quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Apontamentos sobre o marxismo

Já há algum tempo tenho despertado em mim a intenção de escrever este pequeno ensaio(que ao contrário do marxismo não é um ensaio definitivo, mas uma leve suposição) sobre o marxismo. Dividirei o tema em sub-temas, já que é um esforço considerável tecer considerações que abarquem todo o marxismo. É uma explanação que sem dúvida não abarca determinados posicionamentos(pelo menos a princípio).

Ao contrário do anarquismo, não podemos nos atrever a falar em marxismos. O marxismo ao contrário da diversidade de leituras do anarquismo[1], está baseado óbviamente como o nome exemplifica na figura do filósofo e economista Karl Marx.

Para fins de leitura, substancialmente encaremos a análise sobre o prisma de apenas UM marxismo, já que segundo a visão tradicional do marxismo(a ortodoxa) as distintas visões do marxismo(as heterodoxas) seriam as chamadas visões revisionistas[2].

Portanto, todo ensaio se dará básicamente na crítica deste chamado marxismo ortodoxo, no entanto esta não poderia estar alijada de um sustentáculo de análise sobre a teoria e a prática marxista; na verdade não iremos cindí-la, pois este texto destina-se à fazer uma crítica a aplicação das idéias marxistas tanto como filosofia da história quanto ideologia revolucionária.

O maior erro de alguns marxistas heterodoxos apesar de levarmos em consideração o senso crítico com que estes ousam atacar alguns canônes do marxismo é acreditar que o erro da prática marxista se deriva de uma concepção de leitura equivocada. É até peculiar e extremamente contraditório que consigam ser tão idealistas quando lhe convém, a realidade(refiro me a prática nos movimentos sociais sob a ideologia marxista) seria então fruto desta leitura equivocada do Marx "puro". Na verdade, infelizmente os marxistas heterodoxos são apenas uma exceção que confirmam toda a regra: o marxismo tem graves erros teóricos e metodológicos, o trabalho teórico de Marx está ligado essencialmente à sua prática como revolucionário e por mais que leituras distintas possam tentar transformar a imagem do velho Marx "autoritário" em um Marx supostamente "libertário", recordemos então sob uma análise oportunamente materialista(que aliás move os marxistas): as idéias de Marx são reflexos de suas posturas "reais", nos referimos as posições políticas tomadas por este na Associação Internacional dos Trabalhadores: autoritário, centralizador, profundamente homogeinizante.

O Marx "puro" não existe, o que existe é a aplicação das idéias marxistas aos movimentos sociais e a realidade. É isso que eu entendo como marxismo e é isso que eu irei julgar. Caso existam leituras mais coerentes feitas pelos marxistas heterodoxos, que os mesmos se esforçem como bons materialistas que são, para modificar a realidade do movimento marxista e não suas idéias, se não o termo pejorativo "academicistas" que os trotskystas lhe imprimem, terão total sentido. Mesmo que estejamos falando da leitura teórica aplicada à prática, a teoria de Marx também deve merecer atenção.

Neste momento, ao entender que não há como cindir a prática de Marx de sua idéia, (mesmo que acreditemos que não é a primeira que determina TOTALMENTE a segunda) podemos prosseguir no árduo caminho de iconoclastia que nos impele a derrubar pressupostos, mitos ou santos, sejam eles vermelhos, barbudos ou não.

Os marxistas heterodoxos caberiam um capítulo a parte, vulgarizados como "intelectuais-revisionistas", "pequeno-burgueses", estes encontram-se ou em número ou em vontade suficientemente reduzida para trazer a suposta "visão correta" do marxismo, ou a visão "pura" do velho Marx para dentro do movimento social, pois o que temos em frente é apenas a mesma estrutura autoritária de pensamento e atuação que remonta ao início da I internacional dos Trabalhadores dominado o marxismo como um todo. Estes infelizmente estão mais preocupados em analisar a sociedade capitalista do que modificá-la(como diria Marx os filósofos trataram de interpretar a realidade, agora devem modificá-la).

Seria interessante citar a visão marxista-leninista de dois partidos significativos, o Partido da Causa Operária(PCO) e o PSTU(Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados),ambos de caráter trotskysta sobre os marxistas heterodoxos.

