quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Auspícios Animalescos

Quando situava-se no centro do furacão algo o impelia para as bordas, como um Furão, ou um Guaximin, apesar de achar qualquer semelhança com a natureza selvagem extremamente simplista. E simplismo era um refúgio de gente fudida, fudida e feliz. Então resolveu escrever tudo. E aí resolveu voltar no que tinha escrito e rechear tudo aquilo com o que despertava e trazia à tona os tabus.

Algo o impelia a repensar e ver em toda a situação mal explorada uma oportunidade.

Uma oportunidade para uma tragédia, uma deliciosa tragédia dionisíaca, regada à cinco ou seis guimbas de cigarro, a cinco ou seis reflexões sobre o que fazer com aquele caso passageiro, ou como montar um manual que ensinasse a abandonar aquele amor platônico em cinco, no máximo seis semanas; apesar do quê, três ou quatro semanas eram uma regra de campeão.

Escrevia melhor quando não tinha regras, quando cuspia nas normas, quando esquecia seus censores ocultos, que caminhavam e lhe convidam para festas, corações felizes que lhe encontravam no cotidiano da aula, no cotidiano da sala de estar, os censores no falso mezzanino do consultório médico, o cabaré acadêmico ou a igreja dos contras.

Quando pensava que escrevia apenas para si, e que ninguém além dele próprio iria ler os absurdos, aí sim, o novo surgia, o ousado brotava. E algumas pessoas, egocêntricas como de costume, achavam que poderiam descortinar vinte e cinco anos de segredo com uma lida casual... bobagens! Irônicos! Como um míssil de cinquenta milhões atravessando um país pobre no sul da África Meridional! Irônico.

Estava tudo ao alcance das decisões. Mas há um caminho irriquieto e sinuoso entre a decisão e a ação. Agir era sempre mais barato, mais rápido, mais fácil. Comprar café custava oitenta centavos! Mas puxar assunto com a ruiva do lado direito do balcão! Ah! Isto custava muito mais caro... muito mais...

Decidir envolve mobilizar. Mobilizar todos os músculos e vontades, dobrar a consciência, obrigar o corpo. E isto requer contingência, requer uma concordância cínica de todas as partes de si próprio, e concordância requer diálogo. E isto não era fácil! Um diálogo que está subordinado aos controles históricos, aos domínios e apropriações do corpo. Que até surtia efeito quando dizia para a Ruiva, dois anos depois que amava seus próprios heterônimos e não a ela, mas definitivamente não conseguia superar as limitações dessa vida pseudo-medíocre que queriam vender-lhe junto com os planos de saúde nas saídas do metrô.

E era tão simples, tão simples, como comprar um livro no sábado de manhã num sebo mal frequentado de Copacabana; e já não gastava mais do que quinze reais consigo mesmo, há alguns anos... Mas o inesperado de tudo isso, era recorrer aos instintos animais, a habituar-se ao inabituável e inesperado despertar do óbvio.

Como a freira que sim, como se não imaginasse deus, liberasse hormônios e algo mágico acontecia, como uma ereção ao inverso.

Falar muito é apenas se esconder dos demais. Tentar melhor é redundância.

Tentar é sempre o melhor.

Tentar sempre afasta os censores. Tentar é habituar-se aos auspícios animalescos, mesmo que a conversa com a ruiva seja indevidamente inapropriada ou isenta de talento.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Para Florbela Espanca

Quando o poema
E o poeta
Vivem mútuamente para si.

Todo o mundo
Despedaçado de ambos

Resolvem conspirar
À favor do poema
Não do poeta

Gênio sem brilho
Cunhado por um
Sujeitinho,
Gente comum.

O poema aguarda
Que a flor triste
Do fingido, resolva
Dar vida ao poema

E quando morre o poema
O sujeito aguarda
E às vezes aguarda
Novamente

Mas quando morre o sujeito,
Em favor do poema
O poema e o mundo fingido
De gente comum
Despedaçado de ambos
Elevam o poeta à gênio

obs: em homenagem a Florbela Espanca, é óbvio.

Poesia Húngara: SANDOR CSOÓRI

Um de meus habituais e talvez non-sense hobbies é tentar conhecer poesia das mais distintas regiões do globo. Quanto mais culturalmente distante no sentido em que me permite meu limitado regionalismo latino-americano, melhor.

Inauguro esta seção, com o poeta húngaro Sandor Csoóri. A poesia realmente não tem fronteiras, mesmo as mais distantes. A tradução deve ser algo complicado... diga-se de passagem.

MEMÓRIA DA NEVE

Às vezes o Inverno muda de parecer
e começa a nevar,
neva espessamente, em desespero, como se temesse
não viver até o dia de amanhã.
Nestes casos é melhor desligar o telefone, a campaínha da porta,
pôr vinho a ferver em cima do fogão,
folhear cartas antigas
e olhar para trás, também, para a minha vida,
como se ela não tivesse acontecido.
Como se não me tivesse olhado o canhão, nem olhos lascivos,
como mão surradas, não se tivessem alongado pela minha mão;
e tudo que fosse política, amor, dobre de sinos,
me esperasse de novo num horizonte de oceano.
Nestes casos o melhor é imaginar
que ainda posso chorar pela minha cabeça perdida,
o vento atrai os lilases para cima
de camas, meios-corpos e almofadas desgrenhadas,
e no juízo final terrestre
posso estar de pé ao lado de bons companheiros
em camisa macia e casaco leve
além de fumo, tascas, cemitérios,
fixando o olhar nos olhos dum país a perverter-se
sublimemente,
na minha cabeça há memória de neve,
neve, neve como se o reboco duma catedral
tombasse silenciosamente.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Insetos sem compaixão

Quando entrei naquele cômodo, às quatro da manhã, o inseto fugiu.

Contorcia-se na porta de pinho, com medo da minha luz e do meu movimento.

O artrópode, aquele que eu senti pena, deveria mesmo, era sentir pena de mim.

O navegador e o cartógrafo

Eu insisto é verdade. Navego e insisto. Insisto por que não me enfastio de mim mesmo. Pois em mim há um outro. Um outro que insiste em viver e que decerto não nego em seu conteúdo.

Mas o diferencio por ser este "um outro". Um outro que vive em mim; um cartógrafo, que tem outras idéias, propósitos ou razões, apesar de corroer as mesmas vestes e vestir o mesmo corpo.

Este outro alguns dias vence. Alguns dias perde.

Quando ganha, pinta, bebe e escreve. Mas há dias em que venço. Raríssimos.

E algo de tudo isso eu faço. Faço completamente sem ele, apesar de entediar-me rápidamente.

Alguns dias o empate. Dormimos. Sonhamos um com o outro. Sem saber bem, quão espelhos, quão imagens somos verdadeiramente.

No jogo e no sonho a tensão; cabelos vermelhos nus como novidades, olhos de rainhas e é dia de limpar o lodo do abismo, abismo que eu descortinei. Abismo onde resolvi navegar com meu cartógrafo.

Quando o outro lhe convidar ao abismo: vá preparado. Lanternas, luzes, barraca de dormir, saudades.

Não há mapa a venda. E os que hão, da mão do cartógrafo nasceram; portanto não são confiáveis.

Sem mapas não se acham as ruivas.

E é exatamente por isto; que eu prefiro ser encontrado. Encontrado pela ruiva, por acá, acá no abismo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Compro Ouro

Detestava receber papéis na rua
Mas deus
Sempre lhe anunciava
Alguns puteiros

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bonitinho mas ordinário

As coisas tinham mudado. Anatole viajara para o Uruguai.

Eu vadiei pelo interior de cidades tão distintas quanto meu humor, e você, bem, você se foi, e nunca mais voltou.

Era um dia chuvoso, uma chuva que molhava a madeira velha no fundo dos quintais, o cheiro de paralelepípedo molhado me contaminava, e eu me via obrigado a evocar uma lembrança covarde.

A chuva acabava rápido. Eu demorava mais a me acabar. Acabava-me lentamente, mas com certo orgulho e prazer, afinal, matar-me cotidianamente me fazia um ordinário mais vivo.

Quando eu retornei para a cidade caos, eu me lembrei de pegar aquelas velhas correspondências, suas correspondências, que você tinha me enviado. Enquanto eu folheava uma das cartas, me lembrei da decepção que você sentiu quando eu fiz aquela brincadeira; eu disse que iria me prostituir na terça a tarde, prostituir-me pelo capitalismo, mas você não gostou.

Na época eu não entendi. Sensível não seria a palavra adequada, porque evocaria fragilidade, e eu detesto ser frágil, mas estúpido eu não sou, rude é o adequado, mas você sempre soube que eu sou é um filho da puta intuitivo.

Sou distraído. E empático. Você sabe. Intuitivo e empático são coisas normalmente desagradáveis. Além de anteciparem a derrota, acabam nos fazendo identificar nos algozes.

Heróis ou carrascos.

Eu sempre reclamei com você, que essa minha empatia era um desconforto cotidiano. Era um soco no estômago, uma úlcera que crescia, que me obrigava a compreender mesmo os canalhas.

E eu odiava ter de entender os canalhas. A não ser quando eu desejava aniquilá-los verbalmente.

A minha empatia folheou você. Mesmo com seus olhos(verdes ou azuis?) emblemáticos eu te atravessava no meio da tua avenida, aquela que ligava seu coração aos meus olhos, aquela avenida bonita, feita de sangue, de beijos de final de semana, beijos de domingo, depois do cinema e da pipoca, e você sabe, e sempre sabia que era hora de nos fatiarmos mútuamente. Era hora de revelar aquela sombra que obscurecida pela luz dos nossos valores, ousava retornar pela porta de trás, do modo mais honesto: com lágrimas, relâmpagos e vez ou outra, queimaduras de cigarro.

A gente se entregava. E o amor mais bonito é o que menos certo dá. O amor mais legal é justamente aquele que mata parte de si para sobreviver.

Quando você se prostituiu, eu não sabia bem o que dizer, eu já sabia das drogas, eu sabia de tudo o que fizemos juntos naquela noite louca, mas paramos por ali. Eu não sabia, eu fiquei preso, eu sabia que ficar preso era me condenar, mas você enlouqueceu ruiva, você enlouqueceu, enquanto eu sabia que se me condenassem eu tomaria veneno ou cortaria os pulsos, mas graças a nosso amigo Anatole, eu, o pobre Vasilli, consegui chegar na cidade caos ileso.

Aquilo foi duro demais. Eu me odiei, por que eu fui responsável, você precisava sobreviver, precisava me soltar, e eu precisava viver, mas não fui forte o suficiente para me matar.

E você se prostituiu.

Ruiva, eu rodopiei durante anos, eu te reencontrei e te perdi, eu te perdi mais de uma vez, você estava lá, em cada viagem, em cada espelho, em cada esperança... Eu mudava de emprego, de cidade, de rotina, mas nada mudava realmente. Eu ainda era madeira velha apodrecendo mais.

Os pingos de chuva molhavam esta madeira velha, eu me amava mais do que as pessoas ao meu redor. E você meu amor. Você meu amor, meu único amor! Estava perdida, perdida, sem que eu pudesse te encontrar ao redor do globo, você era um fantasma vivo, que me condenava a te procurar, te procurar, como um Sísifo pós-moderno, como um Ícaro condenado a desabar sob o céu cinza da modernidade tardia, eu apenas olhava espelhos, recebia suas cartas, algumas que nunca mais chegavam e rezava para conseguir cigarros o suficiente no próximo final de semana.

Eu acendia um cigarro, sempre nas noites secas ou muito chuvosas, e me lembrava que você não estava aqui, mas sua presença, sua presença era um ultimato.

