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quarta-feira, 18 de junho de 2008

O ponto limite, a "dead line"

As coisas estava monótonas Ruiva, monótonas como sempre lhe pareciam, até que momentos antes o desencadear dos fatos contradizia não só a realidade, mas impunham uma nova percepção. Uma percepção irônica, jocosa. Forjada em algum lugar secreto, inacessível para nós, dois mortais que brincávamos de semi-deuses nos finais de semana.

Era como um jogo de dominós, onde os números não poderiam ser memorizados e a cada partida os adversários se encontravam no ponto zero, ou seja; por mais que jogassem, nunca dependiam de suas próprias capacidades ou experiências, mas apenas do desenrolar secreto(se é que isto poderia existir) das combinações, das casualidades, dos encontros e desencontros não arquitetados, enfim da sorte, da maldita sorte.

Era exatamente neste ponto, que eu percebia, e nisto eu achei a princípio que era mais eficiente que você, que algo, não algo tão espetacular no sentido de presentes de natais escondidos atrás de mesas, muito menos velhas cartas que descobertas infrigiam regras básicas dos horizontes de expectativa, iria acontecer. Chamávamos de momentos limites, isto quando não estávamos nós dois bêbados, sorrindo, minto, serei mais sincero, gargalhando, perdidos em quartos de motéis baratos, envolvidos nus por colchas evidentemente de mau gosto.

Nunca sabíamos exatamente o roteiro para estes momentos, por que sempre inventávamos coisas novas, como furar os pneus do carro do yuppie atrevido, ou colocar fogo no brinquedo homo-erótico com rodas do filhinho de papai raivoso, que acabara de ser estúpido com o assalariado sincero e gentil do hotel local.

De certa maneira, perdíamos muito mais tempo e isto era algo que crescia exponencialmente, a falar de ações pretéritas do que própriamente em executá-las, por que o risco ficava maior, crescia e nos intimidava até um ponto quase insustentável, e aí retornávamos ao ponto inicial, chutando o tabuleiro como força...

Recomeçávamos o dominó irracional, sempre com a mesma ousadia, sempre com o mesmo amor, sim amor, pois nada explicaria racionalmente aquela gana com a qual vivíamos, um mundo que parecia prestes a se acabar para nós dois, mas continuava vívido, recheado de sentido, pois sabíamos exatamente o que fazer; não como fazer, isto aprendíamos cotidianamente, mas estava claro que havia um sentimento mais forte que envolvia nossas ações, nosso romance inabitual, nossos beijos desencontrados no meio da rua e sim nossa disposição para fuder as estruturas, mesmo que limitadamente.

Quando começamos a aparecer na televisão, eu não sabia mais o que te dizer, não parecia você exatamente naquele retrato mal feito(você era muito, mas muito mais bonita pessoalmente); as coisas começaram a esquentar, mas isto nunca abalou nossas convicções, talvez remodelou-as para objetivos mais concretos tomando todavia um caminho mais complexo que implicava em ceder.

Coisa que pessoalmente não estávamos dispostos.

Você entendeu mal, quer dizer, era o que eu achei, quando você sumiu. Ceder não incluía me abandonar, na época eu tive de mudar tudo. Tive de viajar para outro lugar como você fez, eu poderia ter ficado, talvez seria preso ou morreria, mas acabei "entendendo" seu recado. Decerto se tivéssemos permanecido unidos, estaríamos mortos; era uma pulsão de morte que me corroía, você sacou tudo novamente, ponto para você. Afastando-se, conseguiu não só sobreviver, mas manter-me vivo...

Claro que compreendi, e agora isto fica cada vez mais claro, que um retorno seu, era um novo processo. Você teve de sumir, teve de me esquecer abandonado num lugarzinho hipócrita do lado de perdedores como Anatole, teve de manter-me como um quebra-cabeça fora do lugar, por que enfim, o tabuleiro não estava para nós ruiva... não mesmo...

Não sei como será: talvez você volte, pode ser que fique de vez bem longe de mim, o que decerto não me agradaria, é óbvio no entanto que eu achava que tinha ultrapassado a linha limite, a dead line, mas sempre se pode girar sob seu próprio eixo, se é que existe algum eixo que não esteja aí, pertinho de onde você está.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Nos quartos de motel

Quando assaltamos aquele banco, os expropriados reagiram, falaram que a propriedade privada, um bem inalienável e santificado fora corrompida por uma meia dúzia de anarquistas expropriadores; eu sacudia o controle remoto e sorria, sem camisa, deitado na cama, enquanto você tomava banho, e eu podia escutar as gotas, o barulho do chuveiro e a sua interrogação preencherem todo o ambiente: Está passando? Está passando? Você dizia.

Nunca falávamos de nós mesmos nestes momentos, nos esquecíamos dos "nós" pelo bem do coletivo, apesar do que, eu sempre pensava, que a linha tênue entre o coletivo e o individual sempre se esgotava nos finais de semana.

Eu dormia sempre pensando no amanhã, e sinceramente desistia de escrever, de falar, de trabalhar muito, por que a música árabe, os livros romenos e toda a eventual anormalidade que perspassava nossas vidas recheadas de um cotidiano inesperado, pareciam desenhar que as segundas não eram própriamente segundas, as quartas podiam ter gosto de domingo ou vice-versa... já que as eventualidades produziam seus acasos tão particularmente interessantes.

