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sábado, 9 de maio de 2009

Tesoura de Pontas Arredondadas

atualizado em 11/05/2009!

Uma conta de quinhentos reais matou seu amor. Ele não dramatizava, e sentia que o drama lhe escapou após o velório, quando na terceira reflexão sobre um dos paralelepípedos que lhe pareceu em desacordo com os restantes, lembrou que não precisaria mais frequentar as festas de gente medíocre que tanto odiava; pareceu um consolo, mas no fundo no fundo se falasse em outras épocas seria sim, um egoísmo, e dos grandes.

Mas havia o pragmatismo dominante cuja nova religião acalentava parte da alma, aquietava o espírito, dominava o corpo e vez ou outra derrubava algum valor antigo.

Mas aquele sorriso verde não; aquele sorriso cujo peso, o do metrô, inesperado e absoluto, durante a experiência cruzada num cheque e num esbarrão desenhado por uma situação noturna, clamava futuro e era por vezes opressivo, trazendo desintegração e isto preocupava completamente a comunidade.

E aquelas pessoas, menores do que um arroz de segunda-feira, ou de um saleiro, ou de uma copo descartável que ninguém sabe realmente se é ou não reciclável, e ninguém sabe também se as pessoas o são, agrupavam-se, atrapalhando o destino de vida que ele idealizava. E sem consultar o todo poderoso, vez ou outra este lhe enfiava um ônibus saindo do ponto, uma carta de despedida, uma oportunidade de estágio jogada às traças, um amor impossível, uma idiota que queria conversar, quando ele desejava apenas silêncio.

E o divino era qualquer um: um esbarrão, uma música de Charles Mingus, uma kombi com um filho da puta egoísta na direção!, um idiota bem intencionado que estragava tudo, tanto à si mesmo ou sua boa intenção, e a linda ruiva racional que na hora dos testes secretos e pessoais que ele encomendava no intervalo do gole da cerveja, falhava, falhava comiseravelmente diante deste mecanismo divino, e aí deixava de ser ruiva. A noite apagava e faltava-lhe vontade e clemência para dar mais uma chance àquela possibilidade vermelha, roja e feminina, que não conseguia passar pelos testes afetivos mais básicos e ainda assim, num balé semi-ridículo, insistia em não tornar-se plena, e desgastava-se à ponto de não ser suficiente em si mesma, e ele, ele odiava a auto-piedade, e foi por isso que quando a verdadeira morreu, não resolveu despejar meia lágrima, por que tinha coisas mais importantes à se fazer, como reler Rauyela e arrumar aquela parte do armário ignorada durante anos.

As falsas ruivas falhavam. E quando uma destas, reprovava-se, reprovava-se por atitudes que desconhecia ter, e mesmo que resolvesse por algum motivo explícito obter, como num passe de mágica, de teatro ou de pura estupidez(e se alguém lhe informasse do ponto de inflexão exato) em que pudesse se adaptar para vestir o arquétipo da melhor maneira possível, ficaria reprovada, pois seria o mesmo que uma cola, e os testes afetivos que ele silenciosamente construía, eram definitivamente sem consulta. E ele não culpava-se, pois cada um possuía testes secretos que não revelavam para ninguém e que difícilmente, mesmo que revelados corresponderiam ao verdadeiro teste, guardado em segredo, quando revelado, modifica-se internamente como num mito antigo que escutara[1].

Ele mastigou as nuvens, recortadas após um erro de calendário, com uma tesoura de pontas arredondadas; que não agrediam a infância e na mesinha de centro um campeão cheirando uma carreira de pó não tão vencedora, mas que surpreendia sempre que parte daquele teatro embarcava no políticamente correto da divisão do cartão American Express; vencido.

E só no seu mundo, aqueles viciados eram poéticos à ponto de ilustrarem pouco de seu cotidiano; na maioria das vezes, e isto fugia à poesia, qualquer vício previsível era tão poético quanto rotinas classe-média.

E aí havia um ritual específico que pontuava o ambiente.

O lábio mordido, o sussurro no túnel; e aquele mictório, onde ele teve de desmanchar aquela decepção orgânica pensando na ruiva, aquele, no canto do piso, com aquela urina, velha urina e assim, sentia-se poético, sentia-se amável e com e como, uma gorfada sincera as pessoas ririam, ririam com o som do vidro, da caneta, da nota, da fungada.

Sucediam os testes secretos administrados pelos campeões. O intuito era credibilidade; mas naquele momento não mais importava, pois a confiança só fazia sentido na largada, que durava cinco ou seis minutos, na esquina daquela vontade de se matar, que perdia para uma prestação parcelada de morte ritmada que alguns chamavam de festa. Mas e durante a prova havia sempre a possibilidade de alguém se fuder numa Tamburello, e morrer como um fracassado, com pó nos culhões e uma atendente frígida injetando insulina ou fazendo transfusão de sangue em plena Avenida Brasil, que de nome, já basta o fracasso.

A felicidade teve nome; e isto aconteceu setenta e seis horas depois da festa, pois só se é feliz quando se conhece a desgraça. A felicidade foi enterrada em frente à passarela dezesseis num dia ensolarado, que não acordou meia dúzia de viciados, demasiadamente preguiçosos e avessos ao sol, mas conseguiu cumprir seu papel de trocar receitas de bolo de mães cristãs que copiosamente amavam seus papéis sociais no intervalo do coveiro e das lágrimas, sussurrando as mesmas frases que eram distribuídas e vendidas sistemáticamente pelo vendedor de jargões-para-serem-ditos-em-enterros, que diante aquele quebra-cabeça mal-ajambrado, colecionou uma pequena fortuna e foi o verdadeiro show-man por detrás daquele enterro.

E quando aquele filho da puta, que entrou armado, usando o mesmo pó, a mesma arma da novela das oito, o mesmo argumento, e a mesma dívida(ele não tinha American Express - portanto não podia parcelar a vida nem a agonia), ela morreu, ela morreu por que a filha da puta teve azar, e só tinha quinhentos reais, e ele com pó nos culhões, precisava de dois mil...

Bateram na Tamburello, e se fuderam, se estatelaram e a festa acabou:

- A festa acabou porra. Acabou, dizia mais um viciado cujo nome pouco importa, mas que estava mais preocupado era com o pó manchado de sangue, do que com ela, fudida numa noite em que não deveria, mas procurou sair de casa.