Eu me afoguei diversas vezes nas minhas lágrimas; ruiva, eu me viciei em duas coisas distintas, aparentemente opostas, mas possíveis: eu amei a tua presença, amei a tua ausência.

E você, você, com seus cabelos ruivos... Nós dois nus, naquele quarto calorento e sufocante, com relâmpagos pós-chuva, os dois abertos no meio, abertos emocionalmente e físicamente, beijando-nos e nos desejando, mas fundando limites... Sempre acabávamos teorizando e a mágica nunca acabava. A mágica nunca acabava; nem quando eu saía nu e voltava com água gelada.

Aí você já jazia viva, dormindo, como um anjo, e eu te olhava ainda mais, bebia a água sozinho, e me lembrava sempre quando você sussurrava aquela palavra estúpida antes e durante o sexo, "bonitinho mas ordinário, bonitinho mas ordinário..." E eu adorava...

E foi essa única frase que me permitiu lembrar de você, sem gosto de madeira velha, pois eu sempre dava um sorriso e desencadeava todo o resto. Eu sempre me prostituía em troca das tuas lembranças. Mesmo você não estando aqui.

Mesmo longe, você não morria. E mesmo se você morresse, duvido que você ficaria longe da avenida que liga meu coração aos seus olhos. Eu duvido muito.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vida quase normal

Cachorro
Emprego
Contas a pagar

Lúcio um dia, chegava lá

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Lugares mal iluminados



Quando não percebemos e somente neste ponto específico, somos promovidos à função de carrasco, ou herói.

Heróis andam escassos, mas os carrascos vendem-se pelo atacado.

Inconscientes do destino oculto da vida, promovemos chacinas afetivas em cada esquina, cortamos corações e destruímos afetos trocando de roupa.

É o motor.

Anatole assim acreditava. Um tolo, que crê num destino oculto da vida, acredita e professa em fé, uma razão secreta da história e da vida; credita a um plano lógico uma emersão de fatos que só a posteridade lhe parece reconhecer os feitos.

Mas para Vasilli, e Vasilli costumava dizer isso sempre após acender um cigarro ou tomar um gole de cerveja sincera, aquilo tudo era metafísica barata. Era merda metafísica. Cristianismo invertido em ciência. E que ele tinha de recomeçar a pensar.

Apesar de ateu Anatole, és um metafísico incurável! Dormes com deus todas as noites! Teu otimismo, podre otimismo de salão, esconde esta metafísica tão bem aconchegada na tua frase padrão.

E para Vasilli, mero entregador de frases de efeito, que bem escondia um rancor deplorável pelas porcas de barro que guardavam dinheiro, afeto ou idéias, pelos mujahedins do cinismo e também costumava detestar a si mesmo, sempre que lhe recaíam sob os ombros a função de carrasco , viver é fazer a si mesmo na experiência.

Segundo Anatole, Vasilli, era um bêbado empirista, que desfocaria metade do mundo se a outra parte dele afirmasse que quem desfoca a realidade é o alcoólatra. Vasilli aos olhos de Anatole era um mero solipsista à procura de uma âncora afetiva que pudesse dar lastro aos seus sonhos estúpidos.

Os peixes do aquário de Vasilli não nadavam enquanto ele dormia, costumava dizer Anatole.

E ainda assim, apesar das diferenças, os dois se encontravam num boteco de final de semana para beber, conversar e saber em que função os dois se encontravam no momento.

O carrasco é o auto-alienado de seu livre-arbítrio, de sua potência, dizia Vasilli. Quem assume seus atos, quem age não pela metade, mas se entrega inteiro até quando está apartado ou cortado ao meio, este sim, nunca será carrasco. O carrasco é o que finge dizer que há uma força oculta que lhe move, e que seja a história, o inconsciente ou o que quer que seja. O carrasco é um homem de má fé. É um homem que entrega a outrém, mesmo abstrato, deus, psicanálise ou metafísica, os meandros de sua própria vontade.

Anatole, costumava receber essas afirmações de Vasilli, com um misto de irritação e de espanto.

Como um homem vive sem suas forças externas? Como algum ser humano pode embalar todo o mundo e tornar a realidade uma massa compactada que repousa sob seus ombros?

Quem é cristão por final é você Vasilli. És um cristão que troca a cruz pela tuas ações. O mundo repousa sob teus ossos e sinto que tua noção de carrasco está equivocada.

Para Anatole, as coisas ruins, serviam sempre para revelar um futuro bom. E quando não revelavam um futuro bom, apenas eram necessárias para que outras coisas ainda mais ruins não acontecessem. Um acidente de carro, uma chacina, ou um fora de final de semana não eram em si ruins. O bom ou ruim só se revelavam na ação a posteriori. E o fato posterior sempre era bom , pois se reconfortava na unidade da vida e encontrava o pagamento de seus pecados na linearidade do tempo.

Para Anatole, sempre havia um acontecimento futuro, necessáriamente bom e que encontra sua bondade no acontecimento passado, que revelava a necessidade de qualquer tempo presente ruim. Quando ainda nada havia de bom no futuro, ele acendia o cachimbo, olhava para o horizonte e dizia que era o plano secreto se manifestando. Era melhor não perguntarmos o que a lógica ou o espírito do tempo nos quis exatamente dizer.

O ruim dizia Anatole, fora ruim, é verdade, talvez até desprezível, como aquela viagem decepcionante e todo o grande afeto desperdiçado nos restaurantes de estrada, mas se aconteceu assim, aconteceu pois que algo ainda pior estaria destinado ao período presente. O plano secreto fez justiça. Falava e retomava o assunto, repetia muitas frases para se fazer entendido e então, recomeçava a tragar, como um profeta falhado - não sem antes acender o cachimbo com ervas aromáticas sabor primavera.

O carrasco de Anatole era sempre o passado do herói. Todo herói tem um quê de carrasco pretérito - dizia.

Para Vasilli, o carrasco e o herói eram em suma a mesma pessoa ou a mesma coisa. Não havia uma sucessão temporal, mas sim um dispositivo dialógico entre esses dois pólos aparentemente opostos, mas que se complementavam, alternavam-se, como um bailé ou um jogo de espelhos dentro do Theatro Municipal.

Ambos, Vasilli e Anatole digladiavam-se, esgrimavam-se enfrentando na verdade a si mesmos. Não eram filosóficamente inertes, pois costumavam questionar e trazer à tona seus arrependimentos, cada um à sua maneira...

E quando jaziam inertes em paradoxos irresolvíveis, perguntavam-se quais das posições estavam assumindo. Heróis? Ou Carrascos?

Havia uma linha muito tênue, temporal ou empírica, era uma linha minúscula que dividia tais concepções.

No final Anatole e Vasilli costumavam aceitar o fato de que eram todos vítimas e algozes enfileirados em torno das pobres experiências. Cansados, exaustos pela cerveja, pela rotina que impunha-se menos filosófica ou apenas pelo fato de não mais suportarem se digladiar, acabavam assumindo uma pobreza de experiências, estas que descortinam o tempo, as decepções e por fim os lugares mal iluminados.

sábado, 18 de outubro de 2008

Entre uma origem e um desejo

Não é o que parece
Pois se parecesse
Seria coisa do coração
E o coração

O coração só mente

Não é tão ruim
Ruim quanto transparece
Nem tão inédito

Pois se inédito fosse
O coração alquebrado
Diria que é mentira
Pois sim, seria mentira

Se o vidro quebrado
E o grito no escuro
Fizessem um silêncio arrastado

Parte dos muros, dos finais de semana
E dos corações
Assemelhariam-se à coisa qualquer
A algo já meio despedaçado

Estou entre uma origem e um desejo!
Sou um muro de final de semana
Sou tão ruim quanto posso transparecer

Sou um silêncio arrastado
Arrastado e se assemelhando a uma mentira
Não sou o que pareço
Pois o coração

O coração! Só mente!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Aviso ao leitor

Escreve
Escreve como eu
Mas não te compara a mim

Sacrilégio seria
Se tu, em tua infinita
E infinita percepção
De mundo e de ti mesmo
Se comparasse a outrém

Um qualquer medíocre
Que só enxerga como si
O mundo ao seu redor
Por isso
Caro leitor

Nunca
Ouça-me bem
Jamais
Te compara a mim
Ou outro outrém

Ao ser tu
Digno de si mesmo
Deixa-me encantado
E me ensina aprendendo
À ser tu

Nas tuas angústias
Só tuas

Onde cada tortuosidade
E cada autor
Sempre precisarão
De outro outrém
De outro
Não tão próximo

E que
Por se afastarem tanto...
Acabam se encontrando
No recôncavo macio
Da dor

E por isto
Se merecem
E se lêem...
Uns aos outros!

Desesperança impele a ação

Fazer algo diferente é difícil.

Tente recondicionar um rato de laboratório. É como Vasilli sentia-se ao sair, ao entrar, ao sair novamente do metrô, da fila da comida, das noites com muita vodka, médias angústias e pouca imaginação.

Olhava-se no espelho e não se encontrava. Ainda restava esta incógnita, ávida por situações limites, pois sim, pois bem, é fácil prever o comportamento de um ou dois ratos, caminhando sinuosamente por labirintos de silício ou concreto, pois bem...

A dificuldade, e toda dificuldade humana obrigatóriamente caminha junto com uma reconstrução radical de si mesmo, está em prever algo que não tem uma estrutura definida, uma base sólida, um "vir a ser" contido em uma trajetória bem definida, o vetor colégio-faculdade-filhos-família-fim-de-festa.

Não ter uma estrutura definida, ou bem melhor, não ter nenhuma estrutura, requer culhões ou atrevendo-me a heterofobia, um útero que acalenta um ódio constante de si mesmo e que obriga sem condições a exterminar-se todos os dias. Quem recomeça pode usar o ódio como metáfora, apesar de saber que não é ódio o que se sente, mas necessidade imperativa de fragmentar-se. O esporte é catar cacos. Juntá-los. E recomeçar. É o eterno retorno. Como o mito de Sísifo, como só Nietzsche e Camus compreenderam.

Pois a vida, a vida dos desajustados, é um devir, uma passagem, onde o objetivo não é chegar nas estações, não... isto é coisa de gente equilibrada, gente que olha para trás com uma nostalgia cheirando a hambúrger de gordura na chapa, vestindo um emprego classe-média de quatorze horas por dia.

Gente torta gosta de andar na corda bamba, de mover-se entre o circo e o abismo. De renovar uma desesperança nas esquinas da vida. Porque ao contrário do conhecimento enciclopédico do colégio de fim de semana, a desesperança é uma face do problema, a desesperança move, impele Vasilli a ação. A desesperança tem de dar tesão de explodir convenções e laboratórios, senão é covardia.

O absurdo do mundo, do sujeito, da identidade assassinada pela má convenção, obriga e impele ao assassínio das heteronomias.

A reconstrução radical do sujeito, impele o convívio brutal e nem sempre harmônico da esperança e da desesperança, do amargo, do suave, do contraditório, da policausalidade.

Continuo na função de espelho. Olha e detesta-me quem quer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Despido dos censores

Quando tinha uma má idéia, costumava andar sem rumo pelo centro da cidade ou evocando um espírito indômato já derrotado, sentava na janela e observava a lua, as nuvens ou algo que se se assemelhava ao seu céu.

Não obstante acabava cansando; cansava-se por que insistia em inserir um outro inexistente naqueles momentos que eram só e tão particularmente seus.

Inseria esta presença invisível, este olhar oculto que fazia-o sentir-se patéticamente superficial.

E não era deus, pois seu ateísmo não-praticante apesar de disperso, não lhe permitia transformar seu ego humano em pura metafísica.

Vez ou outra, aqueles momentos acabavam assim, vencidos por este persecutor invisível.

Um carrasco que só existia nos meandros da sua mente, mas que concretamente sabia agir como um bom censor: condenava o que outrora era profundo à mera e pobre superficialidade.

