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sábado, 9 de maio de 2009

Tesoura de Pontas Arredondadas

atualizado em 11/05/2009!

Uma conta de quinhentos reais matou seu amor. Ele não dramatizava, e sentia que o drama lhe escapou após o velório, quando na terceira reflexão sobre um dos paralelepípedos que lhe pareceu em desacordo com os restantes, lembrou que não precisaria mais frequentar as festas de gente medíocre que tanto odiava; pareceu um consolo, mas no fundo no fundo se falasse em outras épocas seria sim, um egoísmo, e dos grandes.

Mas havia o pragmatismo dominante cuja nova religião acalentava parte da alma, aquietava o espírito, dominava o corpo e vez ou outra derrubava algum valor antigo.

Mas aquele sorriso verde não; aquele sorriso cujo peso, o do metrô, inesperado e absoluto, durante a experiência cruzada num cheque e num esbarrão desenhado por uma situação noturna, clamava futuro e era por vezes opressivo, trazendo desintegração e isto preocupava completamente a comunidade.

E aquelas pessoas, menores do que um arroz de segunda-feira, ou de um saleiro, ou de uma copo descartável que ninguém sabe realmente se é ou não reciclável, e ninguém sabe também se as pessoas o são, agrupavam-se, atrapalhando o destino de vida que ele idealizava. E sem consultar o todo poderoso, vez ou outra este lhe enfiava um ônibus saindo do ponto, uma carta de despedida, uma oportunidade de estágio jogada às traças, um amor impossível, uma idiota que queria conversar, quando ele desejava apenas silêncio.

E o divino era qualquer um: um esbarrão, uma música de Charles Mingus, uma kombi com um filho da puta egoísta na direção!, um idiota bem intencionado que estragava tudo, tanto à si mesmo ou sua boa intenção, e a linda ruiva racional que na hora dos testes secretos e pessoais que ele encomendava no intervalo do gole da cerveja, falhava, falhava comiseravelmente diante deste mecanismo divino, e aí deixava de ser ruiva. A noite apagava e faltava-lhe vontade e clemência para dar mais uma chance àquela possibilidade vermelha, roja e feminina, que não conseguia passar pelos testes afetivos mais básicos e ainda assim, num balé semi-ridículo, insistia em não tornar-se plena, e desgastava-se à ponto de não ser suficiente em si mesma, e ele, ele odiava a auto-piedade, e foi por isso que quando a verdadeira morreu, não resolveu despejar meia lágrima, por que tinha coisas mais importantes à se fazer, como reler Rauyela e arrumar aquela parte do armário ignorada durante anos.

As falsas ruivas falhavam. E quando uma destas, reprovava-se, reprovava-se por atitudes que desconhecia ter, e mesmo que resolvesse por algum motivo explícito obter, como num passe de mágica, de teatro ou de pura estupidez(e se alguém lhe informasse do ponto de inflexão exato) em que pudesse se adaptar para vestir o arquétipo da melhor maneira possível, ficaria reprovada, pois seria o mesmo que uma cola, e os testes afetivos que ele silenciosamente construía, eram definitivamente sem consulta. E ele não culpava-se, pois cada um possuía testes secretos que não revelavam para ninguém e que difícilmente, mesmo que revelados corresponderiam ao verdadeiro teste, guardado em segredo, quando revelado, modifica-se internamente como num mito antigo que escutara[1].

Ele mastigou as nuvens, recortadas após um erro de calendário, com uma tesoura de pontas arredondadas; que não agrediam a infância e na mesinha de centro um campeão cheirando uma carreira de pó não tão vencedora, mas que surpreendia sempre que parte daquele teatro embarcava no políticamente correto da divisão do cartão American Express; vencido.

E só no seu mundo, aqueles viciados eram poéticos à ponto de ilustrarem pouco de seu cotidiano; na maioria das vezes, e isto fugia à poesia, qualquer vício previsível era tão poético quanto rotinas classe-média.

E aí havia um ritual específico que pontuava o ambiente.

