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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Jogo de Armar: Da solidão cotidiana

atualizado em 29/01/2008

Havia aquele som, aquele som inaudível e incoerente, cujas vozes famintas, ampliavam-se, mas que completamente imperceptíveis para mim, me faziam sentir, e sentir era algo obscuro ou inédito demais, como em um estado de overdose sânscrita, assim espalhado pelo canto do ônibus ou quando num gesto brusco, sob uma folha largada, cujo desespero secreto e particular impelia ao silêncio, apenas buscava no outro a sua própria imagem.

E assim, demasiadamente empático e largado pelo mundo e o mundo era justamente uma instituição, um aglomerado de gente sem sentido, gente nos ônibus com seus próprios e distintos propósitos e que se definiam por si mesmos; este mundo largado, de gente e de propósitos largados, costumava mover-se, segundo definições ocultas e inexpressivas, peças no tabuleiro misterioso.

Consciosamente a vida cotidiana reproduzia o fato que era mais psicológica do que própriamente metafísica: deus existia; e sempre com ironia.

Desconectado, o meu amor, aquele que nunca nascia de manhã, durante o beijo calado, mas que irrompia sozinho, largado no canto do quarto, entre quatro ou seis latas de cerveja, nascendo sob sua motivação, e que encontrava apenas a mim...

E eu transformava-me sem mudar definitivamente nada. Eu modificava-me, e apenas encontrava um amor sem par, uma paixão sem destinatário, uma flor cujo terreno argiloso, produzia um belo espécime temporal.

Eu amava sozinho.

No ritual medíocre do si-mesmo e cujo soluço permitia uma reflexão, desejava, desejava, com todas as forças que apenas dois sentimentos pudessem apoderar-me do "si próprio", os muito fortes ou os demasiadamente fracos.

Amor e tristeza, espalhados num copo de conhaque num dia de semana normal, pareciam acabar com o fígado, mas sustentavam verdadeiramente era o espírito. E era aí, na terceira golada, que acompanhava a espera, quase interminável, que o espírito forte, e o espírito fraco apresentavam-se: era o espetáculo da possessão.

Eu fingia não sentir absolutamente nada, e enquanto escrevia, algo se modificava, e era necessário suportar todo este peso, absolutamente familiar, mas nem por isso íntimo, pois apresentava-se estranho à mim mesmo em todas suas formas cotidianas. E era o que eu fazia, olhando cartas velhas, abrindo geladeiras novas, bebendo cerveja sem gosto.

Um homem que triste e é só não incomoda, pois decerto algo se ajusta neste parâmetro categorizável, a sociedade compreende a tristeza de ser só e rápidamente há um acordo tácito entre o indivíduo e o corpo social; surgem os amigos, as companhias, o terapeuta ou por fim, os remédios psicoterápicos, mas quando encontramos, e é neste caso específico que os poderes curiosamente não podiam de nenhuma forma me localizar, um homem que ama e é sozinho,(e eu Román Soto Mayor fui o primeiro a ser encontrado neste terrível ponto) tal fato descortina uma exceção perigosa, que compromete todo o sistema encadeado.

Como amar sozinho? Como tornar-se apaixonado sem um objeto de paixão? Se alguém ama a si mesmo, chamaríam-no de narcísico, mas este não é o caso, se fosse verdadeiramente o caso, estaria não encolhido diante do mundo, porquanto se estivesse olhando para a face no lago, amaria-me e desprezaria todo o cotidiano; não era o caso. E poderiam me acusar de não amar ninguém, e se alguém não ama nada nem ninguém, haveria de esconder uma fraqueza, ou uma amargura fixada no canto do olho; mas deste quadro não faço parte, a minha fraqueza decerto era revelar-me, e não esconder sentimento ou idéia nenhuma, coisa que tanto desaprovava.

E amo algo! Amo! Amo um alguém oculto! Algo que oculto faz-me sofrer exatamente por permanecer oculto, mas que ainda por isto, carrega uma febre, um aglomerado de sintomas dos quais não consigo me livrar.

Carrego o sintoma dos apaixonados, enquanto eles amam e deliciam-se no conforto e na segurança que o amor proporciona ao futuro, concretizado por uma mão tenra, um abraço resoluto, um olhar justo, eu cá estou, com os sintomas da febre, incontrolável e voraz, mas sozinho, cuja mesma febre dos que se apaixonam pelo outro, pela outra convivem em mim. Mas cá comigo, descobri da maneira bruta, que amo algo que definitivamente não existe. Não pode ser tocado nem visto. Não está, nunca esteve. Não me aparece, pois não é.

Entre insônias e cigarros acesos, debruçei-me por sobre este problema existencial. Miserável e terrívelmente existencial - homem que ama sem amar, nebulosa contradição, ama sem ver, ama sem ter .

Em um ponto mais adiante, aceitei parte de meu problema e de seus desejos, fiz a respiração baixar, a calma e o silêncio cresceram. A partir daí me viam com mais frequência, no canto do bar, nas filas quase vazias de espetáculos que ninguém queria assistir, ou simplesmente dormindo na última sessão e fila de cadeiras do cinema, vazio.

Espalhado no canto do ônibus, ou deitando bruscamente na cama como quem busca afeto, eu tervigersava, eu caminhava sem sair do mesmo lugar, eu esticava os pés mas não o espírito, eu não me bebia como possível, pois eu tinha desistido. Desistido das mudanças cotidianas, que pareciam todas iguais, do futuro, das possibilidades do inédito, que nunca se apresentavam, e enquanto a desistência me dominava, o ponteiro dos anos acelerou, e a espera tornou-se verdadeiramente um perigoso jogo de armar que me colocavam alguns mais paradigmas insolúveis.

Aceitá-los, implicaria em esperar, aguardar um milagre, um milagre do deus metafísico, e aí sim, poder com justiça e direito, amar com a febre dos ébrios. Recusar os horizontes dos milagres, implicaria em um movimento extremamente cuidadoso e que me posicionava diante do limiar do absurdo e do particular, cuja opção desassistida, era o deus psicológico, que se fazia vivo diante das expectativas, dos desejos, e da esperança alimentada sorriso após sorriso.

Meu nome era Román Soto Maior, o homem que diziam, amava alguém, amava alguém, que mantinha-se oculto.

Meticulosamente envolvido e imbricado pelos meus sentimentos, aguardava uma mudança, um som, um beijo ou aceno que modificasse tudo, mas no meu canto, e um canto que bastava-se tão só, me sobrava apenas um som inaudível e incoerente, um desespero secreto, algo que não se resolvia de imediato, e convertia-se sob meus passos, num delicioso e solitário jogo de armar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A estranha vida de Román Soto Maior - Do Verão

Nos dias mais quentes, apesar do sol, o verão não havia chegado no coração de Román Soto Maior.

Mandou uma carta indignada para as agências que controlavam o tempo e a temperatura mas ainda assim, recebeu uma resposta que dizia que a temperatura de seu coração não dizia respeito àquele departamento; que procurasse um advogado.

Feita a sugestão, processou o Estado e o Sol. Perdeu as primeiras instâncias e ficou torcendo para que o destino ou a justiça, lhe dessem alguma notícia boa.

Brigou com o advogado e com deus, ruivas não constavam em contratos e nem nasciam sem ajuda de tinta.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sombras fugazes de um corpo com memória.

Numa caixa um segredo, num segredo uma caixa.

Ele não conseguia escrever, mas num dia específico, tentou se matar às duas e dezenove em cima de um viaduto cinza e alto, e aí, aquele ser de asas apareceu.