Transformava um ato de fé em frivolidade, um exercício de introspecção em coisa rasa, uma dor profunda, em mero capricho, de gente que não tem nem o direito nem os motivos certos para sofrer.

A dor só era mais vítrea e a angústia mais honesta, quando o outro morria sem lutar, quando a presença invisível evitava confronto e o censor jazia morto sob uma lágrima sem motivo aparente, mas completamente honesta.

Era aí, e somente aí, que podia começar a escrever, sonhar ou amar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mal-ajambrado

No meu ímpeto misericordioso, tento transformar minhas angústias em angústias coletivas, apesar de saber que não há nada mais precioso e meu, do que as minhas e só minhas angústias.

Quando exponho minhas entranhas em público, seja num gole de cerveja, num sorriso mal-ajambrado ou num texto escrito em papel de guardanapo de final de semana, eu sei, sim, eu sei que exponho não só minhas vergonhas, mas as vergonhas de outrém.

Quando me lêem, sei que não só me lêem ou me exumam diante do mundo; sei, e tenho a certeza a cada letra cuidadosamente cunhada, que estão a se destrincharem diante da ribalta de silício, estão a se esquartejarem comigo, este autor, torto e pobre autor...

Quando me despedaço e me olho como os de fora verdadeiramente me olham, sei que dou a oportunidade para que façam por conseguinte o mesmo, pois a sombra e o defeito do outro, é sempre do outro, até que o fato seja verdade. Por que nem todo fato é verdade e nem toda verdade é fato até que encontre-a verdadeiramente assim, posta de lado.

A face que oculto de mim é sempre mais clara ao desterro do amigo, ao ódio sem condição, a paixão imigrante e recorrente; e ao afoito ouvinte ou faminto leitor.

Na verdade e devemos falar a verdade sempre que ela se apresentar mais estética, falo como um autor comum, comum como as mais comuns das criaturas: as do ponto de ônibus.

O texto, este pedaço de coisa parida, tem a envergadura de um zé comum e o conteúdo que é do tamanho do infinito ou da mediocridade de quem me lê.

Sou um caco de espelho mal-ajambrado, só reflito o quê e quem me olha.


sábado, 27 de setembro de 2008

Anninka nas estações

A vida de Anninka não tinha mais sentido.

Ela achou ingênuamente que o sentido se revelaria diante do caos de sua rotina. Diante do ônibus, do amor perdido, da paixonite de final de semana, do emprego que nunca chegava...

Mas o sentido não desabrochou com a primavera, e ela virava cada vez mais adubo.

Quando o cinza tomou conta do céu, os viadutos e os remédios proibidos pelo terapeuta ficaram cada vez mais atraentes. E Anninka, pensou em dar um sentido para a vida na morte.

Joana e Krist ficaram preocupados, pois gente fria em país quente é garantia de resfriado ou de suicídio.

Os pulsos de Anninka ganharam uma pulseira verde-marrom e o sentido mudou em cada estação.

O mundo continuou e o adubo da primavera foi comprado na banquinha de flores mesmo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Comentários fortuitos

Ultimamente ando odiando boa parte do que escrevo.

Este texto pode conter cenas não recomendadas a adultos

Coca sem gelo. E ele não bebe refrigerante.

Nem gastrite, nem tensão, apenas luxúria.

O tédio tomou conta do cômodo. Adorava quando isto lhe acontecia. Pedras de gelo tintilavam no copo, os maços de cigarro se esvaziavam e ele costumava fazer o que sempre fazia quando o tédio lhe consumia: chamava o absurdo para uma conversa.

Pior do que a dor era a monotonia sem causa. A entediante rotina que lhe incomodava sem realmente significar necessáriamente um pedaço de coisa relevante.

E cada desgraçado que cuspa na sua desgraça!!!

A cerveja fazia mais sentido do que o livro, do que a condução, do que o metrô lotado, do que as frases jargões de quem acha que sabe mais de você do que você mesmo.

O cotidiano era uma pura perda de tempo.

Olhe para a raiva nos meus dentes, e falava batendo na cara com força, falava estapeando-se, em frente ao espelho enquanto algum filho da puta sincero, hipócrita, mas sincero em sua mediocridade, podia fugir dos abismos, fugir o tempo que lhe fosse preciso.

Era o preço da ignorância. O ignorante foge dos abismos. O idiota os procura.

Olhe para mim seu filho da puta. Olhe nos meus olhos e diga com a certeza entre seus culhões que você é a escolha perfeita de deus. Besteira! Merda tendenciosa...

E sabia, mesmo baixando o volume de voz, enquanto a respiração arfava, e a terceira ou quarta sinfonia emoldurava o mais-do-mesmo.... que enquanto os cacos do espelho caíam no chão de azulejo daquele banheiro medíocre, daquele banheiro imundo, imundo como a alma do mundo hipócrita defendido nas sextas-feiras felizes, um novo mundo, um mundo renascido da sujeira criava um novo ser humano.

Um desestruturado.

Arfava e sentia os pulmões congelarem. E sempre neste momento, os hipócritas, os demagogos, os ignorantes, os cafetões emocionais e as putas afetivas de final de semana se reuníam com os dedos apontados.

Ninguém disse que seria fácil desagregar-se de si mesmo no meio do trajeto da vida...

Nenhum filho da puta explicou que o preço a se pagar seria este: cacos de espelho no chão, respiração pesada, pulmões congelados...

Nenhum imbecil demonstrou que esse plano não daria certo. Que esta merda iria fundir no meio do caminho! Porque não compraram outro motor?!

Ninguém disse que a cerveja esquentaria, que o mundo viraria uma repetição, que ele teria de escrever tudo antes que alguém o negasse.

Ele não se arrependia, mas podiam ter enviado o manual de instruções junto com a coca-cola sem gelo. Pelo menos não teria gastrite, pelo menos não escutaria som de Manchester, pelo menos não perderia o tempo explicando-se a infelizes que o sentido era uma criação humana.

Comprar um sentido para vida era muito fácil.

Mas este filho da puta desequilibrado não comprava sentidos na vida. Não tinha obrigações com os fúteis, com os medíocres, com os recalcados e com nenhuma pseudo-mitologia de final de semana.

Ninguém explicou que que de Getúlio a Castelo havia apenas meia dúzia de lápides. Ninguém disse que até a raiva passa. Até a música acaba. Até a adrenalina se bebe com aquela coca-cola aguada.

E era só um dia de semana ruim, que ele transformou em algo melodramático. Tedioso e melodramático.

Ofensivo, ruim.

Coisa de gente desequilibrada.

Coisa de gente que adora comer absurdos. E o absurdo de vez em quando aparece, algumas vezes sorridente, magro de sentido e fútil.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As coisas que se desmontam

Normalmente olho para textos antigos, folhas de caderno soltas, envelopes abertos, para me inspirar.

Mas é tudo merda. Merda.

Quando olho para aquela parte boa, aquela parte singela e ingênua de mim que costumava acenar no domingo de sol; eu paro e digo: seja realmente rapaz, seja realmente o que você é.

Este rapaz que tenta se inspirar em folhas, e cadernos soltos. Seja o que você é.

Uma repetição. Talvez otimista.

E quando o mundo cai, e preste bem atenção, o mundo cai sempre nos finais de semana errados e nas tardes em que ninguém além de você percebe, os significados e os significantes costumam fugir pela janela do ônibus.

Com sorte há uma anomalia, um desvio padrão que obriga a dizer um ou dois palavrões.

E tudo volta.

Mas há um momento em particular, um momento bem catastrófico, apesar de interessante e comum, onde as regras do jogo parecem não ter mais sentido. Na verdade, o próprio sentido parece não explicar-se; o sentido não mais existe e o absurdo reina.

Reina dentro de você. Apenas você.

A organização das casas, o formato dos portões, a velocidade e forma dos carros, as pessoas indo de um lado ao outro, dia após dia; os botões, os livros de pós-estruturalismo, os livros que negam o pós-estruturalismo, a gramática, alguém que resolve não pensar nisso tudo, o planeta terra, as geleiras glaciais, o deus cristão, a organização da poesia, pensar sobre o caos. E você.

Café da manhã.

Não. Não há sentido. O absurdo, quando não vem enlatado em situações limite, implica serendipidade, implica desapego.

Apesar do quê. A merda do desapego é o contrário do que pretendo aqui. Pronto, falei tudo.

Não se deve falar assim, tão explícitamente explícito como um aparelho excretor em funcionamento, mas a verdade é que parte de mim não gostaria de transformar um texto tão bom num requiém gramatical. Mas mesmo assim você já transformou minha vontade na sua vontade. Teu infinito me consumiu e sim, você está certo, não há espaço para infinitos coexistirem.

O texto acaba por aqui: mas ele prossegue.

Começando do princípio, e voltando ao normal, o que eu queria dizer é que tem dias que a gente não é humano. E você sabe disso melhor do que eu. E eu não preciso me esforçar para explicar algo que o absurdo lhe contempla. Não olhe para cá, olhe para dentro de si numa noite vazia, numa sequência de dias ruins, mas isto tudo é pouco para um dia em que você resolve tomar uma boa dose de absurdo e esvaziar as garrafas de abscinto de sentido. A noite normal que nem as anfetaminas lhe dirão algo. Pois o algo já se perdeu falido no origami reproduzido sequencialmente pela eternidade.

Tem dias que a gente enlouquece e ainda produz cadernos soltos, envelopes vazios, contos ruins.

Há dias que o absurdo nos engole.

Há dias em que coisas absurdas acontecem.

E acabam. Acabam assim, como começaram, dentro de você.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Minhas Dores / Tinhas Dores

Minhas Dores

Minha dor não cabe numa terapia
Se coubesse, não seria minha dor

Mas sim, uma dor alheia
E por ser alheia...
Não seria mais minha dor
Mais uma dor que seria outra

Por conseguinte
Uma dor sem importância
Uma dor frívola como um céu arrebatado!

Como todas as outras dores
E portanto mínima
Aos olhos de minhas dores
Ou de elucubrações de final de semana

Que apesar de não terem olhos
Olhos no céu!

Seriam fatídicamente!
Como uma dor de outono!

Tinhas Dores

Minha dor não cabe numa merda de terapia
Se coubesse, não seria uma filha da puta-dor

Mas sim, uma porra de dor alheia
E por ser caralho, alheio...
Não seria mais minha buceta de dor
Mais uma dor que puta que pariu, seria outra

Por conseguinte
Uma dor sem importância
Uma dor frívola como um cú arreganhado!

Como todas as outras dores
E portanto mínima
Aos olhos de minhas dores
Ou de menstruações de final de semana

Que apesar de não terem olhos
Olhos no cú!

Seria fatídicamente!
Uma dor de corno!!!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tardes Vazias

A fase da introspeção não é indiferença, talvez nem tristeza.

Não é nada em particular, é apenas atrito.

Esperando desastres ou milagres. Esperando algo que pontue o cotidiano.

O tempo precisa ser marcado.

Falta algo e eu sei.

Os fios de cabelo envelhecem. E daqui a dois sábados planejei um porre, para mudar o cotidiano.

O álcool não é mais divertido, quando não se tem a segurança do lar.

O atrito é silencioso, pessoal, intransferível.

Ocupar alguns espaços sempre é bom, quando se tem vazio demais para oferecer. Um vazio voraz que sempre clama por mais espaço, por mais milagres, enquanto a matéria envelhece, o corpo pensa.

Exigências nunca me fizeram mudar o rumo. Não trocaria o atrito por uma vida sem vazios.

Os vazios me enchem; intransferíveis, pessoais, pontuam cotidianos, oferecem algo que eu nunca tenho mas sempre busco.