E eu sorria, mesmo sabendo que o fato de você sair nua, completamente nua, apesar do que sua mente sempre estava vestida, conseguia eliminar toda tensão, mesmo que eu fingisse o oposto, e você repetia o "que foi", o "Que foi?" que crescia, e fazia sentido, segundo após segundo, quando acabávamos nos amando despreocupadamente dentro de um quarto pobre de cortinas e papel de parede, mas repleto de paixão, sim, de paixão.

Aí eu acaba, fazendo os mesmos elogios, acabava retirando sua toalha molhada, você acabava sorrindo, me repreendia, ou às vezes até me odiava intensamente, o que provocava a necessidade de uma cautela, e invariávelmente acabávamos ou conversando ou nos amando(isto dependia essencialmente de nossos humores tão diversos).

Quando você me negava em desculpas, era óbvio, que mesmo devido as condições externas, estava apoiando suas subjetivas vontades em condições gerais e objetivas que conseguiam mascarar um pouco de vingança parcelada(eu também fazia isso).

No final acabávamos, ou começávamos, um jogo de cafuné, uma massagem, e o dia posterior sempre era muito mais positivo, por que ou eu levava o café na cama, ou você me dava um beijo enquanto eu fingia sono.

Seus cabelos molhados, sua blusa cinza, seus humores tão variados, eram tão apaixonantes, que eu podia carregar todo aquele dinheiro expropriado sem medo de ser reprimido.

Eu não tinha medo, por que quando você estava do meu lado, tudo parecia fazer sentido.

O mundo era fácil.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um doido e alguns pingos de chuva

Falta mistério ao mundo.

Hoje fiquei observando os pingos de chuva enquanto voltava para casa, há dias chove, e há dias comecei a observar os pingos de chuva. Mantive-me fascinado: como era belo aquele momento, trivial, mas único. O legal é que você olha de longe da luz, e vê os pingos caindo perpendicularmente ao solo ou como seguissem uma trajetória reta, mas não... se você se aproximar e ficar embaixo da luz do poste, e esticar bem o pescoço para cima, olhando os pingos de baixo para cima o máximo que puder, vai ver que os pingos caem aleatóriamente, sambam e flutuam ao sabor do vento sem nenhuma direção apenas caem.

É a aleatoriedade caótica daqueles milhares de pingos, que dá a falsa sensação de linearidade ou seria nosso olhar cartesiano que está condicionado? Reflexões filosóficas a parte, pouco importa.

Pelo senso comum, por um breve momento de chuva, sou um doido varrido. Pois é. Cada um constrói os conceitos que quiser. Aliás realmente é preciso classificar a loucura, enquadrá-la; isto protege a identidade, o mundo dado(ou como diriam em linguagem mais acadêmica "reificado") e não ameaça nossas certezas. Convicções arraigadas necessitam ser mantidas. Abismos são perigosos, dúvidas mais ainda! E um doido olhando para a chuva? Por que se comporta assim? Por que usa o cabelo daquele jeito? Por que é diferente de mim? E por que eu sou diferente dele? Por que age daquela maneira? Por que me deixa com dúvidas acerca do meu comportamento, do que eu sou, da minha identidade tão pronta, tão acabada? Por que não segue a corrente? Por que vai no fluxo errado? E eu? Não! Preciso me proteger! Estou no fluxo CERTO, ele é o doido!

Como as pessoas estão pragmáticas, objetivas, perdendo-se em coisas óbvias...

Acabou o mistério de se redescobrir o mundo. E aliás, para quê? Se já está tudo PRETENSAMENTE descoberto... com a internet, com a tv a cabo e a revista de final de semana eu já sei tudo o que se passa... não há um pequeno grande mundo a se descobrir, repleto de detalhes, de infinitos que vão se descortinando diante o cotidiano. Há apenas fórmulas, explicações técnicas, expicações científicas, a modernidade negando o desconhecido apenas por capricho e oni(pre)potência.

Estão negando o mistério, matando-o. Falta mistério, falta sensação...

E bem que eu queria compartilhar mais pingos de chuvas, mas no momento, os relacionamentos(das pretensas amizades aos pretensos relacionamentos amorosos) parecem mais acordos empresariais do que própriamente relacionamentos(avalia-se os riscos ou os lucros e ponto final chega-se a um acordo).

Que cada um cave um pouco mais de mistério em si mesmo e no mundo e talvez daí possamos começar a compartilhar pingos de chuva.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Yin x Yang

Sempre acreditar. Olhar para frente. Encher os pulmões de utopia, cavar pequenas soluções. Usar o pessimismo para construir alternativas. Rezar não ao metafísico, mas ao equilíbrio. Juntar forças, reunir idéias, cavar soluções. Plantar e distribuir liberdade. Chorar, perder, recomeçar.

Sorrir. Reagir!

Ser contraditório faz parte, não há vida sem contradição mas é na ação que há o maravilhoso desejo de mudança. E como dizem em 68, "Ser realista, exigir o impossível."

terça-feira, 25 de março de 2008

Não há mais mangas no quintal

"O homem é a natureza tomando consciência de si própria. " (Elisée Reclús)

Meu quarto fica no final da casa. É um quarto quente e um pouco abafado, estreito, com raios solares que não o esquecem durante todo o dia. Atrás do meu quarto, há um gramado simpático.
E neste gramado, há uma mangueira. É uma mangueira deveras libertária, ela nunca respeitou a ficção da propriedade privada; parte de sua frondosa copa avançara impiedosamente sobre o terreno da casa onde moro, alguns galhos atrevidos na verdade, galhos que quase tocam o chão, onde podíamos tocar as mangas com os dedos das mãos preenchiam parte da parede que segue cartesianamente até o final da casa. A casa termina, a mangueira não.