Eis a posição do PCO[3]:
"Um conjunto de intelectuais burgueses, bastante heterogêneo e confuso, que nada tem a ver com a luta da classe operária, são considerados “marxistas” de acordo com as concepções difundidas na universidade: Lúckács, Karl Korch, Escola da Frankfurt (Adorno, M. Horkheimer, E. Fromm, Marcuse, W. Benjamin, Habermas), Sartre, Althusser. São intelectuais profissionais, cuja atividade política foi quase nenhuma ou exatamente nenhuma. São na maioria intelectuais burgueses, acadêmicos de universidade."

"As idéias do pseudo-marxismo ocidental vão ser desenvolvidas de forma acabada pela Escola de Frankfurt. [...] É uma concepção reacionária pequeno burguesa. [...]
A ideologia da Escola de Frankfurt é encontrada muitas vezes na universidade como Teoria Crítica.

Trata-se de uma inversão total do marxismo. Para os autores da Teoria Crítica, a parte mais essencial do marxismo não tem valor. Para a Teoria Crítica, não basta uma revolução social, a transformação completa do mundo material, mas é necessário fazer uma revolução espiritual.

A Teoria Crítica nasce da incapacidade dos intelectuais burgueses, que não é puramente teórica, mas política, de classe, de entender as condições da classe operária e os problemas da URSS nas décadas de 40 e 50.

E o PSTU diz[4]: " Para além de traços geográficos, geracionais ou lógicos; o signo oculto em Lukács, Gramsci, Sartre e Althusser, Marcuse e Della Volpe – em diferentes gerações, perspectivas e nacionalidades – era eminentemente histórico: todos eram produto de uma angustiante e no mínimo dupla derrota do movimento operário, o triunfo fascista no Ocidente e a consolidação stalinista no Oriente. [...]

Ao se distanciar do mundo dos trabalhadores, o marxismo ocidental foi sintonizando-se cada vez mais com diferentes tendências da cultura teórica liberal-burguesa (idealismo alemão, psicanálise, estruturalismo francês etc.)"

Percebe-se claramente, que o marxismo heterodoxo é visto como um produto de uma condição histórica(aliás quaisquer doutrinas revolucionárias não alinhadas ao marxismo ortodoxo serão vistas desta forma), não sendo aceito como uma crítica revolucionária e que no caso da crítica do PCO está presa essencialmente a uma visão obreirista aliado a uma perspectiva extremamente materialista. Em ambos, reside o desprezo e o estereótipo de "intelectual pequeno-burguês".

A visão particular do PCO é apenas uma face tímida, da visão marxista inquebrantável na fé com que a simples mudança de condições materiais provocadas por uma revolução social ocasionaria e determinaria quaisquer subjetividades. Explicaremos no entanto mais específicamente este conceito adiante. Incrível citar que muitos dos teóricos citados pelo PCO como não tendo nehuma ou quase nenhuma atividade política, não resiste a um exame menos superficial.

Na verdade a visão de que a ausência de atividade política atribuída pelo PCO aos marxistas heterodoxos como motivo para não fazerem parte do "verdadeiro marxismo" é um exame falseado da realidade. Lukács por exemplo, foi membro de vários círculos socialistas, participou do Partido Comunista da Hungria em 1918(na época clandestino), após a 2ª guerra mundial envolveu-se no estabelecimento do novo governo na Hungria e em 1956 tornou-se ministro do breve governo comunista liderado por Imre Nagy. Althusser também fez parte do Partido Comunista Russo, assim como Gramsci, um dos líderes do partido comunista italiano, representando o partido na rússia em 1922. O que determina o fato destes teóricos serem considerados pequeno-burgueses é o fato destes terem tocado em dogmas fundamentais do marxismo e como toda religião sem dogmas não sustenta-se, a excomungação é o que basta a estes teóricos. O marxismo não consegue nem em seu interior lidar com a diversidade, é algo inerente a seu próprio mecanismo teórico.

A grande questão que se aplica ao marxismo é o fato deste pretender-se advogar-se muito além do que uma ideologia revolucionária, mas sim verdadeiramente como uma filosofia da história.

O marxismo não pretende ser apenas uma ideologia revolucionária, deseja ensejar-se como uma explicação das leis naturais da história e do mundo, abarcando até a própria concepção de verdade(poderemos falar deste assunto em outro artigo).

Esta questão histórica se dá a partir do materialismo histórico, que objetiva a explicação da história das sociedades em todas as épocas a partir dos fatos materiais, técnicos, econômicos.

