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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Diálogo de Iguais

É como se o verniz, que há tanto tempo, que usei para me proteger do mundo estivesse saindo aos poucos e que somente nesse momento, pudesse me ver e rever o que fiz.

E desprotegido, perdesse todo dia, um pedaço de mim, cujo revés, me prostrasse entre uma cama de motel vazia ou um café no centro da cidade com pouco açúcar.

Feito em parceria com Rosa

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Da humanidade que sobrava

Sobrava-me humanidade no meio das lutas do povo, das causas que eram justas por que se faziam justas, mesmo que não precisassem apelar à justiça.

Mas ainda assim, estava lá, no meio da gente, da multidão, caminhando por motivos justos, mas por dentro faltava-me um algo, que preenchido por aquele todo, justo, fazia-me menos indivíduo e me tornava mais multidão.

E continuava faltando alguma coisa; um toque nas mãos, um cafuné nos cabelos, uma doce troca de olhares que não calava nem quando os cães do estado resolviam atacar.

E assim, minhas pernas seguiam, dentro dos vagões do metrô, cujas páginas andavam junto com a vida e o trilho dos trens, e eu podia ver uma ou duas estrelas brilhantes no céu que se faziam convidadas na janela do meu quarto, justamente naquelas noites em que me sobrava justiça, mas faltava-me tudo.

E pensei, que não haviam multidões, bilhetes ou movimentos políticos suficientes para acabar com aquele injusto ruído.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Mas que Natal estúpido

Feliz Natal.

Nos jornais, junto com os pães e os brioches entregues na área nobre da cidade, por algum jovem trabalhador, o sangue escorre pela tinta da matéria em destaque. A classe média não liga, o sangue dos pobres lhe é invisível, mas as promoções no caderno secundário parecem-lhe atraentes.

Feliz Natal.

No canto onde os olhos dos transeuntes não alcançam, no encontro das duas avenidas centrais do centro da cidade, um remanescente do século XIX perambula a procura de comida, de esmolas; os pedestres não olham. Estão cegos com as promoções e os letreiros de natal.

Num cartão de natal, encomendado por um oficial do alto escalão da polícia militar do estado do Rio de Janeiro, e enviado a diversas autoridades, um papai noel aparece fardado e exibe um fuzil ao lado de um blindado apelidado carinhosamente de caveirão. Uma criança negra brinca sobre o blindado. O cinismo é um pré-requisito indicado no terceiro ponto do edital do concurso de acesso à polícia militar; consta em ata e foi lavrado por um especialista em concursos públicos.

No mundo da ficção o natal é diferente. Na ficção chamada favela, especificamente no Parque União, quatro famílias ganharam um presente inusitado: quatro caixões de madeira; o presente foi entregue pela Polícia Militar via aparelho de Estado.

No complexo de favelas da Maré as faixas contra o assassinato de jovens e moradores não precisam ser trocadas, são úteis em qualquer época do ano, reciclam-se apenas os carrascos e os mortos.

De madeira também é feito o presépio que ostenta um dos salões principais do Copacabana Palace. Para apreciá-lo o visitante deve pagar a modesta quantia de 35.520 reais. O pacote inclui acomodações, café da manhã e acesso livre à sauna(seca ou a vapor), à quadra de tênis e permite o usufruto das dependências do hotel no dia da noite de natal.

A consciência fica por conta do hóspede.

Na área mais insalubre da zona oeste da cidade, numa ocupação sem-teto, quatorze famílias não dormem, a ordem de despejo estava prevista para dezembro, mas fora adiada para a primeira semana de janeiro. Pois até os carniceiros precisam descansar.

No corredor de um shopping as pessoas se agitam, os corpos dizem: "nós não temos culpa!" e as mentes apenas apertam os botões.

Na tv alguém diz que o consumo precisa aumentar, na calçada de um prédio dois homens ousam dizer que a pobreza não é culpa da sociedade, mas apenas dos pobres.

Na padaria entre um gole de café, algum iludido ainda acredita no Natal, o cristianismo parece lei, apesar de existirem outras cem religiões.

As crianças se animam por um mito transformado em mercadoria. Papai Noel era azul, até conhecer os executivos da Coca-Cola.

Em alguma fronteira esquecida, entre o asfalto e a favela, crianças se amontoam e vendem balas no sinal; não comemoram o Natal pois não sabem ler, nem os calendários comemorativos nem as datas religiosas.

No século XIV as missas eram rezadas em latim, ninguém entendia além de Deus.

