sábado, 12 de abril de 2008

Roberto Cardoso não acredita na raça humana


Falam que beber sozinho é ruim. Falam que beber sozinho é sinal de alcoolismo. Que só se bebe para socializar com outros humanóides.

Pois bem, meu nome é Roberto Cardoso. E eu não bebo para me socializar com ninguém.

Até por que não acredito mais na raça humana. Tem gente que me chama de niilista. Mas eu também não gosto de filosofia. Pau no cú dos filósofos. E aí me chamam de sexista.

Alguns falam que eu sou misantropo. Fui procurar no dicionário, era algo que dizia alguma coisa parecida com o que eu sou.

Na verdade, eu não gosto muito de beber com ninguém, por que as pessoas resolvem ser o que elas verdadeiramente são, e um pouco de hipocrisia é bom, por que ninguém que se preza, se revela com cinco cervejas na mesa.

Gosto do mistério, do não descoberto. Na verdade... Eu não gosto é de perder tempo tentando revelar ninguém.

Eu prefiro me enclausurar no meu próprio caminho. Gosto sim, de tomar cerveja sozinho, por que só tenho de aturar eu mesmo; e isso já é suficiente demais...

É suficiente, por que eu sinceramente não me adapto. E tem gente que diz que todo mundo se adapta. Mas estas pessoas, estes humanóides, não se recordam de que tem gente que não se adapta nunca. Falam para eu ter esperança e dizem que a esperança é a última a morrer.

Mas ninguém disse que ela não morre! A esperança morre merda, demora a morrer, mas morre!

E aí, só me sobram sete cervejas, num final de semana perdido. Perdido para quem? Para quê?

Meu nome é Roberto Cardoso. E eu não bebo para me socializar com ninguém.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Escutando chorinho e tomando café

Sou um filho do cansaço. Mas quem diria, um cansaço feliz. Por que quando a mente está forte, o cansaço físico é um amigo, não um persecutor.

Andei contando todas as atividades que eu faço. Me assustei. São muitas, em alguns momentos mais do que consigo suportar. Como consigo fazer tanta coisa? Nem eu sei. Talvez vontade. Vontade de me mudar, de mudar o mundo. De não parar jamais. De lutar contra a engrenagem devoradora de gente até o último segundo. Não há como me resignar frente ao cinismo ou a comodidade. Olho para a frente e só vejo terra batida.

É preciso construir... trilhar caminhos... aglutinar-me.

Mas quando a cabeça vai mal, o corpo padece. E sim, há um preço a se pagar. O jeito é tentar me equilibrar. E saber quando golpear e como golpear. Afetivamente há uma lacuna não preenchida.

Mas descobri nos pequenos prazeres cotidianos um mundo que se descortinou. E isso por enquanto me basta.

Viver é delicioso. É como tomar uma chícara de café durante o tempo frio. É como refrescar-se com um banho de cachoeira no calor. E é isto, e é muito mais do que posso metaforizar. E é um dia após o outro.

Tomar decisões não é difícil. Difícil é cumprí-las. Mas atualmente ando fiel às minhas promessas.

Até demasiadamente.

Preciso absorver menos. Vá com calma. Há muito a fazer, muito a construir, mas... relaxe... você está acelerado.

A mente ocupada mata o passado, mas também pode matar o presente. Eis o futuro! Passou, ninguém viu! Estou mais feliz. Mais do que semana passada. Ainda não durmo muito bem. Um dia eu chego lá...

Sonhos e projetos à vista. Vire o barco à esquerda timoneiro, cuidado com aquela pedra, desvie do coral, ajeite a proa, sim, vamos velejar. E espero que semana que vem eu consiga tirar alguns dias para me curtir.

Esvaziar-se é preciso.

obs: depois de algumas noites mal dormidas, algumas catarses interiores e sistematizações de memórias pretéritas(não tão pretéritas - ainda sinto-as reverberarem tão próximas como a dois dias e meio de viagem), em breve sairá um pseudo-conto sobre isto. Meu senso de humor voltou.






terça-feira, 8 de abril de 2008

Um doido e alguns pingos de chuva

Falta mistério ao mundo.

Hoje fiquei observando os pingos de chuva enquanto voltava para casa, há dias chove, e há dias comecei a observar os pingos de chuva. Mantive-me fascinado: como era belo aquele momento, trivial, mas único. O legal é que você olha de longe da luz, e vê os pingos caindo perpendicularmente ao solo ou como seguissem uma trajetória reta, mas não... se você se aproximar e ficar embaixo da luz do poste, e esticar bem o pescoço para cima, olhando os pingos de baixo para cima o máximo que puder, vai ver que os pingos caem aleatóriamente, sambam e flutuam ao sabor do vento sem nenhuma direção apenas caem.

É a aleatoriedade caótica daqueles milhares de pingos, que dá a falsa sensação de linearidade ou seria nosso olhar cartesiano que está condicionado? Reflexões filosóficas a parte, pouco importa.

Pelo senso comum, por um breve momento de chuva, sou um doido varrido. Pois é. Cada um constrói os conceitos que quiser. Aliás realmente é preciso classificar a loucura, enquadrá-la; isto protege a identidade, o mundo dado(ou como diriam em linguagem mais acadêmica "reificado") e não ameaça nossas certezas. Convicções arraigadas necessitam ser mantidas. Abismos são perigosos, dúvidas mais ainda! E um doido olhando para a chuva? Por que se comporta assim? Por que usa o cabelo daquele jeito? Por que é diferente de mim? E por que eu sou diferente dele? Por que age daquela maneira? Por que me deixa com dúvidas acerca do meu comportamento, do que eu sou, da minha identidade tão pronta, tão acabada? Por que não segue a corrente? Por que vai no fluxo errado? E eu? Não! Preciso me proteger! Estou no fluxo CERTO, ele é o doido!

Como as pessoas estão pragmáticas, objetivas, perdendo-se em coisas óbvias...

Acabou o mistério de se redescobrir o mundo. E aliás, para quê? Se já está tudo PRETENSAMENTE descoberto... com a internet, com a tv a cabo e a revista de final de semana eu já sei tudo o que se passa... não há um pequeno grande mundo a se descobrir, repleto de detalhes, de infinitos que vão se descortinando diante o cotidiano. Há apenas fórmulas, explicações técnicas, expicações científicas, a modernidade negando o desconhecido apenas por capricho e oni(pre)potência.

Estão negando o mistério, matando-o. Falta mistério, falta sensação...

E bem que eu queria compartilhar mais pingos de chuvas, mas no momento, os relacionamentos(das pretensas amizades aos pretensos relacionamentos amorosos) parecem mais acordos empresariais do que própriamente relacionamentos(avalia-se os riscos ou os lucros e ponto final chega-se a um acordo).

Que cada um cave um pouco mais de mistério em si mesmo e no mundo e talvez daí possamos começar a compartilhar pingos de chuva.

domingo, 6 de abril de 2008

O dionisíaco por Eduardo Galeano

"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa:
É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca."

(Eduardo Galeano)

sábado, 5 de abril de 2008

Tudo é quente em Nurenberg

Havia pedaços de papéis espalhados sobre a mesa, alguém andara brincando com alguma tesoura, ou enviando cartas-ameaças anônimas para alguém. Sobrava insônia e faltava prazer, como denunciavam as pilhas de livros não-lidos, as folhas e folhas corridas meio-dobradas, meio jogadas, que ele teria de revisar. Quem mandou. Ser escritor não é fácil. Um escritor simplório e medíocre, pior ainda. Ocupar-se de revisões e outras burocracias linguísticas não era muito o que sonhara para si, mas era o que tinha de mais concreto naquele momento. E por um breve instante, resolvera abandonar o concreto de suas obrigações para tentar dormir, em vão. Acordado, seria mais útil reconstruindo o concreto, mas preferiu ficar no abstrato e tentou(ensaiou), uns contos concretistas que sua inconsciência guardara dentro de si durante duas semanas.

A maioria calava-se. Alguns poucos, diziam que escrevia muito. E menos ainda, elogiavam. Kafka morreu pobre, Jesus foi crucificado e uns outros tantos, faleceram com tuberculose.

O mal da vez era a dengue hemorrágica, nem de doenças literárias podia morrer. Estava malfadado ao sucesso neste sentido. E que bom...

Assim poderia repetir fórmulas gastas, reinventar neologismos inacabados, e reunir setenta e seis palavras num domingo à noite repleto de nostalgia.

Fazia parte. E ele sabia que seu único remédio(além do álcool), era catarsiar-se, destrinchar-se, cortar nervo por nervo, alimentar com sangue, suor, com tesão e ataques aleatórios no sistema nervoso, as letras. Letras sim, geridas num útero de angústia, e para angústia mal-curada receita-se escrever de cinco a seis vezes por quinzena; abandonando os solstícios, que são datas específicamente relevantes para falsos ensaios acadêmicos.

No outono pediam-lhe mais vigor. No verão, enchiam-lhe de desprezo. Fazia parte da vitrine. E uma vitrine tosca; parecia mais calmo. Não sabia realmente se pelos dois dedos de whisky, ou pela escrita intempestuosa e libertina que se permitiu a fazer às quatro e seis da manhã.

Xingava e falava sozinho, com seus cigarros e com seu cinzeiro; abafava o grito endossado pelas linhas pretéritas com a tensão de suas próprias reservas. As reservas impostas à escrita, incentivavam-o a escrever sem reservas. Plagiador do bom não se nota.

E passa assim. Desapercebido, como uma esquina de carros virados em algum maio de Paris.

Resolveu imprimir uma apostila aos poucos, lia todos os dias antes de dormir. Imprimia algumas páginas, lia um pouco, dormia. No dia seguinte, fazia a mesma coisa. Era como cozinhar. Nunca sabia realmente qual era o diâmetro exato de sua fome; por letras ou por alimento.

Então, pensava, hoje serão dez, amanhã talvez vinte. Às vezes lia noventa por cento. Mas frequentemente ia até o final; odiava desperdícios. Desperdícios de letras, de poemas, de recursos, e principalmente de afetos.

Era sim um balde de afeto desperdiçado. Normalmente desperdiçava pela amanhã. Quando acordava, jogava as duas mãos para os lados, como em um movimento pendular de um relógio. E a cama, prostava-se vazia. Vazia.

E ele não ligava. Apenas ria. Era um ritual engraçado. E sentia graça mesmo. Chegava a rir de si mesmo. E ele lá. Cá dizia. Cheio de afeto e amor para dar. Rimando só para se sentir mais importante.

E nada acontecia. Então, era afeto desperdiçado. E ria novamente, só para ter a certeza de que não perdera o bom humor; e sim, isto sim não tinha desperdiçado.

