quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Compro Ouro

Detestava receber papéis na rua
Mas deus
Sempre lhe anunciava
Alguns puteiros

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bonitinho mas ordinário

As coisas tinham mudado. Anatole viajara para o Uruguai.

Eu vadiei pelo interior de cidades tão distintas quanto meu humor, e você, bem, você se foi, e nunca mais voltou.

Era um dia chuvoso, uma chuva que molhava a madeira velha no fundo dos quintais, o cheiro de paralelepípedo molhado me contaminava, e eu me via obrigado a evocar uma lembrança covarde.

A chuva acabava rápido. Eu demorava mais a me acabar. Acabava-me lentamente, mas com certo orgulho e prazer, afinal, matar-me cotidianamente me fazia um ordinário mais vivo.

Quando eu retornei para a cidade caos, eu me lembrei de pegar aquelas velhas correspondências, suas correspondências, que você tinha me enviado. Enquanto eu folheava uma das cartas, me lembrei da decepção que você sentiu quando eu fiz aquela brincadeira; eu disse que iria me prostituir na terça a tarde, prostituir-me pelo capitalismo, mas você não gostou.

Na época eu não entendi. Sensível não seria a palavra adequada, porque evocaria fragilidade, e eu detesto ser frágil, mas estúpido eu não sou, rude é o adequado, mas você sempre soube que eu sou é um filho da puta intuitivo.

Sou distraído. E empático. Você sabe. Intuitivo e empático são coisas normalmente desagradáveis. Além de anteciparem a derrota, acabam nos fazendo identificar nos algozes.

Heróis ou carrascos.

Eu sempre reclamei com você, que essa minha empatia era um desconforto cotidiano. Era um soco no estômago, uma úlcera que crescia, que me obrigava a compreender mesmo os canalhas.

E eu odiava ter de entender os canalhas. A não ser quando eu desejava aniquilá-los verbalmente.

A minha empatia folheou você. Mesmo com seus olhos(verdes ou azuis?) emblemáticos eu te atravessava no meio da tua avenida, aquela que ligava seu coração aos meus olhos, aquela avenida bonita, feita de sangue, de beijos de final de semana, beijos de domingo, depois do cinema e da pipoca, e você sabe, e sempre sabia que era hora de nos fatiarmos mútuamente. Era hora de revelar aquela sombra que obscurecida pela luz dos nossos valores, ousava retornar pela porta de trás, do modo mais honesto: com lágrimas, relâmpagos e vez ou outra, queimaduras de cigarro.

A gente se entregava. E o amor mais bonito é o que menos certo dá. O amor mais legal é justamente aquele que mata parte de si para sobreviver.

Quando você se prostituiu, eu não sabia bem o que dizer, eu já sabia das drogas, eu sabia de tudo o que fizemos juntos naquela noite louca, mas paramos por ali. Eu não sabia, eu fiquei preso, eu sabia que ficar preso era me condenar, mas você enlouqueceu ruiva, você enlouqueceu, enquanto eu sabia que se me condenassem eu tomaria veneno ou cortaria os pulsos, mas graças a nosso amigo Anatole, eu, o pobre Vasilli, consegui chegar na cidade caos ileso.

Aquilo foi duro demais. Eu me odiei, por que eu fui responsável, você precisava sobreviver, precisava me soltar, e eu precisava viver, mas não fui forte o suficiente para me matar.

E você se prostituiu.

Ruiva, eu rodopiei durante anos, eu te reencontrei e te perdi, eu te perdi mais de uma vez, você estava lá, em cada viagem, em cada espelho, em cada esperança... Eu mudava de emprego, de cidade, de rotina, mas nada mudava realmente. Eu ainda era madeira velha apodrecendo mais.

Os pingos de chuva molhavam esta madeira velha, eu me amava mais do que as pessoas ao meu redor. E você meu amor. Você meu amor, meu único amor! Estava perdida, perdida, sem que eu pudesse te encontrar ao redor do globo, você era um fantasma vivo, que me condenava a te procurar, te procurar, como um Sísifo pós-moderno, como um Ícaro condenado a desabar sob o céu cinza da modernidade tardia, eu apenas olhava espelhos, recebia suas cartas, algumas que nunca mais chegavam e rezava para conseguir cigarros o suficiente no próximo final de semana.

