domingo, 24 de agosto de 2008

Mais emocional, mais forte

O tempo passou ruiva.

E eu inevitávelmente tornei-me mais forte.

Confunda forte com frio, talvez seja algo parecido com o meu erro atual.

Conseguir ignorar certas coisas não me torna um cínico por completo, até porque seria uma rigidez demasiadamente injusta perceber-me desta forma, já que continuo realizando o incessante movimento do homem contra a máquina. Ainda não me entreguei ao meu oposto. Seria covardia, passividade, e você sempre cobrou de mim uma postura contrária aos valores vitorianos dos seus pais.

Mais forte implica em comentar que consigo caminhar com mais despreendimento entre os dentes, ou melhor sinceridade, até por que sinto-me mais humano, com um par de insônia no meio da semana, rodeado por gengivas sangrando uma liberdade estúpida, definitivamente estúpida.

Eu precisava de números, de letras, de metáforas para rechear sentimentos. Precisava de complexidade, apesar do que sou um simplório em busca de simples sentimentos: paixão, afeto, amizade. Tá bem. Não são tão simples! Mas eu os busco. Sim, definitivamente eu os busco e morreria, morreria repetindo palavras e frases ocas se me visse privado destes mecanismos tão simplórios, tão primitivos.

Desejo.

Ruiva, perdi muitas letras, muitos minutos em torno de entender a origem da confusão; metodologias equivocadas levam a sentimentos equivocados e vice-versa... deveria ter compreendido que parte da verborragia que me acomete nestes dias afetivos ou melhor dizendo, dias de falsa inspiração literária, são apenas fragmentos... fragmentos de um problema maior... e melhor.

Ruiva, sinto-me só, sinto-me forte com minha solidão tão providencial, sinto-me inútil para o ofício da escrita... sinto que não conseguirei escrever nada que valha a pena ser lido e isto não é a maldita psicologia reversa... eu realmente penso... e sinto este paradoxo invadir meu corpo, minha mente, enquanto recordo-me do dia do saxofone...

Você tinha prometido um amor eterno, éramos jovens, tudo era eterno, e aquele instante de certa maneira fora, mas eu iria mais a frente desistir deste horizonte de expectativas completamente contaminado pelo idealismo romântico que eu tanto adorava.

Já é tarde Ruiva e eu mal consigo terminar um ou dois textos, falta-me muita coisa da dor original.

Hoje sou apenas um espelho cinzento, mais racional(equilibrado talvez) e passional do que fui anteriormente.

Hoje eu durmo com os anjos, sofro de insônia e como cacos de vidro, cacos de vidro da minha auto-ilusão enquanto percebo o castelo de cartas ruir. Torço... torço para que as colunas certas caiam... e que eu consiga na sobrevida que me for necessária(pois já estou condenado ao fracasso) realizar últimas e belas palavras.

E isto tudo Ruiva. Isto tudo.

Foi por que eu lhe amei. Apesar do tempo curto. Apesar de tudo.

E hoje eu sei, que eu amava uma merda de uma imagem. Uma imagem linda.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sacramento Póstumo

Por José Oiticica

Quando eu morrer, sê tu o meu coveiro:
Enterra-me tu mesma em teu jardim
E, sôbre a cova, num vulgar canteiro,
Cultiva rosas e medita em mim

Bendize êste destino alvissareiro
Que nos uniu tão de alma e corpo, assim,
Que te fêz Dama e a mim teu Cavaleiro
- Um palafrém atrás de um palanquim.

Projeta, no incorpóreo onde me alento,
O calor emotivo dos teus ais
E as rutilâncias do teu pensamento...

E assim, amar-nos-emos inda mais,
Erguendo, num piedoso sacramento,
As nossas duas almas imortais.

Em breve conto a história desse fabuloso poeta anarquista...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Cotidianos...

Um desabafo aleatório, mas extremamente pertinente, título bom, texto ruim.

Minhas aulas iniciaram há cerca de duas ou três semanas atrás. Tive alguns problemas com a minha inscrição em disciplinas então tentei resolver com os funcionários da secretaria do meu curso. Inútil. Percebi que estavam todos muito estressados, pois o sistema estava caindo, não funcionava e a quantidade de reclamações era absurda. O nome do sistema é SIGA, carinhosamente apelidado pelos alunos de SIGA para o inferno.

O problema segundo eles é a minha interação com o computador; é questão de empatia com o bichano. Apesar de ter trabalhado uns cinco anos com informática, eu não sei segundo os burocratas da minha faculdade, lidar com o sistema infeliz que implantaram naquela bodega.

Passei por três ou quatro funcionários, o habitual, "joga p'rum lado, joga pro outro que o imbecil cansa.

Resultado, cansei.

Vou atrás de minhas fontes primárias, o atendente me pergunta se eu não tenho um pen-drive, "se você tivesse um pen-drive copiaria tudo para você agora... é muito mais fácil replica. Não, não tenho um pen-drive, vinte reais para um desempregado é uma verdadeira fortuna, quase 1 mês acumulando dependendo da conjuntura.

Fui na biblioteca pegar alguns livros emprestados, mas a biblioteca está fechada para "atualização do sistema". Não é possível pegar nenhum tipo de livro, apenas consultar dentro das instalações.

Vou para outra biblioteca, dita "pública", a biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, lá me indicam que apenas funcionários do dito patrocinador podem pegar os tais livros, mas como eu sou cadastrado na biblioteca do IFCS, eu posso solicitar um "requerimento" na biblioteca onde estão atualizando o maldito sistema e aí retornar a biblioteca do CCBB para pegar o precioso livro. Não sei por que me recordei do senhor K, e do "Processo" do jovem Kafka.

Vou para o IFCS, lá a bibliotecária me informa que só é possível EMITIR o tal requerimento com o sistema funcionando(papel e caneta estão fora de cogitação, afinal é uma faculdade de História, Filosofia e Ciências Sociais).

Resultado, não posso pegar o livro nem na biblioteca da faculdade, nem na biblioteca do CCBB.

Lá, seguindo minha vocação de pseudo-pesquisador, vou me embrenhando nas prateleiras(um esporte delicioso diga-se de passagem) para fuçar outros livros. Trinta segundos depois, um funcionário pergunta se eu quero ajuda: típico ato oriundo de um regime de controle disfarçado sob o comportamento de um funcionário "que só quer ajudar".

Não eu não quero ajuda. Ainda consigo ler, amarrar meus cadarços e nunca tive Alzheimer. Além disso eu gosto de procurar os livros na estante da biblioteca: é um esporte de gente pobre, mas honesta(eu não vou roubar os livros da biblioteca - meu espírito é de cão vira-lata, não de porco).

Desco para o pátio do CCBB, resolvo relaxar e terminar de ler um capítulo de um livro do Edgar Morin, mas uma das minhas pernas incomoda uma segurança que diz que eu não posso colocar a perna SOBRE o banco. No dia anterior o guarda do metrô, incomodou-se por que eu sentei no canto do vagão. Emprego bom esse, vigiar comportamentos alheios, tornar o corpo dócil, discipliná-lo, mesmo que o objetivo seja apenas este mesmo: DISCIPLINÁ-LO.

O engravatado do banco ao lado, acha graça da postura da segurança... "Que palhaçada..." Diz ele.

Sim... concordo totalmente.

Incomodado e desconfortável, vou a biblioteca Nacional, lá sou informado que não é possível fazer empréstimos de livros, os livros são apenas para consulta, como me esqueci deste detalhe óbvio.

Vou para as pastas das xerox's, para ver se encontro algo do que procuro, não acho nada, o que acho sairia muito caro para fotocopiar(a xerox custa de 0,9 a 10 centavos, custo demasiado alto para um desempregado).

Talvez o livro se encontre a um preço popular em alguma livraria, ledo engano que o google me corrige rápidamente.

Desisto do livro por enquanto. Esperarei os humor dos controladores dos sistemas disciplinares e tecnológicos melhorar.



terça-feira, 12 de agosto de 2008

Violentas Insônias

Confusão por sobre a mesa, por sobre a cama. Perdido. Espelho da alma, o quarto repousa sobre a angústia, por sobre o bilhete amassado, por sobre o livro e o casaco embolado entre a porta e o tapete.

Anda de um lado, caminha por outro, bebe água, respira, respira mal, pesadamente, perdeu-se na pia, lavou o rosto às duas, duas e treze, às três e quarenta.

Continuou sujo.

Os olhos pesados não pesavam, a mão leve coçava a fronte e ajudava a respirar o cigarro, calava-se; e ainda assim, ainda assim os nós dos dedos não conseguiam tatear o silêncio.

Tentou olhar para si, e na bula constava indicação: efeitos psíquicos colaterais, perturbação, insônia, por fim simples angústia. Simples? Pigarreou em tom de deboche.

Olhou para si; um eu que desconhecia; na verdade desconhecimento é falsa palavra.

Desconhecimento supõe contornos novos nunca observados, o que sentia era verdadeiramente estranhamento. Um estranhamento voraz, que o comia a cada ponteiro movido, a cada noite mal dormida, a cada sonho mal interpretado.

Chegara em pontos de ruptura, decisões, frações de si que clamavam por controle ou que verdadeiramente caminhavam para uma morte violenta.

Morria, morria todas as noites. E quando começava a morrer por detrás da luz, coçava a fronte, respirava o cigarro e lavava o rosto, duas e trinta, três e cinqüenta, quatro e cinquenta e nove...

domingo, 10 de agosto de 2008

Ode a modernidade tardia

Alumínio! Silício! Cimento!
Velocidade, Ônibus, metrô, um alento!

Perfídia no centro da cidade.
Paralelepípedo, música alta.
Estoura os tímpanos! Fluoexetina, chacina, casebre.

Gente junta. Gente jovem. Gemidos reunidos.
Gestão da pobreza nos postes. Época de eleição.
Ereção, falsa ereção, remédio, poluição, indústria.

Comeu esquartejada, matou a frase e foi no cinema.
Com uma faca de açougueiro. No enterro.

No enterro das certezas, das categorias, construídas.

Todas unidas!

Levaram embora, levaram embora o silício, o alento, o aumento...

Tornaram modernos, modernos tardiamente, novos, e incorrosíveis, e desprezíveis ventos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cartolina velha

Perdi o tesão de escrever aqui. Quero ares novos.

Toda viagem me confunde, todo ar rotineiro me embrulha o estômago.

Nunca pedi muita coisa a deus, matei-o semana passada.

Nunca falei alto, só quando precisavam.

Agilizei uma ou duas aplicações de morfina; nunca me prenderam por isto, faço gosto, deixo solto, apesar do pesar.

Faço origamis de cartolina, faço corações de papel, não me sinto privilegiado.

Confundi o ar rotineiro de deus. Embrulhei o estômago de papel e privilegiei os ares novos.

Escrevi solto, precisei alto, me confundi.

Queros ares novos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Meu imbróglio com a internet

Em breve estou de mudança daqui. Explico todo imbróglio antes que me chamem de mal agradecido.

Desde a fundação do blog, em 2003(lembram do falecido www.1936.blogger.com.br?), eu utilizava o serviço do blogger. Não tinha muito o que reclamar. O blogger.com.br funcionava, e era uma novidade o mundo dos blogs, pelo menos para mim, mas acredito que foi mais ou menos nessa época que os blogs começaram a emplacar. E tinha muitos serviços ruins... muitos mesmos... uns webloggers da vida que eram uma merda.