Filosofia da história e marxismo

A filosofia da história marxista deriva da filosofia da história de Hegel e seria inútil imputarmos uma análise sobre a tal, se não considerarmos os velhos estudos do filósofo alemão, explicitando como o velho Marx "inverteu" a filosofia Hegeliana. A filosofia da história surgiu com Immanuel Kant, segundo este, deveríamos nos esforçar para encontrar o plano "secreto"[5] da natureza que explicasse o sentido da história e da humanidade. Com o livro "Idéia de uma história universal sob o ponto de vista cosmopolita", de 1784 Kant reabre a procura da análise racional da história procurando uma "história universal geral" que abarcasse toda a humanidade.

Porém, somente com Hegel e seu livro "Lições sobre a filosofia da história universal"[6] publicado em 1830 que a filosofia da história ganha uma dimensão global, ou seja a história dos povos deveria ser escrita não mais localmente, mas numa perspectiva universal.


Retomando a idéia da "lei geral""o materialismo histórico se enuncia na obra de Marx e Engels na encruzilhada decisiva dos anos quarenta do séc. XIX"[7]. Assim, a partir da dialética, o marxismo estabelece o materialismo histórico pretendendo explicar a história das sociedades humanas através dos fatos materiais. A sociedade é comprarada com um edifício, onde as fundações, seriam representadas pelas forças econômicas(infra-estrutura) equanto o edifício em si seria representado pelas idéias, costumes, instituições políticas/religiosas/jurídicas(superestrutura).

Assim como Santo Agostinho, para Marx(Mikhail Bakunin também tinha uma concepção similar, apesar de ser menos materialista que Marx e não ter petrificado esta visão com a verve da "ciência") a história tem início, meio e fim. Segundo Marx, o fim da história seria o comunismo. A inevitabilidade da queda do capitalismo se daria pela contradição essencial que o sustenta. Na verdade a ânsia de Marx em encaixar a história econômica em seu modelo dialético provocou-o errôneamente a profetizar o fim do capitalismo, quando na verdade, sempre que os teóricos marxistas anunciam seu fim, este revigora-se com plenos pulmões neo-liberais. Interessante citar a novela "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley que profetiza justamente o contrário, um mundo perfeito, impregnado pela excelência da técnica, onde os habitantes estão profundamente controlados por mecanismos de condicionamento pavlovianos, assim como o "1984" de George Orwell, previsões não tão científicas mas mais coerentes com a realidade de nossa atual sociedade, que caminha lentamente para uma sociedade do "Vigiar e Punir".

Independente da visão profética que algum santo socialista tenha a ousadia de escamotear com a argamassa frágil da ciência e da escaramuça esguia da dialética marxista(dialética marxista, pois é uma dialética que serve a filosofia marxista) devemos ser honestos com os horizontes dos processos históricos antes de tecer considerações definitivas sobre todos os meandros que os envolvem; não há uma lei da história, existem análises sobre a história.

Esta visão de inevitabilidade da derrocada do capitalismo e da ascenção do comunismo sobre a terra é óbviamente imbuída do profundo espírito religioso herdado de Hegel(Vorlesungen über der philosophie der Geschichte, de 1830) que por sua vez fora influenciado por Santo Agostinho, que tinha uma concepção historiográfica que previa um inevitável desaguar na felicidade coletiva futura, sendo por igual herdada por diversos filósofos otimistas dos Tempos Modernos, tais como Condorcet (Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain, de 1795) e por vários reformadores sociais contemporâneos. Enterrando a visão historiográfica pagã e a existência eterna da physis grega idealizada por filósofos gregos.

O extremo determinismo econômico que move a história, viria a ser atenuado pela declaração de Marx de que há constante interdependência entre estas esferas e constante interação embora segundo o marxismo os fatores econômicos serão de fato os fatores preponderantes.

Esta super-valorização dos processos econômicos, como fator decisivo no processo das idéias, encontra seu primeiro crítico nos estudos de Weber, que em sua obra a "Ética protestante e o espírito do capitalismo" demonstra que se não houvesse determinadas condições ideológicas advindas do espírito religioso calvinista/protestante, as tais condições econômicas que segundo o materialismo histórico determinariam as idéias, na verdade não teriam sido consolidadas. Muito mais do que uma suposta inversão da idéia de Marx, Weber na verdade exemplifica que o cientista social deve estar pronto para o reconhecimento da influência que as formas culturais, como a religião, por exemplo, podem ter sobre a própria estrutura econômica em caráter determinante. Os estudos de Weber vão ser retomados por dois de seus mais importantes seguidores, David Landes e Ernest Gellner[8], este último dará ênfase na importância independente das forças políticas e
como elas influenciam o desenvolvimento econômico.

