terça-feira, 24 de março de 2009

Apartado

Por que a cama vazia
Ainda possui um corpo
E um coração de lados opostos?

Por que o café da manhã
Traz açúcar e cordialidade
E a noite um metrô cheio?

Perguntaram-me como estou?
Ou ratificam à si mesmos,
Seus humores, e suas respostas?

sábado, 21 de março de 2009

22:18

Por que dez e dezessete e um relógio cego
Não calam o vento da rua?

E os bebês que não se olham
Vivem juntos ou brincam
Num aquário?

E o poema que não rima
Namora atenienses ou xinga espartanos?

Invadiram-te, e também a inglaterra

Este canteiro que é da rua
Mata o circo ou o carnaval?

As coisas que não se encontram
Vivem juntas ou desenham só
Os corações?

Os jutos que falam com velas
E as gavetas que nunca oram?
São atéias ou são alheias?

sexta-feira, 20 de março de 2009

Bibliotecas Afetivas

Você não entendeu, mas se entendesse teria me desperdiçado no terceiro quarto de paralelepípedo.

Quando a sua emoção transbordou, junto com o café, com a casa, que se desmanchava quando os tijolos derretiam toda vez que você chorava, precisávamos comprar casas, emoções e tijolos novos. E algo irrompia. Sem dó.

Aquele abismo que apelidamos com o mesmo nome de um cachorro que você teve nos idos de 1977, não se acostumava comigo, e toda vez que eu levava o lixo para fora, ou dormia dentro do ônibus de ressaca, ele resolvia me engolir, e além da ressaca, eu perdia duas ou três semanas, Justificarfugindo das trevas, pois o estômago dele era grande. E além de você ter de me encontrar, eu perdia meu emprego, e a situação piorava, por que não haviam vagas de caçadores de abismos abertas por aí.

O seu cabelo era ruivo, mas você sempre insistia nesse seu solipsismo irritante, que eu, eu possuía um daltonismo particular que não chamariam mais de daltonismo em idos de 2072, pois as coisas estavam invertidas, que eu não enxergava a cor negra, nem a amarela, que essas cores eram vistas como ruivo. Talvez fosse verdade. Talvez o mundo estivesse errado.

E e que a vida para mim, era algo meio tenso, devido às cores erradas que a minha retina escolhia.

Eu enxergava em branco, ruivo e negro.

Quando eu me despedi, eu na verdade desejava sumir, como fazia, toda vez que fingia ser uma paisagem, e isto era particularmente fácil, ser paisagem.

E de quando eu conseguia me esgueirar, me esquivar para dentro daquela biblioteca que parecia meu próprio mundo, um mundo decerto mais organizado, no qual me escondia, olhando para a janela, chorando sem ninguém ver, por entre aqueles tijolos, aquele silêncio, onde um ou outro caminhava, onde as estantes e entranhas de ferro, o cheiro de mofo, os ventiladores que não falavam, acabavam me seduzindo, e eu fingia buscar um livro, mas eu buscava era o nada.

A bibliografia era emocional; partida ao meio, escandalosa, afetiva, antiga.

Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum código de barra de bibliotecas, preso na capa, na alma, do livro, no livro, onde eu pudesse definitivamente ler aquele meu manual de instruções, construído pelo deus que eu negava, e pura deliciosa abstração.

E eu me acharia. Eu me acharia, mas na verdade eu me achava quando conseguia não ser observado, quando a solidão dominava o ambiente e eu não ligava nem para os livros, estantes ou homens-estantes que me olhavam, era quando assim, daquela janela suja, que algo não importava, e eu começava verdadeiramente a me tornar uma flecha sem alvo.

Infinitos. E aí, parte dos livros falavam, por milissegundos, e se calavam, e a biblioteca citava aforismas toda vez que eu ia embora, mas ninguém via além de você.

Eu dormia.

Eu era assim ruiva.

Completamente sozinho.

Como um livro mofado, que mesmo na estante, morto entre às traças, foi pego em cinco de março de mil novecentos e setenta e três.

Mesmo sem a bibliotecária, cujo arrependimento falava mais do que todos aqueles nove mil títulos, na noite em que ela escolheu o rosto mais fácil, mesmo assim, o livro partiu, partiu para não voltar.

Partiu no quarto segundo do paralelepípedo passado.

Aquele que já se foi.

Sob uma quinta

O cachorro, com o horóscopo
Do dia dezessete, se identifica?

O solitário que bebe músicas
Nas máquinas de cerveja, esvai-se
Com a espuma ou com os harmônicos?