Se Deus não conseguira lhe emprestar cem pratas, deus não servia pra porra nenhuma: falou no enterro e metade do velório não notou, pois aquele novo ansiolítico distribuído pelo ministério da saúde era o melhor que já vira; mas a outra metade notou, e achou poético, e ele foi recebido com aplausos calorosos, pois há muito tempo ninguém recebia uma demonstração tão vívida de emoção e sinceridade, pois aquela sociedade já fora completamente consumida pelos ritos sociais e degenerava-se à perfeição.


[1] Amaldiçoado por um deus antigo, um pastor de ovelhas queria casar, uma deusa lhe deu um artefato poderoso, uma urna mágica, que continha um objeto dentro desta.

Esta urna possuía um tesouro e uma função mágica; aquela que visse seu conteúdo ficaria terrívelmente apaixonada pelo pastor. Arguto, este tentou usar livremente sua caixa mágica, mas viu-se terrívelmente frustrado quando descobriu que o objeto tornava-se invisível quando abria a urna para suas pretendidas. Descobriu a seguir que ao contar o que a urna guardava, o objeto aparecia; mas havia um truque que demonizava aquele artefato; toda vez que seu dono revelava o conteúdo, este modificava-se, e ele sempre passava por bufão e mentiroso. Sempre que revelava o conteúdo da caixa, o conteúdo se alterava e então ele retornava à estaca zero. A maldição jamais se encerrou, até que o pastor ficou pacientemente aguardando alguma mulher que conseguisse visualizar o conteúdo da caixa sem que este a revelasse, para conseguir se apaixonar, falhou e morreu só.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Treinamento de Incêndio

Treinamento de incêndio!

Foi aí, que eles falaram a mesma coisa: fuja para o norte, fuja para o norte. Abre a primeira porta, vira a esquerda, dança, corre!

Naquele pedaço de vida, que ele descendo as escadas; assim, no canto daquele suicídio sem coragem, que ele e ela se fizeram.

De incêndio porra!

Mas era apenas um treinamento, de suicídio, de um incêndio... no canto da primeira porta. Vira a esquerda, corre, corre.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Bibliotecas Afetivas

Você não entendeu, mas se entendesse teria me desperdiçado no terceiro quarto de paralelepípedo.

Quando a sua emoção transbordou, junto com o café, com a casa, que se desmanchava quando os tijolos derretiam toda vez que você chorava, precisávamos comprar casas, emoções e tijolos novos. E algo irrompia. Sem dó.

Aquele abismo que apelidamos com o mesmo nome de um cachorro que você teve nos idos de 1977, não se acostumava comigo, e toda vez que eu levava o lixo para fora, ou dormia dentro do ônibus de ressaca, ele resolvia me engolir, e além da ressaca, eu perdia duas ou três semanas, Justificarfugindo das trevas, pois o estômago dele era grande. E além de você ter de me encontrar, eu perdia meu emprego, e a situação piorava, por que não haviam vagas de caçadores de abismos abertas por aí.

O seu cabelo era ruivo, mas você sempre insistia nesse seu solipsismo irritante, que eu, eu possuía um daltonismo particular que não chamariam mais de daltonismo em idos de 2072, pois as coisas estavam invertidas, que eu não enxergava a cor negra, nem a amarela, que essas cores eram vistas como ruivo. Talvez fosse verdade. Talvez o mundo estivesse errado.

E e que a vida para mim, era algo meio tenso, devido às cores erradas que a minha retina escolhia.

Eu enxergava em branco, ruivo e negro.

Quando eu me despedi, eu na verdade desejava sumir, como fazia, toda vez que fingia ser uma paisagem, e isto era particularmente fácil, ser paisagem.

E de quando eu conseguia me esgueirar, me esquivar para dentro daquela biblioteca que parecia meu próprio mundo, um mundo decerto mais organizado, no qual me escondia, olhando para a janela, chorando sem ninguém ver, por entre aqueles tijolos, aquele silêncio, onde um ou outro caminhava, onde as estantes e entranhas de ferro, o cheiro de mofo, os ventiladores que não falavam, acabavam me seduzindo, e eu fingia buscar um livro, mas eu buscava era o nada.

A bibliografia era emocional; partida ao meio, escandalosa, afetiva, antiga.

Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum código de barra de bibliotecas, preso na capa, na alma, do livro, no livro, onde eu pudesse definitivamente ler aquele meu manual de instruções, construído pelo deus que eu negava, e pura deliciosa abstração.

E eu me acharia. Eu me acharia, mas na verdade eu me achava quando conseguia não ser observado, quando a solidão dominava o ambiente e eu não ligava nem para os livros, estantes ou homens-estantes que me olhavam, era quando assim, daquela janela suja, que algo não importava, e eu começava verdadeiramente a me tornar uma flecha sem alvo.

Infinitos. E aí, parte dos livros falavam, por milissegundos, e se calavam, e a biblioteca citava aforismas toda vez que eu ia embora, mas ninguém via além de você.

Eu dormia.

Eu era assim ruiva.

Completamente sozinho.

Como um livro mofado, que mesmo na estante, morto entre às traças, foi pego em cinco de março de mil novecentos e setenta e três.

Mesmo sem a bibliotecária, cujo arrependimento falava mais do que todos aqueles nove mil títulos, na noite em que ela escolheu o rosto mais fácil, mesmo assim, o livro partiu, partiu para não voltar.

Partiu no quarto segundo do paralelepípedo passado.

Aquele que já se foi.

sábado, 14 de março de 2009

Religião: esperança.

Sob o metrô, andava de um lado ao outro, escondendo o coração do outro lado do peito.

Sob às roupas fingia normalidade, normalidade entre os tons.

Compreendia apenas a linguagem que o traduzia.

Reunido na oposição afeto e cinismo, sentia um medo terrível e profundo, que costumava digerir o equilíbrio de cinco ou seis respirações yogas; e que ainda assim eram totalmente submetíveis à tristeza, um medo da vida.

Quando a paisagem irrompia, podia olhar para os vales, os morros, os prédios e os transeuntes sem olhos, por que eles não pagavam esses olhares gratuitos; mas quando os túneis ou os muros cinzas do subterrâneo do metrô percorriam-no, assim sem pagar passagem, ele era obrigado a olhar cada história de vida, esparramada no banco, com seus trejeitos que não apitavam, mas sob as roupas, fingiam também suas normalidades, apesar de saber que tudo aquilo ali era falso.

Abandonado, esta áspera existência parecia-lhe um caminhar longo e interminável.

Sem propósito.

Desmedida. Descomedida. Abrupta e insensata. Sem sentido.

Ele podia estar errado, mas o dicionário só dava nome à coisas, pois era um analfabeto de emoções.