Landes por sua vez[9] exemplifica sua posição:

"Na verdade, é justo afirmar que a maioria dos historiadores hoje considerariam a tese de Weber como implausível e inaceitável: ela teve o seu momento e já passou.

Eu não concordo. Nem sequer a nível empírico, onde os registos mostram que os mercadores e manufacturadores protestantes desempenharam um papel de líderes no comércio, na finança e indústria. Em centros de manufactura (fabriques) em França e na Alemanha ocidental, os protestantes tipicamente eram os empregadores e os católicos os empregados. Na Suíça os cantões protestantes eram os centros da exportação das indústrias manufactureiras (relógios, maquinaria, texteis); os cantões católicos eram primeiramente agrícolas. Em Inglaterra, que no final do século XVI era predominantemente protestante, os dissenters (leia-se Calvinistas) eram desproporcionalmente mais activos e importantes nas fábricas e fornalhas da nascente Revolução Industrial.

Nem (sequer) ao nível teórico. O centro da questão situa-se na verdade na criação de uma nova forma de homem - racional, ordenado, diligente, produtivo. Estas virtudes, mesmo não sendo novas, estavam longe de ser um lugar-comum.. A segunda foi a importância conferida ao tempo. Aqui temos aquilo que o sociólogo chamaria de evidência moderada: o fabrico e a compra de relógios. Mesmo em áreas católicas como a França e a Baviera, a maioria dos fabricantes de relógios era protestante e o uso destes instrumentos de medida do tempo e sua difusão em áreas rurais era de longe mais avançada na Grã-Bretanha e Holanda do que em países católicos. Nada testemunha tanto como a sensibilidade ao tempo para a "urbanização" da sociedade rural, com tudo o que isso implica para a rápida difusão de valores e gostos.

Socialismo científico?

A coerência da doutrina filosófico-econômica marxista está ligada ao crescente status de superioridade que as ciências exatas gozaram prestigiosamente no final do século XIX. O próprio socialismo "científico" de Marx(que de ciência pouca coisa tem) extraiu muitas das suas teses[10] formuladas anteriormente por economistas liberais, socialistas e anarquistas, Sismondi, Victor Consideránt, Robert Owen, William Thompson, Adam Smith, Saint-Simon, Blanqui, Gustav Thierry, David Hume, Turgot Ricardo, Proudhon, etc. Posteriormente muitos dos socialistas deste grupo, foram acusados de "utopistas", atribuindo a palavra utopia que é formada pelo radical grego "ut" não e "topos" lugar um significante pejorativo, com intenção de desmerecer o trabalho destes pensadores. Na verdade é com Marx e Engels que a palavra utopia ganha contornos de "coisa irrealizável", sem base na realidade.

Não adentrando no caráter de Marx, toda esta concepção de cientificidade que não comporta distintas formas de pensamento dentro do movimento socialista diz respeito a
três condições básicas da qual podemos extrair conclusões:

A
primeira diz respeito as dificuldades para compreender quaisquer aspectos subjetivos ou visões como as fenomenológicas que não submetam-se a seus relatos totalizantes, pois trabalha sob uma visão imutável e global da história, do progresso e da filosofia(apesar do que a dialética nos diz exatamente o contrário). Esta visão totalizante leva ao equívoco da luta do marxismo em tomar o poder sempre pelo centro e concebe o marxismo como um relato que engloba e explica a existência humana a partir da história e dos processos econômicos. O massacre bolchevista das tendências revolucionárias(Massacre de Kronstadt e o expurgo dos anarquistas na revolução russa de 1917) é apenas a consequente aplicação deste relato totalizante.

A segunda condição é a visão que o marxismo tem sobre o indivíduo.

