Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Fodendo o ano novo

Numa noite que não significava nada, e que nada tinha a dizer além dos personagens, coisas aconteciam e as estrelas nem por isso deixavam de se esconder.

A noite resolveu não citar nomes.

Uma mulher às quatro e cinquenta desgostosa do namorado, bêbada e patética por ter encontrado um homem não tão retangular como de costume, resolveu chamar sete gorilas amigos, que a carregaram, pagaram mais cervejas e levaram a desgostosa bêbada, e patética para o acalento do machismo, do namorado e dos próprios símios, desgostosos com eles próprios, mas profundamente acalentados pelo namorado traído.

Um namorado traído por si mesmo, que juntava uma bêbada não tão patética e sem álcool, fazendo serviço na Barata Ribeiro em Copacabana, e que ganhava a vida atraindo gorilas, apesar de acabar com a antropologia de boteco em noventa por cento dos casos quando era obrigada a foder com força aqueles homens tão machos, travestia-se e era assim sua vida, uma vida bandida.

Travestida, a andrógena linda e amorosa optava ou por novas regras gramaticais que lhe aplicassem gêneros simultâneos ou ainda assim, conseguia optar sóbria, por uma conversa racional e decente(!), onde os conselhos salvariam um macho, uma fêmea e um amontoado de polietileno, que inevitávelmente chocariam-se no meio da avenida Brasil caso a andrógena não intervisse junto com o destino.

Conselhos de bicha.

Um macho sensível, não tão macho por ser sensível, esbaldava-se numa boate fêmea quando ele sabia que aquele lugar travestia-se de macho; onde até as mulheres masculinizavam-se ignorando-se e ignorando umas as outras, e uns aos outros, onde o que valia realmente eram as relações de poder e não o sexo do sujeito ou sujeita envolvida e sujeitada.

O sadismo vinha com a comanda e podia ser pago à vista ou com sete cheques parcelados, desde que o gênero constasse no verso daquela cartolina mal ajambrada.

No final da noite, o macho sensível encontrara um cavalo, um cachorro e outras forças da natureza que acabaram lhe descrevendo a noite sem necessidades de descrever poesias infantis.

O mundo animal lhe bastava.

Andrógenos eram todos sob a cerveja masculina do poder.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mal-ajambrado

No meu ímpeto misericordioso, tento transformar minhas angústias em angústias coletivas, apesar de saber que não há nada mais precioso e meu, do que as minhas e só minhas angústias.

Quando exponho minhas entranhas em público, seja num gole de cerveja, num sorriso mal-ajambrado ou num texto escrito em papel de guardanapo de final de semana, eu sei, sim, eu sei que exponho não só minhas vergonhas, mas as vergonhas de outrém.

Quando me lêem, sei que não só me lêem ou me exumam diante do mundo; sei, e tenho a certeza a cada letra cuidadosamente cunhada, que estão a se destrincharem diante da ribalta de silício, estão a se esquartejarem comigo, este autor, torto e pobre autor...

Quando me despedaço e me olho como os de fora verdadeiramente me olham, sei que dou a oportunidade para que façam por conseguinte o mesmo, pois a sombra e o defeito do outro, é sempre do outro, até que o fato seja verdade. Por que nem todo fato é verdade e nem toda verdade é fato até que encontre-a verdadeiramente assim, posta de lado.

A face que oculto de mim é sempre mais clara ao desterro do amigo, ao ódio sem condição, a paixão imigrante e recorrente; e ao afoito ouvinte ou faminto leitor.

Na verdade e devemos falar a verdade sempre que ela se apresentar mais estética, falo como um autor comum, comum como as mais comuns das criaturas: as do ponto de ônibus.

O texto, este pedaço de coisa parida, tem a envergadura de um zé comum e o conteúdo que é do tamanho do infinito ou da mediocridade de quem me lê.

Sou um caco de espelho mal-ajambrado, só reflito o quê e quem me olha.


quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As coisas que se desmontam

Normalmente olho para textos antigos, folhas de caderno soltas, envelopes abertos, para me inspirar.

Mas é tudo merda. Merda.

Quando olho para aquela parte boa, aquela parte singela e ingênua de mim que costumava acenar no domingo de sol; eu paro e digo: seja realmente rapaz, seja realmente o que você é.

Este rapaz que tenta se inspirar em folhas, e cadernos soltos. Seja o que você é.

Uma repetição. Talvez otimista.

E quando o mundo cai, e preste bem atenção, o mundo cai sempre nos finais de semana errados e nas tardes em que ninguém além de você percebe, os significados e os significantes costumam fugir pela janela do ônibus.

Com sorte há uma anomalia, um desvio padrão que obriga a dizer um ou dois palavrões.

E tudo volta.

Mas há um momento em particular, um momento bem catastrófico, apesar de interessante e comum, onde as regras do jogo parecem não ter mais sentido. Na verdade, o próprio sentido parece não explicar-se; o sentido não mais existe e o absurdo reina.

Reina dentro de você. Apenas você.

A organização das casas, o formato dos portões, a velocidade e forma dos carros, as pessoas indo de um lado ao outro, dia após dia; os botões, os livros de pós-estruturalismo, os livros que negam o pós-estruturalismo, a gramática, alguém que resolve não pensar nisso tudo, o planeta terra, as geleiras glaciais, o deus cristão, a organização da poesia, pensar sobre o caos. E você.

Café da manhã.

Não. Não há sentido. O absurdo, quando não vem enlatado em situações limite, implica serendipidade, implica desapego.

Apesar do quê. A merda do desapego é o contrário do que pretendo aqui. Pronto, falei tudo.