As coisas, estas, só davam nome às pessoas. E as pessoas, as pessoas eram escravas das coisas.

E ele, ele, este simples; não buscava nada, ele era apanhado, e fingia normalidade, assim; entre os tons... entre as opiniões que o guardavam.

Sua nova religião era a esperança; fingia que não, mas era, e era como todo fiel, um crente que não desistia; e esperava, esperava a ruiva até o fim, até amanhecer assim, com o copo vazio, com a ressaca, com a culpa ou a desesperança enchendo seus pulmões.

Não perdia o amor, a ternura, a esperança; de um alguém que não esquece qual lado se guarda o coração, de qual lado se finge, de qual lado se caminha dentro da normalidade, de alguém que tinha sensibilidade para compreender o que era dito.

Alguém que preferia o silêncio ao amor. O tempo à surpresa. O passado ao ingrato presente.

A peça que pequeno-burguesa não se encaixava e que às vezes um ou outro malicioso, no descanso da rotina e que despertado por medo, justiça ou inveja, a nomeava, cambaleante como uma terça-feira normal, respondia...

Respondia a pergunta feita, e era assim, do jeito calado, vilão ou profeta.

O malicioso de sorriso curto cansava, e ele dormia, ele dormia, ele acordava sem medo, sem palavras. Nem ódio, nem paixão. Nem sorriso, nem cor.

Nem lágrimas tinha.

Era um "ir haver".

Caminhava. Sem propósito, pois o propósito, mesmo oculto, era caminhar, mesmo vilão, mesmo profeta, cuja ternura amanhecida nesse seu rosto de cabelos lisos fazia-o assim, inquilino de um coração, que ficava do outro, do outro lado do peito.

Este, o que não dormia.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Das Piores Dores

As piores dores eram as que pairavam por sobre o ar, assim tão ingênuas e covardes, pois nem coragem possuíam para se concretizarem em algo concreto. Nem nos tickets de metrô, nem nas dores que falavam pelos rancores.

Não possuía nem tinha em mãos aquilo que pudesse ser suficientemente apontado numa situação objetiva que despertando ódio ou choro, apenas falasse por si só, assim sem intermediários; e que ao invés de se esconder por detrás de um abismo oculto e covarde dentro de si mesmo resolveria mover o corpo e a alma em direção à uma desistência legítima e que provocasse algum afeto guardado mas verdadeiro.

Mais nem aí, nem na segunda ou terceira situação limítrofe contava com as lágrimas que limpavam o terreno e os olhos, sentimentos, para um novo cultivo; atingir as situações limítrofes não eram tão difíceis, mas chorar por elas tornavam-se cada vez, demasiado raras e ocasionais.

O limítrofe avançava cada vez mais a oeste, e perdido no horizonte que ele esquecia dormindo às quatro da manhã, cujas lágrimas eram diamantes cada vez mais raros, e a dor transformava-se em uma visita banalizada, costumava dizer que algo precisava irromper.

A possessão tomou conta dos sonhos, e em nenhum momento Soto Maior logrou uma ajuda que não se esvaziasse em si mesmo.

Soto Maior, cujas mãos não encontravam mais as lágrimas nem os olhos, cujo cultivo de si próprio, provocou desistências, cortou-a, pelas beiradas, e depois de acabado o intento, queimou-a com um isqueiro, parte por parte...

E assim aquela carta esfarelou-se consigo próprio.

(...)

Amanhã enfrenta o mundo; amanhã, secará lágrimas inexistentes. Amanhã ele buscará mais pontos limítrofes. Estes não bastavam.

E era disto que tinha realmente, medo. Medo.



domingo, 11 de janeiro de 2009

Amávamo-nos.

Ruiva.

Ruiva, ruiva... Ruiva.

Eu lhe abracei, e aí nos beijamos quando o relógio fez aquele ruído, e quando bem, e quando bem, algo errado, algo errado, exremamente bom, aconteceu.

Você se distraiu. Eu fixei meus olhos. E seus olhos, verdes, tão bonitos, encontraram minha angústia no infinito. O infinito que cabia em nossas esperanças.

E quando nos beijamos pela primeira vez, quando nos amamos sem toque. Quando relaxamos nossas defesas, foi aí ruiva, que algo aconteceu.

E aí, você; ou talvez tenha sido eu... Nos encontramos. E foi lindo ruiva, foi lindo.

Algo desenvolveu-se. Pouca verdade.

Acabei preso, por que o alçapão era você.

E eu, tão frágil, e eu tão pouco verdade, e sem relaxar, encontrei a esperança que cabia exatamente nas nossas angústias. Minhas asas, e seu vôo de anjo, sobrevoando as nuvens, as que cabiam nos nossos sonhos, estas sim, que nos elevava às sinceras atmosferas; e aí voávamos, sem anjos, mas com muitas esperanças.

Eu voei ruiva. Eu voei por sobre tudo. Eu abandonei o concreto, o tijolo.

Eu era um anjo ruiva.

Eu perdi. Apesar de não ser um jogo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Pessimista Saramago, é o mundo!

Alguns dizem que o que escrevo é pessimista.

Pessimista é o mundo que me obriga a escrever o que escrevo.

E se disserem que o mundo não é pessimista. Direi que não conhecem o mundo; que conhecem apenas, um basculhante de sua própria vida.

Se eles não enxergam e se desobrigam a olhar, sou eu, este filho da puta, a terrível cegueira?

Quem assiste o mundo por jornais ou pelo trajeto insoso do cotidiano, deveria olhar nos olhos da notícia: a pupila das favelas exterminadas cotidianamente, o canto da rua doído e infeliz, a criança cuja criança se perdera em trocados na pausa do automóvel e dos basculhantes!

Mas eles não olham.

E quando eu os faço recordar do extermínio dos pobres, da fome, de gente comendo lixo na ceia de natal. O bárbaro, pessimista e anti-cristão sou eu.

E eles, só olham e rezam católicamente à absolver a culpa de um mundo ruim.

Da próxima vez que disserem que sou eu o pessimista, ao invés de um palavrão, eu obrigo-me a dizer...

Que sádico é a imagem, não o espelho!

domingo, 21 de dezembro de 2008

O retorno e o agravamento da Ruiva

"Não é preciso dormir para sonhar." Sussurraram.

Acordou. Acordou e estava no bar. Sentara naquele Pub simpático, e por um momento ainda percebia o mundo desfocado. Desfocado enquanto seu aparelho perceptivo adaptava-se de maneira covarde diante do barulho e do mundo, diante das pessoas, do copo de cerveja preta esvaziado, e talvez entre algo que o reflexo de seu copo e sua imagem diziam a si mesmo: "apenas acordou". À penas acordou.