Não muito satisfeito com a estagnação do blogger.com.br eu migrei para o tal blogspot(esse aqui) em 2006 que na real era um blogger mais aperfeiçoado(a ponto de até o endereço ser parecido, apenas sem o .br do blogger) e com uns recursos mais legais, como a possibilidade de colocar vídeos sem dar xabu, e também era mais fácil de colocar templates. Aliás trocar de template no blogger.com.br era um verdadeiro rolo e sem saber html você estava literalmente fudido! Era como tentar ler Genealogia da Moral com referência da revista CARAS.

Nunca reclamei desse sisteminha do blogspot, mas é fato que os caras se acomodaram; a tecnologia não evoluiu. Deve ser uma tendência da internet, as empresas(no caso a globo.com, filhote venenosa da toda-poderosa platinada) investem nessas tecnologias, a coisa esfria, eles perdem propaganda e vêem que há outras tendências e ao invés de melhorar o bagulho, largam de mão até que os usuários desistam.

Eu tentei até ser fiel, nunca traí o blogspot com um multiply da vida, muito bacana na teoria, mas na real achei chato, com muita informação que eu não precisava e era meio a "la orkut", se eu tenho o orkut pra que vou querer um outro site merda de relacionamento?

Myspace então eu sempre achei feio. Eram cores e sons demais e convenhamos, myspace é coisa de gente teen, de adolescente que compra CAPRICHO na banca pra fazer testes do tipo "meu namorado me trai com oito pessoas?".

Mais então eu descobri o wordpress. Não dei nada pelo bichano, achei até que era mais um portal de blog qualquer, mas fuçando daqui, fuçando dali, descobri que o bicho é bom, MUITO bom. Primeiro que ele não é um mero blog, ele TAMBÉM é blog, mas te possibilita de criar links, páginas, jogar vídeos, fotos, de uma maneira muito, mas muito fácil e customizável. E como meu blog cresceu, eu quero organizar melhor os arquivos... pois deve haver vida inteligente fora das tags e dos marcadores... pois há!

A interface é bem amigável, de tão amigável chega a ofender o usuário... Só falta escrever o conteúdo pra você ou te chamar de senil... e você não precisa sacar porra nenhuma de html. Ele é bem editável, explica tudo bem tranquilamente... E tem uns recursos fodas... Você não precisa recorrer a nenhuma instância externa(é como ter um secretário particular para resolver burocracias pessoais).

Elogiei demais esta merda, parece até que estou fazendo propaganda. No fundo no fundo, é mais uma empresa disputando nossa atenção e ganhando dinheiro com propaganda. É ou não é assustador que as empresas de tecnologia da informação mesmo virtualmente tenham um poder econômico bizarro? Pois é, google que diga...

Crônica tosca, mas enfim, daqui a pouco migro meus pseudocontos para o wordpress. E para sacramentar minha decisão o blogger me diz que não foi possível entrar em contato com o blogger.com.br e eu tenho que esperar os 386's da globo.com voltarem do ar para que eu possa publicar esse texto ruim.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Impermanente

Retorno simples, ponho-me a disposição da angústia, caminho entrecortado, cindido como um asfalto quebradiço, juntando cacos de lembrança, de saudade, de esperança: sou um passado vazio.

Estou agora, como é raro estar. Estou em um momento curto; uma reflexão, um surto, mas seria demasiado inverídico afirmar minha total permanência. Na verdade sou. Sou o tempo todo, não tenho forças para estar, sou pois não estou, pois estar depreende uma estabilidade que não me pertence, estar necessita ligação, empatia, vigorosos laços com o presente, fato que me é estranho, enérgicamente estranho.

Eu sou, sou e portanto atravesso, não me prendo no momento, no presente, não olho para o futuro; eternamente preso no passado, na experiência do outrém, no factual cuja lembrança é mero vestígio.

Meu presente é um jazigo do passado. Meu passado é vida, vida pretérita, entrecortada, cindida, quebradiça.

Eu sou. Sou um sincero e arruinado vestígio.

domingo, 27 de julho de 2008

Retornando

O pós-férias sempre é meio trágico. Estaca zero.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Agora

Não gosto de escrever de luz acesa. Não gosto de beber cerveja quente, muito menos de pegar chuva no inverno. Não gosto de sentir sede no calor, e não gosto de não saber, quantas vírgulas, devo, usar.

Não gosto de cd arranhado, gripe sem beijo, impressora sem tinta.

Não gosto de piada sem riso, poeta sem papel, e muito menos briga sem herói, sem heroína.

Não gosto de supermercado com fila, de banco com juros, de mundo assim, assim meio errado.

Não gosto. E quando não gosto, desgosto mesmo.

Não gosto de espelho sem eu, de egocentrismo sem espelho, de nós sem "vamos", de você sem eu, de você sem nós; de desgosto antes de conhecer.

Gosto do estrago, do negado, da vírgula sem verbo, de sujeito sem gramática, sem vergonha, gosto da verdade sem gripes, sem beijos, sem tinta.

Eu gosto mesmo é das vírgulas.

Noites

Costura
E fecha minha boca

No leito fosco
Sobre meu peito
Jaz o de repente

Corta, ajeita
Prova e reprova
Adocica a face oculta

Faz de mim um acaso
Acaso pensado.

Sou teu
Ainda não
Nem tão teu

E ainda mesmo...
Mesmo morto
Meio vivo, meio morto

Planto segredos
Segredos bobos
Na tua boca
Tua boca
Boca inerte

terça-feira, 8 de julho de 2008

Odeie a contra-cultura

Resolvi falar tudo. Não porque merecesse, mas porque alguém, algum dia, tem de fazer o serviço sujo. E falar tudo é fazer o serviço sujo com gosto. É se expor, de luzes acesas, de janela e porta aberta, com um pouco de miséria escondida no canto do quarto e da memória. Dê a cara a tapa, não me siga. Se preciso de uma ou duas cervejas isto é coisa minha, algum reminiscência bukowiskiniana que me afeta em dias de semana e interlúdios de cinismo. Se preciso ressuscitar uma derrota particular, este é meu modo de incitar uma parte de mim a agir.

Falar tudo é abandonar máscaras, é cuspir na cara de si próprio o veneno alheio, é sorrir entre as tragédias com os lábios cortados, e além de tudo é buscar no fundo do espírito uma energia obscura, um lado rejeitado; abortado com gosto de sangue no tempero das etiquetas, enterrado dia após dia, day by day, pela rotina social, merda de rotina social, pela rotina anti-social, merda de rotina anti-social, day by day.

Cansei de igrejas. A contra-cultura estúpida, que como o próprio nome já diz, tentou ser sombra e acabou virando luz, uma luz que cega, uma nova religião inerte, com seus santos, suas rezas, seus dogmas, sua pútrida hierarquia, escondida entre alargadores, padrões morais do século XVI e jaquetas de arrebite retórico, promoveu uma caça às bruxas, promoveu uma verdadeira inquisição disfarçada de liberdade.

Odeiem-me nesta parte. O ódio é uma doce projeção, que revela-se no incômodo, maldito incômodo que revela não quem é alvo do ódio, mas quem odeia. Revela e descortina, que a cada movimento de oposição, enterramos um lado obscuro, que de início não reage, mas planta sementes de contradição dentro de nós e se alimenta do outro.

Contra-cultura pérfida, alimenta anjos sagrados, perfeitos, perfeitos, como a curvatura da última tela de Dali, perfeitas como um apartamento decorado em alguma cobertura do aterro do Flamengo. Como crise de consciência vagam e entoam cânticos pseudo-populares, como se isto aplacasse a imensa culpa cristã que sentem por não terem nascido no lado certo. Filhos da classe média, inertes, repletos de brinquedos e possibilidades plásticas, ainda estupidificam o que poderia ser igual, despedaçam a horizontalidade e carregam cruzes, cruzes resplandecentes, símbolos dos despojos dos vencedores.

Plástica cultura. Americanos, ameríndios, norte-americanos travestidos de cidadãos sem pátria!!!

Vigiam e punem comportamentos desviantes. Reproduzem técnicas de disciplinarização; cagam Foucault, mas arrotam e exalam Felipe II. Nichos de mercado, de consumo. Pois idéias são mero consumo.

Não há muito mais a dizer, olhem para si mesmos. Na ordem do discurso, abandonei a importância do autor; o que importa é a idéia. Se eu for julgado como autor, queimem meus textos em praça pública ao lado do terceiro reich.

Prefiro entoar idéias. É um anônimo que vos escreve.

domingo, 6 de julho de 2008

Erótico demais

E quando eu bebi vodka pela primeira vez, senti o mesmo gosto amargo que senti, quando tua boca deglutiu minha alma.

Eu não procurei, definitivamente não procurei, razões para que você no alto de sua prepotência pudesse me dizer aquelas palavras duras.

Mas eu disse, e você confirmou, que se eu ainda pudesse sentir dor, aquele seria um dia realmente especial. E você comentou, decerto com mais propriedade, que eu nunca mais me esqueceria daquela data.

Confortei-me com o nada, embalava o absurdo diante de seus olhos, você não dormia, mas não estava própriamente acordada, apesar do quê, eu sabia, íntimamente sabia, que você espiava cada ação. Cada beijo meu, era marcado, medido, pesado, sentido, sem a necessidade de uma resposta.

A resposta era nosso silêncio.

Eu provocava teu corpo na cama e você dizia, erótico. Eu mordia teu lábio, você se contorcia; nos julgávamos depravados...

Eu provocava na rua, no banco, com a carta ou pelo telefone e você dizia, erótico demais. Demais.

Dizia sem dizer, sem saber, sem pensar realmente qual palavra escolher, por que palavras não são a exata descrição da realidade. São só palavras. E normalmente já muito apodrecidas pela história.

Você descrevia-me com os olhos. Conversávamos com o olhar e os horizontes de expectativas envoltos nas mesmas trevas, no mesmo absurdo. Quando seus olhos mudaram, quando seus cabelos ficaram mais curtos; eu resolvi que não tinha muito tempo, que as coisas caminhavam rápido demais. E era hora de andar sem rumo.

Eu escrevi cinco ou seis cartas, mas eu logo me enjoava, por que eu não conseguia mais agarrar a veracidade dos teus olhos. Teu corpo falava e clamava perdão, mas o destino tinha suas próprias dinâmicas.

Eu retornei ao velho banco de praça, mas ele já tinha mudado. As cartas pareciam iguais, por que eu conseguia resgatar o passado, e tinha a extrema capacidade de resgatar toda a emoção.

Boa memória emocional, péssima escolha de vida...

E eu então resolvi aguardar. Talvez o tempo pudesse resolver(meu) nosso impasse.

Duendes

Pronta para despertar
E irromper
Sobre a concretude
Da primeira oportunidade

Eis a fada dos campos
Dos lírios
Dos sonhos
Das noites mal dormidas

Já desfraldada e exibida
Ainda se atreve

E contamina
Beijos ao acaso
Com futuros possíveis

Anima; meu presente
Retoma meu passado
Enterra meu presente

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Os Sonhos de Rafael

Não chovia, não estava muito frio e nem mesmo havia uma grande tragédia a se alimentar. Retomou velhas proposições e a reflexão tímida que iniciou há semanas provocara um acontecimento curioso que despertara em si próprio quase uma epifania: começou a ter flashes oníricos.