Não se deve falar assim, tão explícitamente explícito como um aparelho excretor em funcionamento, mas a verdade é que parte de mim não gostaria de transformar um texto tão bom num requiém gramatical. Mas mesmo assim você já transformou minha vontade na sua vontade. Teu infinito me consumiu e sim, você está certo, não há espaço para infinitos coexistirem.

O texto acaba por aqui: mas ele prossegue.

Começando do princípio, e voltando ao normal, o que eu queria dizer é que tem dias que a gente não é humano. E você sabe disso melhor do que eu. E eu não preciso me esforçar para explicar algo que o absurdo lhe contempla. Não olhe para cá, olhe para dentro de si numa noite vazia, numa sequência de dias ruins, mas isto tudo é pouco para um dia em que você resolve tomar uma boa dose de absurdo e esvaziar as garrafas de abscinto de sentido. A noite normal que nem as anfetaminas lhe dirão algo. Pois o algo já se perdeu falido no origami reproduzido sequencialmente pela eternidade.

Tem dias que a gente enlouquece e ainda produz cadernos soltos, envelopes vazios, contos ruins.

Há dias que o absurdo nos engole.

Há dias em que coisas absurdas acontecem.

E acabam. Acabam assim, como começaram, dentro de você.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tardes Vazias

A fase da introspeção não é indiferença, talvez nem tristeza.

Não é nada em particular, é apenas atrito.

Esperando desastres ou milagres. Esperando algo que pontue o cotidiano.

O tempo precisa ser marcado.

Falta algo e eu sei.

Os fios de cabelo envelhecem. E daqui a dois sábados planejei um porre, para mudar o cotidiano.

O álcool não é mais divertido, quando não se tem a segurança do lar.

O atrito é silencioso, pessoal, intransferível.

Ocupar alguns espaços sempre é bom, quando se tem vazio demais para oferecer. Um vazio voraz que sempre clama por mais espaço, por mais milagres, enquanto a matéria envelhece, o corpo pensa.

Exigências nunca me fizeram mudar o rumo. Não trocaria o atrito por uma vida sem vazios.

Os vazios me enchem; intransferíveis, pessoais, pontuam cotidianos, oferecem algo que eu nunca tenho mas sempre busco.

É um horizonte vermelho: e já que eu escolhi o vazio que me escolheu, posso me dar o direito de me mostrar assim: introspectivo.

Nem indiferente, nem coerente com as expectativas do outrém. Nem quente, nem frio, apenas engolido, engolido pelo vazio.


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Efêmero

Tudo passa, tudo vai. Algo fica, algo sai.

Era meia noite e eu tinha meu cachimbo. Tinha fumo, tinha raiva, iria fumar impaciência. A cicatriz no braço não fechava, talvez culpa da cannabis.

Há coisas que não merecem ser cicatrizadas e há coisas que não cicatrizam apesar de não merecerem. E pouca gente merece. Mas quem merece normalmente sabe deixar marcas.

E eu encontrava os fios de cabelo dela por toda a casa. Um dia eles iriam acabar.

Faltava limpeza naquele cômodo.

O som não funcionava e a estupidez estava no congelador aguardando a estrela certa. O sinal do óbvio estalava por todo o quarto.

É um quarto de esquina, de esgrima consigo mesmo, havia um sofá de dois lugares vazio, uma arena de tolos, conformada por sobre um circo particular. Confortável e gordo sofá, um gordo afável, que não usa em hipótese alguma os broches do "quer-perder-peso-pergunte-me-como"; é um sofá de bem com a vida, de bem com o quarto. Um sofá extremamente gordo.

Gordo de ausência.

A estante de livros, óbvia. Óbvia pois tinha livros; se não fosse óbvia guardaria sapatos e a mesa de centro marcada de fumo, de guimba, cheia de papel, evidentemente a que mais trabalhava naquele quarto infame.

O eterno é a mera soma dos efêmeros. Quem pensa o contrário ilude-se. Quem acha possuir o eterno ou o almeja, engana-se, pois apenas alcança efêmeros parcelados. O eterno nunca foi eterno. O eterno é esquartejado pelas pontuações do destino.

Papo de perdedor é claro. Mas quem nunca perdeu, quem segue os modelinhos nascei, crescei, multiplicai-vos, multiplica certezas e embota juízos.

O eterno é a ignorância. O eterno é não perceber as pontuações. E para que servem as pontuações? E quem realmente deseja de todo o espírito e causa, reconhecer e enxergar as pontuações? Quem seria idiota a tal ponto?

A curiosidade condena o indivíduo. Condena; e ninguém disse o contrário; se dissessem, o sofá, a cama de casal e a mesinha de centro, acusariam o erro.

Móveis que são parte do eterno... Mas lembremos, lembremos sem não mais tristeza mas com uma dose de esperança na constatação mórbida do desapego, que o eterno é o efêmero parcelado. Logo os móveis efêmeros, a mesinha, o sofá, a estante se degradam, e é o princípio entrópico. Uma merda comparado ao THC, a hemodiálise ou ao videogame de final de semana.

Mas pense bem. Degradam-se dia após dia e você não vê. O eterno embotou sua visão.

Está tudo morrendo.

Inclusive os fios de cabelo dela. A cannabis, a impaciência. E tem coisas que precisam morrer.

O eterno é efêmero unido à força. E nada unido a força realmente funciona. É só ficção. É só ilusão. É só esqueminha nascei-crescei-multiplicai-vos.

E você, nem o sofá, nem a mesinha de centro e muito menos a estante querem ser parte disto certo?

Portanto sê como eu, efêmero, e me nega.








terça-feira, 2 de setembro de 2008

Parábolas

Eu me contento com pouco.

Mas quando vejo as linhas que sobem ao infinito, sempre me pergunto por que diabos fui nascer parábola.

Início, meio e fim.

