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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Treinamento de Incêndio

Treinamento de incêndio!

Foi aí, que eles falaram a mesma coisa: fuja para o norte, fuja para o norte. Abre a primeira porta, vira a esquerda, dança, corre!

Naquele pedaço de vida, que ele descendo as escadas; assim, no canto daquele suicídio sem coragem, que ele e ela se fizeram.

De incêndio porra!

Mas era apenas um treinamento, de suicídio, de um incêndio... no canto da primeira porta. Vira a esquerda, corre, corre.

terça-feira, 24 de março de 2009

Apartado

Por que a cama vazia
Ainda possui um corpo
E um coração de lados opostos?

Por que o café da manhã
Traz açúcar e cordialidade
E a noite um metrô cheio?

Perguntaram-me como estou?
Ou ratificam à si mesmos,
Seus humores, e suas respostas?

sexta-feira, 20 de março de 2009

Bibliotecas Afetivas

Você não entendeu, mas se entendesse teria me desperdiçado no terceiro quarto de paralelepípedo.

Quando a sua emoção transbordou, junto com o café, com a casa, que se desmanchava quando os tijolos derretiam toda vez que você chorava, precisávamos comprar casas, emoções e tijolos novos. E algo irrompia. Sem dó.

Aquele abismo que apelidamos com o mesmo nome de um cachorro que você teve nos idos de 1977, não se acostumava comigo, e toda vez que eu levava o lixo para fora, ou dormia dentro do ônibus de ressaca, ele resolvia me engolir, e além da ressaca, eu perdia duas ou três semanas, Justificarfugindo das trevas, pois o estômago dele era grande. E além de você ter de me encontrar, eu perdia meu emprego, e a situação piorava, por que não haviam vagas de caçadores de abismos abertas por aí.

O seu cabelo era ruivo, mas você sempre insistia nesse seu solipsismo irritante, que eu, eu possuía um daltonismo particular que não chamariam mais de daltonismo em idos de 2072, pois as coisas estavam invertidas, que eu não enxergava a cor negra, nem a amarela, que essas cores eram vistas como ruivo. Talvez fosse verdade. Talvez o mundo estivesse errado.

E e que a vida para mim, era algo meio tenso, devido às cores erradas que a minha retina escolhia.

Eu enxergava em branco, ruivo e negro.

Quando eu me despedi, eu na verdade desejava sumir, como fazia, toda vez que fingia ser uma paisagem, e isto era particularmente fácil, ser paisagem.

E de quando eu conseguia me esgueirar, me esquivar para dentro daquela biblioteca que parecia meu próprio mundo, um mundo decerto mais organizado, no qual me escondia, olhando para a janela, chorando sem ninguém ver, por entre aqueles tijolos, aquele silêncio, onde um ou outro caminhava, onde as estantes e entranhas de ferro, o cheiro de mofo, os ventiladores que não falavam, acabavam me seduzindo, e eu fingia buscar um livro, mas eu buscava era o nada.

A bibliografia era emocional; partida ao meio, escandalosa, afetiva, antiga.

Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum código de barra de bibliotecas, preso na capa, na alma, do livro, no livro, onde eu pudesse definitivamente ler aquele meu manual de instruções, construído pelo deus que eu negava, e pura deliciosa abstração.

E eu me acharia. Eu me acharia, mas na verdade eu me achava quando conseguia não ser observado, quando a solidão dominava o ambiente e eu não ligava nem para os livros, estantes ou homens-estantes que me olhavam, era quando assim, daquela janela suja, que algo não importava, e eu começava verdadeiramente a me tornar uma flecha sem alvo.

Infinitos. E aí, parte dos livros falavam, por milissegundos, e se calavam, e a biblioteca citava aforismas toda vez que eu ia embora, mas ninguém via além de você.

Eu dormia.

Eu era assim ruiva.

Completamente sozinho.

Como um livro mofado, que mesmo na estante, morto entre às traças, foi pego em cinco de março de mil novecentos e setenta e três.

Mesmo sem a bibliotecária, cujo arrependimento falava mais do que todos aqueles nove mil títulos, na noite em que ela escolheu o rosto mais fácil, mesmo assim, o livro partiu, partiu para não voltar.

Partiu no quarto segundo do paralelepípedo passado.

Aquele que já se foi.

sábado, 14 de março de 2009

Religião: esperança.

Sob o metrô, andava de um lado ao outro, escondendo o coração do outro lado do peito.

Sob às roupas fingia normalidade, normalidade entre os tons.

Compreendia apenas a linguagem que o traduzia.

Reunido na oposição afeto e cinismo, sentia um medo terrível e profundo, que costumava digerir o equilíbrio de cinco ou seis respirações yogas; e que ainda assim eram totalmente submetíveis à tristeza, um medo da vida.

Quando a paisagem irrompia, podia olhar para os vales, os morros, os prédios e os transeuntes sem olhos, por que eles não pagavam esses olhares gratuitos; mas quando os túneis ou os muros cinzas do subterrâneo do metrô percorriam-no, assim sem pagar passagem, ele era obrigado a olhar cada história de vida, esparramada no banco, com seus trejeitos que não apitavam, mas sob as roupas, fingiam também suas normalidades, apesar de saber que tudo aquilo ali era falso.

Abandonado, esta áspera existência parecia-lhe um caminhar longo e interminável.

Sem propósito.

Desmedida. Descomedida. Abrupta e insensata. Sem sentido.

Ele podia estar errado, mas o dicionário só dava nome à coisas, pois era um analfabeto de emoções.

As coisas, estas, só davam nome às pessoas. E as pessoas, as pessoas eram escravas das coisas.

E ele, ele, este simples; não buscava nada, ele era apanhado, e fingia normalidade, assim; entre os tons... entre as opiniões que o guardavam.