O que significava?

Que a partir de certo momento, começara, e tal coisa lhe acontecia esporádicamente em um número de vezes incerto ao dia ou na semana, a lembrar de fragmentos de sonhos antigos, muito antigos.

Inicialmente eram flashes. Lembrava de paisagens, cenários, como a fotografia de um filme.

Com o passar dos dias, profissionalizou-se e já podia recordar de pequenos trechos, mas faltava a textura, o sonhos permaneciam nublados. Não conseguia apenas obter relação entre a lembrança e o dispositivo que a provocou: pois bem, podia ser provável que os flashes não se incluíam num mecanismo de causa e efeito, mas continuava a ser um acontecimento paradoxal que clamava sentido.

Precisava ir mais fundo, anotar seus sonhos era um propósito nobre, uma aventura instigante: a escrita registraria, poderia retomá-la como à um catálogo e a cada flash súbito conjecturaria a partir destas minuciosas descrições de seus sonhos, o que o sonho lhe dizia. Anotaria dados, cores, horário, datas, acontecimentos relacionados, e teria em mãos o seu próprio dicionário onírico.

Poderia compreender e estabelecer relações entre seus aparecimentos e a realidade que os correlacionavam... Pensou em fazer isto na quinta, depois de um esbarrão provocado por um flash, um pequeno incômodo casual, que não iria se repetir.

Aprofundadas as visões, os trechos iam afluindo considerávelmente, quanto mais vívidos e longos, mais heterogêneos e antigos os sonhos eram...

Aprofundavam-se e ele sentia que algo emergia, algo de novo. Mas nem sempre a mudança é cousa boa. Vivia mudanças de humor, de personalidade e até de valores que se faziam sentir mais fortes e independentes desde que o processo se iniciara há nove semanas.

Olhava para as estrelas há noite, bem antes de dormir, estrelas que não mais existiam segundo a ciência, pois só lhes restava a luz que cá nos chega e para elas só lhes resta quem cá lhes olha.

Contudo, assim como seus sonhos que também não existiam, sonhos que já foram mas que são acontecidos, eram acontecidos que viviam! Acontecidos que retorcem e lhe impõe a existência, opondo a presença do presente ao passado!

Olhou para as estrelas e elas estavam lá! Olhava para seus sonhos, nítidos cada vez mais nítidos, pedaços viravam trechos, que viravam histórias... que viravam realidade...

Os sonhos aumentaram. De intensidade, cor e emoção! E aí fora um passo, para irromperem os pesadelos, e já não conseguia mais caminhar na rua. Todos os sonhos que ele achava mortos ou esquecidos ressuscitaram, um por noite de vida, um por noite de sonho, e aí não conseguia mais andar, pensar, comer, viver... Os sonhos outrora "esquecidos" pesavam-lhe as costas.

A realidade eram seus sonhos, seus sonhos agora eram a realidade, não conseguia mais mover seus músculos, caminhar, pensar, raciocinar, enxergar. Definhou...

E por fim sonhou que lhe faltavam os pulmões. E não conseguiu mais respirar.

Rafael morreu assassinado pelos seus sonhos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Não se fazem mais decepções como antigamente

De todas as decepções
Foste a mais deliciosa

Quando recordo as outras
E outras decepções...

Ou quando sofro
Uma nova

Lembro-me da tua
Da tua decepção...

Invencível, atrevida...
Dolorosa

E com meus olhos mal umedecidos
Penso cá com minhas sombras...

Mais dor do que isto
É mito!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Justine: a outra

Não conseguia nem escrever, mas podia pensar, e isto no ponto em que se encontrava era algo bom. Inculto boteco de fim de noite; não haviam relações sociais novas, apenas reproduções, reproduções, reproduções... E quando tudo estava ruim ele bebia cerveja na quinta ou na sexta e resolvia tomar um porre no sábado. Desistia antes. Nunca ia até o final, andava em círculos, "quem anda em círculos, não ultrapassa a linha limite", sábias palavras ruiva...

Tinha uma cláusula de segurança, incômoda e febril, permanecer nas bordas, nas periferias, observar, observar...

A ansiedade retornava e ele trabalhava, por que era o que sabia fazer quando ela aflorava. Sentia falta da depressão, sim podem rir, talvez para Vasilli era a única coisa que poderia pará-lo(e mesmo assim não conseguia). Estava cansado, não imaginava que o desapego iria lhe afetar tão duramente. Sentia falta da melancolia. Odiava este estado intermediário. Nem euforia, nem alegria, nem depressão nem felicidade: o caminho do meio era um porre de vinho, uma noite de sexo ruim, um objetivo sem causa: um incômodo meio-termo.

Silêncio no quarto. Em si mesmo, havia barulho. Um barulho interior que não cessava; sua mente era um campo de batalha.

Queria corromper a rotina, ir até o fundo, desistir no final de semana, não ir além.

Falsas ajudas, falsas amizades, mas ele ainda tinha seu núcleo duro: nesta hora conta-se nos dedos, e nem precisamos de todos de uma mão. O núcleo duro é sempre um pequeno grupo de fudidos, gente honesta, mas que perdeu. Perdeu por que não pode mais competir. Gente que finge vitória em comentários otimistas em filas de banco mas que percebe, não objetivamente claro, mas pela intuição que a epidemia da competição está matando os perdedores aos poucos...

Apesar da verdade, incômoda verdade, juraram inconscientemente proteger uns aos outros, enquanto um cai, o outro levanta(ou finge levantar), trocam-se as muletas, refazem-se os caminhos, os copos de cerveja se enchem, a ansiedade baixa e o círculo retorna ao seu ponto inicial.

Situação difícil passava Justine, Justine, "la Violeta", amparada e protegida por meia dúzia de bajuladores. E ele o egoísta sincero, não conseguia nem amarrar os cadarços sem lembrar se havia ou não enviado a carta para a Ruiva, apesar do que apreciava o sexo casual com Justine.

Gostava de seu bom humor, adorava sua maturidade precoce, seu jeito espontâneo e sincero, que transparecia uma irresponsabilidade suicida que animava o pragmatismo das terças-feiras.

Não haviam princesas para salvar, nunca houve, não haviam encontros casuais(frequentamos sempre os mesmos lugares) não havia distração recompensada(que dependia de talento) e nem mesmo recompensas profissionais(estava desempregado), por isto apelava a Justine e era até divertido em certo ponto, um ponto que ele nunca pensou bem exatamente se chegaria a algum lugar, mas era sempre garantia de prazer egoísta aos dois.

Esperava a ruiva voltar para encerrar um ciclo, mas a demora era tremenda, talvez ela não voltasse, e devia ter esta possibilidade em aberto.

Por isto Justine e seus asseclas, seus lacaios lhe pareciam intensamente irritantes, provocando-lhe uma soma de decepções, pois eram meras reproduções, meras fotocópias indulgentes fantasiando mundinhos enlatados, frequentando as mesmas festas, realizando os mesmos rituais, provocando as mesmas possibilidades e por fim, odiava o modo como Justine se despia e odiava quando ela gargalhava além dos limites sociais.

Odiava a si mesmo. Odiava vodka com refrigerante. Odiava escrever com gente olhando. Amor odeia amor. Ódio amava o amor. Amor amava o ódio. Ódio odiava o amor. Era tudo meio paradoxal. E usavam palavras bonitas.

E ele prosseguia. Amando Justine; um amor de quinze, vinte minutos, mas sincero, extremamente sincero.

domingo, 29 de junho de 2008

Negras Tormentas Agitam os Ares

E eu só quero que o tempo passe e o mês acabe. Parece simples.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Tempo

Ontem, hoje
Amanhã
Já andou o relógio!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Paciência

Às vezes acontece
Olha-se para o tudo e não se enxerga nada
Às vezes é outro alguém que vê
Melhor que você

Por que seus olhos estão perdidos...
Perdidos num caminho
Que você achava correto
E aí, tudo parece absurdo

O que antes era confiante, coerente
Vira de ponta a cabeça
E você já não sabe mais o que fazer
Ou para onde correr

Nestas horas é preciso saber esperar
Mesmo diante do olho do furacão.

Nestas horas...
É o destino que deve dar o próximo lance

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Uma carta dela para mim - A Pergunta

Você precisa abrir mão. Precisa abrir mão obstinadamente, precisa abandonar e fazer disto um cotidiano. Precisa rodopiar sob seus opostos, invertê-los de maneira apaixonada.

Precisa ser o que odeia para compreender. Tornar o que você é implica em me reconhecer, mas você nunca, nunca... jamais o fez, mesmo quando eu recebi seus beijos, mesmo quando eu tomei café da manhã no pé da cama; e até mesmo quando você me bajulou com o Neruda, eu sabia, eu tinha a certeza, de que aquilo não era para mim. Era para você.

Você massageou o meu(seu) ego. Você dançou sob a escuridão para si mesmo, não para mim.

Você não me amou, você encontrou uma parte de si que parecia encaixar... E eu não tive tempo, mas agora tenho, não sou um quebra-cabeça; eu sou um jogo de armar.

Amai-vos uns aos outros como eu me amei. Amai e recebei, e você fez jus ao egoísmo, fez jus às complicações, fez jus ao duende que corria entre vós, apesar de tê-lo ignorado solenemente, com um tom de desprezo e arrogância bem característicos.

Gostava dos seus autores preferidos antes mesmo de você, mas você exigiu destino, conjecturou sincronicidades que não existiam e arquitetou perfeição aonde só existia acaso.

Racionalizei sim, racionalizei aquele momento por que era a única forma de lhe salvar de si mesmo. Você já estava condenado, e a única forma que eu encontrei foi matar o Eros(eu não o matei você está me entendendo?), Eros que você apreciava como irmão, mas que usurpava e lhe oprimia: você era não só um escravo de suas paixões, mas um Ícaro pronto a despencar. Eu não retirei seus projetos e nem suas asas: você é um Da Vinci orgulhoso mas continua original.

Tudo tem seu preço, você sempre soube, sabia desde o início que eu iria cobrar com juros. E foi o que eu fiz. Você não seguiu seu conceito de palpável. Você voou e desafiou as nuvens. E eu só escrevo isto aqui, por que deu errado me entendeu?

Os vencedores terão outras explicações... mas não se trata de uma disputa de objetivos. O alvo é a origem.

Você nem vai terminar de ler isto aqui. Você sabe, eu sei.

Por que gente humana escreve a realidade com os olhos.

Saiba...Foi melhor deste jeito. Você chegou até aqui, sabe que se ultrapassar a linha limite não haverá retorno. A linha limite não existe, por que você não caminha em linha reta...

Você anda em círculos.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Moisés entregava gelo

Moisés era entregador de gelo. Sim, gelo. E vez ou outra pensava, que emprego era pior do que aquele.

Levava gelo, recebia e distribuía friezas.

Parava e bebia cerveja sozinho, sempre sozinho. Todos estranhavam.

Moisés não frequentava igrejas, detestava seu nome e os santinhos que recebia na rua fora do horário de trabalho.

O homem dentro da caixa


Na Lapa, centro do rio, um homem dorme dentro de uma caixa: Abdômen para fora, cabeça para dentro. Verídico, terrível.

Eu caminho abdominalmente; já perdi minha cabeça na caixa do homem.

Homem? Homens? Mas que papelão!

