Mostrando postagens com marcador microcontos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador microcontos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hagiografia de Pecadores - Volume II

Celeste tinha um segredo que ninguém, mas ninguém sabia; até agora.

Entrava à esmo nos enormes prédios do centro da cidade, apesar de ter descoberto recentemente que o centro da cidade não é bem uma zona central, mas fica cada vez mais a leste, toda vez que se pretende chegar nele.

Sob a mágica dos prédios, mirava um andar em particular, consultórios, financeiras, sindicatos ou firmas de construção.

Bela Vista!, que a janela não via; passeava, sorria, fazia personagens, e como se não houvesse vida entre as portas, aquelas que nunca abriu, resolvia voltar. E começava tudo de novo, no próximo dia, até que descobrissem seu segredo, e ela tivesse que recomeçar um novo jogo que alguém ainda não tinha inventado.

Jean enxergava corações em coisas que não se assemelhavam aos corações. Papéis de bala largados que pareciam ter formatos de coração, pinturas que ele mesmo fez, pedras insensíveis e apaixonantes; lá dentro, da sala de aula, ele não se apaixonava por ninguém, apesar de fazer repetidamente numerosos origamis de corações nos dias mais quentes que voavam quando alguém se dispunha a perceber.

Matheus e seu dom enxergavam a beleza das medianas. Olhava aquela de trança, olhos negros, largada.

A que não tinha tanta graça, nem tranças, guardada no canto do ônibus, desajeitada. Aquela outra, mais adiante, a de cabelos loiros, que nem olhos bonitos, nem ônibus possuía para se esconder, a que movia as mãos sem alvo e motivo; que disfarçava o jeito, de jeito a não revelar a ninguém o alguém especial que tinha sido naquele curto momento no universo de Jean, e depois deixado passar, se escondia novamente, assim, com as mãos completamente desajeitadas e nuas...

Numa placa impositiva e infeliz: - Atenção, máquinas trabalhando, quando Santiago mudou-a para o escritório em que trabalhava, ninguém mais riu, além dele próprio.

Valadares era uma pessoa comum, era o que todos diziam e murmuravam para si próprios.

Quando o táxi despencou no abismo sem motivo aparente, os vizinhos reclamaram, mas o que se passava, era que um escritor indignado, teve insônia e só pode combater aquilo com um taxista morto num conto publicado na página dezesseis de um livro de cabeceira que afinal, ninguém nunca lia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Experimentos

Como algo que decidisse, entre um beijo no canto da boca que só afagava o outro e parte de uma viagem de ônibus que pudesse enfim, fazer sentido.

Era sim, era assim. Silêncio Soto Maior! Silêncio!

Acomodado em seu inverno; as orações cotidianas: dormir por sobre a colcha, tomar café sem ninguém ver, sentir sem ser ajudado.

Restava-lhe ser.

Silêncio Soto Maior.




Diálogo de Iguais

É como se o verniz, que há tanto tempo, que usei para me proteger do mundo estivesse saindo aos poucos e que somente nesse momento, pudesse me ver e rever o que fiz.

E desprotegido, perdesse todo dia, um pedaço de mim, cujo revés, me prostrasse entre uma cama de motel vazia ou um café no centro da cidade com pouco açúcar.

Feito em parceria com Rosa

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Sozinho

Meu quarto e meu corpo são uma festa.

Imagine eu inteiro!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

É preciso se desencontrar para permanecer sozinho

Gosto de dormir no lado errado da cama; como e se houvesse o certo...

Jogo meu corpo, ocupo meu espaço desajeitado, balanço os meus pés, quase como se pudessem encontrar outros pés; movo minhas mãos, da esquerda para a direita, buscando-a, mas ela não está lá. Ela nunca está.

Gosto de usar óculos escuros no outono, no mormaço. Gosto de esconder-me e meus olhos, pois sou transparente demais.

Caminho entre o os transeuntes, observo e admiro os casais, acho graça e até me envergonho, e me emociono, quando aquela amálgama de desejo e simplicidade resolve traduzir parte de mim, numa estação de metrô, num beijo estalado no canto do pescoço(um outro pescoço) e acabam me revelando, assim meio tenso, meio apaixonado e sem paixão, um caminho iludido.

Gosto de pagar a passagem com moedas e sentir-me altruísta. Gosto de beber suco de laranja depois do almoço e gosto de ficar sozinho; comigo mesmo, pois ficar sozinho com outras pessoas, não é lá muito agradável.

Recorto os paralelepípedos, desligo os ventiladores, sinto saudades dela, aquela mesma, que nunca apareceu; almoço sozinho.

No encontro soturno da memória com o desejo, algo cai perdido por detrás do móvel da sala: aquele telefone não retornará, mas afinal não era preciso, se o fosse, o destino se encarregaria de reescrevê-lo numa sorveteria do centro da cidade, com um sorriso ruivo com gosto de creme.

Flanqueio-a e ela nem sabe que eu o faço, abraço-a e ela nem sente meu toque. Leio o Neruda mas ela não ouve.