Sua nova religião era a esperança; fingia que não, mas era, e era como todo fiel, um crente que não desistia; e esperava, esperava a ruiva até o fim, até amanhecer assim, com o copo vazio, com a ressaca, com a culpa ou a desesperança enchendo seus pulmões.

Não perdia o amor, a ternura, a esperança; de um alguém que não esquece qual lado se guarda o coração, de qual lado se finge, de qual lado se caminha dentro da normalidade, de alguém que tinha sensibilidade para compreender o que era dito.

Alguém que preferia o silêncio ao amor. O tempo à surpresa. O passado ao ingrato presente.

A peça que pequeno-burguesa não se encaixava e que às vezes um ou outro malicioso, no descanso da rotina e que despertado por medo, justiça ou inveja, a nomeava, cambaleante como uma terça-feira normal, respondia...

Respondia a pergunta feita, e era assim, do jeito calado, vilão ou profeta.

O malicioso de sorriso curto cansava, e ele dormia, ele dormia, ele acordava sem medo, sem palavras. Nem ódio, nem paixão. Nem sorriso, nem cor.

Nem lágrimas tinha.

Era um "ir haver".

Caminhava. Sem propósito, pois o propósito, mesmo oculto, era caminhar, mesmo vilão, mesmo profeta, cuja ternura amanhecida nesse seu rosto de cabelos lisos fazia-o assim, inquilino de um coração, que ficava do outro, do outro lado do peito.

Este, o que não dormia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Jogo de Armar: Da solidão cotidiana

atualizado em 29/01/2008

Havia aquele som, aquele som inaudível e incoerente, cujas vozes famintas, ampliavam-se, mas que completamente imperceptíveis para mim, me faziam sentir, e sentir era algo obscuro ou inédito demais, como em um estado de overdose sânscrita, assim espalhado pelo canto do ônibus ou quando num gesto brusco, sob uma folha largada, cujo desespero secreto e particular impelia ao silêncio, apenas buscava no outro a sua própria imagem.

E assim, demasiadamente empático e largado pelo mundo e o mundo era justamente uma instituição, um aglomerado de gente sem sentido, gente nos ônibus com seus próprios e distintos propósitos e que se definiam por si mesmos; este mundo largado, de gente e de propósitos largados, costumava mover-se, segundo definições ocultas e inexpressivas, peças no tabuleiro misterioso.

Consciosamente a vida cotidiana reproduzia o fato que era mais psicológica do que própriamente metafísica: deus existia; e sempre com ironia.

Desconectado, o meu amor, aquele que nunca nascia de manhã, durante o beijo calado, mas que irrompia sozinho, largado no canto do quarto, entre quatro ou seis latas de cerveja, nascendo sob sua motivação, e que encontrava apenas a mim...

E eu transformava-me sem mudar definitivamente nada. Eu modificava-me, e apenas encontrava um amor sem par, uma paixão sem destinatário, uma flor cujo terreno argiloso, produzia um belo espécime temporal.

Eu amava sozinho.

No ritual medíocre do si-mesmo e cujo soluço permitia uma reflexão, desejava, desejava, com todas as forças que apenas dois sentimentos pudessem apoderar-me do "si próprio", os muito fortes ou os demasiadamente fracos.

Amor e tristeza, espalhados num copo de conhaque num dia de semana normal, pareciam acabar com o fígado, mas sustentavam verdadeiramente era o espírito. E era aí, na terceira golada, que acompanhava a espera, quase interminável, que o espírito forte, e o espírito fraco apresentavam-se: era o espetáculo da possessão.

Eu fingia não sentir absolutamente nada, e enquanto escrevia, algo se modificava, e era necessário suportar todo este peso, absolutamente familiar, mas nem por isso íntimo, pois apresentava-se estranho à mim mesmo em todas suas formas cotidianas. E era o que eu fazia, olhando cartas velhas, abrindo geladeiras novas, bebendo cerveja sem gosto.

Um homem que triste e é só não incomoda, pois decerto algo se ajusta neste parâmetro categorizável, a sociedade compreende a tristeza de ser só e rápidamente há um acordo tácito entre o indivíduo e o corpo social; surgem os amigos, as companhias, o terapeuta ou por fim, os remédios psicoterápicos, mas quando encontramos, e é neste caso específico que os poderes curiosamente não podiam de nenhuma forma me localizar, um homem que ama e é sozinho,(e eu Román Soto Mayor fui o primeiro a ser encontrado neste terrível ponto) tal fato descortina uma exceção perigosa, que compromete todo o sistema encadeado.

Como amar sozinho? Como tornar-se apaixonado sem um objeto de paixão? Se alguém ama a si mesmo, chamaríam-no de narcísico, mas este não é o caso, se fosse verdadeiramente o caso, estaria não encolhido diante do mundo, porquanto se estivesse olhando para a face no lago, amaria-me e desprezaria todo o cotidiano; não era o caso. E poderiam me acusar de não amar ninguém, e se alguém não ama nada nem ninguém, haveria de esconder uma fraqueza, ou uma amargura fixada no canto do olho; mas deste quadro não faço parte, a minha fraqueza decerto era revelar-me, e não esconder sentimento ou idéia nenhuma, coisa que tanto desaprovava.

E amo algo! Amo! Amo um alguém oculto! Algo que oculto faz-me sofrer exatamente por permanecer oculto, mas que ainda por isto, carrega uma febre, um aglomerado de sintomas dos quais não consigo me livrar.