Às vezes fazia-se de sério, ou jurava a si mesmo que seu estado civil era: desinteressado. Mas a quem iria mentir? A si mesmo? Sim. E desta vez, com convicção. Pois sabia que uma mentira repetida mil vezes, virava verdade. Paráfrase aludida aos malditos nazistas. Que repetiam jargões, incessantemente e convenceram metade do mundo, com panzers e canhões diga-se de passagem.

Não sabia bem por que incluiu os nazistas no texto. Mas logo após, num instante tão curto como uma vírgula, recordou-se vívidamente: pela manhã, sim, aconteceu pela manhã, pois sim, escritores amadores acordam cedo de vez em quando, pela manhã ele já não suportava a si mesmo quanto mais o mundo.

Mas o mundo, o mundo ao seu redor(e os malditos nazistas), movia-se frenéticamente. Num desses flancos, em que a dignidade e o cinismo insistem em conviver juntos, esbarra com uma mulher, mãe e negra, segurando carinhosamente seu filho no colo, o mundo parecia não existir ao seu redor; estava sentada num meio fio sujo, numa rua suja, ao lado de pessoas limpas(sujas).

Nazistas...

Faz frio em Nurenberg. No Rio de Janeiro tudo é quente, exceto Nurenberg.

No tribunal de Nurenberg, a palavra era: diga que cumpriu ordens.

Na av. presidente vargas, são mais econômicos. Falam apenas com o corpo.

O mundo não fala. Está calado, vencido, perdeu a si próprio em seu próprio Füher mercado. E ainda havia amor. Diante da pobreza. Havia amor, de uma mãe, para um filho. Sim, havia amor, cercado, sufocado no entorno do tribunal de Nurenberg.

O fato é que este falso poeta despejou algumas lágrimas no canto esquerdo do olho e do ônibus...

Era um completo louco. Seu doido varrido! Quem chora por desconhecidos às dez da manhã?!

Pois é!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Lúcia e Roberto: um casal agradável


(Roberto e Lúcia deitados num colchão, três da manhã, apartamento vazio no catete, geladeira com cerveja e alface.)

- Qual é a constituição do amor, da paixão Roberto?

- Não sei Lúcia, mas o tempo ajuda a constituí-los, não, este tempo nosso, mas um tempo bonito, um tempo subjetivado pelas nossas próprias sensações e emoções.

- Você me ama Roberto?

- Lúcia... minha querida Lúcia... se eu te dissesse que sim, seria óbvio demais... e o amor odeia obviedades...

- Você é um puto esquivo Roberto. Você me entendia.

- Lúcia...

- Diga.

- Busca uma cerveja pra mim.

- Vai pra merda Roberto. Que machismo.

- Machismo nada, eu busquei as últimas cinco, é sua vez.

- Estou falando do amor Roberto, tem como ser mais romântico?

- Claro.

- Então, pronto porra!, por que me pediu pra pegar mais cervejas?

- Por que preciso de mais romantismo. Pega mais pra mim por favor, tá atrás da garrafa de água amarela.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Yin x Yang

Sempre acreditar. Olhar para frente. Encher os pulmões de utopia, cavar pequenas soluções. Usar o pessimismo para construir alternativas. Rezar não ao metafísico, mas ao equilíbrio. Juntar forças, reunir idéias, cavar soluções. Plantar e distribuir liberdade. Chorar, perder, recomeçar.

Sorrir. Reagir!

Ser contraditório faz parte, não há vida sem contradição mas é na ação que há o maravilhoso desejo de mudança. E como dizem em 68, "Ser realista, exigir o impossível."

segunda-feira, 31 de março de 2008

Felicidades

No entorno do teu corpo
Jaz um pedaço de mim
...
Enluarado sob o cadafalso
Do meu(nosso) fracasso.

As memórias que não eram dele

Rafael sofria de um mal irreparável. Memórias que não eram dele. Não eram de ninguém na verdade, apesar de alguns indivíduos se apropriarem no entanto de algumas, no desenrolar dos fatos, elas surgiam, e eram sempre de sujeito indeterminado.

A questão, e era sim, esta a grande questão, que Rafael não sabia exatamente onde começavam suas memórias e onde terminavam suas ilusões. Ninguém sabe na verdade, mas no caso específico deste jornalista desocupado, havia um quê de patológico, que transformava sonhos, alentos aleatórios, imaginações em fatos, em verdade, em história.

Não era algo tão fácil, preocupar-se com o inesperado, com o não acontecido. E a fronteira entre o real e o imaginado, era para Rafael, tão tênue quanto a espuma de uma cerveja servida num dia quente. Não saber o que era real e o que era imaginado era um delicioso jogo de armar, mas Rafael sabia, que o real era tudo o que estava dentro de seu escopo, e o que estava em seu escopo, era o que ele sim criava; era um vocacionado niilista de profissão.

Treze cervejas, mas na verdade eram doze, isto não fazia importância, não para ele, este puto cacofônico, que repetia e perseguia paroxítonas como quem come vogais de ócio seguidas de hiatos de felicidade, mas acostumara-se a duvidar de suas memórias: quatro ou cinco páginas lidas? sete ou oito estruturas verbais? Amanda ou Mônica? Catete ou Flamengo? Pós-estruturalismo ou arquitetura neo-romântica?

Depois da chuva torrencial, compreendeu que deveria partir, e foi asim que avisou, acenou, para os que o acompanhavam, que deveria misturar-se a multidão, uma multidão de vozes que calava dentro de si, para depois então prosseguir, atravessando uma avenida de mão dupla, quase-atropelado, onde às quatro da manhã encontraria em sonhos, metade dos seus amigos ou reclamando daquele fato dormindo, ou sonhando com ápices sexuais muito mal reprimidos.

A verdade, e verdade era algo tão manipulável quanto uma massinha de modelar às cinco da manhã, era que as mentiras, ou diria em tom reprovável - respostas acomodadas que tornavam-se parte do real, e ele sempre fizera questão de separar, reprimir, o real do ideal, por que supostamente isto o faria mais concreto dentro do esfarelamento crônico da modernidade.

Vendo toda a questão por um lado Vassilliano, e este lado era a aresta mais individualista que ele pudera conceber, tudo tornava-se apenas um quebra-cabeças mal encaixado, onde o azedume do respeito concentrava-se isoladamente em um feiche mal feito de poesia: TODA PARTE INTRADUZÍVEL É ALGO QUE CLAMA POR UM GRITO. UM GRITO DE VIDA, DE DOR, DE ALGO QUE NÃO SE POSSA TRADUZIR COM CINCO OU SEIS CONTOS.

Não sabia muito bem o que era sonhado, o que era realizado, e odiava boa parte dos atendentes de telemarketing, quando, exatamente desdobrava-se e neste sentid0 esforçava-se para provar esta tese, começavam a utilizar gerúndios afetivos. Pois não existe o "estamos nos amando", existe o nos amamos!

Não é possível estabelecer pontes sinceras entre o ideal e o real conquanto se busque algo que continue a saber que pode não ser real: como daquela vez em que socou um desafeto, quando na verdade, estava dormindo às seis da manhã num ponto de ônibus mal-cheiroso.

A verdade era que estava cansado.

sábado, 29 de março de 2008

Superego(s)

Meus zines (todos devidamente impressos, exceto o número 04, mal impresso)

Superego 01


Superego 02

Superego 03

Superego 04

Supernova

[ Publicado originalmente na puta que pariu, este conto foi a primeira aparição da ruiva. Estou republicando-o no original de 2004 ou antes disto(chutei a data) e é sem dúvida nenhuma um dos meus preferidos. Além disso, além disso é o caralho, a questão, é que, este conto FOI O PROPULSOR DE TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO AQUI. FOI ELE QUE ME INCENTIVOU A ESCREVER. NOTE, A IMPORTÂNCIA.]

Esperando telefonemas que não chegariam.

Lembrando de poemas que eu nunca recitaria.Foi então que eu olhei para mim e analisei minha antipatia exterior.

Eu gosto de filosofia marginal eu disse...

E daí?! ela respondeu.

Depois do terceiro copo de vinho eu subi as escadas do salão de sinuca, ela me seguiu. Segurei com uma das mãos o copo descartável com vinho barato e com a outra me apoiei em uma das mesas vazias. Ela olhou em meus olhos e disse que eu era um verdadeiro porra-louca. Olhei para o chão nesse momento, tomei coragem, a fitei durante alguns segundos e engoli o restante da bebida sem ao menos respirar.

Deixei o copo vazio cair sobre o carpete verde, da mesa de sinuca e soltei uma frase escrota do Nietschze: o que não nos mata nos torna mais fortes, afirmei. Ela riu. Um sorriso irônico, forçado, uma atriz, era o que ela era. Colocou uma das mãos sobre o rosto, apertou em sinal de tédio ou cansaço e apontou para um conjunto de bolas que estavam jogadas aleatóriamente pela mesa: Você sabe o que é isso? É um jogo. A vida é uma porra de um jogo. Mesmo você com toda a sua ideologia pretensamente esclarecida, deve admitir que não pode vencer todas. Que você pode se dar bem e se ferrar a qualquer momento. Mas mesmo que perca ou ganhe você deve dar a sua melhor tacada. Só que você com todo esse sentimentozinho escroto de individualidade retorcida só consegue soltar esses espasmozinhos filosóficos baratos para tentar me conquistar.

Eu mantive-me firme. As lágrimas atreveram-se a brotar no canto dos meus olhos, mas consegui segurá-las com uma olhadela rápida à única janela de alumínio do lugar. Vi pessoas se divertindo, vi homenszinhos vestidos de preto, mulheres fantasiadas para matar, para morrer, enfim, toda aquela baboseira de rebeldia sem confronto, sem dor, sem "causa". Mas eu tenho um motivo; enraiveci-me.

Seus motivos não são seus objetivos, eles são apenas motivos. Paradigmas. Você é um desgraçado de um paradigma. você odeia os paradigmas. Mas você é um deles cara. Você é um deles e não afirma isso sem meia dúzia de palavrões "teorizados" ela disse.

Dobrei os punhos, me apoiei sobre a mesa, peguei a garrafa com violência e comecei a beber.

(ela continuou) Você continua preso aos seus estereótipos, a sua filosofiazinha idiota, a sua vontade inepta de continuar buscando, buscando e buscando a perfeição em forma de versos, textos e desafios emocionais!

Eu somente bebia. Virei a garrafa com vigor.

Você ainda é um filho da puta especial porque continua a assumir esses rótulos escrotos sacou?