O lábio mordido, o sussurro no túnel; e aquele mictório, onde ele teve de desmanchar aquela decepção orgânica pensando na ruiva, aquele, no canto do piso, com aquela urina, velha urina e assim, sentia-se poético, sentia-se amável e com e como, uma gorfada sincera as pessoas ririam, ririam com o som do vidro, da caneta, da nota, da fungada.

Sucediam os testes secretos administrados pelos campeões. O intuito era credibilidade; mas naquele momento não mais importava, pois a confiança só fazia sentido na largada, que durava cinco ou seis minutos, na esquina daquela vontade de se matar, que perdia para uma prestação parcelada de morte ritmada que alguns chamavam de festa. Mas e durante a prova havia sempre a possibilidade de alguém se fuder numa Tamburello, e morrer como um fracassado, com pó nos culhões e uma atendente frígida injetando insulina ou fazendo transfusão de sangue em plena Avenida Brasil, que de nome, já basta o fracasso.

A felicidade teve nome; e isto aconteceu setenta e seis horas depois da festa, pois só se é feliz quando se conhece a desgraça. A felicidade foi enterrada em frente à passarela dezesseis num dia ensolarado, que não acordou meia dúzia de viciados, demasiadamente preguiçosos e avessos ao sol, mas conseguiu cumprir seu papel de trocar receitas de bolo de mães cristãs que copiosamente amavam seus papéis sociais no intervalo do coveiro e das lágrimas, sussurrando as mesmas frases que eram distribuídas e vendidas sistemáticamente pelo vendedor de jargões-para-serem-ditos-em-enterros, que diante aquele quebra-cabeça mal-ajambrado, colecionou uma pequena fortuna e foi o verdadeiro show-man por detrás daquele enterro.

E quando aquele filho da puta, que entrou armado, usando o mesmo pó, a mesma arma da novela das oito, o mesmo argumento, e a mesma dívida(ele não tinha American Express - portanto não podia parcelar a vida nem a agonia), ela morreu, ela morreu por que a filha da puta teve azar, e só tinha quinhentos reais, e ele com pó nos culhões, precisava de dois mil...

Bateram na Tamburello, e se fuderam, se estatelaram e a festa acabou:

- A festa acabou porra. Acabou, dizia mais um viciado cujo nome pouco importa, mas que estava mais preocupado era com o pó manchado de sangue, do que com ela, fudida numa noite em que não deveria, mas procurou sair de casa.

Se Deus não conseguira lhe emprestar cem pratas, deus não servia pra porra nenhuma: falou no enterro e metade do velório não notou, pois aquele novo ansiolítico distribuído pelo ministério da saúde era o melhor que já vira; mas a outra metade notou, e achou poético, e ele foi recebido com aplausos calorosos, pois há muito tempo ninguém recebia uma demonstração tão vívida de emoção e sinceridade, pois aquela sociedade já fora completamente consumida pelos ritos sociais e degenerava-se à perfeição.


[1] Amaldiçoado por um deus antigo, um pastor de ovelhas queria casar, uma deusa lhe deu um artefato poderoso, uma urna mágica, que continha um objeto dentro desta.

Esta urna possuía um tesouro e uma função mágica; aquela que visse seu conteúdo ficaria terrívelmente apaixonada pelo pastor. Arguto, este tentou usar livremente sua caixa mágica, mas viu-se terrívelmente frustrado quando descobriu que o objeto tornava-se invisível quando abria a urna para suas pretendidas. Descobriu a seguir que ao contar o que a urna guardava, o objeto aparecia; mas havia um truque que demonizava aquele artefato; toda vez que seu dono revelava o conteúdo, este modificava-se, e ele sempre passava por bufão e mentiroso. Sempre que revelava o conteúdo da caixa, o conteúdo se alterava e então ele retornava à estaca zero. A maldição jamais se encerrou, até que o pastor ficou pacientemente aguardando alguma mulher que conseguisse visualizar o conteúdo da caixa sem que este a revelasse, para conseguir se apaixonar, falhou e morreu só.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Matemática do Diabo

E o antigo, chamado de velho nos corredores íntimos do não-políticamente correto, observava, e sabia pelo movimento de quadril, ou pela blusa rosa desajeitada, cujo cabelo quase molhado, que cobria parte da alça do soutien, que a ruiva compraria pão, iogurte e mel.