Carrego o sintoma dos apaixonados, enquanto eles amam e deliciam-se no conforto e na segurança que o amor proporciona ao futuro, concretizado por uma mão tenra, um abraço resoluto, um olhar justo, eu cá estou, com os sintomas da febre, incontrolável e voraz, mas sozinho, cuja mesma febre dos que se apaixonam pelo outro, pela outra convivem em mim. Mas cá comigo, descobri da maneira bruta, que amo algo que definitivamente não existe. Não pode ser tocado nem visto. Não está, nunca esteve. Não me aparece, pois não é.

Entre insônias e cigarros acesos, debruçei-me por sobre este problema existencial. Miserável e terrívelmente existencial - homem que ama sem amar, nebulosa contradição, ama sem ver, ama sem ter .

Em um ponto mais adiante, aceitei parte de meu problema e de seus desejos, fiz a respiração baixar, a calma e o silêncio cresceram. A partir daí me viam com mais frequência, no canto do bar, nas filas quase vazias de espetáculos que ninguém queria assistir, ou simplesmente dormindo na última sessão e fila de cadeiras do cinema, vazio.

Espalhado no canto do ônibus, ou deitando bruscamente na cama como quem busca afeto, eu tervigersava, eu caminhava sem sair do mesmo lugar, eu esticava os pés mas não o espírito, eu não me bebia como possível, pois eu tinha desistido. Desistido das mudanças cotidianas, que pareciam todas iguais, do futuro, das possibilidades do inédito, que nunca se apresentavam, e enquanto a desistência me dominava, o ponteiro dos anos acelerou, e a espera tornou-se verdadeiramente um perigoso jogo de armar que me colocavam alguns mais paradigmas insolúveis.

Aceitá-los, implicaria em esperar, aguardar um milagre, um milagre do deus metafísico, e aí sim, poder com justiça e direito, amar com a febre dos ébrios. Recusar os horizontes dos milagres, implicaria em um movimento extremamente cuidadoso e que me posicionava diante do limiar do absurdo e do particular, cuja opção desassistida, era o deus psicológico, que se fazia vivo diante das expectativas, dos desejos, e da esperança alimentada sorriso após sorriso.

Meu nome era Román Soto Maior, o homem que diziam, amava alguém, amava alguém, que mantinha-se oculto.

Meticulosamente envolvido e imbricado pelos meus sentimentos, aguardava uma mudança, um som, um beijo ou aceno que modificasse tudo, mas no meu canto, e um canto que bastava-se tão só, me sobrava apenas um som inaudível e incoerente, um desespero secreto, algo que não se resolvia de imediato, e convertia-se sob meus passos, num delicioso e solitário jogo de armar.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Desesperança impele a ação

Fazer algo diferente é difícil.

Tente recondicionar um rato de laboratório. É como Vasilli sentia-se ao sair, ao entrar, ao sair novamente do metrô, da fila da comida, das noites com muita vodka, médias angústias e pouca imaginação.

Olhava-se no espelho e não se encontrava. Ainda restava esta incógnita, ávida por situações limites, pois sim, pois bem, é fácil prever o comportamento de um ou dois ratos, caminhando sinuosamente por labirintos de silício ou concreto, pois bem...

A dificuldade, e toda dificuldade humana obrigatóriamente caminha junto com uma reconstrução radical de si mesmo, está em prever algo que não tem uma estrutura definida, uma base sólida, um "vir a ser" contido em uma trajetória bem definida, o vetor colégio-faculdade-filhos-família-fim-de-festa.

Não ter uma estrutura definida, ou bem melhor, não ter nenhuma estrutura, requer culhões ou atrevendo-me a heterofobia, um útero que acalenta um ódio constante de si mesmo e que obriga sem condições a exterminar-se todos os dias. Quem recomeça pode usar o ódio como metáfora, apesar de saber que não é ódio o que se sente, mas necessidade imperativa de fragmentar-se. O esporte é catar cacos. Juntá-los. E recomeçar. É o eterno retorno. Como o mito de Sísifo, como só Nietzsche e Camus compreenderam.

Pois a vida, a vida dos desajustados, é um devir, uma passagem, onde o objetivo não é chegar nas estações, não... isto é coisa de gente equilibrada, gente que olha para trás com uma nostalgia cheirando a hambúrger de gordura na chapa, vestindo um emprego classe-média de quatorze horas por dia.

Gente torta gosta de andar na corda bamba, de mover-se entre o circo e o abismo. De renovar uma desesperança nas esquinas da vida. Porque ao contrário do conhecimento enciclopédico do colégio de fim de semana, a desesperança é uma face do problema, a desesperança move, impele Vasilli a ação. A desesperança tem de dar tesão de explodir convenções e laboratórios, senão é covardia.

O absurdo do mundo, do sujeito, da identidade assassinada pela má convenção, obriga e impele ao assassínio das heteronomias.

A reconstrução radical do sujeito, impele o convívio brutal e nem sempre harmônico da esperança e da desesperança, do amargo, do suave, do contraditório, da policausalidade.

Continuo na função de espelho. Olha e detesta-me quem quer.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Violentas Insônias

Confusão por sobre a mesa, por sobre a cama. Perdido. Espelho da alma, o quarto repousa sobre a angústia, por sobre o bilhete amassado, por sobre o livro e o casaco embolado entre a porta e o tapete.

Anda de um lado, caminha por outro, bebe água, respira, respira mal, pesadamente, perdeu-se na pia, lavou o rosto às duas, duas e treze, às três e quarenta.

Continuou sujo.

Os olhos pesados não pesavam, a mão leve coçava a fronte e ajudava a respirar o cigarro, calava-se; e ainda assim, ainda assim os nós dos dedos não conseguiam tatear o silêncio.

Tentou olhar para si, e na bula constava indicação: efeitos psíquicos colaterais, perturbação, insônia, por fim simples angústia. Simples? Pigarreou em tom de deboche.