É um horizonte vermelho: e já que eu escolhi o vazio que me escolheu, posso me dar o direito de me mostrar assim: introspectivo.

Nem indiferente, nem coerente com as expectativas do outrém. Nem quente, nem frio, apenas engolido, engolido pelo vazio.


domingo, 14 de setembro de 2008

Poesias secretas

Você sorri com a morte nos dentes
E ainda assim resolve enganar
Todos eles que distribuem saliva na mesa de centro

Eu não bebi a última cerveja
Mas você me encontrou com gemido nos olhos
Era parte do tecido
Um tecido ruim

Você pagava o pecado na mesa
E eu nunca, guardei nada para ninguém

Eu te amava
Te amava

Como um sorriso no fundo
Ou uma porca pintada de verde e vermelho

Eu te amei com gemido na mesa
Eu era erótico
Minha saliva nunca guardei para ninguém

Eu te amava
E os que distribuíam sorrisos na mesa
Ou no fundo da mesa...

Não guardavam o pecado
O pecado que eu vomitava
Vomitava, na mesa, entre os dentes

sábado, 13 de setembro de 2008

Uma corrente

Vai vir um conto novo por aí...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Efêmero

Tudo passa, tudo vai. Algo fica, algo sai.

Era meia noite e eu tinha meu cachimbo. Tinha fumo, tinha raiva, iria fumar impaciência. A cicatriz no braço não fechava, talvez culpa da cannabis.

Há coisas que não merecem ser cicatrizadas e há coisas que não cicatrizam apesar de não merecerem. E pouca gente merece. Mas quem merece normalmente sabe deixar marcas.

E eu encontrava os fios de cabelo dela por toda a casa. Um dia eles iriam acabar.

Faltava limpeza naquele cômodo.

O som não funcionava e a estupidez estava no congelador aguardando a estrela certa. O sinal do óbvio estalava por todo o quarto.

É um quarto de esquina, de esgrima consigo mesmo, havia um sofá de dois lugares vazio, uma arena de tolos, conformada por sobre um circo particular. Confortável e gordo sofá, um gordo afável, que não usa em hipótese alguma os broches do "quer-perder-peso-pergunte-me-como"; é um sofá de bem com a vida, de bem com o quarto. Um sofá extremamente gordo.

Gordo de ausência.

A estante de livros, óbvia. Óbvia pois tinha livros; se não fosse óbvia guardaria sapatos e a mesa de centro marcada de fumo, de guimba, cheia de papel, evidentemente a que mais trabalhava naquele quarto infame.

O eterno é a mera soma dos efêmeros. Quem pensa o contrário ilude-se. Quem acha possuir o eterno ou o almeja, engana-se, pois apenas alcança efêmeros parcelados. O eterno nunca foi eterno. O eterno é esquartejado pelas pontuações do destino.

Papo de perdedor é claro. Mas quem nunca perdeu, quem segue os modelinhos nascei, crescei, multiplicai-vos, multiplica certezas e embota juízos.

O eterno é a ignorância. O eterno é não perceber as pontuações. E para que servem as pontuações? E quem realmente deseja de todo o espírito e causa, reconhecer e enxergar as pontuações? Quem seria idiota a tal ponto?

A curiosidade condena o indivíduo. Condena; e ninguém disse o contrário; se dissessem, o sofá, a cama de casal e a mesinha de centro, acusariam o erro.

Móveis que são parte do eterno... Mas lembremos, lembremos sem não mais tristeza mas com uma dose de esperança na constatação mórbida do desapego, que o eterno é o efêmero parcelado. Logo os móveis efêmeros, a mesinha, o sofá, a estante se degradam, e é o princípio entrópico. Uma merda comparado ao THC, a hemodiálise ou ao videogame de final de semana.

Mas pense bem. Degradam-se dia após dia e você não vê. O eterno embotou sua visão.

Está tudo morrendo.

Inclusive os fios de cabelo dela. A cannabis, a impaciência. E tem coisas que precisam morrer.

O eterno é efêmero unido à força. E nada unido a força realmente funciona. É só ficção. É só ilusão. É só esqueminha nascei-crescei-multiplicai-vos.

E você, nem o sofá, nem a mesinha de centro e muito menos a estante querem ser parte disto certo?

Portanto sê como eu, efêmero, e me nega.








terça-feira, 9 de setembro de 2008

Plástico Bolha

Hoje tive uma ótima notícia que alegrou o fim do meu dia.

Há um jornal chamado "Plástico Bolha"; bem produzido, por estudantes de letras e com ótimo conteúdo e uma tiragem respeitável(10.000 exemplares). Contos e poemas, crônicas e editoriais bem interessantes saem regularmente no jornal...

Enviei um conto para os caras, achei que eles não iriam publicar... até por que há uma comissão editorial que define o que entra ou não... há uma votação... mas publicaram!

Um conto chamado curriculum vitae, se eu achar aqui eu linko.

Abraços.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Parábolas

Eu me contento com pouco.

Mas quando vejo as linhas que sobem ao infinito, sempre me pergunto por que diabos fui nascer parábola.

Início, meio e fim.

Sou uma fórmula de redação de vestibular; mas pelo menos, sei de que costura foram fiadas as teias da minha vida.

Tudo o que começa sempre acaba, dizem os filósofos de esquina.

E eu tenho a incrível mania de recomeçar, de recomeçar todos os dias.

Mas eu nem comecei a sentir o gosto, e já vejo e percebo o horizonte que se acaba. Acaba não por mim, pois se o mundo dependesse da minha vontade, algumas montanhas já teriam sido movidas e muitos palácios ruiriam e decerto minha solidão se converteria em uma boa e oportuna companhia.

Viva o momento, intensamente o momento dizem outros. Mas de sensação efêmera o mundo já está saturado, eu quero um pouco de permanência para afastar a presente impermanência da minha vida.

Quero uma história com um fio condutor. Eu quero um momento de felicidades sem dias contados para terminar.

Eu quero permanência... e um pouco de sorte, e isto não é pedir muito. E eu nunca peço muito do mundo.

Acabei desconfiando, ou exigindo, talvez para me enganar do meu destino jocoso que o permanente é o efêmero fossilizado, mortificado. E que a impermanência que me cerca pode ser saudável. Talvez.

Adoro me enganar.

E eu recomeço... Recomeço e me ponho a caminhar, impermanente como uma cena de metrô, todos os dias.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Se morrer aprende

Sê como eu!
Me nega!

Cálculos da vida de um servidor público

Três mil pessoas me visitaram. Foram três mil pessoas durante o curto período de quatro meses, ou seja, cento e vinte dias, cento e vinte e dias sendo visitado por três vezes mil pessoas.

O que dá estatísticamente uma média de vinte e cinco pessoas por dia. Uma média de vinte e cinco casos distintos, humores, padrões, comportamentos e sim, generalizações, geradas em meio a sudoku.

Adoro sudoku, principalmente no intervalo do sistema; e o sistema sempre "quebra", sempre "quebra" quando meu humor quer.

Vinte e cinco.

E eu achei que eram mais. Muito mais...

Mas pensando bem, vinte e cinco pessoas dão um total de três pessoas por hora, sendo que há mais uma que compensa os dígitos não computados e o arredondamento mal-feito dos cartesianos e esta pessoa, pessoa maldita, sem números, sempre chega na hora do almoço.

Isto funciona num período de oito horas de trabalho.

Significa afirmar que em oito horas de trabalho, o que para mim é excessivo, apesar das dezesseis horas anteriores ao sindicalismo revolucionário do início do século vinte comprovarem que hão de chover dias piores, eu recebo gente ruim a cada intervalo, a cada vinte minutos, a cada mil e duzentos segundos.

Eu penso. Penso que tenho dez dedos. O dedo médio é usado, uma vez a cada duas mil e quinhentas e setenta e cinco pessoas, pelo menos abertamente.

O polegar tamborila vezes que eu não conto. Eu balanço a cabeça, dobro papel, rabisco a mesa e vez ou outra grito um chega. Um chega frenético, pouco usual, abrupto, sem voz que alcança a menina da limpeza.

E entra outro número balançando os ombros... Mais um número...

E sou eu... sou eu, que decido, durante o período de quatro meses ou seja, cento e vinte dias, cento e vinte e dias sendo visitado por três vezes mil pessoas, quem precisa receber a aposentadoria por invalidez, invalidez psíquica e quem finge, quem atua.

Eu decido três, quatro, cinco mil vezes. Às vezes, quatrocentas e doze vezes uso minha moeda e digo quem é e quem não é ator. Perícia!

Cinquenta por cento de chance, uma vez a cada lance, a cada três, quatro ou cinco mil vezes.

Perícia!

Normal, normal, normal... Três, dez, vinte vezes normalidade.

E isso por que eu não contei os copos de café.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Como beber doze cervejas com 40 centavos

É só ficar desempregado e ter amigos. Amigos.

Pulsão vitoriana

Maço vazio, e eu nem fumo. Tinta azul no fundo da casa.

Gente bêbada, crianças cheirando cola na porta do circo em que eu, em que você, em que nós nos divertimos.

Seis latinhas amassadas, miseráveis para um dia ruim, mas boas para um dia razoávelmente bom.

Liguei a tv, mas a antena não funciona e eu gosto do barulho da sintonia ruim, só quando bebo demais e quando eu sinto o cheiro de morte, e de hipocrisia invadir a sala, aquela sala onde seus pais comem um guisado de pato com molho rosê.

Fico pensando nos meus princípios. Doces e carinhosos princípios, aconchegantes para quem usa tinta a base de petróleo. E petróleo mata muita gente.

Meus passos, foram sintomáticamente reduzidos a um bailar intenso mas profano, previsível mas ainda assim divertido, que conduziram-me a enfaixar parte de mim, a dizer a mim mesmo, a errar as letras, as teclas, a tinta; esparramar-me por entre brechós, por entre mercadinhos chineses, por entre estações de trem do século XIX. E ainda assim continuar amando.

Eu deixei parte de mim, esquartejei-me de bandeja quando ela disse que não queria mais minha companhia, eu tomei veneno às três da tarde sem ter motivo, e todos diziam que havia alguém que sofria mais, que eu ainda não tinha dor o suficiente... Que sofrimento era fuçar latas de lixo, que sofrer era ter uma doença terminal no final de semana, que doer era perder a família num feriado fundado no assassinato católico de uma tribo indígena no sul do pará!

Sofrer é um atestado médico de medo num metrô lotado às terças-feiras seu filho da puta! Sofrer é um esporte de pobre!

Mas foi por isso... por não ter dor o suficiente, por ver que havia sempre alguém mais fudido, mais ferrado, mais idolatrado pelo deus-dor, mas seduzido pela morte, que eu sempre conseguia me deixar ser vencido pela pulsão de morte. Pulsão vitoriana!

Morte!

E morrer é reescrever-se sem sentir pena. É confundir-se estando vivo.

Juntei papel, olhei para a luz e sempre, sempre havia alguém mais fudido do que eu.

Amei, bebi, escrevi, e ainda não, ainda não morri.

Pois sempre haverá alguém mais fudido.

Pois sempre haverá sintonia ruim.

domingo, 24 de agosto de 2008

Mais emocional, mais forte

O tempo passou ruiva.

E eu inevitávelmente tornei-me mais forte.

Confunda forte com frio, talvez seja algo parecido com o meu erro atual.

Conseguir ignorar certas coisas não me torna um cínico por completo, até porque seria uma rigidez demasiadamente injusta perceber-me desta forma, já que continuo realizando o incessante movimento do homem contra a máquina. Ainda não me entreguei ao meu oposto. Seria covardia, passividade, e você sempre cobrou de mim uma postura contrária aos valores vitorianos dos seus pais.