Eu acendia um cigarro, sempre nas noites secas ou muito chuvosas, e me lembrava que você não estava aqui, mas sua presença, sua presença era um ultimato.

Eu me afoguei diversas vezes nas minhas lágrimas; ruiva, eu me viciei em duas coisas distintas, aparentemente opostas, mas possíveis: eu amei a tua presença, amei a tua ausência.

E você, você, com seus cabelos ruivos... Nós dois nus, naquele quarto calorento e sufocante, com relâmpagos pós-chuva, os dois abertos no meio, abertos emocionalmente e físicamente, beijando-nos e nos desejando, mas fundando limites... Sempre acabávamos teorizando e a mágica nunca acabava. A mágica nunca acabava; nem quando eu saía nu e voltava com água gelada.

Aí você já jazia viva, dormindo, como um anjo, e eu te olhava ainda mais, bebia a água sozinho, e me lembrava sempre quando você sussurrava aquela palavra estúpida antes e durante o sexo, "bonitinho mas ordinário, bonitinho mas ordinário..." E eu adorava...

E foi essa única frase que me permitiu lembrar de você, sem gosto de madeira velha, pois eu sempre dava um sorriso e desencadeava todo o resto. Eu sempre me prostituía em troca das tuas lembranças. Mesmo você não estando aqui.

Mesmo longe, você não morria. E mesmo se você morresse, duvido que você ficaria longe da avenida que liga meu coração aos seus olhos. Eu duvido muito.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vida quase normal

Cachorro
Emprego
Contas a pagar

Lúcio um dia, chegava lá

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Lugares mal iluminados



Quando não percebemos e somente neste ponto específico, somos promovidos à função de carrasco, ou herói.

Heróis andam escassos, mas os carrascos vendem-se pelo atacado.

Inconscientes do destino oculto da vida, promovemos chacinas afetivas em cada esquina, cortamos corações e destruímos afetos trocando de roupa.

É o motor.

Anatole assim acreditava. Um tolo, que crê num destino oculto da vida, acredita e professa em fé, uma razão secreta da história e da vida; credita a um plano lógico uma emersão de fatos que só a posteridade lhe parece reconhecer os feitos.

Mas para Vasilli, e Vasilli costumava dizer isso sempre após acender um cigarro ou tomar um gole de cerveja sincera, aquilo tudo era metafísica barata. Era merda metafísica. Cristianismo invertido em ciência. E que ele tinha de recomeçar a pensar.

Apesar de ateu Anatole, és um metafísico incurável! Dormes com deus todas as noites! Teu otimismo, podre otimismo de salão, esconde esta metafísica tão bem aconchegada na tua frase padrão.

E para Vasilli, mero entregador de frases de efeito, que bem escondia um rancor deplorável pelas porcas de barro que guardavam dinheiro, afeto ou idéias, pelos mujahedins do cinismo e também costumava detestar a si mesmo, sempre que lhe recaíam sob os ombros a função de carrasco , viver é fazer a si mesmo na experiência.

Segundo Anatole, Vasilli, era um bêbado empirista, que desfocaria metade do mundo se a outra parte dele afirmasse que quem desfoca a realidade é o alcoólatra. Vasilli aos olhos de Anatole era um mero solipsista à procura de uma âncora afetiva que pudesse dar lastro aos seus sonhos estúpidos.

Os peixes do aquário de Vasilli não nadavam enquanto ele dormia, costumava dizer Anatole.

E ainda assim, apesar das diferenças, os dois se encontravam num boteco de final de semana para beber, conversar e saber em que função os dois se encontravam no momento.

O carrasco é o auto-alienado de seu livre-arbítrio, de sua potência, dizia Vasilli. Quem assume seus atos, quem age não pela metade, mas se entrega inteiro até quando está apartado ou cortado ao meio, este sim, nunca será carrasco. O carrasco é o que finge dizer que há uma força oculta que lhe move, e que seja a história, o inconsciente ou o que quer que seja. O carrasco é um homem de má fé. É um homem que entrega a outrém, mesmo abstrato, deus, psicanálise ou metafísica, os meandros de sua própria vontade.

Anatole, costumava receber essas afirmações de Vasilli, com um misto de irritação e de espanto.

Como um homem vive sem suas forças externas? Como algum ser humano pode embalar todo o mundo e tornar a realidade uma massa compactada que repousa sob seus ombros?