Você continua a afastar as pessoas porque não conseguiu se aproximar delas de forma mais sincera!

Você busca padrões em tudo o que procura! Você não quer ou nunca quis originalidade, você quer seguidores, encostos, muletas emocionais para sua personalidade fértil! Um estampido.

Arremessei a garrafa em uma das paredes. Olhei para aqueles olhos azuis (os meus já em lágrimas) soluçando e gritei: Você não pode me entender!! Você nunca pôde e nunca vai poder! Porque você nunca me conheceu o suficiente para ter noção da dor que eu sinto. Da vergonha que eu tenho em nunca parecer sincero, em nunca agradar o suficiente ou mostrar para o mundo o que eu sinto. Eu...eu... tentei tocar músicas, fazer músicas, para ser compreendido, eu..eu... escrevi textos, mas eu
falhei, merda, eu falhei. Ela afastou-se. Deu dois passos para trás. Ajeitou aqueles lindos cabelos vermelhos, deus, só eu sei o quanto eram lindos, para trás das orelhas e começou a chorar também: Eu estou disposta a te ajudar. Eu estou disposta a compartilhar dessa alegria de viver e dessa dor contigo, mas eu não posso ficar a mercê da sua instabilidade, do seu temperamento inconstante entendeu?

Fiquei mudo, ajoelhei e chorei mais ainda.Eu posso ficar do seu lado ela falou. Mas eu não quero...
Eu não quero ver você assim. Você vai ter que reagir. Eu nunca vou lhe cobrar um amor eterno porque sei que você me amará do jeito que eu sou. Mas eu não posso ver você assim! Ela ajoelhou-se em prantos.

Foi então que nos beijamos ao som de um bonito solo de sax de um velho e decadente músico que tocava solitáriamente na esquina mais próxima. Eu estava feliz por tudo o que ela tinha me dito. Foi aí que tudo começou: eu acordei. Sozinho... Mas acordei feliz.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Origami Emocional

Dobrei-me...
Como um origami emocional
Criei camadas de vida
Voei, espalhado pelo vento
Como um barco sem horizonte
Despedacei-me no mar
E vi que a felicidade
Estava na minha mão

A alegria era uma folha de papel
Eu a dobrei como um envelope
E coloquei recortes de revista
E dúvidas de jantar em seu interior

Comi desatinos e engoli timoneiros
Sem pensar, sem sonhar
Que a água que eu outrora bebi
Iria dessa vez, me afogar

Liguei o rádio
Mas não havia estação
Olhei para o sol
E ainda era verão

Gritei ao som do enfado
E não entendia...

Por que naquela maldita quinta feira
O meu olfato sentia cheiro de morte

Dancei, dancei, dancei ao som da música
Sem saber, que não se baila
Com um caixão em uma das mãos

Olhei para o horizonte
A vida era algo normal
E o meu normal, não dizia nada
Para seis bilhões de pessoas

Bebi cervejas no escuro
E achei que iria me curar
De algo que nunca tive

Costurei falsos caminhos
E só percebi
Que no palco do teatro
O ator sim, o ator era vossa senhoria
Vossa senhoria! O eu!

terça-feira, 25 de março de 2008

Não há mais mangas no quintal

"O homem é a natureza tomando consciência de si própria. " (Elisée Reclús)

Meu quarto fica no final da casa. É um quarto quente e um pouco abafado, estreito, com raios solares que não o esquecem durante todo o dia. Atrás do meu quarto, há um gramado simpático.
E neste gramado, há uma mangueira. É uma mangueira deveras libertária, ela nunca respeitou a ficção da propriedade privada; parte de sua frondosa copa avançara impiedosamente sobre o terreno da casa onde moro, alguns galhos atrevidos na verdade, galhos que quase tocam o chão, onde podíamos tocar as mangas com os dedos das mãos preenchiam parte da parede que segue cartesianamente até o final da casa. A casa termina, a mangueira não.

Seu caule está prostado no terreno do vizinho, ele faz o que quiser com a mangueira; se quisesse matá-la poderia ter feito, mas por bondade ou preguiça, ela ainda vive, e eu sou de certa forma grato por isto.

Haviam mangas espalhadas no quintal, muitas. Mas para dizer a verdade, eu nunca experimentei nenhuma delas.

Sempre que um vento do norte atingia o terreno, as mangas despencavam. Mangas suicidas. Eram tantas, que enchíamos baldes, galões de manga e só eu sei o que eu sofri para catar todas as últimas que caíram.

No início não incomodava muito. Eram só frutas. Mas aí começaram a cair os galhos e as folhas. E caíam exponencialmente.

Incomodado fiquei realmente, quando encontrei suco de manga na geladeira. Mas não era da mangueira. Não daquela, talvez de uma prima distante. O suco estava numa embalagem industrial; aquilo era uma contradição explícita, a mangueira tinha razão, eu não tinha a mínima consciência ambiental.

Minha mãe também não. E mandou podar a mangueira.

No início achei razoável. Cortar umas arestas sobrando daria vida nova à mangueira, quisera eu poder fazer o mesmo. Mas no dia da poda eu me entristeci, pois percebi que estavam cortando além da conta. E a conta era do tamanho do horizonte da minha janela.

Deitado na cama, eu conseguia enxergar a mangueira e uma outra árvore, cujos limitados conhecimentos arbóreos não conseguem nomear, mas posso dizer que é uma árvore mais disciplinada, cresce e conforma-se perpendicularmente ao solo, seus galhos são curtos, seu caule é longo e ela não atrapalha a disposição matemática daquele jardim, construído, diga-se de passagem.

A mangueira tapava todo o horizonte, e ninguém consegue construir horizontes com facilidade, contudo após a poda o horizonte que ela tentara esconder, revelou-se de imediato, tomada por um golpe de mágica. A tristeza da poda, e como foi triste ver seus galhos serem levados abruptamente, deu lugar a uma observação detalhada, um compasso delicado sobre a natureza; uma verdadeira e detalhada observação do fluxo natural das coisas.

Não existia grama embaixo dos galhos da mangueira pois o sol não chegava ali.

Não existia horizonte nos meus olhos antes da poda; eu só enxergava os galhos e o verde da mangueira, este era meu horizonte, enquadrado por uma janela e perseguido por uma mangueira. Mais do novo horizonte, surgiu a vida, lentamente construíndo-se em torno de metáforas e de natureza.

Mas antes de continuar a falar sobre a mangueira, eu preciso falar daquela árvore que eu desconheço o nome e está plantada mais próximo a minha janela. Em um dia de insônia o vento a balançava suavamente. A árvore não lutava contra o vento, assim como o leito do rio não luta contra as pedras que o cortam. Outro dia, percebi a árvore parada. Não ventava e ela não se mexia.

ELA NÃO NEGAVA SUA PRÓPRIA NATUREZA.

Voltando a mangueira, a grama comecou a crescer, o horizonte se ampliou. Não lamento muito mais por ela. Por que agora posso enxergar o céu como jamais pude da janela do meu quarto. E quando o céu está chuvoso, e eu adoro os dias chuvosos, levanto-me da cadeira, paro de escrever, debruço-me por sobre a janela e olho para aquele horizonte cinza, e cinza não é uma palavra adequada e nenhuma é, para traduzir o que é este horizonte nesses dias.

E eu não consigo escrever quando isto ocorre.

Por que seria mesquinho demais falar de mim, somente de mim, quando me sinto completo e perdido na imensidão do todo.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Condição de Classe

Olhava para o ponto de ônibus com irritação. As pessoas se espremiam como peças certas de um quebra-cabeças mal feito, e quando o ônibus aproximava-se, havia um mover contínuo e frenético; quase uma explicação prática sobre a teoria do caos, algo como a aleatoriedade das partículas e das gotas de chuva que caíam sob os pará-brisas; Luciano comparava aquele ritual, a um embaralhar de cartas. Todas de um mesmo baralho.

A ansiedade percorria suas veias, sempre que o coletivo se aproximava, parecia no entanto que o tempo esticava, aumentando exponencialmente este seu sentimento agudo, a ponto do desejo intenso de ir embora, sair dali, fugir daquela fumaça, do ponto cheio, da urbe calorenta e do pouco espaço vital que tinha naquele momento, alimentar uma misantropia que em outros momentos de lucidez lhe seria extremamente condenável.

O sol escaldante agredia sua fronte, a fumaça negra dos coletivos, uma afronta aberta à gaia, a si próprio e aos que estavam ali, deixava claro a condição de classe a que fora submetido. Não era tão óbvio como parecia ser, Luciano, podia para alguns ser um mero produto da indigna ascensão social pequeno-burguesa, de classe C3 a C2(lera numa revista respeitada num consultório dentário, as novas e recentes classificações de classe, doze, segundo a renomada revista), fato irrisível que não assumia para si.

O terceiro coletivo, amarelo, cortando seus pensamentos e uma kombi que realizava transporte ilegal(ou seja, aquilo que o estado não ganha dinheiro - pensou) despertou uma satisfação momentânea: "quero fugir deste lugar".

Esbarrou em uma ou duas pessoas, mas não havia tempo para educação ou idealismos, a realidade e o ônibus amarelo - naquele momento um verdadeiro Hegel da filosofia, lhe impunham uma outra dinâmica. A subida no coletivo começou a lhe impigir outros desafios existenciais, dilemas filosóficos; deixar a srta. de vestido verde ultrapassar sua frente seria um ato de educação ou de comiserabilidade? Lembrou mais do "torna-te o que tu és" da aula de filosofia ocidental, e resolveu não promover nenhum sentimento de desigualdade, deixando a morena de olhos claros a ver coletivos(na verdade seu atual estado civil era o desinteresse - e isto teria de ficar claro após duas ou três olhadelas).

Rodou a catraca do ônibus, sentia-se meio homem, meio gado, posicionou-se no banco mais alto, mas no fundo estava na mesma posição, uma posição de classe.

O monstro de metal avançou, o cobrador visívelmente entediado, batia insistentemente a moeda em um dos ferros de alumínio da condução, sua expressão transpirava desistência acumulada e o tintilar emudeceu diante do motor agressivo do ônibus. O vazio do coletivo, começava a dar lugar a uma sequência de expressões corporais, gestos e fisionomias, que ocupavam espaços, clamavam o mínimo de dignidade conquanto não demonstrassem tão abertamente.

A quimera avançava, a paisagem retorcida, inundada de cimento e concreto, sufocava os pensamentos, alimentava a desilusão e disseminava um sentimento de desconfiança, um afastamento progressivo, que vez ou outra era vencido por uma atitude mais cordial, como o de pegar moedas caídas.

