terça-feira, 25 de março de 2008

Não há mais mangas no quintal

"O homem é a natureza tomando consciência de si própria. " (Elisée Reclús)

Meu quarto fica no final da casa. É um quarto quente e um pouco abafado, estreito, com raios solares que não o esquecem durante todo o dia. Atrás do meu quarto, há um gramado simpático.
E neste gramado, há uma mangueira. É uma mangueira deveras libertária, ela nunca respeitou a ficção da propriedade privada; parte de sua frondosa copa avançara impiedosamente sobre o terreno da casa onde moro, alguns galhos atrevidos na verdade, galhos que quase tocam o chão, onde podíamos tocar as mangas com os dedos das mãos preenchiam parte da parede que segue cartesianamente até o final da casa. A casa termina, a mangueira não.

Seu caule está prostado no terreno do vizinho, ele faz o que quiser com a mangueira; se quisesse matá-la poderia ter feito, mas por bondade ou preguiça, ela ainda vive, e eu sou de certa forma grato por isto.

Haviam mangas espalhadas no quintal, muitas. Mas para dizer a verdade, eu nunca experimentei nenhuma delas.

Sempre que um vento do norte atingia o terreno, as mangas despencavam. Mangas suicidas. Eram tantas, que enchíamos baldes, galões de manga e só eu sei o que eu sofri para catar todas as últimas que caíram.

No início não incomodava muito. Eram só frutas. Mas aí começaram a cair os galhos e as folhas. E caíam exponencialmente.

Incomodado fiquei realmente, quando encontrei suco de manga na geladeira. Mas não era da mangueira. Não daquela, talvez de uma prima distante. O suco estava numa embalagem industrial; aquilo era uma contradição explícita, a mangueira tinha razão, eu não tinha a mínima consciência ambiental.

Minha mãe também não. E mandou podar a mangueira.

No início achei razoável. Cortar umas arestas sobrando daria vida nova à mangueira, quisera eu poder fazer o mesmo. Mas no dia da poda eu me entristeci, pois percebi que estavam cortando além da conta. E a conta era do tamanho do horizonte da minha janela.

Deitado na cama, eu conseguia enxergar a mangueira e uma outra árvore, cujos limitados conhecimentos arbóreos não conseguem nomear, mas posso dizer que é uma árvore mais disciplinada, cresce e conforma-se perpendicularmente ao solo, seus galhos são curtos, seu caule é longo e ela não atrapalha a disposição matemática daquele jardim, construído, diga-se de passagem.

A mangueira tapava todo o horizonte, e ninguém consegue construir horizontes com facilidade, contudo após a poda o horizonte que ela tentara esconder, revelou-se de imediato, tomada por um golpe de mágica. A tristeza da poda, e como foi triste ver seus galhos serem levados abruptamente, deu lugar a uma observação detalhada, um compasso delicado sobre a natureza; uma verdadeira e detalhada observação do fluxo natural das coisas.

Não existia grama embaixo dos galhos da mangueira pois o sol não chegava ali.

Não existia horizonte nos meus olhos antes da poda; eu só enxergava os galhos e o verde da mangueira, este era meu horizonte, enquadrado por uma janela e perseguido por uma mangueira. Mais do novo horizonte, surgiu a vida, lentamente construíndo-se em torno de metáforas e de natureza.

Mas antes de continuar a falar sobre a mangueira, eu preciso falar daquela árvore que eu desconheço o nome e está plantada mais próximo a minha janela. Em um dia de insônia o vento a balançava suavamente. A árvore não lutava contra o vento, assim como o leito do rio não luta contra as pedras que o cortam. Outro dia, percebi a árvore parada. Não ventava e ela não se mexia.

ELA NÃO NEGAVA SUA PRÓPRIA NATUREZA.

Voltando a mangueira, a grama comecou a crescer, o horizonte se ampliou. Não lamento muito mais por ela. Por que agora posso enxergar o céu como jamais pude da janela do meu quarto. E quando o céu está chuvoso, e eu adoro os dias chuvosos, levanto-me da cadeira, paro de escrever, debruço-me por sobre a janela e olho para aquele horizonte cinza, e cinza não é uma palavra adequada e nenhuma é, para traduzir o que é este horizonte nesses dias.

E eu não consigo escrever quando isto ocorre.

Por que seria mesquinho demais falar de mim, somente de mim, quando me sinto completo e perdido na imensidão do todo.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Condição de Classe

Olhava para o ponto de ônibus com irritação. As pessoas se espremiam como peças certas de um quebra-cabeças mal feito, e quando o ônibus aproximava-se, havia um mover contínuo e frenético; quase uma explicação prática sobre a teoria do caos, algo como a aleatoriedade das partículas e das gotas de chuva que caíam sob os pará-brisas; Luciano comparava aquele ritual, a um embaralhar de cartas. Todas de um mesmo baralho.

A ansiedade percorria suas veias, sempre que o coletivo se aproximava, parecia no entanto que o tempo esticava, aumentando exponencialmente este seu sentimento agudo, a ponto do desejo intenso de ir embora, sair dali, fugir daquela fumaça, do ponto cheio, da urbe calorenta e do pouco espaço vital que tinha naquele momento, alimentar uma misantropia que em outros momentos de lucidez lhe seria extremamente condenável.

O sol escaldante agredia sua fronte, a fumaça negra dos coletivos, uma afronta aberta à gaia, a si próprio e aos que estavam ali, deixava claro a condição de classe a que fora submetido. Não era tão óbvio como parecia ser, Luciano, podia para alguns ser um mero produto da indigna ascensão social pequeno-burguesa, de classe C3 a C2(lera numa revista respeitada num consultório dentário, as novas e recentes classificações de classe, doze, segundo a renomada revista), fato irrisível que não assumia para si.

O terceiro coletivo, amarelo, cortando seus pensamentos e uma kombi que realizava transporte ilegal(ou seja, aquilo que o estado não ganha dinheiro - pensou) despertou uma satisfação momentânea: "quero fugir deste lugar".

Esbarrou em uma ou duas pessoas, mas não havia tempo para educação ou idealismos, a realidade e o ônibus amarelo - naquele momento um verdadeiro Hegel da filosofia, lhe impunham uma outra dinâmica. A subida no coletivo começou a lhe impigir outros desafios existenciais, dilemas filosóficos; deixar a srta. de vestido verde ultrapassar sua frente seria um ato de educação ou de comiserabilidade? Lembrou mais do "torna-te o que tu és" da aula de filosofia ocidental, e resolveu não promover nenhum sentimento de desigualdade, deixando a morena de olhos claros a ver coletivos(na verdade seu atual estado civil era o desinteresse - e isto teria de ficar claro após duas ou três olhadelas).

Rodou a catraca do ônibus, sentia-se meio homem, meio gado, posicionou-se no banco mais alto, mas no fundo estava na mesma posição, uma posição de classe.

O monstro de metal avançou, o cobrador visívelmente entediado, batia insistentemente a moeda em um dos ferros de alumínio da condução, sua expressão transpirava desistência acumulada e o tintilar emudeceu diante do motor agressivo do ônibus. O vazio do coletivo, começava a dar lugar a uma sequência de expressões corporais, gestos e fisionomias, que ocupavam espaços, clamavam o mínimo de dignidade conquanto não demonstrassem tão abertamente.

A quimera avançava, a paisagem retorcida, inundada de cimento e concreto, sufocava os pensamentos, alimentava a desilusão e disseminava um sentimento de desconfiança, um afastamento progressivo, que vez ou outra era vencido por uma atitude mais cordial, como o de pegar moedas caídas.

A velocidade aumentava, a paisagem também, a cada ponto, a cada parada, o moinho de metal engolia mais incautos: um bom almoço a serviço do capital. Cinco ou seis passageiros se acotovelavam num espaço que cabiam dois ou três, o barulho da catraca, da roleta ritmava a respiração do monstro motorizado moderno,(o trajeto ainda não tinha se fragmentado em "múltiplas" identidades a ponto de tornar-se tão pós-moderno) enquanto Luciano perdia-se em seus próprios e ocultos pensamentos, sua indignação por estar ali, espremido como todos os demais era tão nítida, quanto aquele trânsito incongruente.

Estava abafado.

Observou um caminhão de carga, preenchido por batatas, - No fundo, dentro desta lógica, é o que somos para eles(referia-se aos donos do poder, aos donos do capital): Meras batatas. Mercadorias.

Transitando frenéticamente em torno de um circuito construído, trabalho x bairro dormitório, bairro dormitório x trabalho, Luciano entristecia-se com o holocausto(como pseudo-poeta tinha a licença para promover apropriações) social que se avolumava, não conseguia manter a calma dos cínicos diante a miséria; a cada pedido de esmola, a cada notícia de jornal, a cada degradação calculada, Luciano enchia-se de indignação... Encher os pulmões de utopia era o que lhe restava, não aceitava ser conformado nas linhas de produção do capital. Jamais! Guerra ou morte!

Alinhar-se com o inimigo nunca! Iria até o último suspiro de força se for preciso!

É preciso saber a condição de classe! - gritou para todo o ônibus.

Como um imã, os olhares foram lançados até o fundo do ônibus, a viagem emudeceu. O arranque do motor descongelou a situação.

Por fim o trânsito de batatas, de pessoas prosseguiu em seu interminável objetivo, a fornalha do capital estava sedenta, era preciso alimentá-la com mais um coletivo repleto de desejos, mas se dependesse de Luciano e da rebeldia coletiva, que mesmo sufocada por entre os dentes, estava lá, no fundo dos olhos de cada passageiro, teria uma bela indigestão.

domingo, 16 de março de 2008

Chovia quando ficava triste

Choveu. E então o céu lacrimejou suavemente, como se aguardasse um afago.

O afeto de Vasilli estava espalhado por sobre a mesa, davam o nome de Vodka, e estava distribuída por uma dose de limão, acúcar e gelo. Jazia também, uma caneta por cima da mesa, próximo ao cinzeiro, repleto de guimbas do passado, dor nostálgicamente posicionada por cima do seu horizonte de dúvida.

Não havia muito a fazer, a não ser observar os pingos da chuva rabiscarem o céu, a varanda, e seu coração, aguardando que em determinado e específico momento não combinado entre os dois(ele e o céu) algum dos dois teria de parar de lacrimejar.

O céu era forte, amplo, mais Vasilli muito mais infinito, rabiscou o papel a procura de inspiração, ou melhor calma, para expressar o que ele sabia bem que somente o fundo de seus olhos poderia dizer; olhando para os lados, mexendo os dedos por entre o cabelo desgrenhado, abaixando-os a altura dos pés, movia seu pensamento de um lado a outro sem encontrar respostas, mesmo com aquela música de jazz que ouvira semana passada e não conseguia esquecer.