Olhou para si; um eu que desconhecia; na verdade desconhecimento é falsa palavra.

Desconhecimento supõe contornos novos nunca observados, o que sentia era verdadeiramente estranhamento. Um estranhamento voraz, que o comia a cada ponteiro movido, a cada noite mal dormida, a cada sonho mal interpretado.

Chegara em pontos de ruptura, decisões, frações de si que clamavam por controle ou que verdadeiramente caminhavam para uma morte violenta.

Morria, morria todas as noites. E quando começava a morrer por detrás da luz, coçava a fronte, respirava o cigarro e lavava o rosto, duas e trinta, três e cinqüenta, quatro e cinquenta e nove...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Paciência

Às vezes acontece
Olha-se para o tudo e não se enxerga nada
Às vezes é outro alguém que vê
Melhor que você

Por que seus olhos estão perdidos...
Perdidos num caminho
Que você achava correto
E aí, tudo parece absurdo

O que antes era confiante, coerente
Vira de ponta a cabeça
E você já não sabe mais o que fazer
Ou para onde correr

Nestas horas é preciso saber esperar
Mesmo diante do olho do furacão.

Nestas horas...
É o destino que deve dar o próximo lance

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Revolver

Acendi a luz, só para ver as teclas da máquina de escrever; enquanto observava a nuvem esconder a lua, uma nuvem rosada como meu senso de auto-preservação, e surgiu em mim uma série de reflexões, reflexões não tão glamourosas, que por princípio preencheram parte do que eu desejava preencher, mas que na verdade, atentavam para a possibilidade desta ser uma noite muito original.

A luz parecia então suficiente; e foi assim,. que ignorei a lua e comecei a me concentrar na maldita máquina de escrever, e como um autômato incontrolável, perseguia cada tecla como se estivesse dominado pelo ódio, mas na verdade, apenas descarregara, parte da tensão acumulada, sobre um dia, ou dois, de luas, nuvens rosadas e princípios, em factíveis teclas de uma velha máquina de escrever.

E cá estava, fingindo equilíbrio, mas de certa maneira eu achava e sentia que estava realmente equilibrado. Eram quatro ou cinco da manhã, mas enquanto eu ajeitava o relógio biológico, e tentava escapar da insônia crônica que eu resolvi adotar como filha, parte, um pequena parcela de mim, infrigia as regras préviamente estabelecidas e resolvera recordar, recordar com a extremidade dos pulmões ou o fôlego dado aos poetas e vencidos.

Eu não podia mais fantasiar minha atual situação. O que eu queria era apenas esperar, esperar como todos os ansiolíticos aguardam algum tempo para agirem. Gostaria de esperar e saber realmente o que iria acontecer daqui para frente.

Por conta resolvi apenas desesperar-me em lembranças; em pedaços de investigação amnesíaca.

Por fim, transpareço uma calma e sernidade, que ainda, eu disse ainda, não são minhas...


sexta-feira, 11 de abril de 2008

Escutando chorinho e tomando café

Sou um filho do cansaço. Mas quem diria, um cansaço feliz. Por que quando a mente está forte, o cansaço físico é um amigo, não um persecutor.

Andei contando todas as atividades que eu faço. Me assustei. São muitas, em alguns momentos mais do que consigo suportar. Como consigo fazer tanta coisa? Nem eu sei. Talvez vontade. Vontade de me mudar, de mudar o mundo. De não parar jamais. De lutar contra a engrenagem devoradora de gente até o último segundo. Não há como me resignar frente ao cinismo ou a comodidade. Olho para a frente e só vejo terra batida.

É preciso construir... trilhar caminhos... aglutinar-me.

Mas quando a cabeça vai mal, o corpo padece. E sim, há um preço a se pagar. O jeito é tentar me equilibrar. E saber quando golpear e como golpear. Afetivamente há uma lacuna não preenchida.

Mas descobri nos pequenos prazeres cotidianos um mundo que se descortinou. E isso por enquanto me basta.

Viver é delicioso. É como tomar uma chícara de café durante o tempo frio. É como refrescar-se com um banho de cachoeira no calor. E é isto, e é muito mais do que posso metaforizar. E é um dia após o outro.

Tomar decisões não é difícil. Difícil é cumprí-las. Mas atualmente ando fiel às minhas promessas.

Até demasiadamente.

Preciso absorver menos. Vá com calma. Há muito a fazer, muito a construir, mas... relaxe... você está acelerado.

A mente ocupada mata o passado, mas também pode matar o presente. Eis o futuro! Passou, ninguém viu! Estou mais feliz. Mais do que semana passada. Ainda não durmo muito bem. Um dia eu chego lá...

Sonhos e projetos à vista. Vire o barco à esquerda timoneiro, cuidado com aquela pedra, desvie do coral, ajeite a proa, sim, vamos velejar. E espero que semana que vem eu consiga tirar alguns dias para me curtir.

Esvaziar-se é preciso.

obs: depois de algumas noites mal dormidas, algumas catarses interiores e sistematizações de memórias pretéritas(não tão pretéritas - ainda sinto-as reverberarem tão próximas como a dois dias e meio de viagem), em breve sairá um pseudo-conto sobre isto. Meu senso de humor voltou.






segunda-feira, 31 de março de 2008

As memórias que não eram dele

Rafael sofria de um mal irreparável. Memórias que não eram dele. Não eram de ninguém na verdade, apesar de alguns indivíduos se apropriarem no entanto de algumas, no desenrolar dos fatos, elas surgiam, e eram sempre de sujeito indeterminado.