Deve ter sido difícil acordar, assim tão último. Mas ele aprendia rápido.

Acordou. Acordou e fez um acordo, que aquela realidade precisa, extremamente precisa, e por isto doída e maravilhosa, havia de ter um motivo oculto, algo que encadeava fatos, organizava-os e dizia o que no passado haveria de valer a pena, e o que no futuro era o resultado apenas daquele pretérito feio, bobo e que costumava dizer: "era jovem e imaturo demais".

Mas não. No meio do seu pensamento tinha uma ruiva e tinha uma ruiva no meio do seu pensamento.

E ela disse: "Não é preciso dormir para sonhar." E ele acordou. Acordou sem chão, apesar do taco de mogno opor-se às ruivas abstrações.

E ele deveria manifestar-se, socar o balcão, jogar o copo de vidro no chão. Carregar ela para fora ou gritar.

E o que ele disse foi o que se segue adiante, apesar daquele diálogo não se seguir como de costume...

- Eu sempre tive esperança. Eu sempre tive. Porra. Eu sempre tive esperança. (soluçou)

(Lágrimas rolavam...)

A ruiva voltara. Ela voltou. Voltou sem a música francesa; voltou diferente, voltou menos ruiva, voltou de cabelos negros, e ele socou o balcão; como exatamente disse que não faria...

E ela prostou-se. Abaixou a cabeça e possuía um olhar que não era mais o da ruiva original.

Ele não, ele só chorava. E resolveu deixar a conta; com a gorjeta, resolveu esbarrar em duas ou três cadeiras, resolveu chorar em público até a porta do bar, resolveu correr para o estacionamento quando sua vontade só lhe dizia para não fugir, mas para encontrá-la.

E ela, bem ela, resolveu esperar. Pois sabia exatamente, que deveria esperar, sabia exatamente o quão aguardar... E ele, ele, chorou mas por um delicado momento, o momento que lhe roubaram os sonhos, sabia que ela esperaria, mas sentiu medo, sentiu medo, por que seu medo lhe dizia que ela sumiria da mesma forma que apareceu, pois não era preciso dormir para sonhar...

Ela chegou no terceiro soluço, mas ele já estava de pé, no estacionamento, olhava para a baía suja, repleta de polietileno e rancor, ele não chorava, apenas controlara-se e para isso precisava queimar fumo no pulmão, precisava dizer que enfim, cerveja preta era melhor do que cerveja branca.

- Você fez. Ela disse.

- Você fez. Eu vi na Tv.

- É. Eu fiz. Acabou. Chega. Ele fumou, e apagou o cigarro após o silêncio mais profundo em quatro ou cinco anos.

- Eu não queria voltar assim.

(assim como ele pensou?)

- Eu queria lhe mandar uma carta. Mas eles me perseguiram.

- Eu queria falar que tudo o que passou foi um terrível mal entendido.

(ela disse isto? um tiro na cara seria melhor - pensou).

- Um tiro na cara seria melhor, ele falou.

- Eu não mandei nenhuma carta por que eu pensei que você também podia estar com problemas. Eu só fiz o que eu pude fazer. Você sabe.

O silêncio tomara conta do cais. Apesar de não convidado.

Ele tirou os sapatos, jogou-os no mar. Ela não falou nada por que achava que era um falso cognato. Em inglês "adept" significa perito e não adepto. Exemplos.

Ele sentou, e chorou mais uma vez e era a segunda vez que ele chorava assim em anos.

Ela abraçou-o.

Não falaram mais nada.

Nada havia.

Nada poderia ser dito.

A conversa se encerrara.

E ao contrário do saxofone, ao contrário de uma viagem para o norte do Brasil, ao contrário de um apartamento no Catete, ele, não ela, esqueceu o passado, e abraçou-a. Apertou sua mão carinhosamente, enquanto os lábios mudavam, enquanto eles se reencontravam, enquanto ele redescobria seu pescoço, seus cabelos outrora ruivos, enquanto ele apaixonava-se novamente por sob cinco minutos e ela entregava-se.

E entregavam-se. E resolveram não falar, por que era o silêncio que desejavam.

E os lábios já se reconheciam, e nada falavam, além dos beijos, além de encontrarem-se nas esquinas do amor; aquele amor, bandido e original.

Ela amando algo que já tinha se perdido, e ele amando uma ruiva, uma ruiva, que resolveu morrer após o cais, pois ele, Vasilli, pobre Vasilli, não pode aguentar, não conseguiu aguentar e resolveu procurar o anjo, o anjo que levara Anatole, para o viaduto, para o concreto, para o mundo em que não haviam ruivas.

Amou-a. Não o culpemos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sombras fugazes de um corpo com memória.

Numa caixa um segredo, num segredo uma caixa.

Ele não conseguia escrever, mas num dia específico, tentou se matar às duas e dezenove em cima de um viaduto cinza e alto, e aí, aquele ser de asas apareceu.

As pernas balançavam naquele parapeito improvisado, era dezembro e o mundo estava triste, mas as pernas moviam-se felizes entre o abismo de concreto e o concreto abismo que havia, fazia, dançava e carregava dentro de si.

Ele cantava uma música solitáriamente; não havia coral e ele não estava bêbado. Estava feliz por ter se decidido. Mas o pior era a angústia. A felicidade da decisão superava seu podre resultado prático. Decidir livrava-o do peso do espelho perfeito do mundo.

A música não.

A música não escolhia, mesmo com os poucos acordes que lhe faziam suficiente; ela se fazia naquele lábio gelado de final de noite, ou por sob o concreto quente do parapeito. Talvez teria de se haver a tocar em algum táxi no canto mais desagradável da cidade.

O anjo ao contrário, se entristecera. Apagar o último cigarro levara-o à pura e simples melancolia e estagnação. Ajudar um infeliz no domingo à noite não era um trabalho de anjo, era um trabalho sujo, mal remunerado.

Fizeram um acordo. Ele não diria para ninguém que conversou durante quarenta e cinco minutos com um anjo imaginário; até por que não acreditariam, e o anjo, este pedaço de imaginário vivo, resolveria o problema sob o molho da modernidade, ou seja, enfatizaria o desperdício do tempo perdido.

No final do cigarro - enfatizou com uma voz grave de insônia e pigarro - , você pula!, ou desce essa porra de viaduto comigo!