Seu caule está prostado no terreno do vizinho, ele faz o que quiser com a mangueira; se quisesse matá-la poderia ter feito, mas por bondade ou preguiça, ela ainda vive, e eu sou de certa forma grato por isto.

Haviam mangas espalhadas no quintal, muitas. Mas para dizer a verdade, eu nunca experimentei nenhuma delas.

Sempre que um vento do norte atingia o terreno, as mangas despencavam. Mangas suicidas. Eram tantas, que enchíamos baldes, galões de manga e só eu sei o que eu sofri para catar todas as últimas que caíram.

No início não incomodava muito. Eram só frutas. Mas aí começaram a cair os galhos e as folhas. E caíam exponencialmente.

Incomodado fiquei realmente, quando encontrei suco de manga na geladeira. Mas não era da mangueira. Não daquela, talvez de uma prima distante. O suco estava numa embalagem industrial; aquilo era uma contradição explícita, a mangueira tinha razão, eu não tinha a mínima consciência ambiental.

Minha mãe também não. E mandou podar a mangueira.

No início achei razoável. Cortar umas arestas sobrando daria vida nova à mangueira, quisera eu poder fazer o mesmo. Mas no dia da poda eu me entristeci, pois percebi que estavam cortando além da conta. E a conta era do tamanho do horizonte da minha janela.

Deitado na cama, eu conseguia enxergar a mangueira e uma outra árvore, cujos limitados conhecimentos arbóreos não conseguem nomear, mas posso dizer que é uma árvore mais disciplinada, cresce e conforma-se perpendicularmente ao solo, seus galhos são curtos, seu caule é longo e ela não atrapalha a disposição matemática daquele jardim, construído, diga-se de passagem.

A mangueira tapava todo o horizonte, e ninguém consegue construir horizontes com facilidade, contudo após a poda o horizonte que ela tentara esconder, revelou-se de imediato, tomada por um golpe de mágica. A tristeza da poda, e como foi triste ver seus galhos serem levados abruptamente, deu lugar a uma observação detalhada, um compasso delicado sobre a natureza; uma verdadeira e detalhada observação do fluxo natural das coisas.

Não existia grama embaixo dos galhos da mangueira pois o sol não chegava ali.

Não existia horizonte nos meus olhos antes da poda; eu só enxergava os galhos e o verde da mangueira, este era meu horizonte, enquadrado por uma janela e perseguido por uma mangueira. Mais do novo horizonte, surgiu a vida, lentamente construíndo-se em torno de metáforas e de natureza.

Mas antes de continuar a falar sobre a mangueira, eu preciso falar daquela árvore que eu desconheço o nome e está plantada mais próximo a minha janela. Em um dia de insônia o vento a balançava suavamente. A árvore não lutava contra o vento, assim como o leito do rio não luta contra as pedras que o cortam. Outro dia, percebi a árvore parada. Não ventava e ela não se mexia.

ELA NÃO NEGAVA SUA PRÓPRIA NATUREZA.

Voltando a mangueira, a grama comecou a crescer, o horizonte se ampliou. Não lamento muito mais por ela. Por que agora posso enxergar o céu como jamais pude da janela do meu quarto. E quando o céu está chuvoso, e eu adoro os dias chuvosos, levanto-me da cadeira, paro de escrever, debruço-me por sobre a janela e olho para aquele horizonte cinza, e cinza não é uma palavra adequada e nenhuma é, para traduzir o que é este horizonte nesses dias.

E eu não consigo escrever quando isto ocorre.

Por que seria mesquinho demais falar de mim, somente de mim, quando me sinto completo e perdido na imensidão do todo.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nem tão mal assim, nem tão bem o suficiente

Ruiva, sabe exatamente como o corpo reage a angústia? Já sentiu os olhos úmidos de lágrimas, e a garganta engolir aquela decepção embalada antes do café-da-manhã ruiva?

Meus passos longos precipitaram uma imensidão de cores, cores que eu não consegui filtrar(e quem disse que eu deveria?); ela apenas racionalizou o mundo a nossa volta Ruiva, ela matou o dionisíaco que nos temperava, ela pragmatizou a realidade ao nosso redor.

Faltou-lhe coragem? Coragem esta que me sobrava... Mas eu Ruiva, este tonto Vasilli, enebriado pelo desejo de re-construção dos cotidianos, não conseguiu compreender que isto apenas dizia respeito ao poder de decisão dela Ruiva, e não do meu, de convencimento(e eu repito isso para me convencer... para me convencer racionalmente, mas emocionalmente nunca me convenci).

E cá estou eu, cercado de guimbas de cigarro, fuçando livros no centro da cidade na terceira quarta-feira do mês, comendo uma esfiha com gosto de saudade Ruiva, e secando lágrimas que eu nunca despejei na verdade, metaforizando tudo ao meu redor, tudo, por que assim, o mundinho cinza dessa urbe impiedosa ganha mais vida.

Já não estou nas suas fotos, sei disto Ruiva, ela me apagou de todas as suas fotos e suas recordações, as minhas frases de efeito e meus ditados clichês, ecoam por cinco ou seis amores esquecidos, por que idéias não morrem Ruiva, idéias são a prova de balas, e no fundo no fundo é assim que me sinto, uma grande idéia presa num corpo humano, demasiadamente humano; e talvez seja esta minha função no mundo Ruiva, fazer parte de momentos longos(para muitos, e curtos para mim) onde eu tenha me transmutado não em corpo, mas em espírito.