Era uma matemática dos diabos.

E tal fato se repetia, reproduzindo-se, seguindo uma vontade oculta não explicada que não fazia sensualidade naquele corpo antigo, mas que despertava no cotidiano do velho uma sensação contínua de deja vu, esboçada no fim de seus dias, onde a ruiva, tornada ponteiro, ou apenas areia escorrida na ampulheta do cotidiano, colocava-se exposta, sempre num bom dia ou numa conversa trivial na porta daquele mercado curto, curto de interações sociais.

E o pão, o iogurte, e às vezes o cogumelo shitaque, preso num copo de vidro, rendiam mais do que um bom dia, no qual o velho, recostado no único banco sincero daquele hectar, em frente ao mercadinho sem nome, procurava prolongar mais seus oitenta e dois anos bem vividos com a conversa casual e pontualíssima que lhe era costumaz.

E a ruiva, vítima corriqueira e agradável de um sorriso cuja experiência e serenidade já faziam parte das necessidades culinárias do cotidiano e da vida, fazia questão de o agraciar, menos do que a sua história realmente merecia.

E o velho, ou o antigo - digam os justos, agradecia gentilmente aquela que parecia sua filha emigrada para o Canadá, ou na verdade, que justamente se assemelhava, de alguma maneira particular que só o antigo se recordava, de sua querida e eterna amante: esta mulher, Lola, valente e ruiva, que fazia-o viver perante os apocalipses do cotidiano. Que o fazia chorar nas noites de Natal. Aquela memória viva, lacinante, que fez aquele velho sem vida naquele mercado sujo e desigual, lutar nas barricadas da Espanha, que o fez, chorar, quando teve de enterrar Lola Iturbe assassinada pelos franquistas em 1936, onde a terra camponesa e coletivizada que guardava aquele corpo matava também parte de si próprio.

E o taxista, aquele que não tinha nem uma experiência rica e devastadora de uma grande guerra que produzia monstros de carne e osso, ou ou a esperança de uma grande revolução, assistia as guerras da televisão como videogames, onde não existiam Lolas, nem pães, nem iogurtes, e que costumava apenas pensar banalidades que não emigravam nem para a Espanha, nem para o mercado do cotidiano, que se espatifavam e morriam estilhaçadas quando um passageiro resolvia viajar de táxi, encontrava-se largado. Com as mãos e pupilas cansadas, onde a ruiva, a ruiva tornada assim cotidiano, parecia apenas inalcançável e distante como um fundo que não se mexia e ele não adivinhava nem com o movimento da ruiva ou do velho, que seus dias estavam contados.

Os ponteiros passavam, matando o velho nos intervalos da ausência sincera da ruiva, e quando ela fazia-o viver, agradava alguma idéia de encadeamento do destino, perdida no sótão sórdido e oculto de alguém que enxergava a eternidade em outro ponto da cidade que não aquele.

E aí neste ponto exato, mas estúpido, onde as coisas não se encontravam se não por obra de um deus dado pelo nome de acaso, ou no caso atual, desta fabricação quase real das possibilidades, Vasilli encontrava toda a história como num aneurisma de um mundo que se fazia apenas causa-efeito; este encontro secreto, mas agora revelado ao leitor, se deu na noite do dia dezesseis de um mês quente de verão, talvez um fevereiro, mas decerto seria um quase-março, onde ao acender um cigarro, Vasilli, enxergou sem ver, aquele soutien rosa, sob os ombros corajosos daquela ruiva.