Quem é cristão por final é você Vasilli. És um cristão que troca a cruz pela tuas ações. O mundo repousa sob teus ossos e sinto que tua noção de carrasco está equivocada.

Para Anatole, as coisas ruins, serviam sempre para revelar um futuro bom. E quando não revelavam um futuro bom, apenas eram necessárias para que outras coisas ainda mais ruins não acontecessem. Um acidente de carro, uma chacina, ou um fora de final de semana não eram em si ruins. O bom ou ruim só se revelavam na ação a posteriori. E o fato posterior sempre era bom , pois se reconfortava na unidade da vida e encontrava o pagamento de seus pecados na linearidade do tempo.

Para Anatole, sempre havia um acontecimento futuro, necessáriamente bom e que encontra sua bondade no acontecimento passado, que revelava a necessidade de qualquer tempo presente ruim. Quando ainda nada havia de bom no futuro, ele acendia o cachimbo, olhava para o horizonte e dizia que era o plano secreto se manifestando. Era melhor não perguntarmos o que a lógica ou o espírito do tempo nos quis exatamente dizer.

O ruim dizia Anatole, fora ruim, é verdade, talvez até desprezível, como aquela viagem decepcionante e todo o grande afeto desperdiçado nos restaurantes de estrada, mas se aconteceu assim, aconteceu pois que algo ainda pior estaria destinado ao período presente. O plano secreto fez justiça. Falava e retomava o assunto, repetia muitas frases para se fazer entendido e então, recomeçava a tragar, como um profeta falhado - não sem antes acender o cachimbo com ervas aromáticas sabor primavera.

O carrasco de Anatole era sempre o passado do herói. Todo herói tem um quê de carrasco pretérito - dizia.

Para Vasilli, o carrasco e o herói eram em suma a mesma pessoa ou a mesma coisa. Não havia uma sucessão temporal, mas sim um dispositivo dialógico entre esses dois pólos aparentemente opostos, mas que se complementavam, alternavam-se, como um bailé ou um jogo de espelhos dentro do Theatro Municipal.

Ambos, Vasilli e Anatole digladiavam-se, esgrimavam-se enfrentando na verdade a si mesmos. Não eram filosóficamente inertes, pois costumavam questionar e trazer à tona seus arrependimentos, cada um à sua maneira...

E quando jaziam inertes em paradoxos irresolvíveis, perguntavam-se quais das posições estavam assumindo. Heróis? Ou Carrascos?

Havia uma linha muito tênue, temporal ou empírica, era uma linha minúscula que dividia tais concepções.

No final Anatole e Vasilli costumavam aceitar o fato de que eram todos vítimas e algozes enfileirados em torno das pobres experiências. Cansados, exaustos pela cerveja, pela rotina que impunha-se menos filosófica ou apenas pelo fato de não mais suportarem se digladiar, acabavam assumindo uma pobreza de experiências, estas que descortinam o tempo, as decepções e por fim os lugares mal iluminados.

sábado, 18 de outubro de 2008

Entre uma origem e um desejo

Não é o que parece
Pois se parecesse
Seria coisa do coração
E o coração

O coração só mente

Não é tão ruim
Ruim quanto transparece
Nem tão inédito

Pois se inédito fosse
O coração alquebrado
Diria que é mentira
Pois sim, seria mentira

Se o vidro quebrado
E o grito no escuro
Fizessem um silêncio arrastado

Parte dos muros, dos finais de semana
E dos corações
Assemelhariam-se à coisa qualquer
A algo já meio despedaçado

Estou entre uma origem e um desejo!
Sou um muro de final de semana
Sou tão ruim quanto posso transparecer

Sou um silêncio arrastado
Arrastado e se assemelhando a uma mentira
Não sou o que pareço
Pois o coração

O coração! Só mente!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Aviso ao leitor

Escreve
Escreve como eu
Mas não te compara a mim

Sacrilégio seria
Se tu, em tua infinita
E infinita percepção
De mundo e de ti mesmo
Se comparasse a outrém

Um qualquer medíocre
Que só enxerga como si
O mundo ao seu redor
Por isso
Caro leitor

Nunca
Ouça-me bem
Jamais
Te compara a mim
Ou outro outrém

Ao ser tu
Digno de si mesmo
Deixa-me encantado
E me ensina aprendendo
À ser tu

Nas tuas angústias
Só tuas

Onde cada tortuosidade
E cada autor
Sempre precisarão
De outro outrém
De outro
Não tão próximo

E que
Por se afastarem tanto...
Acabam se encontrando
No recôncavo macio
Da dor

E por isto
Se merecem
E se lêem...
Uns aos outros!

