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sábado, 24 de janeiro de 2009

De quando se encontraram e fizeram um retalho de vida

Vasilli costurou a rua da Alfândega com a Senhor dos Passos; era um hábito antigo aquele de passear por entre os transeuntes, esquivar-se das lojas coreanas e observar aquele movimento frenético. Sempre produziam as mesmas paranóias individualistas; repleta de megalomaníacos, era difícil executar alguns passos de música, sem que esbarrassem sempre na ilhota artificial ciente de sua estagnação, a universidade atrás do mercado do Saara era seu oposto, não por que desejasse, mas sim, por que estava fundamentada numa dissociação paranóica, num estilo de vida cimentado em alguns aspectos populares que dissimulavam apenas a tentativa mórbida de legitimar-se através da conquista, do domínio; bárbaro, puro, e simples.

Conquista de cargos, vagas, conhecimentos, um pouco de status e voilá. Não pretendia ser panfletário, apesar do que, isto era um tanto quanto redundante ou contraditório... Romanos falando de bárbaros!

Jogou as chaves da porta sobre a mesa de centro. Não havia muito o que fazer além de olhar algumas poesias antigas.

Havia um pouco de caos dentro dele. Partes que chegariam a um acordo breve.

O telefone tocou. Era a ruiva.

Onde você está! Ela gritou! Onde você está caralho! Que merda você está fazendo! Por que me faz sofrer assim seu desgraçado. Nós tínhamos um maldito de um acordo! Um acordo!! Entendeu!

Ficou lá com o telefone na mão, esperando o acaso bater, mas a única coisa que sentiu foi que estava sendo observado por si próprio. Desligou, desconectou o telefone sem raiva, mas cuja necessidade clamava por aquela ação e pensou em dormir.

Mas seu celular tocou. E ele leu a mensagem: - Estou chegan#d%o.

Luz demais em um ônibus, e lá uma caneta, e um corpo rolando, rolando com blocos de papel na mão, e sentindo que dentro daquele ambiente lembrava de todos os sonhos.

Beber cerveja com orgulho. Não era bem o que queria e nem sempre, nem sempre caralho, nem sempre queremos o que surge no horizonte. Pois às vezes sentia vontade de fuder o mundo.

A vida está cheia de sentido. Um sentido que exasperado, reclama vingança e felicidade.

Uma vida repleta de casos, acasos, e de caos. Uma vida que pede um metrô às cinco da tarde, pede uma viagem sem data, pede uma cerveja na terça e um desgaste emocional ou um corte na mão no dia dezessete.

Ah vida! Vida comiserávelmente reduzida num dia de chuva, vestida sob um casaco de flanela!

Há um momento no mundo. Em que se bastava diante do mundo. E que nada além do eu, podia ser mais importante; nada!

Leitor espera! Antes de matar a leitura com teu desprezo, peço-te que mantenha fiel à um ou três parágrafos! Ainda virá Isabel! E Isabel, vinha, vinha desajeitada dentro de um ônibus cheio de gente amorfa - segundo ela, mas ela respirava desprezo e trazia consigo, heroína e conhaque, quando em seus melhores dias se fazia assim, totalmente legitimada.

A esta altura, podes e tem todo o direito de verificar que esta súplica exagerada não é capaz de prender tua atenção.

Eu, este acrobata desajeitado das letras, este narrador zé-comum preciso fornecer um bom ou se não estético motivo, para que teus olhos leiam o que minha mente torta produziu. Continua correto, mas alerto que não é da nossa concordância que este texto coxo nasce. Este texto nasce de uma inquietação que é só minha, mas por algum motivo que desconheço, e tu deves sim, saber melhor do que eu, resolvo compartilhar contigo, senilmente dominado pela estética, que esta dor é tua também.

Numa janela, Isabel, muito cínica, escrevia com o próprio sangue, os pulsos já cheios de chagas e chocando a si mesma produz:

Vermelho sangue
Vidro quebrado
Grito no escuro
Silêncio arrastado


Isabel sempre perdida; e diziam dela: mal amada, esquisita, doida varrida.

Isabel solitária, mas cheia de si. Com conhaque e suas manias. Nunca se encontrava.

Nem no Robson, nem no Ricardo, nem no Yuri e muito menos com aquele sexo casual, que tanta inocência lhe inoculava.

Isabel, um fragmento de vida, uma vidinha de mulher farta. Completa de si mesmo e de suas manias. Manias irritantes que ninguém e que todos percebiam sempre transbordando o limítrofe do aceitável.

Acordou amarga e resolveu encontrar alguém e esse alguém resolveu ser Vasilli. Pois a vida, para Isabel era assim; ou amarga ou insossa. E assim, seguia, seguia meio cínica, sangrando no ônibus, pintando janelas com hemáceas ou apenas assim, meio desesperada.

Quando sentava na varanda com o gosto da bílis e da cerveja, ela normalmente adivinhava o momento em que podia utilizar aquele mecanismo; o único mecanismo, o que revelava o cinismo da vida.

Quando ia embora dos lugares, ela nunca avisava a ninguém.

Ele, Vasilli, o mentiroso, gostava quando ela caminhava nervosa pela casa. E às vezes ela buscava cigarro, ou haxixe. E fazia-se a paz.

Pois é, ele sempre insistia que Isabel tinha um quê de degenerada, mas ela negava. E talvez, fossem apenas cigarros de menta, as ligações no meio da madrugada, ou a intensidade do amor, um amor que se não durava mais do que uma noite, ou um capricho, não omitia informações, era visceral, cru, e até doído para o mundo que ostentando a mentira simulava-se, mas decerto, era TOTAL, era total e entregue, até o último segundo do orgasmo.