"Procurar não traz a paz. A paz só vem quando a gente esquece. " Filosofou em tom de cinismo, cinismo consigo mesmo, por que naquela casa mal conseguia se carregar, quanto mais conviver com os demais.

A vodka aqueceu a garganta, mas não os paralelepípedos molhados da rua, pouco limão, pouco limão... Levantou, deixou o copo em cima da mesa, debruçou-se na varanda, mover o corpo não era uma estratégia, era uma instinto básico de sobrevivência, o olhar girou seu corpo e olhar em direção ao final da rua, vez ou outra, captava algo. Sensação estranha aquela.

Está no ar. Veja bem. A angústia está no ar... e eu aqui, a captando. O céu está triste, encerrou, como estivesse provando a si mesmo que o motivo daquela tristeza era apenas a de efeitos colaterais que o levavam a desenvolver algo brilhante... uma vida brilhante.... uma idéia brilhante... uma filosofia de botequim brilhante... ou até mesmo uma frase, ou uma poesia brilhante...

Este ledo engano, era teleológico por demais, e ele acabava perdendo partes das esperanças que simularara para si e retornava ao ponto original como num dificultoso jogo de armar castelos de cartas ou de areia... Desistia de enxergar a tristeza com tanto otimismo, na segunda ou na terceira dose de saudade ou de medo.

Voltou a mesa, mexeu no cigarro, como aguardando um reflexo, algo que se movesse, que o tirasse da habitual tristeza. Mas não... ele bem sabia... por quanto sempre estalava nessas horas uma parte de si deixada à própria sorte, que decidia por fim reagir, mesmo que devidamente reduzida de suas forças na tentativa de o animar....

Havia um quê de secreto, naquele pacto silencioso entre Vasilli e o sagrado(considerava aquele ritual sagrado, um sagrado não sacralizado, um sagrado não-divino, um sagrado que agradava por fim, os ateus), entre suas lágrimas e a chuva, entre seu destino e seus passos...

Fingia otimismo quando lhe interessava e o contrário era mais habitual, era verdade, vez ou outra não fingia nada, era sincero, depreendia daí o problema e a incapacidade objetiva de o ajudarem.

Poucos poderiam, já não acreditava em nenhuma ajuda que não cobrasse noventa reais a consulta, afinal desconfiava de boa parte do altruísmo que aguardava cinco minutos a sua vez de falar, que não descortinava a tristeza alheia, que não remoía no fundo o que verdadeiramente se escondia naquelas frases, sim, pois é ali, é mais na parte sul do abismo interior, revelado por cinco ou seis olhares, por dois ou três atos falhos, que Vasilli se escondia, e como todo mal cristão, a introversão fazia parte do pacote.

Não se escondia tão fundo assim, bastava coragem, sensibilidade ou intuição(ou um misto das três), para descobrirem em que parte do penhasco se encontrava, mas tal tarefa, não cabia à desajeitados/as ou a covardes. Ninguém olha espelhos para negar o que sabe, mas sim o inverso.

Começava assim a treinar, a adaptar-se ao kung fu emocional, fundar seu jogo de xadrez fora do instinto, dentro do real e começou a temer, na segunda ou na terceira golada daquele resto de limão com tristeza, a profundidade do abismo em que se jogara.

A grande questão era saber se seria resgatado; ou se queria mesmo.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nem tão mal assim, nem tão bem o suficiente

Ruiva, sabe exatamente como o corpo reage a angústia? Já sentiu os olhos úmidos de lágrimas, e a garganta engolir aquela decepção embalada antes do café-da-manhã ruiva?

Meus passos longos precipitaram uma imensidão de cores, cores que eu não consegui filtrar(e quem disse que eu deveria?); ela apenas racionalizou o mundo a nossa volta Ruiva, ela matou o dionisíaco que nos temperava, ela pragmatizou a realidade ao nosso redor.

Faltou-lhe coragem? Coragem esta que me sobrava... Mas eu Ruiva, este tonto Vasilli, enebriado pelo desejo de re-construção dos cotidianos, não conseguiu compreender que isto apenas dizia respeito ao poder de decisão dela Ruiva, e não do meu, de convencimento(e eu repito isso para me convencer... para me convencer racionalmente, mas emocionalmente nunca me convenci).

E cá estou eu, cercado de guimbas de cigarro, fuçando livros no centro da cidade na terceira quarta-feira do mês, comendo uma esfiha com gosto de saudade Ruiva, e secando lágrimas que eu nunca despejei na verdade, metaforizando tudo ao meu redor, tudo, por que assim, o mundinho cinza dessa urbe impiedosa ganha mais vida.

Já não estou nas suas fotos, sei disto Ruiva, ela me apagou de todas as suas fotos e suas recordações, as minhas frases de efeito e meus ditados clichês, ecoam por cinco ou seis amores esquecidos, por que idéias não morrem Ruiva, idéias são a prova de balas, e no fundo no fundo é assim que me sinto, uma grande idéia presa num corpo humano, demasiadamente humano; e talvez seja esta minha função no mundo Ruiva, fazer parte de momentos longos(para muitos, e curtos para mim) onde eu tenha me transmutado não em corpo, mas em espírito.

Exercitei a imaginação alheia demasiadamente, e em troca, (dentro desse olhar egoísta inconsciente) apenas recebi letras ruiva, letras que eu já tinha de sobra.

Anatole, fora de sua habitual inabilidade para com piadas, conseguiu fugir do padrão esses dias, e disse algo que realmente me interessou(a posteriori - é claro, eu não daria este gostinho ao puto):

"Precisamos de uma novo tipo de tuberculose que só consiga matar os poetas."

Nato está certo, não há mais glamour(se é que houve algum dia), mistério ou mágica em trocar emoções por letras, isto já foi intensamente exercitado e minha verdadeira profissão de fé é me iluminar diante o esquecimento. Nossa miséria é tão escassa ruiva, que me envergonho de despejar esta parte de mim, não é justo dar aos outros uma metade de você que eles acham ser a inteira, a impressão normalmente é que se costuma vender algo, por um preço muito mais alto do que podem pagar.

Ruiva, quando olhei para tuas fotos, me lembrei o quão inadaptado eu me sentia ao lado de determinados grupos, e eram poucos, muito poucos, os que eu não tinha de me esforçar para vestir aquelas personas descartáveis irritantes, mas isto é um fato tão coerente e corrente que no final das contas, me achava mais e tão verdadeiro quanto possível.

O daqui pra frente é uma estrada deliciosa Ruiva, este paradoxo ambulante de nome Vasilli, no fim das contas concorda que a tristeza é o verso da alegria, não sabe bem como autogerir isto a ponto de equilibrar-se sem muletas, mas está no caminho... Irrito-me com a necessidade mórbida de imporem a ditadura da felicidade, isto é triste demais ruiva... gente sem verso é apenas um simulacro de ser humano...

Isto é tudo Ruiva, mandarei outras cartas depois, pois já não tenho mais para quem enviá-las, me sinto meio Anatole agora Ruiva, distribuindo metades de si para muitos(quando sabemos que ele é inteiro, não metade) aguardando compaixão, mas não há compaixão suficiente, nunca há, e depender desta caridade emocional definitivamente não diz respeito aos espíritos livres(e quem disse que eu quero ser? deixe o ubermensch para as próximas gerações...).

Agora me vou, esgueirar por entre o cotidiano, apesar de continuar a me sentir sozinho, ainda posso olhar ao lado e ver muita gente ao meu redor.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Disputas Interiores: Durden ou Poulain?


Olhando para tudo o que aconteceu, tinha quase certeza de que o caminho, sim, pois era seu sem dúvida, era um caminho pra lá de interessante. A maneira com que recriava a vida ao seu redor, era em suma, parte de um processo global, isto é verdade, e acreditava e confiava nas redes que o envolviam, e tudo, tudo, dizia lembrando daquela terça-feira mágica, era parte daquela trilha, daquela estrada, deste caminho, ríspido, suave, intenso, jocoso, brilhante.

Poderia encher o copo da vida uma ou duas vezes, antes de experimentar a dor, e o que era a alegria sem a dor, o que era a paixão sem o ódio, o que era o dualismo sem o relativismo, o que era ele próprio sem si mesmo!!! Confiar no sagrado era o início de um processo curto de esperança. Era um feixe de respiração otimista.

Fazendo um balanço sincero e motivado de seus/meus próprios costumes lembrava demasiadamente das músicas tristes, das cartas sinceras, das lágrimas despejadas sob o copo de cerveja preta, que ele, sim, ele tanto adorava. Era um romântico incurável, e românticos incuráveis, necessitam de mais tempo, nenhum tempo é tão escasso, quanto o tempo dos românticos incuráveis. Ele sabia, e demonstrava a cada gesto, que era uma junção de simplicidade explorada demasiadamente pelo destino a ponto de exaurir seu próprio otimismo; e no entanto conseguia a cada respiração, ser visitado pela morte sete vezes, assim como os budistas; e que deus os tenha.

Mas lhe faltava maldade. Não se referia ao mal convencional dos filmes hollywoodianos ou das igrejas de final de semana; faltava-lhe, e podia perceber a cada evento, uma percepção mais nítida, e a este ponto preferia a palavra parceria como o oposto do que ele era e negava.

Era claro e necessário, que ele deveria fortalecer aquele lado escuro, que tanto deixara-se ofuscar por sua parte mais criativa e dera a uma ampla gama de jogadoras, a oportunidade de deliciarem-se com modelos paranóides produzidos sob situações de tensão; ou diria melhor, bonequinhos perfeitos, imagens projetadas no espírito do tempo a partir de espasmos pré-românticos, mas veja bem, e preste atenção neste período, neste momento, tão particular e talvez inovador... espasmos pré-românticos são como comportamentos clichês às sete da manhã.

"Passe-me a manteiga por favor! (me passa a porra da manteiga!!!)."

O espírito do tempo não estava com ele desta vez(nunca esteve). Adaptaria-se?

Adorava utilizar opostos para explicitar a si próprio; água x fogo, yin x yang, sombra x luz e como a modernidade lhe impunha novas e sensacionalistas abordagens, Anatole resolvera escolher a dicotomia durden x poulain, que era um produto de filmes baratos que resolvera rever para explicar a si mesmo e aos leitores(dois ou três - num dia de sorte) o que era dicotômico em sua, em nossa, personalidade. (se você chegou até aqui parabéns! força! continue!)

Oposições que se completavam, mas que neste momento digladiavam-se em torno de uma resposta. Ele vai ter de escolher - diziam nos corredores do inconsciente.