Desesperança impele a ação

Fazer algo diferente é difícil.

Tente recondicionar um rato de laboratório. É como Vasilli sentia-se ao sair, ao entrar, ao sair novamente do metrô, da fila da comida, das noites com muita vodka, médias angústias e pouca imaginação.

Olhava-se no espelho e não se encontrava. Ainda restava esta incógnita, ávida por situações limites, pois sim, pois bem, é fácil prever o comportamento de um ou dois ratos, caminhando sinuosamente por labirintos de silício ou concreto, pois bem...

A dificuldade, e toda dificuldade humana obrigatóriamente caminha junto com uma reconstrução radical de si mesmo, está em prever algo que não tem uma estrutura definida, uma base sólida, um "vir a ser" contido em uma trajetória bem definida, o vetor colégio-faculdade-filhos-família-fim-de-festa.

Não ter uma estrutura definida, ou bem melhor, não ter nenhuma estrutura, requer culhões ou atrevendo-me a heterofobia, um útero que acalenta um ódio constante de si mesmo e que obriga sem condições a exterminar-se todos os dias. Quem recomeça pode usar o ódio como metáfora, apesar de saber que não é ódio o que se sente, mas necessidade imperativa de fragmentar-se. O esporte é catar cacos. Juntá-los. E recomeçar. É o eterno retorno. Como o mito de Sísifo, como só Nietzsche e Camus compreenderam.

Pois a vida, a vida dos desajustados, é um devir, uma passagem, onde o objetivo não é chegar nas estações, não... isto é coisa de gente equilibrada, gente que olha para trás com uma nostalgia cheirando a hambúrger de gordura na chapa, vestindo um emprego classe-média de quatorze horas por dia.

Gente torta gosta de andar na corda bamba, de mover-se entre o circo e o abismo. De renovar uma desesperança nas esquinas da vida. Porque ao contrário do conhecimento enciclopédico do colégio de fim de semana, a desesperança é uma face do problema, a desesperança move, impele Vasilli a ação. A desesperança tem de dar tesão de explodir convenções e laboratórios, senão é covardia.

O absurdo do mundo, do sujeito, da identidade assassinada pela má convenção, obriga e impele ao assassínio das heteronomias.

A reconstrução radical do sujeito, impele o convívio brutal e nem sempre harmônico da esperança e da desesperança, do amargo, do suave, do contraditório, da policausalidade.

Continuo na função de espelho. Olha e detesta-me quem quer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Despido dos censores

Quando tinha uma má idéia, costumava andar sem rumo pelo centro da cidade ou evocando um espírito indômato já derrotado, sentava na janela e observava a lua, as nuvens ou algo que se se assemelhava ao seu céu.

Não obstante acabava cansando; cansava-se por que insistia em inserir um outro inexistente naqueles momentos que eram só e tão particularmente seus.

Inseria esta presença invisível, este olhar oculto que fazia-o sentir-se patéticamente superficial.

E não era deus, pois seu ateísmo não-praticante apesar de disperso, não lhe permitia transformar seu ego humano em pura metafísica.

Vez ou outra, aqueles momentos acabavam assim, vencidos por este persecutor invisível.

Um carrasco que só existia nos meandros da sua mente, mas que concretamente sabia agir como um bom censor: condenava o que outrora era profundo à mera e pobre superficialidade.

Transformava um ato de fé em frivolidade, um exercício de introspecção em coisa rasa, uma dor profunda, em mero capricho, de gente que não tem nem o direito nem os motivos certos para sofrer.

A dor só era mais vítrea e a angústia mais honesta, quando o outro morria sem lutar, quando a presença invisível evitava confronto e o censor jazia morto sob uma lágrima sem motivo aparente, mas completamente honesta.

Era aí, e somente aí, que podia começar a escrever, sonhar ou amar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mal-ajambrado

No meu ímpeto misericordioso, tento transformar minhas angústias em angústias coletivas, apesar de saber que não há nada mais precioso e meu, do que as minhas e só minhas angústias.

Quando exponho minhas entranhas em público, seja num gole de cerveja, num sorriso mal-ajambrado ou num texto escrito em papel de guardanapo de final de semana, eu sei, sim, eu sei que exponho não só minhas vergonhas, mas as vergonhas de outrém.