Sou uma fórmula de redação de vestibular; mas pelo menos, sei de que costura foram fiadas as teias da minha vida.

Tudo o que começa sempre acaba, dizem os filósofos de esquina.

E eu tenho a incrível mania de recomeçar, de recomeçar todos os dias.

Mas eu nem comecei a sentir o gosto, e já vejo e percebo o horizonte que se acaba. Acaba não por mim, pois se o mundo dependesse da minha vontade, algumas montanhas já teriam sido movidas e muitos palácios ruiriam e decerto minha solidão se converteria em uma boa e oportuna companhia.

Viva o momento, intensamente o momento dizem outros. Mas de sensação efêmera o mundo já está saturado, eu quero um pouco de permanência para afastar a presente impermanência da minha vida.

Quero uma história com um fio condutor. Eu quero um momento de felicidades sem dias contados para terminar.

Eu quero permanência... e um pouco de sorte, e isto não é pedir muito. E eu nunca peço muito do mundo.

Acabei desconfiando, ou exigindo, talvez para me enganar do meu destino jocoso que o permanente é o efêmero fossilizado, mortificado. E que a impermanência que me cerca pode ser saudável. Talvez.

Adoro me enganar.

E eu recomeço... Recomeço e me ponho a caminhar, impermanente como uma cena de metrô, todos os dias.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Agora

Não gosto de escrever de luz acesa. Não gosto de beber cerveja quente, muito menos de pegar chuva no inverno. Não gosto de sentir sede no calor, e não gosto de não saber, quantas vírgulas, devo, usar.

Não gosto de cd arranhado, gripe sem beijo, impressora sem tinta.

Não gosto de piada sem riso, poeta sem papel, e muito menos briga sem herói, sem heroína.

Não gosto de supermercado com fila, de banco com juros, de mundo assim, assim meio errado.

Não gosto. E quando não gosto, desgosto mesmo.

Não gosto de espelho sem eu, de egocentrismo sem espelho, de nós sem "vamos", de você sem eu, de você sem nós; de desgosto antes de conhecer.

Gosto do estrago, do negado, da vírgula sem verbo, de sujeito sem gramática, sem vergonha, gosto da verdade sem gripes, sem beijos, sem tinta.

Eu gosto mesmo é das vírgulas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Das necessidades da Revolução

A revolução precisará de mulheres e homens. De carne e osso, e espírito. Espírito de luta, de revolta, de esperança e amor.

A revolução precisará da liberdade; pois sem ela, tudo estará perdido antes do princípio.

A revolução precisará do acaso, do inesperado; porque mesmo sem deus, é necessário confiar no não controlável.

A revolução precisará da história, mas esta, até hoje, nunca esteve ao lado das revoluções.

A revolução precisará de poetas. Não para escrever sobre ela mesma, por que a única poesia digna de menção é a que se constrói com as próprias mãos.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O desleixado

Não queria beber mas acabei bebendo.

Não queria sofrer mas acabei sofrendo.

Não queria pegar o ônibus errado, mas acabei pegando.

Não queria voltar pra casa sóbrio e acabei voltando.

Não queria fazer listas do que eu não queria fazer.

E eu consigo sentir apenas a minha respiração?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Perguntas aos socialistas - parte I

Perguntei aos meus amigos socialistas, por que eles lutavam.

- Porque é a coisa certa a se fazer.

- Por que sem isto não viveria tranquilamente.

- Por que esta forma de organização social está profundamente equivocada.

- Por que entre o conformismo generalizado e a luta, escolhi a segunda.

Perguntei aos meus amigos socialistas, o que fariam depois da revolução, caso pudessem vivenciá-la e no mais geral respondiam: - Nunca parei para pensar nisto.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Revolver

Acendi a luz, só para ver as teclas da máquina de escrever; enquanto observava a nuvem esconder a lua, uma nuvem rosada como meu senso de auto-preservação, e surgiu em mim uma série de reflexões, reflexões não tão glamourosas, que por princípio preencheram parte do que eu desejava preencher, mas que na verdade, atentavam para a possibilidade desta ser uma noite muito original.

A luz parecia então suficiente; e foi assim,. que ignorei a lua e comecei a me concentrar na maldita máquina de escrever, e como um autômato incontrolável, perseguia cada tecla como se estivesse dominado pelo ódio, mas na verdade, apenas descarregara, parte da tensão acumulada, sobre um dia, ou dois, de luas, nuvens rosadas e princípios, em factíveis teclas de uma velha máquina de escrever.

E cá estava, fingindo equilíbrio, mas de certa maneira eu achava e sentia que estava realmente equilibrado. Eram quatro ou cinco da manhã, mas enquanto eu ajeitava o relógio biológico, e tentava escapar da insônia crônica que eu resolvi adotar como filha, parte, um pequena parcela de mim, infrigia as regras préviamente estabelecidas e resolvera recordar, recordar com a extremidade dos pulmões ou o fôlego dado aos poetas e vencidos.

Eu não podia mais fantasiar minha atual situação. O que eu queria era apenas esperar, esperar como todos os ansiolíticos aguardam algum tempo para agirem. Gostaria de esperar e saber realmente o que iria acontecer daqui para frente.

Por conta resolvi apenas desesperar-me em lembranças; em pedaços de investigação amnesíaca.

Por fim, transpareço uma calma e sernidade, que ainda, eu disse ainda, não são minhas...


sexta-feira, 11 de abril de 2008

Escutando chorinho e tomando café

Sou um filho do cansaço. Mas quem diria, um cansaço feliz. Por que quando a mente está forte, o cansaço físico é um amigo, não um persecutor.