A dor e o sonho recorrentes
Acabam na segunda ou insistem
Os feriados religiosos?

sábado, 14 de março de 2009

Religião: esperança.

Sob o metrô, andava de um lado ao outro, escondendo o coração do outro lado do peito.

Sob às roupas fingia normalidade, normalidade entre os tons.

Compreendia apenas a linguagem que o traduzia.

Reunido na oposição afeto e cinismo, sentia um medo terrível e profundo, que costumava digerir o equilíbrio de cinco ou seis respirações yogas; e que ainda assim eram totalmente submetíveis à tristeza, um medo da vida.

Quando a paisagem irrompia, podia olhar para os vales, os morros, os prédios e os transeuntes sem olhos, por que eles não pagavam esses olhares gratuitos; mas quando os túneis ou os muros cinzas do subterrâneo do metrô percorriam-no, assim sem pagar passagem, ele era obrigado a olhar cada história de vida, esparramada no banco, com seus trejeitos que não apitavam, mas sob as roupas, fingiam também suas normalidades, apesar de saber que tudo aquilo ali era falso.

Abandonado, esta áspera existência parecia-lhe um caminhar longo e interminável.

Sem propósito.

Desmedida. Descomedida. Abrupta e insensata. Sem sentido.

Ele podia estar errado, mas o dicionário só dava nome à coisas, pois era um analfabeto de emoções.

As coisas, estas, só davam nome às pessoas. E as pessoas, as pessoas eram escravas das coisas.

E ele, ele, este simples; não buscava nada, ele era apanhado, e fingia normalidade, assim; entre os tons... entre as opiniões que o guardavam.

Sua nova religião era a esperança; fingia que não, mas era, e era como todo fiel, um crente que não desistia; e esperava, esperava a ruiva até o fim, até amanhecer assim, com o copo vazio, com a ressaca, com a culpa ou a desesperança enchendo seus pulmões.

Não perdia o amor, a ternura, a esperança; de um alguém que não esquece qual lado se guarda o coração, de qual lado se finge, de qual lado se caminha dentro da normalidade, de alguém que tinha sensibilidade para compreender o que era dito.

Alguém que preferia o silêncio ao amor. O tempo à surpresa. O passado ao ingrato presente.

A peça que pequeno-burguesa não se encaixava e que às vezes um ou outro malicioso, no descanso da rotina e que despertado por medo, justiça ou inveja, a nomeava, cambaleante como uma terça-feira normal, respondia...

Respondia a pergunta feita, e era assim, do jeito calado, vilão ou profeta.

O malicioso de sorriso curto cansava, e ele dormia, ele dormia, ele acordava sem medo, sem palavras. Nem ódio, nem paixão. Nem sorriso, nem cor.

Nem lágrimas tinha.

Era um "ir haver".

Caminhava. Sem propósito, pois o propósito, mesmo oculto, era caminhar, mesmo vilão, mesmo profeta, cuja ternura amanhecida nesse seu rosto de cabelos lisos fazia-o assim, inquilino de um coração, que ficava do outro, do outro lado do peito.

Este, o que não dormia.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Poéticas Perguntas - Vol I

Inspirado pelo "Livro das perguntas" de Pablo Neruda, inauguro o primeiro da série.

O relógio que matou o ponteiro
É sociopata ou ladrão?

O olhar que nega o dinheiro
É o mesmo que assa o pão?

E a justiça, o lucro, o bueiro
Tem cheiro de esterco
Ou de açafrão?

domingo, 1 de março de 2009

Animais eróticos

Tomou banho, e era como se fosse um um orgasmo gratuito, naquele dia quente, quente e perfeito, que escorria tudo o que era ruim pelo ralo, tão curto, apertado.

A ruiva estava num dia ruim, e era esse, era esse o melhor dia para pegá-la com força; pegá-la não, queria devorá-la num quadro de Munch.

Estavam famintos. Enquanto ele tomava banho, ela despia parte da roupa, cantarolando uma música francesa, os pingos no chão do boxe, e ele, com tesão guardado que não fechava no registro do chuveiro.

Ela usava uma roupa que lhe era familiar e que ele já conhecia os atalhos, mas nem por isso removia o inédito daqueles corpos ébrios de desejo.

O lábio dela mirava o lábio dele - com força. Os olhos dela reviravam-se antecipadamente. Ele sentia tesão a cada suspiro, a cada gesto espontâneo, quase apático, mas que ainda guardava naquele ventre, a vontade de unir aqueles desejos tão criminosos num balé de corpos despudorados.