A questão, e era sim, esta a grande questão, que Rafael não sabia exatamente onde começavam suas memórias e onde terminavam suas ilusões. Ninguém sabe na verdade, mas no caso específico deste jornalista desocupado, havia um quê de patológico, que transformava sonhos, alentos aleatórios, imaginações em fatos, em verdade, em história.

Não era algo tão fácil, preocupar-se com o inesperado, com o não acontecido. E a fronteira entre o real e o imaginado, era para Rafael, tão tênue quanto a espuma de uma cerveja servida num dia quente. Não saber o que era real e o que era imaginado era um delicioso jogo de armar, mas Rafael sabia, que o real era tudo o que estava dentro de seu escopo, e o que estava em seu escopo, era o que ele sim criava; era um vocacionado niilista de profissão.

Treze cervejas, mas na verdade eram doze, isto não fazia importância, não para ele, este puto cacofônico, que repetia e perseguia paroxítonas como quem come vogais de ócio seguidas de hiatos de felicidade, mas acostumara-se a duvidar de suas memórias: quatro ou cinco páginas lidas? sete ou oito estruturas verbais? Amanda ou Mônica? Catete ou Flamengo? Pós-estruturalismo ou arquitetura neo-romântica?

Depois da chuva torrencial, compreendeu que deveria partir, e foi asim que avisou, acenou, para os que o acompanhavam, que deveria misturar-se a multidão, uma multidão de vozes que calava dentro de si, para depois então prosseguir, atravessando uma avenida de mão dupla, quase-atropelado, onde às quatro da manhã encontraria em sonhos, metade dos seus amigos ou reclamando daquele fato dormindo, ou sonhando com ápices sexuais muito mal reprimidos.

A verdade, e verdade era algo tão manipulável quanto uma massinha de modelar às cinco da manhã, era que as mentiras, ou diria em tom reprovável - respostas acomodadas que tornavam-se parte do real, e ele sempre fizera questão de separar, reprimir, o real do ideal, por que supostamente isto o faria mais concreto dentro do esfarelamento crônico da modernidade.

Vendo toda a questão por um lado Vassilliano, e este lado era a aresta mais individualista que ele pudera conceber, tudo tornava-se apenas um quebra-cabeças mal encaixado, onde o azedume do respeito concentrava-se isoladamente em um feiche mal feito de poesia: TODA PARTE INTRADUZÍVEL É ALGO QUE CLAMA POR UM GRITO. UM GRITO DE VIDA, DE DOR, DE ALGO QUE NÃO SE POSSA TRADUZIR COM CINCO OU SEIS CONTOS.

Não sabia muito bem o que era sonhado, o que era realizado, e odiava boa parte dos atendentes de telemarketing, quando, exatamente desdobrava-se e neste sentid0 esforçava-se para provar esta tese, começavam a utilizar gerúndios afetivos. Pois não existe o "estamos nos amando", existe o nos amamos!

Não é possível estabelecer pontes sinceras entre o ideal e o real conquanto se busque algo que continue a saber que pode não ser real: como daquela vez em que socou um desafeto, quando na verdade, estava dormindo às seis da manhã num ponto de ônibus mal-cheiroso.

A verdade era que estava cansado.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Disputas Interiores: Durden ou Poulain?


Olhando para tudo o que aconteceu, tinha quase certeza de que o caminho, sim, pois era seu sem dúvida, era um caminho pra lá de interessante. A maneira com que recriava a vida ao seu redor, era em suma, parte de um processo global, isto é verdade, e acreditava e confiava nas redes que o envolviam, e tudo, tudo, dizia lembrando daquela terça-feira mágica, era parte daquela trilha, daquela estrada, deste caminho, ríspido, suave, intenso, jocoso, brilhante.

Poderia encher o copo da vida uma ou duas vezes, antes de experimentar a dor, e o que era a alegria sem a dor, o que era a paixão sem o ódio, o que era o dualismo sem o relativismo, o que era ele próprio sem si mesmo!!! Confiar no sagrado era o início de um processo curto de esperança. Era um feixe de respiração otimista.

Fazendo um balanço sincero e motivado de seus/meus próprios costumes lembrava demasiadamente das músicas tristes, das cartas sinceras, das lágrimas despejadas sob o copo de cerveja preta, que ele, sim, ele tanto adorava. Era um romântico incurável, e românticos incuráveis, necessitam de mais tempo, nenhum tempo é tão escasso, quanto o tempo dos românticos incuráveis. Ele sabia, e demonstrava a cada gesto, que era uma junção de simplicidade explorada demasiadamente pelo destino a ponto de exaurir seu próprio otimismo; e no entanto conseguia a cada respiração, ser visitado pela morte sete vezes, assim como os budistas; e que deus os tenha.

Mas lhe faltava maldade. Não se referia ao mal convencional dos filmes hollywoodianos ou das igrejas de final de semana; faltava-lhe, e podia perceber a cada evento, uma percepção mais nítida, e a este ponto preferia a palavra parceria como o oposto do que ele era e negava.

Era claro e necessário, que ele deveria fortalecer aquele lado escuro, que tanto deixara-se ofuscar por sua parte mais criativa e dera a uma ampla gama de jogadoras, a oportunidade de deliciarem-se com modelos paranóides produzidos sob situações de tensão; ou diria melhor, bonequinhos perfeitos, imagens projetadas no espírito do tempo a partir de espasmos pré-românticos, mas veja bem, e preste atenção neste período, neste momento, tão particular e talvez inovador... espasmos pré-românticos são como comportamentos clichês às sete da manhã.

"Passe-me a manteiga por favor! (me passa a porra da manteiga!!!)."

O espírito do tempo não estava com ele desta vez(nunca esteve). Adaptaria-se?

