terça-feira, 8 de julho de 2008

Odeie a contra-cultura

Resolvi falar tudo. Não porque merecesse, mas porque alguém, algum dia, tem de fazer o serviço sujo. E falar tudo é fazer o serviço sujo com gosto. É se expor, de luzes acesas, de janela e porta aberta, com um pouco de miséria escondida no canto do quarto e da memória. Dê a cara a tapa, não me siga. Se preciso de uma ou duas cervejas isto é coisa minha, algum reminiscência bukowiskiniana que me afeta em dias de semana e interlúdios de cinismo. Se preciso ressuscitar uma derrota particular, este é meu modo de incitar uma parte de mim a agir.

Falar tudo é abandonar máscaras, é cuspir na cara de si próprio o veneno alheio, é sorrir entre as tragédias com os lábios cortados, e além de tudo é buscar no fundo do espírito uma energia obscura, um lado rejeitado; abortado com gosto de sangue no tempero das etiquetas, enterrado dia após dia, day by day, pela rotina social, merda de rotina social, pela rotina anti-social, merda de rotina anti-social, day by day.

Cansei de igrejas. A contra-cultura estúpida, que como o próprio nome já diz, tentou ser sombra e acabou virando luz, uma luz que cega, uma nova religião inerte, com seus santos, suas rezas, seus dogmas, sua pútrida hierarquia, escondida entre alargadores, padrões morais do século XVI e jaquetas de arrebite retórico, promoveu uma caça às bruxas, promoveu uma verdadeira inquisição disfarçada de liberdade.

Odeiem-me nesta parte. O ódio é uma doce projeção, que revela-se no incômodo, maldito incômodo que revela não quem é alvo do ódio, mas quem odeia. Revela e descortina, que a cada movimento de oposição, enterramos um lado obscuro, que de início não reage, mas planta sementes de contradição dentro de nós e se alimenta do outro.

Contra-cultura pérfida, alimenta anjos sagrados, perfeitos, perfeitos, como a curvatura da última tela de Dali, perfeitas como um apartamento decorado em alguma cobertura do aterro do Flamengo. Como crise de consciência vagam e entoam cânticos pseudo-populares, como se isto aplacasse a imensa culpa cristã que sentem por não terem nascido no lado certo. Filhos da classe média, inertes, repletos de brinquedos e possibilidades plásticas, ainda estupidificam o que poderia ser igual, despedaçam a horizontalidade e carregam cruzes, cruzes resplandecentes, símbolos dos despojos dos vencedores.

Plástica cultura. Americanos, ameríndios, norte-americanos travestidos de cidadãos sem pátria!!!

Vigiam e punem comportamentos desviantes. Reproduzem técnicas de disciplinarização; cagam Foucault, mas arrotam e exalam Felipe II. Nichos de mercado, de consumo. Pois idéias são mero consumo.

Não há muito mais a dizer, olhem para si mesmos. Na ordem do discurso, abandonei a importância do autor; o que importa é a idéia. Se eu for julgado como autor, queimem meus textos em praça pública ao lado do terceiro reich.

Prefiro entoar idéias. É um anônimo que vos escreve.

3 comentários:

raphael m. disse...

Porra...
Não tenho nem palavras, você consegue por em palvras que mal consigo pensar sem me perder em mim.
Muito foda mesmo.

Boneca sem manual disse...

uau, acho q vou visitar mais esse lugar.

JH disse...

textaço! palavras maravilhosamente rudes, ríspidas, ácidas. poético soco no estômago.
abs