Ao lado uma placa lhe diz: "Secretaria de Gestão Penitenciária".

E mais adiante um hotel chamado Hilton grita carros importados na calçada; alguns passos para a esquerda, e vejo bancos, caixas eletrônicos e vidraças que pedem... pedem...

E eu só quebrei os retrovisores; sou um covarde sem abdômen!

Sou uma caixa! Uma caixa de papelão!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O ponto limite, a "dead line"

As coisas estava monótonas Ruiva, monótonas como sempre lhe pareciam, até que momentos antes o desencadear dos fatos contradizia não só a realidade, mas impunham uma nova percepção. Uma percepção irônica, jocosa. Forjada em algum lugar secreto, inacessível para nós, dois mortais que brincávamos de semi-deuses nos finais de semana.

Era como um jogo de dominós, onde os números não poderiam ser memorizados e a cada partida os adversários se encontravam no ponto zero, ou seja; por mais que jogassem, nunca dependiam de suas próprias capacidades ou experiências, mas apenas do desenrolar secreto(se é que isto poderia existir) das combinações, das casualidades, dos encontros e desencontros não arquitetados, enfim da sorte, da maldita sorte.

Era exatamente neste ponto, que eu percebia, e nisto eu achei a princípio que era mais eficiente que você, que algo, não algo tão espetacular no sentido de presentes de natais escondidos atrás de mesas, muito menos velhas cartas que descobertas infrigiam regras básicas dos horizontes de expectativa, iria acontecer. Chamávamos de momentos limites, isto quando não estávamos nós dois bêbados, sorrindo, minto, serei mais sincero, gargalhando, perdidos em quartos de motéis baratos, envolvidos nus por colchas evidentemente de mau gosto.

Nunca sabíamos exatamente o roteiro para estes momentos, por que sempre inventávamos coisas novas, como furar os pneus do carro do yuppie atrevido, ou colocar fogo no brinquedo homo-erótico com rodas do filhinho de papai raivoso, que acabara de ser estúpido com o assalariado sincero e gentil do hotel local.

De certa maneira, perdíamos muito mais tempo e isto era algo que crescia exponencialmente, a falar de ações pretéritas do que própriamente em executá-las, por que o risco ficava maior, crescia e nos intimidava até um ponto quase insustentável, e aí retornávamos ao ponto inicial, chutando o tabuleiro como força...

Recomeçávamos o dominó irracional, sempre com a mesma ousadia, sempre com o mesmo amor, sim amor, pois nada explicaria racionalmente aquela gana com a qual vivíamos, um mundo que parecia prestes a se acabar para nós dois, mas continuava vívido, recheado de sentido, pois sabíamos exatamente o que fazer; não como fazer, isto aprendíamos cotidianamente, mas estava claro que havia um sentimento mais forte que envolvia nossas ações, nosso romance inabitual, nossos beijos desencontrados no meio da rua e sim nossa disposição para fuder as estruturas, mesmo que limitadamente.

Quando começamos a aparecer na televisão, eu não sabia mais o que te dizer, não parecia você exatamente naquele retrato mal feito(você era muito, mas muito mais bonita pessoalmente); as coisas começaram a esquentar, mas isto nunca abalou nossas convicções, talvez remodelou-as para objetivos mais concretos tomando todavia um caminho mais complexo que implicava em ceder.

Coisa que pessoalmente não estávamos dispostos.

Você entendeu mal, quer dizer, era o que eu achei, quando você sumiu. Ceder não incluía me abandonar, na época eu tive de mudar tudo. Tive de viajar para outro lugar como você fez, eu poderia ter ficado, talvez seria preso ou morreria, mas acabei "entendendo" seu recado. Decerto se tivéssemos permanecido unidos, estaríamos mortos; era uma pulsão de morte que me corroía, você sacou tudo novamente, ponto para você. Afastando-se, conseguiu não só sobreviver, mas manter-me vivo...

Claro que compreendi, e agora isto fica cada vez mais claro, que um retorno seu, era um novo processo. Você teve de sumir, teve de me esquecer abandonado num lugarzinho hipócrita do lado de perdedores como Anatole, teve de manter-me como um quebra-cabeça fora do lugar, por que enfim, o tabuleiro não estava para nós ruiva... não mesmo...

Não sei como será: talvez você volte, pode ser que fique de vez bem longe de mim, o que decerto não me agradaria, é óbvio no entanto que eu achava que tinha ultrapassado a linha limite, a dead line, mas sempre se pode girar sob seu próprio eixo, se é que existe algum eixo que não esteja aí, pertinho de onde você está.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Nos quartos de motel

Quando assaltamos aquele banco, os expropriados reagiram, falaram que a propriedade privada, um bem inalienável e santificado fora corrompida por uma meia dúzia de anarquistas expropriadores; eu sacudia o controle remoto e sorria, sem camisa, deitado na cama, enquanto você tomava banho, e eu podia escutar as gotas, o barulho do chuveiro e a sua interrogação preencherem todo o ambiente: Está passando? Está passando? Você dizia.

Nunca falávamos de nós mesmos nestes momentos, nos esquecíamos dos "nós" pelo bem do coletivo, apesar do que, eu sempre pensava, que a linha tênue entre o coletivo e o individual sempre se esgotava nos finais de semana.

Eu dormia sempre pensando no amanhã, e sinceramente desistia de escrever, de falar, de trabalhar muito, por que a música árabe, os livros romenos e toda a eventual anormalidade que perspassava nossas vidas recheadas de um cotidiano inesperado, pareciam desenhar que as segundas não eram própriamente segundas, as quartas podiam ter gosto de domingo ou vice-versa... já que as eventualidades produziam seus acasos tão particularmente interessantes.

E eu sorria, mesmo sabendo que o fato de você sair nua, completamente nua, apesar do que sua mente sempre estava vestida, conseguia eliminar toda tensão, mesmo que eu fingisse o oposto, e você repetia o "que foi", o "Que foi?" que crescia, e fazia sentido, segundo após segundo, quando acabávamos nos amando despreocupadamente dentro de um quarto pobre de cortinas e papel de parede, mas repleto de paixão, sim, de paixão.

Aí eu acaba, fazendo os mesmos elogios, acabava retirando sua toalha molhada, você acabava sorrindo, me repreendia, ou às vezes até me odiava intensamente, o que provocava a necessidade de uma cautela, e invariávelmente acabávamos ou conversando ou nos amando(isto dependia essencialmente de nossos humores tão diversos).

Quando você me negava em desculpas, era óbvio, que mesmo devido as condições externas, estava apoiando suas subjetivas vontades em condições gerais e objetivas que conseguiam mascarar um pouco de vingança parcelada(eu também fazia isso).

No final acabávamos, ou começávamos, um jogo de cafuné, uma massagem, e o dia posterior sempre era muito mais positivo, por que ou eu levava o café na cama, ou você me dava um beijo enquanto eu fingia sono.

Seus cabelos molhados, sua blusa cinza, seus humores tão variados, eram tão apaixonantes, que eu podia carregar todo aquele dinheiro expropriado sem medo de ser reprimido.

Eu não tinha medo, por que quando você estava do meu lado, tudo parecia fazer sentido.

O mundo era fácil.

sábado, 14 de junho de 2008

Falta do que escrever

Bela idéia. Meus dedos não chegam. Não há concentração. Olho para cima, para as estrelas, me sento sozinho, eu respiro, bebo água.

E nem um conto, mas nem um conto, consigo acabar...

Gênio.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Supersticioso

T'esconjuru pé-de-pato mangalô três vezes! [na madeira]

(pode ler agora, querido leitor)

|
|
|
|
V

O que se vê

Granito
Amor e miséria
Quase invisíveis

Uma rotina siberiana

Quando acordo, sinto falta de algo. Mensurávelmente pobre e ridículo.
Um abraço, um afago, um beijo de despertar, que jamais surge, mesmo com o cotidiano tocando às seis horas da manhã.

Quando eu durmo, não sinto falta de nada, além de mim mesmo. Há um travesseiro na cama, um lençol velho; uma preguiça de pensar sobre si mesmo, e três ou quatro cervejas vazias sobre a mesa, em dias de moderação, em dias de pretérita moderação.

Quando eu não durmo e não acordo, sinto falta de algo. Que não sei bem mais o que é. Uma foto, uma presença, uma lembrança...

Eu não apelo ao afago, ao abraço, às cervejas, e nem mesmo rezo ao cotidiano...

Por que são todas provas ridículas de fugirem de algo que só encontrarei, em mim mesmo.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Pobre Pierre

Priscila!! Porque principiou perjúrios prejudiciais para Pierre? Paixão perdida pode produzir particularmente pesados problemas pessoais!

Pobre Pierre! Pernoitado pé-de-cana, penalizado pela perda pretérita, pronto para provar pelos porquês pessoais, passividade, perdição, perturbação, percalços!!

Profissão? Perdedor! Pouco! Pierre... Pobre-diabo! Permitiu patéticamente povoar pensamentos... pilhas! Provou paixão para Priscila: perfumes, películas, peripécias! Planejou passeios! Permitiu provocações! Prescindiu pilhérias populares! Produziu palavras...

Pierre pavimentou projetos! Pensava positivo! Priscilla palmeava pacientemente... Preparava pesados pagamentos para pobre paixão passageira!

Perguntou para Pierre por que podia permitir prematura paixão! Poucos passos... pouca presença... Poucas possibilidades plantadas!

Paralisado Pierre pediu perdão! Proclamou poderosa paixão!

Porém Priscilla postergava pedidos... Pragmática, prática, porto-alegrense prevenida... Preferiu preterir profundamente Pierre! Predestinado Pierre!

Pessoas problematizaram: Paixão precisa palpabilidade! Prevenção!

Pedestres palpitavam: pura palhaçada!

Pierre proclamava por portões, pistas, parques...

Puta que pariu Priscilla! Puta que pariu!!!

sábado, 7 de junho de 2008

Concretismo que falhou

Uma nota de cinco pratas na mesa.
Um barulho no som, no ouvido.
Água no estômago.
Pouco rancor.
Andarilho.
Cerveja.
Som.
Foi.
Foi...
Então...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Palavras ao vento

Há um ponto em específico em que explorar a escuridão sem lanterna é muito mais reconfortante...

A carta de despedida

Tinha uma tarefa simples: escrever uma carta.

Sua carta não tinha destinatário, não no envelope, o atendente reclamava.

A destinatária existia, mas a carta nunca era enviada em seu nome.

E foi aí então, que o pobre remetente tornou se destinatário; na verdade sempre foi desta forma, mesmo que negasse vez ou outra diante da caneta e do papel.

Ele sempre fez tudo para si mesmo diziam as bocas: quando amava amava a si mesmo, quando escrevia para ela, escrevia na verdade para si próprio, quando cozinhava ou levava café da manhã, estava era agradando seu umbigo.

O correio não entendia, o carteiro ficava confuso e no final estava abarrotado de cartas que enviara para si mesmo.

A tarefa era simples e ainda assim ele(eles) resolveram complicar tudo, com a distância, com as cartas, enfim, com as coisas tortas e sem nexo de que são constituídos os correios.