No encontro do mundo, pequeno pedaço de algo forçosamente unido, nutriam, o mesmo sentimento de perda, e desconheciam, que cada um, taxista, Vasilli, o antigo e a ruiva, constituíam-se num encontro revelado que desabrochava frente à uma única cor e onde todos fingiam, mas mesmo sem par, a necessidade fazia e impelia-os a se encontrar.

domingo, 21 de dezembro de 2008

O retorno e o agravamento da Ruiva

"Não é preciso dormir para sonhar." Sussurraram.

Acordou. Acordou e estava no bar. Sentara naquele Pub simpático, e por um momento ainda percebia o mundo desfocado. Desfocado enquanto seu aparelho perceptivo adaptava-se de maneira covarde diante do barulho e do mundo, diante das pessoas, do copo de cerveja preta esvaziado, e talvez entre algo que o reflexo de seu copo e sua imagem diziam a si mesmo: "apenas acordou". À penas acordou.

Deve ter sido difícil acordar, assim tão último. Mas ele aprendia rápido.

Acordou. Acordou e fez um acordo, que aquela realidade precisa, extremamente precisa, e por isto doída e maravilhosa, havia de ter um motivo oculto, algo que encadeava fatos, organizava-os e dizia o que no passado haveria de valer a pena, e o que no futuro era o resultado apenas daquele pretérito feio, bobo e que costumava dizer: "era jovem e imaturo demais".

Mas não. No meio do seu pensamento tinha uma ruiva e tinha uma ruiva no meio do seu pensamento.

E ela disse: "Não é preciso dormir para sonhar." E ele acordou. Acordou sem chão, apesar do taco de mogno opor-se às ruivas abstrações.

E ele deveria manifestar-se, socar o balcão, jogar o copo de vidro no chão. Carregar ela para fora ou gritar.

E o que ele disse foi o que se segue adiante, apesar daquele diálogo não se seguir como de costume...

- Eu sempre tive esperança. Eu sempre tive. Porra. Eu sempre tive esperança. (soluçou)

(Lágrimas rolavam...)

A ruiva voltara. Ela voltou. Voltou sem a música francesa; voltou diferente, voltou menos ruiva, voltou de cabelos negros, e ele socou o balcão; como exatamente disse que não faria...

E ela prostou-se. Abaixou a cabeça e possuía um olhar que não era mais o da ruiva original.

Ele não, ele só chorava. E resolveu deixar a conta; com a gorjeta, resolveu esbarrar em duas ou três cadeiras, resolveu chorar em público até a porta do bar, resolveu correr para o estacionamento quando sua vontade só lhe dizia para não fugir, mas para encontrá-la.

E ela, bem ela, resolveu esperar. Pois sabia exatamente, que deveria esperar, sabia exatamente o quão aguardar... E ele, ele, chorou mas por um delicado momento, o momento que lhe roubaram os sonhos, sabia que ela esperaria, mas sentiu medo, sentiu medo, por que seu medo lhe dizia que ela sumiria da mesma forma que apareceu, pois não era preciso dormir para sonhar...

Ela chegou no terceiro soluço, mas ele já estava de pé, no estacionamento, olhava para a baía suja, repleta de polietileno e rancor, ele não chorava, apenas controlara-se e para isso precisava queimar fumo no pulmão, precisava dizer que enfim, cerveja preta era melhor do que cerveja branca.

- Você fez. Ela disse.

- Você fez. Eu vi na Tv.

- É. Eu fiz. Acabou. Chega. Ele fumou, e apagou o cigarro após o silêncio mais profundo em quatro ou cinco anos.

- Eu não queria voltar assim.

(assim como ele pensou?)

- Eu queria lhe mandar uma carta. Mas eles me perseguiram.

- Eu queria falar que tudo o que passou foi um terrível mal entendido.

(ela disse isto? um tiro na cara seria melhor - pensou).

- Um tiro na cara seria melhor, ele falou.

- Eu não mandei nenhuma carta por que eu pensei que você também podia estar com problemas. Eu só fiz o que eu pude fazer. Você sabe.

O silêncio tomara conta do cais. Apesar de não convidado.

Ele tirou os sapatos, jogou-os no mar. Ela não falou nada por que achava que era um falso cognato. Em inglês "adept" significa perito e não adepto. Exemplos.