Quando me lêem, sei que não só me lêem ou me exumam diante do mundo; sei, e tenho a certeza a cada letra cuidadosamente cunhada, que estão a se destrincharem diante da ribalta de silício, estão a se esquartejarem comigo, este autor, torto e pobre autor...

Quando me despedaço e me olho como os de fora verdadeiramente me olham, sei que dou a oportunidade para que façam por conseguinte o mesmo, pois a sombra e o defeito do outro, é sempre do outro, até que o fato seja verdade. Por que nem todo fato é verdade e nem toda verdade é fato até que encontre-a verdadeiramente assim, posta de lado.

A face que oculto de mim é sempre mais clara ao desterro do amigo, ao ódio sem condição, a paixão imigrante e recorrente; e ao afoito ouvinte ou faminto leitor.

Na verdade e devemos falar a verdade sempre que ela se apresentar mais estética, falo como um autor comum, comum como as mais comuns das criaturas: as do ponto de ônibus.

O texto, este pedaço de coisa parida, tem a envergadura de um zé comum e o conteúdo que é do tamanho do infinito ou da mediocridade de quem me lê.

Sou um caco de espelho mal-ajambrado, só reflito o quê e quem me olha.


sábado, 27 de setembro de 2008

Anninka nas estações

A vida de Anninka não tinha mais sentido.

Ela achou ingênuamente que o sentido se revelaria diante do caos de sua rotina. Diante do ônibus, do amor perdido, da paixonite de final de semana, do emprego que nunca chegava...

Mas o sentido não desabrochou com a primavera, e ela virava cada vez mais adubo.

Quando o cinza tomou conta do céu, os viadutos e os remédios proibidos pelo terapeuta ficaram cada vez mais atraentes. E Anninka, pensou em dar um sentido para a vida na morte.

Joana e Krist ficaram preocupados, pois gente fria em país quente é garantia de resfriado ou de suicídio.

Os pulsos de Anninka ganharam uma pulseira verde-marrom e o sentido mudou em cada estação.

O mundo continuou e o adubo da primavera foi comprado na banquinha de flores mesmo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Comentários fortuitos

Ultimamente ando odiando boa parte do que escrevo.

Este texto pode conter cenas não recomendadas a adultos

Coca sem gelo. E ele não bebe refrigerante.

Nem gastrite, nem tensão, apenas luxúria.

O tédio tomou conta do cômodo. Adorava quando isto lhe acontecia. Pedras de gelo tintilavam no copo, os maços de cigarro se esvaziavam e ele costumava fazer o que sempre fazia quando o tédio lhe consumia: chamava o absurdo para uma conversa.

Pior do que a dor era a monotonia sem causa. A entediante rotina que lhe incomodava sem realmente significar necessáriamente um pedaço de coisa relevante.

E cada desgraçado que cuspa na sua desgraça!!!

A cerveja fazia mais sentido do que o livro, do que a condução, do que o metrô lotado, do que as frases jargões de quem acha que sabe mais de você do que você mesmo.

O cotidiano era uma pura perda de tempo.

Olhe para a raiva nos meus dentes, e falava batendo na cara com força, falava estapeando-se, em frente ao espelho enquanto algum filho da puta sincero, hipócrita, mas sincero em sua mediocridade, podia fugir dos abismos, fugir o tempo que lhe fosse preciso.

Era o preço da ignorância. O ignorante foge dos abismos. O idiota os procura.

Olhe para mim seu filho da puta. Olhe nos meus olhos e diga com a certeza entre seus culhões que você é a escolha perfeita de deus. Besteira! Merda tendenciosa...

E sabia, mesmo baixando o volume de voz, enquanto a respiração arfava, e a terceira ou quarta sinfonia emoldurava o mais-do-mesmo.... que enquanto os cacos do espelho caíam no chão de azulejo daquele banheiro medíocre, daquele banheiro imundo, imundo como a alma do mundo hipócrita defendido nas sextas-feiras felizes, um novo mundo, um mundo renascido da sujeira criava um novo ser humano.

Um desestruturado.

Arfava e sentia os pulmões congelarem. E sempre neste momento, os hipócritas, os demagogos, os ignorantes, os cafetões emocionais e as putas afetivas de final de semana se reuníam com os dedos apontados.