Andei contando todas as atividades que eu faço. Me assustei. São muitas, em alguns momentos mais do que consigo suportar. Como consigo fazer tanta coisa? Nem eu sei. Talvez vontade. Vontade de me mudar, de mudar o mundo. De não parar jamais. De lutar contra a engrenagem devoradora de gente até o último segundo. Não há como me resignar frente ao cinismo ou a comodidade. Olho para a frente e só vejo terra batida.

É preciso construir... trilhar caminhos... aglutinar-me.

Mas quando a cabeça vai mal, o corpo padece. E sim, há um preço a se pagar. O jeito é tentar me equilibrar. E saber quando golpear e como golpear. Afetivamente há uma lacuna não preenchida.

Mas descobri nos pequenos prazeres cotidianos um mundo que se descortinou. E isso por enquanto me basta.

Viver é delicioso. É como tomar uma chícara de café durante o tempo frio. É como refrescar-se com um banho de cachoeira no calor. E é isto, e é muito mais do que posso metaforizar. E é um dia após o outro.

Tomar decisões não é difícil. Difícil é cumprí-las. Mas atualmente ando fiel às minhas promessas.

Até demasiadamente.

Preciso absorver menos. Vá com calma. Há muito a fazer, muito a construir, mas... relaxe... você está acelerado.

A mente ocupada mata o passado, mas também pode matar o presente. Eis o futuro! Passou, ninguém viu! Estou mais feliz. Mais do que semana passada. Ainda não durmo muito bem. Um dia eu chego lá...

Sonhos e projetos à vista. Vire o barco à esquerda timoneiro, cuidado com aquela pedra, desvie do coral, ajeite a proa, sim, vamos velejar. E espero que semana que vem eu consiga tirar alguns dias para me curtir.

Esvaziar-se é preciso.

obs: depois de algumas noites mal dormidas, algumas catarses interiores e sistematizações de memórias pretéritas(não tão pretéritas - ainda sinto-as reverberarem tão próximas como a dois dias e meio de viagem), em breve sairá um pseudo-conto sobre isto. Meu senso de humor voltou.






terça-feira, 8 de abril de 2008

Um doido e alguns pingos de chuva

Falta mistério ao mundo.

Hoje fiquei observando os pingos de chuva enquanto voltava para casa, há dias chove, e há dias comecei a observar os pingos de chuva. Mantive-me fascinado: como era belo aquele momento, trivial, mas único. O legal é que você olha de longe da luz, e vê os pingos caindo perpendicularmente ao solo ou como seguissem uma trajetória reta, mas não... se você se aproximar e ficar embaixo da luz do poste, e esticar bem o pescoço para cima, olhando os pingos de baixo para cima o máximo que puder, vai ver que os pingos caem aleatóriamente, sambam e flutuam ao sabor do vento sem nenhuma direção apenas caem.

É a aleatoriedade caótica daqueles milhares de pingos, que dá a falsa sensação de linearidade ou seria nosso olhar cartesiano que está condicionado? Reflexões filosóficas a parte, pouco importa.

Pelo senso comum, por um breve momento de chuva, sou um doido varrido. Pois é. Cada um constrói os conceitos que quiser. Aliás realmente é preciso classificar a loucura, enquadrá-la; isto protege a identidade, o mundo dado(ou como diriam em linguagem mais acadêmica "reificado") e não ameaça nossas certezas. Convicções arraigadas necessitam ser mantidas. Abismos são perigosos, dúvidas mais ainda! E um doido olhando para a chuva? Por que se comporta assim? Por que usa o cabelo daquele jeito? Por que é diferente de mim? E por que eu sou diferente dele? Por que age daquela maneira? Por que me deixa com dúvidas acerca do meu comportamento, do que eu sou, da minha identidade tão pronta, tão acabada? Por que não segue a corrente? Por que vai no fluxo errado? E eu? Não! Preciso me proteger! Estou no fluxo CERTO, ele é o doido!

Como as pessoas estão pragmáticas, objetivas, perdendo-se em coisas óbvias...

Acabou o mistério de se redescobrir o mundo. E aliás, para quê? Se já está tudo PRETENSAMENTE descoberto... com a internet, com a tv a cabo e a revista de final de semana eu já sei tudo o que se passa... não há um pequeno grande mundo a se descobrir, repleto de detalhes, de infinitos que vão se descortinando diante o cotidiano. Há apenas fórmulas, explicações técnicas, expicações científicas, a modernidade negando o desconhecido apenas por capricho e oni(pre)potência.

Estão negando o mistério, matando-o. Falta mistério, falta sensação...

E bem que eu queria compartilhar mais pingos de chuvas, mas no momento, os relacionamentos(das pretensas amizades aos pretensos relacionamentos amorosos) parecem mais acordos empresariais do que própriamente relacionamentos(avalia-se os riscos ou os lucros e ponto final chega-se a um acordo).

Que cada um cave um pouco mais de mistério em si mesmo e no mundo e talvez daí possamos começar a compartilhar pingos de chuva.

sábado, 5 de abril de 2008

Tudo é quente em Nurenberg

Havia pedaços de papéis espalhados sobre a mesa, alguém andara brincando com alguma tesoura, ou enviando cartas-ameaças anônimas para alguém. Sobrava insônia e faltava prazer, como denunciavam as pilhas de livros não-lidos, as folhas e folhas corridas meio-dobradas, meio jogadas, que ele teria de revisar. Quem mandou. Ser escritor não é fácil. Um escritor simplório e medíocre, pior ainda. Ocupar-se de revisões e outras burocracias linguísticas não era muito o que sonhara para si, mas era o que tinha de mais concreto naquele momento. E por um breve instante, resolvera abandonar o concreto de suas obrigações para tentar dormir, em vão. Acordado, seria mais útil reconstruindo o concreto, mas preferiu ficar no abstrato e tentou(ensaiou), uns contos concretistas que sua inconsciência guardara dentro de si durante duas semanas.