Exercitei a imaginação alheia demasiadamente, e em troca, (dentro desse olhar egoísta inconsciente) apenas recebi letras ruiva, letras que eu já tinha de sobra.

Anatole, fora de sua habitual inabilidade para com piadas, conseguiu fugir do padrão esses dias, e disse algo que realmente me interessou(a posteriori - é claro, eu não daria este gostinho ao puto):

"Precisamos de uma novo tipo de tuberculose que só consiga matar os poetas."

Nato está certo, não há mais glamour(se é que houve algum dia), mistério ou mágica em trocar emoções por letras, isto já foi intensamente exercitado e minha verdadeira profissão de fé é me iluminar diante o esquecimento. Nossa miséria é tão escassa ruiva, que me envergonho de despejar esta parte de mim, não é justo dar aos outros uma metade de você que eles acham ser a inteira, a impressão normalmente é que se costuma vender algo, por um preço muito mais alto do que podem pagar.

Ruiva, quando olhei para tuas fotos, me lembrei o quão inadaptado eu me sentia ao lado de determinados grupos, e eram poucos, muito poucos, os que eu não tinha de me esforçar para vestir aquelas personas descartáveis irritantes, mas isto é um fato tão coerente e corrente que no final das contas, me achava mais e tão verdadeiro quanto possível.

O daqui pra frente é uma estrada deliciosa Ruiva, este paradoxo ambulante de nome Vasilli, no fim das contas concorda que a tristeza é o verso da alegria, não sabe bem como autogerir isto a ponto de equilibrar-se sem muletas, mas está no caminho... Irrito-me com a necessidade mórbida de imporem a ditadura da felicidade, isto é triste demais ruiva... gente sem verso é apenas um simulacro de ser humano...

Isto é tudo Ruiva, mandarei outras cartas depois, pois já não tenho mais para quem enviá-las, me sinto meio Anatole agora Ruiva, distribuindo metades de si para muitos(quando sabemos que ele é inteiro, não metade) aguardando compaixão, mas não há compaixão suficiente, nunca há, e depender desta caridade emocional definitivamente não diz respeito aos espíritos livres(e quem disse que eu quero ser? deixe o ubermensch para as próximas gerações...).

Agora me vou, esgueirar por entre o cotidiano, apesar de continuar a me sentir sozinho, ainda posso olhar ao lado e ver muita gente ao meu redor.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Disputas Interiores: Durden ou Poulain?


Olhando para tudo o que aconteceu, tinha quase certeza de que o caminho, sim, pois era seu sem dúvida, era um caminho pra lá de interessante. A maneira com que recriava a vida ao seu redor, era em suma, parte de um processo global, isto é verdade, e acreditava e confiava nas redes que o envolviam, e tudo, tudo, dizia lembrando daquela terça-feira mágica, era parte daquela trilha, daquela estrada, deste caminho, ríspido, suave, intenso, jocoso, brilhante.

Poderia encher o copo da vida uma ou duas vezes, antes de experimentar a dor, e o que era a alegria sem a dor, o que era a paixão sem o ódio, o que era o dualismo sem o relativismo, o que era ele próprio sem si mesmo!!! Confiar no sagrado era o início de um processo curto de esperança. Era um feixe de respiração otimista.

Fazendo um balanço sincero e motivado de seus/meus próprios costumes lembrava demasiadamente das músicas tristes, das cartas sinceras, das lágrimas despejadas sob o copo de cerveja preta, que ele, sim, ele tanto adorava. Era um romântico incurável, e românticos incuráveis, necessitam de mais tempo, nenhum tempo é tão escasso, quanto o tempo dos românticos incuráveis. Ele sabia, e demonstrava a cada gesto, que era uma junção de simplicidade explorada demasiadamente pelo destino a ponto de exaurir seu próprio otimismo; e no entanto conseguia a cada respiração, ser visitado pela morte sete vezes, assim como os budistas; e que deus os tenha.

Mas lhe faltava maldade. Não se referia ao mal convencional dos filmes hollywoodianos ou das igrejas de final de semana; faltava-lhe, e podia perceber a cada evento, uma percepção mais nítida, e a este ponto preferia a palavra parceria como o oposto do que ele era e negava.

Era claro e necessário, que ele deveria fortalecer aquele lado escuro, que tanto deixara-se ofuscar por sua parte mais criativa e dera a uma ampla gama de jogadoras, a oportunidade de deliciarem-se com modelos paranóides produzidos sob situações de tensão; ou diria melhor, bonequinhos perfeitos, imagens projetadas no espírito do tempo a partir de espasmos pré-românticos, mas veja bem, e preste atenção neste período, neste momento, tão particular e talvez inovador... espasmos pré-românticos são como comportamentos clichês às sete da manhã.

"Passe-me a manteiga por favor! (me passa a porra da manteiga!!!)."

O espírito do tempo não estava com ele desta vez(nunca esteve). Adaptaria-se?

Adorava utilizar opostos para explicitar a si próprio; água x fogo, yin x yang, sombra x luz e como a modernidade lhe impunha novas e sensacionalistas abordagens, Anatole resolvera escolher a dicotomia durden x poulain, que era um produto de filmes baratos que resolvera rever para explicar a si mesmo e aos leitores(dois ou três - num dia de sorte) o que era dicotômico em sua, em nossa, personalidade. (se você chegou até aqui parabéns! força! continue!)