Mais forte implica em comentar que consigo caminhar com mais despreendimento entre os dentes, ou melhor sinceridade, até por que sinto-me mais humano, com um par de insônia no meio da semana, rodeado por gengivas sangrando uma liberdade estúpida, definitivamente estúpida.

Eu precisava de números, de letras, de metáforas para rechear sentimentos. Precisava de complexidade, apesar do que sou um simplório em busca de simples sentimentos: paixão, afeto, amizade. Tá bem. Não são tão simples! Mas eu os busco. Sim, definitivamente eu os busco e morreria, morreria repetindo palavras e frases ocas se me visse privado destes mecanismos tão simplórios, tão primitivos.

Desejo.

Ruiva, perdi muitas letras, muitos minutos em torno de entender a origem da confusão; metodologias equivocadas levam a sentimentos equivocados e vice-versa... deveria ter compreendido que parte da verborragia que me acomete nestes dias afetivos ou melhor dizendo, dias de falsa inspiração literária, são apenas fragmentos... fragmentos de um problema maior... e melhor.

Ruiva, sinto-me só, sinto-me forte com minha solidão tão providencial, sinto-me inútil para o ofício da escrita... sinto que não conseguirei escrever nada que valha a pena ser lido e isto não é a maldita psicologia reversa... eu realmente penso... e sinto este paradoxo invadir meu corpo, minha mente, enquanto recordo-me do dia do saxofone...

Você tinha prometido um amor eterno, éramos jovens, tudo era eterno, e aquele instante de certa maneira fora, mas eu iria mais a frente desistir deste horizonte de expectativas completamente contaminado pelo idealismo romântico que eu tanto adorava.

Já é tarde Ruiva e eu mal consigo terminar um ou dois textos, falta-me muita coisa da dor original.

Hoje sou apenas um espelho cinzento, mais racional(equilibrado talvez) e passional do que fui anteriormente.

Hoje eu durmo com os anjos, sofro de insônia e como cacos de vidro, cacos de vidro da minha auto-ilusão enquanto percebo o castelo de cartas ruir. Torço... torço para que as colunas certas caiam... e que eu consiga na sobrevida que me for necessária(pois já estou condenado ao fracasso) realizar últimas e belas palavras.

E isto tudo Ruiva. Isto tudo.

Foi por que eu lhe amei. Apesar do tempo curto. Apesar de tudo.

E hoje eu sei, que eu amava uma merda de uma imagem. Uma imagem linda.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sacramento Póstumo

Por José Oiticica

Quando eu morrer, sê tu o meu coveiro:
Enterra-me tu mesma em teu jardim
E, sôbre a cova, num vulgar canteiro,
Cultiva rosas e medita em mim

Bendize êste destino alvissareiro
Que nos uniu tão de alma e corpo, assim,
Que te fêz Dama e a mim teu Cavaleiro
- Um palafrém atrás de um palanquim.

Projeta, no incorpóreo onde me alento,
O calor emotivo dos teus ais
E as rutilâncias do teu pensamento...

E assim, amar-nos-emos inda mais,
Erguendo, num piedoso sacramento,
As nossas duas almas imortais.

Em breve conto a história desse fabuloso poeta anarquista...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Cotidianos...

Um desabafo aleatório, mas extremamente pertinente, título bom, texto ruim.

Minhas aulas iniciaram há cerca de duas ou três semanas atrás. Tive alguns problemas com a minha inscrição em disciplinas então tentei resolver com os funcionários da secretaria do meu curso. Inútil. Percebi que estavam todos muito estressados, pois o sistema estava caindo, não funcionava e a quantidade de reclamações era absurda. O nome do sistema é SIGA, carinhosamente apelidado pelos alunos de SIGA para o inferno.

O problema segundo eles é a minha interação com o computador; é questão de empatia com o bichano. Apesar de ter trabalhado uns cinco anos com informática, eu não sei segundo os burocratas da minha faculdade, lidar com o sistema infeliz que implantaram naquela bodega.

Passei por três ou quatro funcionários, o habitual, "joga p'rum lado, joga pro outro que o imbecil cansa.

Resultado, cansei.

Vou atrás de minhas fontes primárias, o atendente me pergunta se eu não tenho um pen-drive, "se você tivesse um pen-drive copiaria tudo para você agora... é muito mais fácil replica. Não, não tenho um pen-drive, vinte reais para um desempregado é uma verdadeira fortuna, quase 1 mês acumulando dependendo da conjuntura.

Fui na biblioteca pegar alguns livros emprestados, mas a biblioteca está fechada para "atualização do sistema". Não é possível pegar nenhum tipo de livro, apenas consultar dentro das instalações.

Vou para outra biblioteca, dita "pública", a biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, lá me indicam que apenas funcionários do dito patrocinador podem pegar os tais livros, mas como eu sou cadastrado na biblioteca do IFCS, eu posso solicitar um "requerimento" na biblioteca onde estão atualizando o maldito sistema e aí retornar a biblioteca do CCBB para pegar o precioso livro. Não sei por que me recordei do senhor K, e do "Processo" do jovem Kafka.

Vou para o IFCS, lá a bibliotecária me informa que só é possível EMITIR o tal requerimento com o sistema funcionando(papel e caneta estão fora de cogitação, afinal é uma faculdade de História, Filosofia e Ciências Sociais).

Resultado, não posso pegar o livro nem na biblioteca da faculdade, nem na biblioteca do CCBB.

Lá, seguindo minha vocação de pseudo-pesquisador, vou me embrenhando nas prateleiras(um esporte delicioso diga-se de passagem) para fuçar outros livros. Trinta segundos depois, um funcionário pergunta se eu quero ajuda: típico ato oriundo de um regime de controle disfarçado sob o comportamento de um funcionário "que só quer ajudar".

Não eu não quero ajuda. Ainda consigo ler, amarrar meus cadarços e nunca tive Alzheimer. Além disso eu gosto de procurar os livros na estante da biblioteca: é um esporte de gente pobre, mas honesta(eu não vou roubar os livros da biblioteca - meu espírito é de cão vira-lata, não de porco).

Desco para o pátio do CCBB, resolvo relaxar e terminar de ler um capítulo de um livro do Edgar Morin, mas uma das minhas pernas incomoda uma segurança que diz que eu não posso colocar a perna SOBRE o banco. No dia anterior o guarda do metrô, incomodou-se por que eu sentei no canto do vagão. Emprego bom esse, vigiar comportamentos alheios, tornar o corpo dócil, discipliná-lo, mesmo que o objetivo seja apenas este mesmo: DISCIPLINÁ-LO.

O engravatado do banco ao lado, acha graça da postura da segurança... "Que palhaçada..." Diz ele.

Sim... concordo totalmente.

Incomodado e desconfortável, vou a biblioteca Nacional, lá sou informado que não é possível fazer empréstimos de livros, os livros são apenas para consulta, como me esqueci deste detalhe óbvio.

Vou para as pastas das xerox's, para ver se encontro algo do que procuro, não acho nada, o que acho sairia muito caro para fotocopiar(a xerox custa de 0,9 a 10 centavos, custo demasiado alto para um desempregado).

Talvez o livro se encontre a um preço popular em alguma livraria, ledo engano que o google me corrige rápidamente.

Desisto do livro por enquanto. Esperarei os humor dos controladores dos sistemas disciplinares e tecnológicos melhorar.



terça-feira, 12 de agosto de 2008

Violentas Insônias

Confusão por sobre a mesa, por sobre a cama. Perdido. Espelho da alma, o quarto repousa sobre a angústia, por sobre o bilhete amassado, por sobre o livro e o casaco embolado entre a porta e o tapete.

Anda de um lado, caminha por outro, bebe água, respira, respira mal, pesadamente, perdeu-se na pia, lavou o rosto às duas, duas e treze, às três e quarenta.

Continuou sujo.

Os olhos pesados não pesavam, a mão leve coçava a fronte e ajudava a respirar o cigarro, calava-se; e ainda assim, ainda assim os nós dos dedos não conseguiam tatear o silêncio.

Tentou olhar para si, e na bula constava indicação: efeitos psíquicos colaterais, perturbação, insônia, por fim simples angústia. Simples? Pigarreou em tom de deboche.

Olhou para si; um eu que desconhecia; na verdade desconhecimento é falsa palavra.

Desconhecimento supõe contornos novos nunca observados, o que sentia era verdadeiramente estranhamento. Um estranhamento voraz, que o comia a cada ponteiro movido, a cada noite mal dormida, a cada sonho mal interpretado.

Chegara em pontos de ruptura, decisões, frações de si que clamavam por controle ou que verdadeiramente caminhavam para uma morte violenta.

Morria, morria todas as noites. E quando começava a morrer por detrás da luz, coçava a fronte, respirava o cigarro e lavava o rosto, duas e trinta, três e cinqüenta, quatro e cinquenta e nove...

domingo, 10 de agosto de 2008

Ode a modernidade tardia

Alumínio! Silício! Cimento!
Velocidade, Ônibus, metrô, um alento!

Perfídia no centro da cidade.
Paralelepípedo, música alta.
Estoura os tímpanos! Fluoexetina, chacina, casebre.

Gente junta. Gente jovem. Gemidos reunidos.
Gestão da pobreza nos postes. Época de eleição.
Ereção, falsa ereção, remédio, poluição, indústria.

Comeu esquartejada, matou a frase e foi no cinema.
Com uma faca de açougueiro. No enterro.

No enterro das certezas, das categorias, construídas.

Todas unidas!

Levaram embora, levaram embora o silício, o alento, o aumento...

Tornaram modernos, modernos tardiamente, novos, e incorrosíveis, e desprezíveis ventos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cartolina velha

Perdi o tesão de escrever aqui. Quero ares novos.

Toda viagem me confunde, todo ar rotineiro me embrulha o estômago.

Nunca pedi muita coisa a deus, matei-o semana passada.

Nunca falei alto, só quando precisavam.

Agilizei uma ou duas aplicações de morfina; nunca me prenderam por isto, faço gosto, deixo solto, apesar do pesar.

Faço origamis de cartolina, faço corações de papel, não me sinto privilegiado.

Confundi o ar rotineiro de deus. Embrulhei o estômago de papel e privilegiei os ares novos.

Escrevi solto, precisei alto, me confundi.

Queros ares novos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Meu imbróglio com a internet

Em breve estou de mudança daqui. Explico todo imbróglio antes que me chamem de mal agradecido.

Desde a fundação do blog, em 2003(lembram do falecido www.1936.blogger.com.br?), eu utilizava o serviço do blogger. Não tinha muito o que reclamar. O blogger.com.br funcionava, e era uma novidade o mundo dos blogs, pelo menos para mim, mas acredito que foi mais ou menos nessa época que os blogs começaram a emplacar. E tinha muitos serviços ruins... muitos mesmos... uns webloggers da vida que eram uma merda.

Não muito satisfeito com a estagnação do blogger.com.br eu migrei para o tal blogspot(esse aqui) em 2006 que na real era um blogger mais aperfeiçoado(a ponto de até o endereço ser parecido, apenas sem o .br do blogger) e com uns recursos mais legais, como a possibilidade de colocar vídeos sem dar xabu, e também era mais fácil de colocar templates. Aliás trocar de template no blogger.com.br era um verdadeiro rolo e sem saber html você estava literalmente fudido! Era como tentar ler Genealogia da Moral com referência da revista CARAS.

Nunca reclamei desse sisteminha do blogspot, mas é fato que os caras se acomodaram; a tecnologia não evoluiu. Deve ser uma tendência da internet, as empresas(no caso a globo.com, filhote venenosa da toda-poderosa platinada) investem nessas tecnologias, a coisa esfria, eles perdem propaganda e vêem que há outras tendências e ao invés de melhorar o bagulho, largam de mão até que os usuários desistam.