Ele sentou, e chorou mais uma vez e era a segunda vez que ele chorava assim em anos.

Ela abraçou-o.

Não falaram mais nada.

Nada havia.

Nada poderia ser dito.

A conversa se encerrara.

E ao contrário do saxofone, ao contrário de uma viagem para o norte do Brasil, ao contrário de um apartamento no Catete, ele, não ela, esqueceu o passado, e abraçou-a. Apertou sua mão carinhosamente, enquanto os lábios mudavam, enquanto eles se reencontravam, enquanto ele redescobria seu pescoço, seus cabelos outrora ruivos, enquanto ele apaixonava-se novamente por sob cinco minutos e ela entregava-se.

E entregavam-se. E resolveram não falar, por que era o silêncio que desejavam.

E os lábios já se reconheciam, e nada falavam, além dos beijos, além de encontrarem-se nas esquinas do amor; aquele amor, bandido e original.

Ela amando algo que já tinha se perdido, e ele amando uma ruiva, uma ruiva, que resolveu morrer após o cais, pois ele, Vasilli, pobre Vasilli, não pode aguentar, não conseguiu aguentar e resolveu procurar o anjo, o anjo que levara Anatole, para o viaduto, para o concreto, para o mundo em que não haviam ruivas.

Amou-a. Não o culpemos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O retorno para casa

Inicialmente era um ateu bem decidido, um ateísmo que não lhe incomodava e até resolvia comportar-se mal em festas de aniversário, somente as que mereciam verdadeiramente serem implodidas. E seriam reveladas ou com um discurso escatológico que ofendia metade da família, ou com alguma atitude desprezível jamais recordada.

Fora devido as seguidas ironias, ou melhor, situações limites, onde o ridículo se apresentava como realidade, que ele fizera-se suspeitar que deus sim existia. O canalha existia e costumava brincar de poesia. Esta reflexão profunda e importante, acompanhou-o durante uma dor no fígado que o fizera vomitar quatro vezes na segunda metade do mês de setembro: as contas estavam atrasadas e a lasanha infelizmente, encontrava-se poéticamente no forno, aquecida sob a diarréia metafórica.

Brincava como um anão de circo cuja metástase em algum dos membros inferiores ou superiores o levara a produzir um libido impotente e que fazia-se necessário, no choro acobertado pela mulher barbada ou pelo engolidor de espadas acusado de homofobia. Injusto.

Numa situação limite apresentava-se uma coincidência impossível, um azar imprestável no sábado a noite, ou algum objeto que caído produzia vida e machucados na sexta-feira; uma sexta fácil de ser vivida, mas que com a presença de deus, este grande inimigo, as facas, as colheres e até mesmo as lembranças escondiam o veneno: era a peste se manifestando imprevisívelmente.

Deus a peste, sob luzes vermelhas, uma peste presente, um corte na sola do pé, um ex-namorado endiabrado ou até mesmo um telefone que modificava e deformava todo o conjunto da obra.

Deus era o satã de gente fudida.

E eis a lona da vida: ridícula, mas adequada. Adequada ao medíocre que se estabelece sem dúvidas, e a si mesmo entoa o mantra de inúteis seiscentas repetições de promessas que jamais serão cumpridas.

Verificando empíricamente, temos neste exato momento quatrocentas e treze promessas não-cumpridas que alimentam cento e dezesseis proprietários de pequenos estabelecimentos operários e periféricos panegíricos cuja venda de álcool é assim, normal-normal.

O cinzeiro largado na quinta ou na sexta música, tornava-se óbviamente a parte cênica de seus pequenos desastres, ainda que lhe chutassem seus joelhos num dia de raiva. Mas também havia a música costumeiramente melancólica, as guimbas nas latas, a vodka pela metade, o sofá vinho, a cortina bege-limão e o calor, e a chuva, todas, apropriadamente ociosas.