Sim, pobres correios.

terça-feira, 3 de junho de 2008

O peso do mundo

Eu olhava nos teus olhos
E você, tão honesta
Reforçava a mesma impressão
Que tínhamos do mundo

Desigual, injusto, voraz...
Algo tinha de mudar

Quando fazíamos poesia
Fazíamos nas ruas, ao lado do povo
Da lama, da luta

E ainda assim, faltava-me fôlego
Fôlego que lhe sobrava
Toda vez que eu o buscava em teus olhos

Quando você foi embora
Não pude mais dividir
O peso do mundo
Com a tua presença

Só me sobraram a memória
As estrelas, e as calçadas, muitas sem vida

Neste ponto, e particularmente neste ponto
O mundo tornava-se muito mais injusto, desigual
E voraz
O peso do mundo aumentava

Eu esquecia meu socialismo libertário
E naquele momento, era só mais um
Mais um reclamão egoísta
Que nem me lembrava mais
Do peso, do peso do mundo

domingo, 1 de junho de 2008

Agora ele entendeu

Te amei tão vigorosamente...
E eram cinco minutos...
Que eu transformei em quinhentos!

Mesmo em quinhentos, diziam os sábios...
Não é tempo suficiente para amar ninguém

Por que quando se ama, o tempo parece não passar
Mesmo para os céticos, ou para os que constróem
Ou adiantam relógios

Constróem relógios e constróem amores
Inventam fazendo, rejeitam as cores/dores/humores
Ou toda a palhaçada que rima

Por que cinco minutos são suficientes
Para escrever uma poesia ruim

Mas não para amar...

Por que ninguém escreve poesias ruins sobre o amor
Quando realmente ama

Multidão vazia de vozes internas

Eu converso comigo mesmo nesta noite fria e vazia.

Mas quem disse que estou sozinho nessa multidão de gente que consome meu hábito?

Roído pelo anonimato, minhas palavras ecoam distante, num vazio de letras indiferentes; não há piedade para o inédito, mas há cerveja farta por sobre a mesa.

Eu me embebedo para ignorar a multidão vazia, as letras indiferentes, os que consomem meu hábito e para claro, aguardar o inédito, mas nada chega, por que nada chega quando se realmente espera ou se trabalha para algo chegar.

O inédito é filho do acaso, e o acaso não perdoa a ferrugem de gente ansiosa.

Eu sento, choro, e durmo, não necessáriamente nesta mesma ordem de ficção.

[um bom título não faz um conto mediano]

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Homem expectativa vai as compras outra vez

Sou um suicida sem coragem
Um junkie sem culhões
Um revolucionário que não pega em armas

Meu nome é fracasso

Sou um amante sem amada
Um jovem meio velho
Um velho meio jovem
Sou contradição...

No ponto de ônibus
Na sua festa medíocre
No encontro dos chatos

Sou uma sina
Verbo sem palavra
Conto sem final
Poesia sem poeta
Ponto e vírgula sem leitor, sem ator

Sou o acaso, esguio
Passado sem futuro
Lógica sem prosseguimento, copo sem cerveja

Sou um soluço, um soluço de letras...
Sem explicação

E hoje ele falou tudo

E foi aí Ruiva, que eu virei a esquina com uma das mãos e o pensamento nus, com uma lata de cerveja no final e encontrei cinco ou seis meninos pseudo-suicidas, brincando de antagonismo.

Era um antagonismo estético, pelo menos aparentemente.

Um bebia vodka, sentado num banco de madeira, cabelos espetados, roupa preta, muitos piercings pelo corpo; conversavam em grupo, ligeiramente agitado, ligeiramentes circunspecto, ainda que o significado da palavra não dê conta do que estava realmente acontecendo por ali, e nunca dá.

Não me dei conta que havia uma discussão em torno da decadência. Sim, não é preciso ser genial para perceber até onde vai a decadência deste mundinho, falsamente moderno.

Não sei exatamente até onde vão as cores do meu mundo ruiva, não sei até quando conseguirei manter este diálogo inexistente, na verdade unilateral com você; as luzes, a ribalta, a terapia, tudo estilhaçado procurando sentido, num mundo vazio, vazio, perdido, ainda assim agradável de se observar, de se cheirar, de catar afeto; não, catar afeto nunca é legal ruiva.

E eu cheguei num ponto, quer dizer, posso ver de longe, e talvez até tentar retornar, mas sei que isto não vai ser possível, desde aquele dia maldito que você mostrou sua existência, com dois cigarros acesos, num ponto limite ruiva. Caso eu ultrapasse, talvez nunca mais consiga realizar determinadas coisas, como isto aqui.

Talvez. Eu me sinto culpado, me sinto culpado quando rifo meus princípios em troca de iluminação, mas eu já cansei deste ascetismo bobo, e realmente prefiro ter tendinite a dor nos calcanhares; sim, é uma contradição.

Digo que um escritor medíocre é aquele que não conseguiu matar seu censor interno, e sim, nunca conseguimos, até o momento em que perdemos não tudo, por que nunca se perde tudo, mas quando perdemos aquele instinto básico de sobrevivência que impede o clique da 45, o despencar do abismo ou simplesmente a resignação cínica. O conhecimento ruiva é um veneno. Depende da dose é claro. Excessivamente degenera nosso presente, nosso passado e nosso futuro. Não há mais salvação dentro desse tipo de estrutura, de compartimento hermético que assassinou, sodomizou a melhor parte da nossa espontâneidade, que tende a se retorcer em espasmos e talvez consiga recuperar-se com oito ou nove anos de terapia.

Não quero mais ir lá ruiva, ele quer lhe assassinar, ele quer me refazer tomar o controle; mas como diria Cecília Meirelles nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Estou com medo, medo como nunca tive(você já deve ter percebido este meu tom dramático-excessivo).

Vamos aos fatos: cansei dos ascéticos, dos que esperam a mudança no futuro. Cansei dos libertinos, que esperam a mudança no presente. Cansei dos cínicos que não esperam nada. Cansei dos hipócritas, que fingem não poder desejarem mudanças. Cansei de mim mesmo, ascético, libertino, hipócrita e cínico. Cansei de poder perceber isso. Cansei de cansar. Cansei de escrever isto aqui.

Talvez não esteja tão cansado, mas estou.


quarta-feira, 28 de maio de 2008

Corre Durden Corre Ruiva

Instruções para ler este conto: (isto é sério)

- encha o pulmão, prenda a respiração... e leia!

As coisas estão indo depressa demais ruiva, depressa demais, como aquele ônibus, aquele que quase atropela passageiros no ponto, como a bola espirrada que acerta o tio da praça, como a correria do pivete, o esbarrão derruba-café, derruba-humor, as luzes da cidade, as hemáceas urbanas coloridas, neon, barulho, neon, depressa, depressa demais ruiva, acelerado, acelerado. Eu escuto corra! Corra, corra, corra até perder seus pulmões, e eu forço minhas pernas até a exaustão, o tênis contra o asfalto, asfalto contra tênis, batalha silenciosa em meio a sujeira do canto do pa-ra-le-le-pí-pe-do dito diante da língua, diante de um copo de cerveja na cara de um travesti na esquina da joaquim silva com a tonelereiros não-sei-mais-o-quê! Já não sei mais quem empurra quem, ou se é a terra que está de cabeça para baixo; um dois, três postes, carros em frente ao teatro cecília meirelles, entro correndo com fôlego, passo embaixo dos arcos da lapa, há olhares, olhares famintos; grito com minhas pernas na altura do arco-íris, esbarro em um gringo, não dois gringos, não três gringos, digo era o garçom, não importa, hidrante, não importa, quantidade-velocidade-serenidade-atividade do intenso, idiota, do denso, idiota, idiota lerda, do tenso, eu tropeço num paralelepípedo, dobro a direita sem jeito, sigo rumo a praça tiradentes, delegacia-carrocinha-franco-maçonaria não necessáriamente nesta mesma ordem, corro, o cadarço está frouxo, o fôlego sôfrego, a calça imunda, as pessoas me inundam de olhares, expressões, e minhas ações prosseguem, pé direito, pé esquerdo, braçadas longas, cabelo grande solto, voando, casaco verde apertado, suando, chego na praça tiradentes cortando o batalhão já sem força... passadas diminuem, a dor no solado do pé, o seu ônibus partindo ruiva, partindo... partindo meu coração... aquele 355 vendido... sempre lento e agora tão esguio... esguio como nossa relação... e você não está mais aqui, mas está lá, no banco de trás, apenas um olhar. Olhar fugitivo, coberto pelo movimento que mostra seu cabelo vermelho e nega seu olhar... e eu com as mãos no joelho, esbaforido... meio perdido... caio de esquerda na calçada, me apóio, me nego e aí percebo que você já se foi, que você já se foi.

E eu tentei correr, não fugir.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Lembrei de você ao ler isto

O animus negativo e os relacionamentos

Assim como a anima, o animus (parte masculina no insconsciente de uma mulher) pode ser o causador de muitos problemas nos relacionamentos. Marie Louise von Franz, no livro “O Caminho dos Sonhos”, diz:
"Essa é a maior tragédia oriunda do animus negativo. Ele manifesta seu poder no momento em que a mulher ama. Ele tenta afastar a mulher de qualquer tipo de relacionamento, desvalorizando-o ou dizendo que é loucura. O animus negativo manifesta-se sobretudo como uma resistência, baseada em opiniões, a qualquer sentimento de amor. Se uma mulher se apaixona ou se interessa por um homem, seu animus negativo vem à tona e faz com que ela arruíne o relacionamento. Subjetivamente, ela não sabe o que está acontecendo. Ela acha que é maldição... Talvez ela projete e diga: "Ele foi tão maldoso comigo", ... O animus negativo comporta-se como um amante ciumento... se ela tem um sentimento amoroso por algum homem, logo aparece esse animus que diz: "você não deveria fazer isso".

[psiu... poderia ter dado certo mesmo com os mapas nos atrapalhando]

domingo, 25 de maio de 2008

Desenham outras possibilidades

Ainda que prefira meu quarto, do que o choro comovido, sinto o inerte, e apesar da cerveja meio quente provocada pela geladeira alquebrada, faço um bom negócio em passar um final de semana num cômodo grande, onde meu corpo ocupa receoso um / quarto de cômodo.

É quase manhã, mas meu quarto ainda respira a noite, isto por que, adoro beber cervejas que iluminam o dia, como vírgulas, as cervejas vão chegando, chegando e eu simplesmente não as pontuo, e é por mera vontade...

Odeio os pontos de interrogação. Adoro vírgulas; sempre me escapam, sempre conseguem e desenham outras possibilidades.

Gosto do inédito, mas o inédito está cada vez mais raro. E aí me ato ao visível, ou ao previsível, dependendo da quantidade de choro comovido ou de inerte cerveja.

É difícil me concentrar com vírgulas demasiadas.

E às vezes, eu penso, mas que merda ser e não ser escritor. E a fase criativa, está regada a cervejas, dar o dinheiro e correr, e a algo mais absurdo que todavia enfileirado com as regras métricas não consigo me lembrar.

sábado, 24 de maio de 2008

Não gosto de escrever de manhã

Não gosto de escrever de manhã. Apesar dos raios de luz que invadiram meu quarto, e chegaram atrasados, atrasados pois a insônia é um sol mais regular do que os ciclos e as estações.

Não gosto de escrever de manhã, por que a manhã não é um começo para mim, é um fim. Prefiro a noite, a madrugada, o fim de festa.

E não gosto de poesias, odeio a métrica, prefiro enfileirar minhas palavras e chamar de conto; é mais fácil, prático e simples, simples como a madrugada, não como a manhã.