Beijo-a e toco seus lábios carinhosos, meticulosas salivas que nunca se encontraram; sonho.

Não observo mais ninguém. Desisti nas estações e no ritmo do metrô.

Um recado escrito a lápis, colocado sabe-se como num bolso vazio, escrito em papel cartolina roxo indica:

"E por ser transparente demais, e por não estar de óculos no mormaço, por procurá-la cotidianamente no lado errado e no lado certo da cama, busco-a, e é por isto que ela nunca, nunca me encontra."

"Pois é preciso se desencontrar para permanecer sozinho", é o que eu anoto e completo no verso laranja do recado misterioso.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Hagiografia de pecadores

Júlia queria viajar para o Uruguai e levar a vida junto. O país recortado por fronteiras imaginárias e que nunca existiram esperou.

Renato, com uma ansiedade menor que o preço da passagem, aguardava um ônibus sujo, numa madrugada imunda do dia dezessete de um mês ruim.

Alessandra queria terminar uma poesia e só precisava de uma idéia ou de uma caneta, mas só tinha o número da conta do banco no bolso.

Miguel, transbordava emoção no centro da cidade, e seguia evitando as linhas de uma calçada no cruzamento da rua Ouvidor.

O sorriso de Augusto falava por ele; quando encontrava Luisa, seus dentes não acertavam o compasso.

Nicolai esperava alguma coisa acontecer, mas só lhe chegavam desejos impossíveis e balas de mascar nos ônibus mais desconfortáveis.

O coração de Joana guardava Felipe em um de seus cômodos mais aconchegantes, mas Enrico ainda tinha um esperança que o inquilino atrasaria o aluguel.

domingo, 16 de novembro de 2008

O poeta só nasce na mentira ou na vergonha

E seria sempre mais fácil dizer os motivos.

Falar claro e límpidamente, como alguém, que resolvesse não ter a sociedade por perto.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Insetos sem compaixão

Quando entrei naquele cômodo, às quatro da manhã, o inseto fugiu.

Contorcia-se na porta de pinho, com medo da minha luz e do meu movimento.

O artrópode, aquele que eu senti pena, deveria mesmo, era sentir pena de mim.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vida quase normal

Cachorro
Emprego
Contas a pagar

Lúcio um dia, chegava lá

sábado, 27 de setembro de 2008

Anninka nas estações

A vida de Anninka não tinha mais sentido.

Ela achou ingênuamente que o sentido se revelaria diante do caos de sua rotina. Diante do ônibus, do amor perdido, da paixonite de final de semana, do emprego que nunca chegava...

Mas o sentido não desabrochou com a primavera, e ela virava cada vez mais adubo.

Quando o cinza tomou conta do céu, os viadutos e os remédios proibidos pelo terapeuta ficaram cada vez mais atraentes. E Anninka, pensou em dar um sentido para a vida na morte.

Joana e Krist ficaram preocupados, pois gente fria em país quente é garantia de resfriado ou de suicídio.

Os pulsos de Anninka ganharam uma pulseira verde-marrom e o sentido mudou em cada estação.

O mundo continuou e o adubo da primavera foi comprado na banquinha de flores mesmo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Moisés entregava gelo

Moisés era entregador de gelo. Sim, gelo. E vez ou outra pensava, que emprego era pior do que aquele.

Levava gelo, recebia e distribuía friezas.

Parava e bebia cerveja sozinho, sempre sozinho. Todos estranhavam.

Moisés não frequentava igrejas, detestava seu nome e os santinhos que recebia na rua fora do horário de trabalho.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A carta de despedida

Tinha uma tarefa simples: escrever uma carta.

Sua carta não tinha destinatário, não no envelope, o atendente reclamava.

A destinatária existia, mas a carta nunca era enviada em seu nome.

E foi aí então, que o pobre remetente tornou se destinatário; na verdade sempre foi desta forma, mesmo que negasse vez ou outra diante da caneta e do papel.

Ele sempre fez tudo para si mesmo diziam as bocas: quando amava amava a si mesmo, quando escrevia para ela, escrevia na verdade para si próprio, quando cozinhava ou levava café da manhã, estava era agradando seu umbigo.

O correio não entendia, o carteiro ficava confuso e no final estava abarrotado de cartas que enviara para si mesmo.

A tarefa era simples e ainda assim ele(eles) resolveram complicar tudo, com a distância, com as cartas, enfim, com as coisas tortas e sem nexo de que são constituídos os correios.

Sim, pobres correios.

domingo, 1 de junho de 2008

Multidão vazia de vozes internas

Eu converso comigo mesmo nesta noite fria e vazia.

Mas quem disse que estou sozinho nessa multidão de gente que consome meu hábito?

Roído pelo anonimato, minhas palavras ecoam distante, num vazio de letras indiferentes; não há piedade para o inédito, mas há cerveja farta por sobre a mesa.

Eu me embebedo para ignorar a multidão vazia, as letras indiferentes, os que consomem meu hábito e para claro, aguardar o inédito, mas nada chega, por que nada chega quando se realmente espera ou se trabalha para algo chegar.