No retrato estampado numa barbearia, a representação européia de Jesus tornou-o branco e ele ganhou olhos azuis. Mas um registro secreto encontrado numa expedição arqueológica no sul da Síria, revelou que Jesus era negro e mulher.

Num depósito de gente e de lixo, um grupo de catadores encontrou sua ceia de natal esparramada no que o capitalismo rejeitou. A noção de higiene não existia na Idade Medieval: os palácios não possuíam banheiros e as fezes eram jogadas pelas janelas; a nobreza era suja, tal como hoje.

Entre a ficção e a realidade, a noção de justiça e humanidade não existem no século XXI, a higiene moral e econômica perdeu-se no bolso de um descuidado, diante da noite do dia 25.

Feliz Natal estúpido, estúpido!


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

É preciso se desencontrar para permanecer sozinho

Gosto de dormir no lado errado da cama; como e se houvesse o certo...

Jogo meu corpo, ocupo meu espaço desajeitado, balanço os meus pés, quase como se pudessem encontrar outros pés; movo minhas mãos, da esquerda para a direita, buscando-a, mas ela não está lá. Ela nunca está.

Gosto de usar óculos escuros no outono, no mormaço. Gosto de esconder-me e meus olhos, pois sou transparente demais.

Caminho entre o os transeuntes, observo e admiro os casais, acho graça e até me envergonho, e me emociono, quando aquela amálgama de desejo e simplicidade resolve traduzir parte de mim, numa estação de metrô, num beijo estalado no canto do pescoço(um outro pescoço) e acabam me revelando, assim meio tenso, meio apaixonado e sem paixão, um caminho iludido.

Gosto de pagar a passagem com moedas e sentir-me altruísta. Gosto de beber suco de laranja depois do almoço e gosto de ficar sozinho; comigo mesmo, pois ficar sozinho com outras pessoas, não é lá muito agradável.

Recorto os paralelepípedos, desligo os ventiladores, sinto saudades dela, aquela mesma, que nunca apareceu; almoço sozinho.

No encontro soturno da memória com o desejo, algo cai perdido por detrás do móvel da sala: aquele telefone não retornará, mas afinal não era preciso, se o fosse, o destino se encarregaria de reescrevê-lo numa sorveteria do centro da cidade, com um sorriso ruivo com gosto de creme.

Flanqueio-a e ela nem sabe que eu o faço, abraço-a e ela nem sente meu toque. Leio o Neruda mas ela não ouve.

Beijo-a e toco seus lábios carinhosos, meticulosas salivas que nunca se encontraram; sonho.

Não observo mais ninguém. Desisti nas estações e no ritmo do metrô.

Um recado escrito a lápis, colocado sabe-se como num bolso vazio, escrito em papel cartolina roxo indica:

"E por ser transparente demais, e por não estar de óculos no mormaço, por procurá-la cotidianamente no lado errado e no lado certo da cama, busco-a, e é por isto que ela nunca, nunca me encontra."

"Pois é preciso se desencontrar para permanecer sozinho", é o que eu anoto e completo no verso laranja do recado misterioso.

sábado, 22 de novembro de 2008

Quando amava...

Caso amasse e amassasse a folha num surto impetuoso de vergonha, ainda um quase-bobo, recostado sem pressa no banco da praça, dispensaria as flores, e retomaria a escrita sem desistir, pois da janela e do ridículo só lhe cabiam eram poemas.

Enfiaria-se nos sebos da cidade, atrás do Neruda, um Neruda só para ela. Aquele de capa azul e de beijo de língua quando dado. Um Neruda com um tesão guardado na página dezessete, um Neruda com um sexo apressado, num quarto vazio, num vazio paulista, espreitado pelos possíveis voyeurs, um Neruda demasiadamente idealizado diga-se de passagem.

Mas convenhamos; o melhor Neruda que ele já leu.

Em dias de calor passearia pelo seu corpo com uma pedra de gelo, beijaria-a na nuca e por todo o corpo deslizaria sua volúpia já verão e tardia diante da primavera perdida. Apaixonariam-se, mútuamente, não só.

Ele pintaria; e pinta mal, mas dos elogios dela não escaparia. Pois não se escapa do amor, pois o amor mata e morre impiedosamente, e a neutralidade no amor é uma quimera feia, incapacitada e que não existe de verdade.