Oposições que se completavam, mas que neste momento digladiavam-se em torno de uma resposta. Ele vai ter de escolher - diziam nos corredores do inconsciente.

Conseguiria trazer sua sombra?, sim ela dizia faminta - você consegue meu jovem, enquanto jovem; conseguirá empurrar mais para o fundo esta velha, sim, pois anime-se os anos 90 já acabaram junto com suas camisas de flanela, esta velha-idosa Poulain, espírito ultrapassado e prestes a reanimar o velho Durden, este arquétipo raivoso, esta parte de si que calava todas as vezes em que se confrontava com a doçura de uma parte de si que predominara durante todo o jogo; deixe ele tomar as rédeas da situação, deixe o velho durden dominar.

É claro que isso tinha um custo. Ele sabia, e dialogava muito oportunamente com os dois, com meio cigarro na boca, e um copo de cerveja preta, olhando para o horizonte(e seu horizonte era bem limitado por cinco ou seis prédios - isto dependia da quantidade de vodka) que tal tarefa não era tão fácil como poderia aparentar.

Sabia exatamente, que um estava em posição mais vantajosa do que os demais; Vasilli não admitia a princípio, mas as queimaduras de cigarro de quatro ou cinco anos arriscavam palpites de quem ganharia naquele momento o jogo, e isto era suficientemente claro para demonstrar que era hora de cultivar um caos dentro de si, não uma estrela brilhante, mas uma super-nova que talvez conseguiria gerir algo novo... de uma vez por todas.

Matar Poulain, enterrar Durden, talvez seja o caminho.... Ele não sabia exatamente...

Talvez devesse seguir o fluxo, parece fácil quando não se escreve por compulsão. Nada constava como editável, aproveitável; o lixo literário estava aí. O excesso de cerveja preta denunciava que seria mais durden do que poulain e não, ele não aceitava conselhos, por que esta mudança era temporária como toda mudança (normalmente) é. Decerto a maioria inspirava-se e acostumara-se a conviver mais com Vassili em sua fase "Poulain", fazia sentido, já que o espírito do tempo abortava milhares, milhões de Amélies Poulains sistemáticamente...

E a gente costuma projetar no outro o que a gente quer ser. E assim fica fácil pedir para Vasilli ser mais Poulain. Quando o que ele quer. É ser mais sombra, é ser mais durden.

[sorriso da ruiva no canto da sala - cigarro na boca, fumaça no ar, ele dormindo, ela acordada, vestindo preto, sofá sujo, gato preto na casa, lixo no quarto.]

Abandone a meditação, siga o caminho




Reconstruindo meus silêncios. Caminhando... como um gaijin deslocado do tempo, não do espaço.

Olhando meus abismos. Talvez não sejam tão fundos. Verei ao caminhar...

Meditando; há uma rocha, estou no alto, estou perto do abismo, da ribanceira, mas não a temo.

É mentira. Eu abro os olhos. O vazio está mais próximo. Eu levanto, abandono a meditação. Talvez caminhe mais um pouco.

Talvez caminhar naquele plateau seja mais seguro. Talvez. Eu pego minha mochila. Pego em meu bolso uma velha foto. A foto ainda não está desfocada. Nítida demais.

Eu pego minha mochila, eu me lembro de tudo. De tudo. Ainda.

Vou meditar naquele plateau. Será mais seguro, daqui para frente, será muito mais seguro.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Jamais apedreje seu destino

Abandonaria um pouco as metáforas. Seria mais direto. Direto como um não. Como uma recusa. Duas recusas, três, quatro recusas. No quarto a música preenchia o ambiente, por que o silêncio é amigo da dor e não, já não havia mais espaço para a dor. Já tinha dor demais, uma dor que enchia dois ou três ou treze copos de cerveja e descia congelando o que restara da sua esperança. Uma dor que em outras épocas arrasaria tudo o que conquistou, mas não, agora, Anatole, este puto onisciente era um puto forte. Um puto resistente.

Dizem que a esperança é a última que morre. Mas ninguém disse que ela é imortal. Um dia ela morre. Demora a morrer, mas morre. Vai morrendo a míngua, ou súbitamente estraçalhada pelos fatos. Sim, pelos fatos. A vontade move muita coisa, mas a vontade também esbarra no outro, na outra, no alheio; no que não é nosso(e nada, escute bem, nada é nosso além do próprio corpo e das próprias palavras - pois a propriedade como diria Proudhon é um roubo). Mas a esperança é uma fênix. A esperança não desiste. Por que o novo sempre brota das cinzas do velho.

No final das contas esse é o limite. O limite que é criado pela liberdade do indivíduo.

O sofrimento é inevitável, Anatole acreditava nisto, concordava neste ponto com os zen-budistas, os que vendiam incenso na esquina daquele mercadinho simpático onde comprava arruda e feijão, todavia esperava um pouco mais de misericórdia do destino. Palavras tinham poder e se são as armas que matam o corpo, são as palavras que chacinam o espírito. Na verdade é a incongruência entre ação e palavra que o irritava(mas todo mundo agia assim - havia um quê de perdão intríseco nas palavras). Preferia o não sincero, do que o sim hipócrita.

Construir tronos de pedra sob paredes de vidro não era lá um hobbie agradável.

Já não sabia mais quais eram realmente seus limites, isto por que as situações forçavam e tensionavam-os até um ponto insuportável. Sua mente era um campo de batalha. Seu corpo, uma armadilha. Um campo minado.

