segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Lugares mal iluminados



Quando não percebemos e somente neste ponto específico, somos promovidos à função de carrasco, ou herói.

Heróis andam escassos, mas os carrascos vendem-se pelo atacado.

Inconscientes do destino oculto da vida, promovemos chacinas afetivas em cada esquina, cortamos corações e destruímos afetos trocando de roupa.

É o motor.

Anatole assim acreditava. Um tolo, que crê num destino oculto da vida, acredita e professa em fé, uma razão secreta da história e da vida; credita a um plano lógico uma emersão de fatos que só a posteridade lhe parece reconhecer os feitos.

Mas para Vasilli, e Vasilli costumava dizer isso sempre após acender um cigarro ou tomar um gole de cerveja sincera, aquilo tudo era metafísica barata. Era merda metafísica. Cristianismo invertido em ciência. E que ele tinha de recomeçar a pensar.

Apesar de ateu Anatole, és um metafísico incurável! Dormes com deus todas as noites! Teu otimismo, podre otimismo de salão, esconde esta metafísica tão bem aconchegada na tua frase padrão.

E para Vasilli, mero entregador de frases de efeito, que bem escondia um rancor deplorável pelas porcas de barro que guardavam dinheiro, afeto ou idéias, pelos mujahedins do cinismo e também costumava detestar a si mesmo, sempre que lhe recaíam sob os ombros a função de carrasco , viver é fazer a si mesmo na experiência.

Segundo Anatole, Vasilli, era um bêbado empirista, que desfocaria metade do mundo se a outra parte dele afirmasse que quem desfoca a realidade é o alcoólatra. Vasilli aos olhos de Anatole era um mero solipsista à procura de uma âncora afetiva que pudesse dar lastro aos seus sonhos estúpidos.

Os peixes do aquário de Vasilli não nadavam enquanto ele dormia, costumava dizer Anatole.

E ainda assim, apesar das diferenças, os dois se encontravam num boteco de final de semana para beber, conversar e saber em que função os dois se encontravam no momento.

O carrasco é o auto-alienado de seu livre-arbítrio, de sua potência, dizia Vasilli. Quem assume seus atos, quem age não pela metade, mas se entrega inteiro até quando está apartado ou cortado ao meio, este sim, nunca será carrasco. O carrasco é o que finge dizer que há uma força oculta que lhe move, e que seja a história, o inconsciente ou o que quer que seja. O carrasco é um homem de má fé. É um homem que entrega a outrém, mesmo abstrato, deus, psicanálise ou metafísica, os meandros de sua própria vontade.

Anatole, costumava receber essas afirmações de Vasilli, com um misto de irritação e de espanto.

Como um homem vive sem suas forças externas? Como algum ser humano pode embalar todo o mundo e tornar a realidade uma massa compactada que repousa sob seus ombros?

Quem é cristão por final é você Vasilli. És um cristão que troca a cruz pela tuas ações. O mundo repousa sob teus ossos e sinto que tua noção de carrasco está equivocada.

Para Anatole, as coisas ruins, serviam sempre para revelar um futuro bom. E quando não revelavam um futuro bom, apenas eram necessárias para que outras coisas ainda mais ruins não acontecessem. Um acidente de carro, uma chacina, ou um fora de final de semana não eram em si ruins. O bom ou ruim só se revelavam na ação a posteriori. E o fato posterior sempre era bom , pois se reconfortava na unidade da vida e encontrava o pagamento de seus pecados na linearidade do tempo.

Para Anatole, sempre havia um acontecimento futuro, necessáriamente bom e que encontra sua bondade no acontecimento passado, que revelava a necessidade de qualquer tempo presente ruim. Quando ainda nada havia de bom no futuro, ele acendia o cachimbo, olhava para o horizonte e dizia que era o plano secreto se manifestando. Era melhor não perguntarmos o que a lógica ou o espírito do tempo nos quis exatamente dizer.

O ruim dizia Anatole, fora ruim, é verdade, talvez até desprezível, como aquela viagem decepcionante e todo o grande afeto desperdiçado nos restaurantes de estrada, mas se aconteceu assim, aconteceu pois que algo ainda pior estaria destinado ao período presente. O plano secreto fez justiça. Falava e retomava o assunto, repetia muitas frases para se fazer entendido e então, recomeçava a tragar, como um profeta falhado - não sem antes acender o cachimbo com ervas aromáticas sabor primavera.

O carrasco de Anatole era sempre o passado do herói. Todo herói tem um quê de carrasco pretérito - dizia.

Para Vasilli, o carrasco e o herói eram em suma a mesma pessoa ou a mesma coisa. Não havia uma sucessão temporal, mas sim um dispositivo dialógico entre esses dois pólos aparentemente opostos, mas que se complementavam, alternavam-se, como um bailé ou um jogo de espelhos dentro do Theatro Municipal.

Ambos, Vasilli e Anatole digladiavam-se, esgrimavam-se enfrentando na verdade a si mesmos. Não eram filosóficamente inertes, pois costumavam questionar e trazer à tona seus arrependimentos, cada um à sua maneira...

E quando jaziam inertes em paradoxos irresolvíveis, perguntavam-se quais das posições estavam assumindo. Heróis? Ou Carrascos?

Havia uma linha muito tênue, temporal ou empírica, era uma linha minúscula que dividia tais concepções.

No final Anatole e Vasilli costumavam aceitar o fato de que eram todos vítimas e algozes enfileirados em torno das pobres experiências. Cansados, exaustos pela cerveja, pela rotina que impunha-se menos filosófica ou apenas pelo fato de não mais suportarem se digladiar, acabavam assumindo uma pobreza de experiências, estas que descortinam o tempo, as decepções e por fim os lugares mal iluminados.

3 comentários:

raphael m. disse...

Pq vc excluiu os ultomos posts estavam bons..

Tainá-O-Rama disse...

Gostei demais deste.

[raph.] disse...

É o ciclo sem fim esse de vítima e algoz.