Ele pintaria o quarto todo, antes do aniversário dela, das trocas de anos, pintaria e mandaria cartões cuidadosamente recortados por ele, um tanto sem didática, mas convidaria-a a bailar entre os corações tortos que ele, o torto, resolveu desenhar e recortar, num sábado a noite sozinho, pensando e recortando ela própria, com a cartolina vermelha nas mãos e em seu coração.

Faria brigadeiro no sábado frio e ele nem gosta tanto de brigadeiro. Mas o roçar de corpos, o sorriso no apartamento do Catete e o próprio ritual despretensioso de caminharem juntos dentro do supermercado, um ritual inútil para as rotinas mas não para o amor, lhe convenciam que o brigadeiro era sim a melhor sobremesa do bairro, do estado, e do mundo.

Escreveria cartas, e com esmero, tentaria sempre surpreendê-la, por que é deste jeito que este homem funciona, é deste jeito que caminha sem olhar para as tragédias alheias sem desanimar, é deste jeito que ele produz sorrisos às duas, às três e às onze e cinquenta da manhã; quando ela acorda e se ajeita por entre seus cabelos negros, quando ela se ajeita e mordisca-o, e ele provocado, acaba atacando-a com declarações de amor em forma de cócegas.

Ele esquivaria-se, e brincariam como duas crianças, antes do sexo, antes de cochilarem ao som daquela música francesa e antes de brigarem como duas crianças, apenas para saborearem o tempero da divergência e do ciúme, tolo ciúme.

Ele lembraria dela, uma, duas ou três vezes no instante decalcado do tempo, e no banho quando esquecesse, ela perguntaria o porquê daquele olhar tão distante, que distante dela apenas buscou em si mesmo uma outra forma mais criativa de agradá-la, e por fim de criar e recriá-la através de um sorriso lindo: era aí, exatamente neste ponto, que os dois se abraçariam por sob as gotas de água e fariam poesia apenas com os corpos.

E quando cansassem, apenas esgotariam suas próprias liberdades, apenas as esgotariam, e quando voltassem cheios de si próprios, beijariam os lábios, e caminhariam por entre os paralelepípedos de mãos dadas respondendo a terrível pergunta: "onde está o amor, onde está o amor?"

Dariam vexames, e vexames dos mais livres, por que costumavam ignorar parte do mundo enquanto estavam sozinhos consigo mesmos. E sorririam, adorariam-se sem possuir um ao outro, e assim recordariam seus melhores momentos da forma mais exigente possível: vivendo.

Ele faria, faria isto tudo. Faria sem pestanejar, faria sem enquadrá-la nos horizontes de expectativa ou nos passados que sobredeterminavam a vida dos frouxos ou dos temerosos. Faria isto tudo, amaria como uma dinamite, sem nenhum senão, sem nenhum porquê...

Amaria-a, assim como escreveu, amaria-a intensamente, se houvesse algo além do que ele próprio esculpia. Amaria intensamente e faria tudo como assim descreveu, se ela realmente existisse, esta personagem de conto, de sonho, da idealização.

Por enquanto, jogava gamão e escrevia, com a cerveja, a música francesa e a imaginação; fria como um arrabalde emocional; assim, sempre esquecido.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Despido dos censores

Quando tinha uma má idéia, costumava andar sem rumo pelo centro da cidade ou evocando um espírito indômato já derrotado, sentava na janela e observava a lua, as nuvens ou algo que se se assemelhava ao seu céu.

Não obstante acabava cansando; cansava-se por que insistia em inserir um outro inexistente naqueles momentos que eram só e tão particularmente seus.

Inseria esta presença invisível, este olhar oculto que fazia-o sentir-se patéticamente superficial.

E não era deus, pois seu ateísmo não-praticante apesar de disperso, não lhe permitia transformar seu ego humano em pura metafísica.

Vez ou outra, aqueles momentos acabavam assim, vencidos por este persecutor invisível.

Um carrasco que só existia nos meandros da sua mente, mas que concretamente sabia agir como um bom censor: condenava o que outrora era profundo à mera e pobre superficialidade.

Transformava um ato de fé em frivolidade, um exercício de introspecção em coisa rasa, uma dor profunda, em mero capricho, de gente que não tem nem o direito nem os motivos certos para sofrer.

A dor só era mais vítrea e a angústia mais honesta, quando o outro morria sem lutar, quando a presença invisível evitava confronto e o censor jazia morto sob uma lágrima sem motivo aparente, mas completamente honesta.

Era aí, e somente aí, que podia começar a escrever, sonhar ou amar.