quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

De quando se fez o primeiro milagre - Parte I e II

Agora que leio, e sinto, entre uma janela fechada ou uma terceira encomenda e carta depositada no destinatário errado, que possuo apesar da incapacidade intríseca de percorrer estações sem me molhar e quando chove a capacidade de andar e amar despretensiosamente pelos paralelepípedos amarelos; uma capacidade incrível de renovar todas e minhas esperanças.

Sim, eu possuo; e como se fosse o azul do céu que não anda tão perdido mas entretanto observa-se com mais exatidão, quando dorme, seja no ponto de ônibus, no metrô, na água salgada que envolve o sono mais profundo, eu prossigo... E caminho, eu caminho e crio esperanças, umas por detrás das outras, como formigas, singelas, e agradáveis, que andam às centenas pelo meu quarto, despretensiosamente ordinárias e felizes.

Não tão especial, eu abandono, abandono-me, abandono-a nos sonhos para resgatá-la na realidade, que se não é tão especial, aparenta pelos acasos, dizer-me algo que as contra-capas e as vaidades e belezas pessoais procuram ocultar.

Flanqueio-a e ela nem vê, mas agora percebo-a, com mais exatidão à princípio, como aguardasse um afago que nunca virá, sem esmero, sem destino, sem naturalidade, cheio de mesóclises irredutíveis e inúteis com suas trouxas inesperadas.

Lembro-me do seu cheiro, da poesia que eu nunca recitei, do encontro que não houve, mas haverá, das flores, da conversa, do futuro, haverá! Lembro-me, lembro-me de tudo o que eu disse.

Lembro-me dos contos e amores inacabados, como se postam e se conservam ao mar.

E lembro das memórias dos sonhos. Da praia que tudo carrega. Do amor que tudo leva. Da paixão que tudo conquista. Do abraço que tudo desmorona.

E aí esqueci de mim mesmo, como uma janela fechada, que por amar despretensiosamente andou às centenas no quarto, e com cheiro de poesia, de naturalidade, fez-se no beijo e na surpresa daquele amor platônico agora concreto, irresistível, porém ainda abstrato. Pois sozinho, lhe cabem esperanças, e da mesma forma de que tudo leva, aqueles olhos ainda haverão de encontrar os seus, que conservados ao mar fizeram-se tão inacabados, sem ela.

[...]

E hoje acordei assim, normal, com vontade de passar o dia costurando sonhos. Peguei tudo o que tinha, um cigarro, meia caixa de fósforo, uma mochila, vergonha e quatro camisas, um caderno verde; saí sem princípios e isto foi até o meio-dia.

Na mesinha de centro o relógio apitava, e não era meu. A geladeira jazia ligada e o fundo da casa, acrescia-se de uma água-furtada, que ligada pelos tijolos e pelas insônias dos anos anteriores faziam dos cômodos pasárgadas.

E ela, ela que nem me lembrou, mas que eu fingi esquecer depois do almoço, na minha imaginação dormia, dormia sob as águas-furtadas que incriminavam metade de mim, cujo esboço feito de esmero e efêmero era pura vodka-estraga-poemas.

E quanto mais eu me deteriorava, podia ver o mundo deteriorando-se. E o mundo deteriorava não só enquanto eu me deteriorava, mas era algo além, pois minha deterioração estava aquém, e sim eu sabia, sabia quando nos piores dias percebia, que mesmo que eu não me deteriorasse haveria algo ou alguém para se acabar no finito do mundo. Pois o mundo se acaba sem mim. E isto era uma tragédia extremamente narcísica... Eu adorava.

A instituição imaginária da sociedade convivia bem consigo mesma, mas eu, parte disto tudo, não me encaixava, e tentava seguir as velhas fórmulas, os antigos esquemas e isto implicava em manter a esperança.

Algo real e concreto começou a germinar, irrompendo as cascas e forçando o solo e as desilusões acomodarem-se sob o novo quadro: a luz, o orvalho perante às cascas, folhas, no céu da verdade empírica e esmagadora dos fatos; fatos que se faziam só, eu nascia ali, na esquina da morte, que não fazia peso, pois era parte do todo e das cinzas do novo, reciclando no final dos finais. Era a morte cotidiana.

Renascia sob o tom da dúvida; o sal e o tempero eram só meus, naquele momento íntimo do paladar, algo meu.

O mundo terminava em mim, era uma fronteira possível mas que odiava o outro em si mesmo, na água-furtada, no poema do outro que feito para mim, me escolhia sem que para isto eu tivesse esmero. Todavia guardara empatia.

E demasiadamente empática, empático, nos assemelhávamos, mesmo assim, largados na avenida ordinária do mundo.

3 comentários:

Tainá da Rua Morgue disse...

com vontade de quero mais

Raphael M. disse...

Parece até que você adivinhou.
Eu estava mesmo precisando ler um texto desse.

PriCosta disse...

Pura sintonia. Esse nao eh como os outros q eu me se desapontava em ler ou entao, talvez, uma nova perspectiva tenha me feito entender. A da mudança. Acho q posso ter, pela primeira vez completamente e ter calçado seus sapatos de forma integral. Até quando existe essa esperamça até entao por mim desconhecida. Obrigada mais 1 vez.