Sofrer é inevitável, dizia com os zen-budistas entre os dentes, cheirando molho de macarrão vegetariano, escutando Charles Mingus, mexendo a colher de pau suja de molho de tomate que parecia sangue e deixando a vida, e o cabelo crescerem diante de seus olhos... Mas ainda assim, percebia, e tinha realmente esta capacidade, de fazer do trivial um pedaço de luz, uma inspiração, percebia que apesar do otimismo que floreava em sua volta, ele daria mais algumas voltas para repensar o que achava que era meramente essencial(vindo da essência queria dizer).

Quase agradecia, mas não agradecia conquanto, portasse dentro de si uma tranquilidade que permitia a si mesmo, encontrar-se com o divino; não o divino do metafísico cristão, mas o divino do meta-physis grego, o divino era o tao, o divino era o encontro das redes, das conjecturas, dos paradoxos que se digladiavam por vitória e ainda assim se encontravam paralelamente no infinito.

Chamava este infinito de dor.

Dor.

O que era falso...

Nenhuma dor é infinita, portanto que se percebam as incongruências de Anatole. Ele era incongruente. Dizia odiar água gelada, mas abria exceções, dizia não comer palmitos; mas deliciara-se com as exceções num almoço pseudo-vegetariano. Anatole não era própriamente uma farsa, vide os seus atos demonstrarem que normalmente(e ele não sabia o que era normal - e o normal ele afirmava: "era o que você não é quando está com a auto-estima baixa, e o que você é quando está fudido com uma garrafa de vodka Bakunin entre os braços") era um bom sujeito; sim, um bom sujeito.

Não sabia exatamente, e foi descobrir isso, na terceira garfada daquele macarrão políticamente correto, por que abandonara a filosofia de botequim e começara a se concentrar na terapia, duas, três, quatro vezes por semana que se inscrevera num ano bissexto repleto de felicidade, de alegria e de decepção.

A memória voava e ele deveria registrar esse dia, por que dias específicos devem ser registrados. E ele conseguira se vencer. Parou. Conseguiu freiar seu ímpeto em dois ou três dias, e isto era um sinal de juventude ou de amadurecimento.

Anatole, subira a passarela, andara de metrô, vestira uma camisa branca, esbarrara em um, ou dois transeuntes... Lembrara dentro do metrô, quanto tempo leva-se a escrever uma carta de amor, e se isto, se este gesto, se este ato não conseguisse emocionar(palavra jargão - mas que podia ser livremente utilizada pelo seu espírito livre) ou tocar duas ou três pessoas, prefereria encerrar sua história por aqui(estória).

Não tinha muito a escrever, já tinha cozinhado parte de suas decepções junto com aquele macarrão simplório que insistia em sofisticar parte de sua vida, de sua dor, quando Vasilli, chegou...

- Animação meu amigo. Trouxe metade de uma vodka, trouxe chimarrão para amanhã, depois da ressaca... e adivinhe? Trouxe um livro de poesias!

- Imagino que o livro não seja seu, decerto...

- Não. É nosso.

Disse Vasilli, com força, com raiva, repousando a garrafa bruscamente na mesa de vidro. Não era Vodka, era licor de menta. Por detrás da satisfação de Anatole, havia uma caixa de cervejas geladas, repousada próximo a porta daquele apartamento cansativo. Limpo, o que cansava Vasilli. Sofás de couro sintético, quadros de pintores, filósofos e outros pulhas que Vasilli costumava esbanjar ou ridicularizar em público nas sextas-feiras... E ainda assim, Anatole, mesmo no pior de seus momento, conseguia pormenorizar sua dor.

Nato! - gritou Vasilli. Você precisa de uma boa dose de futuro. Passado já há demais.

O telefone tocou, interrompendo os dois, faces distintas de um vazio futuro. E sim, o vazio podia ser o futuro e o futuro podia ser o vazio.

Vasilli...

- Diga Nato. Respondeu Vasilli com uma tragada corajosa.

Quando a ruiva vem?

Ela não vem Nato.

A ruiva morreu?

- Morreu porra. Morreu junto com uma parte boa da gente.Justify Full


sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Sobre os aniversários


Ruiva, escrevo em tom de cansaço. Em tom de cansaço, por que(e não usarei "de certa forma" antes desta frase ou antes do por que, ou antes dos subsequentes parágrafos) você é a primeira e a última pessoa que eu posso conversar. Todos, todas falharam, e você sabe que eu não sou tão perfeccionista assim. Sabe também que neste "todos" há pequenas exceções, pequenas grandes exceções para pessoas muito especiais; conquanto, pessoas especiais precisam provar que realmente são especiais, e isto não se faz com um, ou dois quartos de século ruiva, isto se faz diáriamente, isto se faz cotidianamente.

É difícil ser especial, eu admito. Na verdade na maioria das vezes acham realmente que eu, eu, o pseudo-ruivo, proto-moreno ruiva, ou incorporo metade daquele irritante joguete do "aceito qualquer coisa" , como um falso Gandhi ruiva, e Gandhi não aceitaria qualquer coisa, ou apenas tenho uma capacidade extrema de não me importar, não me importar como um beatnik sulamericano, de perdoar, de perdoar ruiva, de perdoar com todas as minhas artérias, sem que para isto eu realmente precisasse de sangue correndo em minha veias; e para quem não quer suportar mais nada emocionalmente tão exasperado, eu não tenho sangue correndo nas minhas veias ruiva, não, não tenho.