O conceito marxista de proletariado está instrísecamente ligado a um modelo industrial clássico que muitas vezes não corresponde às especificidades dos agentes de transformação dos quais acreditamos ser chaves para um processo de revolução social. Como bem referencia Jorge E. Silva: “O anarquismo, ao contrário do marxismo, não acredita na existência de um sujeito histórico único e predestinado, em uma classe ou grupo social capaz de realizar, em função de um destino histórico, a mudança social.” [11]

“(...)Desde Bakunin e Kropotkin, sempre estiveram no centro do pensamento anarquista, ao lado do proletariado, dos camponeses, todos os explorados e excluídos, os marginais e jovens, mas enquanto pessoas concretas, sujeitos capazes de assumirem sua liberdade historicamente.” [12]

Podemos perceber este conceito abstrato de proletariado atingir seu distanciamento da realidade, com os programas estratégicos e as propagandas das tendências marxistas em sua maioria, que reproduzem modelos simplistas de sujeitos. O assalariado seria o eterno alienado que aguarda o revolucionário profissional exportar a consciência de classe, como um elixir paregórico que teria a função de curar toda a “doença” capitalista. O marxismo imbuído dessas idéias de sujeitos simplistas, objetifica os indivíduos, mesmo atribuindo a importância necessária a tais, considera que estes desempenham papéis secundários dentro da dinâmica do processo de revolução[13], isto fica implícito no discurso, e na problemática que a maioria dos teóricos marxistas está debruçado: analisar a sociedade capitalista. É o indivíduo a serviço da história. É a metafísica marxista mostrando seus deuses e servos.

E finalmente a terceira diz respeito a visão pretensamente científica que o marxismo pretende advogar. Teriamos a definição de ciência segundo a enciclopédia livre Wikipedia como o "conhecimento ou um sistema de conhecimentos que abarca verdades gerais ou operação de leis gerais especialmente obtidas e testadas através do método científico".

Sem dúvida alguma, Marx nunca esteve próximo de abarcar verdades gerais, se isto fosse verdade a queda do muro de Berlim e a desintegração da URSS comprovariam pela lógica científica o fracasso da teoria marxista.

Podemos concluir que o socialismo marxista não é científico, pois não teve provas suficientes de seus principais pilares, é mais uma teoria dentro do espectro múltiplo das teorias socialistas.

Ao contrário de científico peculiarmente o marxismo torna-se extremamente religioso: O proletariado messiânico de Marx, o culto a imagem da maioria das organizações marxistas, a inevitabilidade dos processo históricos e da ascensão do comunismo(assim como a inevitabilidade do reino de deus sobre a terra) na sociedade, o maniqueísmo em que o marxismo engendrou a dinâmica da luta de classes e a consciência como um processo externo ao proletariado(assim como a iluminação divina é externa ao indivíduo). Esta visão pretensamente científica no entanto, não se sustenta diante de uma análise apurada, o marxismo, assim como qualquer doutrina revolucionária tem imensas e graves falhas. Já dizia o revolucionário Francês Joseph Pierre Proudhon[14] em carta à Marx:

"Em primeiro lugar, e embora neste momento minhas idéias sobre a questão da organização e da realização já estejam mais ou menos definidas - pelo menos em princípio - creio ser meu dever, como de todos os socialistas, manter ainda durante algum tempo uma atitude crítica ou dubitativa: resumindo, em público eu me declaro a fabor de um antidogmatismo econômico quase absoluto."

Podemos afirmar que toda teoria revolucionária que pretende propugnar verdades científicas deve afirmar sua validade com o tempo e não com a verdade. Aceitemos o óbvio, Marx foi um pensador como quaisquer outros pensadores socialistas, repleto de erros teóricos, não há nada de "científico" em Marx.

Podemos oportunamente, reproduzir o que seria o método científico segundo a wikipedia:

Os cientistas nunca falam em conhecimento absoluto. Diferentemente da prova matemática, uma teoria científica "provada" está sempre aberta à falsificação se novas evidências forem apresentadas. Até as teorias mais básicas e fundamentais podem tornar-se imperfeitas se novas observações estiverem inconsistentes a elas.

Ao que parece vejo-me impelido a aceitar a velha piada contada por um companheiro que me obriga a entender completamente seu sentido:

-Sabe por que o marxismo não é ciência?

-Não, por que?

-Por que até a ciência evolui.