As pernas balançavam naquele parapeito improvisado, era dezembro e o mundo estava triste, mas as pernas moviam-se felizes entre o abismo de concreto e o concreto abismo que havia, fazia, dançava e carregava dentro de si.

Ele cantava uma música solitáriamente; não havia coral e ele não estava bêbado. Estava feliz por ter se decidido. Mas o pior era a angústia. A felicidade da decisão superava seu podre resultado prático. Decidir livrava-o do peso do espelho perfeito do mundo.

A música não.

A música não escolhia, mesmo com os poucos acordes que lhe faziam suficiente; ela se fazia naquele lábio gelado de final de noite, ou por sob o concreto quente do parapeito. Talvez teria de se haver a tocar em algum táxi no canto mais desagradável da cidade.

O anjo ao contrário, se entristecera. Apagar o último cigarro levara-o à pura e simples melancolia e estagnação. Ajudar um infeliz no domingo à noite não era um trabalho de anjo, era um trabalho sujo, mal remunerado.

Fizeram um acordo. Ele não diria para ninguém que conversou durante quarenta e cinco minutos com um anjo imaginário; até por que não acreditariam, e o anjo, este pedaço de imaginário vivo, resolveria o problema sob o molho da modernidade, ou seja, enfatizaria o desperdício do tempo perdido.

No final do cigarro - enfatizou com uma voz grave de insônia e pigarro - , você pula!, ou desce essa porra de viaduto comigo!

Era um anjo com os culhões escaldados, na verdade se as minúcias e os pormenores afetivos permitissem, levaríamos a crer que era um anjo bem filho da puta: um anjo de segunda, ou terceira categoria. Um delicioso e desperdiçado gigolô cristão.

O primeiro que achar sua caixa, avisou o anjo com repreensão nos olhos, descobre o seu segredo e o caminho que leva a uma artéria complicada, que liga os fatos da vida ao coração. Portanto tenha cuidado.

Não deixe esta caixa em domínio de alguma mortal.

Qualquer um(a) que domine tal artéria, pode lhe colocar em maus lençóis. Transformar-lhe de corpo físico à memória, de parênteses à parágrafo. Não dê a caixa para ninguém, avisou o anjo.

Você não é um neurocirurgião, avisou.

Jezebel nunca tentou se matar, mas suas roupas e sua música preferida, seu comportamento cínico diziam, matava-a pouco a pouco, mesmo sem anjos e também assassinava seus amigos, que odiavam ver seus espelhos. Tinha um corpo esguio; magro. Preto eram seus cabelos e branca sua alma, alma que interessou de imediato o mesmo anjo sem asas que procurou-a com a mesma convicção e cinismo com que procurara o desperdiçado à beira do viaduto.

Jezebel mentia para si própria. Jezebel bebia gim, fumava erva, e namorava um conhaque nas terças-feiras. Jezebel conhecia o segredo dos outros mas não de si própria, permanecendo obscura conseguia preservar exatamente a artéria que ligava o coração a si própria.

O anjo, este ser mal remunerado e infeliz, reprovara-a; mas nesta noite estava completamente bêbado e sofria de um amor platônico mal resolvido. Anjos também sofrem. Amém.

Mais Jezebel sobrevivera, sobrevivera mesmo sofrendo uma peça pregada por deus, o todo poderoso. Sobrevivera a ponto de convencer o anjo à uma segunda conversa e este dizia, dizia, dizia, e falava, e exclamava com as mãos, algo que para ela, parecia-lhe natural e augusto.

A intocável artéria proporcionava-lhe voôs sem asa, ou na linguagem terrena, orgasmos simples, porres de cerveja, uma carreira de pó certificada pelo INMETRO e sim, aquele esbarrão pretensioso, no viaduto cinza, no babaca de preto, no idiota, o da caixa de segredos, que por um motivo ou outro insignificante, resolvera se matar próximo à Jezebel, e que por fim trazia-lhe algum sentido sobre o parapeito muito pretensioso.

E aí Jezebel, a ingênua degenerada, como assim lhe cabe a história, procurou em quarenta minutos a caixa de segredos. A caixa de segredos que estava em seu bolso, súbitamente revelada por um sorriso de canto de boca, não evitou o salto do artista, mas possibilitou que o anjo e ela, pudessem conversar sobre surrealismo e sofrimento durante grande parte da noite.

E assim entendiam da natureza humana. Jezebel, Anatole, Jezebel, Anatole. Anatole, Anatole.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Pesadas Perdas

Edith Piaf perdeu Marcel Cerdan. E compôs a música mais bonita sobre o amor e que se possui notícia em língua francesa.

Florbela espanca apaixonou-se e frustrou-se repetidamente, até seu suicídio, mas seus poemas não se suicidaram, ainda vivem, apesar de tristes.

Ian Curtis se matou, pois amava duas pessoas, menos a si próprio, ainda deixa alguma tristeza em forma de música, tristeza que guardou aquele momento, e a si mesmo dentro de alguns acordes poéticos .

Augusto dos Anjos perdeu um filho e morreu jovem de tuberculose.

Fernando Pessoa foi-se triste. E em algum lugar da cidade, alguém chora por um namoro abortado; que nem começou.

Extremamente dependentes da tristeza alheia, nós vivemos, assim, olhando a tristeza alheia, apenas para nos compensar a felicidade que afirma-se sob o pesado véu; este véu, sempre do outro.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Assim que eu entrei na minha rua começou a chover

assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover
assim que eu entrei na minha rua começou a chover

E choveu muito.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Auspícios Animalescos

Quando situava-se no centro do furacão algo o impelia para as bordas, como um Furão, ou um Guaximin, apesar de achar qualquer semelhança com a natureza selvagem extremamente simplista. E simplismo era um refúgio de gente fudida, fudida e feliz. Então resolveu escrever tudo. E aí resolveu voltar no que tinha escrito e rechear tudo aquilo com o que despertava e trazia à tona os tabus.

Algo o impelia a repensar e ver em toda a situação mal explorada uma oportunidade.

Uma oportunidade para uma tragédia, uma deliciosa tragédia dionisíaca, regada à cinco ou seis guimbas de cigarro, a cinco ou seis reflexões sobre o que fazer com aquele caso passageiro, ou como montar um manual que ensinasse a abandonar aquele amor platônico em cinco, no máximo seis semanas; apesar do quê, três ou quatro semanas eram uma regra de campeão.

Escrevia melhor quando não tinha regras, quando cuspia nas normas, quando esquecia seus censores ocultos, que caminhavam e lhe convidam para festas, corações felizes que lhe encontravam no cotidiano da aula, no cotidiano da sala de estar, os censores no falso mezzanino do consultório médico, o cabaré acadêmico ou a igreja dos contras.

Quando pensava que escrevia apenas para si, e que ninguém além dele próprio iria ler os absurdos, aí sim, o novo surgia, o ousado brotava. E algumas pessoas, egocêntricas como de costume, achavam que poderiam descortinar vinte e cinco anos de segredo com uma lida casual... bobagens! Irônicos! Como um míssil de cinquenta milhões atravessando um país pobre no sul da África Meridional! Irônico.

Estava tudo ao alcance das decisões. Mas há um caminho irriquieto e sinuoso entre a decisão e a ação. Agir era sempre mais barato, mais rápido, mais fácil. Comprar café custava oitenta centavos! Mas puxar assunto com a ruiva do lado direito do balcão! Ah! Isto custava muito mais caro... muito mais...