A maioria calava-se. Alguns poucos, diziam que escrevia muito. E menos ainda, elogiavam. Kafka morreu pobre, Jesus foi crucificado e uns outros tantos, faleceram com tuberculose.

O mal da vez era a dengue hemorrágica, nem de doenças literárias podia morrer. Estava malfadado ao sucesso neste sentido. E que bom...

Assim poderia repetir fórmulas gastas, reinventar neologismos inacabados, e reunir setenta e seis palavras num domingo à noite repleto de nostalgia.

Fazia parte. E ele sabia que seu único remédio(além do álcool), era catarsiar-se, destrinchar-se, cortar nervo por nervo, alimentar com sangue, suor, com tesão e ataques aleatórios no sistema nervoso, as letras. Letras sim, geridas num útero de angústia, e para angústia mal-curada receita-se escrever de cinco a seis vezes por quinzena; abandonando os solstícios, que são datas específicamente relevantes para falsos ensaios acadêmicos.

No outono pediam-lhe mais vigor. No verão, enchiam-lhe de desprezo. Fazia parte da vitrine. E uma vitrine tosca; parecia mais calmo. Não sabia realmente se pelos dois dedos de whisky, ou pela escrita intempestuosa e libertina que se permitiu a fazer às quatro e seis da manhã.

Xingava e falava sozinho, com seus cigarros e com seu cinzeiro; abafava o grito endossado pelas linhas pretéritas com a tensão de suas próprias reservas. As reservas impostas à escrita, incentivavam-o a escrever sem reservas. Plagiador do bom não se nota.

E passa assim. Desapercebido, como uma esquina de carros virados em algum maio de Paris.

Resolveu imprimir uma apostila aos poucos, lia todos os dias antes de dormir. Imprimia algumas páginas, lia um pouco, dormia. No dia seguinte, fazia a mesma coisa. Era como cozinhar. Nunca sabia realmente qual era o diâmetro exato de sua fome; por letras ou por alimento.

Então, pensava, hoje serão dez, amanhã talvez vinte. Às vezes lia noventa por cento. Mas frequentemente ia até o final; odiava desperdícios. Desperdícios de letras, de poemas, de recursos, e principalmente de afetos.

Era sim um balde de afeto desperdiçado. Normalmente desperdiçava pela amanhã. Quando acordava, jogava as duas mãos para os lados, como em um movimento pendular de um relógio. E a cama, prostava-se vazia. Vazia.

E ele não ligava. Apenas ria. Era um ritual engraçado. E sentia graça mesmo. Chegava a rir de si mesmo. E ele lá. Cá dizia. Cheio de afeto e amor para dar. Rimando só para se sentir mais importante.

E nada acontecia. Então, era afeto desperdiçado. E ria novamente, só para ter a certeza de que não perdera o bom humor; e sim, isto sim não tinha desperdiçado.

Às vezes fazia-se de sério, ou jurava a si mesmo que seu estado civil era: desinteressado. Mas a quem iria mentir? A si mesmo? Sim. E desta vez, com convicção. Pois sabia que uma mentira repetida mil vezes, virava verdade. Paráfrase aludida aos malditos nazistas. Que repetiam jargões, incessantemente e convenceram metade do mundo, com panzers e canhões diga-se de passagem.

Não sabia bem por que incluiu os nazistas no texto. Mas logo após, num instante tão curto como uma vírgula, recordou-se vívidamente: pela manhã, sim, aconteceu pela manhã, pois sim, escritores amadores acordam cedo de vez em quando, pela manhã ele já não suportava a si mesmo quanto mais o mundo.

Mas o mundo, o mundo ao seu redor(e os malditos nazistas), movia-se frenéticamente. Num desses flancos, em que a dignidade e o cinismo insistem em conviver juntos, esbarra com uma mulher, mãe e negra, segurando carinhosamente seu filho no colo, o mundo parecia não existir ao seu redor; estava sentada num meio fio sujo, numa rua suja, ao lado de pessoas limpas(sujas).

Nazistas...

Faz frio em Nurenberg. No Rio de Janeiro tudo é quente, exceto Nurenberg.

No tribunal de Nurenberg, a palavra era: diga que cumpriu ordens.

Na av. presidente vargas, são mais econômicos. Falam apenas com o corpo.

O mundo não fala. Está calado, vencido, perdeu a si próprio em seu próprio Füher mercado. E ainda havia amor. Diante da pobreza. Havia amor, de uma mãe, para um filho. Sim, havia amor, cercado, sufocado no entorno do tribunal de Nurenberg.

O fato é que este falso poeta despejou algumas lágrimas no canto esquerdo do olho e do ônibus...

Era um completo louco. Seu doido varrido! Quem chora por desconhecidos às dez da manhã?!

Pois é!

terça-feira, 25 de março de 2008

Não há mais mangas no quintal

"O homem é a natureza tomando consciência de si própria. " (Elisée Reclús)

Meu quarto fica no final da casa. É um quarto quente e um pouco abafado, estreito, com raios solares que não o esquecem durante todo o dia. Atrás do meu quarto, há um gramado simpático.
E neste gramado, há uma mangueira. É uma mangueira deveras libertária, ela nunca respeitou a ficção da propriedade privada; parte de sua frondosa copa avançara impiedosamente sobre o terreno da casa onde moro, alguns galhos atrevidos na verdade, galhos que quase tocam o chão, onde podíamos tocar as mangas com os dedos das mãos preenchiam parte da parede que segue cartesianamente até o final da casa. A casa termina, a mangueira não.

Seu caule está prostado no terreno do vizinho, ele faz o que quiser com a mangueira; se quisesse matá-la poderia ter feito, mas por bondade ou preguiça, ela ainda vive, e eu sou de certa forma grato por isto.

