terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Baixa temporada

Baixa temporada é uma merda.

Escrever ansioso é uma merda. Uma bosta. As pernas inquietas, os cigarros que se acumulam no cinzeiro, as batidas secas irritantes na mesa de mogno, tentando pescar um pouco de inspiração.

Mas não, nada acontece, nada. E ele se volta novamente a tela do computador, quando está puto, pega uma velha máquina de escrever e brinca de adeus a contemporaneidade. Tudo em vão.

Falso.

O ambiente plástico da firma, do bairro, do banco, não deixa a enganar; é pós-modernidade sim, cínica, é verdade, e relutante em aceitar que o velho mundo, da escravidão, da pobreza, está presente; mas convenhamos, ela dissimula bem, muito bem.

Estava, continuava, inquieto. Levantava da cadeira, fumava, jogava ela pro alto, andava em círculos, se coçava... Ia beber água. Cadê a maldita cerveja? Quente, no congelador, aguardando talvez a inspiração chegar.

Resolveu abrir os armários, tentar achar, algum escrito velho, não para continuar o texto, não imediatamente, mas tentar resgatar do limbo, uma porção do inconsciente. Até uma dor de cabeça era mais criativa do aquele arremedo de escritor.

Pincelava palavras, apagava-as, brincava com as letras, dançava nas frases e perdia-se nos pontos. Foi abrir a janela, um pouco de ar faria bem; modificaria aquela atmosfera viciada do seu quarto. A madrugada corria, o ventilador de teto incansável, a escrivaninha combalida, a luminária torta, acesa, e ele então resolvera inundar se de recordações, que era o que mais gostava de fazer nessas noites nostálgicas.

Olhou lá pra baixo, a rua vazia, silenciosa, os paralelepípedos mudos, nem um só latido, nem um só suspiro sonoro, tudo na mais tranquila paz, que o herege do apartamento do segundo andar quebrava, mesmo sem atrapalhar ninguém.

Se sua mente flutuasse pelo quarto, subisse e olhasse para a rua, não veria muitos insoníacos, talvez algum cinéfilo descamisado, mas se flutuasse mais, e subisse para contemplar o bairro, encontraria alguns sonâmbulos, deprimidos despertos, alcoólatras, talvez ouviria o som de orgasmos, cerca de quatorze, não necessáriamente nesta mesma ordem. Ao abstrair mais, chegaria a uma cidade, conjunção de bairros tortos, meandros, favelas, morros, precipitações, becos sem ligação, barricadas de tijolos aglomerados, ouviria cheiro de morte, de destruição de lares, e encontraria também opulência, conforto, encontraria uma fila de apartamentos bem iluminados, tão silenciosos quanto sua rua, porteiros educados, luminárias francesas ou belgas, importadas, quadros, comida boa na mesa, patê, patê de algo defumado horroroso em seu processo de produção, mas éticamente viável dentro de uma estrutura de fios vermelhos, azuis, rosas, amarelos, marrons, que se encontravam naquele circuito vivo de cidade,

Com seus próprios mecanismos queimava circuitos específicos, apagava transistores nas ruas, eliminava bits, bytes, o bailé profano e serial do 0 e 1 seguia por entre as avenidas, ruas, viadutos, ligações cinzas-concreto, que jogavam de um lado ao outro mendigos, catadores, meninos que viviam nas ruas, desempregados, marginais de farda, marginais sem farda, e carrascos executores dos bips, das alavancas, dos processos eletrônicos-sociais.

Em algum lugar alguém semeava, plantava um pedaço de vida, em meio ao silício, mas eram bits soltos, inertes, que poderiam ser eliminados pelo algoritmo do sistema principal, dos chips bem organizados. Quando uma infestação de ferrugem corroía o silício, era hora de trocar placas-mães inteiras, de apagar e cortar na própria engrenagem e mesmo assim, manter os videomakers "com vídeos da escrava isaura, vídeos da escrava isaura", regorzijarem-se com os mecanismos da urbe-elétrica-urbe.

5 comentários:

Coiote disse...

eu gostava daquele cinza-frio

Vanessa de Mello Brito disse...

eu gosto de você, Durden.

fique bem

raphael_rfo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Raphael M disse...

Cara não é por nada mais acho que você tá ficando meio paranóico por essa ruiva, em compensação os textos que não são sobre ela estão cada vez melhores.
Espero que não me entenda mal, leio seu blog a anos e sempre adorei, só estou tentando ser sincero.
Abraço!

Mr. Durden Poulain disse...

Concordo meu amigo, mas felizmente não precisarei da inspiração da ruiva por muito tempo se tudo der certo. Tentarei variar um pouco as coisas.