Decidir envolve mobilizar. Mobilizar todos os músculos e vontades, dobrar a consciência, obrigar o corpo. E isto requer contingência, requer uma concordância cínica de todas as partes de si próprio, e concordância requer diálogo. E isto não era fácil! Um diálogo que está subordinado aos controles históricos, aos domínios e apropriações do corpo. Que até surtia efeito quando dizia para a Ruiva, dois anos depois que amava seus próprios heterônimos e não a ela, mas definitivamente não conseguia superar as limitações dessa vida pseudo-medíocre que queriam vender-lhe junto com os planos de saúde nas saídas do metrô.

E era tão simples, tão simples, como comprar um livro no sábado de manhã num sebo mal frequentado de Copacabana; e já não gastava mais do que quinze reais consigo mesmo, há alguns anos... Mas o inesperado de tudo isso, era recorrer aos instintos animais, a habituar-se ao inabituável e inesperado despertar do óbvio.

Como a freira que sim, como se não imaginasse deus, liberasse hormônios e algo mágico acontecia, como uma ereção ao inverso.

Falar muito é apenas se esconder dos demais. Tentar melhor é redundância.

Tentar é sempre o melhor.

Tentar sempre afasta os censores. Tentar é habituar-se aos auspícios animalescos, mesmo que a conversa com a ruiva seja indevidamente inapropriada ou isenta de talento.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bonitinho mas ordinário

As coisas tinham mudado. Anatole viajara para o Uruguai.

Eu vadiei pelo interior de cidades tão distintas quanto meu humor, e você, bem, você se foi, e nunca mais voltou.

Era um dia chuvoso, uma chuva que molhava a madeira velha no fundo dos quintais, o cheiro de paralelepípedo molhado me contaminava, e eu me via obrigado a evocar uma lembrança covarde.

A chuva acabava rápido. Eu demorava mais a me acabar. Acabava-me lentamente, mas com certo orgulho e prazer, afinal, matar-me cotidianamente me fazia um ordinário mais vivo.

Quando eu retornei para a cidade caos, eu me lembrei de pegar aquelas velhas correspondências, suas correspondências, que você tinha me enviado. Enquanto eu folheava uma das cartas, me lembrei da decepção que você sentiu quando eu fiz aquela brincadeira; eu disse que iria me prostituir na terça a tarde, prostituir-me pelo capitalismo, mas você não gostou.

Na época eu não entendi. Sensível não seria a palavra adequada, porque evocaria fragilidade, e eu detesto ser frágil, mas estúpido eu não sou, rude é o adequado, mas você sempre soube que eu sou é um filho da puta intuitivo.

Sou distraído. E empático. Você sabe. Intuitivo e empático são coisas normalmente desagradáveis. Além de anteciparem a derrota, acabam nos fazendo identificar nos algozes.

Heróis ou carrascos.

Eu sempre reclamei com você, que essa minha empatia era um desconforto cotidiano. Era um soco no estômago, uma úlcera que crescia, que me obrigava a compreender mesmo os canalhas.

E eu odiava ter de entender os canalhas. A não ser quando eu desejava aniquilá-los verbalmente.

A minha empatia folheou você. Mesmo com seus olhos(verdes ou azuis?) emblemáticos eu te atravessava no meio da tua avenida, aquela que ligava seu coração aos meus olhos, aquela avenida bonita, feita de sangue, de beijos de final de semana, beijos de domingo, depois do cinema e da pipoca, e você sabe, e sempre sabia que era hora de nos fatiarmos mútuamente. Era hora de revelar aquela sombra que obscurecida pela luz dos nossos valores, ousava retornar pela porta de trás, do modo mais honesto: com lágrimas, relâmpagos e vez ou outra, queimaduras de cigarro.

A gente se entregava. E o amor mais bonito é o que menos certo dá. O amor mais legal é justamente aquele que mata parte de si para sobreviver.

Quando você se prostituiu, eu não sabia bem o que dizer, eu já sabia das drogas, eu sabia de tudo o que fizemos juntos naquela noite louca, mas paramos por ali. Eu não sabia, eu fiquei preso, eu sabia que ficar preso era me condenar, mas você enlouqueceu ruiva, você enlouqueceu, enquanto eu sabia que se me condenassem eu tomaria veneno ou cortaria os pulsos, mas graças a nosso amigo Anatole, eu, o pobre Vasilli, consegui chegar na cidade caos ileso.

Aquilo foi duro demais. Eu me odiei, por que eu fui responsável, você precisava sobreviver, precisava me soltar, e eu precisava viver, mas não fui forte o suficiente para me matar.

E você se prostituiu.

Ruiva, eu rodopiei durante anos, eu te reencontrei e te perdi, eu te perdi mais de uma vez, você estava lá, em cada viagem, em cada espelho, em cada esperança... Eu mudava de emprego, de cidade, de rotina, mas nada mudava realmente. Eu ainda era madeira velha apodrecendo mais.

Os pingos de chuva molhavam esta madeira velha, eu me amava mais do que as pessoas ao meu redor. E você meu amor. Você meu amor, meu único amor! Estava perdida, perdida, sem que eu pudesse te encontrar ao redor do globo, você era um fantasma vivo, que me condenava a te procurar, te procurar, como um Sísifo pós-moderno, como um Ícaro condenado a desabar sob o céu cinza da modernidade tardia, eu apenas olhava espelhos, recebia suas cartas, algumas que nunca mais chegavam e rezava para conseguir cigarros o suficiente no próximo final de semana.

Eu acendia um cigarro, sempre nas noites secas ou muito chuvosas, e me lembrava que você não estava aqui, mas sua presença, sua presença era um ultimato.

Eu me afoguei diversas vezes nas minhas lágrimas; ruiva, eu me viciei em duas coisas distintas, aparentemente opostas, mas possíveis: eu amei a tua presença, amei a tua ausência.

E você, você, com seus cabelos ruivos... Nós dois nus, naquele quarto calorento e sufocante, com relâmpagos pós-chuva, os dois abertos no meio, abertos emocionalmente e físicamente, beijando-nos e nos desejando, mas fundando limites... Sempre acabávamos teorizando e a mágica nunca acabava. A mágica nunca acabava; nem quando eu saía nu e voltava com água gelada.

Aí você já jazia viva, dormindo, como um anjo, e eu te olhava ainda mais, bebia a água sozinho, e me lembrava sempre quando você sussurrava aquela palavra estúpida antes e durante o sexo, "bonitinho mas ordinário, bonitinho mas ordinário..." E eu adorava...

E foi essa única frase que me permitiu lembrar de você, sem gosto de madeira velha, pois eu sempre dava um sorriso e desencadeava todo o resto. Eu sempre me prostituía em troca das tuas lembranças. Mesmo você não estando aqui.

Mesmo longe, você não morria. E mesmo se você morresse, duvido que você ficaria longe da avenida que liga meu coração aos seus olhos. Eu duvido muito.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Lugares mal iluminados



Quando não percebemos e somente neste ponto específico, somos promovidos à função de carrasco, ou herói.

Heróis andam escassos, mas os carrascos vendem-se pelo atacado.

Inconscientes do destino oculto da vida, promovemos chacinas afetivas em cada esquina, cortamos corações e destruímos afetos trocando de roupa.

É o motor.

Anatole assim acreditava. Um tolo, que crê num destino oculto da vida, acredita e professa em fé, uma razão secreta da história e da vida; credita a um plano lógico uma emersão de fatos que só a posteridade lhe parece reconhecer os feitos.

