a ruiva, esbanjando serotonina, trocando suor, saliva, e deixando-se seduzir por toda a imagem de vida selvagem e uma "freak" cidadania urbana que ambos se esmeraravam a construir.

Tempos bons.

Sentado no sofá, pensava que não havia muito sentido em permanecer por mais tempo na espelunca que ele chamava de lar, de templo.

A ruiva se foi. Eu já encomendei meu recomeço, e parte deste lugar está infestado de pó de estrela vermelho. Não é justo.

O fantasma da ruiva ainda caminhava por entre os quartos, enquanto Vasili lutava para não deixar a idade mascarar sua covardia.

- Você é auto-destrutivo.

-O que disse
Anatole?

- Auto-destrutivo. Não como um masoquista. Mas você clama por auto-destruição.

-Sério
? Perguntou nos dias de melhores ingenuidades.

-Sério.

Anatole, profuso e confuso Anatole, mestre das retiradas estratégicas, fundamentalmente uma boa companhia, mas um homem que não sabia usar pontos e vírgulas, ou era muito seco ou demasiadamente esquivo, normalmente contrariando o que a situação exigia, certamente.

-Estou com problemas de respiração Vasili.

-Como assim? Rinite?

- Não sei, não consegui entrar no banco semana passada. Travei na porta giratória. Passei mal. Não foi algo como a claustrofobia, por que mesmo após caminhar uns 50 metros até a estação do metrô, eu não consegui parar de respirar.

- Fume charutos. Resolverão seu problema.

Foi grosseiro o comentário dos charutos, mas eu estava tentando animar o velho "Tole". Ele ria das piores situações. Por que chegaria a fazer como a ruiva, sumir
?

Sinto saudades daquele puto.

Sinto amplas saudades como o mesmo brincava com a ruiva. Era um trio perfeito. Mas por que diabos ele resolveu amá-la. Eram problemas demais. A situação não permitia naquele momento um maldito caso de amor livre. Era arriscado e perigoso demais.

Um karma. Nós tentamos Tole... tentamos...

Abriu a geladeira, só haviam cervejas, uma tônica pela metade e umas maçãs desintegrando-se na gaveta inferior.

- Pela metade. Você faz as coisas pela metade Anatole.

- E o que isso tem haver com ser auto-destrutivo me diga
?

Ah... tem haver, escapou Vasili usando o abridor com destreza. Você não se formou, jamais terminou nenhum de seus, quantos mesmo
?, treze livros?, e além de tudo escuta meus cds de jazz pela metade.

Isso não é verdade... russo maldito.., protestou Anatole, com um pseudo-banho de cerveja no casaco marrom de Vasili.

- Sabe Anatole...

- Diz merda.

- A vida é algo muito esquisito. Um grande banco de dados de clichês.

- Aliás, pegue outra cerveja que hoje eu vou tentar dormir.

- Eu juro. Pensar enloquece.


2 comentários:

Rodrigo disse...
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Mr. Durden Poulain disse...
Este comentário foi removido pelo autor.