A cerveja esquentava, eles não ligavam.

O quarto simples e seus vassalos, cômoda, cama, telefone diziam: fode ela com força.

Quando ela se espreguiçava com aquele tesão guardado por semanas transbordando com a banheira e a espuma, com o cabelo assim largado, o corpo dele dizia, dizia que iriam se consumir até no inferno.

Aquelas unhas pintadas de vermelho instituíam uma lei: não para, não para nunca, vai até o final seu filho da puta!

A respiração de ambos, aquele ritmo, aqueles urros primevos, aquela dor que ele sentia quando ela arranhava todas as suas costas, e que parecia dizer: estive aqui, eu estive aqui, eu marquei minha história no teu corpo já desgraçado, já usado...

E ela, que não se explicava, mas deixava bailar, ora parecia controlada, mas tudo era um ardil, e eles sabiam bailar neste teatro honesto, onde não haviam censores, onde somente haviam o haver naquele balé dos diabos.

O início era sempre angelical e profundo, onde armavam-se, onde faziam aquele palco de lençóis, respirar por entre os sussurros, as texturas das mãos, dos corpos se roçando, provocando aquele início que fingia inocência, mas que guardava uma maldade erótica que explodia quando o animal guardado dentro de ambos resolvia fugir, quando aqueles dois sexos se encontravam.

E quando eles arfavam e inspiravam o perfume de si próprios, e quando degustavam-se, canibalizando o amor, o afeto, a paixão, o tesão, o sexo que esgotava não no cansaço, mas naquela raiva contida, que tomava conta daquela cama profana, algo acontecia, ou era um urro, um tapa mais firme e descomprometido, uma olhadela por cima daquela timidez deste quarto provinciano.

E aí largavam-se, largavam-se e por alguns momentos, ainda umbrais e dominados por sentimentos antigos e primitivos, como aquele grito dela, cujo abajour destroçado no canto da cama, onde ele jogava-a e carregava ela assim, como um origami desajeitado, resolvia falar, explodir.

Vai, mais perto, mais fundo, mais forte, devagar, com calma, continua, eu te amo, eu te amo, filho da puta, filha da puta.

E um grito, um urro sincero, seguido de um tapa que estalou o recinto, falaram por eles e calava , calava todo o conto.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Carnaval

Enrico e sua vida afetiva
Tornaram-se à força
Um maio de 68

Matemática do Diabo

E o antigo, chamado de velho nos corredores íntimos do não-políticamente correto, observava, e sabia pelo movimento de quadril, ou pela blusa rosa desajeitada, cujo cabelo quase molhado, que cobria parte da alça do soutien, que a ruiva compraria pão, iogurte e mel.

Era uma matemática dos diabos.

E tal fato se repetia, reproduzindo-se, seguindo uma vontade oculta não explicada que não fazia sensualidade naquele corpo antigo, mas que despertava no cotidiano do velho uma sensação contínua de deja vu, esboçada no fim de seus dias, onde a ruiva, tornada ponteiro, ou apenas areia escorrida na ampulheta do cotidiano, colocava-se exposta, sempre num bom dia ou numa conversa trivial na porta daquele mercado curto, curto de interações sociais.

E o pão, o iogurte, e às vezes o cogumelo shitaque, preso num copo de vidro, rendiam mais do que um bom dia, no qual o velho, recostado no único banco sincero daquele hectar, em frente ao mercadinho sem nome, procurava prolongar mais seus oitenta e dois anos bem vividos com a conversa casual e pontualíssima que lhe era costumaz.

E a ruiva, vítima corriqueira e agradável de um sorriso cuja experiência e serenidade já faziam parte das necessidades culinárias do cotidiano e da vida, fazia questão de o agraciar, menos do que a sua história realmente merecia.

E o velho, ou o antigo - digam os justos, agradecia gentilmente aquela que parecia sua filha emigrada para o Canadá, ou na verdade, que justamente se assemelhava, de alguma maneira particular que só o antigo se recordava, de sua querida e eterna amante: esta mulher, Lola, valente e ruiva, que fazia-o viver perante os apocalipses do cotidiano. Que o fazia chorar nas noites de Natal. Aquela memória viva, lacinante, que fez aquele velho sem vida naquele mercado sujo e desigual, lutar nas barricadas da Espanha, que o fez, chorar, quando teve de enterrar Lola Iturbe assassinada pelos franquistas em 1936, onde a terra camponesa e coletivizada que guardava aquele corpo matava também parte de si próprio.