Era um anjo com os culhões escaldados, na verdade se as minúcias e os pormenores afetivos permitissem, levaríamos a crer que era um anjo bem filho da puta: um anjo de segunda, ou terceira categoria. Um delicioso e desperdiçado gigolô cristão.

O primeiro que achar sua caixa, avisou o anjo com repreensão nos olhos, descobre o seu segredo e o caminho que leva a uma artéria complicada, que liga os fatos da vida ao coração. Portanto tenha cuidado.

Não deixe esta caixa em domínio de alguma mortal.

Qualquer um(a) que domine tal artéria, pode lhe colocar em maus lençóis. Transformar-lhe de corpo físico à memória, de parênteses à parágrafo. Não dê a caixa para ninguém, avisou o anjo.

Você não é um neurocirurgião, avisou.

Jezebel nunca tentou se matar, mas suas roupas e sua música preferida, seu comportamento cínico diziam, matava-a pouco a pouco, mesmo sem anjos e também assassinava seus amigos, que odiavam ver seus espelhos. Tinha um corpo esguio; magro. Preto eram seus cabelos e branca sua alma, alma que interessou de imediato o mesmo anjo sem asas que procurou-a com a mesma convicção e cinismo com que procurara o desperdiçado à beira do viaduto.

Jezebel mentia para si própria. Jezebel bebia gim, fumava erva, e namorava um conhaque nas terças-feiras. Jezebel conhecia o segredo dos outros mas não de si própria, permanecendo obscura conseguia preservar exatamente a artéria que ligava o coração a si própria.

O anjo, este ser mal remunerado e infeliz, reprovara-a; mas nesta noite estava completamente bêbado e sofria de um amor platônico mal resolvido. Anjos também sofrem. Amém.

Mais Jezebel sobrevivera, sobrevivera mesmo sofrendo uma peça pregada por deus, o todo poderoso. Sobrevivera a ponto de convencer o anjo à uma segunda conversa e este dizia, dizia, dizia, e falava, e exclamava com as mãos, algo que para ela, parecia-lhe natural e augusto.

A intocável artéria proporcionava-lhe voôs sem asa, ou na linguagem terrena, orgasmos simples, porres de cerveja, uma carreira de pó certificada pelo INMETRO e sim, aquele esbarrão pretensioso, no viaduto cinza, no babaca de preto, no idiota, o da caixa de segredos, que por um motivo ou outro insignificante, resolvera se matar próximo à Jezebel, e que por fim trazia-lhe algum sentido sobre o parapeito muito pretensioso.

E aí Jezebel, a ingênua degenerada, como assim lhe cabe a história, procurou em quarenta minutos a caixa de segredos. A caixa de segredos que estava em seu bolso, súbitamente revelada por um sorriso de canto de boca, não evitou o salto do artista, mas possibilitou que o anjo e ela, pudessem conversar sobre surrealismo e sofrimento durante grande parte da noite.

E assim entendiam da natureza humana. Jezebel, Anatole, Jezebel, Anatole. Anatole, Anatole.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O retorno para casa

Inicialmente era um ateu bem decidido, um ateísmo que não lhe incomodava e até resolvia comportar-se mal em festas de aniversário, somente as que mereciam verdadeiramente serem implodidas. E seriam reveladas ou com um discurso escatológico que ofendia metade da família, ou com alguma atitude desprezível jamais recordada.

Fora devido as seguidas ironias, ou melhor, situações limites, onde o ridículo se apresentava como realidade, que ele fizera-se suspeitar que deus sim existia. O canalha existia e costumava brincar de poesia. Esta reflexão profunda e importante, acompanhou-o durante uma dor no fígado que o fizera vomitar quatro vezes na segunda metade do mês de setembro: as contas estavam atrasadas e a lasanha infelizmente, encontrava-se poéticamente no forno, aquecida sob a diarréia metafórica.

Brincava como um anão de circo cuja metástase em algum dos membros inferiores ou superiores o levara a produzir um libido impotente e que fazia-se necessário, no choro acobertado pela mulher barbada ou pelo engolidor de espadas acusado de homofobia. Injusto.

Numa situação limite apresentava-se uma coincidência impossível, um azar imprestável no sábado a noite, ou algum objeto que caído produzia vida e machucados na sexta-feira; uma sexta fácil de ser vivida, mas que com a presença de deus, este grande inimigo, as facas, as colheres e até mesmo as lembranças escondiam o veneno: era a peste se manifestando imprevisívelmente.

Deus a peste, sob luzes vermelhas, uma peste presente, um corte na sola do pé, um ex-namorado endiabrado ou até mesmo um telefone que modificava e deformava todo o conjunto da obra.

Deus era o satã de gente fudida.

E eis a lona da vida: ridícula, mas adequada. Adequada ao medíocre que se estabelece sem dúvidas, e a si mesmo entoa o mantra de inúteis seiscentas repetições de promessas que jamais serão cumpridas.

Verificando empíricamente, temos neste exato momento quatrocentas e treze promessas não-cumpridas que alimentam cento e dezesseis proprietários de pequenos estabelecimentos operários e periféricos panegíricos cuja venda de álcool é assim, normal-normal.

O cinzeiro largado na quinta ou na sexta música, tornava-se óbviamente a parte cênica de seus pequenos desastres, ainda que lhe chutassem seus joelhos num dia de raiva. Mas também havia a música costumeiramente melancólica, as guimbas nas latas, a vodka pela metade, o sofá vinho, a cortina bege-limão e o calor, e a chuva, todas, apropriadamente ociosas.

Havia o ovo solitário da porta de geladeira, cujo diálogo com a cerveja produzia algum aspecto de solidão que refletia-se na pupila de Vasilli, o observador e colecionador de latas de cerveja e espectros de agonia, cujo ovo refletido na córnea direita, dava-lhe a impressão de ser mais poderoso que deus.

Mas isto acabava quando abria a geladeira e a si mesmo com força. E esbarrava em algum talher ou copo e produzia barulhos que incomodavam as memórias e os ouvidos ocultos e cultos de seus pais.

Deus ainda falava, decerto bêbado, cuja vontade resolvia compor cigarros na praça Tiradentes às duas da manhã, sem que ninguém ouvisse ou observasse aquele ser desprezado, tomar a carroça de deus, rumo ao olimpo.

O ateísmo voltava às quatro da manhã e sob seus ombros, responsabilidades, papéis, burocracia, e enviados de deus. A dor no fígado e a introspecção chegava às cinco e quarenta. O ônibus, com o guichê, a porta de supermercado e as leis do banco não aparecia antes do pôr do sol, que se afastava dele próprio às sete da manhã, já vencido pelos cigarros e por deus.