Eu tentei até ser fiel, nunca traí o blogspot com um multiply da vida, muito bacana na teoria, mas na real achei chato, com muita informação que eu não precisava e era meio a "la orkut", se eu tenho o orkut pra que vou querer um outro site merda de relacionamento?

Myspace então eu sempre achei feio. Eram cores e sons demais e convenhamos, myspace é coisa de gente teen, de adolescente que compra CAPRICHO na banca pra fazer testes do tipo "meu namorado me trai com oito pessoas?".

Mais então eu descobri o wordpress. Não dei nada pelo bichano, achei até que era mais um portal de blog qualquer, mas fuçando daqui, fuçando dali, descobri que o bicho é bom, MUITO bom. Primeiro que ele não é um mero blog, ele TAMBÉM é blog, mas te possibilita de criar links, páginas, jogar vídeos, fotos, de uma maneira muito, mas muito fácil e customizável. E como meu blog cresceu, eu quero organizar melhor os arquivos... pois deve haver vida inteligente fora das tags e dos marcadores... pois há!

A interface é bem amigável, de tão amigável chega a ofender o usuário... Só falta escrever o conteúdo pra você ou te chamar de senil... e você não precisa sacar porra nenhuma de html. Ele é bem editável, explica tudo bem tranquilamente... E tem uns recursos fodas... Você não precisa recorrer a nenhuma instância externa(é como ter um secretário particular para resolver burocracias pessoais).

Elogiei demais esta merda, parece até que estou fazendo propaganda. No fundo no fundo, é mais uma empresa disputando nossa atenção e ganhando dinheiro com propaganda. É ou não é assustador que as empresas de tecnologia da informação mesmo virtualmente tenham um poder econômico bizarro? Pois é, google que diga...

Crônica tosca, mas enfim, daqui a pouco migro meus pseudocontos para o wordpress. E para sacramentar minha decisão o blogger me diz que não foi possível entrar em contato com o blogger.com.br e eu tenho que esperar os 386's da globo.com voltarem do ar para que eu possa publicar esse texto ruim.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Impermanente

Retorno simples, ponho-me a disposição da angústia, caminho entrecortado, cindido como um asfalto quebradiço, juntando cacos de lembrança, de saudade, de esperança: sou um passado vazio.

Estou agora, como é raro estar. Estou em um momento curto; uma reflexão, um surto, mas seria demasiado inverídico afirmar minha total permanência. Na verdade sou. Sou o tempo todo, não tenho forças para estar, sou pois não estou, pois estar depreende uma estabilidade que não me pertence, estar necessita ligação, empatia, vigorosos laços com o presente, fato que me é estranho, enérgicamente estranho.

Eu sou, sou e portanto atravesso, não me prendo no momento, no presente, não olho para o futuro; eternamente preso no passado, na experiência do outrém, no factual cuja lembrança é mero vestígio.

Meu presente é um jazigo do passado. Meu passado é vida, vida pretérita, entrecortada, cindida, quebradiça.

Eu sou. Sou um sincero e arruinado vestígio.

domingo, 27 de julho de 2008

Retornando

O pós-férias sempre é meio trágico. Estaca zero.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Agora

Não gosto de escrever de luz acesa. Não gosto de beber cerveja quente, muito menos de pegar chuva no inverno. Não gosto de sentir sede no calor, e não gosto de não saber, quantas vírgulas, devo, usar.

Não gosto de cd arranhado, gripe sem beijo, impressora sem tinta.

Não gosto de piada sem riso, poeta sem papel, e muito menos briga sem herói, sem heroína.

Não gosto de supermercado com fila, de banco com juros, de mundo assim, assim meio errado.

Não gosto. E quando não gosto, desgosto mesmo.

Não gosto de espelho sem eu, de egocentrismo sem espelho, de nós sem "vamos", de você sem eu, de você sem nós; de desgosto antes de conhecer.

Gosto do estrago, do negado, da vírgula sem verbo, de sujeito sem gramática, sem vergonha, gosto da verdade sem gripes, sem beijos, sem tinta.

Eu gosto mesmo é das vírgulas.

Noites

Costura
E fecha minha boca

No leito fosco
Sobre meu peito
Jaz o de repente

Corta, ajeita
Prova e reprova
Adocica a face oculta

Faz de mim um acaso
Acaso pensado.

Sou teu
Ainda não
Nem tão teu

E ainda mesmo...
Mesmo morto
Meio vivo, meio morto

Planto segredos
Segredos bobos
Na tua boca
Tua boca
Boca inerte

terça-feira, 8 de julho de 2008

Odeie a contra-cultura

Resolvi falar tudo. Não porque merecesse, mas porque alguém, algum dia, tem de fazer o serviço sujo. E falar tudo é fazer o serviço sujo com gosto. É se expor, de luzes acesas, de janela e porta aberta, com um pouco de miséria escondida no canto do quarto e da memória. Dê a cara a tapa, não me siga. Se preciso de uma ou duas cervejas isto é coisa minha, algum reminiscência bukowiskiniana que me afeta em dias de semana e interlúdios de cinismo. Se preciso ressuscitar uma derrota particular, este é meu modo de incitar uma parte de mim a agir.

Falar tudo é abandonar máscaras, é cuspir na cara de si próprio o veneno alheio, é sorrir entre as tragédias com os lábios cortados, e além de tudo é buscar no fundo do espírito uma energia obscura, um lado rejeitado; abortado com gosto de sangue no tempero das etiquetas, enterrado dia após dia, day by day, pela rotina social, merda de rotina social, pela rotina anti-social, merda de rotina anti-social, day by day.

Cansei de igrejas. A contra-cultura estúpida, que como o próprio nome já diz, tentou ser sombra e acabou virando luz, uma luz que cega, uma nova religião inerte, com seus santos, suas rezas, seus dogmas, sua pútrida hierarquia, escondida entre alargadores, padrões morais do século XVI e jaquetas de arrebite retórico, promoveu uma caça às bruxas, promoveu uma verdadeira inquisição disfarçada de liberdade.

Odeiem-me nesta parte. O ódio é uma doce projeção, que revela-se no incômodo, maldito incômodo que revela não quem é alvo do ódio, mas quem odeia. Revela e descortina, que a cada movimento de oposição, enterramos um lado obscuro, que de início não reage, mas planta sementes de contradição dentro de nós e se alimenta do outro.

Contra-cultura pérfida, alimenta anjos sagrados, perfeitos, perfeitos, como a curvatura da última tela de Dali, perfeitas como um apartamento decorado em alguma cobertura do aterro do Flamengo. Como crise de consciência vagam e entoam cânticos pseudo-populares, como se isto aplacasse a imensa culpa cristã que sentem por não terem nascido no lado certo. Filhos da classe média, inertes, repletos de brinquedos e possibilidades plásticas, ainda estupidificam o que poderia ser igual, despedaçam a horizontalidade e carregam cruzes, cruzes resplandecentes, símbolos dos despojos dos vencedores.

Plástica cultura. Americanos, ameríndios, norte-americanos travestidos de cidadãos sem pátria!!!

Vigiam e punem comportamentos desviantes. Reproduzem técnicas de disciplinarização; cagam Foucault, mas arrotam e exalam Felipe II. Nichos de mercado, de consumo. Pois idéias são mero consumo.

Não há muito mais a dizer, olhem para si mesmos. Na ordem do discurso, abandonei a importância do autor; o que importa é a idéia. Se eu for julgado como autor, queimem meus textos em praça pública ao lado do terceiro reich.

Prefiro entoar idéias. É um anônimo que vos escreve.

domingo, 6 de julho de 2008

Erótico demais

E quando eu bebi vodka pela primeira vez, senti o mesmo gosto amargo que senti, quando tua boca deglutiu minha alma.

Eu não procurei, definitivamente não procurei, razões para que você no alto de sua prepotência pudesse me dizer aquelas palavras duras.

Mas eu disse, e você confirmou, que se eu ainda pudesse sentir dor, aquele seria um dia realmente especial. E você comentou, decerto com mais propriedade, que eu nunca mais me esqueceria daquela data.

Confortei-me com o nada, embalava o absurdo diante de seus olhos, você não dormia, mas não estava própriamente acordada, apesar do quê, eu sabia, íntimamente sabia, que você espiava cada ação. Cada beijo meu, era marcado, medido, pesado, sentido, sem a necessidade de uma resposta.

A resposta era nosso silêncio.

Eu provocava teu corpo na cama e você dizia, erótico. Eu mordia teu lábio, você se contorcia; nos julgávamos depravados...

Eu provocava na rua, no banco, com a carta ou pelo telefone e você dizia, erótico demais. Demais.

Dizia sem dizer, sem saber, sem pensar realmente qual palavra escolher, por que palavras não são a exata descrição da realidade. São só palavras. E normalmente já muito apodrecidas pela história.

Você descrevia-me com os olhos. Conversávamos com o olhar e os horizontes de expectativas envoltos nas mesmas trevas, no mesmo absurdo. Quando seus olhos mudaram, quando seus cabelos ficaram mais curtos; eu resolvi que não tinha muito tempo, que as coisas caminhavam rápido demais. E era hora de andar sem rumo.

Eu escrevi cinco ou seis cartas, mas eu logo me enjoava, por que eu não conseguia mais agarrar a veracidade dos teus olhos. Teu corpo falava e clamava perdão, mas o destino tinha suas próprias dinâmicas.

Eu retornei ao velho banco de praça, mas ele já tinha mudado. As cartas pareciam iguais, por que eu conseguia resgatar o passado, e tinha a extrema capacidade de resgatar toda a emoção.

Boa memória emocional, péssima escolha de vida...

E eu então resolvi aguardar. Talvez o tempo pudesse resolver(meu) nosso impasse.

Duendes

Pronta para despertar
E irromper
Sobre a concretude
Da primeira oportunidade

Eis a fada dos campos
Dos lírios
Dos sonhos
Das noites mal dormidas

Já desfraldada e exibida
Ainda se atreve

E contamina
Beijos ao acaso
Com futuros possíveis

Anima; meu presente
Retoma meu passado
Enterra meu presente

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Os Sonhos de Rafael

Não chovia, não estava muito frio e nem mesmo havia uma grande tragédia a se alimentar. Retomou velhas proposições e a reflexão tímida que iniciou há semanas provocara um acontecimento curioso que despertara em si próprio quase uma epifania: começou a ter flashes oníricos.

O que significava?

Que a partir de certo momento, começara, e tal coisa lhe acontecia esporádicamente em um número de vezes incerto ao dia ou na semana, a lembrar de fragmentos de sonhos antigos, muito antigos.

Inicialmente eram flashes. Lembrava de paisagens, cenários, como a fotografia de um filme.

Com o passar dos dias, profissionalizou-se e já podia recordar de pequenos trechos, mas faltava a textura, o sonhos permaneciam nublados. Não conseguia apenas obter relação entre a lembrança e o dispositivo que a provocou: pois bem, podia ser provável que os flashes não se incluíam num mecanismo de causa e efeito, mas continuava a ser um acontecimento paradoxal que clamava sentido.

Precisava ir mais fundo, anotar seus sonhos era um propósito nobre, uma aventura instigante: a escrita registraria, poderia retomá-la como à um catálogo e a cada flash súbito conjecturaria a partir destas minuciosas descrições de seus sonhos, o que o sonho lhe dizia. Anotaria dados, cores, horário, datas, acontecimentos relacionados, e teria em mãos o seu próprio dicionário onírico.

Poderia compreender e estabelecer relações entre seus aparecimentos e a realidade que os correlacionavam... Pensou em fazer isto na quinta, depois de um esbarrão provocado por um flash, um pequeno incômodo casual, que não iria se repetir.