E o taxista, aquele que não tinha nem uma experiência rica e devastadora de uma grande guerra que produzia monstros de carne e osso, ou ou a esperança de uma grande revolução, assistia as guerras da televisão como videogames, onde não existiam Lolas, nem pães, nem iogurtes, e que costumava apenas pensar banalidades que não emigravam nem para a Espanha, nem para o mercado do cotidiano, que se espatifavam e morriam estilhaçadas quando um passageiro resolvia viajar de táxi, encontrava-se largado. Com as mãos e pupilas cansadas, onde a ruiva, a ruiva tornada assim cotidiano, parecia apenas inalcançável e distante como um fundo que não se mexia e ele não adivinhava nem com o movimento da ruiva ou do velho, que seus dias estavam contados.

Os ponteiros passavam, matando o velho nos intervalos da ausência sincera da ruiva, e quando ela fazia-o viver, agradava alguma idéia de encadeamento do destino, perdida no sótão sórdido e oculto de alguém que enxergava a eternidade em outro ponto da cidade que não aquele.

E aí neste ponto exato, mas estúpido, onde as coisas não se encontravam se não por obra de um deus dado pelo nome de acaso, ou no caso atual, desta fabricação quase real das possibilidades, Vasilli encontrava toda a história como num aneurisma de um mundo que se fazia apenas causa-efeito; este encontro secreto, mas agora revelado ao leitor, se deu na noite do dia dezesseis de um mês quente de verão, talvez um fevereiro, mas decerto seria um quase-março, onde ao acender um cigarro, Vasilli, enxergou sem ver, aquele soutien rosa, sob os ombros corajosos daquela ruiva.

No encontro do mundo, pequeno pedaço de algo forçosamente unido, nutriam, o mesmo sentimento de perda, e desconheciam, que cada um, taxista, Vasilli, o antigo e a ruiva, constituíam-se num encontro revelado que desabrochava frente à uma única cor e onde todos fingiam, mas mesmo sem par, a necessidade fazia e impelia-os a se encontrar.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Depois e durante o carnaval: lembranças

Tudo me lembra ela. E ela nem sabe.

Se soubesse, eu me lembraria pouco, pois estaria tranquilo pela sua lembrança.

Conquanto o amor só traz inquietação, traz em si, cervejas, traz poetas sozinhos, traz assim, um pedaço de mundo completamente perdido, perdido dentro daquilo que não prestava e que sem pistas, deixava sem dúvidas aquilo que era parido, parido e mal esculpido assim; na dúvida.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Na boate

Dançavam e quando faziam, o mundo decidia ruir.

A pista de dança, fútil e silenciosa, assim tão temporária, envergonhava-se no puro silêncio de dois corpos. Dois corpos justos.

Os ruídos e a festa de ambos apagavam pessoas, tornadas meras paisagens desnecessárias, juntavam-se às luzes, luzes que como se fossem candelabros tímidos, celebravam caladas, assim, como num culto de amor próprio em que ambos decidiam-se sem um perdão ir até o final, forjavam um quase sempre curto, e completamente viral naquele balé de expectativas; de esperanças.

Ela, a ruiva, passava as mãos naquele cabelo liso, até oleoso, despretensioso e abusado, mas ele a olhava com um soslaio fingido, sincero, que respirava tão sensualmente; ela acariciava-o sem pressa sob o ritmo frenético do sábado, ele mordia os lóbulos de sua orelha, ela jogava a cabeça e o orgulho para trás, ele beijava todo o seu pescoço, ela pressionava seu ventre ao dele... E tudo era tão bom.

Tão bom.

Ela mordiscava-o com fome, e o obrigava a agir, a sair daquela toca, daquele culto desinteressado, à segurar seu cabelo curto esquecendo aquele niilismo emocional que era na verdade medo, e assim ela gritava no oculto: me pega porra, me suga com tesão, me fode agora com força!

Me puxa sem futuro, sem medo, e deixa essa dor se misturar ao prazer do teu corpo, ao teu cheiro, à tua fronte, ao teu gosto.

Deixa eu gritar um amor de instantes!

Na cama, o lençol apartado jazia ao lado da garrafa vazia, o corpo nu, encontrado entre as paisagens desnecessárias cultuava dois corpos calados.

No final tudo resolvia se encontrar.

A dor, o gozo, as palavras. Que vão remendando tudo, assim, tão abusadas.