Mas para Vasilli, e Vasilli costumava dizer isso sempre após acender um cigarro ou tomar um gole de cerveja sincera, aquilo tudo era metafísica barata. Era merda metafísica. Cristianismo invertido em ciência. E que ele tinha de recomeçar a pensar.

Apesar de ateu Anatole, és um metafísico incurável! Dormes com deus todas as noites! Teu otimismo, podre otimismo de salão, esconde esta metafísica tão bem aconchegada na tua frase padrão.

E para Vasilli, mero entregador de frases de efeito, que bem escondia um rancor deplorável pelas porcas de barro que guardavam dinheiro, afeto ou idéias, pelos mujahedins do cinismo e também costumava detestar a si mesmo, sempre que lhe recaíam sob os ombros a função de carrasco , viver é fazer a si mesmo na experiência.

Segundo Anatole, Vasilli, era um bêbado empirista, que desfocaria metade do mundo se a outra parte dele afirmasse que quem desfoca a realidade é o alcoólatra. Vasilli aos olhos de Anatole era um mero solipsista à procura de uma âncora afetiva que pudesse dar lastro aos seus sonhos estúpidos.

Os peixes do aquário de Vasilli não nadavam enquanto ele dormia, costumava dizer Anatole.

E ainda assim, apesar das diferenças, os dois se encontravam num boteco de final de semana para beber, conversar e saber em que função os dois se encontravam no momento.

O carrasco é o auto-alienado de seu livre-arbítrio, de sua potência, dizia Vasilli. Quem assume seus atos, quem age não pela metade, mas se entrega inteiro até quando está apartado ou cortado ao meio, este sim, nunca será carrasco. O carrasco é o que finge dizer que há uma força oculta que lhe move, e que seja a história, o inconsciente ou o que quer que seja. O carrasco é um homem de má fé. É um homem que entrega a outrém, mesmo abstrato, deus, psicanálise ou metafísica, os meandros de sua própria vontade.

Anatole, costumava receber essas afirmações de Vasilli, com um misto de irritação e de espanto.

Como um homem vive sem suas forças externas? Como algum ser humano pode embalar todo o mundo e tornar a realidade uma massa compactada que repousa sob seus ombros?

Quem é cristão por final é você Vasilli. És um cristão que troca a cruz pela tuas ações. O mundo repousa sob teus ossos e sinto que tua noção de carrasco está equivocada.

Para Anatole, as coisas ruins, serviam sempre para revelar um futuro bom. E quando não revelavam um futuro bom, apenas eram necessárias para que outras coisas ainda mais ruins não acontecessem. Um acidente de carro, uma chacina, ou um fora de final de semana não eram em si ruins. O bom ou ruim só se revelavam na ação a posteriori. E o fato posterior sempre era bom , pois se reconfortava na unidade da vida e encontrava o pagamento de seus pecados na linearidade do tempo.

Para Anatole, sempre havia um acontecimento futuro, necessáriamente bom e que encontra sua bondade no acontecimento passado, que revelava a necessidade de qualquer tempo presente ruim. Quando ainda nada havia de bom no futuro, ele acendia o cachimbo, olhava para o horizonte e dizia que era o plano secreto se manifestando. Era melhor não perguntarmos o que a lógica ou o espírito do tempo nos quis exatamente dizer.

O ruim dizia Anatole, fora ruim, é verdade, talvez até desprezível, como aquela viagem decepcionante e todo o grande afeto desperdiçado nos restaurantes de estrada, mas se aconteceu assim, aconteceu pois que algo ainda pior estaria destinado ao período presente. O plano secreto fez justiça. Falava e retomava o assunto, repetia muitas frases para se fazer entendido e então, recomeçava a tragar, como um profeta falhado - não sem antes acender o cachimbo com ervas aromáticas sabor primavera.

O carrasco de Anatole era sempre o passado do herói. Todo herói tem um quê de carrasco pretérito - dizia.

Para Vasilli, o carrasco e o herói eram em suma a mesma pessoa ou a mesma coisa. Não havia uma sucessão temporal, mas sim um dispositivo dialógico entre esses dois pólos aparentemente opostos, mas que se complementavam, alternavam-se, como um bailé ou um jogo de espelhos dentro do Theatro Municipal.

Ambos, Vasilli e Anatole digladiavam-se, esgrimavam-se enfrentando na verdade a si mesmos. Não eram filosóficamente inertes, pois costumavam questionar e trazer à tona seus arrependimentos, cada um à sua maneira...

E quando jaziam inertes em paradoxos irresolvíveis, perguntavam-se quais das posições estavam assumindo. Heróis? Ou Carrascos?

Havia uma linha muito tênue, temporal ou empírica, era uma linha minúscula que dividia tais concepções.

No final Anatole e Vasilli costumavam aceitar o fato de que eram todos vítimas e algozes enfileirados em torno das pobres experiências. Cansados, exaustos pela cerveja, pela rotina que impunha-se menos filosófica ou apenas pelo fato de não mais suportarem se digladiar, acabavam assumindo uma pobreza de experiências, estas que descortinam o tempo, as decepções e por fim os lugares mal iluminados.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mal-ajambrado

No meu ímpeto misericordioso, tento transformar minhas angústias em angústias coletivas, apesar de saber que não há nada mais precioso e meu, do que as minhas e só minhas angústias.

Quando exponho minhas entranhas em público, seja num gole de cerveja, num sorriso mal-ajambrado ou num texto escrito em papel de guardanapo de final de semana, eu sei, sim, eu sei que exponho não só minhas vergonhas, mas as vergonhas de outrém.

Quando me lêem, sei que não só me lêem ou me exumam diante do mundo; sei, e tenho a certeza a cada letra cuidadosamente cunhada, que estão a se destrincharem diante da ribalta de silício, estão a se esquartejarem comigo, este autor, torto e pobre autor...

Quando me despedaço e me olho como os de fora verdadeiramente me olham, sei que dou a oportunidade para que façam por conseguinte o mesmo, pois a sombra e o defeito do outro, é sempre do outro, até que o fato seja verdade. Por que nem todo fato é verdade e nem toda verdade é fato até que encontre-a verdadeiramente assim, posta de lado.

A face que oculto de mim é sempre mais clara ao desterro do amigo, ao ódio sem condição, a paixão imigrante e recorrente; e ao afoito ouvinte ou faminto leitor.

Na verdade e devemos falar a verdade sempre que ela se apresentar mais estética, falo como um autor comum, comum como as mais comuns das criaturas: as do ponto de ônibus.

O texto, este pedaço de coisa parida, tem a envergadura de um zé comum e o conteúdo que é do tamanho do infinito ou da mediocridade de quem me lê.

Sou um caco de espelho mal-ajambrado, só reflito o quê e quem me olha.


quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As coisas que se desmontam

Normalmente olho para textos antigos, folhas de caderno soltas, envelopes abertos, para me inspirar.

Mas é tudo merda. Merda.

Quando olho para aquela parte boa, aquela parte singela e ingênua de mim que costumava acenar no domingo de sol; eu paro e digo: seja realmente rapaz, seja realmente o que você é.

Este rapaz que tenta se inspirar em folhas, e cadernos soltos. Seja o que você é.

Uma repetição. Talvez otimista.

E quando o mundo cai, e preste bem atenção, o mundo cai sempre nos finais de semana errados e nas tardes em que ninguém além de você percebe, os significados e os significantes costumam fugir pela janela do ônibus.

Com sorte há uma anomalia, um desvio padrão que obriga a dizer um ou dois palavrões.

E tudo volta.