Adorava utilizar opostos para explicitar a si próprio; água x fogo, yin x yang, sombra x luz e como a modernidade lhe impunha novas e sensacionalistas abordagens, Anatole resolvera escolher a dicotomia durden x poulain, que era um produto de filmes baratos que resolvera rever para explicar a si mesmo e aos leitores(dois ou três - num dia de sorte) o que era dicotômico em sua, em nossa, personalidade. (se você chegou até aqui parabéns! força! continue!)

Oposições que se completavam, mas que neste momento digladiavam-se em torno de uma resposta. Ele vai ter de escolher - diziam nos corredores do inconsciente.

Conseguiria trazer sua sombra?, sim ela dizia faminta - você consegue meu jovem, enquanto jovem; conseguirá empurrar mais para o fundo esta velha, sim, pois anime-se os anos 90 já acabaram junto com suas camisas de flanela, esta velha-idosa Poulain, espírito ultrapassado e prestes a reanimar o velho Durden, este arquétipo raivoso, esta parte de si que calava todas as vezes em que se confrontava com a doçura de uma parte de si que predominara durante todo o jogo; deixe ele tomar as rédeas da situação, deixe o velho durden dominar.

É claro que isso tinha um custo. Ele sabia, e dialogava muito oportunamente com os dois, com meio cigarro na boca, e um copo de cerveja preta, olhando para o horizonte(e seu horizonte era bem limitado por cinco ou seis prédios - isto dependia da quantidade de vodka) que tal tarefa não era tão fácil como poderia aparentar.

Sabia exatamente, que um estava em posição mais vantajosa do que os demais; Vasilli não admitia a princípio, mas as queimaduras de cigarro de quatro ou cinco anos arriscavam palpites de quem ganharia naquele momento o jogo, e isto era suficientemente claro para demonstrar que era hora de cultivar um caos dentro de si, não uma estrela brilhante, mas uma super-nova que talvez conseguiria gerir algo novo... de uma vez por todas.

Matar Poulain, enterrar Durden, talvez seja o caminho.... Ele não sabia exatamente...

Talvez devesse seguir o fluxo, parece fácil quando não se escreve por compulsão. Nada constava como editável, aproveitável; o lixo literário estava aí. O excesso de cerveja preta denunciava que seria mais durden do que poulain e não, ele não aceitava conselhos, por que esta mudança era temporária como toda mudança (normalmente) é. Decerto a maioria inspirava-se e acostumara-se a conviver mais com Vassili em sua fase "Poulain", fazia sentido, já que o espírito do tempo abortava milhares, milhões de Amélies Poulains sistemáticamente...

E a gente costuma projetar no outro o que a gente quer ser. E assim fica fácil pedir para Vasilli ser mais Poulain. Quando o que ele quer. É ser mais sombra, é ser mais durden.

[sorriso da ruiva no canto da sala - cigarro na boca, fumaça no ar, ele dormindo, ela acordada, vestindo preto, sofá sujo, gato preto na casa, lixo no quarto.]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Depois de um testemunho surgiu-me a inspiração

Eu sou um bruxo. É verdade. Um bruxo. Chamem o bruxo, me de bruxo - falaram uma vez. Não há motivos em me chamar quando não posso voar. Voarei por cima dos sonhos alheios. Voarei por cima da ruiva, do ruivo, do francês, do não francês. Pegarei o metrô em paris. Mas isto é um sonho. Paris, e a Torre Eiffel e um idiota de camisa verde colocando moedas num telescópio fazem parte de um sonho. É bruxaria. Queimem os bruxos! É bruxaria.

Fazer planos(correr, fugir).

síndrome do pânico [muita gente].

Momentos em euforia[pouca gente].

Além
disso.

Há carência. Carentes, em filas, exterminados sistemáticamente de forma industrial. Na verdade. Os exterminados são os exterminadores, licença poética a parte. À parte. Por que aos fascistas nem água! Nem água! Exterminadores são exterminados. Exterminam-se. Matam parte de si. Matam-se inteiros. Matam a parte humana da humanidade; e isto dolorosamente não é redundante. Hiroshima e alguns dias depois, e serão nestes dias que teremos esta prova, provarão, redundarão neologismos, e teorias em pseuo-poemas.

Con
Cre
Ta
Men
TE

Mente! Mente!

Mente poema! Tu mente! Usted! Mentes!

Menta. Menta planta-se. Ouviu? Planta-se.

Planta-se como sonhos, sementes oníricas, que percorrem cervejas sem álcool. Faltam poucos dias para acabar o tal ano velho.

Faltam poucos dias, poucas horas que parecem eternidades.

Esta terça não importa. estarei num lugar espiritual.

Pois é tudo meio de esquerda, meio farsante.

domingo, 25 de novembro de 2007

Como se fosse possível articular algo além da solidão


Eu fiquei no meio do caminho. Tri-partido num pedaço de rua, ainda não esquartejado emocionalmente, mas sinceramente esperando algo de relevante acontecer. Olhando velhas ausências acenarem, rodopiando em meio à lugares outrora mágicos, deliciosamente envolvido pelo ritmo da música. Enquanto as pessoas iam, voltavam e iam novamente, eu percebi que a solidão pode ser o real caminho, o caminho real, real no sentido de monarquia, "o estado sou eu", "a solidão sou eu" (palmas para os risos em auditórios, pessoas se levantam em tom absolutista com sorrisos artificiais em volta a cenários de isopor e neon dos anos 80, há algum tipo de música decadente dinamizando todo o ambiente).

Construí os mesmos desafios e repeti as mesmas indagações intencionando criar um drama pessoal. O que fazer com um mundo vazio além de colorí-lo ou transformá-lo em algo surpreendente? (o apresentador sorri e roda os cartões entre os dedos, talvez tenha gordura nas mãos... ou seja esperma seco)

Apesar disso a obviedade está em todos os lugares.