A velocidade aumentava, a paisagem também, a cada ponto, a cada parada, o moinho de metal engolia mais incautos: um bom almoço a serviço do capital. Cinco ou seis passageiros se acotovelavam num espaço que cabiam dois ou três, o barulho da catraca, da roleta ritmava a respiração do monstro motorizado moderno,(o trajeto ainda não tinha se fragmentado em "múltiplas" identidades a ponto de tornar-se tão pós-moderno) enquanto Luciano perdia-se em seus próprios e ocultos pensamentos, sua indignação por estar ali, espremido como todos os demais era tão nítida, quanto aquele trânsito incongruente.

Estava abafado.

Observou um caminhão de carga, preenchido por batatas, - No fundo, dentro desta lógica, é o que somos para eles(referia-se aos donos do poder, aos donos do capital): Meras batatas. Mercadorias.

Transitando frenéticamente em torno de um circuito construído, trabalho x bairro dormitório, bairro dormitório x trabalho, Luciano entristecia-se com o holocausto(como pseudo-poeta tinha a licença para promover apropriações) social que se avolumava, não conseguia manter a calma dos cínicos diante a miséria; a cada pedido de esmola, a cada notícia de jornal, a cada degradação calculada, Luciano enchia-se de indignação... Encher os pulmões de utopia era o que lhe restava, não aceitava ser conformado nas linhas de produção do capital. Jamais! Guerra ou morte!

Alinhar-se com o inimigo nunca! Iria até o último suspiro de força se for preciso!

É preciso saber a condição de classe! - gritou para todo o ônibus.

Como um imã, os olhares foram lançados até o fundo do ônibus, a viagem emudeceu. O arranque do motor descongelou a situação.

Por fim o trânsito de batatas, de pessoas prosseguiu em seu interminável objetivo, a fornalha do capital estava sedenta, era preciso alimentá-la com mais um coletivo repleto de desejos, mas se dependesse de Luciano e da rebeldia coletiva, que mesmo sufocada por entre os dentes, estava lá, no fundo dos olhos de cada passageiro, teria uma bela indigestão.

domingo, 16 de março de 2008

Chovia quando ficava triste

Choveu. E então o céu lacrimejou suavemente, como se aguardasse um afago.

O afeto de Vasilli estava espalhado por sobre a mesa, davam o nome de Vodka, e estava distribuída por uma dose de limão, acúcar e gelo. Jazia também, uma caneta por cima da mesa, próximo ao cinzeiro, repleto de guimbas do passado, dor nostálgicamente posicionada por cima do seu horizonte de dúvida.

Não havia muito a fazer, a não ser observar os pingos da chuva rabiscarem o céu, a varanda, e seu coração, aguardando que em determinado e específico momento não combinado entre os dois(ele e o céu) algum dos dois teria de parar de lacrimejar.

O céu era forte, amplo, mais Vasilli muito mais infinito, rabiscou o papel a procura de inspiração, ou melhor calma, para expressar o que ele sabia bem que somente o fundo de seus olhos poderia dizer; olhando para os lados, mexendo os dedos por entre o cabelo desgrenhado, abaixando-os a altura dos pés, movia seu pensamento de um lado a outro sem encontrar respostas, mesmo com aquela música de jazz que ouvira semana passada e não conseguia esquecer.

"Procurar não traz a paz. A paz só vem quando a gente esquece. " Filosofou em tom de cinismo, cinismo consigo mesmo, por que naquela casa mal conseguia se carregar, quanto mais conviver com os demais.

A vodka aqueceu a garganta, mas não os paralelepípedos molhados da rua, pouco limão, pouco limão... Levantou, deixou o copo em cima da mesa, debruçou-se na varanda, mover o corpo não era uma estratégia, era uma instinto básico de sobrevivência, o olhar girou seu corpo e olhar em direção ao final da rua, vez ou outra, captava algo. Sensação estranha aquela.

Está no ar. Veja bem. A angústia está no ar... e eu aqui, a captando. O céu está triste, encerrou, como estivesse provando a si mesmo que o motivo daquela tristeza era apenas a de efeitos colaterais que o levavam a desenvolver algo brilhante... uma vida brilhante.... uma idéia brilhante... uma filosofia de botequim brilhante... ou até mesmo uma frase, ou uma poesia brilhante...

Este ledo engano, era teleológico por demais, e ele acabava perdendo partes das esperanças que simularara para si e retornava ao ponto original como num dificultoso jogo de armar castelos de cartas ou de areia... Desistia de enxergar a tristeza com tanto otimismo, na segunda ou na terceira dose de saudade ou de medo.

Voltou a mesa, mexeu no cigarro, como aguardando um reflexo, algo que se movesse, que o tirasse da habitual tristeza. Mas não... ele bem sabia... por quanto sempre estalava nessas horas uma parte de si deixada à própria sorte, que decidia por fim reagir, mesmo que devidamente reduzida de suas forças na tentativa de o animar....

Havia um quê de secreto, naquele pacto silencioso entre Vasilli e o sagrado(considerava aquele ritual sagrado, um sagrado não sacralizado, um sagrado não-divino, um sagrado que agradava por fim, os ateus), entre suas lágrimas e a chuva, entre seu destino e seus passos...

Fingia otimismo quando lhe interessava e o contrário era mais habitual, era verdade, vez ou outra não fingia nada, era sincero, depreendia daí o problema e a incapacidade objetiva de o ajudarem.

Poucos poderiam, já não acreditava em nenhuma ajuda que não cobrasse noventa reais a consulta, afinal desconfiava de boa parte do altruísmo que aguardava cinco minutos a sua vez de falar, que não descortinava a tristeza alheia, que não remoía no fundo o que verdadeiramente se escondia naquelas frases, sim, pois é ali, é mais na parte sul do abismo interior, revelado por cinco ou seis olhares, por dois ou três atos falhos, que Vasilli se escondia, e como todo mal cristão, a introversão fazia parte do pacote.

Não se escondia tão fundo assim, bastava coragem, sensibilidade ou intuição(ou um misto das três), para descobrirem em que parte do penhasco se encontrava, mas tal tarefa, não cabia à desajeitados/as ou a covardes. Ninguém olha espelhos para negar o que sabe, mas sim o inverso.

Começava assim a treinar, a adaptar-se ao kung fu emocional, fundar seu jogo de xadrez fora do instinto, dentro do real e começou a temer, na segunda ou na terceira golada daquele resto de limão com tristeza, a profundidade do abismo em que se jogara.

A grande questão era saber se seria resgatado; ou se queria mesmo.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nem tão mal assim, nem tão bem o suficiente

Ruiva, sabe exatamente como o corpo reage a angústia? Já sentiu os olhos úmidos de lágrimas, e a garganta engolir aquela decepção embalada antes do café-da-manhã ruiva?

Meus passos longos precipitaram uma imensidão de cores, cores que eu não consegui filtrar(e quem disse que eu deveria?); ela apenas racionalizou o mundo a nossa volta Ruiva, ela matou o dionisíaco que nos temperava, ela pragmatizou a realidade ao nosso redor.

Faltou-lhe coragem? Coragem esta que me sobrava... Mas eu Ruiva, este tonto Vasilli, enebriado pelo desejo de re-construção dos cotidianos, não conseguiu compreender que isto apenas dizia respeito ao poder de decisão dela Ruiva, e não do meu, de convencimento(e eu repito isso para me convencer... para me convencer racionalmente, mas emocionalmente nunca me convenci).

E cá estou eu, cercado de guimbas de cigarro, fuçando livros no centro da cidade na terceira quarta-feira do mês, comendo uma esfiha com gosto de saudade Ruiva, e secando lágrimas que eu nunca despejei na verdade, metaforizando tudo ao meu redor, tudo, por que assim, o mundinho cinza dessa urbe impiedosa ganha mais vida.

Já não estou nas suas fotos, sei disto Ruiva, ela me apagou de todas as suas fotos e suas recordações, as minhas frases de efeito e meus ditados clichês, ecoam por cinco ou seis amores esquecidos, por que idéias não morrem Ruiva, idéias são a prova de balas, e no fundo no fundo é assim que me sinto, uma grande idéia presa num corpo humano, demasiadamente humano; e talvez seja esta minha função no mundo Ruiva, fazer parte de momentos longos(para muitos, e curtos para mim) onde eu tenha me transmutado não em corpo, mas em espírito.

Exercitei a imaginação alheia demasiadamente, e em troca, (dentro desse olhar egoísta inconsciente) apenas recebi letras ruiva, letras que eu já tinha de sobra.

Anatole, fora de sua habitual inabilidade para com piadas, conseguiu fugir do padrão esses dias, e disse algo que realmente me interessou(a posteriori - é claro, eu não daria este gostinho ao puto):

"Precisamos de uma novo tipo de tuberculose que só consiga matar os poetas."

Nato está certo, não há mais glamour(se é que houve algum dia), mistério ou mágica em trocar emoções por letras, isto já foi intensamente exercitado e minha verdadeira profissão de fé é me iluminar diante o esquecimento. Nossa miséria é tão escassa ruiva, que me envergonho de despejar esta parte de mim, não é justo dar aos outros uma metade de você que eles acham ser a inteira, a impressão normalmente é que se costuma vender algo, por um preço muito mais alto do que podem pagar.

Ruiva, quando olhei para tuas fotos, me lembrei o quão inadaptado eu me sentia ao lado de determinados grupos, e eram poucos, muito poucos, os que eu não tinha de me esforçar para vestir aquelas personas descartáveis irritantes, mas isto é um fato tão coerente e corrente que no final das contas, me achava mais e tão verdadeiro quanto possível.

O daqui pra frente é uma estrada deliciosa Ruiva, este paradoxo ambulante de nome Vasilli, no fim das contas concorda que a tristeza é o verso da alegria, não sabe bem como autogerir isto a ponto de equilibrar-se sem muletas, mas está no caminho... Irrito-me com a necessidade mórbida de imporem a ditadura da felicidade, isto é triste demais ruiva... gente sem verso é apenas um simulacro de ser humano...

Isto é tudo Ruiva, mandarei outras cartas depois, pois já não tenho mais para quem enviá-las, me sinto meio Anatole agora Ruiva, distribuindo metades de si para muitos(quando sabemos que ele é inteiro, não metade) aguardando compaixão, mas não há compaixão suficiente, nunca há, e depender desta caridade emocional definitivamente não diz respeito aos espíritos livres(e quem disse que eu quero ser? deixe o ubermensch para as próximas gerações...).

Agora me vou, esgueirar por entre o cotidiano, apesar de continuar a me sentir sozinho, ainda posso olhar ao lado e ver muita gente ao meu redor.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Disputas Interiores: Durden ou Poulain?


