sábado, 4 de agosto de 2007

Menta com hortelã


Ela queria vingança. E ia buscar parte do queria naquela noite chuvosa. Chuva irritante. A obrigava conversar consigo mesma. E odiava ter que se confrontar.

Ele desejou paz. Apesar do dia nublado, da chuva, e da lama na perna esquerda da calça jeans terem lhe tirado o humor.

Acendeu um cigarro, tragou uma, duas, três decepções, mas ela não conseguia esquecer.

Azar o seu.

Era assim que falavam os niilistas. Era claro que o azar era seu. Pessoal e intransferível, como os cartões de crédito. Azar e cartões de créditos: analogias baratas, totalmente apropriadas para um domingo a noite.

Costumava intrigar-se como as letras formavam palavras e como estas se articulavam às frases. Frases que teciam metáforas, redações frustradas, recados, cartas de amor, textos acadêmicos e todo o lixo semiótico que costumava ler.

Ele foi beber cervejas. Estava gelada. Estúpidamente bebeu as cervejas geladas.

Era tudo muito estúpido mesmo. Copos vazios, cervejas cheias, um pouco do tudo inacabado, liberdade, caos, libertinagem.

E lá estava ela, rompendo padrões: vagabunda, puta, piranha! Que gente racista. Preconceituosa. Ela enfrentava os padrões com os dentes! Jogava cartas com os pré-conceitos. Queimava os dogmas junto com as cinzas dos cigarros! E ainda assim sentia frio, medo, frio. Era uma pessoa comum. Frágil e comum. Indiferente e concentrada.

Ele costumava escrever as derrotas. Ela costumava ignorá-las.

Ele bebia whisky sem gelo. Ela, menta com hortelã.

Ambos sorriam quando alguém citava Almodóvar. Ninguém achava graça. E nenhum dos dois sabia o porquê.

Ele andava de bicicleta. Tinha sido roubado.

Ela de carro, assaltada por Pm's na 25 de março.

Juntavam os cacos uma vez por mês e resolviam deixar o caos se instalar. Não funcionava.

Acabavam na cama, depois de quatro doses de martini gelado.


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