Próximos Elementos a serem debatidos neste artigo:
- Partido Revolucionário
- Ditadura do Proletariado
- Vanguarda Revolucionária
- Centralismo vs autonomia

[1]Quando falamos de anarquismo, falamos de anarquismos como diria Bakunin: "La diversidad es la vida, la uniformidad es la muerte (Mikhail Bakunin)"

[2] Tragtenberg define o marxismo heterodoxo como uma “leitura de Marx não regida pelos moldes ‘ortodoxos’ definidos pelo chamado ‘marxismo-leninismo-stalinismo’ ou ‘marxismo-leninismo-trotskismo’”. Um marxismo que questiona “os dogmas aceitos acriticamente pelos militantes e teóricos dialéticos, especialmente a noção de ‘ditadura do proletariado’; uma heterodoxia que põe em xeque ‘a noção de partido hegemônico’.” (Tragtenberg, 1981: 07)

[3] http://www.pco.org.br/conoticias/atividades_pco_2006/3fev_acamp_audio.htm

[4] http://www.pstu.org.br/teoria_materia.asp?id=4188&ida=43

[5] http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2003/02/22/003.htm

[6](...) todas as diferenças que encontramos entre povos e países nada mais são do que as faces multiformes dessa mesma razão e que "uma vontade divina rege poderosa o mundo" e que nada está sujeito ao acaso, mas sim faz parte de uma ordenação regida por leis naturais perceptíveis pela mente humana. Retirado de http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2003/02/22/003.htm

[7] http://criticanarede.com/fil_historia.html

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Ernest_Gellner

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Landes

[10] Marxismo, escola de ditadores / Roberto das Neves - Ed. Mundo Livre

[11] Enquanto o marxismo estabelece o proletariado como a classe potencialmente revolucionária, o anarquismo enxerga o lumpemproletariado(descartado por Marx) como também potencialmente revolucionário, desde que encontre condições específicas para isto. Assim como o proletariado de Marx torna-se tão pequeno-burguês(vide os sindicalistas amarelos do ABC paulista) quanto os lumpem de sua teoria.

[12] O Anarquismo Hoje – Uma Reflexão Sobre as Alternativas Libertárias / Jorge E. Silva – Ed. Achiamé

[13] Hegel afirmava que "Tudo é uma história"; Marx seguindo seus passos vai afirmar que: só reconhece uma ciência, a ciência da história".

[14] Anarquismo: Uma história das idéias e movimentos libertários / George Woodcock - Ed. L & PM

[15] Para Jung a ciência é projeção psíquica dos cientistas e os modelos teóricos aproximações e não retratos fiéis da realidade. Nessa perspectiva, o conhecimento científico está mais perto de uma metáfora por meio da qual o mundo é interpretado que de um conjunto de dados articulados enunciadores de uma verdade confirmada.

4 comentários:

Alexandre disse...

Concordo com grande parte do artigo (embora não em sua totalidade). Não sou marxista, talvez seja importante dizer isso. Isso porque não me considero mera caricatura de Karl Marx. Mas vamos aos pontos:


- Marx = filósofo e economista???

Essa afirmação é polêmica. Isso porque Marx não era "filósofo", mas um crítico da filosofia - ao menos como ela se apresentava no seu tempo -, um "antifilósofo" (Terry Eagleton). O mesmo se aplica à economia, seu projeto era o da crítica da economia política, disciplina econômica predominante na época, tal como sugere o subtítulo d'O Capital (não confundir economia política ou "escola clássica" com a economia moderna). Não era uma "teoria do valor", como é a teoria de Smith e Ricardo e outros, mas uma "crítica do valor", uma crítica da própria "economia" enquanto prática social fetichista.


- Marx "puro"?

Não existe um Marx "puro", assim como não existe um Bakunin "puro", um Proudhon "puro" ou quem quer que seja. A própria dialética pode servir pra refutar isso - se a vida é atividade, movimento, e movimento significa transformação constante, então não existe um estado congelado do ser que possa ser considerado "puro", a sua apreensão efetiva. A própria atividade é transformação - quando acabar de escrever esse comentário, já não serei o mesmo que o escreveu, serei um outro. Logo, Marx "puro" é um mito, assim como qualquer teórico que seja. O indivíduo é uma mistura contraditória de experiências, sentimentos, idéias, intuições. Não há maneira pela qual possamos apreendê-lo num estágio "verdadeiro" do seu ser, porque ele está em constante contradição consigo mesmo através do tempo (de vida). Além do que, quando lemos Marx hoje, vamos inevitavelmente interpretá-lo segundo o nosso contexto. Se existe um Marx "puro", portanto, morreu como ele e está enterrado há muito tempo.
E o marxismo é precisamente isso: o congelamento da teoria de Marx, passando por cima de toda diferenciação interna, de toda contradição, reificando a figura do próprio Marx.