Olhando para tudo o que aconteceu, tinha quase certeza de que o caminho, sim, pois era seu sem dúvida, era um caminho pra lá de interessante. A maneira com que recriava a vida ao seu redor, era em suma, parte de um processo global, isto é verdade, e acreditava e confiava nas redes que o envolviam, e tudo, tudo, dizia lembrando daquela terça-feira mágica, era parte daquela trilha, daquela estrada, deste caminho, ríspido, suave, intenso, jocoso, brilhante.

Poderia encher o copo da vida uma ou duas vezes, antes de experimentar a dor, e o que era a alegria sem a dor, o que era a paixão sem o ódio, o que era o dualismo sem o relativismo, o que era ele próprio sem si mesmo!!! Confiar no sagrado era o início de um processo curto de esperança. Era um feixe de respiração otimista.

Fazendo um balanço sincero e motivado de seus/meus próprios costumes lembrava demasiadamente das músicas tristes, das cartas sinceras, das lágrimas despejadas sob o copo de cerveja preta, que ele, sim, ele tanto adorava. Era um romântico incurável, e românticos incuráveis, necessitam de mais tempo, nenhum tempo é tão escasso, quanto o tempo dos românticos incuráveis. Ele sabia, e demonstrava a cada gesto, que era uma junção de simplicidade explorada demasiadamente pelo destino a ponto de exaurir seu próprio otimismo; e no entanto conseguia a cada respiração, ser visitado pela morte sete vezes, assim como os budistas; e que deus os tenha.

Mas lhe faltava maldade. Não se referia ao mal convencional dos filmes hollywoodianos ou das igrejas de final de semana; faltava-lhe, e podia perceber a cada evento, uma percepção mais nítida, e a este ponto preferia a palavra parceria como o oposto do que ele era e negava.

Era claro e necessário, que ele deveria fortalecer aquele lado escuro, que tanto deixara-se ofuscar por sua parte mais criativa e dera a uma ampla gama de jogadoras, a oportunidade de deliciarem-se com modelos paranóides produzidos sob situações de tensão; ou diria melhor, bonequinhos perfeitos, imagens projetadas no espírito do tempo a partir de espasmos pré-românticos, mas veja bem, e preste atenção neste período, neste momento, tão particular e talvez inovador... espasmos pré-românticos são como comportamentos clichês às sete da manhã.

"Passe-me a manteiga por favor! (me passa a porra da manteiga!!!)."

O espírito do tempo não estava com ele desta vez(nunca esteve). Adaptaria-se?

Adorava utilizar opostos para explicitar a si próprio; água x fogo, yin x yang, sombra x luz e como a modernidade lhe impunha novas e sensacionalistas abordagens, Anatole resolvera escolher a dicotomia durden x poulain, que era um produto de filmes baratos que resolvera rever para explicar a si mesmo e aos leitores(dois ou três - num dia de sorte) o que era dicotômico em sua, em nossa, personalidade. (se você chegou até aqui parabéns! força! continue!)

Oposições que se completavam, mas que neste momento digladiavam-se em torno de uma resposta. Ele vai ter de escolher - diziam nos corredores do inconsciente.

Conseguiria trazer sua sombra?, sim ela dizia faminta - você consegue meu jovem, enquanto jovem; conseguirá empurrar mais para o fundo esta velha, sim, pois anime-se os anos 90 já acabaram junto com suas camisas de flanela, esta velha-idosa Poulain, espírito ultrapassado e prestes a reanimar o velho Durden, este arquétipo raivoso, esta parte de si que calava todas as vezes em que se confrontava com a doçura de uma parte de si que predominara durante todo o jogo; deixe ele tomar as rédeas da situação, deixe o velho durden dominar.

É claro que isso tinha um custo. Ele sabia, e dialogava muito oportunamente com os dois, com meio cigarro na boca, e um copo de cerveja preta, olhando para o horizonte(e seu horizonte era bem limitado por cinco ou seis prédios - isto dependia da quantidade de vodka) que tal tarefa não era tão fácil como poderia aparentar.

Sabia exatamente, que um estava em posição mais vantajosa do que os demais; Vasilli não admitia a princípio, mas as queimaduras de cigarro de quatro ou cinco anos arriscavam palpites de quem ganharia naquele momento o jogo, e isto era suficientemente claro para demonstrar que era hora de cultivar um caos dentro de si, não uma estrela brilhante, mas uma super-nova que talvez conseguiria gerir algo novo... de uma vez por todas.

Matar Poulain, enterrar Durden, talvez seja o caminho.... Ele não sabia exatamente...

Talvez devesse seguir o fluxo, parece fácil quando não se escreve por compulsão. Nada constava como editável, aproveitável; o lixo literário estava aí. O excesso de cerveja preta denunciava que seria mais durden do que poulain e não, ele não aceitava conselhos, por que esta mudança era temporária como toda mudança (normalmente) é. Decerto a maioria inspirava-se e acostumara-se a conviver mais com Vassili em sua fase "Poulain", fazia sentido, já que o espírito do tempo abortava milhares, milhões de Amélies Poulains sistemáticamente...

E a gente costuma projetar no outro o que a gente quer ser. E assim fica fácil pedir para Vasilli ser mais Poulain. Quando o que ele quer. É ser mais sombra, é ser mais durden.

[sorriso da ruiva no canto da sala - cigarro na boca, fumaça no ar, ele dormindo, ela acordada, vestindo preto, sofá sujo, gato preto na casa, lixo no quarto.]

Abandone a meditação, siga o caminho




Reconstruindo meus silêncios. Caminhando... como um gaijin deslocado do tempo, não do espaço.

Olhando meus abismos. Talvez não sejam tão fundos. Verei ao caminhar...

Meditando; há uma rocha, estou no alto, estou perto do abismo, da ribanceira, mas não a temo.

É mentira. Eu abro os olhos. O vazio está mais próximo. Eu levanto, abandono a meditação. Talvez caminhe mais um pouco.

Talvez caminhar naquele plateau seja mais seguro. Talvez. Eu pego minha mochila. Pego em meu bolso uma velha foto. A foto ainda não está desfocada. Nítida demais.

Eu pego minha mochila, eu me lembro de tudo. De tudo. Ainda.

Vou meditar naquele plateau. Será mais seguro, daqui para frente, será muito mais seguro.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Jamais apedreje seu destino

Abandonaria um pouco as metáforas. Seria mais direto. Direto como um não. Como uma recusa. Duas recusas, três, quatro recusas. No quarto a música preenchia o ambiente, por que o silêncio é amigo da dor e não, já não havia mais espaço para a dor. Já tinha dor demais, uma dor que enchia dois ou três ou treze copos de cerveja e descia congelando o que restara da sua esperança. Uma dor que em outras épocas arrasaria tudo o que conquistou, mas não, agora, Anatole, este puto onisciente era um puto forte. Um puto resistente.

Dizem que a esperança é a última que morre. Mas ninguém disse que ela é imortal. Um dia ela morre. Demora a morrer, mas morre. Vai morrendo a míngua, ou súbitamente estraçalhada pelos fatos. Sim, pelos fatos. A vontade move muita coisa, mas a vontade também esbarra no outro, na outra, no alheio; no que não é nosso(e nada, escute bem, nada é nosso além do próprio corpo e das próprias palavras - pois a propriedade como diria Proudhon é um roubo). Mas a esperança é uma fênix. A esperança não desiste. Por que o novo sempre brota das cinzas do velho.

No final das contas esse é o limite. O limite que é criado pela liberdade do indivíduo.

O sofrimento é inevitável, Anatole acreditava nisto, concordava neste ponto com os zen-budistas, os que vendiam incenso na esquina daquele mercadinho simpático onde comprava arruda e feijão, todavia esperava um pouco mais de misericórdia do destino. Palavras tinham poder e se são as armas que matam o corpo, são as palavras que chacinam o espírito. Na verdade é a incongruência entre ação e palavra que o irritava(mas todo mundo agia assim - havia um quê de perdão intríseco nas palavras). Preferia o não sincero, do que o sim hipócrita.

Construir tronos de pedra sob paredes de vidro não era lá um hobbie agradável.

Já não sabia mais quais eram realmente seus limites, isto por que as situações forçavam e tensionavam-os até um ponto insuportável. Sua mente era um campo de batalha. Seu corpo, uma armadilha. Um campo minado.

Sofrer é inevitável, dizia com os zen-budistas entre os dentes, cheirando molho de macarrão vegetariano, escutando Charles Mingus, mexendo a colher de pau suja de molho de tomate que parecia sangue e deixando a vida, e o cabelo crescerem diante de seus olhos... Mas ainda assim, percebia, e tinha realmente esta capacidade, de fazer do trivial um pedaço de luz, uma inspiração, percebia que apesar do otimismo que floreava em sua volta, ele daria mais algumas voltas para repensar o que achava que era meramente essencial(vindo da essência queria dizer).

Quase agradecia, mas não agradecia conquanto, portasse dentro de si uma tranquilidade que permitia a si mesmo, encontrar-se com o divino; não o divino do metafísico cristão, mas o divino do meta-physis grego, o divino era o tao, o divino era o encontro das redes, das conjecturas, dos paradoxos que se digladiavam por vitória e ainda assim se encontravam paralelamente no infinito.

Chamava este infinito de dor.

Dor.

O que era falso...

Nenhuma dor é infinita, portanto que se percebam as incongruências de Anatole. Ele era incongruente. Dizia odiar água gelada, mas abria exceções, dizia não comer palmitos; mas deliciara-se com as exceções num almoço pseudo-vegetariano. Anatole não era própriamente uma farsa, vide os seus atos demonstrarem que normalmente(e ele não sabia o que era normal - e o normal ele afirmava: "era o que você não é quando está com a auto-estima baixa, e o que você é quando está fudido com uma garrafa de vodka Bakunin entre os braços") era um bom sujeito; sim, um bom sujeito.

Não sabia exatamente, e foi descobrir isso, na terceira garfada daquele macarrão políticamente correto, por que abandonara a filosofia de botequim e começara a se concentrar na terapia, duas, três, quatro vezes por semana que se inscrevera num ano bissexto repleto de felicidade, de alegria e de decepção.

A memória voava e ele deveria registrar esse dia, por que dias específicos devem ser registrados. E ele conseguira se vencer. Parou. Conseguiu freiar seu ímpeto em dois ou três dias, e isto era um sinal de juventude ou de amadurecimento.