Haviam mangas espalhadas no quintal, muitas. Mas para dizer a verdade, eu nunca experimentei nenhuma delas.

Sempre que um vento do norte atingia o terreno, as mangas despencavam. Mangas suicidas. Eram tantas, que enchíamos baldes, galões de manga e só eu sei o que eu sofri para catar todas as últimas que caíram.

No início não incomodava muito. Eram só frutas. Mas aí começaram a cair os galhos e as folhas. E caíam exponencialmente.

Incomodado fiquei realmente, quando encontrei suco de manga na geladeira. Mas não era da mangueira. Não daquela, talvez de uma prima distante. O suco estava numa embalagem industrial; aquilo era uma contradição explícita, a mangueira tinha razão, eu não tinha a mínima consciência ambiental.

Minha mãe também não. E mandou podar a mangueira.

No início achei razoável. Cortar umas arestas sobrando daria vida nova à mangueira, quisera eu poder fazer o mesmo. Mas no dia da poda eu me entristeci, pois percebi que estavam cortando além da conta. E a conta era do tamanho do horizonte da minha janela.

Deitado na cama, eu conseguia enxergar a mangueira e uma outra árvore, cujos limitados conhecimentos arbóreos não conseguem nomear, mas posso dizer que é uma árvore mais disciplinada, cresce e conforma-se perpendicularmente ao solo, seus galhos são curtos, seu caule é longo e ela não atrapalha a disposição matemática daquele jardim, construído, diga-se de passagem.

A mangueira tapava todo o horizonte, e ninguém consegue construir horizontes com facilidade, contudo após a poda o horizonte que ela tentara esconder, revelou-se de imediato, tomada por um golpe de mágica. A tristeza da poda, e como foi triste ver seus galhos serem levados abruptamente, deu lugar a uma observação detalhada, um compasso delicado sobre a natureza; uma verdadeira e detalhada observação do fluxo natural das coisas.

Não existia grama embaixo dos galhos da mangueira pois o sol não chegava ali.

Não existia horizonte nos meus olhos antes da poda; eu só enxergava os galhos e o verde da mangueira, este era meu horizonte, enquadrado por uma janela e perseguido por uma mangueira. Mais do novo horizonte, surgiu a vida, lentamente construíndo-se em torno de metáforas e de natureza.

Mas antes de continuar a falar sobre a mangueira, eu preciso falar daquela árvore que eu desconheço o nome e está plantada mais próximo a minha janela. Em um dia de insônia o vento a balançava suavamente. A árvore não lutava contra o vento, assim como o leito do rio não luta contra as pedras que o cortam. Outro dia, percebi a árvore parada. Não ventava e ela não se mexia.

ELA NÃO NEGAVA SUA PRÓPRIA NATUREZA.

Voltando a mangueira, a grama comecou a crescer, o horizonte se ampliou. Não lamento muito mais por ela. Por que agora posso enxergar o céu como jamais pude da janela do meu quarto. E quando o céu está chuvoso, e eu adoro os dias chuvosos, levanto-me da cadeira, paro de escrever, debruço-me por sobre a janela e olho para aquele horizonte cinza, e cinza não é uma palavra adequada e nenhuma é, para traduzir o que é este horizonte nesses dias.

E eu não consigo escrever quando isto ocorre.

Por que seria mesquinho demais falar de mim, somente de mim, quando me sinto completo e perdido na imensidão do todo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Histórias de luta...

Ontem, eu fui num acampamento do MTD(Movimento dos Trabalhadores Desempregados). O acampamento situa-se num plateau, em cima de um morro.

Um ermo, que foi transformado em moradia, pela força e disposição de homens e mulheres; guerreiros, lutadoras, pessoas que estão acostumadas a transformar as ruínas em esperança.

Lá em cima, o vento é forte, já até carregou barracos e lonas inteiras, mas a coragem e determinação desse povo valente e guerreiro, consegue vencer quaisquer desafios, até mesmo da natureza. A maioria do acampamento é composto por negros, mas há brancos também e mulatos, apesar da pobreza ser majoritáriamente negra(antes senzala, agora favela), a situação de necessidade é igual para todos/as que ali residem.

Há uma pequena escola, onde aulas de alfabetização são ministradas, muitos moradores do acampamento aprenderam a ler e escrever, pelas mãos e mentes de seus próprios vizinhos. A água foi conseguida a partir da luta coletiva concretizada pelos mutirões; que também providenciaram iluminação elétrica. A presença grande das crianças, não deixa esconder, que ainda faltam muitas coisas, as casas são todas de madeira, barracos sem muita estrutura, a água só chega durante a noite, e não há próximo nenhuma presença de um posto médico ou escola.

É impressionante como meus problemas tornam-se ínfimos quando conheço histórias de luta como estas. A capacidade de organização dos mais explorados cresce proporcionalmente a estupidez retumbante de uma classe-média cada vez mais em estado apático, onde o consumo é a força motriz de uma psicopatia(ausência de sentimento pelo outro, pela outra) de massas.

Como diria Eduardo Galleano, retomando uma pixação anônima na bolívia em 1808: "Temos guardado um silêncio muito parecido com a estupidez..."

Mas mesmo assim, há gente que se organiza, que sonha e que luta!!!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Meditações

Hoje, resolveram me acordar cedo. Recebi um telefonema de madrugada, uma amiga sofreu um acidente, nada grave, mas tive de resolver um problema às 4h da madrugada. Quando tentei voltar a dormir, inevitávelmente não consegui de imediato, o que me fez ter de relaxar. E quando minha mente está muito acelerada/confusa eu tento meditar. Eu disse tento, por que esta mente ocidental-cristã está demasiadamente acostumada com o caos. É difícil parar. A meditação de certa forma lhe força a esvaziar-se. E isto não é fácil para quem enxerga(mesmo que inconscientemente) o estado de vigília da mente como um estado "natural".