O mundo, dizia depois do grito de minerva, era um grande amontoado de coisas, que não existia se pensássemos como um algo coerente e unido. Mas o mundo, e ressaltava após o terceiro gole de cerveja e com os dedos apontados para as nuvens que cobriam o planeta, o mundo, foi dividido, num espólio desigual entre pessoas. Cada um guardava um pedaço de mundo dentro de si; uns recebiam mais pedaços e que guardados sob segredos nem sempre solitários, acabavam por desfrutar mais do que deveriam desse acordo. Uns gastavam mais, outros menos.

Acabava por desfrutar de um instante que era o eterno, aquele instante abusado, explícito, necessário.

Enfatizavam o óbvio.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Enrico e Joana



Era na décima faixa de seu cd preferido que ficava e permanecia bêbado pois era a música que o tocava, e não o inverso.

Era no meio da semana que a casa e ele desorganizavam-se, juntos, com as meias, os medos, os sussuros sem dono e os vazios que insistiam em gritar dentro de si mesmo, reclamando presença.

Era no quarto, e no quarto trecho de conversa que desanimava ou lembrava de uma piada engraçadíssima que não compartilhava com ninguém - ia embora meio bêbado, meio feliz, meio deprimido, com cinco aspirinas no bolso.

Desperdiçava-se dentro do ônibus, com os trocados e as tristezas sendo entregues assim, sem culpa, e esparramadas pelo cotidiano, com sua pequena história de vida vendida à preço barato; o trocador, o motorista, e a mulher semi-nua do banco da terceira fila à esquerda: não se importavam.

A paisagem ia mudando, mas havia uma solução completamente radical: um afago, pois um afago verdadeiro, um de quinze minutos, resolveria tudo.

Resolveria completamente; mas afagos verdadeiros não se compram à metro... Afagos não se vendem à quilo; afagos não são como pombos que sempre retornam ao estado original(...) , afagos sinceros são bilhetes de loteria, moedas marcadas, poesias em livros rasgados...

Afagos verdadeiros, sinceros e honestos são como algo que resolvesse jamais pensar, algo que resolvesse apenas sentir, como árvores, e que definitivamente, por ser um afago sincero, não resolvesse nascer em árvores.

E ele sabia, sabia disto com uma dedicação semi-profissional, sabia, quando fazia a barba no espelho quebrado e cortava-se acidentalmente, e de tão só em um apartamento vazio, completamente vazio, costumava pensar o que ela, desconhecida e oculta, pensaria quando ele se cortasse.... Talvez diria algo ou reagiria, ou resolveria acariciar seus olhos sem alguma fé.

(...)

No canto da casa algo se comovia.

Era na terceira ilusão que resolvia caminhar, sem rumo. Como deus, que resolvesse observar sementes de girassol largadas num terreno pantanoso ou barrento, ela acreditava. E acreditava, a ponto de colocar falsas expectativas, que eram tão verdadeiras a ponto de ela se permitir acreditar naqueles filhos da puta em série.

Filhos da puta. E ela, que mesmo assim, aparentemente desgraçada, dava as boas vindas e convidava-os à perdição... mas quem perdia, e no fim do jogo, era sempre ela, sempre.

Possuía um mundo-homem que não concordava. Possuía um mundo macho, violento, viril e que nos finais de semana fingia empatia e estabilidade, com rosas e cartas de amor encomendadas.

Possuía-se sem se conhecer.

A maquiagem borrada, batom sujo no vidro, ela e a cinta-liga negra dormindo naquele calor infernal, com a cama assim, tão completa e vazia, cuja fé fingia um orgasmo sincero mas não romântico naquele amor de quinze minutos...

E ele, tão homem, que não se comovia e vendido à quilo pelo preço do mercado, ia embora no dia posterior, com o mundo todo sobre seus ombros, com a cinta-liga negra, com o amor de encomenda, com a terceira ilusão e com o que sobrou da expectativa dos afagos sinceros, e desaparecia, com ela na borda, emoldurando o prazer daquele filho da puta egocêntrico e narcísico.

Goza primeiro seu merda!

Ela, que cozinhava e cozinhava-se, e carregava no peito Eros e Thanatos, a vida, o prazer e a morte, na caixinha de música movida à corda, com a bailarina no topo com um imã mal fixado, jurava, jurava que aquela gravidez não era amor, não, não era, e sabia disso naquela noite mal dormida.

Quando parou no espelho para ajeitar os cílios, teve vontade de chorar, botou a culpa nos hormônios e parou, parou assim; completamente honesta.

(...)

Não se conheciam, essas duas almas gêmeas indômitas e indiferentes. Faltava destino, faltava um esbarrão no metrô.