Prefiro o puta que pariu sincero, do que comoventes abraços de hipócritas solidários.

Prefiro a cerveja engolida na raiva, do que a sofisticação que esconde a mediocridade.

Prefiro o torto, o desvio, a contra-mão.

Amanhecer é difícil.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Nada de novo

Atividades demais. Sonhos anotados, recorrências (in)afetivas, intuições; percepções, equilíbrio(?). Catarse, poesia solta. Solidão voluntária. Caminhadas a noite, observação. Ceticismo.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Vírgulas demais

Flores há, que não jazem
Vasos que não floream
Hábitos que não morrem
E há um jazz, que não...
Que não sobra!

sábado, 17 de maio de 2008

A Ruiva e as formigas...

Ruiva, eu não sei quantas cartas eu conseguirei escrever para ti, para tu, para você. A sequência não me importa; a subjetividade é imanente ao sujeito, o escrito não tem forma, o lido sim.

Depende de quem lê. Depende de quem bebe, de quem vê, ou de quem rima e acaba com a palhaçada toda na última hora.

Eu juntei meus polegares como se buscasse deus, mas você sabe, eu sei, e metade do planeta sabe, que deus não existe. Isto foi dentro de um ônibus, buscando o acaso, mas o acaso é uma construção tão frágil ruiva, que eu prefiro sempre idealizar você dentro de mim, principalmente no caminho de paralelepípedos amarelos que leva à minha casa.

Eu ando perdido. Sempre perdido, por que é assim que eu gosto de caminhar. Eu costuro as pessoas, caminho as observando, caminho assistindo a vida, que de tão real apenas parece um filme, onde eu, um protagonista decerto miserável tomo controle do destino; destino-roteiro.

Respiro, compro uma cerveja, as ruas estão cheias, extremamente cheias, na verdade as calçadas estão cheias, cheias de impermanência, e as ruas são apenas passagens, nunca se enchem, por que não se enche nada que é um caminho. E meu caminho Ruiva, apenas é caminho quando você passa por ele; só me sinto único, com raízes quando você me acompanha, e aí a realidade faz todo o sentido e consegue se fixar, se fixar. Por que a impermanência é uma regra nossa, uma regra nossa, que funciona sempre quando o mundo continua assim, fracticionado de indentidades suicidas, fragmentado de gente sem caminho, cujo caminho é ser não-permanente, é não ter caminho.

Vivemos sem caminho, vivemos regorgitando nostalgia, por que o presente é uma merda ruiva; sob a calçada há a praia, mas não descobriremos areia plantando concreto ou dizendo que a areia não existe. A gente só descobre as ruivas, quando estamos no limite.

Eu ando enfrentando abismos intransferíveis, pessoais e instransferíveis. Eu junto minhas mãos, eu olho por detrás do vidro dos ônibus, vejo os transeuntes, escondo parte da realidade, eu junto meus pés, estico minhas pernas como se desejasse algo de novo acontecer, mas nada acontece.

E quando acontece, é sempre o velho do mesmo, quando eu me motivo, quando estou extremamente empolgado com o novo, e o novo se estabelece, numa conversa de bar, num esbarrão no fim de tarde, num encontro casual numa kombi às cinco da manhã, eu volto ao meu redor, eu retorno ao círculo, não que eu descarte o mágico, mas as coisas retomam sua normalidade: retomam e ascendem à um estreito caminho; a mágica vira razão, o inesperado vira o óbvio, e a cerveja, acaba esquentando. E eu vejo que nunca houve mágica. A mágica é uma construção de uma cultura de vidro.

E eu acabo seguindo sua trilha, pegando suas pistas, uma flor de papel deixada no canto do bar, um coração de vidro espatifado numa esquina do centro da cidade, um olhar feminino, ignorado e administrado como rotina, ou uma festa onde eu sou o último a dormir.

E eu ruiva, onde eu me preparei, onde eu lhe esperei, e vejo as formigas caminhando por entre as letras, e eu não esperei o nobel, nem as formigas, e ainda assim penso que mesmo que você me encare, eu já fui derrotado.

Você nunca vem.

Você nunca vem...

Eu penso e me preparo. Preparo-me para o quê? Para o óbvio.

Eu sento e enfrento, mas você não vem; o óbvio nunca é tão óbvio, jamais. Eu sento, e desisto, eu escrevo, e acho que sinto; eu junto as mãos, junto a dor, junto você embalada com um laço, um laço lindo, rosa, com um cheiro marcante, com um cheiro de um rosa meio óbvio e aí eu malabarista de letras desisto, desisto repetitivamente com as letras, com o óbvio, com o sinto muito, eu apenas me beb0 e desist0.

Formigas invadem.

Eu chuto as formigas. Com os dedos. E eu acabo o conto, ao cheiro de rosas, sem rimas, com personagens suicidas, repetidas desistências e ainda assim; com as mãos cheias de enfrentamento.


quarta-feira, 14 de maio de 2008

Metáforas: E quem entende?

Publicizei demais isto aqui.

E agora o que sobrou?

Ruiva, o que sobrou?

Olhei umas fotos antigas suas, você está mudada, todos mudam, mas você mudou para algo que eu não reconheço mais. Ruiva, quando o lodo da terapia começou a subir, eu fiquei preocupado em nunca mais conseguir escrever cartas para ti. Eu também me preocupei exaustivamente, em mudar meu estilo. Mas quem está mudando sou eu.

Sem ruivas a vida fica muito mais complicada ruiva.

Eu não sei exatamente onde eu termino e onde eu começo. É uma fase de mudanças.

Digamos que eu odeio a ciência ou todas as pretensões derivadas desta. A psicologia matou o encantamento do mundo ruiva.

Eu matei parte de você, quando aceitei frequentar aquele maldito divã, uma vez por semana.

Ele está me matando ruiva.

Ele está racionalizando o sagrado. Ele descobriu o que era para permanecer preso, intocado e coberto. E o pior. Com a minha ajuda ruiva.

Eu o ajudei a me destruir. Por que não sei bem, se um Vasilli feliz realmente será originalmente o Vasilli que nós dois conhecemos.

Sinto sua falta ruiva. Sinto sua falta na fila do metrô. Na despedida do ônibus, na brincadeira no canto da sala.

Eu sinto falta da tristeza que você me deixou. Eu sinto falta de sentir falta. Por que agora eu tenho quase tudo.

Sinto falta de grandes conflitos. Estou próximo a perder algumas coisas. Entendo outras. Entendo que os controladores estão onde menos se espera. Quando eu acendi aquelas velhas velas, olhei para seus olhos, e fui pingando a cera no seu corpo nu, e você gemendo de prazer, totalmente entregue àquele momento, eu percebi, e como percebi, que havia um quê de sagrado em nossa relação, eu mais sensorialmente voltado às letras, mas você, entregue e possessivamente me abraçava, sem parecer não tão possessiva e não tão submissa, o que de certa forma eu adorava, me envolvia em teu manto de certezas e beijava-me com vigor, com toda o esplendor do teu corpo.

Eu adorava, e te idolatrava, quando você mantia seu lábio junto ao meu, quando sua respiração ofegava em tentar me encontrar, quando eu perdia o controle e você, estava lá, não para me observar, mas para me guiar carinhosamente, entrelaçando seus dedos em volta ao meu, quando nós, em nossas sequências de carícias, e não eram sequências, por que esta palavra não é digna do que acontecia ali, em cima da cama, quando as coisas aconteciam; eu respirava fundo, eu me entregava a você, eu me dobrava como um sino, e nós chegávamos ao paraíso juntos.

Era interessante perceber, tentar relembrar velhos sonhos, tatear tua pele de forma como se fosse a primeira vez que eu tocasse um corpo humano, e você, fazia exatamente o jogo que eu imaginava, mas sempre me supreendia, e para isto usava um gemido mais forte ou mais fraco, e eu pensava que meu espírito situara-se além de um estado de bem e de mal.

Era noite e frio, mas ainda assim comprimíamos nossos corpos nus, e o mundo parecia não existir ao nosso redor, enquanto ensaiávamos jogo de gato e rato com nossos lábios, com nossos sexos e corpos, imbuídos de prazer, fluidos e vontade de nos jantarmos mútuamente.

Era simplesmente tão espúrio à vista de falsas liberdades superficializadas por metas emocionais quase que administrativas, que nossos sonhos vinham a tona, e conseguíamos por um momento nos libertar das maiores prisões.

Vou prosseguir. Beijando teus olhos no infinito.

Mesmo que eu não te encontre nunca mais, miragem necessária.

O Solipsismo de Carlos

O cabelo cresceu junto com a introspecção. A barba fazia regularmente; demonstrava um senso de erudição vago e não permitia que conversas ocasionais descambassem para intimidades ou especulações sobre procurar ou não um terapeuta.

Lia Kundera e criticava os romancistas alemães, mas no fundo gostava, pegava panfletos na rua, colecionava atividades enfileiradas, escutava velhos conselhos e escrevia pouco, pouco.

O mecanismo impedia-lhe de conservar coisas simples, lavar um tênis, frequentar um médico, arrumar um armário, pintar um quadro por mês...

Quando deparavam-se com a originalidade diziam bem alto: Já foi dito!

Já escreveram! Pintaram! Velho demais!

Novo demais! Volte outra vez!

E quando não se contentavam, havia a resposta padrão: plágio de si mesmo, plágio de si mesmo, não posso contribuir com a decadência estética da arte. Volte outra vez! Tente novamente!

A luz apagava, mas seu senso de auto-preservação não, apesar da música e das regras que costumava impor: aos leitores vagos frases curtas, aos concentrados picava metáforas salpicadas estratégicamente, e ainda assim, ainda assim, desolado escritor sem fama: Carlos era um perdedor.

Diziam, chamavam este fenômeno, o de perdedores em massa, de pós-modernidade. Na verdade eram os mercados estreitos. O que os economistas, após fecharem as braguilhas sob a égide intestinal do aparelho digestivo num sábado à tarde pós-churrasco, chamavam, digo, pensavam de mudanças estruturais da economia.

Menos gente no topo, mais gente na base. E então, difundiam que aqueles, os da base, eram os perdedores. Gente sem talento.

Alguns inventavam teorias mais originais: As coisas poderiam realmente estar se repetindo. Monotonia cultural. Inércia intelectual.

E os mecanismos continuavam lá, impedindo por exemplo, a subjetividade de um conto. Quando for tão subjetivo terá 50 anos e uma conta bancária gorda. Gorda como a do Sarney. E ele entrou na ABL. Teve escrutínios.

Um solipsismo de massa nunca é bom pois Carlos gostava de causar uma certa confusão na leitura.

Uma filha poderia ser um verbo, um verbo um adjetivo, um adjetivo uma ação. Bastava-se de princípios e instintos formulados ao acaso.

Solipsismo demais o impedia de alcançar o topo. E Carlos indiginava-se com a distribuição de poderes. Ainda mal distribuído. Preferia o absolutismo, ou tudo ou nada, bradava!

E nem democracia total vivia, ainda era algo meio termo. Uma mescla de algo que se convencionou apelidar de crise dos sujeitos, crise das identidades.

Não queria prosseguir no conto, o solipsismo o invadia. O leitor poderia acabar, escrever o que quisesse. Ou apreciar até onde lhe aprouvesse. Não se importava.