E foi assim, assim quase no princípio, que a estrutura social da civilização pareceu-lhe súbitamente, absurda; tremendamente absurda, pois deus, deus existia e resolvera existir, de uma hora para outra.

sábado, 22 de novembro de 2008

Quando amava...

Caso amasse e amassasse a folha num surto impetuoso de vergonha, ainda um quase-bobo, recostado sem pressa no banco da praça, dispensaria as flores, e retomaria a escrita sem desistir, pois da janela e do ridículo só lhe cabiam eram poemas.

Enfiaria-se nos sebos da cidade, atrás do Neruda, um Neruda só para ela. Aquele de capa azul e de beijo de língua quando dado. Um Neruda com um tesão guardado na página dezessete, um Neruda com um sexo apressado, num quarto vazio, num vazio paulista, espreitado pelos possíveis voyeurs, um Neruda demasiadamente idealizado diga-se de passagem.

Mas convenhamos; o melhor Neruda que ele já leu.

Em dias de calor passearia pelo seu corpo com uma pedra de gelo, beijaria-a na nuca e por todo o corpo deslizaria sua volúpia já verão e tardia diante da primavera perdida. Apaixonariam-se, mútuamente, não só.

Ele pintaria; e pinta mal, mas dos elogios dela não escaparia. Pois não se escapa do amor, pois o amor mata e morre impiedosamente, e a neutralidade no amor é uma quimera feia, incapacitada e que não existe de verdade.

Ele pintaria o quarto todo, antes do aniversário dela, das trocas de anos, pintaria e mandaria cartões cuidadosamente recortados por ele, um tanto sem didática, mas convidaria-a a bailar entre os corações tortos que ele, o torto, resolveu desenhar e recortar, num sábado a noite sozinho, pensando e recortando ela própria, com a cartolina vermelha nas mãos e em seu coração.

Faria brigadeiro no sábado frio e ele nem gosta tanto de brigadeiro. Mas o roçar de corpos, o sorriso no apartamento do Catete e o próprio ritual despretensioso de caminharem juntos dentro do supermercado, um ritual inútil para as rotinas mas não para o amor, lhe convenciam que o brigadeiro era sim a melhor sobremesa do bairro, do estado, e do mundo.

Escreveria cartas, e com esmero, tentaria sempre surpreendê-la, por que é deste jeito que este homem funciona, é deste jeito que caminha sem olhar para as tragédias alheias sem desanimar, é deste jeito que ele produz sorrisos às duas, às três e às onze e cinquenta da manhã; quando ela acorda e se ajeita por entre seus cabelos negros, quando ela se ajeita e mordisca-o, e ele provocado, acaba atacando-a com declarações de amor em forma de cócegas.

Ele esquivaria-se, e brincariam como duas crianças, antes do sexo, antes de cochilarem ao som daquela música francesa e antes de brigarem como duas crianças, apenas para saborearem o tempero da divergência e do ciúme, tolo ciúme.

Ele lembraria dela, uma, duas ou três vezes no instante decalcado do tempo, e no banho quando esquecesse, ela perguntaria o porquê daquele olhar tão distante, que distante dela apenas buscou em si mesmo uma outra forma mais criativa de agradá-la, e por fim de criar e recriá-la através de um sorriso lindo: era aí, exatamente neste ponto, que os dois se abraçariam por sob as gotas de água e fariam poesia apenas com os corpos.

E quando cansassem, apenas esgotariam suas próprias liberdades, apenas as esgotariam, e quando voltassem cheios de si próprios, beijariam os lábios, e caminhariam por entre os paralelepípedos de mãos dadas respondendo a terrível pergunta: "onde está o amor, onde está o amor?"

Dariam vexames, e vexames dos mais livres, por que costumavam ignorar parte do mundo enquanto estavam sozinhos consigo mesmos. E sorririam, adorariam-se sem possuir um ao outro, e assim recordariam seus melhores momentos da forma mais exigente possível: vivendo.

Ele faria, faria isto tudo. Faria sem pestanejar, faria sem enquadrá-la nos horizontes de expectativa ou nos passados que sobredeterminavam a vida dos frouxos ou dos temerosos. Faria isto tudo, amaria como uma dinamite, sem nenhum senão, sem nenhum porquê...

Amaria-a, assim como escreveu, amaria-a intensamente, se houvesse algo além do que ele próprio esculpia. Amaria intensamente e faria tudo como assim descreveu, se ela realmente existisse, esta personagem de conto, de sonho, da idealização.

Por enquanto, jogava gamão e escrevia, com a cerveja, a música francesa e a imaginação; fria como um arrabalde emocional; assim, sempre esquecido.

domingo, 16 de novembro de 2008

O poeta só nasce na mentira ou na vergonha

E seria sempre mais fácil dizer os motivos.

Falar claro e límpidamente, como alguém, que resolvesse não ter a sociedade por perto.

Prosopografias ruivas ou de como a realidade objetiva procura confirmar a subjetiva

Não sabia bem o que faria; se algo mais do que a solidão pretendesse. Começa secreto como um substantivo sussurro escondido no fundo da sala, mas acaba crescendo como uma fama repentina. E na janela há esta paisagem torta que não cabe bem no seu horizonte. Não se encaixa. E cheira a mofo novo.

Ele obedece o coração, e por isto sofre, sofre baixinho... Sofre calado porque calado ele não rompe as regras dos outros que comprou para si próprio, num momento de endividamento.

Olha de ímpeto o ousado; nega o óbvio, mas mantém-se firme, apesar do quê, o olhar despretensioso daquela mulher dói; de verdade: eis mais uma idealização.

E da vida, pouco extrai a não ser o intenso; de que vale a experiência, se é o cheiro, o cheiro daquela mulher que acaba contando.

Ela entra, e nem está ruiva, mas acaba contagiando tudo, o caderno, a caneta, o café e a velha impressão, o ambiente todo. Ele nem sabe se é o sentimento novo, ou ela mesmo, já repetida, que conta.

Cheira a fumo e ele nem fuma. Mas se reproduz.

E ela. Bem ela, é mortal com poucas palavras, mesmo quando erra, mesmo quando erra, ela mata, mata-o, mata ele mesmo, esquarteja-o com o não-dito: Mas ela não sabe.

Ela apenas segue, como uma força da natureza.

Ele sofre, sofre com alegria, não por amar a dor: mas o sabe que, há sempre, há sempre uma ausência que encaixa presenças que faltavam. Dor e alegria, meras gangorras: necessárias!