Indiferentes, ele e ela precisavam de sorte para fazerem jus aos seus nomes e expectativas; precisavam de um pouco de destino e um ponto de apoio confortável para que os afagos sinceros pudessem alavancar o mundo.

Bastavam-se, mas precisavam se encontrar. Precisavam se encontrar, como sementes de girassol, sementes jogadas no mundo.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hagiografia de Pecadores - Volume II

Celeste tinha um segredo que ninguém, mas ninguém sabia; até agora.

Entrava à esmo nos enormes prédios do centro da cidade, apesar de ter descoberto recentemente que o centro da cidade não é bem uma zona central, mas fica cada vez mais a leste, toda vez que se pretende chegar nele.

Sob a mágica dos prédios, mirava um andar em particular, consultórios, financeiras, sindicatos ou firmas de construção.

Bela Vista!, que a janela não via; passeava, sorria, fazia personagens, e como se não houvesse vida entre as portas, aquelas que nunca abriu, resolvia voltar. E começava tudo de novo, no próximo dia, até que descobrissem seu segredo, e ela tivesse que recomeçar um novo jogo que alguém ainda não tinha inventado.

Jean enxergava corações em coisas que não se assemelhavam aos corações. Papéis de bala largados que pareciam ter formatos de coração, pinturas que ele mesmo fez, pedras insensíveis e apaixonantes; lá dentro, da sala de aula, ele não se apaixonava por ninguém, apesar de fazer repetidamente numerosos origamis de corações nos dias mais quentes que voavam quando alguém se dispunha a perceber.

Matheus e seu dom enxergavam a beleza das medianas. Olhava aquela de trança, olhos negros, largada.

A que não tinha tanta graça, nem tranças, guardada no canto do ônibus, desajeitada. Aquela outra, mais adiante, a de cabelos loiros, que nem olhos bonitos, nem ônibus possuía para se esconder, a que movia as mãos sem alvo e motivo; que disfarçava o jeito, de jeito a não revelar a ninguém o alguém especial que tinha sido naquele curto momento no universo de Jean, e depois deixado passar, se escondia novamente, assim, com as mãos completamente desajeitadas e nuas...

Numa placa impositiva e infeliz: - Atenção, máquinas trabalhando, quando Santiago mudou-a para o escritório em que trabalhava, ninguém mais riu, além dele próprio.

Valadares era uma pessoa comum, era o que todos diziam e murmuravam para si próprios.

Quando o táxi despencou no abismo sem motivo aparente, os vizinhos reclamaram, mas o que se passava, era que um escritor indignado, teve insônia e só pode combater aquilo com um taxista morto num conto publicado na página dezesseis de um livro de cabeceira que afinal, ninguém nunca lia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Experimentos

Como algo que decidisse, entre um beijo no canto da boca que só afagava o outro e parte de uma viagem de ônibus que pudesse enfim, fazer sentido.

Era sim, era assim. Silêncio Soto Maior! Silêncio!

Acomodado em seu inverno; as orações cotidianas: dormir por sobre a colcha, tomar café sem ninguém ver, sentir sem ser ajudado.

Restava-lhe ser.

Silêncio Soto Maior.




Diálogo de Iguais

É como se o verniz, que há tanto tempo, que usei para me proteger do mundo estivesse saindo aos poucos e que somente nesse momento, pudesse me ver e rever o que fiz.

E desprotegido, perdesse todo dia, um pedaço de mim, cujo revés, me prostrasse entre uma cama de motel vazia ou um café no centro da cidade com pouco açúcar.

Feito em parceria com Rosa

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Das Piores Dores

As piores dores eram as que pairavam por sobre o ar, assim tão ingênuas e covardes, pois nem coragem possuíam para se concretizarem em algo concreto. Nem nos tickets de metrô, nem nas dores que falavam pelos rancores.

Não possuía nem tinha em mãos aquilo que pudesse ser suficientemente apontado numa situação objetiva que despertando ódio ou choro, apenas falasse por si só, assim sem intermediários; e que ao invés de se esconder por detrás de um abismo oculto e covarde dentro de si mesmo resolveria mover o corpo e a alma em direção à uma desistência legítima e que provocasse algum afeto guardado mas verdadeiro.

Mais nem aí, nem na segunda ou terceira situação limítrofe contava com as lágrimas que limpavam o terreno e os olhos, sentimentos, para um novo cultivo; atingir as situações limítrofes não eram tão difíceis, mas chorar por elas tornavam-se cada vez, demasiado raras e ocasionais.