A qualidade do conto é imanente ao sujeito.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Calar-se

Quando não se tem muito o que dizer, é melhor ficar calado.

Parece óbvio, mas não é.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Paz Interior

No banco do parque
Pardais e Tico-Ticos
Pontuam silêncios

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Duvido que leia

Vasilli sentia-se numa fase particularmente inédita. Inédita por muitos motivos; um deles referia-se à vodka, esta não era mais um consolo amigável, não que fosse um alcóolatra de profissão, e estava bem distante desta categoria, todavia começara a desconfiar do ciclo ascendente que estabalecera como premissa para produzir material literário; portanto, bastava-se, sem álcool demasiado, mas com demasiadas outras muletas ainda pendentes.

Desconfiava desta sua fase mais esperançosa, a desconfiança era sistêmica e racional.

Ao lado desta, residia um medo intenso, ou de tornar-se uma paródia transmutada em livros de auto-ajuda ambulantes, e sentia-se como um grande livro de auto-ajuda, quando lhe pediam conselhos afetivos por telefone, por cartas, com desconhecidos em mesas de falsos pub's no outono ou quando simplesmente era obrigado a citar cinco ou seis frases de efeito, que ele mesmo criou, para tentar convencer meia dúzia de amigos. Era cansativo.

Quando a ruiva entrou no bar, decidida a acabar com a farsa, exigindo respeito com dois goles rápidos e sufocantes de um conhaque ruim, ele já sabia que escutar jazz, apesar de clichê, era bem apropriado para o local.

Um bar sujo, uma vitrola que não funcionava muito bem, uma mesa de bilhar abandonada, meia dúzia de fregueses ruins, bancos de madeira contornado o balcão, um balcão ainda respeitável, apesar do garçom detestar jazz, e lá, a ruiva, batendo o copo vazio na madeira, e provocando um embate.

- Lembra do nosso primeiro encontro?

- Lembro.

As pausas propositais, quase sepulcrais duraram um gole da cerveja; Vasilli lembrou-se do último enterro em que foi convidado. Nada agradável, pranto, doença fatal, flores baratas e a repetição esdrúxula de etiquetas sociais(como as que utilizava para comprar pão por exemplo).

- Você estava usando aquele jeans comprado no Alabama.

Ela gargalhou. Ele ainda conseguia lhe fazer rir.

- Isto é muito clichê não?

Ela sorria... mostrando seus lindos dentes.

- Demasiado. Pontuou, Vasilli.

Ela gargalhou ainda mais, mas ensaiando um ponto final exclamou:

- Não gosto das suas cartas Vasilli. Não gosto mesmo, elas me enjoam. Você está fazendo exatamente o que disse que nunca faria. Puta merda, mas que contradição!

Duvido que leia, ele pensou.

Enquanto o garçom limpava o balcão, Vassili esboçou um sorriso no canto da boca; mas a piada dos clichês já não fazia mais sentido, e foi aí que surgiu como sempre surgia nesse frenesi de associação livre, a idéia de que boa parte das pessoas ensaiavam clichês em comportamentos, os arquétipos... A história não está tão errada. Mas isto só emergiu, depois de conectar sequencialmente o jeans fictício da Ruiva, ao Alabama, ao documentário sobre o racismo no sul dos E.U.A, a música pop americana, aos literatos norte-americanos, a um ou dois amigos fãs de Bukowsky e por fim, clichês; mas que volta.

- Nunca me esquecerei daquele saxofone Ruiva.

- A noite cinza. A garrafa de vinho quebrada. A luz baixa era desagradável...

Ela calou, olhava Vasilli compenetradamente, e ele já sabia que apesar de compreensivo, ele não poderia recuar.

- Faltava-me maturidade. Agora o que me sobra é em parte o que eu desejo perder. Ontem eu conversava com um homem-robô. Sabe o que é um homem robô? Uma pessoa que não consegue mais se mover naturalmente, por que seus traumas o conduziram a um engessamento da alma.

- Que se dane ruiva, eu não quero ser um engessado. Jamais.

Não o interrompeu por educação? Vassili não sabia. Decerto, seus mais curtos(agora) cabelos vermelhos(sempre), refletiam o whisky, que enganava o garçom, perdido lavando copos, escondia os clientes chatos no fundo do bar e o mundo rodopiava, rodopiava soçobrando Vassili cujas velas eram a ruiva. A ruiva movia aquele lugar.

Ela falava pouco, mas gestualmente era um monumento literário vivo.

- Eu te amava russo, mas você perdeu sua chance.

(Vassili achou que ouviu, mas não, ele não ouviu, ela nunca diria isto diretamente, precisaria rodopiar, por que estava numa posição defensiva que poderia desestabilizar seu falso compromisso com a sensibilidade)

- O que você disse?

- Que eu te falava. Que eu sempre te falei, que não há volta quando se ultrapassa o ponto limite Vassilli.

- E atingimos este ponto?, encheu o copo pediu mais cerveja.

- Talvez.

Papos deste tipo sempre os enojaram. Esse jogo de xadrez, este tango emocional, era danoso para a alma, mas profundamente enriquecedor para jogos de metáforas.

- Eu te amei. Te amei como um estúpido. Mas quem disse que o amor é inteligente...

- Suas cartas são... ela disse. São boas; são como você diz, farto material literário. Elas são isso tudo Vassilli, mas... você não entende... É hora de esquecer o Saxofone. Esquecer não. Desesquecer. São coisas diferentes, você sabe.

- Poderíamos falar sobre isto a noite toda não é? Até mais. A semana inteira.

- Sim. Mas o fim nunca é poético o suficiente. O fim sempre é ruim.

- Como o fim do Nato, Vasilli exclamou.

- Sim. Ela respondeu erguendo a cabeça . Como o fim do Nato.

- Ruiva... disse ele, interrompendo a melodia e gerando um tom de voz que desarmaria qualquer oposição.

- Fala. Diz.

(Ele pensou duas coisas. Duas possibilidades: A ruiva é uma ilusão necessária, um combustível do meu ofíciou ou eu inventei isto para justificar algo que eu não posso assumir totalmente, que ela tem o controle de Eros, a Eros de Vasilli.)

- Vou pagar a conta e...

- Não quero mais escutar jazz. Vamos embora!

Das necessidades da Revolução

A revolução precisará de mulheres e homens. De carne e osso, e espírito. Espírito de luta, de revolta, de esperança e amor.

A revolução precisará da liberdade; pois sem ela, tudo estará perdido antes do princípio.

A revolução precisará do acaso, do inesperado; porque mesmo sem deus, é necessário confiar no não controlável.

A revolução precisará da história, mas esta, até hoje, nunca esteve ao lado das revoluções.

A revolução precisará de poetas. Não para escrever sobre ela mesma, por que a única poesia digna de menção é a que se constrói com as próprias mãos.

Zapata nunca morreu

1919

Cuautla

ESTE HOMEM ENSINOU-LHES QUE A VIDA NÃO É APENAS MEDO DE SOFRER E ESPERA DE MORRER *

Teria de ser à traição. Mentindo amizade, um oficial do governo o leva para a armadilha. Mil soldados estão esperando por ele, mil fuzis o derrubam do cavalo.

Depois é trazido para Cuautla. Mostram-no de barriga para cima.


Os camponeses acodem de todas as comarcas. O silencioso desfile dura vários dias. Ao chegar frente ao corpo, param, tiram o chapéu, olham cuidadosamente e negam com a cabeça. Ninguém acredita – falta uma verruga, sobra uma cicatriz, esta roupa não é dele, pode ser de qualquer um esta cara inchada de tanta bala.


Os camponeses cochicham sem pressa, colhendo palavras como milho:


- Dizem que foi embora com um compadre para a Arábia.

- Que nada, que o chefe Zapata não foge.

- Foi visto pelas montanhas de Quilamula.

- Eu sei que dorme numa cova do Morro Preto.

- Ontem à noite, o cavalo estava bebendo no rio.

Os camponeses de Morelos não acreditam, nem acreditarão nunca, que Emiliano Zapata possa ter cometido a infâmia de morrer e deixá-los sozinhos.

* Fragmento extraído de “O Século do Vento”, de Eduardo Galeano. Porto Alegre, LP&M, 2005. Eduardo Galeano, conforme indicação no livro, utilizou-se da obra de John Womack Jr. “Zapata e a Revolução Mexicana”, para a sua composição.


(agradecimentos ao Fábio, companheiro de graduação que me enviou por email!)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Geralmente Obcecado

Abril é o mês! Nunca escrevi tanto! É o lodo da terapia subindo... hahahaha!

A arte do desesquecer

Lembrar é fácil. Desesquecer é difícil. Antes que apontem o erro, devo diferenciar. Esquecer pode ser até mais conveniente, mas não funciona.

A arte do desesquecimento nunca foi passada para os ocidentais.

É por isso que todos esquecem. Esquecem e recalcam monstros, alimentam-os no recanto mais escuro de suas almas e inconscientes de sua presença, nos momentos de comoção nacional, quando matam uma menina a pedradas ou um garoto classe média executa a família a golpe de machadinhas e o pilar da falsa normalidade da sociedade parece ruir, conseguem então, por acaso das notícias e dos jornais ensaguentados enxergar o lado obscuro com maior nitidez.

No entanto, desapercebidos de suas próprias constituições psíquicas, o inferno passa a tomar conta do outro e não de si mesmo. Expiando o mal do outro, expia-se o próprio e assim a sociedade cristã e capitalista, termos que para Cristo pareceriam-lhe contraditórios, caso decidisse andar pelas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro ou nos guetos de Gaza, próximo a Hebron, fecha seu próprio ciclo e nega o que sempre existiu em si mesma.

Na verdade, a arte do desesquecimento era uma arte relativamente difundida; e diziam os antigos gritos, que todo ser humano conseguia desesquecer, o que significava, reduzir a um ponto abstrato uma memória concreta e significava literalmente "apagar" e não "esconder".

Há muitas teorias, e não me alongarei sobre nenhuma, mas o desaparecimento do desesquecer se deu segundo os relatos mais confiáveis que tive, em uma tarde de sol forte, num continente que já fora chamado de Australis incógnito pelos mais ambiciosos.

Quando a civilização e as forças reais da coroa britânica chegaram, o evenenamento de crianças e mulheres com Arsênio tornou-se comum e a caça de animais era um diversão secundária comparada a caça de seres humanos. As mulheres violadas e as aldeias queimadas, deram lugar ao sequestro de crianças e ao trabalho semi-servil. Era Deus chegando ao lugar, na presença da senhora majestade da Inglaterra. Contudo, um velho aborígene, o mais velho ancião da tribo, resolveu guardar o maior segredo daquele continente perdido num vaso de barro.

Enquanto um grupo de britânicos, fuzilava os homens e pisoteava as mulheres, o velho escondeu o desesquecimento, para que nenhum britânico revelasse aquela arte para o restante do globo...

E mesmo que todos tentassem esquecer aquelas atrocidades, elas ainda ficariam guardadas num lado escuro, dentro de todos nós.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Miguéis

Miguel gostava de transbordar todo singular em plural.

Quando lhe desejavam boa noite, ele respondia, boas noites, por que uma noite boa, não é de modo algum, suficiente para uma vida toda.