O inédito é filho do acaso, e o acaso não perdoa a ferrugem de gente ansiosa.

Eu sento, choro, e durmo, não necessáriamente nesta mesma ordem de ficção.

[um bom título não faz um conto mediano]

sábado, 24 de maio de 2008

Não gosto de escrever de manhã

Não gosto de escrever de manhã. Apesar dos raios de luz que invadiram meu quarto, e chegaram atrasados, atrasados pois a insônia é um sol mais regular do que os ciclos e as estações.

Não gosto de escrever de manhã, por que a manhã não é um começo para mim, é um fim. Prefiro a noite, a madrugada, o fim de festa.

E não gosto de poesias, odeio a métrica, prefiro enfileirar minhas palavras e chamar de conto; é mais fácil, prático e simples, simples como a madrugada, não como a manhã.

Prefiro o puta que pariu sincero, do que comoventes abraços de hipócritas solidários.

Prefiro a cerveja engolida na raiva, do que a sofisticação que esconde a mediocridade.

Prefiro o torto, o desvio, a contra-mão.

Amanhecer é difícil.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Miguéis

Miguel gostava de transbordar todo singular em plural.

Quando lhe desejavam boa noite, ele respondia, boas noites, por que uma noite boa, não é de modo algum, suficiente para uma vida toda.

Seus amigos já conheciam esta obsessão, e não o incomodavam mais; decerto estranhavam, quando ao no final das conversas, diziam "vá com deus", Miguel os corrigia, por que um deus só, nunca é suficiente; e era melhor ter a proteção de vários, para agradar todas as religiões, mesmo as panteístas.

Para alguns, Miguel aparentaria ser um sistêmico, mas quando sentava no bar, jamais se contentava em pedir uma cerveja, quando diziam, "traz uma cerveja" aos garçons, ele imediatamente os corrigia, e aí a noite acabava como sempre, estatelada na singularidade de seus amigos e na pluralidade de Miguel.

Uma vez num comício quase apanhou; político safado não; políticos safados; e foi o suficiente para arrancar aplausos populares, latas voando e pescotapas de leões de chácara contratados por excusos e distintos candidatos.

Era tão polêmico quão, quando em sua habitual conversa de esquina com seus amigos, afirmava que não havia um ser humano e sim seres humanos.

Miguel e sua pluralidade, era motivo, digo, motivos de discussões, mas permanecia sobretudo singular quando lhe afirmavam que "tinham que lutar sozinhos por uma vida melhor para si", e aí afirmava sem vacilos, que tínhamos que lutar juntos por vidas melhores para todos."


sábado, 26 de abril de 2008

Diferença

Gil queria ser diferente. Tornou-se igual à Roberto.

Roberto apreciava bandas britânicas e gostava de usar roupas com losangos vermelhos.

Roberto era igual a todo mundo, nunca desejou ser diferente. Seu mundo era Júlia, Ricardo e Elaine. Júlia, Ricardo e Elaine também gostavam de losangos vermelhos e bandas britânicas.

Gil agora, fazia parte do time; dos diferentes.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Passivo espectador

Meu quarto, geladeira e fogão podem até não produzir minhas idéias.

Mas que me dão tranquilidade para parí-las isto sim dão. E como.

E como bastante, há noite, claro...

Desta tranquilidade podem vir as coisas mais abstratas, absurdas, abscenas; posso a partir daí simplesmente me acomodar com o controle nas mãos; o da tv, não da vida e por fim renunciar aos problemas com um toque de teclas.

Acessar a informação com um clique e descobrir por exemplo, que a abscena é um dos neologismos possíveis de serem gerados a partir do casamento do senhor obsceno com a senhora barriga cheia.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

Endocardite Infecciosa


Quando morri de Endocardite Infecciosa
E que enterro lindo; com flores e lágrimas abundantes...
Perguntaram-me apenas no óbito
Se a doença se escrevia com letra maiúscula ou não.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Idéias na madrugada

As idéias fervilham e me mantém acordado às quatro da manhã. Lembro-me de uma discussão típica dos cursos de graduação: A idéia é determinada pelas condições econômicas? Ou subsiste independente destas?

Enquanto procuram o ovo ou a galinha, eu me sinto um privilegiado, por que ser acordado por idéias ainda é muito melhor do que pela fome.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A assembléia I

Gastão falava com emoção. A sinceridade brilhava nos seus olhos, nos seus gestos, em sua voz. O chão de cimento batido, crespo abrigava o povo sentado, reunido; era sua vez de falar e todos ouviam com atenção. Fora das frágeis paredes de madeira, chuva, ladeira e ruas e vielas escuras: um bairro abandonado pelo deus das missas e das hipocrisias de final de semana, fazia frio, e aqueles homens e mulheres ali, debatendo.

- É preciso que nos organizemos companheiros. Um passo após o outro; e em breve uma longa jornada.

Não acreditavam em partidos; seus políticos eram alvos dos intervalos e das piadas. Marcaram outra assembléia, nos apertos de mão, esperança.

Todos ouviam Gastão com atenção, por que acreditavam em si próprios e era sua vez de falar.