Anatole, subira a passarela, andara de metrô, vestira uma camisa branca, esbarrara em um, ou dois transeuntes... Lembrara dentro do metrô, quanto tempo leva-se a escrever uma carta de amor, e se isto, se este gesto, se este ato não conseguisse emocionar(palavra jargão - mas que podia ser livremente utilizada pelo seu espírito livre) ou tocar duas ou três pessoas, prefereria encerrar sua história por aqui(estória).

Não tinha muito a escrever, já tinha cozinhado parte de suas decepções junto com aquele macarrão simplório que insistia em sofisticar parte de sua vida, de sua dor, quando Vasilli, chegou...

- Animação meu amigo. Trouxe metade de uma vodka, trouxe chimarrão para amanhã, depois da ressaca... e adivinhe? Trouxe um livro de poesias!

- Imagino que o livro não seja seu, decerto...

- Não. É nosso.

Disse Vasilli, com força, com raiva, repousando a garrafa bruscamente na mesa de vidro. Não era Vodka, era licor de menta. Por detrás da satisfação de Anatole, havia uma caixa de cervejas geladas, repousada próximo a porta daquele apartamento cansativo. Limpo, o que cansava Vasilli. Sofás de couro sintético, quadros de pintores, filósofos e outros pulhas que Vasilli costumava esbanjar ou ridicularizar em público nas sextas-feiras... E ainda assim, Anatole, mesmo no pior de seus momento, conseguia pormenorizar sua dor.

Nato! - gritou Vasilli. Você precisa de uma boa dose de futuro. Passado já há demais.

O telefone tocou, interrompendo os dois, faces distintas de um vazio futuro. E sim, o vazio podia ser o futuro e o futuro podia ser o vazio.

Vasilli...

- Diga Nato. Respondeu Vasilli com uma tragada corajosa.

Quando a ruiva vem?

Ela não vem Nato.

A ruiva morreu?

- Morreu porra. Morreu junto com uma parte boa da gente.Justify Full


Agenda de Sonhos

Sonhei que estava numa mesa, com representantes de diversos países do mundo. O mundo estava num colapso global. Cada vez que algum representante de algum país falava eu procurava na minha carteira uma nota de dinheiro do respectivo país. Logo depois, eu sonhei que estava no metrô de são paulo, e era o último metrô. Os assentos eram laranjas e eu não sabia muito bem onde descer. Na descida eu conversava com um menino negro, de pés descalços, com roupas esfarrapadas e que ganhava a vida com pequenos furtos, ele conversou comigo durante algum tempo, assaltou um pedestre que passava, e eu convencia o pedestre de que aquilo era inevitável.

Depois eu sonhei que atravessava uma avenida bem larga, estava tudo muito escuro. Eu entrava por um portão, num lugar muito esquisito, entrei numa espécie de templo, casebre de madeira, onde lá dentro um sábio, guru oriental falava para uma pequena platéia. A decoração e o ambiente eram bem soturnos.

Após isto, sonhei que estava no meio desta grande guerra. Eu estava situado no alto de um prédio todo destruído. Eu ia descendo pela escadas, e encontrava um rifle para me defender. Eu me agarrava no beiral(numa atitude extremamente corajosa), descia para o outro andar, até que resolvi entrar no prédio, ao invés de ficar na parte externa.

Lá, eu descia e esbarrava com alguns soldados, e fugia destes. Com o rifle nas mãos eu descia até o térreo do prédio(ou subsolo - não sei bem). Onde estava se desenrolando uma luta entre dois exércitos inimigos. Eu atirava nos dois de longe, derrubava alguns, mas não eram própriamente humanos, eram como máquinas, bonecos. Eu fugia do prédio e bem, acho que foi isso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Eu Nunca Guardei Rebanhos

Esse sou eu. Agora, por Alberto Caeiro...

Alberto Caeiro
I - Eu Nunca Guardei Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

De quando leu Zaratrusta

Vasilli, pobre Vasilli, perdido entre as fendas das ruas, costumava a demorar mais do que quinze minutos compreendendo seu tolo papel no jogo. Vasilli, pobre Vasilli, esgueirando-se como quem súbitamente começasse um jogo de gato e rato pelas ruas do centro da cidade, onde na verdade, desempenhava ambas as funções. Era um predador de si mesmo, mas não percebia, e preferia ter de se forçar a meditar uma ou duas vezes por semana, ou participar de um campeonato de sinuca mal sucedido para entender definitivamente que as questões colocadas estavam em torno de suas parcas percepções. Percepções que se confundiam dentre este insistente jogo de imaginação ativa que deixara levar-se. Levava-se como quem carrega um mosaico à espera do manual de instruções; sim, mas outrora enganado podia habituar-se a repetir as mesmas palavras de encanto que o preenchiam, mas desta vez não, desta vez, Vasilli, o bobo Vasilli, sabia, tinha real ciência de que seu mosaico(como todos os mosaicos) não tinha quaisquer manuais de instrução.

Caixas herméticas o sufocavam, e vez ou outra percebia a expressão alheia em algumas faces mais receptivas, quase uma égide de conforto, um conforto subjetivamente deslocado do tempo, mas que inevitávelmente lhe trazia um espelho de si mesmo, emoldurado nos transeuntes intuitivos; descartáveis amizades de diálogos corporais que se confrontavam no espaço da urbe, que se encontravamem algum momento, sem necessáriamente compartilharem (ou perderem) tempo para com as habituais estradas que levam a estes momentos intrísecos.

Esforçava-se para construir, com verdadeiro esmero, um caminho habituável, honesto, e por que não dizer, cantarolar, trovejar uma historieta encantadora, um mito que perspassasse sua tola percepção finita e temporalmente situada, determinada talvez pelas condições históricas(talvez - afirmava a Anatole com um cigarro e sarcasmo entre os dentes, talvez Anatole...) e que conseguisse dar conta de seu sentimento (poder-se-ia chamar de megalomaníaco - se não fosse seu hábito disciplinar de manter seu ego devidamente aquietado) tão peculiar.

Mas ele sabia, e soube bem, da última vez em que tentou se esconder por detrás de meia garrafa de vodka, que as opções estavam em aberto como quem queima haxixe no sábado a tarde, mas que aquietar algo não é exatamente o melhor meio de equilibrar-se por detrás de um gangorra dúbia, uma faca de dois gumes, um eclipse parcial, um copo meio cheio e meio vazio, que clamava não por uma necessidade súbita de exposição, mas sim de que verdadeiramente falando, e da maneira mais popular que encontrava: ou se usa calça de veludo ou se coloca a bunda de fora.

Não era simplesmente uma metáfora elaborada, do jeito que agradaria intelectuais pré-sorbonne, e muito menos demonstraria um gosto estético, um meta-discurso avançado, mas o fato é que entre a terceira e a quarta garfada de uma comida vegetariana desprezível, num dia chuvoso, meio nublado, meio londrino, Vasilli teve uma ligeira impressão de que havia um ponto em aberto, um baú de utilidades (e talvez de desgraças) que permanecia aguardando atenção.

Zaratrusta era mais honesto e muito mais efetivo em distribuir conselhos aos outros e a si mesmo, era por isso que Vasilli só lera até a página 83, por que sabia que não conseguiria conviver com alguém que pudesse dar melhores conselhos para si mesmo.

Quanto ao baú, a capacidade inerente de transformar vidas comuns em situações pretensamente mágicas era uma capacidade que poucos tinham, é verdade, mas em seu caso, aquela sensação de cinismo se avolumava com sua incapacidade constante de prover a rotina de pontos vívidos de tensão ou que se adequavam a imagem perturbada, beatnik, nietzschiana, morelliana que costumava a dar a si mesmo(e admitir isso era um ritual próprio dos escritores que admitia inferioridade perante alguns gênios).

Tentar o melhor é bom o suficiente, e ele sabia disto, tanto é que não se importava em coroar cinco ou seis palavras com acentos circunflexos e pontos de exclamação nos lugares errados, por que deveria se manter antes de tudo como um "espírito livre".

Sabia disto, mesmo esparramado a caminho de casa, largado num banco no assento traseiro de seu ônibus mais odiado, quando assistia a miséria de perto, assistia, por que quando as articulações permitiam, deixava-se envolver, e permitia-se avaliar sua própria miséria, espiritual, não tão excessiva, mas de certo modo conectada com as misérias materiais que envolviam aquele mundinho decadente, pós, pús, moderno, que costumeiramente treinava em odiar.

Voltara ao centro da cidade, para comprar aquela máquina de escrever que tanto desejara, uma dor de garganta o incomodava, incomodava também, não saber como fugir daquele circuito bairro-dormitório, centro da cidade, bairro-dormitório, também o incomodava não conseguir terminar satisfatóriamente os contos que iniciava.

Tocava um soul music interessante no rádio, seu humor já animara-se(era parte da tolice este procedimento padrão de resgate de auto-estima vasilliano), já podia acender aquele cigarro mentolado, escutar um Johnny Cash sem lembrar de pequenos desastres e por fim, conseguia retomar o assunto inicial que estava no início do conto, no início de seus passos no centro-circuito da cidade, e que ele jamais conseguia se lembrar.... Qual era mesmo? Espíritos livres... tstststs...





sábado, 23 de fevereiro de 2008

Cachorro quente de esquina

Cachorro quente de esquina nunca é legal. Nunca é legal quando se mistura solidão com ketchup. Era isso que Inácio sentia. A maionese da sua vida era insosa, tão insosa, que ele vez ou outra tomava um refrigerante de indecisões no ponto de ônibus antes de ir para casa e também para tornar o paladar de suas escolhas mais saboroso.

Custava 1 real. Custava apenas 1 real deixar Inácio a mercê do destino.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O retorno ao primitivo

Às vezes lhe batia uma tristeza. Não era bem tristeza e não era muito específico. Deveria ter um outro nome para uma tristeza coletiva. Coletiva é, por que aflige a todos. E de certo modo também individual, por que se aflige a todos, está sim incluído. Abandonou a aula de lógica booleana e resolveu concentrar-se na chuva, uma chuva fina, dirigia, e odiava dirigir, enquanto o pára-brisa e aquele movimento contínuo lhe provocava uma pré-tensão, algo que iria explodir a qualquer momento, que o obrigava a tomar medidas sinceras e inertes para esconder o futuro momento de angústia. Resolveu desembaçar o pára-brisa com uma flanela velha, mas a chuva, e a pré-tensão, já quase tensão neste momento, aumentava; algo o obrigava a parar. Mas aonde? Era um br longa, mal tinha um acostamento, o mato e as cercas dominavam a paisagem. Bem vindo ao brasil pensou. Terra de latifúndios. Latifúndios de miséria. Miséria física e espiritual.