Conseguiria trazer sua sombra?, sim ela dizia faminta - você consegue meu jovem, enquanto jovem; conseguirá empurrar mais para o fundo esta velha, sim, pois anime-se os anos 90 já acabaram junto com suas camisas de flanela, esta velha-idosa Poulain, espírito ultrapassado e prestes a reanimar o velho Durden, este arquétipo raivoso, esta parte de si que calava todas as vezes em que se confrontava com a doçura de uma parte de si que predominara durante todo o jogo; deixe ele tomar as rédeas da situação, deixe o velho durden dominar.

É claro que isso tinha um custo. Ele sabia, e dialogava muito oportunamente com os dois, com meio cigarro na boca, e um copo de cerveja preta, olhando para o horizonte(e seu horizonte era bem limitado por cinco ou seis prédios - isto dependia da quantidade de vodka) que tal tarefa não era tão fácil como poderia aparentar.

Sabia exatamente, que um estava em posição mais vantajosa do que os demais; Vasilli não admitia a princípio, mas as queimaduras de cigarro de quatro ou cinco anos arriscavam palpites de quem ganharia naquele momento o jogo, e isto era suficientemente claro para demonstrar que era hora de cultivar um caos dentro de si, não uma estrela brilhante, mas uma super-nova que talvez conseguiria gerir algo novo... de uma vez por todas.

Matar Poulain, enterrar Durden, talvez seja o caminho.... Ele não sabia exatamente...

Talvez devesse seguir o fluxo, parece fácil quando não se escreve por compulsão. Nada constava como editável, aproveitável; o lixo literário estava aí. O excesso de cerveja preta denunciava que seria mais durden do que poulain e não, ele não aceitava conselhos, por que esta mudança era temporária como toda mudança (normalmente) é. Decerto a maioria inspirava-se e acostumara-se a conviver mais com Vassili em sua fase "Poulain", fazia sentido, já que o espírito do tempo abortava milhares, milhões de Amélies Poulains sistemáticamente...

E a gente costuma projetar no outro o que a gente quer ser. E assim fica fácil pedir para Vasilli ser mais Poulain. Quando o que ele quer. É ser mais sombra, é ser mais durden.

[sorriso da ruiva no canto da sala - cigarro na boca, fumaça no ar, ele dormindo, ela acordada, vestindo preto, sofá sujo, gato preto na casa, lixo no quarto.]

Abandone a meditação, siga o caminho




Reconstruindo meus silêncios. Caminhando... como um gaijin deslocado do tempo, não do espaço.

Olhando meus abismos. Talvez não sejam tão fundos. Verei ao caminhar...

Meditando; há uma rocha, estou no alto, estou perto do abismo, da ribanceira, mas não a temo.

É mentira. Eu abro os olhos. O vazio está mais próximo. Eu levanto, abandono a meditação. Talvez caminhe mais um pouco.

Talvez caminhar naquele plateau seja mais seguro. Talvez. Eu pego minha mochila. Pego em meu bolso uma velha foto. A foto ainda não está desfocada. Nítida demais.

Eu pego minha mochila, eu me lembro de tudo. De tudo. Ainda.

Vou meditar naquele plateau. Será mais seguro, daqui para frente, será muito mais seguro.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Jamais apedreje seu destino

Abandonaria um pouco as metáforas. Seria mais direto. Direto como um não. Como uma recusa. Duas recusas, três, quatro recusas. No quarto a música preenchia o ambiente, por que o silêncio é amigo da dor e não, já não havia mais espaço para a dor. Já tinha dor demais, uma dor que enchia dois ou três ou treze copos de cerveja e descia congelando o que restara da sua esperança. Uma dor que em outras épocas arrasaria tudo o que conquistou, mas não, agora, Anatole, este puto onisciente era um puto forte. Um puto resistente.

Dizem que a esperança é a última que morre. Mas ninguém disse que ela é imortal. Um dia ela morre. Demora a morrer, mas morre. Vai morrendo a míngua, ou súbitamente estraçalhada pelos fatos. Sim, pelos fatos. A vontade move muita coisa, mas a vontade também esbarra no outro, na outra, no alheio; no que não é nosso(e nada, escute bem, nada é nosso além do próprio corpo e das próprias palavras - pois a propriedade como diria Proudhon é um roubo). Mas a esperança é uma fênix. A esperança não desiste. Por que o novo sempre brota das cinzas do velho.

No final das contas esse é o limite. O limite que é criado pela liberdade do indivíduo.

O sofrimento é inevitável, Anatole acreditava nisto, concordava neste ponto com os zen-budistas, os que vendiam incenso na esquina daquele mercadinho simpático onde comprava arruda e feijão, todavia esperava um pouco mais de misericórdia do destino. Palavras tinham poder e se são as armas que matam o corpo, são as palavras que chacinam o espírito. Na verdade é a incongruência entre ação e palavra que o irritava(mas todo mundo agia assim - havia um quê de perdão intríseco nas palavras). Preferia o não sincero, do que o sim hipócrita.

Construir tronos de pedra sob paredes de vidro não era lá um hobbie agradável.

Já não sabia mais quais eram realmente seus limites, isto por que as situações forçavam e tensionavam-os até um ponto insuportável. Sua mente era um campo de batalha. Seu corpo, uma armadilha. Um campo minado.

Sofrer é inevitável, dizia com os zen-budistas entre os dentes, cheirando molho de macarrão vegetariano, escutando Charles Mingus, mexendo a colher de pau suja de molho de tomate que parecia sangue e deixando a vida, e o cabelo crescerem diante de seus olhos... Mas ainda assim, percebia, e tinha realmente esta capacidade, de fazer do trivial um pedaço de luz, uma inspiração, percebia que apesar do otimismo que floreava em sua volta, ele daria mais algumas voltas para repensar o que achava que era meramente essencial(vindo da essência queria dizer).

Quase agradecia, mas não agradecia conquanto, portasse dentro de si uma tranquilidade que permitia a si mesmo, encontrar-se com o divino; não o divino do metafísico cristão, mas o divino do meta-physis grego, o divino era o tao, o divino era o encontro das redes, das conjecturas, dos paradoxos que se digladiavam por vitória e ainda assim se encontravam paralelamente no infinito.

Chamava este infinito de dor.

Dor.

O que era falso...

Nenhuma dor é infinita, portanto que se percebam as incongruências de Anatole. Ele era incongruente. Dizia odiar água gelada, mas abria exceções, dizia não comer palmitos; mas deliciara-se com as exceções num almoço pseudo-vegetariano. Anatole não era própriamente uma farsa, vide os seus atos demonstrarem que normalmente(e ele não sabia o que era normal - e o normal ele afirmava: "era o que você não é quando está com a auto-estima baixa, e o que você é quando está fudido com uma garrafa de vodka Bakunin entre os braços") era um bom sujeito; sim, um bom sujeito.

Não sabia exatamente, e foi descobrir isso, na terceira garfada daquele macarrão políticamente correto, por que abandonara a filosofia de botequim e começara a se concentrar na terapia, duas, três, quatro vezes por semana que se inscrevera num ano bissexto repleto de felicidade, de alegria e de decepção.

A memória voava e ele deveria registrar esse dia, por que dias específicos devem ser registrados. E ele conseguira se vencer. Parou. Conseguiu freiar seu ímpeto em dois ou três dias, e isto era um sinal de juventude ou de amadurecimento.

Anatole, subira a passarela, andara de metrô, vestira uma camisa branca, esbarrara em um, ou dois transeuntes... Lembrara dentro do metrô, quanto tempo leva-se a escrever uma carta de amor, e se isto, se este gesto, se este ato não conseguisse emocionar(palavra jargão - mas que podia ser livremente utilizada pelo seu espírito livre) ou tocar duas ou três pessoas, prefereria encerrar sua história por aqui(estória).

Não tinha muito a escrever, já tinha cozinhado parte de suas decepções junto com aquele macarrão simplório que insistia em sofisticar parte de sua vida, de sua dor, quando Vasilli, chegou...

- Animação meu amigo. Trouxe metade de uma vodka, trouxe chimarrão para amanhã, depois da ressaca... e adivinhe? Trouxe um livro de poesias!

- Imagino que o livro não seja seu, decerto...

- Não. É nosso.

Disse Vasilli, com força, com raiva, repousando a garrafa bruscamente na mesa de vidro. Não era Vodka, era licor de menta. Por detrás da satisfação de Anatole, havia uma caixa de cervejas geladas, repousada próximo a porta daquele apartamento cansativo. Limpo, o que cansava Vasilli. Sofás de couro sintético, quadros de pintores, filósofos e outros pulhas que Vasilli costumava esbanjar ou ridicularizar em público nas sextas-feiras... E ainda assim, Anatole, mesmo no pior de seus momento, conseguia pormenorizar sua dor.

Nato! - gritou Vasilli. Você precisa de uma boa dose de futuro. Passado já há demais.

O telefone tocou, interrompendo os dois, faces distintas de um vazio futuro. E sim, o vazio podia ser o futuro e o futuro podia ser o vazio.

Vasilli...

- Diga Nato. Respondeu Vasilli com uma tragada corajosa.

Quando a ruiva vem?

Ela não vem Nato.

A ruiva morreu?

- Morreu porra. Morreu junto com uma parte boa da gente.Justify Full


Agenda de Sonhos

Sonhei que estava numa mesa, com representantes de diversos países do mundo. O mundo estava num colapso global. Cada vez que algum representante de algum país falava eu procurava na minha carteira uma nota de dinheiro do respectivo país. Logo depois, eu sonhei que estava no metrô de são paulo, e era o último metrô. Os assentos eram laranjas e eu não sabia muito bem onde descer. Na descida eu conversava com um menino negro, de pés descalços, com roupas esfarrapadas e que ganhava a vida com pequenos furtos, ele conversou comigo durante algum tempo, assaltou um pedestre que passava, e eu convencia o pedestre de que aquilo era inevitável.

Depois eu sonhei que atravessava uma avenida bem larga, estava tudo muito escuro. Eu entrava por um portão, num lugar muito esquisito, entrei numa espécie de templo, casebre de madeira, onde lá dentro um sábio, guru oriental falava para uma pequena platéia. A decoração e o ambiente eram bem soturnos.

Após isto, sonhei que estava no meio desta grande guerra. Eu estava situado no alto de um prédio todo destruído. Eu ia descendo pela escadas, e encontrava um rifle para me defender. Eu me agarrava no beiral(numa atitude extremamente corajosa), descia para o outro andar, até que resolvi entrar no prédio, ao invés de ficar na parte externa.

Lá, eu descia e esbarrava com alguns soldados, e fugia destes. Com o rifle nas mãos eu descia até o térreo do prédio(ou subsolo - não sei bem). Onde estava se desenrolando uma luta entre dois exércitos inimigos. Eu atirava nos dois de longe, derrubava alguns, mas não eram própriamente humanos, eram como máquinas, bonecos. Eu fugia do prédio e bem, acho que foi isso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Eu Nunca Guardei Rebanhos

Esse sou eu. Agora, por Alberto Caeiro...