O limítrofe avançava cada vez mais a oeste, e perdido no horizonte que ele esquecia dormindo às quatro da manhã, cujas lágrimas eram diamantes cada vez mais raros, e a dor transformava-se em uma visita banalizada, costumava dizer que algo precisava irromper.

A possessão tomou conta dos sonhos, e em nenhum momento Soto Maior logrou uma ajuda que não se esvaziasse em si mesmo.

Soto Maior, cujas mãos não encontravam mais as lágrimas nem os olhos, cujo cultivo de si próprio, provocou desistências, cortou-a, pelas beiradas, e depois de acabado o intento, queimou-a com um isqueiro, parte por parte...

E assim aquela carta esfarelou-se consigo próprio.

(...)

Amanhã enfrenta o mundo; amanhã, secará lágrimas inexistentes. Amanhã ele buscará mais pontos limítrofes. Estes não bastavam.

E era disto que tinha realmente, medo. Medo.



sábado, 31 de janeiro de 2009

Por curiosidade

O excelente jornal literário "Plástico Bolha", publicou uma poesia bem antiga que eu enviei para apreciação ao referido jornal em seu blog. Confiram.

No jornal impresso de número 23, o "Plástico Bolha" aceitou a publicação do conto Curriculum Vitae, um dos meus primeiros e preferidos; você pode ler o conto aqui, ou baixar o jornal em formato PDF no mesmo site.

E na cidade maravilhosa, calor, chuva, pré-carnaval...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Da humanidade que sobrava

Sobrava-me humanidade no meio das lutas do povo, das causas que eram justas por que se faziam justas, mesmo que não precisassem apelar à justiça.

Mas ainda assim, estava lá, no meio da gente, da multidão, caminhando por motivos justos, mas por dentro faltava-me um algo, que preenchido por aquele todo, justo, fazia-me menos indivíduo e me tornava mais multidão.

E continuava faltando alguma coisa; um toque nas mãos, um cafuné nos cabelos, uma doce troca de olhares que não calava nem quando os cães do estado resolviam atacar.

E assim, minhas pernas seguiam, dentro dos vagões do metrô, cujas páginas andavam junto com a vida e o trilho dos trens, e eu podia ver uma ou duas estrelas brilhantes no céu que se faziam convidadas na janela do meu quarto, justamente naquelas noites em que me sobrava justiça, mas faltava-me tudo.

E pensei, que não haviam multidões, bilhetes ou movimentos políticos suficientes para acabar com aquele injusto ruído.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Jogo de Armar: Da solidão cotidiana

atualizado em 29/01/2008

Havia aquele som, aquele som inaudível e incoerente, cujas vozes famintas, ampliavam-se, mas que completamente imperceptíveis para mim, me faziam sentir, e sentir era algo obscuro ou inédito demais, como em um estado de overdose sânscrita, assim espalhado pelo canto do ônibus ou quando num gesto brusco, sob uma folha largada, cujo desespero secreto e particular impelia ao silêncio, apenas buscava no outro a sua própria imagem.

E assim, demasiadamente empático e largado pelo mundo e o mundo era justamente uma instituição, um aglomerado de gente sem sentido, gente nos ônibus com seus próprios e distintos propósitos e que se definiam por si mesmos; este mundo largado, de gente e de propósitos largados, costumava mover-se, segundo definições ocultas e inexpressivas, peças no tabuleiro misterioso.

Consciosamente a vida cotidiana reproduzia o fato que era mais psicológica do que própriamente metafísica: deus existia; e sempre com ironia.

Desconectado, o meu amor, aquele que nunca nascia de manhã, durante o beijo calado, mas que irrompia sozinho, largado no canto do quarto, entre quatro ou seis latas de cerveja, nascendo sob sua motivação, e que encontrava apenas a mim...

E eu transformava-me sem mudar definitivamente nada. Eu modificava-me, e apenas encontrava um amor sem par, uma paixão sem destinatário, uma flor cujo terreno argiloso, produzia um belo espécime temporal.

Eu amava sozinho.

No ritual medíocre do si-mesmo e cujo soluço permitia uma reflexão, desejava, desejava, com todas as forças que apenas dois sentimentos pudessem apoderar-me do "si próprio", os muito fortes ou os demasiadamente fracos.

Amor e tristeza, espalhados num copo de conhaque num dia de semana normal, pareciam acabar com o fígado, mas sustentavam verdadeiramente era o espírito. E era aí, na terceira golada, que acompanhava a espera, quase interminável, que o espírito forte, e o espírito fraco apresentavam-se: era o espetáculo da possessão.

