quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Todo desperdício será cobrado

Caminhava pelo centro da cidade tentando captar como aquele curto-circuito frenético respirarava e expirava um pouco de sua liberdade. Vasili procurou dançar todo aquele ritmo de pós-modernidade esquizofrênica que as ruas do centro pareciam exalar, mas definitivamente não conseguia ler mais as faces dos que cruzavam as esquinas emolduradas de gente, multidão, gente.

Era um balé sem sentido, apesar de primoroso nos primeiros atos e um tanto quanto multi-colorido, perdia a graça quando não se podia mais ficar imóvel em tom de platéia.

Caíra em si, quando percebeu que não conseguia acertar os passos certos da música, era melhor que se fizesse cair fora da sonata como uma semi-mínima de bancos de concreto, que prostados em frente à Igreja de São Francisco assumiam que nem mesmo no cimento daquele lugar poderia se confiar para uma pausa meio pseudo-aristocrática, que Vasili costumava realizar, independente da natureza morta que o rodeava, o concreto e o nublado competiam entre si para ver como poderia xerocá-lo entre os demais.

Desviava entre os passos rígidos da multidão, esgueirava-se por entre as teclas do dominó do trabalho e do ritmo incessante das engrenagens cinzas da rotina alheia, quando lhe pareceu a hora correta para fechar aquela conta do banco, que jazia há um certo tempo, só por graça pessoal, há um tempo longínquo que Latsaiev não conseguia lembrar-se.

Entrou como um lampejo de idéia no banco, e Vasili não podia deixar de aproveitar tais lampejos, vagalumes soturnos que lhe faziam falta nas madrugadas dos dias quentes.

Passou na porta giratória, o segurança esboçou um olhar acusador nível 02 pelas suas contas.

- Onde é o fechamento de contas?

- Ali em cima, respondeu o segurança mais calvo.

Dois lances de escada, uma lixeira azul escarlate e um senhor de pasta marrom descendo pelo corrimão esquerdo e voilá, estou no topo.

- É aqui que fecham as contas?, perguntou ao atendente distraído.

- Aguarde ali, pode se sentar por favor.

Sentou-se ao lado de um senhor de barbas brancas nível 02, vestido com suspensórios azuis e adornado por uma boina vinho, que portava uma bengala-ansiosa(repetitiva ela acertava os pés do estofado cinza-marfim provocando um estalo entre o metal e a madeira que agradava Vasili) mal ajambrada, mas que parecia simpática, assim como todo o conjunto do velho em si.

Teve vontade de dizer ao velho o gosto do suco de abacaxi que tomou achando que era caju e como tudo lhe pareceu indiferente naquele momento. Como o caju era o abacaxi e o abacaxi era o caju.

"Tenho que anotar tudo isto".

- Próximo.

-Bom dia.

- Bom dia.

- Desejo fechar minha conta do banco.

O gerente engravatado, devia ter uns 30 anos o filho da puta, deve ser um puto ambicioso, subiu rápido na empresa, tateia o teclado com gozo, espreguiça-se ligeiramente na cadeira, regorzija-se com as canetas esféricas personalizadas. Logotipo do banco, sacia-se com meia dúzia de divisórias beges e um pouco de carpete e ar condicionado. Este homem é um caju que acha que é abacaxi.

Esta sala está cheia. Posso sentir o cheiro do produto de limpeza. Sessenta centavos por litro, algo cítrico.

- Por que o senhor deseja fechar a conta?, recortou o funcionário após dois ou três cliques de caneta.

- Estou desempregado, finalizou Latsaiev.

-Hummm, reproduziu o funcionário medíocramente em tom de lamento.

Vasili teve vontade de rir, de chorar, de apontar para tudo aquilo gritando "você é um grande suco de caju que acha que é abacaxi", ou de até deixar um bilhetinho introspectivo, que o fizesse pensar: "Por que o suco de caju tem gosto de caju?"

Por que? Por que?

Avançou no tempo, transcendeu o tempo e o espaço e chegou no paço imperial: "O mais engraçado, foi a expressão dele. Recontorceu metade do lábio para a esquerda, mas eu não pude deixar de perceber os olhos indiferentes. O filho da puta era um etiqueta humana. É do tipo que apóia o controle de natalidade e assiste um filme do Almodóvar no mesmo final de semana, que puto! Eu gostei dele!

Quando pensou que o papo tinha dado por encerrado, ele estragou tudo:

- Olha o banco não está te cobrando nada por esta conta, tem certeza que quer fechá-la, você está procurando emprego não está? Vai precisar.

- Não obrigado, eu não posso sustentar essa conta. A situação do país está difícil, sabe como é.

- Oh, sim, posso entender.

(desemprego estrutural...) - sussurrou Vasili como resposta entre os lábios.

"Mais uma dessas e eu escrevo o bilhete", sorriu. Assinou. Sorriu. Apertou as mãos(o pulha era realmente bom...), deslizou por entre a porta giratória, e saiu sem saber dançar exatamente os passos certos das ruas do centro.

Um comentário:

Alexandre disse...

hehe Isso tem muita cara de experiência sua.

Muito bem descrito a visão do centro da cidade, a dinâmica própria das "massas" etc. Muito bom. :)