E naquela noite resolveu encontrar Vasilli, Isabel, que naquela noite específica, não bebeu, não fumou e resolveu amar Vasilli de uma forma tão tenra, que ele achou que aquele corpo não era dela naquela noite tão bárbara, pura, simples.

Amaram-se, amaram-se naqueles quinze minutos de amor; mal sabiam que no termômetro mundo, o amor fazia-se de uma mediocridade tão paupérrima, de uma obviedade tão espúria, que não cabiam deste modo, Isabéis, casualidades, sinceridades virais e muito menos os encontros Vasillinianos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Espaços Vazios em Grandes Salas Cheias

Não há muita criatividade. Apenas um cheiro de chuva que me faz observar os pingos respingarem no paralelepípedo. Dá pra sentir-se satisfeito, com aquele calor irritante se esvaindo na primeira pancada de chuva. As nuvens anunciam, há um pequeno estrondo e pronto, a mágica está feita.

Há um móvel novo na sala. Perto da cadeira branca. É nela que estou sentado, de frente àquela janela grande, do qual cnsigo observar todos sem que me observem. Há um senhor apressado de terno correndo com um jornal cobrindo a fronte enquanto a chuva o alcança; há uma senhora firme de si, desfilando com um grande guarda-chuva que antecipa as pancadas mais fortes.

A janela começa a embaçar e eu me canso dessa brincadeira a toa. Tento me concentrar, mas meu pensamento flutua livre pelas barreiras geográficas, me sinto pequeno.

Há um espaço vazio demasiado cheio de sentido dentro daquela sala minúscula. É difícil explicar, mas sinto que sem aquele vazio, não conseguiria obter reflexões como as dos dias chuvosos.

Geralmente, espero alguém ligar e aí inicio um jogo gestáltico de figura e fundo, onde as coisas se interpelam. Telefone-fundo, paisagem-figura, figura-telefone, fundo-paisagem, tudo depende de quem liga e das flutuações sempre inconstantes do meu humor temporal.

Há dias reservei alguns dias na agenda para preencher lacunas criativas como esta. Habituar o escritor e o leitor há sentir o vazio. Era preciso ter uma sala com poucos móveis. Uma cadeira bastava. E tinha de ser branca. Uma mesa de mogno, uma escrivaninha e poucas pilhas de papéis davam a tônica final.

Fora disso, havia apenas uma necessidade de me silenciar mais, sobre tudo um pouco. Era mais do que uma necessidade, era quase uma sobrevivência.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Multiplicidades

É preciso perder um pouco de si
Para atingir o que se deseja
Mas atingir o que?
Se quando chegar, já não serei mais o que era?

E o que eu desejo?
Se meus desejos
São obra de um eu que faz perder-me
Todos os dias dentro de mim!

Devo caminhar mais um pouco?
Para voltar a ser o que eu era?
Mas não há retorno algum neste mundo!
Em que nada volta ao seu estado original!

Deste ser que não é
Resta um amontoado de soma, de somos
Pedaços vorazes, que competem entre si
Pelo meu próprio domínio

Mas de que bela contradição
É feita a natureza humana!

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Títulos bons para textos ruins

Eu pensei em tantas pessoas quanto pude lembrar ao escrever este conto. Foi um exercício. Talvez tenha esquecido de muitos. E também é muito provável que vocês estejam aqui. MUITO MESMO. Há tantas pessoas quanto as partes que vivem em mim. Procure-se aqui, deixe seu nome e identifique-se com os fragmentos CITADOS nos comentários, verei o quão oracular posso ser.

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Estávamos lá. Nos encarando. Você cultivava seu orgulho e eu minha fé no desastre.

Não era tão fácil quanto apertar botões do acaso e aguardar algo chegar, era apenas algumas metas pessimistas chegando. Era suicídio parcelado. Você me falou que eu era um errático. Eu lhe respondi que você já tinha tomado a pílula da consciência. Consciência traz iluminação, não felicidade. São coisas distintas.

O soluço de morte que nos venderam tinha nomes bem definidos, mas a única coisa que eu conseguia pensar era sobre problemas que eram só seus, só seus. Visitar terapeutas nos finais de semana, apertar parafusos nos intervalos e avaliar quem era você entre tudo isto.

Quando você consumia demais eu lhe pedi para parar. Você continou por orgulho. Apesar de sua inteligência emocional avançada, você era um pouco xiita.

Odiava interpelações, por que era uma viva. Racional demais para eu amar. E muito arriscada para eu prosseguir em minha auto-flagelação. Você era estranha.

Em alguns momentos eu me sentia centrado como um espírito de um mosteiro. Isso no entanto, não me fazia feliz. Álcool era mais apropriado para eu me esquecer da política de auto-destruição inconsciente que eu encomendei há alguns dias atrás.

E mesmo assim, as coisas iam queimando ao nosso redor e eu assistia o par de valetes esvaírem-se em fogueiras frente aos possíveis e impossíveis desejos, liberais e liberados, eram desejos que nos consumiam. Era a sinceridade que nos consumia.

Deste parágrafo em diante eu só pensava em você. Verdadeiramente, em você. Por que só você correspondia às minhas tristes idealizações.

E doía. Doía tão rápido e intensamente quanto meus acasos, quanto meus casos, que eu costumeiramente ia chafurdando em minha lama emocional. Por isso me evitavam.

Mesmo sob as pupilas, a luz perspassava meus sonhos. Eu tinha grandes desafios, grandes desejos e grandes abismos por caminhar.

Abri a janela, por meras conveniências gramaticais; era um estilo próprio. Outra corrida e eu chegaria no alto das estrelas.

Amanhã sobreviverei como todos vocês, apesar do que, não há idade para morrer ou viver sob o céu ou o brilho de estrelas que cartesianamente já estão mortas.