Eu fingia não sentir absolutamente nada, e enquanto escrevia, algo se modificava, e era necessário suportar todo este peso, absolutamente familiar, mas nem por isso íntimo, pois apresentava-se estranho à mim mesmo em todas suas formas cotidianas. E era o que eu fazia, olhando cartas velhas, abrindo geladeiras novas, bebendo cerveja sem gosto.

Um homem que triste e é só não incomoda, pois decerto algo se ajusta neste parâmetro categorizável, a sociedade compreende a tristeza de ser só e rápidamente há um acordo tácito entre o indivíduo e o corpo social; surgem os amigos, as companhias, o terapeuta ou por fim, os remédios psicoterápicos, mas quando encontramos, e é neste caso específico que os poderes curiosamente não podiam de nenhuma forma me localizar, um homem que ama e é sozinho,(e eu Román Soto Mayor fui o primeiro a ser encontrado neste terrível ponto) tal fato descortina uma exceção perigosa, que compromete todo o sistema encadeado.

Como amar sozinho? Como tornar-se apaixonado sem um objeto de paixão? Se alguém ama a si mesmo, chamaríam-no de narcísico, mas este não é o caso, se fosse verdadeiramente o caso, estaria não encolhido diante do mundo, porquanto se estivesse olhando para a face no lago, amaria-me e desprezaria todo o cotidiano; não era o caso. E poderiam me acusar de não amar ninguém, e se alguém não ama nada nem ninguém, haveria de esconder uma fraqueza, ou uma amargura fixada no canto do olho; mas deste quadro não faço parte, a minha fraqueza decerto era revelar-me, e não esconder sentimento ou idéia nenhuma, coisa que tanto desaprovava.

E amo algo! Amo! Amo um alguém oculto! Algo que oculto faz-me sofrer exatamente por permanecer oculto, mas que ainda por isto, carrega uma febre, um aglomerado de sintomas dos quais não consigo me livrar.

Carrego o sintoma dos apaixonados, enquanto eles amam e deliciam-se no conforto e na segurança que o amor proporciona ao futuro, concretizado por uma mão tenra, um abraço resoluto, um olhar justo, eu cá estou, com os sintomas da febre, incontrolável e voraz, mas sozinho, cuja mesma febre dos que se apaixonam pelo outro, pela outra convivem em mim. Mas cá comigo, descobri da maneira bruta, que amo algo que definitivamente não existe. Não pode ser tocado nem visto. Não está, nunca esteve. Não me aparece, pois não é.

Entre insônias e cigarros acesos, debruçei-me por sobre este problema existencial. Miserável e terrívelmente existencial - homem que ama sem amar, nebulosa contradição, ama sem ver, ama sem ter .

Em um ponto mais adiante, aceitei parte de meu problema e de seus desejos, fiz a respiração baixar, a calma e o silêncio cresceram. A partir daí me viam com mais frequência, no canto do bar, nas filas quase vazias de espetáculos que ninguém queria assistir, ou simplesmente dormindo na última sessão e fila de cadeiras do cinema, vazio.

Espalhado no canto do ônibus, ou deitando bruscamente na cama como quem busca afeto, eu tervigersava, eu caminhava sem sair do mesmo lugar, eu esticava os pés mas não o espírito, eu não me bebia como possível, pois eu tinha desistido. Desistido das mudanças cotidianas, que pareciam todas iguais, do futuro, das possibilidades do inédito, que nunca se apresentavam, e enquanto a desistência me dominava, o ponteiro dos anos acelerou, e a espera tornou-se verdadeiramente um perigoso jogo de armar que me colocavam alguns mais paradigmas insolúveis.

Aceitá-los, implicaria em esperar, aguardar um milagre, um milagre do deus metafísico, e aí sim, poder com justiça e direito, amar com a febre dos ébrios. Recusar os horizontes dos milagres, implicaria em um movimento extremamente cuidadoso e que me posicionava diante do limiar do absurdo e do particular, cuja opção desassistida, era o deus psicológico, que se fazia vivo diante das expectativas, dos desejos, e da esperança alimentada sorriso após sorriso.

Meu nome era Román Soto Maior, o homem que diziam, amava alguém, amava alguém, que mantinha-se oculto.

Meticulosamente envolvido e imbricado pelos meus sentimentos, aguardava uma mudança, um som, um beijo ou aceno que modificasse tudo, mas no meu canto, e um canto que bastava-se tão só, me sobrava apenas um som inaudível e incoerente, um desespero secreto, algo que não se resolvia de imediato, e convertia-se sob meus passos, num delicioso e solitário jogo de armar.