Mas há um momento em particular, um momento bem catastrófico, apesar de interessante e comum, onde as regras do jogo parecem não ter mais sentido. Na verdade, o próprio sentido parece não explicar-se; o sentido não mais existe e o absurdo reina.

Reina dentro de você. Apenas você.

A organização das casas, o formato dos portões, a velocidade e forma dos carros, as pessoas indo de um lado ao outro, dia após dia; os botões, os livros de pós-estruturalismo, os livros que negam o pós-estruturalismo, a gramática, alguém que resolve não pensar nisso tudo, o planeta terra, as geleiras glaciais, o deus cristão, a organização da poesia, pensar sobre o caos. E você.

Café da manhã.

Não. Não há sentido. O absurdo, quando não vem enlatado em situações limite, implica serendipidade, implica desapego.

Apesar do quê. A merda do desapego é o contrário do que pretendo aqui. Pronto, falei tudo.

Não se deve falar assim, tão explícitamente explícito como um aparelho excretor em funcionamento, mas a verdade é que parte de mim não gostaria de transformar um texto tão bom num requiém gramatical. Mas mesmo assim você já transformou minha vontade na sua vontade. Teu infinito me consumiu e sim, você está certo, não há espaço para infinitos coexistirem.

O texto acaba por aqui: mas ele prossegue.

Começando do princípio, e voltando ao normal, o que eu queria dizer é que tem dias que a gente não é humano. E você sabe disso melhor do que eu. E eu não preciso me esforçar para explicar algo que o absurdo lhe contempla. Não olhe para cá, olhe para dentro de si numa noite vazia, numa sequência de dias ruins, mas isto tudo é pouco para um dia em que você resolve tomar uma boa dose de absurdo e esvaziar as garrafas de abscinto de sentido. A noite normal que nem as anfetaminas lhe dirão algo. Pois o algo já se perdeu falido no origami reproduzido sequencialmente pela eternidade.

Tem dias que a gente enlouquece e ainda produz cadernos soltos, envelopes vazios, contos ruins.

Há dias que o absurdo nos engole.

Há dias em que coisas absurdas acontecem.

E acabam. Acabam assim, como começaram, dentro de você.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Minhas Dores / Tinhas Dores

Minhas Dores

Minha dor não cabe numa terapia
Se coubesse, não seria minha dor

Mas sim, uma dor alheia
E por ser alheia...
Não seria mais minha dor
Mais uma dor que seria outra

Por conseguinte
Uma dor sem importância
Uma dor frívola como um céu arrebatado!

Como todas as outras dores
E portanto mínima
Aos olhos de minhas dores
Ou de elucubrações de final de semana

Que apesar de não terem olhos
Olhos no céu!

Seriam fatídicamente!
Como uma dor de outono!

Tinhas Dores

Minha dor não cabe numa merda de terapia
Se coubesse, não seria uma filha da puta-dor

Mas sim, uma porra de dor alheia
E por ser caralho, alheio...
Não seria mais minha buceta de dor
Mais uma dor que puta que pariu, seria outra

Por conseguinte
Uma dor sem importância
Uma dor frívola como um cú arreganhado!

Como todas as outras dores
E portanto mínima
Aos olhos de minhas dores
Ou de menstruações de final de semana

Que apesar de não terem olhos
Olhos no cú!

Seria fatídicamente!
Uma dor de corno!!!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Efêmero

Tudo passa, tudo vai. Algo fica, algo sai.

Era meia noite e eu tinha meu cachimbo. Tinha fumo, tinha raiva, iria fumar impaciência. A cicatriz no braço não fechava, talvez culpa da cannabis.

Há coisas que não merecem ser cicatrizadas e há coisas que não cicatrizam apesar de não merecerem. E pouca gente merece. Mas quem merece normalmente sabe deixar marcas.

E eu encontrava os fios de cabelo dela por toda a casa. Um dia eles iriam acabar.

Faltava limpeza naquele cômodo.

O som não funcionava e a estupidez estava no congelador aguardando a estrela certa. O sinal do óbvio estalava por todo o quarto.

É um quarto de esquina, de esgrima consigo mesmo, havia um sofá de dois lugares vazio, uma arena de tolos, conformada por sobre um circo particular. Confortável e gordo sofá, um gordo afável, que não usa em hipótese alguma os broches do "quer-perder-peso-pergunte-me-como"; é um sofá de bem com a vida, de bem com o quarto. Um sofá extremamente gordo.

Gordo de ausência.

A estante de livros, óbvia. Óbvia pois tinha livros; se não fosse óbvia guardaria sapatos e a mesa de centro marcada de fumo, de guimba, cheia de papel, evidentemente a que mais trabalhava naquele quarto infame.

O eterno é a mera soma dos efêmeros. Quem pensa o contrário ilude-se. Quem acha possuir o eterno ou o almeja, engana-se, pois apenas alcança efêmeros parcelados. O eterno nunca foi eterno. O eterno é esquartejado pelas pontuações do destino.

Papo de perdedor é claro. Mas quem nunca perdeu, quem segue os modelinhos nascei, crescei, multiplicai-vos, multiplica certezas e embota juízos.

O eterno é a ignorância. O eterno é não perceber as pontuações. E para que servem as pontuações? E quem realmente deseja de todo o espírito e causa, reconhecer e enxergar as pontuações? Quem seria idiota a tal ponto?

A curiosidade condena o indivíduo. Condena; e ninguém disse o contrário; se dissessem, o sofá, a cama de casal e a mesinha de centro, acusariam o erro.

Móveis que são parte do eterno... Mas lembremos, lembremos sem não mais tristeza mas com uma dose de esperança na constatação mórbida do desapego, que o eterno é o efêmero parcelado. Logo os móveis efêmeros, a mesinha, o sofá, a estante se degradam, e é o princípio entrópico. Uma merda comparado ao THC, a hemodiálise ou ao videogame de final de semana.

Mas pense bem. Degradam-se dia após dia e você não vê. O eterno embotou sua visão.

Está tudo morrendo.

Inclusive os fios de cabelo dela. A cannabis, a impaciência. E tem coisas que precisam morrer.

O eterno é efêmero unido à força. E nada unido a força realmente funciona. É só ficção. É só ilusão. É só esqueminha nascei-crescei-multiplicai-vos.

E você, nem o sofá, nem a mesinha de centro e muito menos a estante querem ser parte disto certo?

Portanto sê como eu, efêmero, e me nega.








quinta-feira, 19 de junho de 2008

O homem dentro da caixa


Na Lapa, centro do rio, um homem dorme dentro de uma caixa: Abdômen para fora, cabeça para dentro. Verídico, terrível.

Eu caminho abdominalmente; já perdi minha cabeça na caixa do homem.

Homem? Homens? Mas que papelão!

Ao lado uma placa lhe diz: "Secretaria de Gestão Penitenciária".

E mais adiante um hotel chamado Hilton grita carros importados na calçada; alguns passos para a esquerda, e vejo bancos, caixas eletrônicos e vidraças que pedem... pedem...

E eu só quebrei os retrovisores; sou um covarde sem abdômen!

Sou uma caixa! Uma caixa de papelão!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O ponto limite, a "dead line"

As coisas estava monótonas Ruiva, monótonas como sempre lhe pareciam, até que momentos antes o desencadear dos fatos contradizia não só a realidade, mas impunham uma nova percepção. Uma percepção irônica, jocosa. Forjada em algum lugar secreto, inacessível para nós, dois mortais que brincávamos de semi-deuses nos finais de semana.