Ninguém disse que seria fácil desagregar-se de si mesmo no meio do trajeto da vida...

Nenhum filho da puta explicou que o preço a se pagar seria este: cacos de espelho no chão, respiração pesada, pulmões congelados...

Nenhum imbecil demonstrou que esse plano não daria certo. Que esta merda iria fundir no meio do caminho! Porque não compraram outro motor?!

Ninguém disse que a cerveja esquentaria, que o mundo viraria uma repetição, que ele teria de escrever tudo antes que alguém o negasse.

Ele não se arrependia, mas podiam ter enviado o manual de instruções junto com a coca-cola sem gelo. Pelo menos não teria gastrite, pelo menos não escutaria som de Manchester, pelo menos não perderia o tempo explicando-se a infelizes que o sentido era uma criação humana.

Comprar um sentido para vida era muito fácil.

Mas este filho da puta desequilibrado não comprava sentidos na vida. Não tinha obrigações com os fúteis, com os medíocres, com os recalcados e com nenhuma pseudo-mitologia de final de semana.

Ninguém explicou que que de Getúlio a Castelo havia apenas meia dúzia de lápides. Ninguém disse que até a raiva passa. Até a música acaba. Até a adrenalina se bebe com aquela coca-cola aguada.

E era só um dia de semana ruim, que ele transformou em algo melodramático. Tedioso e melodramático.

Ofensivo, ruim.

Coisa de gente desequilibrada.

Coisa de gente que adora comer absurdos. E o absurdo de vez em quando aparece, algumas vezes sorridente, magro de sentido e fútil.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

As coisas que se desmontam

Normalmente olho para textos antigos, folhas de caderno soltas, envelopes abertos, para me inspirar.

Mas é tudo merda. Merda.

Quando olho para aquela parte boa, aquela parte singela e ingênua de mim que costumava acenar no domingo de sol; eu paro e digo: seja realmente rapaz, seja realmente o que você é.

Este rapaz que tenta se inspirar em folhas, e cadernos soltos. Seja o que você é.

Uma repetição. Talvez otimista.

E quando o mundo cai, e preste bem atenção, o mundo cai sempre nos finais de semana errados e nas tardes em que ninguém além de você percebe, os significados e os significantes costumam fugir pela janela do ônibus.

Com sorte há uma anomalia, um desvio padrão que obriga a dizer um ou dois palavrões.

E tudo volta.

Mas há um momento em particular, um momento bem catastrófico, apesar de interessante e comum, onde as regras do jogo parecem não ter mais sentido. Na verdade, o próprio sentido parece não explicar-se; o sentido não mais existe e o absurdo reina.

Reina dentro de você. Apenas você.

A organização das casas, o formato dos portões, a velocidade e forma dos carros, as pessoas indo de um lado ao outro, dia após dia; os botões, os livros de pós-estruturalismo, os livros que negam o pós-estruturalismo, a gramática, alguém que resolve não pensar nisso tudo, o planeta terra, as geleiras glaciais, o deus cristão, a organização da poesia, pensar sobre o caos. E você.

Café da manhã.

Não. Não há sentido. O absurdo, quando não vem enlatado em situações limite, implica serendipidade, implica desapego.

Apesar do quê. A merda do desapego é o contrário do que pretendo aqui. Pronto, falei tudo.

Não se deve falar assim, tão explícitamente explícito como um aparelho excretor em funcionamento, mas a verdade é que parte de mim não gostaria de transformar um texto tão bom num requiém gramatical. Mas mesmo assim você já transformou minha vontade na sua vontade. Teu infinito me consumiu e sim, você está certo, não há espaço para infinitos coexistirem.

O texto acaba por aqui: mas ele prossegue.

Começando do princípio, e voltando ao normal, o que eu queria dizer é que tem dias que a gente não é humano. E você sabe disso melhor do que eu. E eu não preciso me esforçar para explicar algo que o absurdo lhe contempla. Não olhe para cá, olhe para dentro de si numa noite vazia, numa sequência de dias ruins, mas isto tudo é pouco para um dia em que você resolve tomar uma boa dose de absurdo e esvaziar as garrafas de abscinto de sentido. A noite normal que nem as anfetaminas lhe dirão algo. Pois o algo já se perdeu falido no origami reproduzido sequencialmente pela eternidade.

Tem dias que a gente enlouquece e ainda produz cadernos soltos, envelopes vazios, contos ruins.