Aprofundadas as visões, os trechos iam afluindo considerávelmente, quanto mais vívidos e longos, mais heterogêneos e antigos os sonhos eram...

Aprofundavam-se e ele sentia que algo emergia, algo de novo. Mas nem sempre a mudança é cousa boa. Vivia mudanças de humor, de personalidade e até de valores que se faziam sentir mais fortes e independentes desde que o processo se iniciara há nove semanas.

Olhava para as estrelas há noite, bem antes de dormir, estrelas que não mais existiam segundo a ciência, pois só lhes restava a luz que cá nos chega e para elas só lhes resta quem cá lhes olha.

Contudo, assim como seus sonhos que também não existiam, sonhos que já foram mas que são acontecidos, eram acontecidos que viviam! Acontecidos que retorcem e lhe impõe a existência, opondo a presença do presente ao passado!

Olhou para as estrelas e elas estavam lá! Olhava para seus sonhos, nítidos cada vez mais nítidos, pedaços viravam trechos, que viravam histórias... que viravam realidade...

Os sonhos aumentaram. De intensidade, cor e emoção! E aí fora um passo, para irromperem os pesadelos, e já não conseguia mais caminhar na rua. Todos os sonhos que ele achava mortos ou esquecidos ressuscitaram, um por noite de vida, um por noite de sonho, e aí não conseguia mais andar, pensar, comer, viver... Os sonhos outrora "esquecidos" pesavam-lhe as costas.

A realidade eram seus sonhos, seus sonhos agora eram a realidade, não conseguia mais mover seus músculos, caminhar, pensar, raciocinar, enxergar. Definhou...

E por fim sonhou que lhe faltavam os pulmões. E não conseguiu mais respirar.

Rafael morreu assassinado pelos seus sonhos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Não se fazem mais decepções como antigamente

De todas as decepções
Foste a mais deliciosa

Quando recordo as outras
E outras decepções...

Ou quando sofro
Uma nova

Lembro-me da tua
Da tua decepção...

Invencível, atrevida...
Dolorosa

E com meus olhos mal umedecidos
Penso cá com minhas sombras...

Mais dor do que isto
É mito!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Justine: a outra

Não conseguia nem escrever, mas podia pensar, e isto no ponto em que se encontrava era algo bom. Inculto boteco de fim de noite; não haviam relações sociais novas, apenas reproduções, reproduções, reproduções... E quando tudo estava ruim ele bebia cerveja na quinta ou na sexta e resolvia tomar um porre no sábado. Desistia antes. Nunca ia até o final, andava em círculos, "quem anda em círculos, não ultrapassa a linha limite", sábias palavras ruiva...

Tinha uma cláusula de segurança, incômoda e febril, permanecer nas bordas, nas periferias, observar, observar...

A ansiedade retornava e ele trabalhava, por que era o que sabia fazer quando ela aflorava. Sentia falta da depressão, sim podem rir, talvez para Vasilli era a única coisa que poderia pará-lo(e mesmo assim não conseguia). Estava cansado, não imaginava que o desapego iria lhe afetar tão duramente. Sentia falta da melancolia. Odiava este estado intermediário. Nem euforia, nem alegria, nem depressão nem felicidade: o caminho do meio era um porre de vinho, uma noite de sexo ruim, um objetivo sem causa: um incômodo meio-termo.

Silêncio no quarto. Em si mesmo, havia barulho. Um barulho interior que não cessava; sua mente era um campo de batalha.

Queria corromper a rotina, ir até o fundo, desistir no final de semana, não ir além.

Falsas ajudas, falsas amizades, mas ele ainda tinha seu núcleo duro: nesta hora conta-se nos dedos, e nem precisamos de todos de uma mão. O núcleo duro é sempre um pequeno grupo de fudidos, gente honesta, mas que perdeu. Perdeu por que não pode mais competir. Gente que finge vitória em comentários otimistas em filas de banco mas que percebe, não objetivamente claro, mas pela intuição que a epidemia da competição está matando os perdedores aos poucos...

Apesar da verdade, incômoda verdade, juraram inconscientemente proteger uns aos outros, enquanto um cai, o outro levanta(ou finge levantar), trocam-se as muletas, refazem-se os caminhos, os copos de cerveja se enchem, a ansiedade baixa e o círculo retorna ao seu ponto inicial.

Situação difícil passava Justine, Justine, "la Violeta", amparada e protegida por meia dúzia de bajuladores. E ele o egoísta sincero, não conseguia nem amarrar os cadarços sem lembrar se havia ou não enviado a carta para a Ruiva, apesar do que apreciava o sexo casual com Justine.

Gostava de seu bom humor, adorava sua maturidade precoce, seu jeito espontâneo e sincero, que transparecia uma irresponsabilidade suicida que animava o pragmatismo das terças-feiras.

Não haviam princesas para salvar, nunca houve, não haviam encontros casuais(frequentamos sempre os mesmos lugares) não havia distração recompensada(que dependia de talento) e nem mesmo recompensas profissionais(estava desempregado), por isto apelava a Justine e era até divertido em certo ponto, um ponto que ele nunca pensou bem exatamente se chegaria a algum lugar, mas era sempre garantia de prazer egoísta aos dois.

Esperava a ruiva voltar para encerrar um ciclo, mas a demora era tremenda, talvez ela não voltasse, e devia ter esta possibilidade em aberto.

Por isto Justine e seus asseclas, seus lacaios lhe pareciam intensamente irritantes, provocando-lhe uma soma de decepções, pois eram meras reproduções, meras fotocópias indulgentes fantasiando mundinhos enlatados, frequentando as mesmas festas, realizando os mesmos rituais, provocando as mesmas possibilidades e por fim, odiava o modo como Justine se despia e odiava quando ela gargalhava além dos limites sociais.

Odiava a si mesmo. Odiava vodka com refrigerante. Odiava escrever com gente olhando. Amor odeia amor. Ódio amava o amor. Amor amava o ódio. Ódio odiava o amor. Era tudo meio paradoxal. E usavam palavras bonitas.

E ele prosseguia. Amando Justine; um amor de quinze, vinte minutos, mas sincero, extremamente sincero.

domingo, 29 de junho de 2008

Negras Tormentas Agitam os Ares

E eu só quero que o tempo passe e o mês acabe. Parece simples.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Tempo

Ontem, hoje
Amanhã
Já andou o relógio!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Paciência

Às vezes acontece
Olha-se para o tudo e não se enxerga nada
Às vezes é outro alguém que vê
Melhor que você

Por que seus olhos estão perdidos...
Perdidos num caminho
Que você achava correto
E aí, tudo parece absurdo

O que antes era confiante, coerente
Vira de ponta a cabeça
E você já não sabe mais o que fazer
Ou para onde correr

Nestas horas é preciso saber esperar
Mesmo diante do olho do furacão.

Nestas horas...
É o destino que deve dar o próximo lance

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Uma carta dela para mim - A Pergunta

Você precisa abrir mão. Precisa abrir mão obstinadamente, precisa abandonar e fazer disto um cotidiano. Precisa rodopiar sob seus opostos, invertê-los de maneira apaixonada.

Precisa ser o que odeia para compreender. Tornar o que você é implica em me reconhecer, mas você nunca, nunca... jamais o fez, mesmo quando eu recebi seus beijos, mesmo quando eu tomei café da manhã no pé da cama; e até mesmo quando você me bajulou com o Neruda, eu sabia, eu tinha a certeza, de que aquilo não era para mim. Era para você.

Você massageou o meu(seu) ego. Você dançou sob a escuridão para si mesmo, não para mim.

Você não me amou, você encontrou uma parte de si que parecia encaixar... E eu não tive tempo, mas agora tenho, não sou um quebra-cabeça; eu sou um jogo de armar.

Amai-vos uns aos outros como eu me amei. Amai e recebei, e você fez jus ao egoísmo, fez jus às complicações, fez jus ao duende que corria entre vós, apesar de tê-lo ignorado solenemente, com um tom de desprezo e arrogância bem característicos.

Gostava dos seus autores preferidos antes mesmo de você, mas você exigiu destino, conjecturou sincronicidades que não existiam e arquitetou perfeição aonde só existia acaso.

Racionalizei sim, racionalizei aquele momento por que era a única forma de lhe salvar de si mesmo. Você já estava condenado, e a única forma que eu encontrei foi matar o Eros(eu não o matei você está me entendendo?), Eros que você apreciava como irmão, mas que usurpava e lhe oprimia: você era não só um escravo de suas paixões, mas um Ícaro pronto a despencar. Eu não retirei seus projetos e nem suas asas: você é um Da Vinci orgulhoso mas continua original.

Tudo tem seu preço, você sempre soube, sabia desde o início que eu iria cobrar com juros. E foi o que eu fiz. Você não seguiu seu conceito de palpável. Você voou e desafiou as nuvens. E eu só escrevo isto aqui, por que deu errado me entendeu?

Os vencedores terão outras explicações... mas não se trata de uma disputa de objetivos. O alvo é a origem.

Você nem vai terminar de ler isto aqui. Você sabe, eu sei.

Por que gente humana escreve a realidade com os olhos.

Saiba...Foi melhor deste jeito. Você chegou até aqui, sabe que se ultrapassar a linha limite não haverá retorno. A linha limite não existe, por que você não caminha em linha reta...

Você anda em círculos.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Moisés entregava gelo

Moisés era entregador de gelo. Sim, gelo. E vez ou outra pensava, que emprego era pior do que aquele.

Levava gelo, recebia e distribuía friezas.

Parava e bebia cerveja sozinho, sempre sozinho. Todos estranhavam.

Moisés não frequentava igrejas, detestava seu nome e os santinhos que recebia na rua fora do horário de trabalho.

O homem dentro da caixa


Na Lapa, centro do rio, um homem dorme dentro de uma caixa: Abdômen para fora, cabeça para dentro. Verídico, terrível.

Eu caminho abdominalmente; já perdi minha cabeça na caixa do homem.

Homem? Homens? Mas que papelão!

Ao lado uma placa lhe diz: "Secretaria de Gestão Penitenciária".

E mais adiante um hotel chamado Hilton grita carros importados na calçada; alguns passos para a esquerda, e vejo bancos, caixas eletrônicos e vidraças que pedem... pedem...

E eu só quebrei os retrovisores; sou um covarde sem abdômen!

Sou uma caixa! Uma caixa de papelão!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O ponto limite, a "dead line"

As coisas estava monótonas Ruiva, monótonas como sempre lhe pareciam, até que momentos antes o desencadear dos fatos contradizia não só a realidade, mas impunham uma nova percepção. Uma percepção irônica, jocosa. Forjada em algum lugar secreto, inacessível para nós, dois mortais que brincávamos de semi-deuses nos finais de semana.

Era como um jogo de dominós, onde os números não poderiam ser memorizados e a cada partida os adversários se encontravam no ponto zero, ou seja; por mais que jogassem, nunca dependiam de suas próprias capacidades ou experiências, mas apenas do desenrolar secreto(se é que isto poderia existir) das combinações, das casualidades, dos encontros e desencontros não arquitetados, enfim da sorte, da maldita sorte.

Era exatamente neste ponto, que eu percebia, e nisto eu achei a princípio que era mais eficiente que você, que algo, não algo tão espetacular no sentido de presentes de natais escondidos atrás de mesas, muito menos velhas cartas que descobertas infrigiam regras básicas dos horizontes de expectativa, iria acontecer. Chamávamos de momentos limites, isto quando não estávamos nós dois bêbados, sorrindo, minto, serei mais sincero, gargalhando, perdidos em quartos de motéis baratos, envolvidos nus por colchas evidentemente de mau gosto.