Era como um jogo de dominós, onde os números não poderiam ser memorizados e a cada partida os adversários se encontravam no ponto zero, ou seja; por mais que jogassem, nunca dependiam de suas próprias capacidades ou experiências, mas apenas do desenrolar secreto(se é que isto poderia existir) das combinações, das casualidades, dos encontros e desencontros não arquitetados, enfim da sorte, da maldita sorte.

Era exatamente neste ponto, que eu percebia, e nisto eu achei a princípio que era mais eficiente que você, que algo, não algo tão espetacular no sentido de presentes de natais escondidos atrás de mesas, muito menos velhas cartas que descobertas infrigiam regras básicas dos horizontes de expectativa, iria acontecer. Chamávamos de momentos limites, isto quando não estávamos nós dois bêbados, sorrindo, minto, serei mais sincero, gargalhando, perdidos em quartos de motéis baratos, envolvidos nus por colchas evidentemente de mau gosto.

Nunca sabíamos exatamente o roteiro para estes momentos, por que sempre inventávamos coisas novas, como furar os pneus do carro do yuppie atrevido, ou colocar fogo no brinquedo homo-erótico com rodas do filhinho de papai raivoso, que acabara de ser estúpido com o assalariado sincero e gentil do hotel local.

De certa maneira, perdíamos muito mais tempo e isto era algo que crescia exponencialmente, a falar de ações pretéritas do que própriamente em executá-las, por que o risco ficava maior, crescia e nos intimidava até um ponto quase insustentável, e aí retornávamos ao ponto inicial, chutando o tabuleiro como força...

Recomeçávamos o dominó irracional, sempre com a mesma ousadia, sempre com o mesmo amor, sim amor, pois nada explicaria racionalmente aquela gana com a qual vivíamos, um mundo que parecia prestes a se acabar para nós dois, mas continuava vívido, recheado de sentido, pois sabíamos exatamente o que fazer; não como fazer, isto aprendíamos cotidianamente, mas estava claro que havia um sentimento mais forte que envolvia nossas ações, nosso romance inabitual, nossos beijos desencontrados no meio da rua e sim nossa disposição para fuder as estruturas, mesmo que limitadamente.

Quando começamos a aparecer na televisão, eu não sabia mais o que te dizer, não parecia você exatamente naquele retrato mal feito(você era muito, mas muito mais bonita pessoalmente); as coisas começaram a esquentar, mas isto nunca abalou nossas convicções, talvez remodelou-as para objetivos mais concretos tomando todavia um caminho mais complexo que implicava em ceder.

Coisa que pessoalmente não estávamos dispostos.

Você entendeu mal, quer dizer, era o que eu achei, quando você sumiu. Ceder não incluía me abandonar, na época eu tive de mudar tudo. Tive de viajar para outro lugar como você fez, eu poderia ter ficado, talvez seria preso ou morreria, mas acabei "entendendo" seu recado. Decerto se tivéssemos permanecido unidos, estaríamos mortos; era uma pulsão de morte que me corroía, você sacou tudo novamente, ponto para você. Afastando-se, conseguiu não só sobreviver, mas manter-me vivo...

Claro que compreendi, e agora isto fica cada vez mais claro, que um retorno seu, era um novo processo. Você teve de sumir, teve de me esquecer abandonado num lugarzinho hipócrita do lado de perdedores como Anatole, teve de manter-me como um quebra-cabeça fora do lugar, por que enfim, o tabuleiro não estava para nós ruiva... não mesmo...

Não sei como será: talvez você volte, pode ser que fique de vez bem longe de mim, o que decerto não me agradaria, é óbvio no entanto que eu achava que tinha ultrapassado a linha limite, a dead line, mas sempre se pode girar sob seu próprio eixo, se é que existe algum eixo que não esteja aí, pertinho de onde você está.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Homem expectativa vai as compras outra vez

Sou um suicida sem coragem
Um junkie sem culhões
Um revolucionário que não pega em armas

Meu nome é fracasso

Sou um amante sem amada
Um jovem meio velho
Um velho meio jovem
Sou contradição...

No ponto de ônibus
Na sua festa medíocre
No encontro dos chatos

Sou uma sina
Verbo sem palavra
Conto sem final
Poesia sem poeta
Ponto e vírgula sem leitor, sem ator

Sou o acaso, esguio
Passado sem futuro
Lógica sem prosseguimento, copo sem cerveja

Sou um soluço, um soluço de letras...
Sem explicação

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Duvido que leia

Vasilli sentia-se numa fase particularmente inédita. Inédita por muitos motivos; um deles referia-se à vodka, esta não era mais um consolo amigável, não que fosse um alcóolatra de profissão, e estava bem distante desta categoria, todavia começara a desconfiar do ciclo ascendente que estabalecera como premissa para produzir material literário; portanto, bastava-se, sem álcool demasiado, mas com demasiadas outras muletas ainda pendentes.

Desconfiava desta sua fase mais esperançosa, a desconfiança era sistêmica e racional.

Ao lado desta, residia um medo intenso, ou de tornar-se uma paródia transmutada em livros de auto-ajuda ambulantes, e sentia-se como um grande livro de auto-ajuda, quando lhe pediam conselhos afetivos por telefone, por cartas, com desconhecidos em mesas de falsos pub's no outono ou quando simplesmente era obrigado a citar cinco ou seis frases de efeito, que ele mesmo criou, para tentar convencer meia dúzia de amigos. Era cansativo.

Quando a ruiva entrou no bar, decidida a acabar com a farsa, exigindo respeito com dois goles rápidos e sufocantes de um conhaque ruim, ele já sabia que escutar jazz, apesar de clichê, era bem apropriado para o local.

Um bar sujo, uma vitrola que não funcionava muito bem, uma mesa de bilhar abandonada, meia dúzia de fregueses ruins, bancos de madeira contornado o balcão, um balcão ainda respeitável, apesar do garçom detestar jazz, e lá, a ruiva, batendo o copo vazio na madeira, e provocando um embate.

- Lembra do nosso primeiro encontro?

- Lembro.

As pausas propositais, quase sepulcrais duraram um gole da cerveja; Vasilli lembrou-se do último enterro em que foi convidado. Nada agradável, pranto, doença fatal, flores baratas e a repetição esdrúxula de etiquetas sociais(como as que utilizava para comprar pão por exemplo).

- Você estava usando aquele jeans comprado no Alabama.

Ela gargalhou. Ele ainda conseguia lhe fazer rir.

- Isto é muito clichê não?

Ela sorria... mostrando seus lindos dentes.

- Demasiado. Pontuou, Vasilli.

Ela gargalhou ainda mais, mas ensaiando um ponto final exclamou:

- Não gosto das suas cartas Vasilli. Não gosto mesmo, elas me enjoam. Você está fazendo exatamente o que disse que nunca faria. Puta merda, mas que contradição!

Duvido que leia, ele pensou.

Enquanto o garçom limpava o balcão, Vassili esboçou um sorriso no canto da boca; mas a piada dos clichês já não fazia mais sentido, e foi aí que surgiu como sempre surgia nesse frenesi de associação livre, a idéia de que boa parte das pessoas ensaiavam clichês em comportamentos, os arquétipos... A história não está tão errada. Mas isto só emergiu, depois de conectar sequencialmente o jeans fictício da Ruiva, ao Alabama, ao documentário sobre o racismo no sul dos E.U.A, a música pop americana, aos literatos norte-americanos, a um ou dois amigos fãs de Bukowsky e por fim, clichês; mas que volta.

- Nunca me esquecerei daquele saxofone Ruiva.

