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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Das Piores Dores

As piores dores eram as que pairavam por sobre o ar, assim tão ingênuas e covardes, pois nem coragem possuíam para se concretizarem em algo concreto. Nem nos tickets de metrô, nem nas dores que falavam pelos rancores.

Não possuía nem tinha em mãos aquilo que pudesse ser suficientemente apontado numa situação objetiva que despertando ódio ou choro, apenas falasse por si só, assim sem intermediários; e que ao invés de se esconder por detrás de um abismo oculto e covarde dentro de si mesmo resolveria mover o corpo e a alma em direção à uma desistência legítima e que provocasse algum afeto guardado mas verdadeiro.

Mais nem aí, nem na segunda ou terceira situação limítrofe contava com as lágrimas que limpavam o terreno e os olhos, sentimentos, para um novo cultivo; atingir as situações limítrofes não eram tão difíceis, mas chorar por elas tornavam-se cada vez, demasiado raras e ocasionais.

O limítrofe avançava cada vez mais a oeste, e perdido no horizonte que ele esquecia dormindo às quatro da manhã, cujas lágrimas eram diamantes cada vez mais raros, e a dor transformava-se em uma visita banalizada, costumava dizer que algo precisava irromper.

A possessão tomou conta dos sonhos, e em nenhum momento Soto Maior logrou uma ajuda que não se esvaziasse em si mesmo.

Soto Maior, cujas mãos não encontravam mais as lágrimas nem os olhos, cujo cultivo de si próprio, provocou desistências, cortou-a, pelas beiradas, e depois de acabado o intento, queimou-a com um isqueiro, parte por parte...

E assim aquela carta esfarelou-se consigo próprio.

(...)

Amanhã enfrenta o mundo; amanhã, secará lágrimas inexistentes. Amanhã ele buscará mais pontos limítrofes. Estes não bastavam.

E era disto que tinha realmente, medo. Medo.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Fodendo o ano novo

Numa noite que não significava nada, e que nada tinha a dizer além dos personagens, coisas aconteciam e as estrelas nem por isso deixavam de se esconder.

A noite resolveu não citar nomes.

Uma mulher às quatro e cinquenta desgostosa do namorado, bêbada e patética por ter encontrado um homem não tão retangular como de costume, resolveu chamar sete gorilas amigos, que a carregaram, pagaram mais cervejas e levaram a desgostosa bêbada, e patética para o acalento do machismo, do namorado e dos próprios símios, desgostosos com eles próprios, mas profundamente acalentados pelo namorado traído.

Um namorado traído por si mesmo, que juntava uma bêbada não tão patética e sem álcool, fazendo serviço na Barata Ribeiro em Copacabana, e que ganhava a vida atraindo gorilas, apesar de acabar com a antropologia de boteco em noventa por cento dos casos quando era obrigada a foder com força aqueles homens tão machos, travestia-se e era assim sua vida, uma vida bandida.

Travestida, a andrógena linda e amorosa optava ou por novas regras gramaticais que lhe aplicassem gêneros simultâneos ou ainda assim, conseguia optar sóbria, por uma conversa racional e decente(!), onde os conselhos salvariam um macho, uma fêmea e um amontoado de polietileno, que inevitávelmente chocariam-se no meio da avenida Brasil caso a andrógena não intervisse junto com o destino.

Conselhos de bicha.

Um macho sensível, não tão macho por ser sensível, esbaldava-se numa boate fêmea quando ele sabia que aquele lugar travestia-se de macho; onde até as mulheres masculinizavam-se ignorando-se e ignorando umas as outras, e uns aos outros, onde o que valia realmente eram as relações de poder e não o sexo do sujeito ou sujeita envolvida e sujeitada.

O sadismo vinha com a comanda e podia ser pago à vista ou com sete cheques parcelados, desde que o gênero constasse no verso daquela cartolina mal ajambrada.

No final da noite, o macho sensível encontrara um cavalo, um cachorro e outras forças da natureza que acabaram lhe descrevendo a noite sem necessidades de descrever poesias infantis.

O mundo animal lhe bastava.

Andrógenos eram todos sob a cerveja masculina do poder.

sábado, 22 de novembro de 2008

Contos incompletos

Ainda doía de uma forma tão viva, que Vasilli acostumara-se a confundir as janelas com os corações.

Sentia a poesia como uma verdadeira oração, uma oração viva, que clamava impiedosa sob o ardor de uma memória e de um desejo:

"Sou um pingo de chuva... Emoldurado pela cor dos teus olhos... Sou um pedaço de nuvem apimentado pelo ardor da tua boca. Sou um raio de luz. Perdido na curva do teu corpo. Sou uma folha ao vento, Cheio de ti, completo de tu. Sou um cálice transbordando paixão. Sou um efeito, um acidente, um tufão... e tu... És uma força da Natureza!"

A folha de papel envelhecia, a poesia continuava viva e resplandecia apenas pelas bordas do cotidiano. E Vasilli quando olhava, olhava para o reflexo sob a gota d'água que brutalizada pelo clima e pelos olhares dos sujeitos, escorria por sob o vidro da janela e emudeciam, os dois, ele e a janela.

As terças, as quartas, e as segundas, não cabiam, não se conformavam, e volta e meia a poesia retornava, na esquina, no banho de manhã, no café da tarde, ou simplesmente voltava: "emoldurada pela cor dos teus olhos" como um pedaço de nuvem.

Vasilli em sua esperança crônica de início de semana, costumava enganá-la com algo que chamam costumeiramente de racionalidade, mas era em vão esconder si mesmo em filas de banco, tarefas e compromissos profissionais ou até mesmo nas detestáveis e não menos odiosas frases de efeito de nove segundos. Detestáveis profissionais do cinismo ou consumidores de alguma fôrma-existência descartável que terrívelmente funciona! Funciona! E por ela funcionar, que cento e setenta e cinco pessoas podem se espremer num vagão dentro do metrô, onde cabem apenas noventa.

Adorava o céu de sua janela. E era seu céu. Um céu particular, como todos os céus o são.