Não há mais surpresa no óbvio. Por que do óbvio nada se espera. Do óbvio só se tiram velhas lições. E de velhas lições, o mundo já está cheio. Surpreendentemente cheio. Como as velhas lições podem oferecer(cherrleaders fictícias, feitas de isopor dançam ao som de músicas copiadas de um filme pornô dos anos 80).

E foi pensando nisto, que resolvi me afastar do óbvio, de ignorar a obviedade alheia e de ficar vagando no centro da cidade. Por que vaguear, vadiar, ou flanear utilizando um velho conceito do célebre João do Rio, é uma necessidade dos desesperados; desespero dissimulado, até por que quem vaguearia com um belo par de olhos ao lado? Vaguea-se, flanea-se a procura de um ponto fixo, de uma barra que como diz algum cientista cartesiano, "moverá o mundo"(o apresentador é enforcado numa figueira de três metros e sessenta e sete centímetros - as pessoas rodam em volta sem saber que não há uma única verdade).


E andei. E andei. Andei sem pontos de finais ou interrogações. Andei pensando em explodir meu diafragma de cansaço. Mas cansaços, e canções não enchem diafragmas, nada enche diafragmas além de um pouco de esperança emoldurada em serrotes emocionais. Serrotes emocionais eu disse.

Há uma parte espalhada de mim temperando você nos finais de semana. Há uma opinião vice-versa. Há um verso estruturado sobre falsos versos, sobre certos caminhos. Há caminhos.

Cerveja no chão do quarto, ao lado de deus e das caixinhas, das latinhas, da falsas, das farsas espinhas, das perdidas acracias.

Explodir, andar, caminhar, pesar, chorar. Cá estou eu!

Perdido! Com pianos vendidos! Com sangue nos dentes, com emoções crescendo sobre os cabelos!

Há neon, apresentadores dos anos 80. Há algumas farsas. Há falsas criatividades. Há um cheiro de morte, rondando a carência, toda a carência, no ar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

São setores Urbanos

Vasilli precisava parar. Respirar. Sentir o oxigênio invadir seus pulmões com força. Precisava de anestésicos naturais, de ansiolíticos homeopáticos, ao invés de álcool barato, mas ainda não se "iluminara" suficientemente.

Cruzara a Gomes Freire com a esquina da Mem de Sá, desviando-se de calçadas ruidosas e pedestres silenciosos que contornavam os carros estacionados, contornavam a si mesmos já vencidos pelo fazer-se pragmático e prático dos atores urbanos.

"Velhos problemas, velhas soluções", comentou consigo mesmo em tom fatalista.

O nome do bar era "Casa da Cachaça", históricamente falando tinha lá sua importância, tal como a Rua Tonelleros; e qualquer merda de rua possue importância se algum burocrata do MEC ou da prefeitura entram em conluio, assim como a rua Carlos Lacerda, aquele filho da puta de extrema direita, de extrema direita sim, que Vasilli era obrigado a passar próximo às terças e quintas.

O mais importante no entanto, era realmente poder sentar nas fronteiras da Lapa, na parte externa ainda sem glamour, ainda não revitalizada(e que bom) sem ser importunado por meia dúzia de conhecidos, o que particularmente costumava detestar quando desejava a paz. A ansiedade lhe corroía, e isso pareceu atrair rápidamente o garçom; e seja como for que realmente tenha acontecido, o fato importante é que pediu uma cachaça de maçã: "pra aquietar o espírito" brincou em um tom simpático e jocoso que poderia ter sido proferido por alguém, no mesmo bar, há sessenta anos atrás.

Era uma frase senso comum, corrigia-se segundo este racionalismo chato que o atacava vez ou outra, que transformava padrões em padrões e tirava o significado oculto das coincidências, um milhão e setecentas mil coincidências ocorridas em uma semana sem explicações, transformadas em simples acaso, em simples "fora das probabilidades", "exceções". Ciência e estatística de merda.

A mesma que insistia em negar o mistério do desconhecido em prol de uma lógica moribunda, acabava com o abismo e trazia-lhe uma colher, um relógio ou uma aparelho de endoscopia importado da Coréia do Sul.

A ciência era um burro com uma cenoura amarrada, que jamais consegue alcançar-se! Eis a ciência contemporânea. Perdida em vazios que ela mesmo criou. Perdida em sua própria ansiedade.

E nem me fale em ansiedade. Vasilli contava seus trocados e esboçava profundidade em divagações, cigarros e sorrisos; todos óbviamente de duvidosa qualidade.

- A ansiedade é doença da modernidade. É da modernidade, esta merda de modernidade!

- Filha legítima!

Gritava, mas ninguém escutava, fantasmas e murmúrios desfilavam por entre os goles de cerveja.

A música lhe irritava, era uma mistura mal-sucedida de uma tentativa abrasileirada de um pop inglês de baixa qualidade, que o levou a tragar todo o resto da aguardente com vigor de um bêbado semi-profissional. Meu equipamento mental está totalmente viciado - assumia.

Somos viciados. Estamos condicionados como ratos, vagando por cidades sujas, respirando merda, sim respirando merda flutuante, exalada por fábricas imundas, símbolos fálicos flamejantes com rodas e outras porras com néon. Plástico, neon, essas merdas, que constróem templos do dinheiro, do consumo, reunindo cada vez mais ratos, que se aglutinam em torno de luzes, como aquelas vespas estúpidas que rodeiam luzes em dias de verão.

Templos do dinheiro, templos de deuses que vendem cocô misturado com amianto, seguidores mentecaptos, ovelhas e pastores, estética, estética, estética. Gritada, vociferada, por sob os escombros da roda, roda suja de sangue, engrenagens de um vazio: um vazio dinheiro.