- A noite cinza. A garrafa de vinho quebrada. A luz baixa era desagradável...

Ela calou, olhava Vasilli compenetradamente, e ele já sabia que apesar de compreensivo, ele não poderia recuar.

- Faltava-me maturidade. Agora o que me sobra é em parte o que eu desejo perder. Ontem eu conversava com um homem-robô. Sabe o que é um homem robô? Uma pessoa que não consegue mais se mover naturalmente, por que seus traumas o conduziram a um engessamento da alma.

- Que se dane ruiva, eu não quero ser um engessado. Jamais.

Não o interrompeu por educação? Vassili não sabia. Decerto, seus mais curtos(agora) cabelos vermelhos(sempre), refletiam o whisky, que enganava o garçom, perdido lavando copos, escondia os clientes chatos no fundo do bar e o mundo rodopiava, rodopiava soçobrando Vassili cujas velas eram a ruiva. A ruiva movia aquele lugar.

Ela falava pouco, mas gestualmente era um monumento literário vivo.

- Eu te amava russo, mas você perdeu sua chance.

(Vassili achou que ouviu, mas não, ele não ouviu, ela nunca diria isto diretamente, precisaria rodopiar, por que estava numa posição defensiva que poderia desestabilizar seu falso compromisso com a sensibilidade)

- O que você disse?

- Que eu te falava. Que eu sempre te falei, que não há volta quando se ultrapassa o ponto limite Vassilli.

- E atingimos este ponto?, encheu o copo pediu mais cerveja.

- Talvez.

Papos deste tipo sempre os enojaram. Esse jogo de xadrez, este tango emocional, era danoso para a alma, mas profundamente enriquecedor para jogos de metáforas.

- Eu te amei. Te amei como um estúpido. Mas quem disse que o amor é inteligente...

- Suas cartas são... ela disse. São boas; são como você diz, farto material literário. Elas são isso tudo Vassilli, mas... você não entende... É hora de esquecer o Saxofone. Esquecer não. Desesquecer. São coisas diferentes, você sabe.

- Poderíamos falar sobre isto a noite toda não é? Até mais. A semana inteira.

- Sim. Mas o fim nunca é poético o suficiente. O fim sempre é ruim.

- Como o fim do Nato, Vasilli exclamou.

- Sim. Ela respondeu erguendo a cabeça . Como o fim do Nato.

- Ruiva... disse ele, interrompendo a melodia e gerando um tom de voz que desarmaria qualquer oposição.

- Fala. Diz.

(Ele pensou duas coisas. Duas possibilidades: A ruiva é uma ilusão necessária, um combustível do meu ofíciou ou eu inventei isto para justificar algo que eu não posso assumir totalmente, que ela tem o controle de Eros, a Eros de Vasilli.)

- Vou pagar a conta e...

- Não quero mais escutar jazz. Vamos embora!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Lúcia e Roberto: um casal agradável


(Roberto e Lúcia deitados num colchão, três da manhã, apartamento vazio no catete, geladeira com cerveja e alface.)

- Qual é a constituição do amor, da paixão Roberto?

- Não sei Lúcia, mas o tempo ajuda a constituí-los, não, este tempo nosso, mas um tempo bonito, um tempo subjetivado pelas nossas próprias sensações e emoções.

- Você me ama Roberto?

- Lúcia... minha querida Lúcia... se eu te dissesse que sim, seria óbvio demais... e o amor odeia obviedades...

- Você é um puto esquivo Roberto. Você me entendia.

- Lúcia...

- Diga.

- Busca uma cerveja pra mim.

- Vai pra merda Roberto. Que machismo.

- Machismo nada, eu busquei as últimas cinco, é sua vez.

- Estou falando do amor Roberto, tem como ser mais romântico?

- Claro.

- Então, pronto porra!, por que me pediu pra pegar mais cervejas?

- Por que preciso de mais romantismo. Pega mais pra mim por favor, tá atrás da garrafa de água amarela.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Origami Emocional

Dobrei-me...
Como um origami emocional
Criei camadas de vida
Voei, espalhado pelo vento
Como um barco sem horizonte
Despedacei-me no mar
E vi que a felicidade
Estava na minha mão

A alegria era uma folha de papel
Eu a dobrei como um envelope
E coloquei recortes de revista
E dúvidas de jantar em seu interior

Comi desatinos e engoli timoneiros
Sem pensar, sem sonhar
Que a água que eu outrora bebi
Iria dessa vez, me afogar

Liguei o rádio
Mas não havia estação
Olhei para o sol
E ainda era verão

Gritei ao som do enfado
E não entendia...

Por que naquela maldita quinta feira
O meu olfato sentia cheiro de morte

Dancei, dancei, dancei ao som da música
Sem saber, que não se baila
Com um caixão em uma das mãos

Olhei para o horizonte
A vida era algo normal
E o meu normal, não dizia nada
Para seis bilhões de pessoas

Bebi cervejas no escuro
E achei que iria me curar
De algo que nunca tive

Costurei falsos caminhos
E só percebi
Que no palco do teatro
O ator sim, o ator era vossa senhoria
Vossa senhoria! O eu!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Disputas Interiores: Durden ou Poulain?


Olhando para tudo o que aconteceu, tinha quase certeza de que o caminho, sim, pois era seu sem dúvida, era um caminho pra lá de interessante. A maneira com que recriava a vida ao seu redor, era em suma, parte de um processo global, isto é verdade, e acreditava e confiava nas redes que o envolviam, e tudo, tudo, dizia lembrando daquela terça-feira mágica, era parte daquela trilha, daquela estrada, deste caminho, ríspido, suave, intenso, jocoso, brilhante.

Poderia encher o copo da vida uma ou duas vezes, antes de experimentar a dor, e o que era a alegria sem a dor, o que era a paixão sem o ódio, o que era o dualismo sem o relativismo, o que era ele próprio sem si mesmo!!! Confiar no sagrado era o início de um processo curto de esperança. Era um feixe de respiração otimista.

Fazendo um balanço sincero e motivado de seus/meus próprios costumes lembrava demasiadamente das músicas tristes, das cartas sinceras, das lágrimas despejadas sob o copo de cerveja preta, que ele, sim, ele tanto adorava. Era um romântico incurável, e românticos incuráveis, necessitam de mais tempo, nenhum tempo é tão escasso, quanto o tempo dos românticos incuráveis. Ele sabia, e demonstrava a cada gesto, que era uma junção de simplicidade explorada demasiadamente pelo destino a ponto de exaurir seu próprio otimismo; e no entanto conseguia a cada respiração, ser visitado pela morte sete vezes, assim como os budistas; e que deus os tenha.

Mas lhe faltava maldade. Não se referia ao mal convencional dos filmes hollywoodianos ou das igrejas de final de semana; faltava-lhe, e podia perceber a cada evento, uma percepção mais nítida, e a este ponto preferia a palavra parceria como o oposto do que ele era e negava.

Era claro e necessário, que ele deveria fortalecer aquele lado escuro, que tanto deixara-se ofuscar por sua parte mais criativa e dera a uma ampla gama de jogadoras, a oportunidade de deliciarem-se com modelos paranóides produzidos sob situações de tensão; ou diria melhor, bonequinhos perfeitos, imagens projetadas no espírito do tempo a partir de espasmos pré-românticos, mas veja bem, e preste atenção neste período, neste momento, tão particular e talvez inovador... espasmos pré-românticos são como comportamentos clichês às sete da manhã.

"Passe-me a manteiga por favor! (me passa a porra da manteiga!!!)."