Nunca sabíamos exatamente o roteiro para estes momentos, por que sempre inventávamos coisas novas, como furar os pneus do carro do yuppie atrevido, ou colocar fogo no brinquedo homo-erótico com rodas do filhinho de papai raivoso, que acabara de ser estúpido com o assalariado sincero e gentil do hotel local.

De certa maneira, perdíamos muito mais tempo e isto era algo que crescia exponencialmente, a falar de ações pretéritas do que própriamente em executá-las, por que o risco ficava maior, crescia e nos intimidava até um ponto quase insustentável, e aí retornávamos ao ponto inicial, chutando o tabuleiro como força...

Recomeçávamos o dominó irracional, sempre com a mesma ousadia, sempre com o mesmo amor, sim amor, pois nada explicaria racionalmente aquela gana com a qual vivíamos, um mundo que parecia prestes a se acabar para nós dois, mas continuava vívido, recheado de sentido, pois sabíamos exatamente o que fazer; não como fazer, isto aprendíamos cotidianamente, mas estava claro que havia um sentimento mais forte que envolvia nossas ações, nosso romance inabitual, nossos beijos desencontrados no meio da rua e sim nossa disposição para fuder as estruturas, mesmo que limitadamente.

Quando começamos a aparecer na televisão, eu não sabia mais o que te dizer, não parecia você exatamente naquele retrato mal feito(você era muito, mas muito mais bonita pessoalmente); as coisas começaram a esquentar, mas isto nunca abalou nossas convicções, talvez remodelou-as para objetivos mais concretos tomando todavia um caminho mais complexo que implicava em ceder.

Coisa que pessoalmente não estávamos dispostos.

Você entendeu mal, quer dizer, era o que eu achei, quando você sumiu. Ceder não incluía me abandonar, na época eu tive de mudar tudo. Tive de viajar para outro lugar como você fez, eu poderia ter ficado, talvez seria preso ou morreria, mas acabei "entendendo" seu recado. Decerto se tivéssemos permanecido unidos, estaríamos mortos; era uma pulsão de morte que me corroía, você sacou tudo novamente, ponto para você. Afastando-se, conseguiu não só sobreviver, mas manter-me vivo...

Claro que compreendi, e agora isto fica cada vez mais claro, que um retorno seu, era um novo processo. Você teve de sumir, teve de me esquecer abandonado num lugarzinho hipócrita do lado de perdedores como Anatole, teve de manter-me como um quebra-cabeça fora do lugar, por que enfim, o tabuleiro não estava para nós ruiva... não mesmo...

Não sei como será: talvez você volte, pode ser que fique de vez bem longe de mim, o que decerto não me agradaria, é óbvio no entanto que eu achava que tinha ultrapassado a linha limite, a dead line, mas sempre se pode girar sob seu próprio eixo, se é que existe algum eixo que não esteja aí, pertinho de onde você está.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Nos quartos de motel

Quando assaltamos aquele banco, os expropriados reagiram, falaram que a propriedade privada, um bem inalienável e santificado fora corrompida por uma meia dúzia de anarquistas expropriadores; eu sacudia o controle remoto e sorria, sem camisa, deitado na cama, enquanto você tomava banho, e eu podia escutar as gotas, o barulho do chuveiro e a sua interrogação preencherem todo o ambiente: Está passando? Está passando? Você dizia.

Nunca falávamos de nós mesmos nestes momentos, nos esquecíamos dos "nós" pelo bem do coletivo, apesar do que, eu sempre pensava, que a linha tênue entre o coletivo e o individual sempre se esgotava nos finais de semana.

Eu dormia sempre pensando no amanhã, e sinceramente desistia de escrever, de falar, de trabalhar muito, por que a música árabe, os livros romenos e toda a eventual anormalidade que perspassava nossas vidas recheadas de um cotidiano inesperado, pareciam desenhar que as segundas não eram própriamente segundas, as quartas podiam ter gosto de domingo ou vice-versa... já que as eventualidades produziam seus acasos tão particularmente interessantes.

E eu sorria, mesmo sabendo que o fato de você sair nua, completamente nua, apesar do que sua mente sempre estava vestida, conseguia eliminar toda tensão, mesmo que eu fingisse o oposto, e você repetia o "que foi", o "Que foi?" que crescia, e fazia sentido, segundo após segundo, quando acabávamos nos amando despreocupadamente dentro de um quarto pobre de cortinas e papel de parede, mas repleto de paixão, sim, de paixão.

Aí eu acaba, fazendo os mesmos elogios, acabava retirando sua toalha molhada, você acabava sorrindo, me repreendia, ou às vezes até me odiava intensamente, o que provocava a necessidade de uma cautela, e invariávelmente acabávamos ou conversando ou nos amando(isto dependia essencialmente de nossos humores tão diversos).

Quando você me negava em desculpas, era óbvio, que mesmo devido as condições externas, estava apoiando suas subjetivas vontades em condições gerais e objetivas que conseguiam mascarar um pouco de vingança parcelada(eu também fazia isso).

No final acabávamos, ou começávamos, um jogo de cafuné, uma massagem, e o dia posterior sempre era muito mais positivo, por que ou eu levava o café na cama, ou você me dava um beijo enquanto eu fingia sono.

Seus cabelos molhados, sua blusa cinza, seus humores tão variados, eram tão apaixonantes, que eu podia carregar todo aquele dinheiro expropriado sem medo de ser reprimido.

Eu não tinha medo, por que quando você estava do meu lado, tudo parecia fazer sentido.

O mundo era fácil.

sábado, 14 de junho de 2008

Falta do que escrever

Bela idéia. Meus dedos não chegam. Não há concentração. Olho para cima, para as estrelas, me sento sozinho, eu respiro, bebo água.

E nem um conto, mas nem um conto, consigo acabar...

Gênio.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Supersticioso

T'esconjuru pé-de-pato mangalô três vezes! [na madeira]

(pode ler agora, querido leitor)

|
|
|
|
V

O que se vê

Granito
Amor e miséria
Quase invisíveis

Uma rotina siberiana

Quando acordo, sinto falta de algo. Mensurávelmente pobre e ridículo.
Um abraço, um afago, um beijo de despertar, que jamais surge, mesmo com o cotidiano tocando às seis horas da manhã.

Quando eu durmo, não sinto falta de nada, além de mim mesmo. Há um travesseiro na cama, um lençol velho; uma preguiça de pensar sobre si mesmo, e três ou quatro cervejas vazias sobre a mesa, em dias de moderação, em dias de pretérita moderação.

Quando eu não durmo e não acordo, sinto falta de algo. Que não sei bem mais o que é. Uma foto, uma presença, uma lembrança...

Eu não apelo ao afago, ao abraço, às cervejas, e nem mesmo rezo ao cotidiano...

Por que são todas provas ridículas de fugirem de algo que só encontrarei, em mim mesmo.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Pobre Pierre

Priscila!! Porque principiou perjúrios prejudiciais para Pierre? Paixão perdida pode produzir particularmente pesados problemas pessoais!

Pobre Pierre! Pernoitado pé-de-cana, penalizado pela perda pretérita, pronto para provar pelos porquês pessoais, passividade, perdição, perturbação, percalços!!

Profissão? Perdedor! Pouco! Pierre... Pobre-diabo! Permitiu patéticamente povoar pensamentos... pilhas! Provou paixão para Priscila: perfumes, películas, peripécias! Planejou passeios! Permitiu provocações! Prescindiu pilhérias populares! Produziu palavras...

Pierre pavimentou projetos! Pensava positivo! Priscilla palmeava pacientemente... Preparava pesados pagamentos para pobre paixão passageira!

Perguntou para Pierre por que podia permitir prematura paixão! Poucos passos... pouca presença... Poucas possibilidades plantadas!

Paralisado Pierre pediu perdão! Proclamou poderosa paixão!

Porém Priscilla postergava pedidos... Pragmática, prática, porto-alegrense prevenida... Preferiu preterir profundamente Pierre! Predestinado Pierre!

Pessoas problematizaram: Paixão precisa palpabilidade! Prevenção!

Pedestres palpitavam: pura palhaçada!

Pierre proclamava por portões, pistas, parques...

Puta que pariu Priscilla! Puta que pariu!!!

sábado, 7 de junho de 2008

Concretismo que falhou

Uma nota de cinco pratas na mesa.
Um barulho no som, no ouvido.
Água no estômago.
Pouco rancor.
Andarilho.
Cerveja.
Som.
Foi.
Foi...
Então...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Palavras ao vento

Há um ponto em específico em que explorar a escuridão sem lanterna é muito mais reconfortante...

A carta de despedida

Tinha uma tarefa simples: escrever uma carta.

Sua carta não tinha destinatário, não no envelope, o atendente reclamava.

A destinatária existia, mas a carta nunca era enviada em seu nome.

E foi aí então, que o pobre remetente tornou se destinatário; na verdade sempre foi desta forma, mesmo que negasse vez ou outra diante da caneta e do papel.

Ele sempre fez tudo para si mesmo diziam as bocas: quando amava amava a si mesmo, quando escrevia para ela, escrevia na verdade para si próprio, quando cozinhava ou levava café da manhã, estava era agradando seu umbigo.

O correio não entendia, o carteiro ficava confuso e no final estava abarrotado de cartas que enviara para si mesmo.

A tarefa era simples e ainda assim ele(eles) resolveram complicar tudo, com a distância, com as cartas, enfim, com as coisas tortas e sem nexo de que são constituídos os correios.

Sim, pobres correios.

terça-feira, 3 de junho de 2008

O peso do mundo

Eu olhava nos teus olhos
E você, tão honesta
Reforçava a mesma impressão
Que tínhamos do mundo

Desigual, injusto, voraz...
Algo tinha de mudar

Quando fazíamos poesia
Fazíamos nas ruas, ao lado do povo
Da lama, da luta

E ainda assim, faltava-me fôlego
Fôlego que lhe sobrava
Toda vez que eu o buscava em teus olhos

Quando você foi embora
Não pude mais dividir
O peso do mundo
Com a tua presença

Só me sobraram a memória
As estrelas, e as calçadas, muitas sem vida

Neste ponto, e particularmente neste ponto
O mundo tornava-se muito mais injusto, desigual
E voraz
O peso do mundo aumentava

Eu esquecia meu socialismo libertário
E naquele momento, era só mais um
Mais um reclamão egoísta
Que nem me lembrava mais
Do peso, do peso do mundo

domingo, 1 de junho de 2008

Agora ele entendeu

Te amei tão vigorosamente...
E eram cinco minutos...
Que eu transformei em quinhentos!

Mesmo em quinhentos, diziam os sábios...
Não é tempo suficiente para amar ninguém

Por que quando se ama, o tempo parece não passar
Mesmo para os céticos, ou para os que constróem
Ou adiantam relógios

Constróem relógios e constróem amores
Inventam fazendo, rejeitam as cores/dores/humores
Ou toda a palhaçada que rima

Por que cinco minutos são suficientes
Para escrever uma poesia ruim

Mas não para amar...

Por que ninguém escreve poesias ruins sobre o amor
Quando realmente ama

Multidão vazia de vozes internas

Eu converso comigo mesmo nesta noite fria e vazia.

Mas quem disse que estou sozinho nessa multidão de gente que consome meu hábito?

Roído pelo anonimato, minhas palavras ecoam distante, num vazio de letras indiferentes; não há piedade para o inédito, mas há cerveja farta por sobre a mesa.

Eu me embebedo para ignorar a multidão vazia, as letras indiferentes, os que consomem meu hábito e para claro, aguardar o inédito, mas nada chega, por que nada chega quando se realmente espera ou se trabalha para algo chegar.

O inédito é filho do acaso, e o acaso não perdoa a ferrugem de gente ansiosa.

Eu sento, choro, e durmo, não necessáriamente nesta mesma ordem de ficção.

[um bom título não faz um conto mediano]