Alberto Caeiro
I - Eu Nunca Guardei Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

De quando leu Zaratrusta

Vasilli, pobre Vasilli, perdido entre as fendas das ruas, costumava a demorar mais do que quinze minutos compreendendo seu tolo papel no jogo. Vasilli, pobre Vasilli, esgueirando-se como quem súbitamente começasse um jogo de gato e rato pelas ruas do centro da cidade, onde na verdade, desempenhava ambas as funções. Era um predador de si mesmo, mas não percebia, e preferia ter de se forçar a meditar uma ou duas vezes por semana, ou participar de um campeonato de sinuca mal sucedido para entender definitivamente que as questões colocadas estavam em torno de suas parcas percepções. Percepções que se confundiam dentre este insistente jogo de imaginação ativa que deixara levar-se. Levava-se como quem carrega um mosaico à espera do manual de instruções; sim, mas outrora enganado podia habituar-se a repetir as mesmas palavras de encanto que o preenchiam, mas desta vez não, desta vez, Vasilli, o bobo Vasilli, sabia, tinha real ciência de que seu mosaico(como todos os mosaicos) não tinha quaisquer manuais de instrução.

Caixas herméticas o sufocavam, e vez ou outra percebia a expressão alheia em algumas faces mais receptivas, quase uma égide de conforto, um conforto subjetivamente deslocado do tempo, mas que inevitávelmente lhe trazia um espelho de si mesmo, emoldurado nos transeuntes intuitivos; descartáveis amizades de diálogos corporais que se confrontavam no espaço da urbe, que se encontravamem algum momento, sem necessáriamente compartilharem (ou perderem) tempo para com as habituais estradas que levam a estes momentos intrísecos.

Esforçava-se para construir, com verdadeiro esmero, um caminho habituável, honesto, e por que não dizer, cantarolar, trovejar uma historieta encantadora, um mito que perspassasse sua tola percepção finita e temporalmente situada, determinada talvez pelas condições históricas(talvez - afirmava a Anatole com um cigarro e sarcasmo entre os dentes, talvez Anatole...) e que conseguisse dar conta de seu sentimento (poder-se-ia chamar de megalomaníaco - se não fosse seu hábito disciplinar de manter seu ego devidamente aquietado) tão peculiar.

Mas ele sabia, e soube bem, da última vez em que tentou se esconder por detrás de meia garrafa de vodka, que as opções estavam em aberto como quem queima haxixe no sábado a tarde, mas que aquietar algo não é exatamente o melhor meio de equilibrar-se por detrás de um gangorra dúbia, uma faca de dois gumes, um eclipse parcial, um copo meio cheio e meio vazio, que clamava não por uma necessidade súbita de exposição, mas sim de que verdadeiramente falando, e da maneira mais popular que encontrava: ou se usa calça de veludo ou se coloca a bunda de fora.

Não era simplesmente uma metáfora elaborada, do jeito que agradaria intelectuais pré-sorbonne, e muito menos demonstraria um gosto estético, um meta-discurso avançado, mas o fato é que entre a terceira e a quarta garfada de uma comida vegetariana desprezível, num dia chuvoso, meio nublado, meio londrino, Vasilli teve uma ligeira impressão de que havia um ponto em aberto, um baú de utilidades (e talvez de desgraças) que permanecia aguardando atenção.

Zaratrusta era mais honesto e muito mais efetivo em distribuir conselhos aos outros e a si mesmo, era por isso que Vasilli só lera até a página 83, por que sabia que não conseguiria conviver com alguém que pudesse dar melhores conselhos para si mesmo.

Quanto ao baú, a capacidade inerente de transformar vidas comuns em situações pretensamente mágicas era uma capacidade que poucos tinham, é verdade, mas em seu caso, aquela sensação de cinismo se avolumava com sua incapacidade constante de prover a rotina de pontos vívidos de tensão ou que se adequavam a imagem perturbada, beatnik, nietzschiana, morelliana que costumava a dar a si mesmo(e admitir isso era um ritual próprio dos escritores que admitia inferioridade perante alguns gênios).

Tentar o melhor é bom o suficiente, e ele sabia disto, tanto é que não se importava em coroar cinco ou seis palavras com acentos circunflexos e pontos de exclamação nos lugares errados, por que deveria se manter antes de tudo como um "espírito livre".

Sabia disto, mesmo esparramado a caminho de casa, largado num banco no assento traseiro de seu ônibus mais odiado, quando assistia a miséria de perto, assistia, por que quando as articulações permitiam, deixava-se envolver, e permitia-se avaliar sua própria miséria, espiritual, não tão excessiva, mas de certo modo conectada com as misérias materiais que envolviam aquele mundinho decadente, pós, pús, moderno, que costumeiramente treinava em odiar.

Voltara ao centro da cidade, para comprar aquela máquina de escrever que tanto desejara, uma dor de garganta o incomodava, incomodava também, não saber como fugir daquele circuito bairro-dormitório, centro da cidade, bairro-dormitório, também o incomodava não conseguir terminar satisfatóriamente os contos que iniciava.

Tocava um soul music interessante no rádio, seu humor já animara-se(era parte da tolice este procedimento padrão de resgate de auto-estima vasilliano), já podia acender aquele cigarro mentolado, escutar um Johnny Cash sem lembrar de pequenos desastres e por fim, conseguia retomar o assunto inicial que estava no início do conto, no início de seus passos no centro-circuito da cidade, e que ele jamais conseguia se lembrar.... Qual era mesmo? Espíritos livres... tstststs...





sábado, 23 de fevereiro de 2008

Cachorro quente de esquina

Cachorro quente de esquina nunca é legal. Nunca é legal quando se mistura solidão com ketchup. Era isso que Inácio sentia. A maionese da sua vida era insosa, tão insosa, que ele vez ou outra tomava um refrigerante de indecisões no ponto de ônibus antes de ir para casa e também para tornar o paladar de suas escolhas mais saboroso.

Custava 1 real. Custava apenas 1 real deixar Inácio a mercê do destino.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O retorno ao primitivo

Às vezes lhe batia uma tristeza. Não era bem tristeza e não era muito específico. Deveria ter um outro nome para uma tristeza coletiva. Coletiva é, por que aflige a todos. E de certo modo também individual, por que se aflige a todos, está sim incluído. Abandonou a aula de lógica booleana e resolveu concentrar-se na chuva, uma chuva fina, dirigia, e odiava dirigir, enquanto o pára-brisa e aquele movimento contínuo lhe provocava uma pré-tensão, algo que iria explodir a qualquer momento, que o obrigava a tomar medidas sinceras e inertes para esconder o futuro momento de angústia. Resolveu desembaçar o pára-brisa com uma flanela velha, mas a chuva, e a pré-tensão, já quase tensão neste momento, aumentava; algo o obrigava a parar. Mas aonde? Era um br longa, mal tinha um acostamento, o mato e as cercas dominavam a paisagem. Bem vindo ao brasil pensou. Terra de latifúndios. Latifúndios de miséria. Miséria física e espiritual.

Mesmo atordoado, suas lembranças críticas tentavam trazê-lo ao chão: era inútil. Enfrentava-se, acelerava o carro, passava a marcha, mas não era ele que guiava a si mesmo, o carro não o levava, o carro levava um dilema, digladiando-se internamente, uma luta contínua, um homem a beira de um abismo que tinha apenas como fundo uma música clichê dos anos 90 e uma longa, uma longa e previsível estrada. Resolveu parar. Inventou uns seis motivos diferentes para fazer isso, mas no final já tinha abandonado as razões: "Que se foda. - pensou"

Saiu do carro. Abriu a porta, respirou fundo, não aguentava mais, a pressão tornava-se insuportável. O barulho da chuva tornara-se mais nítido. Nenhum carro a vista, ninguém, apenas mato alto, mato molhado, como sua roupa, sua calça jeans, sua vida, derrapando numa estrada previsível, desejava apenas uma curva, um caminho diferente, antes que o motor esquentasse.

Completamente molhado ergueu as mãos para cima num gesto patético de integração com a natureza. "Jogando toneladas de carbono por duzentos kilômetros, não há como falar em retorno ao primitivo - refletiu."

Tirara a jaqueta, apoiara em cima do banco, atravessou a estrada para o outro lado, desceu o acostamento, mas não atrevera-se a enfentar o mato, voltou ao carro. Acelerou molhado, completamente molhado, acelerou mais, e encontrou um velho ponto de ônibus, de madeira, uma meia choupana improvisada, com um recuo perfeito para encostar o carro por detrás e se secar ou molhar-se ainda mais.

Chutou uma lata abandonada na beira da estrada. Largou o carro. Largou o ponto. Caminhou sozinho, não fazia sentido, não aquilo não era racional, andou, o carro foi diminuíndo, vez ou outra olhava para trás(lembrava-se de uma parábola da bíblia, a do deus sanguinário, que mataria viajantes que olhassem para trás - zombou de deus)... Começou a rir, um riso descontrolado, fervendo histeria, o carro já sumira no horizonte, pela frente estrada, cimento, estrada...

Depois do terceiro relampejar, veio o choro, um choro desassistido, um choro veemente, firme, um choro honesto que não pedia licença! Chorou, entrou em prantos, a chuva caía, ela não ligava. As lágrimas, as gotas, o cabelo, a camisa molhada, e a lama próximo ao asfalto, formavam um todo. Ele já não se importava mais com as dúvidas.

Era o seu próprio destino.

Quando começaram a lhe deixar em paz

A cidade era a mesma de sempre. E isso já o deixava angustiado o suficiente para se permitir uma mudança. Habitualmente lhe traziam sempre uma demanda muito acima do que podemos chamar de normalidade, de problemas, problemas que não eram seus. Vez ou outra chovia, vez ou outra fazia sol, e entre as mudanças, surgiam esses problemas, dilemas, impecilhos internos, que não eram por suposto seus.

Disso decorriam algumas hipóteses iniciais não necessáriamente complementares nem excludentes que ele vinha por formular já há alguns meses, entre uma chícara de café adoçado e o balançar leve e tedioso do vagão do metrô . A primeira era que podiam o considerar um bom formulador de soluções, sua clareza convencia ou indicava as pessoas algum ponto de resolução.

Na verdade era mero discurso, ou melhor, firmeza no discurso, que transformava coisas idiotas ou filosofias de botequim em verdadeiras máximas morais. Esta clareza, convertia-o em um pólo aglutinador, um ponto de apoio de ajuda para resolução de problemas, não os dele é claro, estes nunca conseguia resolver.