Mesmo atordoado, suas lembranças críticas tentavam trazê-lo ao chão: era inútil. Enfrentava-se, acelerava o carro, passava a marcha, mas não era ele que guiava a si mesmo, o carro não o levava, o carro levava um dilema, digladiando-se internamente, uma luta contínua, um homem a beira de um abismo que tinha apenas como fundo uma música clichê dos anos 90 e uma longa, uma longa e previsível estrada. Resolveu parar. Inventou uns seis motivos diferentes para fazer isso, mas no final já tinha abandonado as razões: "Que se foda. - pensou"

Saiu do carro. Abriu a porta, respirou fundo, não aguentava mais, a pressão tornava-se insuportável. O barulho da chuva tornara-se mais nítido. Nenhum carro a vista, ninguém, apenas mato alto, mato molhado, como sua roupa, sua calça jeans, sua vida, derrapando numa estrada previsível, desejava apenas uma curva, um caminho diferente, antes que o motor esquentasse.

Completamente molhado ergueu as mãos para cima num gesto patético de integração com a natureza. "Jogando toneladas de carbono por duzentos kilômetros, não há como falar em retorno ao primitivo - refletiu."

Tirara a jaqueta, apoiara em cima do banco, atravessou a estrada para o outro lado, desceu o acostamento, mas não atrevera-se a enfentar o mato, voltou ao carro. Acelerou molhado, completamente molhado, acelerou mais, e encontrou um velho ponto de ônibus, de madeira, uma meia choupana improvisada, com um recuo perfeito para encostar o carro por detrás e se secar ou molhar-se ainda mais.

Chutou uma lata abandonada na beira da estrada. Largou o carro. Largou o ponto. Caminhou sozinho, não fazia sentido, não aquilo não era racional, andou, o carro foi diminuíndo, vez ou outra olhava para trás(lembrava-se de uma parábola da bíblia, a do deus sanguinário, que mataria viajantes que olhassem para trás - zombou de deus)... Começou a rir, um riso descontrolado, fervendo histeria, o carro já sumira no horizonte, pela frente estrada, cimento, estrada...

Depois do terceiro relampejar, veio o choro, um choro desassistido, um choro veemente, firme, um choro honesto que não pedia licença! Chorou, entrou em prantos, a chuva caía, ela não ligava. As lágrimas, as gotas, o cabelo, a camisa molhada, e a lama próximo ao asfalto, formavam um todo. Ele já não se importava mais com as dúvidas.

Era o seu próprio destino.

Quando começaram a lhe deixar em paz

A cidade era a mesma de sempre. E isso já o deixava angustiado o suficiente para se permitir uma mudança. Habitualmente lhe traziam sempre uma demanda muito acima do que podemos chamar de normalidade, de problemas, problemas que não eram seus. Vez ou outra chovia, vez ou outra fazia sol, e entre as mudanças, surgiam esses problemas, dilemas, impecilhos internos, que não eram por suposto seus.

Disso decorriam algumas hipóteses iniciais não necessáriamente complementares nem excludentes que ele vinha por formular já há alguns meses, entre uma chícara de café adoçado e o balançar leve e tedioso do vagão do metrô . A primeira era que podiam o considerar um bom formulador de soluções, sua clareza convencia ou indicava as pessoas algum ponto de resolução.

Na verdade era mero discurso, ou melhor, firmeza no discurso, que transformava coisas idiotas ou filosofias de botequim em verdadeiras máximas morais. Esta clareza, convertia-o em um pólo aglutinador, um ponto de apoio de ajuda para resolução de problemas, não os dele é claro, estes nunca conseguia resolver.

A segunda hipótese era a de que seu espírito, já tão acostumado a flutuar sobre terrenas realidades, desprendendo-se de suas próprias dificuldades pessoais, e abandonando um pouco de ego, travando-se perto de um altruísmo não tão objetivo, mas por ocasião desse desprendimento, dessa terrível situação em ater-se a macro soluções e a idéias(adorava idéias) conseguia suportar alguns problemas alheios, já que os seus já tinha préviamente resolvido por meio da limitação prévia de objetivos puramente pessoais.

A última hipótese era mais simples, talvez conseguisse escutar mais do que a regra geral conseguia, e por fim, numa sociedade mecanizada, automatizada, um diálogo é na verdade uma conversa com os próprios complexos de personalidade autônomos que cada um carrega dentro de si.

Entender isso é a principal regra para conseguir viver em uma sociedade pós-industrial. Veja o exemplo da tecnologia ele observava. As intimidades, as confissões, as revelações, adotam o espaço do privado no meio público que é a tecnologia das redes de comunicação.

Não iria perder-se elucubrando novas teorias. Já havia papel demais produzido pela academia, pela inteligentsia das famintas universidades, antros de simulações e realizações pessoais.

Não queria, na verdade, em grande parte da vida nunca quis, a rotina do consumo. De que valeria sua pobre vida se vivesse para adquirir uma certa cota de consumo mensal. Não perderia muito tempo para construir essa cota, não fazia sentido perder grande parte de seu tempo, de sua vida para conseguir atingir esta cota mensal, ao qual chamam carinhosamente de "carreira".

Os problemas continuavam chegando, vez ou outra ele não suportava a imensa quantidade, vez ou outra tudo mudava, e quando tudo muda há um cheiro de mágica no ar.

As coisas começaram a ficar silenciosas, as pessoas começaram a sumir, e os problemas desapareceram e ele teve de se enfrentar, teve de olhar para o fundo de seus próprios abismos por que não sobrara muita coisa para fazer. Compreendia que o movimento e o não-movimento tem enfim, um sentido intríseco, o agir e o não-agir estão inevitávelmente interligados.

A presença e a ausência não são oponentes, mas sim companheiras de jornada....

Ele agora compreendiam por que o deixavam em paz. Por que tudo ficara mais silencioso e por que caminhava pela praia, a noite, esbarrando nas partículas de rocha(outrora estrelas - pó de estrelas) constituindo-se em meio àquela desintregração. Não obstante o desejo de permanecer tão perto, entendia o porquê do sentir tanta saudade.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Histórias de luta...

Ontem, eu fui num acampamento do MTD(Movimento dos Trabalhadores Desempregados). O acampamento situa-se num plateau, em cima de um morro.

Um ermo, que foi transformado em moradia, pela força e disposição de homens e mulheres; guerreiros, lutadoras, pessoas que estão acostumadas a transformar as ruínas em esperança.

Lá em cima, o vento é forte, já até carregou barracos e lonas inteiras, mas a coragem e determinação desse povo valente e guerreiro, consegue vencer quaisquer desafios, até mesmo da natureza. A maioria do acampamento é composto por negros, mas há brancos também e mulatos, apesar da pobreza ser majoritáriamente negra(antes senzala, agora favela), a situação de necessidade é igual para todos/as que ali residem.

Há uma pequena escola, onde aulas de alfabetização são ministradas, muitos moradores do acampamento aprenderam a ler e escrever, pelas mãos e mentes de seus próprios vizinhos. A água foi conseguida a partir da luta coletiva concretizada pelos mutirões; que também providenciaram iluminação elétrica. A presença grande das crianças, não deixa esconder, que ainda faltam muitas coisas, as casas são todas de madeira, barracos sem muita estrutura, a água só chega durante a noite, e não há próximo nenhuma presença de um posto médico ou escola.

É impressionante como meus problemas tornam-se ínfimos quando conheço histórias de luta como estas. A capacidade de organização dos mais explorados cresce proporcionalmente a estupidez retumbante de uma classe-média cada vez mais em estado apático, onde o consumo é a força motriz de uma psicopatia(ausência de sentimento pelo outro, pela outra) de massas.

Como diria Eduardo Galleano, retomando uma pixação anônima na bolívia em 1808: "Temos guardado um silêncio muito parecido com a estupidez..."

Mas mesmo assim, há gente que se organiza, que sonha e que luta!!!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Meditações

Hoje, resolveram me acordar cedo. Recebi um telefonema de madrugada, uma amiga sofreu um acidente, nada grave, mas tive de resolver um problema às 4h da madrugada. Quando tentei voltar a dormir, inevitávelmente não consegui de imediato, o que me fez ter de relaxar. E quando minha mente está muito acelerada/confusa eu tento meditar. Eu disse tento, por que esta mente ocidental-cristã está demasiadamente acostumada com o caos. É difícil parar. A meditação de certa forma lhe força a esvaziar-se. E isto não é fácil para quem enxerga(mesmo que inconscientemente) o estado de vigília da mente como um estado "natural".

Não sou um especialista sobre o assunto(estou bem longe disso); mas sento na posição mais confortável(em semi-lótus normalmente), tento relaxar o corpo. No início é complicado, por que o corpo não relaxa, uso a técnica de "perceber" minha respiração(foi a técnica mais adequada que consegui encontrar até hoje), e fico com os olhos semi-abertos ou fechados(seguindo algumas técnicas sufi). Um bom caminho, é respirar profundamente e naturalmente, perceber o descompasso(ou compasso) da respiração, esvaziar o pensamento(esta é a parte mais difícil) e relaxar os músculos sempre no movimento de expiração. As costas começam a doer de imediato, o corpo tenta se ajeitar, mas é na verdade a mente que dá as cartas no jogo. Após os primeiro minutos de desconforto inicial, em que os pensamentos começam a fluir aceleradamente(e que a mente reluta a aceitar o encontro ao vazio interior), o corpo começa a relaxar. Os músculos se desenrijecem, a mente se aquieta mais(alguns entoam mantras para facilitar - não é meu caso).

Há um momento de paz interior que começa a se delinear; é claro que nunca fui tão longe, minha mente está totalmente condicionada ao barulho, a profusão de pensamentos: como toda mente sob o signo da era moderna, presa nas expectativas do futuro e nos fatos do passado.

Mas há um momento interessante, em que o corpo relaxa mais profundamente, a mente desacelera... Sinto até uma tontura, quando vou mais longe, sinto-me fora daquele espaço físico, a mente gira, é uma sensação interessante.

Após, estou completamente relaxado e consigo dormir com mais facilidade. Não chega a ser uma experiência mística, mas é um calmante natural, que todos nós poderíamos desenvolver se para isso nos dedicássemos. Evitaríamos prozaks, fluoexitinas, e outros ansiolíticos e remédios produzidos pelas indústria$ da "felicidade".


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sobre os dias de calor

O calor estava infernal, desceu com a mochila cheia, carregava uma caixa de papelão nas mãos, que não estava tão vazia, mas também não estava tão cheia; um porta-retrato velho, alguns enfeites de mesa, umas fotos, cartas recebidas, alguns livros de cabeceira, os preferidos e um ou outro material de escritório.