Não depois de você ter me feito de palhaço ruiva, um palhacito ruiva, um palhaço indisponível, um palhaço desprezívelmente raso, razoável.

Mas faz parte ruiva, faz parte do meu metafísico destino, um destino previsível, não pelo que eu construí, mas pelo que ele efetivamente constrói, mesmo não me imaginando tão determinista, é um fato concreto, de que este destino de merda, constrói-se a si próprio, a mim próprio, num casulo de previsibilidade tão constante, que vez ou outra eu me pego perguntando-me se há solução para este paradoxo.

Não há. Não há solução. A solução é eu me completar. Mas isto trairia todos os meus princípios, pois não há completude no alheio, segundo meus princípios ruiva, princípios tão bonitinhos ruiva, tão belos, tão obesamente preenchidos de vigor, são tão belos, são verdadeiramente lindos! Lindos ruiva! Do tipo em que se aperta e não se enxergam defeitos!

Mas ruiva, há os poréns, e os poréns normalmente enterram, mesmo que seja em breves segundos tudo o que é bom e perfeito ruiva. É no porém que se enterram mundos, é na vírgula que se enforcam princípios e embalsamam-se eras. É na incompletude das brevidades que se assiste o fim de ciclos, ciclos movidos a cachorro quente sem salsichas, sem carne ruiva, na esquina da avenida Mem de Sá. Eu pareço(e sempre tive este talento) estar sempre imerso em determinadas atividades ruivas tão intensas, tão recheadas de vida, de clamor, de emoções, de histórias que se desdobram em mesas de bar, em copos vazios, em encontros casuais ou em carteiras vazias, mas a verdade ruiva, é que meu talento é apenas esmiuçar das letras algo que valha a pena, é enforcar a monotonia da rotina neste balé literário gramatical; o que causa a impressão de que a cada carta que eu escrevo a você(s) há uma supernova em explosão, há um vulcão enterrando civilizações emocionais, há um genocídio literário autorizado, quando na verdade é mero balé ruiva, é mera capoeira, é mero gingar de corpos, digo na verdade, de frases.

Sou talentoso com letras(um complexo psíquico autônomo insiste o contrário), não com pessoas. Devo todas as minhas condolências a Kafka, Oscar Wilde, Clarice Lispector, Cortázar, Lima Barreto, João do Rio e diversos amigos ilustres, e não-ilustres(os não-ilustres são os que mais me inspiram). Prefiro não morrer de tuberculose, apesar do que tenho a incrível habilidade de me resfriar, e me adoecer sempre em datas importantes.

Termino a carta imaginando se um dia será possível, olhar para trás, cinquenta anos atrás, não como meu 1/4 de século ruiva, mas como uma metade de século e tentar enxergar algo ou profético ou nostálgico nisto tudo ruiva. Será possível?

Talvez ruiva, talvez, falei exasperadamente de mim, de minha pessoa, mas devo dizer no finalzinho da conversa e da carta(já que o papel está acabando), que você e seus malditos jogos de xadrez emocional não irão me vencer.

Quem topar o desafio(e para isto deverá comer argumentos de ruivas no café da manhã), me ganha.

Não tenho talento para troféu; mas posso tentar me vestir de dourado.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Do Esquecimento temporário/definitivo da Ruiva

Por um período que eu posso chamar de confortável, no sentido que me fez produzir muito mais do que o eventual, você me deixou. Deixou de forma a conceber espaço para outras idéias mais importantes; falando de coisas práticas.

Eu ainda era obrigado a te lembrar, por que todos os malditos cortes de cabelo semelhantes traziam sua presença, mesmo que eu não te convidasse. A camisa que eu usava me remetia a algum comentário elogioso teu, sobre a estampa; e eu também lhe conseguia enxergar imaginando as situações onde você estaria, o que você acharia de determinados fatos, de determinadas situações ou opiniões coletivas. Também surgia com expressões que pipocavam aleatóriamente na minha cabeça. Eram nuvens fugazes, mas de uma textura tão viva, que sinceramente valorizei o tempo como o único remédio efetivo para males como este.

E às vezes eu até lhe incorporava, o que me deixava cada vez mais certo que os gêneros opostos que vivem em todos nós, se manifestam de forma mais violenta quando se enxergam em corpos alheios. Nunca tentei tornar poético o trivial. Você encheu minha vida de trivial e eu agradeci inicialmente, perguntando com meu atual aspecto de surpresa, se não seriam necessárias mais algumas tragédias antes de me enebriar totalmente com teu perfume tão saboroso.

Mas não foram. Minha grande tragédia foi lhe conhecer, como uma tragédia grega onde nada se perde de verdade, onde um mundo se descortina, oracular como sempre deve ser.

Sensações a parte, acho que todo este caminho está estruturado de forma teleológica a me reinventar de forma infinita. Este é o destino.

Diante da impossibilidade de trazer a tona este inconsciente meramente poético que me circunda, deixo as impossibilidades práticas ganharem mais força. Não sei por que me lembrei de Zaratrusta. Devo ter mudado o eixo da discussão propositadamente.