E ainda assim, nas quintas à tarde, ou nas sextas de manhã, ele sabe que foge. Sete meses de luz!

Do mofo novo, a escuridão: sofre de novo?

Uma nova musa, uma nova ruiva?

Com quantas secretas terá de seguir? Força da natureza.

Foge. Foge de novo homenzinho. Foge com o diabo e a luz nos teus olhos.

Foge com o diabo ruivo, dentro de si, dentro de tu mesmo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Auspícios Animalescos

Quando situava-se no centro do furacão algo o impelia para as bordas, como um Furão, ou um Guaximin, apesar de achar qualquer semelhança com a natureza selvagem extremamente simplista. E simplismo era um refúgio de gente fudida, fudida e feliz. Então resolveu escrever tudo. E aí resolveu voltar no que tinha escrito e rechear tudo aquilo com o que despertava e trazia à tona os tabus.

Algo o impelia a repensar e ver em toda a situação mal explorada uma oportunidade.

Uma oportunidade para uma tragédia, uma deliciosa tragédia dionisíaca, regada à cinco ou seis guimbas de cigarro, a cinco ou seis reflexões sobre o que fazer com aquele caso passageiro, ou como montar um manual que ensinasse a abandonar aquele amor platônico em cinco, no máximo seis semanas; apesar do quê, três ou quatro semanas eram uma regra de campeão.

Escrevia melhor quando não tinha regras, quando cuspia nas normas, quando esquecia seus censores ocultos, que caminhavam e lhe convidam para festas, corações felizes que lhe encontravam no cotidiano da aula, no cotidiano da sala de estar, os censores no falso mezzanino do consultório médico, o cabaré acadêmico ou a igreja dos contras.

Quando pensava que escrevia apenas para si, e que ninguém além dele próprio iria ler os absurdos, aí sim, o novo surgia, o ousado brotava. E algumas pessoas, egocêntricas como de costume, achavam que poderiam descortinar vinte e cinco anos de segredo com uma lida casual... bobagens! Irônicos! Como um míssil de cinquenta milhões atravessando um país pobre no sul da África Meridional! Irônico.

Estava tudo ao alcance das decisões. Mas há um caminho irriquieto e sinuoso entre a decisão e a ação. Agir era sempre mais barato, mais rápido, mais fácil. Comprar café custava oitenta centavos! Mas puxar assunto com a ruiva do lado direito do balcão! Ah! Isto custava muito mais caro... muito mais...

Decidir envolve mobilizar. Mobilizar todos os músculos e vontades, dobrar a consciência, obrigar o corpo. E isto requer contingência, requer uma concordância cínica de todas as partes de si próprio, e concordância requer diálogo. E isto não era fácil! Um diálogo que está subordinado aos controles históricos, aos domínios e apropriações do corpo. Que até surtia efeito quando dizia para a Ruiva, dois anos depois que amava seus próprios heterônimos e não a ela, mas definitivamente não conseguia superar as limitações dessa vida pseudo-medíocre que queriam vender-lhe junto com os planos de saúde nas saídas do metrô.

E era tão simples, tão simples, como comprar um livro no sábado de manhã num sebo mal frequentado de Copacabana; e já não gastava mais do que quinze reais consigo mesmo, há alguns anos... Mas o inesperado de tudo isso, era recorrer aos instintos animais, a habituar-se ao inabituável e inesperado despertar do óbvio.

Como a freira que sim, como se não imaginasse deus, liberasse hormônios e algo mágico acontecia, como uma ereção ao inverso.

Falar muito é apenas se esconder dos demais. Tentar melhor é redundância.

Tentar é sempre o melhor.

Tentar sempre afasta os censores. Tentar é habituar-se aos auspícios animalescos, mesmo que a conversa com a ruiva seja indevidamente inapropriada ou isenta de talento.

sábado, 18 de outubro de 2008

Entre uma origem e um desejo

Não é o que parece
Pois se parecesse
Seria coisa do coração
E o coração

O coração só mente

Não é tão ruim
Ruim quanto transparece
Nem tão inédito

Pois se inédito fosse
O coração alquebrado
Diria que é mentira
Pois sim, seria mentira

Se o vidro quebrado
E o grito no escuro
Fizessem um silêncio arrastado

Parte dos muros, dos finais de semana
E dos corações
Assemelhariam-se à coisa qualquer
A algo já meio despedaçado

Estou entre uma origem e um desejo!
Sou um muro de final de semana
Sou tão ruim quanto posso transparecer

Sou um silêncio arrastado
Arrastado e se assemelhando a uma mentira
Não sou o que pareço
Pois o coração

O coração! Só mente!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Desesperança impele a ação

Fazer algo diferente é difícil.

Tente recondicionar um rato de laboratório. É como Vasilli sentia-se ao sair, ao entrar, ao sair novamente do metrô, da fila da comida, das noites com muita vodka, médias angústias e pouca imaginação.

Olhava-se no espelho e não se encontrava. Ainda restava esta incógnita, ávida por situações limites, pois sim, pois bem, é fácil prever o comportamento de um ou dois ratos, caminhando sinuosamente por labirintos de silício ou concreto, pois bem...

A dificuldade, e toda dificuldade humana obrigatóriamente caminha junto com uma reconstrução radical de si mesmo, está em prever algo que não tem uma estrutura definida, uma base sólida, um "vir a ser" contido em uma trajetória bem definida, o vetor colégio-faculdade-filhos-família-fim-de-festa.

Não ter uma estrutura definida, ou bem melhor, não ter nenhuma estrutura, requer culhões ou atrevendo-me a heterofobia, um útero que acalenta um ódio constante de si mesmo e que obriga sem condições a exterminar-se todos os dias. Quem recomeça pode usar o ódio como metáfora, apesar de saber que não é ódio o que se sente, mas necessidade imperativa de fragmentar-se. O esporte é catar cacos. Juntá-los. E recomeçar. É o eterno retorno. Como o mito de Sísifo, como só Nietzsche e Camus compreenderam.

Pois a vida, a vida dos desajustados, é um devir, uma passagem, onde o objetivo não é chegar nas estações, não... isto é coisa de gente equilibrada, gente que olha para trás com uma nostalgia cheirando a hambúrger de gordura na chapa, vestindo um emprego classe-média de quatorze horas por dia.

Gente torta gosta de andar na corda bamba, de mover-se entre o circo e o abismo. De renovar uma desesperança nas esquinas da vida. Porque ao contrário do conhecimento enciclopédico do colégio de fim de semana, a desesperança é uma face do problema, a desesperança move, impele Vasilli a ação. A desesperança tem de dar tesão de explodir convenções e laboratórios, senão é covardia.