Não sou um especialista sobre o assunto(estou bem longe disso); mas sento na posição mais confortável(em semi-lótus normalmente), tento relaxar o corpo. No início é complicado, por que o corpo não relaxa, uso a técnica de "perceber" minha respiração(foi a técnica mais adequada que consegui encontrar até hoje), e fico com os olhos semi-abertos ou fechados(seguindo algumas técnicas sufi). Um bom caminho, é respirar profundamente e naturalmente, perceber o descompasso(ou compasso) da respiração, esvaziar o pensamento(esta é a parte mais difícil) e relaxar os músculos sempre no movimento de expiração. As costas começam a doer de imediato, o corpo tenta se ajeitar, mas é na verdade a mente que dá as cartas no jogo. Após os primeiro minutos de desconforto inicial, em que os pensamentos começam a fluir aceleradamente(e que a mente reluta a aceitar o encontro ao vazio interior), o corpo começa a relaxar. Os músculos se desenrijecem, a mente se aquieta mais(alguns entoam mantras para facilitar - não é meu caso).

Há um momento de paz interior que começa a se delinear; é claro que nunca fui tão longe, minha mente está totalmente condicionada ao barulho, a profusão de pensamentos: como toda mente sob o signo da era moderna, presa nas expectativas do futuro e nos fatos do passado.

Mas há um momento interessante, em que o corpo relaxa mais profundamente, a mente desacelera... Sinto até uma tontura, quando vou mais longe, sinto-me fora daquele espaço físico, a mente gira, é uma sensação interessante.

Após, estou completamente relaxado e consigo dormir com mais facilidade. Não chega a ser uma experiência mística, mas é um calmante natural, que todos nós poderíamos desenvolver se para isso nos dedicássemos. Evitaríamos prozaks, fluoexitinas, e outros ansiolíticos e remédios produzidos pelas indústria$ da "felicidade".


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Baixa temporada

Baixa temporada é uma merda.

Escrever ansioso é uma merda. Uma bosta. As pernas inquietas, os cigarros que se acumulam no cinzeiro, as batidas secas irritantes na mesa de mogno, tentando pescar um pouco de inspiração.

Mas não, nada acontece, nada. E ele se volta novamente a tela do computador, quando está puto, pega uma velha máquina de escrever e brinca de adeus a contemporaneidade. Tudo em vão.

Falso.

O ambiente plástico da firma, do bairro, do banco, não deixa a enganar; é pós-modernidade sim, cínica, é verdade, e relutante em aceitar que o velho mundo, da escravidão, da pobreza, está presente; mas convenhamos, ela dissimula bem, muito bem.

Estava, continuava, inquieto. Levantava da cadeira, fumava, jogava ela pro alto, andava em círculos, se coçava... Ia beber água. Cadê a maldita cerveja? Quente, no congelador, aguardando talvez a inspiração chegar.

Resolveu abrir os armários, tentar achar, algum escrito velho, não para continuar o texto, não imediatamente, mas tentar resgatar do limbo, uma porção do inconsciente. Até uma dor de cabeça era mais criativa do aquele arremedo de escritor.

Pincelava palavras, apagava-as, brincava com as letras, dançava nas frases e perdia-se nos pontos. Foi abrir a janela, um pouco de ar faria bem; modificaria aquela atmosfera viciada do seu quarto. A madrugada corria, o ventilador de teto incansável, a escrivaninha combalida, a luminária torta, acesa, e ele então resolvera inundar se de recordações, que era o que mais gostava de fazer nessas noites nostálgicas.

Olhou lá pra baixo, a rua vazia, silenciosa, os paralelepípedos mudos, nem um só latido, nem um só suspiro sonoro, tudo na mais tranquila paz, que o herege do apartamento do segundo andar quebrava, mesmo sem atrapalhar ninguém.

Se sua mente flutuasse pelo quarto, subisse e olhasse para a rua, não veria muitos insoníacos, talvez algum cinéfilo descamisado, mas se flutuasse mais, e subisse para contemplar o bairro, encontraria alguns sonâmbulos, deprimidos despertos, alcoólatras, talvez ouviria o som de orgasmos, cerca de quatorze, não necessáriamente nesta mesma ordem. Ao abstrair mais, chegaria a uma cidade, conjunção de bairros tortos, meandros, favelas, morros, precipitações, becos sem ligação, barricadas de tijolos aglomerados, ouviria cheiro de morte, de destruição de lares, e encontraria também opulência, conforto, encontraria uma fila de apartamentos bem iluminados, tão silenciosos quanto sua rua, porteiros educados, luminárias francesas ou belgas, importadas, quadros, comida boa na mesa, patê, patê de algo defumado horroroso em seu processo de produção, mas éticamente viável dentro de uma estrutura de fios vermelhos, azuis, rosas, amarelos, marrons, que se encontravam naquele circuito vivo de cidade,

Com seus próprios mecanismos queimava circuitos específicos, apagava transistores nas ruas, eliminava bits, bytes, o bailé profano e serial do 0 e 1 seguia por entre as avenidas, ruas, viadutos, ligações cinzas-concreto, que jogavam de um lado ao outro mendigos, catadores, meninos que viviam nas ruas, desempregados, marginais de farda, marginais sem farda, e carrascos executores dos bips, das alavancas, dos processos eletrônicos-sociais.