Há dias que o absurdo nos engole.

Há dias em que coisas absurdas acontecem.

E acabam. Acabam assim, como começaram, dentro de você.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Minhas Dores / Tinhas Dores

Minhas Dores

Minha dor não cabe numa terapia
Se coubesse, não seria minha dor

Mas sim, uma dor alheia
E por ser alheia...
Não seria mais minha dor
Mais uma dor que seria outra

Por conseguinte
Uma dor sem importância
Uma dor frívola como um céu arrebatado!

Como todas as outras dores
E portanto mínima
Aos olhos de minhas dores
Ou de elucubrações de final de semana

Que apesar de não terem olhos
Olhos no céu!

Seriam fatídicamente!
Como uma dor de outono!

Tinhas Dores

Minha dor não cabe numa merda de terapia
Se coubesse, não seria uma filha da puta-dor

Mas sim, uma porra de dor alheia
E por ser caralho, alheio...
Não seria mais minha buceta de dor
Mais uma dor que puta que pariu, seria outra

Por conseguinte
Uma dor sem importância
Uma dor frívola como um cú arreganhado!

Como todas as outras dores
E portanto mínima
Aos olhos de minhas dores
Ou de menstruações de final de semana

Que apesar de não terem olhos
Olhos no cú!

Seria fatídicamente!
Uma dor de corno!!!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Tardes Vazias

A fase da introspeção não é indiferença, talvez nem tristeza.

Não é nada em particular, é apenas atrito.

Esperando desastres ou milagres. Esperando algo que pontue o cotidiano.

O tempo precisa ser marcado.

Falta algo e eu sei.

Os fios de cabelo envelhecem. E daqui a dois sábados planejei um porre, para mudar o cotidiano.

O álcool não é mais divertido, quando não se tem a segurança do lar.

O atrito é silencioso, pessoal, intransferível.

Ocupar alguns espaços sempre é bom, quando se tem vazio demais para oferecer. Um vazio voraz que sempre clama por mais espaço, por mais milagres, enquanto a matéria envelhece, o corpo pensa.

Exigências nunca me fizeram mudar o rumo. Não trocaria o atrito por uma vida sem vazios.

Os vazios me enchem; intransferíveis, pessoais, pontuam cotidianos, oferecem algo que eu nunca tenho mas sempre busco.

É um horizonte vermelho: e já que eu escolhi o vazio que me escolheu, posso me dar o direito de me mostrar assim: introspectivo.

Nem indiferente, nem coerente com as expectativas do outrém. Nem quente, nem frio, apenas engolido, engolido pelo vazio.


domingo, 14 de setembro de 2008

Poesias secretas

Você sorri com a morte nos dentes
E ainda assim resolve enganar
Todos eles que distribuem saliva na mesa de centro

Eu não bebi a última cerveja
Mas você me encontrou com gemido nos olhos
Era parte do tecido
Um tecido ruim

Você pagava o pecado na mesa
E eu nunca, guardei nada para ninguém

Eu te amava
Te amava

Como um sorriso no fundo
Ou uma porca pintada de verde e vermelho

Eu te amei com gemido na mesa
Eu era erótico
Minha saliva nunca guardei para ninguém

Eu te amava
E os que distribuíam sorrisos na mesa
Ou no fundo da mesa...

Não guardavam o pecado
O pecado que eu vomitava
Vomitava, na mesa, entre os dentes

sábado, 13 de setembro de 2008

Uma corrente

Vai vir um conto novo por aí...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Efêmero

Tudo passa, tudo vai. Algo fica, algo sai.

Era meia noite e eu tinha meu cachimbo. Tinha fumo, tinha raiva, iria fumar impaciência. A cicatriz no braço não fechava, talvez culpa da cannabis.

Há coisas que não merecem ser cicatrizadas e há coisas que não cicatrizam apesar de não merecerem. E pouca gente merece. Mas quem merece normalmente sabe deixar marcas.

E eu encontrava os fios de cabelo dela por toda a casa. Um dia eles iriam acabar.

Faltava limpeza naquele cômodo.

O som não funcionava e a estupidez estava no congelador aguardando a estrela certa. O sinal do óbvio estalava por todo o quarto.