A segunda hipótese era a de que seu espírito, já tão acostumado a flutuar sobre terrenas realidades, desprendendo-se de suas próprias dificuldades pessoais, e abandonando um pouco de ego, travando-se perto de um altruísmo não tão objetivo, mas por ocasião desse desprendimento, dessa terrível situação em ater-se a macro soluções e a idéias(adorava idéias) conseguia suportar alguns problemas alheios, já que os seus já tinha préviamente resolvido por meio da limitação prévia de objetivos puramente pessoais.

A última hipótese era mais simples, talvez conseguisse escutar mais do que a regra geral conseguia, e por fim, numa sociedade mecanizada, automatizada, um diálogo é na verdade uma conversa com os próprios complexos de personalidade autônomos que cada um carrega dentro de si.

Entender isso é a principal regra para conseguir viver em uma sociedade pós-industrial. Veja o exemplo da tecnologia ele observava. As intimidades, as confissões, as revelações, adotam o espaço do privado no meio público que é a tecnologia das redes de comunicação.

Não iria perder-se elucubrando novas teorias. Já havia papel demais produzido pela academia, pela inteligentsia das famintas universidades, antros de simulações e realizações pessoais.

Não queria, na verdade, em grande parte da vida nunca quis, a rotina do consumo. De que valeria sua pobre vida se vivesse para adquirir uma certa cota de consumo mensal. Não perderia muito tempo para construir essa cota, não fazia sentido perder grande parte de seu tempo, de sua vida para conseguir atingir esta cota mensal, ao qual chamam carinhosamente de "carreira".

Os problemas continuavam chegando, vez ou outra ele não suportava a imensa quantidade, vez ou outra tudo mudava, e quando tudo muda há um cheiro de mágica no ar.

As coisas começaram a ficar silenciosas, as pessoas começaram a sumir, e os problemas desapareceram e ele teve de se enfrentar, teve de olhar para o fundo de seus próprios abismos por que não sobrara muita coisa para fazer. Compreendia que o movimento e o não-movimento tem enfim, um sentido intríseco, o agir e o não-agir estão inevitávelmente interligados.

A presença e a ausência não são oponentes, mas sim companheiras de jornada....

Ele agora compreendiam por que o deixavam em paz. Por que tudo ficara mais silencioso e por que caminhava pela praia, a noite, esbarrando nas partículas de rocha(outrora estrelas - pó de estrelas) constituindo-se em meio àquela desintregração. Não obstante o desejo de permanecer tão perto, entendia o porquê do sentir tanta saudade.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Histórias de luta...

Ontem, eu fui num acampamento do MTD(Movimento dos Trabalhadores Desempregados). O acampamento situa-se num plateau, em cima de um morro.

Um ermo, que foi transformado em moradia, pela força e disposição de homens e mulheres; guerreiros, lutadoras, pessoas que estão acostumadas a transformar as ruínas em esperança.

Lá em cima, o vento é forte, já até carregou barracos e lonas inteiras, mas a coragem e determinação desse povo valente e guerreiro, consegue vencer quaisquer desafios, até mesmo da natureza. A maioria do acampamento é composto por negros, mas há brancos também e mulatos, apesar da pobreza ser majoritáriamente negra(antes senzala, agora favela), a situação de necessidade é igual para todos/as que ali residem.

Há uma pequena escola, onde aulas de alfabetização são ministradas, muitos moradores do acampamento aprenderam a ler e escrever, pelas mãos e mentes de seus próprios vizinhos. A água foi conseguida a partir da luta coletiva concretizada pelos mutirões; que também providenciaram iluminação elétrica. A presença grande das crianças, não deixa esconder, que ainda faltam muitas coisas, as casas são todas de madeira, barracos sem muita estrutura, a água só chega durante a noite, e não há próximo nenhuma presença de um posto médico ou escola.

É impressionante como meus problemas tornam-se ínfimos quando conheço histórias de luta como estas. A capacidade de organização dos mais explorados cresce proporcionalmente a estupidez retumbante de uma classe-média cada vez mais em estado apático, onde o consumo é a força motriz de uma psicopatia(ausência de sentimento pelo outro, pela outra) de massas.

Como diria Eduardo Galleano, retomando uma pixação anônima na bolívia em 1808: "Temos guardado um silêncio muito parecido com a estupidez..."

Mas mesmo assim, há gente que se organiza, que sonha e que luta!!!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Meditações

Hoje, resolveram me acordar cedo. Recebi um telefonema de madrugada, uma amiga sofreu um acidente, nada grave, mas tive de resolver um problema às 4h da madrugada. Quando tentei voltar a dormir, inevitávelmente não consegui de imediato, o que me fez ter de relaxar. E quando minha mente está muito acelerada/confusa eu tento meditar. Eu disse tento, por que esta mente ocidental-cristã está demasiadamente acostumada com o caos. É difícil parar. A meditação de certa forma lhe força a esvaziar-se. E isto não é fácil para quem enxerga(mesmo que inconscientemente) o estado de vigília da mente como um estado "natural".

Não sou um especialista sobre o assunto(estou bem longe disso); mas sento na posição mais confortável(em semi-lótus normalmente), tento relaxar o corpo. No início é complicado, por que o corpo não relaxa, uso a técnica de "perceber" minha respiração(foi a técnica mais adequada que consegui encontrar até hoje), e fico com os olhos semi-abertos ou fechados(seguindo algumas técnicas sufi). Um bom caminho, é respirar profundamente e naturalmente, perceber o descompasso(ou compasso) da respiração, esvaziar o pensamento(esta é a parte mais difícil) e relaxar os músculos sempre no movimento de expiração. As costas começam a doer de imediato, o corpo tenta se ajeitar, mas é na verdade a mente que dá as cartas no jogo. Após os primeiro minutos de desconforto inicial, em que os pensamentos começam a fluir aceleradamente(e que a mente reluta a aceitar o encontro ao vazio interior), o corpo começa a relaxar. Os músculos se desenrijecem, a mente se aquieta mais(alguns entoam mantras para facilitar - não é meu caso).

Há um momento de paz interior que começa a se delinear; é claro que nunca fui tão longe, minha mente está totalmente condicionada ao barulho, a profusão de pensamentos: como toda mente sob o signo da era moderna, presa nas expectativas do futuro e nos fatos do passado.

Mas há um momento interessante, em que o corpo relaxa mais profundamente, a mente desacelera... Sinto até uma tontura, quando vou mais longe, sinto-me fora daquele espaço físico, a mente gira, é uma sensação interessante.

Após, estou completamente relaxado e consigo dormir com mais facilidade. Não chega a ser uma experiência mística, mas é um calmante natural, que todos nós poderíamos desenvolver se para isso nos dedicássemos. Evitaríamos prozaks, fluoexitinas, e outros ansiolíticos e remédios produzidos pelas indústria$ da "felicidade".


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sobre os dias de calor

O calor estava infernal, desceu com a mochila cheia, carregava uma caixa de papelão nas mãos, que não estava tão vazia, mas também não estava tão cheia; um porta-retrato velho, alguns enfeites de mesa, umas fotos, cartas recebidas, alguns livros de cabeceira, os preferidos e um ou outro material de escritório.

O sol provocativo, fazia-o repensar sua estratégia. Deveria ter saído mais cedo. Mas mais cedo quando? Sempre está quente esta época do ano. Não importa o horário. Ou calor ou inferno, nada muda muito por aqui.

Saudades do tempo em que sentiu frio. Quer dizer, vez ou outra sentia frio, mas não o frio físico, mas um incômodo emocional, uma sensação de desconforto ocasional, que podia ser rápidamente resolvida, ou com 1/10 de uma garrafa de vodka(má solução) ou nos momentos atuais(soluções boas), com um leve passeio, uma caneta e duas folhas de papel.

Em dias bons conseguia produzir cinco ou seis contos sem importância, nos dias ruins, apenas idéias escassas, nem sempre conseguia organizar sua própria inspiração, e é claro, ninguém consegue.

Doravante resolveu não permanecer nos mesmos círculos, literatos falidos, poetas amadores, beatniks de final de semana, isso tudo nunca na verdade lhe interessou; não institivamente.

Preenchia com letras as palavras, com palavras as frases, dava forma, reescrevia sua própria vida, sem medo? Sem risco? Tinha mais medo do que risco. Seus riscos eram fictícios. Na verdade, encarava-se vez ou outra no espelho e via realmente que teorizava sempre sob seus medos, não sob seus anseios. Mas fazem isso o tempo todo. Comportamento normal(o normal sempre é o que nós somos ou estamos - o diferente é o que não somos ou o que não estamos). E não era sobre isso que realmente importava. Os mecanismos que impediam toda a magia, que impediam as cores de retomarem seu ciclo, isto sim importava. Faltava paixão, vigor, amor, liberdade e alegria no mundo. Além disso faltava pão, escola, carinho, teto enquanto sobrava egoísmo, acumulação, hipocrisia, lucro e violência.

Estava enredado, enredado em todo o mecanismo. Era o que podemos chamar, de sua situação, condição de classe. Lembrava-se dela ao pegar ônibus, ao comprar leite(é mentira, ele detestava leite), no aumento da passagem, no aumento do pão.

Policiais para todo o lado, muito controle, e ele desfilava vez ou outra, pensando furtivamente(ainda não era crime pensar), cuidado sou perigoso... um dia haverá a justiça(vingança?).

Não era justo. Esperava no ponto de ônibus, perdera mais um. Caminhou 20 minutos(morava numa ladeira). O cabelo estava maior(dois salões faliram semana passada), o atrevimento também, o método inexistia! Para que método! Brainstorm. Escreva o que vier, como vier, quando vier. E quando puder não. Mesmo se não puder, escreva! É assim que funciona! Mesmo mentalmente, escreva mentalmente porra! Na fila do banco, no banco do metrô, na terceira colherada do almoço. Escreve gaijin.

Comeu um biscoito da sorte. Nada lhe disse de importante. Bebeu suco de maçã, óbviamente um comportamento pequeneníssimo-burguês. Ligou o ventilador de teto, escutou música clássica(no rádio), fez café, sentiu fome, estava sem dinheiro(ainda assim comportava-se como se tivesse algum - crise de identidade de classe).

Relaxou lá depois do décimo e segundo parágrafo, começou a rir, meio compulsivamente(ele era exagerado no que escrevia não no que fazia...) e pensou que se tudo desse certo escreveria romances, belos romances, talvez até um best-seller, uma apresentação em algum talk-show, se desse errado, bem... se desse errado voltaria a copiar os beatniks...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fogo Bravo II

Nada naquele quarto era seu. A mobília, a mesinha de cabiceira, a cama de casal. A sala, a cozinha, o banheiro, seguiam a tendência natural do quarto. Nada era seu. Até mesmo o (pouco) que tinha comprado com seus recursos, nem mesmo aquilo era seu. Nada era seu. Eram objetos estranhos à sua pessoa, estranhos à sua essência. E mesmo que não houvesse uma essência, mas se decerto em algum momento acreditasse que existia uma, aquela não seria a sua, aquele quarto, aqueles móveis opressores, aquela decoração sufocante, estranha a si mesmo, não, não seria sua.