Em algum lugar alguém semeava, plantava um pedaço de vida, em meio ao silício, mas eram bits soltos, inertes, que poderiam ser eliminados pelo algoritmo do sistema principal, dos chips bem organizados. Quando uma infestação de ferrugem corroía o silício, era hora de trocar placas-mães inteiras, de apagar e cortar na própria engrenagem e mesmo assim, manter os videomakers "com vídeos da escrava isaura, vídeos da escrava isaura", regorzijarem-se com os mecanismos da urbe-elétrica-urbe.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Fingir Estabilidade

Estava aqui jogado, enquanto ela me buscou. Tudo a lembrava. E o fato de eu não usar "maldita" após o último verbo já indicava uma esperança, uma esperança crônica que me consumia, que me consumia com os cabelos amarelos cheios de tinta. E eu prometi, prometi a mim mesmo que deixaria meus cabelos crescerem junto com meu orgulho e minha resistência ao fracasso, somente para observar o retorno de algo que já tinha terminado no verão do ano passado.

Com cabelos amarelos ou não, com não-ditos, ou com misericórdias embaladas para finais de semana, eu me esforçaria para não tornar tudo mais patético do que já era.

Desperdicei. Matei metade da minha vida procurando e esperando. Foram vinte nove anos esperando você ruiva. Foram vinte e nove anos, esperando algo, ou alguém, que não conseguisse terminar com metade do meu tédio, metade do meu tédio repetido ruiva, como seus cabelos vermelhos repetidos, sorrindo, como você sorrindo, e bailando bêbada, perdida, um tanto quanto suicida, um tanto quanto irresponsável, enquanto eu me dirigia, me dirigia por palavras repetidas, e preciso repetir quantas vezes for necessário para que você entenda, para que você entenda, que há um pedaço de caos, de liberdade ruiva. De cabelos vermelhos dentro de mim.

Do caos, da espuma, e do pó, surgiram atores, surgiram alter-egos, surgiram frases. Surgiram pedaços de coisas, de emoções esquartejadas, de falsos riscos, enquanto eu via você bailar.

No censo da perfeição, você ocupa o primeiro lugar, o primeiro lugar, antes que eu conseguisse olhar em seus olhos, olhos amendoados que exalavam desculpas. Enquanto isso, naquele dia, perto do aquário artificial, perto do aquário à luz do dia eu fingia estabilidade. Eu fingia certezas. Quando na verdade, exalava dúvida. Quando no entanto, exportava insegurança.

Não haverá fim. Por que exatamente, não há fim em crônicas ruins.

Em crônicas ruins, só se pode exigir sinceridade, dor, e algo parcelado emocionalmente entre tudo isto.

Entre tudo isto. Repeti, repetimos, enquanto eu sonhava com bicicletas. Bicicletas repetitivas ruiva. Repetitivas.


domingo, 25 de novembro de 2007

Como se fosse possível articular algo além da solidão


Eu fiquei no meio do caminho. Tri-partido num pedaço de rua, ainda não esquartejado emocionalmente, mas sinceramente esperando algo de relevante acontecer. Olhando velhas ausências acenarem, rodopiando em meio à lugares outrora mágicos, deliciosamente envolvido pelo ritmo da música. Enquanto as pessoas iam, voltavam e iam novamente, eu percebi que a solidão pode ser o real caminho, o caminho real, real no sentido de monarquia, "o estado sou eu", "a solidão sou eu" (palmas para os risos em auditórios, pessoas se levantam em tom absolutista com sorrisos artificiais em volta a cenários de isopor e neon dos anos 80, há algum tipo de música decadente dinamizando todo o ambiente).

Construí os mesmos desafios e repeti as mesmas indagações intencionando criar um drama pessoal. O que fazer com um mundo vazio além de colorí-lo ou transformá-lo em algo surpreendente? (o apresentador sorri e roda os cartões entre os dedos, talvez tenha gordura nas mãos... ou seja esperma seco)

Apesar disso a obviedade está em todos os lugares.

Não há mais surpresa no óbvio. Por que do óbvio nada se espera. Do óbvio só se tiram velhas lições. E de velhas lições, o mundo já está cheio. Surpreendentemente cheio. Como as velhas lições podem oferecer(cherrleaders fictícias, feitas de isopor dançam ao som de músicas copiadas de um filme pornô dos anos 80).

E foi pensando nisto, que resolvi me afastar do óbvio, de ignorar a obviedade alheia e de ficar vagando no centro da cidade. Por que vaguear, vadiar, ou flanear utilizando um velho conceito do célebre João do Rio, é uma necessidade dos desesperados; desespero dissimulado, até por que quem vaguearia com um belo par de olhos ao lado? Vaguea-se, flanea-se a procura de um ponto fixo, de uma barra que como diz algum cientista cartesiano, "moverá o mundo"(o apresentador é enforcado numa figueira de três metros e sessenta e sete centímetros - as pessoas rodam em volta sem saber que não há uma única verdade).


E andei. E andei. Andei sem pontos de finais ou interrogações. Andei pensando em explodir meu diafragma de cansaço. Mas cansaços, e canções não enchem diafragmas, nada enche diafragmas além de um pouco de esperança emoldurada em serrotes emocionais. Serrotes emocionais eu disse.

Há uma parte espalhada de mim temperando você nos finais de semana. Há uma opinião vice-versa. Há um verso estruturado sobre falsos versos, sobre certos caminhos. Há caminhos.

Cerveja no chão do quarto, ao lado de deus e das caixinhas, das latinhas, da falsas, das farsas espinhas, das perdidas acracias.

Explodir, andar, caminhar, pesar, chorar. Cá estou eu!

Perdido! Com pianos vendidos! Com sangue nos dentes, com emoções crescendo sobre os cabelos!

Há neon, apresentadores dos anos 80. Há algumas farsas. Há falsas criatividades. Há um cheiro de morte, rondando a carência, toda a carência, no ar.