O espírito do tempo não estava com ele desta vez(nunca esteve). Adaptaria-se?

Adorava utilizar opostos para explicitar a si próprio; água x fogo, yin x yang, sombra x luz e como a modernidade lhe impunha novas e sensacionalistas abordagens, Anatole resolvera escolher a dicotomia durden x poulain, que era um produto de filmes baratos que resolvera rever para explicar a si mesmo e aos leitores(dois ou três - num dia de sorte) o que era dicotômico em sua, em nossa, personalidade. (se você chegou até aqui parabéns! força! continue!)

Oposições que se completavam, mas que neste momento digladiavam-se em torno de uma resposta. Ele vai ter de escolher - diziam nos corredores do inconsciente.

Conseguiria trazer sua sombra?, sim ela dizia faminta - você consegue meu jovem, enquanto jovem; conseguirá empurrar mais para o fundo esta velha, sim, pois anime-se os anos 90 já acabaram junto com suas camisas de flanela, esta velha-idosa Poulain, espírito ultrapassado e prestes a reanimar o velho Durden, este arquétipo raivoso, esta parte de si que calava todas as vezes em que se confrontava com a doçura de uma parte de si que predominara durante todo o jogo; deixe ele tomar as rédeas da situação, deixe o velho durden dominar.

É claro que isso tinha um custo. Ele sabia, e dialogava muito oportunamente com os dois, com meio cigarro na boca, e um copo de cerveja preta, olhando para o horizonte(e seu horizonte era bem limitado por cinco ou seis prédios - isto dependia da quantidade de vodka) que tal tarefa não era tão fácil como poderia aparentar.

Sabia exatamente, que um estava em posição mais vantajosa do que os demais; Vasilli não admitia a princípio, mas as queimaduras de cigarro de quatro ou cinco anos arriscavam palpites de quem ganharia naquele momento o jogo, e isto era suficientemente claro para demonstrar que era hora de cultivar um caos dentro de si, não uma estrela brilhante, mas uma super-nova que talvez conseguiria gerir algo novo... de uma vez por todas.

Matar Poulain, enterrar Durden, talvez seja o caminho.... Ele não sabia exatamente...

Talvez devesse seguir o fluxo, parece fácil quando não se escreve por compulsão. Nada constava como editável, aproveitável; o lixo literário estava aí. O excesso de cerveja preta denunciava que seria mais durden do que poulain e não, ele não aceitava conselhos, por que esta mudança era temporária como toda mudança (normalmente) é. Decerto a maioria inspirava-se e acostumara-se a conviver mais com Vassili em sua fase "Poulain", fazia sentido, já que o espírito do tempo abortava milhares, milhões de Amélies Poulains sistemáticamente...

E a gente costuma projetar no outro o que a gente quer ser. E assim fica fácil pedir para Vasilli ser mais Poulain. Quando o que ele quer. É ser mais sombra, é ser mais durden.

[sorriso da ruiva no canto da sala - cigarro na boca, fumaça no ar, ele dormindo, ela acordada, vestindo preto, sofá sujo, gato preto na casa, lixo no quarto.]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Sobre os aniversários


Ruiva, escrevo em tom de cansaço. Em tom de cansaço, por que(e não usarei "de certa forma" antes desta frase ou antes do por que, ou antes dos subsequentes parágrafos) você é a primeira e a última pessoa que eu posso conversar. Todos, todas falharam, e você sabe que eu não sou tão perfeccionista assim. Sabe também que neste "todos" há pequenas exceções, pequenas grandes exceções para pessoas muito especiais; conquanto, pessoas especiais precisam provar que realmente são especiais, e isto não se faz com um, ou dois quartos de século ruiva, isto se faz diáriamente, isto se faz cotidianamente.

É difícil ser especial, eu admito. Na verdade na maioria das vezes acham realmente que eu, eu, o pseudo-ruivo, proto-moreno ruiva, ou incorporo metade daquele irritante joguete do "aceito qualquer coisa" , como um falso Gandhi ruiva, e Gandhi não aceitaria qualquer coisa, ou apenas tenho uma capacidade extrema de não me importar, não me importar como um beatnik sulamericano, de perdoar, de perdoar ruiva, de perdoar com todas as minhas artérias, sem que para isto eu realmente precisasse de sangue correndo em minha veias; e para quem não quer suportar mais nada emocionalmente tão exasperado, eu não tenho sangue correndo nas minhas veias ruiva, não, não tenho.

Não depois de você ter me feito de palhaço ruiva, um palhacito ruiva, um palhaço indisponível, um palhaço desprezívelmente raso, razoável.

Mas faz parte ruiva, faz parte do meu metafísico destino, um destino previsível, não pelo que eu construí, mas pelo que ele efetivamente constrói, mesmo não me imaginando tão determinista, é um fato concreto, de que este destino de merda, constrói-se a si próprio, a mim próprio, num casulo de previsibilidade tão constante, que vez ou outra eu me pego perguntando-me se há solução para este paradoxo.

Não há. Não há solução. A solução é eu me completar. Mas isto trairia todos os meus princípios, pois não há completude no alheio, segundo meus princípios ruiva, princípios tão bonitinhos ruiva, tão belos, tão obesamente preenchidos de vigor, são tão belos, são verdadeiramente lindos! Lindos ruiva! Do tipo em que se aperta e não se enxergam defeitos!

Mas ruiva, há os poréns, e os poréns normalmente enterram, mesmo que seja em breves segundos tudo o que é bom e perfeito ruiva. É no porém que se enterram mundos, é na vírgula que se enforcam princípios e embalsamam-se eras. É na incompletude das brevidades que se assiste o fim de ciclos, ciclos movidos a cachorro quente sem salsichas, sem carne ruiva, na esquina da avenida Mem de Sá. Eu pareço(e sempre tive este talento) estar sempre imerso em determinadas atividades ruivas tão intensas, tão recheadas de vida, de clamor, de emoções, de histórias que se desdobram em mesas de bar, em copos vazios, em encontros casuais ou em carteiras vazias, mas a verdade ruiva, é que meu talento é apenas esmiuçar das letras algo que valha a pena, é enforcar a monotonia da rotina neste balé literário gramatical; o que causa a impressão de que a cada carta que eu escrevo a você(s) há uma supernova em explosão, há um vulcão enterrando civilizações emocionais, há um genocídio literário autorizado, quando na verdade é mero balé ruiva, é mera capoeira, é mero gingar de corpos, digo na verdade, de frases.

Sou talentoso com letras(um complexo psíquico autônomo insiste o contrário), não com pessoas. Devo todas as minhas condolências a Kafka, Oscar Wilde, Clarice Lispector, Cortázar, Lima Barreto, João do Rio e diversos amigos ilustres, e não-ilustres(os não-ilustres são os que mais me inspiram). Prefiro não morrer de tuberculose, apesar do que tenho a incrível habilidade de me resfriar, e me adoecer sempre em datas importantes.

Termino a carta imaginando se um dia será possível, olhar para trás, cinquenta anos atrás, não como meu 1/4 de século ruiva, mas como uma metade de século e tentar enxergar algo ou profético ou nostálgico nisto tudo ruiva. Será possível?

Talvez ruiva, talvez, falei exasperadamente de mim, de minha pessoa, mas devo dizer no finalzinho da conversa e da carta(já que o papel está acabando), que você e seus malditos jogos de xadrez emocional não irão me vencer.

Quem topar o desafio(e para isto deverá comer argumentos de ruivas no café da manhã), me ganha.

Não tenho talento para troféu; mas posso tentar me vestir de dourado.