- a teoria de Marx como reflexo de sua prática política autoritária (e Bakunin seria então... ?)

Você diz ser a teoria de Marx, inevitavelmente, um reflexo de sua prática política autoritária. E Bakunin seria o quê, então? Um santo? Besteira falar isso... somos muitas vezes contraditórios em ação e pensamento.


- realidade - pensamento, prática - teoria. academicismo?

Eu não sinto que o pensamento separado da prática seja estéril, desculpe. Aliás, o próprio pensamento é prática (pensar é verbo, não é?), e sim, para além de um materialismo cego (que já não é o meu partido) o pensamento é capaz de subverter, de modificar. A "crítica do valor", como parte do que se poderia chamar meio arbitrariamente de "marxismo heterodoxo", não pretende simplesmente teorizar a sociedade em crise, ficando imune ao "concreto" da vida e movimento dos explorados. Se é crítica, "teoria crítica", é porque pretende ter fins práticos. Não é verdade também que a crítica do valor não tenha prática política - ela não tem prática declarada e nomeada como "crítica do valor". Alguns desdobramentos do movimento dos Piqueteros, por exemplo, coicidem com o conceito das "formas embrionárias emancipatórias" de Kurz, com uma prática de rejeição aberta à lógica mercantil. O pensar tem funções nobres - e eu não sinto nenhuma culpa em fazê-lo à exaustão e de ter muito "tempo livre" -, para muito além do trabalho, e deve ser uma prática livre e possível para todos/as na sociedade anarquista-comunista, já que as pessoas já não estarão presas ao tempo morto da venda da sua capacidade de trabalho (ou seja, contribuir socialmente ou "trabalhar" já não será uma tarefa principal na vida das pessoas).

Alexandre disse...

- o marxismo heterodoxo mais preocupado em analisar a sociedade capitalista
do que modificá-la.

Isso é falso, eu considero. A análise marxiana do modo de produção capitalista ou "sociedade capitalista" não é uma análise neutra, pura, "objetiva", é uma análise do ponto de vista dos explorados. O Capital, por exemplo, que geralmente é tido como um compêndio SOBRE a economia capitalista, é uma "crítica genética" (Holloway) ao capitalismo. Não lhe interessa puramente as "leis gerais" que regem a produção capitalista, ou seja, a "biologia" do modo de produção capitalista, mas a sua necrologia - como diz o próprio Marx num prefácio -, as suas contradições inúmeras e as suas possíveis brechas que deixam entrever a "expropriação dos expropriadores" (Marx) como AÇÃO POLÌTICA.


- Marx - o fim da história seria o comunismo?

Tenho minhas dúvidas. Parece que, nos Manuscritos de Paris, o fim do movimento histórico realmente aparece como o "comunismo", mas já n'O Capital - na maturidade de Marx - o comunismo aparece como o primeiro passo dentro da história consciente do homem, "superação da pré-história do homem" nas palavras de Marx. Isso porque a história até agora, em geral, TEM SIDO a história da luta de classes, repleta de "relações de fetiche", mas não É, necessariamente.


- proletariado e sujeito revolucionário, simplismo de sujeito, predestinação.

O marxismo realmente tende ao simplismo do sujeito, predestinação do proletariado etc. Talvez por isso seja incômodo, por exemplo, as teorizações da Escola de Frankfurt, ou ao grupo Krisis, que já não afirma um sujeito predisposto (e predestinado) à Revolução, uma solução "fácil" e "ao alcance das mãos" à "economia do terror" (Kurz). Holloway segue o mesmo percurso, quando afirma que os trabalhadores não são inocentes, que os oprimidos em geral estão presos numa rede de auto-alienação, sendo a nossa existência - como "classe", isto é, como sujeitos que foram e são diariamente CLASSIFICADOS pela rede de relações do capital - definida por ele como uma "existência contra-e-no-capital". Isso significa que somos também reprodutores das relações sociais capitalistas, e aí já desaparece todo o maniqueísmo da luta de classes, "proletariado VS burguesia" etc. Com efeito, para Marx também o capitalista não passa de mera "personificação do capital", e aí ele dá o fundo para uma crítica para além das categorias tradicionais do "patrão", da "mais-valia" etc. Mas sim, sem dúvida, o marxismo, ou melhor, o comunismo, como movimento organizado, optou pela simplicidade da "dominação de classe", "propriedade privada dos meios de produção" etc. Mas o proletariado em Marx, muito mais que a figura do trabalhador fabril clássico que ele realmente tinha em mente (e visão) quando falava do seu potencial revolucionário, é, para além da definição sociológica redutora, o conjunto de pessoas que foram reduzidas a condição de mera "força de trabalho", ou seja, sujeito sem objeto, puro "capital variável", que no fluxo da produção de mercadorias não passa de um instrumento, um "meio" para a multiplicação do dinheiro. E este "proletariado", sem dúvida, é a contradição viva do sistema burguês, por mais que a conjuntura negue isso, pela "inclusão" constante destes ao jogo do livre mercado (e isso não pode ser ignorado).