O absurdo do mundo, do sujeito, da identidade assassinada pela má convenção, obriga e impele ao assassínio das heteronomias.

A reconstrução radical do sujeito, impele o convívio brutal e nem sempre harmônico da esperança e da desesperança, do amargo, do suave, do contraditório, da policausalidade.

Continuo na função de espelho. Olha e detesta-me quem quer.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Como beber doze cervejas com 40 centavos

É só ficar desempregado e ter amigos. Amigos.

Pulsão vitoriana

Maço vazio, e eu nem fumo. Tinta azul no fundo da casa.

Gente bêbada, crianças cheirando cola na porta do circo em que eu, em que você, em que nós nos divertimos.

Seis latinhas amassadas, miseráveis para um dia ruim, mas boas para um dia razoávelmente bom.

Liguei a tv, mas a antena não funciona e eu gosto do barulho da sintonia ruim, só quando bebo demais e quando eu sinto o cheiro de morte, e de hipocrisia invadir a sala, aquela sala onde seus pais comem um guisado de pato com molho rosê.

Fico pensando nos meus princípios. Doces e carinhosos princípios, aconchegantes para quem usa tinta a base de petróleo. E petróleo mata muita gente.

Meus passos, foram sintomáticamente reduzidos a um bailar intenso mas profano, previsível mas ainda assim divertido, que conduziram-me a enfaixar parte de mim, a dizer a mim mesmo, a errar as letras, as teclas, a tinta; esparramar-me por entre brechós, por entre mercadinhos chineses, por entre estações de trem do século XIX. E ainda assim continuar amando.

Eu deixei parte de mim, esquartejei-me de bandeja quando ela disse que não queria mais minha companhia, eu tomei veneno às três da tarde sem ter motivo, e todos diziam que havia alguém que sofria mais, que eu ainda não tinha dor o suficiente... Que sofrimento era fuçar latas de lixo, que sofrer era ter uma doença terminal no final de semana, que doer era perder a família num feriado fundado no assassinato católico de uma tribo indígena no sul do pará!

Sofrer é um atestado médico de medo num metrô lotado às terças-feiras seu filho da puta! Sofrer é um esporte de pobre!

Mas foi por isso... por não ter dor o suficiente, por ver que havia sempre alguém mais fudido, mais ferrado, mais idolatrado pelo deus-dor, mas seduzido pela morte, que eu sempre conseguia me deixar ser vencido pela pulsão de morte. Pulsão vitoriana!

Morte!

E morrer é reescrever-se sem sentir pena. É confundir-se estando vivo.

Juntei papel, olhei para a luz e sempre, sempre havia alguém mais fudido do que eu.

Amei, bebi, escrevi, e ainda não, ainda não morri.

Pois sempre haverá alguém mais fudido.

Pois sempre haverá sintonia ruim.

domingo, 24 de agosto de 2008

Mais emocional, mais forte

O tempo passou ruiva.

E eu inevitávelmente tornei-me mais forte.

Confunda forte com frio, talvez seja algo parecido com o meu erro atual.

Conseguir ignorar certas coisas não me torna um cínico por completo, até porque seria uma rigidez demasiadamente injusta perceber-me desta forma, já que continuo realizando o incessante movimento do homem contra a máquina. Ainda não me entreguei ao meu oposto. Seria covardia, passividade, e você sempre cobrou de mim uma postura contrária aos valores vitorianos dos seus pais.

Mais forte implica em comentar que consigo caminhar com mais despreendimento entre os dentes, ou melhor sinceridade, até por que sinto-me mais humano, com um par de insônia no meio da semana, rodeado por gengivas sangrando uma liberdade estúpida, definitivamente estúpida.

Eu precisava de números, de letras, de metáforas para rechear sentimentos. Precisava de complexidade, apesar do que sou um simplório em busca de simples sentimentos: paixão, afeto, amizade. Tá bem. Não são tão simples! Mas eu os busco. Sim, definitivamente eu os busco e morreria, morreria repetindo palavras e frases ocas se me visse privado destes mecanismos tão simplórios, tão primitivos.

Desejo.

Ruiva, perdi muitas letras, muitos minutos em torno de entender a origem da confusão; metodologias equivocadas levam a sentimentos equivocados e vice-versa... deveria ter compreendido que parte da verborragia que me acomete nestes dias afetivos ou melhor dizendo, dias de falsa inspiração literária, são apenas fragmentos... fragmentos de um problema maior... e melhor.

Ruiva, sinto-me só, sinto-me forte com minha solidão tão providencial, sinto-me inútil para o ofício da escrita... sinto que não conseguirei escrever nada que valha a pena ser lido e isto não é a maldita psicologia reversa... eu realmente penso... e sinto este paradoxo invadir meu corpo, minha mente, enquanto recordo-me do dia do saxofone...

Você tinha prometido um amor eterno, éramos jovens, tudo era eterno, e aquele instante de certa maneira fora, mas eu iria mais a frente desistir deste horizonte de expectativas completamente contaminado pelo idealismo romântico que eu tanto adorava.

Já é tarde Ruiva e eu mal consigo terminar um ou dois textos, falta-me muita coisa da dor original.

Hoje sou apenas um espelho cinzento, mais racional(equilibrado talvez) e passional do que fui anteriormente.

Hoje eu durmo com os anjos, sofro de insônia e como cacos de vidro, cacos de vidro da minha auto-ilusão enquanto percebo o castelo de cartas ruir. Torço... torço para que as colunas certas caiam... e que eu consiga na sobrevida que me for necessária(pois já estou condenado ao fracasso) realizar últimas e belas palavras.

E isto tudo Ruiva. Isto tudo.

Foi por que eu lhe amei. Apesar do tempo curto. Apesar de tudo.

E hoje eu sei, que eu amava uma merda de uma imagem. Uma imagem linda.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cartolina velha

Perdi o tesão de escrever aqui. Quero ares novos.

Toda viagem me confunde, todo ar rotineiro me embrulha o estômago.

Nunca pedi muita coisa a deus, matei-o semana passada.

Nunca falei alto, só quando precisavam.

Agilizei uma ou duas aplicações de morfina; nunca me prenderam por isto, faço gosto, deixo solto, apesar do pesar.

Faço origamis de cartolina, faço corações de papel, não me sinto privilegiado.

Confundi o ar rotineiro de deus. Embrulhei o estômago de papel e privilegiei os ares novos.

Escrevi solto, precisei alto, me confundi.

Queros ares novos.