Conquanto tivesse que conviver obstinadamente com aquela decoração, com aquele cheiro de ordem, de casa arrumada, de micro-fascismo controlado, seu comportamento era uma antítese, digamos nada mais do que natural, àquele processo homogeinizador, uniformizante, que se dava embaixo de um teto. Um teto óbviamente que não era seu.

A disposição dos objetos deveria seguir um rito, a arrumação, a presença linear dos enfeites, dos adornos(lembrou de Frankfurt - e sim, era uma piada sem graça), das espécimes novas adoradas num tipo de rito antropofágico, onde se engoliam as pessoas que viviam ali, em detrimento de um cuneiforme comportamento, que se repetia, se repetia, se repetia, em torno da mesma obstinação: manter os objetos alinhados, manter a casa arrumada, limpa, manter tudo em ordem. Ordem é a palavra. Ordem e controle.

Seu dito comportamento simplório, dava lugar a um esvaziamento de si, uma onda de introspecção violenta, que o emergia de dentro para fora violentamente, junto com um mr. Hyde de quinta, produzindo comportamentos reflexivos vísivelmente desleixados. Barba por fazer, cabelos grandes, desleixo casual, louças sujas, canecas vazias; formas homeostáticas do próprio corpo em resistir ao fascismo sub-reptício que se desenrolava de maneira desonesta dentro daquele cômodo sudorento, daquela gaiola classe-média em forma de casebre-casarão.

As metáforas não davam mais conta em implodir os efeitos daquele facho(feixe) de ignorância, de paranóia, psicose social degenerativa que o obrigava a circundar seu eu em torno de si mesmo, obrigando-o a dar as mesmas respostas, nas mesmas situações, de forma compulsiva-obsessiva.

As metáforas se cansaram de dar respostas. Eram meros placebos. A situação pedia medidas mais radicais.

Jesus cristo não teria a mesma paciência, nem Gandhi, nem Buda, nem o raio que o parta. E bem que um raio num dia infestado de pingos de chuva raivosos poderia partir esta casa ao meio, e mostrar bem ao centro, mostrar a epiderme do fascismo, a sua origem, que o material não faz este mundo, este mundo é partícula e onda ao mesmo tempo, e o material é um efêmero vazio, um vazio cheio de rosas negras, rosas que não existem concretamente, mas estão cá na imaginação de quem agora lê e de quem antes escreve. O material é húmus. O material é o transitório. O concreto, o permanente, o invencível, o imovível, era um pesadelo, um pesadelo, como aqueles móveis, tão seguros de si, seguros de sua presença, como se desafiassem o humor de quem os encarava, como se dissessem ao mundo, ao quarto, a aquela casa, que ficariam lá, permaneceriam prostados como um acinte, uma ofensa obstinada, uma coação necessária, que não saíriam, e quem não estivesse satisfeito que se retirasse ante a presença deles, os semi-deuses do mogno e da madeira serrada, os titâs da cerâmica, do gesso fresco, do plástico contemporâneo!

Pegou a garrafa de álcool com pressa; já estava embaixo da cama há cinco semanas. Salpicou nos móveis como em uma oração, acendeu o isqueiro Zippo saboreando cada segundo, largou-o naquele miserável piso de marfim perolado que particularmente odiava com mais intensidade e assistiu tudo queimar.

Sorriu frente ao frenesi de labaredas e alaridos semi-silenciosos do fogo consumindo, consumindo... Seu sono. Um sono e um sonho ruim.

A casa continuava não-sua. A cama, os móveis, a estante marrom, não, agora branca; o armário fascista, sim, fascista.

E o que sobrara para si?

O seu era o nada, apenas o nada.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Reflexões de Anatole

Acendeu um cigarro pra clarear as idéias e enegrecer o pulmão. Mundinho junkie aquele. Eram 15h da tarde e ele nem tinha acendido um baseado; estava num tédio que não dava chance para o humor. Pior que o tédio era o remorso. Remorso do quê? De si próprio. Conviver consigo mesmo não era uma tarefa das mais fáceis. E quem conseguia?

Não se enterra parte de si mesmo de uma só vez. Conviver com as partes que lutam por controle não era uma tarefa fácil, mas ignorá-las não era o caminho, definitivamente não era o caminho.

Escrever estava fora de cogitação. Sua máquina de escrever velha, estava lá, convidativa, mas aquela tragada semi-feliz já denunciava: nada de pseudo-lamentos ou proto-depressões, o que estragava o momento, era a angústia, angústia não, sejamos sinceros, era mera ansiedade.

Ansiedadezinha sem importância(se tivesse tanta importância, algo teria escrito com certeza), sem jeito, que o incomodava progressivamente, mas sem desafiar quaisquer limites que poriam todo o jogo em risco.

Resolveu fazer café, na falta de cerveja, chá-preto ou café serviriam.

O pó estava escasso no fundo do pote, raspou e conseguiu o suficiente. Esquentou a água, e seu humor. Já esbanjava um sorriso, lembrou de uma piada antiga, que piada horrível, mas aí residia a graça. Era essa a graça.

Marasmo produtivo? Digamos... mangas no quintal...

Volto quando puder. As mangas não param de cair.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cartas sobre a mesa

Em algum não tão longínquo passado, criei três personagens, Anatole, Vasilli e a Ruiva. Partes fragmentárias de mim mesmo? Provávelmente... A idéia objetiva era um livro... a subjetiva era a individuação...

Interagir caminhando, interagir sim, rumo a individuação(a do Jung). Usar os pseudo-contos para o crescimento. Mas no meio do caminho, minha mandala quebrou(e as mandalas são concretizações objetivas do auto-conhecimento, da individuação). Quebrou, por que eu não preciso mais delas. Não pessoalmente, agora há um novo significado...

Consultei minha cartomante, me consultei também, e acho que estou preparado. Bem, mais forte. Emocionalmente mais preparado. Para o quê? Para a vida! Para exercer a potência da vida... A potência do viver.

Quanto a ruiva, minha querida anima; infelizmente minhas energias me guiaram(sem as projeções habituais) para digamos, uma mulher mais concreta.

Isto é outro assunto. Um assunto contráriamente pretérito, um assunto que se constrói. E não quero construí-lo agora. Quero que tudo se construa espontâneamente. Portanto, verão poucos Vasillis, Ruivas e Anatoles de agora em diante, finalmente posso dizer...

Um ciclo se encerra. Um novo ciclo se inicia.

Caminhemos, caminhemos. Caminhemos viajante... caminhemos ao sabor das letras... doces ou amargas, são sim, peculiares e peculiares letras...

São letras da vida! Letras da vida!!!

sábado, 26 de janeiro de 2008

Mangas no quintal

Meu mundo girou
E tem mangas caídas no meu quintal
Meu mundo mudou
E tem cheiro de manga fresca no meu quintal
As mangas repousam no chão

E eu insisto em não catá-las
Por que só penso no redemoinho
De olhos verdes
As mangas não estão verdes
E nem precipitadas

Ainda assim...
A bagunça do meu jardim
E as demais mangas jogadas na grama
Jamais foram tão lindas
Tão lindas como agora são

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Mudanças e Andanças

Não sei
Não sei
Por que se soubesse
Não sentiria
Apenas sinto
Sinto, mirando as estrelas
Tuas estrelas
Que tu abrigas
Em teus olhos

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Baixa temporada

Baixa temporada é uma merda.

Escrever ansioso é uma merda. Uma bosta. As pernas inquietas, os cigarros que se acumulam no cinzeiro, as batidas secas irritantes na mesa de mogno, tentando pescar um pouco de inspiração.

Mas não, nada acontece, nada. E ele se volta novamente a tela do computador, quando está puto, pega uma velha máquina de escrever e brinca de adeus a contemporaneidade. Tudo em vão.

Falso.

O ambiente plástico da firma, do bairro, do banco, não deixa a enganar; é pós-modernidade sim, cínica, é verdade, e relutante em aceitar que o velho mundo, da escravidão, da pobreza, está presente; mas convenhamos, ela dissimula bem, muito bem.

Estava, continuava, inquieto. Levantava da cadeira, fumava, jogava ela pro alto, andava em círculos, se coçava... Ia beber água. Cadê a maldita cerveja? Quente, no congelador, aguardando talvez a inspiração chegar.

Resolveu abrir os armários, tentar achar, algum escrito velho, não para continuar o texto, não imediatamente, mas tentar resgatar do limbo, uma porção do inconsciente. Até uma dor de cabeça era mais criativa do aquele arremedo de escritor.

Pincelava palavras, apagava-as, brincava com as letras, dançava nas frases e perdia-se nos pontos. Foi abrir a janela, um pouco de ar faria bem; modificaria aquela atmosfera viciada do seu quarto. A madrugada corria, o ventilador de teto incansável, a escrivaninha combalida, a luminária torta, acesa, e ele então resolvera inundar se de recordações, que era o que mais gostava de fazer nessas noites nostálgicas.

Olhou lá pra baixo, a rua vazia, silenciosa, os paralelepípedos mudos, nem um só latido, nem um só suspiro sonoro, tudo na mais tranquila paz, que o herege do apartamento do segundo andar quebrava, mesmo sem atrapalhar ninguém.

Se sua mente flutuasse pelo quarto, subisse e olhasse para a rua, não veria muitos insoníacos, talvez algum cinéfilo descamisado, mas se flutuasse mais, e subisse para contemplar o bairro, encontraria alguns sonâmbulos, deprimidos despertos, alcoólatras, talvez ouviria o som de orgasmos, cerca de quatorze, não necessáriamente nesta mesma ordem. Ao abstrair mais, chegaria a uma cidade, conjunção de bairros tortos, meandros, favelas, morros, precipitações, becos sem ligação, barricadas de tijolos aglomerados, ouviria cheiro de morte, de destruição de lares, e encontraria também opulência, conforto, encontraria uma fila de apartamentos bem iluminados, tão silenciosos quanto sua rua, porteiros educados, luminárias francesas ou belgas, importadas, quadros, comida boa na mesa, patê, patê de algo defumado horroroso em seu processo de produção, mas éticamente viável dentro de uma estrutura de fios vermelhos, azuis, rosas, amarelos, marrons, que se encontravam naquele circuito vivo de cidade,

Com seus próprios mecanismos queimava circuitos específicos, apagava transistores nas ruas, eliminava bits, bytes, o bailé profano e serial do 0 e 1 seguia por entre as avenidas, ruas, viadutos, ligações cinzas-concreto, que jogavam de um lado ao outro mendigos, catadores, meninos que viviam nas ruas, desempregados, marginais de farda, marginais sem farda, e carrascos executores dos bips, das alavancas, dos processos eletrônicos-sociais.