Mr. Durden Poulain disse...

Respondendo aos comentários:

Quanto ao fato de marx ser filósofo e economista, isto na verdade não passou na revisão, um erro fortuito que escapou-me a retina mais atenta.

Talvez não exista um Marx puro, mas existe um pensamento político que gira em torno de uma figura(no caso, na de Engels e Marx na verdade). Gostei quando você diz que o marxismo é "o congelamento da teoria de Marx, passando por cima de toda diferenciação interna, de toda contradição, reificando a figura do próprio Marx." Parece que eu me fiz entender e você também.

Re-afirmo que as posturas autoritárias de Marx, também o influenciaram(ou vice-versa, na verdade isto pouco importa) de forma a que o marxismo se advogasse com esta totalidade uniforme da qual eu faço referência. Marx não era contraditório simplesmente, era autoritário e seguia uma tradição jacobina de política revolucionária, tinha uma "raiz" política claramente definida e por mim combatida.

Não possuo um pensamento obreirista que desqualifique a produção intelectual revolucionária, mas a ideologia revolucionária mesmo que acadêmica deve apontar soluções e influir concretamente no objeto de estudo(no caso o movimento social), correndo o risco de se esterilizar e acabar numa gaveta de universidade ou de algum instituto de pesquisa. O próprio Marx foi atuante no que diz respeito a organização prática do movimento revolucionário(mesmo que eu discorde de alguns pontos de seu programa, não há como negar que ele teve uma ativa atuação política).

Quando me referi que o marxismo heterodoxo está mais preocupado em analisar a sociedade capitalista do que própriamente em modificá-la, apesar do sintetismo de tal frase, me refiro a pouca influência que este teve sob a visão marxista em geral dentro dos movimentos sociais e o isolamento intelectual que seus principais precurssores engessaram-se.

Quanto ao pensamento cristão e "o fim da história seria o comunismo?", creio que fui claro o suficiente e acho que o que finaliza e define tal postura de Marx, não é apenas uma ou outra declaração, mas o conjunto de sua obra e os significantes contidos em todo o jargão que marx utiliza(pré-capitalista, superação, etc), o que revela um etapismo latente, um gradualismo econômico, com extremo fetiche na questão dicotômica sociedade capitalista x sociedade comunista.

Quanto ao simplismo dos sujeitos, dentro do marxismo convencional, como dito antes, se dá por esta prática de objetificar o indivíduo diante do deus-economia. Um vício materialista histórico que quando confrontado pelos marxistas heterodoxos provoca seu total expurgo dentro da perspectiva messiânica-religiosa do marxismo ortodoxo.

Luciano>Pita>RJ>Brasil disse...

Quando Marx afirmava vislumbrar o fim do capitalismo significava uma estratégia, pois a mobilização dos trabalhadores é o objetivo central das lideranças realmente comprometidas com seu avanço. Seu desconhecimento disso só vem confirmar seu distanciamento das lutas dos trabalhadores e de suas lideranças na construção de uma situação pré-revolucionária, algo extremamente difícil de se conseguir. A mais humilde e analfabeta alma deste mundo compreende Marx em sua plenitude quando precisa fugir da polícia durante uma greve, ou perde seu emprego ao cruzar seus braços diante do seu patrão. Você terá tmbm sua hora, amigo, afinal os burgueses não perdoam nem quem lhe são simpáticos! Quando o caminhão da História passar, sai da frente senão ele te atropela.