Havia o ovo solitário da porta de geladeira, cujo diálogo com a cerveja produzia algum aspecto de solidão que refletia-se na pupila de Vasilli, o observador e colecionador de latas de cerveja e espectros de agonia, cujo ovo refletido na córnea direita, dava-lhe a impressão de ser mais poderoso que deus.

Mas isto acabava quando abria a geladeira e a si mesmo com força. E esbarrava em algum talher ou copo e produzia barulhos que incomodavam as memórias e os ouvidos ocultos e cultos de seus pais.

Deus ainda falava, decerto bêbado, cuja vontade resolvia compor cigarros na praça Tiradentes às duas da manhã, sem que ninguém ouvisse ou observasse aquele ser desprezado, tomar a carroça de deus, rumo ao olimpo.

O ateísmo voltava às quatro da manhã e sob seus ombros, responsabilidades, papéis, burocracia, e enviados de deus. A dor no fígado e a introspecção chegava às cinco e quarenta. O ônibus, com o guichê, a porta de supermercado e as leis do banco não aparecia antes do pôr do sol, que se afastava dele próprio às sete da manhã, já vencido pelos cigarros e por deus.

E foi assim, assim quase no princípio, que a estrutura social da civilização pareceu-lhe súbitamente, absurda; tremendamente absurda, pois deus, deus existia e resolvera existir, de uma hora para outra.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O navegador e o cartógrafo

Eu insisto é verdade. Navego e insisto. Insisto por que não me enfastio de mim mesmo. Pois em mim há um outro. Um outro que insiste em viver e que decerto não nego em seu conteúdo.

Mas o diferencio por ser este "um outro". Um outro que vive em mim; um cartógrafo, que tem outras idéias, propósitos ou razões, apesar de corroer as mesmas vestes e vestir o mesmo corpo.

Este outro alguns dias vence. Alguns dias perde.

Quando ganha, pinta, bebe e escreve. Mas há dias em que venço. Raríssimos.

E algo de tudo isso eu faço. Faço completamente sem ele, apesar de entediar-me rápidamente.

Alguns dias o empate. Dormimos. Sonhamos um com o outro. Sem saber bem, quão espelhos, quão imagens somos verdadeiramente.

No jogo e no sonho a tensão; cabelos vermelhos nus como novidades, olhos de rainhas e é dia de limpar o lodo do abismo, abismo que eu descortinei. Abismo onde resolvi navegar com meu cartógrafo.

Quando o outro lhe convidar ao abismo: vá preparado. Lanternas, luzes, barraca de dormir, saudades.

Não há mapa a venda. E os que hão, da mão do cartógrafo nasceram; portanto não são confiáveis.

Sem mapas não se acham as ruivas.

E é exatamente por isto; que eu prefiro ser encontrado. Encontrado pela ruiva, por acá, acá no abismo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Despido dos censores

Quando tinha uma má idéia, costumava andar sem rumo pelo centro da cidade ou evocando um espírito indômato já derrotado, sentava na janela e observava a lua, as nuvens ou algo que se se assemelhava ao seu céu.

Não obstante acabava cansando; cansava-se por que insistia em inserir um outro inexistente naqueles momentos que eram só e tão particularmente seus.

Inseria esta presença invisível, este olhar oculto que fazia-o sentir-se patéticamente superficial.

E não era deus, pois seu ateísmo não-praticante apesar de disperso, não lhe permitia transformar seu ego humano em pura metafísica.

Vez ou outra, aqueles momentos acabavam assim, vencidos por este persecutor invisível.

Um carrasco que só existia nos meandros da sua mente, mas que concretamente sabia agir como um bom censor: condenava o que outrora era profundo à mera e pobre superficialidade.

Transformava um ato de fé em frivolidade, um exercício de introspecção em coisa rasa, uma dor profunda, em mero capricho, de gente que não tem nem o direito nem os motivos certos para sofrer.

A dor só era mais vítrea e a angústia mais honesta, quando o outro morria sem lutar, quando a presença invisível evitava confronto e o censor jazia morto sob uma lágrima sem motivo aparente, mas completamente honesta.