Em algum lugar alguém semeava, plantava um pedaço de vida, em meio ao silício, mas eram bits soltos, inertes, que poderiam ser eliminados pelo algoritmo do sistema principal, dos chips bem organizados. Quando uma infestação de ferrugem corroía o silício, era hora de trocar placas-mães inteiras, de apagar e cortar na própria engrenagem e mesmo assim, manter os videomakers "com vídeos da escrava isaura, vídeos da escrava isaura", regorzijarem-se com os mecanismos da urbe-elétrica-urbe.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Dos sonhos de manhã

Hoje eu acordei pensando em você. Você estava lá nos meus sonhos, não participando própriamente do enredo onírico, mas apenas observando. Vestia uma blusa verde e me espreitou em duas situações. Situações limites, situações das quais eu mal consigo própriamente me livrar quando acordo, por que eu olho para o lado da cama e você não está lá e eu sinto aquela ressaca emocional me invadir, mas eu não estou bebendo atualmente, por que não quero dar chance para a depressão me dominar neste calor infernal. O sol está forte ruiva, mas eu não, eu continuo um fraco em busca de energia, de força, e foi utilizando metáforas que eu tentei me esquivar de você, mas quem entende metáforas? Ruiva, eu olho para o meu quarto, um quarto tão sufocante, e quente, com alguns broches, livros, um copo vazio largado no pé da cama e eu sei, e continuo a saber toda manhã em que você resolve aparecer por detrás das cortinas azuis, que você me marcou profundamente, deixou impressões na alma ruiva, e não se esquecem impressões assim com tanta facilidade. Quanto eu já escrevi por você ruiva? Quanto material literário fresco e vivo você me deu? Na verdade eu deveria lhe agradecer, pois você me concedeu um privilégio, uma inspiração que eu não conseguiria em nenhum mais momento.

Eu deveria retribuir isto de alguma forma, mas a única saída que eu encontro é ser incompreendido, por que as incompreensão faz parte de uma dificuldade intríseca das solidões se comunicarem. Eu não consigo mais por exemplo desenvolver os textos a uma certa altura, por que eles sempre morrem de tédio e se reproduzem infinitamente tediosamente nas mesmas dúzias de palavras que se amontoam. Talvez se eu parasse em algum lugar calmo conseguiria pensar mais claramente e as palavras sairiam. Vou tentar fazer isso em janeiro.

Talvez acampar em algum lugar. Fazer algumas trilhas. Pode ser que funcione.

Bilhetes soltos para a ruiva e que ele não enviou

Mover-me rápido, intensamente, não me cansa muito. O que me cansa são as ausências. Sou metade humano, metade dínamo; eu troquei meu coração por um opala 77, mas o opala bebe demais e meu fígado andou reclamando.

Meu coração, está meio chamuscado, mas ainda consegue bombear energia para ações concretas. E concreto consegue definitivamente erguer barreiras que não se permitem rachaduras do passado.

O passado não desagrega nada. É o porvir, a expectativa do futuro que enferruja o presente.

Andar muito não cansa tanto. O que cansa é não ter alguém para compartilhar os sabores dos caminhos. Estar apaixonado é um devir, não um porvir. Estar apaixonado é manter a mudança. Estar sozinho alimentando o porvir é suicídio parcelado. A solidão é o devir em movimento. Estar sozinho é na verdade uma reunião forçada entre as partes diferentes que habitam uma mesma pessoa-persona.

Recarregar energias é algo natural. Mas(...) [rabiscos simultâneos]

(Continuação, rasura)

Você deve entregar o pacote na caixa de correios do destinatário da carta anterior. Eu não aceito um não como resposta, pois eu já esperei demais reaver metade das minhas coisas, e elas você sabe muito bem, cabem aí dentro de uma caixa de correio tamanho padrão(ia usar seu coração, mas é um recurso de estilo ultrapassado, assim como corações grandes e confortáveis modelo 77). Não quero ficar com ninguém ruiva. Ninguém em especial. Quero dançar ao som da música. E a música diz: voe, voe. Sinta-se assim e verá o quão longe(ou fundo) poderá realmente atingir. É um risco. Grande. Perigoso. Mas tem gente que se acostuma e consegue plainar sem acelerar, vez ou outra.

Até ruiva. [rabiscos]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Pausa para descanso


Aproveite o recesso de fim de ano...

E quem disse que eu consigo... O tédio mata... Prefiro o tédio coletivo ou o tédio com paixão. Mas como tédio coletivo é cada vez mais raro nesses tempos onde precisamos agendar por msn com os vizinhos uma simples visita e o tédio com paixão, este sim, é mais raro ainda, andei sublimando tudo, agitando algumas coisas políticamente(citar a palavra"políticamente" torna metade do texto chato e a outra metade desinteressante).

Tentei pensar no próximo ano, mas não dá. Só se pensa caminhando, eu aqui parado mal consigo pensar. Sonhar eu consigo, sonho bastante, demoro a tomar atitudes, prefiro ficar no zero a zero, sem complicar as coisas... mas as pessoas gostam de coisas/pessoas complicadas.

Então, boa sorte. Prefiro não entrar/aprofundar nesse assunto, só quero ficar aqui, sentado neste banco, deixando as idéias fluírem, por que a solidão pode até ser algo ruim para uma sociedade que caracteriza a si mesmo como barulho/neon/luzes coloridas, mas foi na solidão que eu consegui realmente encontrar a porta do meu inconsciente. Não é uma boa viagem, mas é melhor do que nunca ter viajado... muito melhor... Eu não fiz nada de muito interessante entre segunda-feira e sexta-feira. Um espaço grande, mas eu fui obrigado a parar. E parar requer auto-controle quando se está acelerado.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Se jesus tivesse nascido hoje

Se jesus nascesse hoje, nasceria num assentamento rural, numa ocupação urbana, numa comunidade Zapatista, num squat anarquista na europa, numa favela da zona sul do Rio de Janeiro, numa comunidade indígena expropriada pelas multinacionais da celulose. Se jesus tivesse nascido hoje, nasceria negro, pobre, indígena, sem-teto, sem-terra, ecologista, anarquista, magónista, desempregado, zapatista, libertário, piquetero, quilombola, squatter, anti-capitalista.

Sem consumo não há cidadão no capitalismo. O capitalismo constrói sua cidadania baseada no poder de compra, no capital investido, na soma adquirida.

Se jesus tivesse nascido hoje, teria sido assassinado pela fome, pela desnutrição, pela miséria, pelo desemprego, pela falta de saúde, de remédio, de casa, de educação. Teria sido assassinado, pela falta de água, pela falta de recursos básicos. Teria sido assassinado pelas milícias paramilitares, pelo BOPE, pela polícia, pela política institucional.

Se jesus tivesse nascido hoje, provávelmente ele choraria... Choraria....

E não comemoraria este natal do consumo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Sobre o desafio

Realmente não consegui completar o desafio de escrever 21 contos / poesias, até o dia 21 de dezembro. Mas convenhamos que eu me esforcei, aliás fiquei uns 3 ou 4 dias sem internet, e eu só funciono bem quando escrevo on-line na maioria das vezes. Apesar disso, extendo o desafio até o dia 31, afinal esta fase produtiva é realmente motivadora.

Sobre os aniversários


Ruiva, escrevo em tom de cansaço. Em tom de cansaço, por que(e não usarei "de certa forma" antes desta frase ou antes do por que, ou antes dos subsequentes parágrafos) você é a primeira e a última pessoa que eu posso conversar. Todos, todas falharam, e você sabe que eu não sou tão perfeccionista assim. Sabe também que neste "todos" há pequenas exceções, pequenas grandes exceções para pessoas muito especiais; conquanto, pessoas especiais precisam provar que realmente são especiais, e isto não se faz com um, ou dois quartos de século ruiva, isto se faz diáriamente, isto se faz cotidianamente.

É difícil ser especial, eu admito. Na verdade na maioria das vezes acham realmente que eu, eu, o pseudo-ruivo, proto-moreno ruiva, ou incorporo metade daquele irritante joguete do "aceito qualquer coisa" , como um falso Gandhi ruiva, e Gandhi não aceitaria qualquer coisa, ou apenas tenho uma capacidade extrema de não me importar, não me importar como um beatnik sulamericano, de perdoar, de perdoar ruiva, de perdoar com todas as minhas artérias, sem que para isto eu realmente precisasse de sangue correndo em minha veias; e para quem não quer suportar mais nada emocionalmente tão exasperado, eu não tenho sangue correndo nas minhas veias ruiva, não, não tenho.

Não depois de você ter me feito de palhaço ruiva, um palhacito ruiva, um palhaço indisponível, um palhaço desprezívelmente raso, razoável.

Mas faz parte ruiva, faz parte do meu metafísico destino, um destino previsível, não pelo que eu construí, mas pelo que ele efetivamente constrói, mesmo não me imaginando tão determinista, é um fato concreto, de que este destino de merda, constrói-se a si próprio, a mim próprio, num casulo de previsibilidade tão constante, que vez ou outra eu me pego perguntando-me se há solução para este paradoxo.

Não há. Não há solução. A solução é eu me completar. Mas isto trairia todos os meus princípios, pois não há completude no alheio, segundo meus princípios ruiva, princípios tão bonitinhos ruiva, tão belos, tão obesamente preenchidos de vigor, são tão belos, são verdadeiramente lindos! Lindos ruiva! Do tipo em que se aperta e não se enxergam defeitos!

Mas ruiva, há os poréns, e os poréns normalmente enterram, mesmo que seja em breves segundos tudo o que é bom e perfeito ruiva. É no porém que se enterram mundos, é na vírgula que se enforcam princípios e embalsamam-se eras. É na incompletude das brevidades que se assiste o fim de ciclos, ciclos movidos a cachorro quente sem salsichas, sem carne ruiva, na esquina da avenida Mem de Sá. Eu pareço(e sempre tive este talento) estar sempre imerso em determinadas atividades ruivas tão intensas, tão recheadas de vida, de clamor, de emoções, de histórias que se desdobram em mesas de bar, em copos vazios, em encontros casuais ou em carteiras vazias, mas a verdade ruiva, é que meu talento é apenas esmiuçar das letras algo que valha a pena, é enforcar a monotonia da rotina neste balé literário gramatical; o que causa a impressão de que a cada carta que eu escrevo a você(s) há uma supernova em explosão, há um vulcão enterrando civilizações emocionais, há um genocídio literário autorizado, quando na verdade é mero balé ruiva, é mera capoeira, é mero gingar de corpos, digo na verdade, de frases.