É um quarto de esquina, de esgrima consigo mesmo, havia um sofá de dois lugares vazio, uma arena de tolos, conformada por sobre um circo particular. Confortável e gordo sofá, um gordo afável, que não usa em hipótese alguma os broches do "quer-perder-peso-pergunte-me-como"; é um sofá de bem com a vida, de bem com o quarto. Um sofá extremamente gordo.

Gordo de ausência.

A estante de livros, óbvia. Óbvia pois tinha livros; se não fosse óbvia guardaria sapatos e a mesa de centro marcada de fumo, de guimba, cheia de papel, evidentemente a que mais trabalhava naquele quarto infame.

O eterno é a mera soma dos efêmeros. Quem pensa o contrário ilude-se. Quem acha possuir o eterno ou o almeja, engana-se, pois apenas alcança efêmeros parcelados. O eterno nunca foi eterno. O eterno é esquartejado pelas pontuações do destino.

Papo de perdedor é claro. Mas quem nunca perdeu, quem segue os modelinhos nascei, crescei, multiplicai-vos, multiplica certezas e embota juízos.

O eterno é a ignorância. O eterno é não perceber as pontuações. E para que servem as pontuações? E quem realmente deseja de todo o espírito e causa, reconhecer e enxergar as pontuações? Quem seria idiota a tal ponto?

A curiosidade condena o indivíduo. Condena; e ninguém disse o contrário; se dissessem, o sofá, a cama de casal e a mesinha de centro, acusariam o erro.

Móveis que são parte do eterno... Mas lembremos, lembremos sem não mais tristeza mas com uma dose de esperança na constatação mórbida do desapego, que o eterno é o efêmero parcelado. Logo os móveis efêmeros, a mesinha, o sofá, a estante se degradam, e é o princípio entrópico. Uma merda comparado ao THC, a hemodiálise ou ao videogame de final de semana.

Mas pense bem. Degradam-se dia após dia e você não vê. O eterno embotou sua visão.

Está tudo morrendo.

Inclusive os fios de cabelo dela. A cannabis, a impaciência. E tem coisas que precisam morrer.

O eterno é efêmero unido à força. E nada unido a força realmente funciona. É só ficção. É só ilusão. É só esqueminha nascei-crescei-multiplicai-vos.

E você, nem o sofá, nem a mesinha de centro e muito menos a estante querem ser parte disto certo?

Portanto sê como eu, efêmero, e me nega.








terça-feira, 9 de setembro de 2008

Plástico Bolha

Hoje tive uma ótima notícia que alegrou o fim do meu dia.

Há um jornal chamado "Plástico Bolha"; bem produzido, por estudantes de letras e com ótimo conteúdo e uma tiragem respeitável(10.000 exemplares). Contos e poemas, crônicas e editoriais bem interessantes saem regularmente no jornal...

Enviei um conto para os caras, achei que eles não iriam publicar... até por que há uma comissão editorial que define o que entra ou não... há uma votação... mas publicaram!

Um conto chamado curriculum vitae, se eu achar aqui eu linko.

Abraços.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Parábolas

Eu me contento com pouco.

Mas quando vejo as linhas que sobem ao infinito, sempre me pergunto por que diabos fui nascer parábola.

Início, meio e fim.

Sou uma fórmula de redação de vestibular; mas pelo menos, sei de que costura foram fiadas as teias da minha vida.

Tudo o que começa sempre acaba, dizem os filósofos de esquina.

E eu tenho a incrível mania de recomeçar, de recomeçar todos os dias.

Mas eu nem comecei a sentir o gosto, e já vejo e percebo o horizonte que se acaba. Acaba não por mim, pois se o mundo dependesse da minha vontade, algumas montanhas já teriam sido movidas e muitos palácios ruiriam e decerto minha solidão se converteria em uma boa e oportuna companhia.

Viva o momento, intensamente o momento dizem outros. Mas de sensação efêmera o mundo já está saturado, eu quero um pouco de permanência para afastar a presente impermanência da minha vida.

Quero uma história com um fio condutor. Eu quero um momento de felicidades sem dias contados para terminar.

Eu quero permanência... e um pouco de sorte, e isto não é pedir muito. E eu nunca peço muito do mundo.

Acabei desconfiando, ou exigindo, talvez para me enganar do meu destino jocoso que o permanente é o efêmero fossilizado, mortificado. E que a impermanência que me cerca pode ser saudável. Talvez.

Adoro me enganar.

E eu recomeço... Recomeço e me ponho a caminhar, impermanente como uma cena de metrô, todos os dias.