O sol provocativo, fazia-o repensar sua estratégia. Deveria ter saído mais cedo. Mas mais cedo quando? Sempre está quente esta época do ano. Não importa o horário. Ou calor ou inferno, nada muda muito por aqui.

Saudades do tempo em que sentiu frio. Quer dizer, vez ou outra sentia frio, mas não o frio físico, mas um incômodo emocional, uma sensação de desconforto ocasional, que podia ser rápidamente resolvida, ou com 1/10 de uma garrafa de vodka(má solução) ou nos momentos atuais(soluções boas), com um leve passeio, uma caneta e duas folhas de papel.

Em dias bons conseguia produzir cinco ou seis contos sem importância, nos dias ruins, apenas idéias escassas, nem sempre conseguia organizar sua própria inspiração, e é claro, ninguém consegue.

Doravante resolveu não permanecer nos mesmos círculos, literatos falidos, poetas amadores, beatniks de final de semana, isso tudo nunca na verdade lhe interessou; não institivamente.

Preenchia com letras as palavras, com palavras as frases, dava forma, reescrevia sua própria vida, sem medo? Sem risco? Tinha mais medo do que risco. Seus riscos eram fictícios. Na verdade, encarava-se vez ou outra no espelho e via realmente que teorizava sempre sob seus medos, não sob seus anseios. Mas fazem isso o tempo todo. Comportamento normal(o normal sempre é o que nós somos ou estamos - o diferente é o que não somos ou o que não estamos). E não era sobre isso que realmente importava. Os mecanismos que impediam toda a magia, que impediam as cores de retomarem seu ciclo, isto sim importava. Faltava paixão, vigor, amor, liberdade e alegria no mundo. Além disso faltava pão, escola, carinho, teto enquanto sobrava egoísmo, acumulação, hipocrisia, lucro e violência.

Estava enredado, enredado em todo o mecanismo. Era o que podemos chamar, de sua situação, condição de classe. Lembrava-se dela ao pegar ônibus, ao comprar leite(é mentira, ele detestava leite), no aumento da passagem, no aumento do pão.

Policiais para todo o lado, muito controle, e ele desfilava vez ou outra, pensando furtivamente(ainda não era crime pensar), cuidado sou perigoso... um dia haverá a justiça(vingança?).

Não era justo. Esperava no ponto de ônibus, perdera mais um. Caminhou 20 minutos(morava numa ladeira). O cabelo estava maior(dois salões faliram semana passada), o atrevimento também, o método inexistia! Para que método! Brainstorm. Escreva o que vier, como vier, quando vier. E quando puder não. Mesmo se não puder, escreva! É assim que funciona! Mesmo mentalmente, escreva mentalmente porra! Na fila do banco, no banco do metrô, na terceira colherada do almoço. Escreve gaijin.

Comeu um biscoito da sorte. Nada lhe disse de importante. Bebeu suco de maçã, óbviamente um comportamento pequeneníssimo-burguês. Ligou o ventilador de teto, escutou música clássica(no rádio), fez café, sentiu fome, estava sem dinheiro(ainda assim comportava-se como se tivesse algum - crise de identidade de classe).

Relaxou lá depois do décimo e segundo parágrafo, começou a rir, meio compulsivamente(ele era exagerado no que escrevia não no que fazia...) e pensou que se tudo desse certo escreveria romances, belos romances, talvez até um best-seller, uma apresentação em algum talk-show, se desse errado, bem... se desse errado voltaria a copiar os beatniks...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fogo Bravo II

Nada naquele quarto era seu. A mobília, a mesinha de cabiceira, a cama de casal. A sala, a cozinha, o banheiro, seguiam a tendência natural do quarto. Nada era seu. Até mesmo o (pouco) que tinha comprado com seus recursos, nem mesmo aquilo era seu. Nada era seu. Eram objetos estranhos à sua pessoa, estranhos à sua essência. E mesmo que não houvesse uma essência, mas se decerto em algum momento acreditasse que existia uma, aquela não seria a sua, aquele quarto, aqueles móveis opressores, aquela decoração sufocante, estranha a si mesmo, não, não seria sua.

Conquanto tivesse que conviver obstinadamente com aquela decoração, com aquele cheiro de ordem, de casa arrumada, de micro-fascismo controlado, seu comportamento era uma antítese, digamos nada mais do que natural, àquele processo homogeinizador, uniformizante, que se dava embaixo de um teto. Um teto óbviamente que não era seu.

A disposição dos objetos deveria seguir um rito, a arrumação, a presença linear dos enfeites, dos adornos(lembrou de Frankfurt - e sim, era uma piada sem graça), das espécimes novas adoradas num tipo de rito antropofágico, onde se engoliam as pessoas que viviam ali, em detrimento de um cuneiforme comportamento, que se repetia, se repetia, se repetia, em torno da mesma obstinação: manter os objetos alinhados, manter a casa arrumada, limpa, manter tudo em ordem. Ordem é a palavra. Ordem e controle.

Seu dito comportamento simplório, dava lugar a um esvaziamento de si, uma onda de introspecção violenta, que o emergia de dentro para fora violentamente, junto com um mr. Hyde de quinta, produzindo comportamentos reflexivos vísivelmente desleixados. Barba por fazer, cabelos grandes, desleixo casual, louças sujas, canecas vazias; formas homeostáticas do próprio corpo em resistir ao fascismo sub-reptício que se desenrolava de maneira desonesta dentro daquele cômodo sudorento, daquela gaiola classe-média em forma de casebre-casarão.

As metáforas não davam mais conta em implodir os efeitos daquele facho(feixe) de ignorância, de paranóia, psicose social degenerativa que o obrigava a circundar seu eu em torno de si mesmo, obrigando-o a dar as mesmas respostas, nas mesmas situações, de forma compulsiva-obsessiva.

As metáforas se cansaram de dar respostas. Eram meros placebos. A situação pedia medidas mais radicais.

Jesus cristo não teria a mesma paciência, nem Gandhi, nem Buda, nem o raio que o parta. E bem que um raio num dia infestado de pingos de chuva raivosos poderia partir esta casa ao meio, e mostrar bem ao centro, mostrar a epiderme do fascismo, a sua origem, que o material não faz este mundo, este mundo é partícula e onda ao mesmo tempo, e o material é um efêmero vazio, um vazio cheio de rosas negras, rosas que não existem concretamente, mas estão cá na imaginação de quem agora lê e de quem antes escreve. O material é húmus. O material é o transitório. O concreto, o permanente, o invencível, o imovível, era um pesadelo, um pesadelo, como aqueles móveis, tão seguros de si, seguros de sua presença, como se desafiassem o humor de quem os encarava, como se dissessem ao mundo, ao quarto, a aquela casa, que ficariam lá, permaneceriam prostados como um acinte, uma ofensa obstinada, uma coação necessária, que não saíriam, e quem não estivesse satisfeito que se retirasse ante a presença deles, os semi-deuses do mogno e da madeira serrada, os titâs da cerâmica, do gesso fresco, do plástico contemporâneo!

Pegou a garrafa de álcool com pressa; já estava embaixo da cama há cinco semanas. Salpicou nos móveis como em uma oração, acendeu o isqueiro Zippo saboreando cada segundo, largou-o naquele miserável piso de marfim perolado que particularmente odiava com mais intensidade e assistiu tudo queimar.

Sorriu frente ao frenesi de labaredas e alaridos semi-silenciosos do fogo consumindo, consumindo... Seu sono. Um sono e um sonho ruim.

A casa continuava não-sua. A cama, os móveis, a estante marrom, não, agora branca; o armário fascista, sim, fascista.

E o que sobrara para si?

O seu era o nada, apenas o nada.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Reflexões de Anatole

Acendeu um cigarro pra clarear as idéias e enegrecer o pulmão. Mundinho junkie aquele. Eram 15h da tarde e ele nem tinha acendido um baseado; estava num tédio que não dava chance para o humor. Pior que o tédio era o remorso. Remorso do quê? De si próprio. Conviver consigo mesmo não era uma tarefa das mais fáceis. E quem conseguia?

Não se enterra parte de si mesmo de uma só vez. Conviver com as partes que lutam por controle não era uma tarefa fácil, mas ignorá-las não era o caminho, definitivamente não era o caminho.

Escrever estava fora de cogitação. Sua máquina de escrever velha, estava lá, convidativa, mas aquela tragada semi-feliz já denunciava: nada de pseudo-lamentos ou proto-depressões, o que estragava o momento, era a angústia, angústia não, sejamos sinceros, era mera ansiedade.

Ansiedadezinha sem importância(se tivesse tanta importância, algo teria escrito com certeza), sem jeito, que o incomodava progressivamente, mas sem desafiar quaisquer limites que poriam todo o jogo em risco.

Resolveu fazer café, na falta de cerveja, chá-preto ou café serviriam.

O pó estava escasso no fundo do pote, raspou e conseguiu o suficiente. Esquentou a água, e seu humor. Já esbanjava um sorriso, lembrou de uma piada antiga, que piada horrível, mas aí residia a graça. Era essa a graça.

Marasmo produtivo? Digamos... mangas no quintal...

Volto quando puder. As mangas não param de cair.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cartas sobre a mesa

Em algum não tão longínquo passado, criei três personagens, Anatole, Vasilli e a Ruiva. Partes fragmentárias de mim mesmo? Provávelmente... A idéia objetiva era um livro... a subjetiva era a individuação...

Interagir caminhando, interagir sim, rumo a individuação(a do Jung). Usar os pseudo-contos para o crescimento. Mas no meio do caminho, minha mandala quebrou(e as mandalas são concretizações objetivas do auto-conhecimento, da individuação). Quebrou, por que eu não preciso mais delas. Não pessoalmente, agora há um novo significado...

Consultei minha cartomante, me consultei também, e acho que estou preparado. Bem, mais forte. Emocionalmente mais preparado. Para o quê? Para a vida! Para exercer a potência da vida... A potência do viver.

Quanto a ruiva, minha querida anima; infelizmente minhas energias me guiaram(sem as projeções habituais) para digamos, uma mulher mais concreta.

Isto é outro assunto. Um assunto contráriamente pretérito, um assunto que se constrói. E não quero construí-lo agora. Quero que tudo se construa espontâneamente. Portanto, verão poucos Vasillis, Ruivas e Anatoles de agora em diante, finalmente posso dizer...

Um ciclo se encerra. Um novo ciclo se inicia.

Caminhemos, caminhemos. Caminhemos viajante... caminhemos ao sabor das letras... doces ou amargas, são sim, peculiares e peculiares letras...

São letras da vida! Letras da vida!!!