Sou talentoso com letras(um complexo psíquico autônomo insiste o contrário), não com pessoas. Devo todas as minhas condolências a Kafka, Oscar Wilde, Clarice Lispector, Cortázar, Lima Barreto, João do Rio e diversos amigos ilustres, e não-ilustres(os não-ilustres são os que mais me inspiram). Prefiro não morrer de tuberculose, apesar do que tenho a incrível habilidade de me resfriar, e me adoecer sempre em datas importantes.

Termino a carta imaginando se um dia será possível, olhar para trás, cinquenta anos atrás, não como meu 1/4 de século ruiva, mas como uma metade de século e tentar enxergar algo ou profético ou nostálgico nisto tudo ruiva. Será possível?

Talvez ruiva, talvez, falei exasperadamente de mim, de minha pessoa, mas devo dizer no finalzinho da conversa e da carta(já que o papel está acabando), que você e seus malditos jogos de xadrez emocional não irão me vencer.

Quem topar o desafio(e para isto deverá comer argumentos de ruivas no café da manhã), me ganha.

Não tenho talento para troféu; mas posso tentar me vestir de dourado.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Um preâmbulo de um pequeno desastre

Quando eu fui buscar aquelas cartas, eu já sabia, já tinha total certeza, toda completude moral, de que você não iria mais me escutar, mesmo eu tendo designado metade do meu tempo na terça-feira a noite para esculpir desculpas para ti.

Eu falhei, é vero. Gostei e tive ainda mais certeza, quando eu percebi que você não me chamava mais impessoalmente. E me chamar impessoalmente era algo tão íntimo, mas você resolveu me chamar pelo meu nome, e isto era um mau sinal, sim era um mau sinal. Um tremendo desastre particular.

Você já me ignorava há algumas semanas, e o fato de não responder minhas cartas, já indicava de certa forma que estava curada.

Sim, curada. Do ponto de vista médico-amoroso, você já podia fazer noventa ou noventa e cinco de suas atividades habituais sem pensar em mim, eu não estava mais nos seus sonhos, não aparecia dentro dos seus pensamentos perdidos no domingo a tarde e muito menos acabava com algum final de semana seu. Eu já era e já tinha sido realmente. Falimos(fui eu que fali na verdade) emocionalmente, e você é claro, percebeu da forma mais cruel e terrível o quanto foi possível.

Cruel por que sabia que esta era uma bela faca de dois gumes, e que eu ia demorar no mínimo de duas a seis vezes o que você demorou para esquecer. Ignorando todas as expectativas dos meus amigos temporários, amigos porções únicas, eu voltei a lhe escrever após saber que já era parte do seu passado, eles aconselharam, comentaram, e até me ignoraram demasiadamente, antes de nós, eu digo nós, termos conseguido chegar ao ponto preciso em que alguém deve perder.

E é claro que fui eu. Não que o amor seja um jogo de competição, pois eu particularmente odeio, aqueles que fazem do amor, um simples jogo de domínio ou poder...

O amor ultrapassa toda as fronteiras, mas ele é cruel demasiadamente com pessoas indecisas. Por que para o amor não há indecisão, e isto é por demais totalitário, mas de certa forma faz sentido no final de tudo, e de todos.

Faz mais sentido diante meus sonhos estranhos. Sonhei que a antiga casa da minha avó pegava fogo. Eu salvava minha mochila, mas só depois dos bombeiros chegarem, eu consegui apagar o incêndio todo. Gostaria que fosse assim todo o momento. Não foi tão fácil, mas o caminho estava lá.

Por enquanto encerrarei, até por que tenho uma meta a cumprir.

Vejo-lhe nos sonhos e nas minhas memórias.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Bruxos - volume 01

Ontem ele deu um grande passo na sua jornada, na sua vida. E foi aí, depois do sétimo dia, que a magia surgiu e que ele virou um bruxo. Um botão de flor foi capturado, a lua se escondeu atrás das nuvens e ele percebeu que sua magia poderia realmente funcionar. Mas falar de magia num mundo cinzento não era algo de gente sã. Gente sã quer medidas não-radicais. Gente sã gosta de economia no café da manhã e dirige carros movidos a diesel por auto-estradas de fim de semana.

Gente sã compra carne de vitela, uma espécie de jesus cristo dos animais e se masturba assistindo a tv digital.

Ele andava a passos curtos. Pequenos passos para um homem, para um bruxo, mas um grande passo para o inconsciente, para a teia do universo, para a magia em si.

Demorou a dormir, por que foi o preço a se pagar, um preço visívelmente estúpido, mediante todo o processo desencadeado.

Jorrou recordações em doses grandes e geladas; como agua límpida e gelada, afinal as memórias ruins normalmente são claras, límpidas e frias. A bruxaria não; é quente, calorosa e turva, como a rebeldia e a revolta tem de ser.

Caminhou bastante, caminhou bastante, enchendo a semana de sentido, para ver as lembranças se aglutinarem. Está tudo muito límpido para o bruxo.

Límpido de sentido: se há algo escondido, é por que realmente ele acha que precisa estar lá.

Talvez fique por toda sua vida.

Um pequeno insight causou um verdadeiro efeito dominó, pequenos desastres cotidianos, derrubar café na mesa, cair açúcar no tapete, deixar as moedas fugirem pela estação do metrô, mas que cena patética; não esqueça o troco da condução bruxo, o troco da condução, pegue aquela moeda lá, aproveite que a falsa-ruiva da esquerda não está olhando bruxo, aproveite que o senhor de terno laranja parou de jogar malabares em frente a máquina de refrigerantes.

Acionou mecanismos secretos e trouxe à tona os fragmentos que considerava separados; estes cacos polidos de emoções, segredos, revelações, disposições, complexos psicológicos autônomos, que emergem(e emergiram) com força, e é com força que eles reclamarão cada um por vez, sua parte no bolo: um verdadeiro banquete. O bruxo não vai poder dançar sobre os cacos, vai ter de se adaptar, entender, e parar de fazer bruxarias levianas, vai ter de crescer, ganhar responsabilidades e parar de se enfeitiçar deste forma. Vai ter de abandonar o misticismo para vender escravos na bolsa de valores, ou então viver como um vira-latas errante, sem um puto para comprar uma latinha de refrigerantes; mas bruxos, bruxos libertários não bebem refrigerantes; não gostam de vender escravos(já que espiritualmente não se pode diferenciar o escravo do senhor).

Bruxos tem capacidade de consumo limitada, muito limitada. Isto não os torna bruxos, é algo mais é claro, mais é um voto de silêncio, um voto de silêncio que faz parte dos rituais.

Bruxarias levianas, disse sua maga preferida, são só para bruxinhos recalcados(era uma noite sensual e ela estava bêbada, como poderia acreditar realmente que com aquela cinta-liga vermelha e depois de sete ou oito garrafas de cerveja ela diria a verdade?).

O bruxo dançou desajeitadamente no último sábado, lançou magias baratas de sedução(contrariando a maga ruiva, a ruiva maga), bebeu cerveja até as oito da manhã, contou estórias de fadas e encantos célticos à beira de um prostíbulo plástico, um prostíbulo a céu aberto, de consumo, de falsa diversão e de ficções sociais regado à cerveja e música cyberpunk: bruxaria new wave, oh sim!

Lançou sigilos, que funcionaram, claro, sempre funcionam. Basta concentração. Era fácil encantar as filhas e filhos do mundo de silício.

Resolveu não abrir baús. Davam trabalho demais. Mexeu a água com a ponta dos dedos, a diferença de temperatura era brutal, que água gelada, que água gelada.

Quando você for me visitar novamente ruiva, não me leve mais a morte para meus sonhos, por que brincar com a morte é algo efetivamente sério, é algo que não pode ser irresponsávelmente manipulado à distância com sua magia barata! Traga me flores e bombons na próxima vez! E nunca mais tente se cortar na minha frente ouviu bem? Não descerei catacumbas tentando lhe esquecer, hoje faço isso sem ter de sair de casa! Você não pode chegar ruidosamente assim deste jeito, peça licença, entre na fila, jogue seus feitiços de maneira mais apropriada! (bruxos também não se entendiam vez ou outra)

Farei um sigilo, um sigilo novo, um sigilo que despertará a rebeldia em níveis mais apropriados(a cafeteira tinha quebrado novamente).

Crowley era uma escoteira de final de semana, agora as coisas vão ficar certas; um Ravachol anarco-pagão não precisa de falsos líderes, pois todo líder é um sintoma de uma energia espiritual aprisionada em receptáculos errados. Bruxos conduzem a liberdade pelas vias erradas, mas do jeito certo!

Tudo pode ser usado como um medalhão. Um pente, um abridor de garrafas ou uma modem ethernet por exemplo; basta usar o focus, basta fluir por entre as ondas/partículas, partículas/ondas e iniciar o feitiço apropriado do não-agir agindo(redundante ou contraditório, mas fácil de ser entendido se não se vive numa sociedade de silício ou se procura entrar em contato com algo subcutâneo e subterrâneo a isto).

Bruxos tem princípios definidos. Druidas consertam estragos. Bruxos o fazem. Estragos necessários. Políticos se previnem de câncer de próstata. Bruxos andam sob tiroteio cerrado. Cardeais da economia tomam prozak, bruxos bebem vinho até o amanhecer. Bispos da burocracia lêem livros de auto-ajuda no final de semana, bruxo fazem amor durante todo o sábado(na verdade é o amor que os faz).

Matar o deus-silício é uma necessidade de todo praticante de bruxaria. Peixe e serpente não podem conviver juntos e todo bruxo sabe disto. A morte dos bruxos e do deus-silício estão íntimamente ligados. A diferença é que enquanto um evita, o outro atrai, um defende o outro ataca, não necessáriamente nesta ordem e os bruxos no final das contas são maravilhosas estrelas dançarinas, cujo ponto final não está encrustado em nichos de mercado estabelecidos em datas de consumo acelerada e muito menos em mortes parceladas em boates coloridas: bruxos só morrem quando a chama da rebeldia se apaga dentro de seus corações.

Bruxo lembrou-se da maga, esta pagã ingovernável, filha da lua avermelhada, dos rituais pagãos temporários em que se podia mover metade do mundo com uma alavanca...

Lembrou-se da época em que o deus-silício não era tão forte, apesar de não ter vivido materialmente, físicamente naquele tempo pretérito. Lembrou da água límpida. Da floresta susurrando... E viu...

E sentiu... E observou... e percebeu que os bruxos libertários estarão sempre destinados a enxergar a vida de uma forma meio mágica, meio diferente, apesar do silício, apesar do maldito e do vingativo deus-silício...