Há uma ânsia por destruir, por construir.

A ânsia destruidora é uma ânsia criadora. Com explosivos o suficiente eu explodiria um prédio na avenida central, um templo do consumo durante a noite e evitar-ia milhares de moscas rodearem edifícios semelhantes por no mínimo cinquenta dias com otimismo, um tempo necessário para a mídia construir e instituir novos medos, vender, e enlatar sessenta e cinco ou sessenta e oito produtos pús-modernos que não precisamos. Riu da última divagação: era raivoso demais e ele nunca viu nada mais explosivo do que óleo diesel ou gás de cozinha, talvez até fogos de artifício, mas lhe sobrava ímpeto e a volúpia guardada pelos outréns.

Mais uma garçom!

Lembrara e observava com desdém, alguns atores baratos, criaturas suburbanas que vagueavam fantasiados de revoltados demodé. Não há nem mais romantismo nessa cultura urbana! A cultura urbana fracassou!, está morta. Enterrou-se sozinha. E estamos lutando para dividir seus espólios. O funeral no entanto, não acabou!

A rebeldia não está na imagem, na imagem só há ficção. Com polietileno, metal ou gel de cabelo eu conseguiria atrair todo o ódio de uma festa de primeira comunhão no bairro de Laranjeiras.

Escoteiros se ofendem até com caretas.

Sem as células, sem a porra das células, o tecido já estaria morto. Sem a merda da organização vamos vaguear como bostas. Riu de si mesmo, por que tudo fora do contexto poderia parecer realmente pior do que era, foi por issso que acendeu o segundo cigarro e pediu uma cachaça sabor-banana para fechar seu apetite de vez e torcer para que o sono viesse no princípio do terceiro trago. O garçom evidentemente não gostava, e ele deixava claro quando demorava, ou ignorava os sinais, os gritos, os sussurros inertes, porque cachaça segundo a episteme da gloriosa casa-receptora-de-droga-legalizada-pelo-governo é a que é feita de cana, a de açúcar, a de cinquenta escravos fugidos queimando a casa, o senhor do e o próprio engenho em 1793, antes das Antilhas fuderem a porra toda. Mas ainda restava o Haiti que era um exemplo corajoso; não racionalizaria novamente, se o garçom por princípios epistemológicos obrigasse-o a racionalizar alguma coisa, apenas diria que a cana possui um passado vergonhoso, mas no fundo no fundo o que estava na ponta dos culhões era dizer que a cachaça de maçã era mais gostosa.

O sono não veio. Algumas coisas temos de provocar, não é mesmo? Pensou, antes de observar o terceiro ou quarto grupo de revoltados demodé desfilar por entre as esguias calçadas(seguida de um brinde e um olhar carinhoso para a demodé da terceira fila apesar de Vasilli não estar vestindo a fantasia adequada para o intento afetivo).

Algumas das fantasias usavam óculos quadrados, vestiam roupas encomendadas, americanas, européias, rebeldia vestida; desfilavam-se, costuravam-se cheios de couraças.

Devem cagar Almodóvar no café da manhã. Riu solitáriamente da própria piada, o garçom entenderia, pois era engraçado, ele e a piada. Começou a enumerar o que deveria fazer na próxima semana: estava cheia, cheia de compromissos, vamos mudar o mundo!, dizia em silêncio, vamos, vamos mudá-lo, vamos, vamos correr, e aí ofegava, e parecia um miliciano da guerra civil espanhola, deslocado do tempo e do espaço, e aí bebia a cerveja com mais vigor, era aí, e exatamente aí que uma descarga de adrenalina percorria os brônquios que dilatavam, e aí, lembrava-se de Kafka, Bukowski, Cortázar, Neruda, Pessoa; e a cerveja vinha com mais força e aí, especificamente aí, os sobrenomes de algumas aftas emocionais apareciam por tabela.

Enforquem metade dos publicitários e já teremos um bom começo. Pensou baixo, por que atacar pessoas não era seu intento, gostava de esmagar posições, falemos baixinho - mas ninguém resiste a uma misantropia de vez em quando, é algo de tão bom tom em qualquer situação, desde que se consiga parecer irônico, mesmo com uma péssima má fama.

Odiava os misantropos que levavam sua misantropia realmente a sério, pois eram os primeiros a pedirem abraços em dinâmicas de grupo de psicoterapia; era tão óbvio quanto os ratos se aproximando das luzes de neon, dos óculos quadrados, das calçadas esguias e de todo aquele padrão e aquela fantasia criada apenas para incentivar perfis de consumo e torná-los "especiais".

"Para incentivar perfis de consumo." Falou alto, repetiu mentalmente, bebeu o último gole, amassou o cigarro na mesa de ferro, deixou alguns trocados na mesa e partiu.

Espreguiçou-se mentalmente: "Perfis de consumo... e é apenas isto."

Partiu rumo a um desconhecido, um desconhecido que se ele não apetecia, tornava-se pela força dos fatos insuportávelmente óbvio.

domingo, 21 de outubro de 2007

Melhorarás

Espero realmente que as coisas melhorem.

Ansiolíticos naturais; são perigosamente limítrofes.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Insônia

Meu corpo está clamando por pontos finais seguidos de parágrafos bem longos.

domingo, 26 de agosto de 2007

Sobre o mês do desgosto

Decadência. Definitivamente não é o caminho meu amigo.

Este mês também não tem sido. Não tem sido. Definitivamente, não é.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Fernando Pessoa e seus heterônimos

Contemplou-me maravilhosamente bem...

Por Álvaro de Campos


Estou Cansado
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Fechado para balanço


Por um tempo a definir.







A definir.