Talvez me sinta culpado por te perder. (é claro que não me sinto ora bolas)

Em cartas antigas eu tinha de explicar que você é fruto da minha imaginação. Já perdi completamente esta capacidade. Esvaiu-se com o estilo poético que outrora você fortuitamente(e só e é claro na minha imaginação) apreciava.


domingo, 23 de setembro de 2007

Tudo lembra você

Quando eu me esquecer de você
Haverá um belo sol
Um sol novo no horizonte
Vermelho de dúvidas

Haverá uma mesa posta
Para o café da manhã

Haverá um quarto vazio
Vazio de escolhas

Haverá um maço de cigarro
Jogado na mesa
Mas eu não fumo

Haverão algumas partes
Espalhadas

Sem que para isto
E na verdade
Você merecesse

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Seu coração era um cinzeiro


O cinzeiro estava cheio de guimbas, de cinzas, de lágrimas. Seu coração era um cinzeiro. Latas de cerveja vazias, alguns cubos de gelo derretendo em cima da pia. A cozinha estava suja.

Evitou-a fumando um cigarro na sala. Abriu a janela, viu a lua, parcialmente escondida , parcialmente exposta. Livros amontoados na sala, cd's velhos, um sofá com um rasgo em um dos assentos e uma garrafa de vodka metade vazia e metade cheia(de hábitos).

Enfrentaria seus fantasmas com as gengivas sangrando se for necessário. Não tinha medo da dor. Aprendera boas lições com o passado, aprendera boas lições e tragaria o último gole de esperança com um pouco de coragem entre os dentes. Chafurdaria-se nas lamas do inconsciente. Iria até o fundo se necessário. Não tinha medo da tempestade. Era um desbravador. Tornaria-se o que era, o que é. Iria se buscar nos abismos emocionais, iria resgatar-se do limbo, iria salvar a si mesmo. Seria seu próprio redentor. Sua redenção do-it-yourself embalada em embalagem a vácuo.

Por enquanto, apesar do discurso, possuía apenas uma vidinha medíocre e contas a pagar; sem nos esquecermos da lasanha políticamente incorreta que guardava no congelador há meses.

Olhava para a mesa de vidro e seu reflexo. Sentiu vontade de chorar. Escorregou do sofá e sentou no chão, cruzou as pernas, apagou o cigarro e enquanto tamborilava os dedos na mesa, pensou em não-agir. Em não pensar. Era preciso se encontrar. Era preciso parar e não pensar.

As coisas ferviam lá fora. A maldade tinha lhe encontrado em duas ou três ocasiões, mas conseguira esquivar-se. Estava vivo e expectativas demasiadas só traziam problemas demasiados.

Contentaria-se com o pouco. Este era seu plano. Habituar-se com o necessário. Sem excessos. Sem excessos, sobreviveria. Café, alguma erva, cerveja e livros. Nada mais.

No quesito afetivo, seguiria a mesma recomendação: casos esporádicos, afetos ocasionais, sem compromissos, sexo casual, nada mais.

Era um bom filósofo de bar. Também não almejava muito além. Algumas cervejas e janelas de ônibus, serviam-lhe farto material filosófico; sentia-se feliz.

Na segunda tragada começou a sorrir. Era curioso, considerava-se um péssimo ator, e normalmente era. Mas quando do caos interno e introspectivo feito em maiores graus que suas máscaras, o lodo aflorava.

Pegou o metrô, escorou-se em uma das portas, lembrou de Paris, da Catalunha, lembrou da Av. Presidente Vargas. Desceu as escadas, olhava as faces ocultas, tentava adivinhar o que pensavam de si próprios, o que pensavam dele e o que pensavam da vida. Ao chegar na rua da Alfândega, ficou costurando os transeuntes como de costume, era um bom esporte, salgados chineses, pessoas na rua, panfletos que jamais pegava, sextas-feiras repetitivas.

No Largo de São Francisco sempre esbarrava com uma alma incauta, um espírito do Rio novo, do Rio pós-moderno, da nova pútrida modernidade enciumada e encolerizada como de costume. Suas máscaras afloravam, consumidas por doses de café. Olhos fixos, sem açúcar e uma ligeira dor de cabeça o conduziram até casa.

Chamaremos aquela doce imundície de casa.

E quando olhou para aquele quadro velho, no intervalo dos comerciais da agradável insônia da madrugada, teve vontade de pintar, de fazer poesia, de cantar, mas nada aquilo aquietaria seu espírito. Bastava se retomar, perder-se dentro de seu caos, e fulgurar diante do nada com os desejos explodindo sua epiderme. Havia caos, havia luz, havia um pedaço de vida diante da morte programada e ele não se eximiria mais do seu destino. As cinzas cimentavam o novo caminho.

"É um "pessimismo-realista" que me motiva a viver." disse a si mesmo. Como assim? Há contradição nesta frase. Há sim. Há sim. Há muita contradição na vida. E no momento. Neste parágrafo, deste momento, ele pensava em continuar. Por que continuar era a única coisa que aprendeu a fazer em todos estes anos.

Agradecimento especial à Helena Dantas e seu poema que me inspirou o título acima.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Multiplicidades

É preciso perder um pouco de si
Para atingir o que se deseja
Mas atingir o que?
Se quando chegar, já não serei mais o que era?

E o que eu desejo?
Se meus desejos
São obra de um eu que faz perder-me
Todos os dias dentro de mim!

Devo caminhar mais um pouco?
Para voltar a ser o que eu era?
Mas não há retorno algum neste mundo!
Em que nada volta ao seu estado original!

Deste ser que não é
Resta um amontoado de soma, de somos
Pedaços vorazes, que competem entre si
Pelo meu próprio domínio

Mas de que bela contradição
É feita a natureza humana!