Era aí, e somente aí, que podia começar a escrever, sonhar ou amar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mal-ajambrado

No meu ímpeto misericordioso, tento transformar minhas angústias em angústias coletivas, apesar de saber que não há nada mais precioso e meu, do que as minhas e só minhas angústias.

Quando exponho minhas entranhas em público, seja num gole de cerveja, num sorriso mal-ajambrado ou num texto escrito em papel de guardanapo de final de semana, eu sei, sim, eu sei que exponho não só minhas vergonhas, mas as vergonhas de outrém.

Quando me lêem, sei que não só me lêem ou me exumam diante do mundo; sei, e tenho a certeza a cada letra cuidadosamente cunhada, que estão a se destrincharem diante da ribalta de silício, estão a se esquartejarem comigo, este autor, torto e pobre autor...

Quando me despedaço e me olho como os de fora verdadeiramente me olham, sei que dou a oportunidade para que façam por conseguinte o mesmo, pois a sombra e o defeito do outro, é sempre do outro, até que o fato seja verdade. Por que nem todo fato é verdade e nem toda verdade é fato até que encontre-a verdadeiramente assim, posta de lado.

A face que oculto de mim é sempre mais clara ao desterro do amigo, ao ódio sem condição, a paixão imigrante e recorrente; e ao afoito ouvinte ou faminto leitor.

Na verdade e devemos falar a verdade sempre que ela se apresentar mais estética, falo como um autor comum, comum como as mais comuns das criaturas: as do ponto de ônibus.

O texto, este pedaço de coisa parida, tem a envergadura de um zé comum e o conteúdo que é do tamanho do infinito ou da mediocridade de quem me lê.

Sou um caco de espelho mal-ajambrado, só reflito o quê e quem me olha.


domingo, 14 de setembro de 2008

Poesias secretas

Você sorri com a morte nos dentes
E ainda assim resolve enganar
Todos eles que distribuem saliva na mesa de centro

Eu não bebi a última cerveja
Mas você me encontrou com gemido nos olhos
Era parte do tecido
Um tecido ruim

Você pagava o pecado na mesa
E eu nunca, guardei nada para ninguém

Eu te amava
Te amava

Como um sorriso no fundo
Ou uma porca pintada de verde e vermelho

Eu te amei com gemido na mesa
Eu era erótico
Minha saliva nunca guardei para ninguém

Eu te amava
E os que distribuíam sorrisos na mesa
Ou no fundo da mesa...

Não guardavam o pecado
O pecado que eu vomitava
Vomitava, na mesa, entre os dentes

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Violentas Insônias

Confusão por sobre a mesa, por sobre a cama. Perdido. Espelho da alma, o quarto repousa sobre a angústia, por sobre o bilhete amassado, por sobre o livro e o casaco embolado entre a porta e o tapete.

Anda de um lado, caminha por outro, bebe água, respira, respira mal, pesadamente, perdeu-se na pia, lavou o rosto às duas, duas e treze, às três e quarenta.

Continuou sujo.

Os olhos pesados não pesavam, a mão leve coçava a fronte e ajudava a respirar o cigarro, calava-se; e ainda assim, ainda assim os nós dos dedos não conseguiam tatear o silêncio.

Tentou olhar para si, e na bula constava indicação: efeitos psíquicos colaterais, perturbação, insônia, por fim simples angústia. Simples? Pigarreou em tom de deboche.

Olhou para si; um eu que desconhecia; na verdade desconhecimento é falsa palavra.

Desconhecimento supõe contornos novos nunca observados, o que sentia era verdadeiramente estranhamento. Um estranhamento voraz, que o comia a cada ponteiro movido, a cada noite mal dormida, a cada sonho mal interpretado.

Chegara em pontos de ruptura, decisões, frações de si que clamavam por controle ou que verdadeiramente caminhavam para uma morte violenta.

Morria, morria todas as noites. E quando começava a morrer por detrás da luz, coçava a fronte, respirava o cigarro e lavava o rosto, duas e trinta, três e cinqüenta, quatro e cinquenta e nove...