Seus amigos já conheciam esta obsessão, e não o incomodavam mais; decerto estranhavam, quando ao no final das conversas, diziam "vá com deus", Miguel os corrigia, por que um deus só, nunca é suficiente; e era melhor ter a proteção de vários, para agradar todas as religiões, mesmo as panteístas.

Para alguns, Miguel aparentaria ser um sistêmico, mas quando sentava no bar, jamais se contentava em pedir uma cerveja, quando diziam, "traz uma cerveja" aos garçons, ele imediatamente os corrigia, e aí a noite acabava como sempre, estatelada na singularidade de seus amigos e na pluralidade de Miguel.

Uma vez num comício quase apanhou; político safado não; políticos safados; e foi o suficiente para arrancar aplausos populares, latas voando e pescotapas de leões de chácara contratados por excusos e distintos candidatos.

Era tão polêmico quão, quando em sua habitual conversa de esquina com seus amigos, afirmava que não havia um ser humano e sim seres humanos.

Miguel e sua pluralidade, era motivo, digo, motivos de discussões, mas permanecia sobretudo singular quando lhe afirmavam que "tinham que lutar sozinhos por uma vida melhor para si", e aí afirmava sem vacilos, que tínhamos que lutar juntos por vidas melhores para todos."


domingo, 27 de abril de 2008

Matheus e o criador

Matheus, um jovem sem dúvida não tão normal, mas não tão diferente, em uma de suas viagens oníricas e sempre tinha grandes e enebriantes viagens oníricas, topou com o todo criador em suas andanças.

Inicialmente perguntou: Por que você me fode tanto?!

- Mentira! Eu não te fodo tanto! Você é um origami.

Acordou com um mau humor naquele dia que o café não fora habilidoso o suficiente para desarmar.

Nas semanas subsequentes, no transcorrer dos sonhos, outros avisos apareceram de maneira esporádica.

- Você é um origami, mas tem gente que é um cubo mágico!

- Cubo mágico? Como você pode ser tão mal com as pessoas... Eu achava que você existia para nos proteger!

- Do que você tá reclamando seu maldito origami! Gritou deus, com insatisfação, brandindo seu cajado, sua barba branca e seu saiote ridículo. Mais uma destas e eu te transformo num jogo de armar entendeu?! Num jogo de armar!

Eram oito e trinta e cinco, a irritação com o todo poderoso durou cerca de doze horas, até o fim do expediente; ensacava livros num departamento de exportação de uma editora, aquele filho da puta era realmente um puto de um cínico! Mortes, destruição, assassinato em série! Se deus existia, e ele viu que o puto existia, era sim um belo de um hipócrita!

Resolvera anotar o que iria dizer para jeová. Anotou antes de deitar, já vestido de pijama, desta vez o velho iria escutar uma daquelas.

- Me explica essa parada de origami. E como assim jogo de armar? Qual a diferença?

- Olha só garoto, você é um origami, eu só te dobro quando eu to entediado, mas apesar dos vincos eu ainda consigo te dobrar infinitamente. Pensa bem, tem gente que eu faço jogo de armar, castelo de cartas... Já brincou de pega vareta?

- Já.

- Pois é. Então, imagina ser desconstruído quase toda a semana? Deve ser uma bosta não?

- Muito... mas que deus é você que brinca de poesia com as pessoas! Caralho, você deveria nos ajudar! Salvar o mundo!

- Poesia? Literatura é só para o final de semana meu garoto... Você já ficou entediado, como na fila de espera em clínicas dentárias?

- Sim, várias vezes.

- E já digamos, jogou algum passatempo ridículo nestes momentos?

- Como sudoku ou palavras cruzadas?

- Exato. Já?

- Já. Muitas vezes.

Pois então. Digamos que você pertence a esta categoria.

sábado, 26 de abril de 2008

Diferença

Gil queria ser diferente. Tornou-se igual à Roberto.

Roberto apreciava bandas britânicas e gostava de usar roupas com losangos vermelhos.

Roberto era igual a todo mundo, nunca desejou ser diferente. Seu mundo era Júlia, Ricardo e Elaine. Júlia, Ricardo e Elaine também gostavam de losangos vermelhos e bandas britânicas.

Gil agora, fazia parte do time; dos diferentes.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Passivo espectador

Meu quarto, geladeira e fogão podem até não produzir minhas idéias.

Mas que me dão tranquilidade para parí-las isto sim dão. E como.

E como bastante, há noite, claro...

Desta tranquilidade podem vir as coisas mais abstratas, absurdas, abscenas; posso a partir daí simplesmente me acomodar com o controle nas mãos; o da tv, não da vida e por fim renunciar aos problemas com um toque de teclas.

Acessar a informação com um clique e descobrir por exemplo, que a abscena é um dos neologismos possíveis de serem gerados a partir do casamento do senhor obsceno com a senhora barriga cheia.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

Endocardite Infecciosa


Quando morri de Endocardite Infecciosa
E que enterro lindo; com flores e lágrimas abundantes...
Perguntaram-me apenas no óbito
Se a doença se escrevia com letra maiúscula ou não.

O desleixado

Não queria beber mas acabei bebendo.

Não queria sofrer mas acabei sofrendo.

Não queria pegar o ônibus errado, mas acabei pegando.

Não queria voltar pra casa sóbrio e acabei voltando.

Não queria fazer listas do que eu não queria fazer.

E eu consigo sentir apenas a minha respiração?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Utopias

Pavimentando sonhos
Estão livres no céu
As estrelas

Idéias na madrugada

As idéias fervilham e me mantém acordado às quatro da manhã. Lembro-me de uma discussão típica dos cursos de graduação: A idéia é determinada pelas condições econômicas? Ou subsiste independente destas?

Enquanto procuram o ovo ou a galinha, eu me sinto um privilegiado, por que ser acordado por idéias ainda é muito melhor do que pela fome.

Perguntas aos socialistas - parte I

Perguntei aos meus amigos socialistas, por que eles lutavam.

- Porque é a coisa certa a se fazer.

- Por que sem isto não viveria tranquilamente.

- Por que esta forma de organização social está profundamente equivocada.

- Por que entre o conformismo generalizado e a luta, escolhi a segunda.

Perguntei aos meus amigos socialistas, o que fariam depois da revolução, caso pudessem vivenciá-la e no mais geral respondiam: - Nunca parei para pensar nisto.

terça-feira, 22 de abril de 2008

A assembléia I

Gastão falava com emoção. A sinceridade brilhava nos seus olhos, nos seus gestos, em sua voz. O chão de cimento batido, crespo abrigava o povo sentado, reunido; era sua vez de falar e todos ouviam com atenção. Fora das frágeis paredes de madeira, chuva, ladeira e ruas e vielas escuras: um bairro abandonado pelo deus das missas e das hipocrisias de final de semana, fazia frio, e aqueles homens e mulheres ali, debatendo.

- É preciso que nos organizemos companheiros. Um passo após o outro; e em breve uma longa jornada.

Não acreditavam em partidos; seus políticos eram alvos dos intervalos e das piadas. Marcaram outra assembléia, nos apertos de mão, esperança.

Todos ouviam Gastão com atenção, por que acreditavam em si próprios e era sua vez de falar.

As ruas do centro da cidade - II

O tédio invade a face infantil de um filho de um vendedor ambulante. Sobre a banca, frutas, legumes e esperança. Há um aroma de carinho, em torno das frutas e da relação entre pai e filho. A cidade é paisagem, e aquela cena, a moldura.

Ninguém presta atenção nas molduras.

As ruas do centro da cidade

No centro da cidade, à tarde, um homem dorme profundamente. Sua cama é um papelão, o seu travesseiro uma mochila, o seu quarto é o chão. Como consegue dormir nessa situação?

Na zona norte da cidade, a noite, eu me lembro da cena e não durmo.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Revolver

Acendi a luz, só para ver as teclas da máquina de escrever; enquanto observava a nuvem esconder a lua, uma nuvem rosada como meu senso de auto-preservação, e surgiu em mim uma série de reflexões, reflexões não tão glamourosas, que por princípio preencheram parte do que eu desejava preencher, mas que na verdade, atentavam para a possibilidade desta ser uma noite muito original.

A luz parecia então suficiente; e foi assim,. que ignorei a lua e comecei a me concentrar na maldita máquina de escrever, e como um autômato incontrolável, perseguia cada tecla como se estivesse dominado pelo ódio, mas na verdade, apenas descarregara, parte da tensão acumulada, sobre um dia, ou dois, de luas, nuvens rosadas e princípios, em factíveis teclas de uma velha máquina de escrever.

E cá estava, fingindo equilíbrio, mas de certa maneira eu achava e sentia que estava realmente equilibrado. Eram quatro ou cinco da manhã, mas enquanto eu ajeitava o relógio biológico, e tentava escapar da insônia crônica que eu resolvi adotar como filha, parte, um pequena parcela de mim, infrigia as regras préviamente estabelecidas e resolvera recordar, recordar com a extremidade dos pulmões ou o fôlego dado aos poetas e vencidos.

Eu não podia mais fantasiar minha atual situação. O que eu queria era apenas esperar, esperar como todos os ansiolíticos aguardam algum tempo para agirem. Gostaria de esperar e saber realmente o que iria acontecer daqui para frente.

Por conta resolvi apenas desesperar-me em lembranças; em pedaços de investigação amnesíaca.

Por fim, transpareço uma calma e sernidade, que ainda, eu disse ainda, não são minhas...


sexta-feira, 18 de abril de 2008

Fugazes amores de verão

E como se não bastasse o que restou
Você me tomou em tuas dúvidas

Tomou e levou, parte do que podia
Ainda, ser distribuído a outras

A Outrém caberia apenas
Confeccionar desculpas
Mas você foi além...

E afogou parte da esperança
Nas pausas para o jantar

Havia envelopes coloridos, beijos no canto da boca
E livros do Neruda no entremeio das férias

Mas você decidiu fazer jus aos sentidos
E matar o sagrado no canto da boca

Conquanto no mundo cínico - os que acreditam
No inédito, pelo inédito morrerão

Eu não poderia saber bem
O quão ávido em tua presença
Esculpiria mais uma história de amor
Fracassada!

Da próxima vez...
E lembre-se bem, nunca há próxima vez

Deixe ao menos o dinheiro para a terapia!!!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Insoníaco

Definitivamente, estou cansado de ter insônia.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Projeto para este mês

Reunir todos os contos; compilar tudo. Corrigir e cortar gordura. Tentar escolher os menos piores.

Vai dar trabalho...

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Inoportunas notícias

Semanas corridas. Atividades demasiadamente cansativas.

Há um conto velho sendo parido, com cheiro de novo... aguardem...

domingo, 13 de abril de 2008

Verde e Vermelho para sempre


O vermelho (do latim vermillus – "vermezinho": a cochonilha) é a cor do sangue, sita no limite do visível do espectro luminoso (abaixo deste comprimento de ondas, o infravermelho, não é mais perceptível pela visão humana). Também é conhecida como escarlate ou encarnado. É cor-luz primária e cor-pigmento secundária, resultante da mistura de amarelo e magenta.

* O prefixo grego para vermelho é Eritro-.


O verde é uma cor-luz primária e uma cor-pigmento secundária composta pelo ciano e amarelo. Está aproximadamente na faixa de freqüência 550 nm do espectro de cores visíveis.

Verde também representa a luta no mundo de movimentos de proteção ao meio-ambiente.

Retirado da wikipedia.