quarta-feira, 30 de julho de 2008

Impermanente

Retorno simples, ponho-me a disposição da angústia, caminho entrecortado, cindido como um asfalto quebradiço, juntando cacos de lembrança, de saudade, de esperança: sou um passado vazio.

Estou agora, como é raro estar. Estou em um momento curto; uma reflexão, um surto, mas seria demasiado inverídico afirmar minha total permanência. Na verdade sou. Sou o tempo todo, não tenho forças para estar, sou pois não estou, pois estar depreende uma estabilidade que não me pertence, estar necessita ligação, empatia, vigorosos laços com o presente, fato que me é estranho, enérgicamente estranho.

Eu sou, sou e portanto atravesso, não me prendo no momento, no presente, não olho para o futuro; eternamente preso no passado, na experiência do outrém, no factual cuja lembrança é mero vestígio.

Meu presente é um jazigo do passado. Meu passado é vida, vida pretérita, entrecortada, cindida, quebradiça.

Eu sou. Sou um sincero e arruinado vestígio.

2 comentários:

Karina Meireles disse...

Possa crer.. pensei que era realista, mais vc ganhou de mim nesse post, rs..
Mais viver o presente é sempre benéfico!

gostei daqui..

Boneca sem manual disse...

és um clarice-lispectoriano-existencialista e nem sabes...