quinta-feira, 8 de novembro de 2007

São setores Urbanos

Vasilli precisava parar. Respirar. Sentir o oxigênio invadir seus pulmões com força. Precisava de anestésicos naturais, de ansiolíticos homeopáticos, ao invés de álcool barato, mas ainda não se "iluminara" suficientemente.

Cruzara a Gomes Freire com a esquina da Mem de Sá, desviando-se de calçadas ruidosas e pedestres silenciosos que contornavam os carros estacionados, contornavam a si mesmos já vencidos pelo fazer-se pragmático e prático dos atores urbanos.

"Velhos problemas, velhas soluções", comentou consigo mesmo em tom fatalista.

O nome do bar era "Casa da Cachaça", históricamente falando tinha lá sua importância, tal como a Rua Tonelleros; e qualquer merda de rua possue importância se algum burocrata do MEC ou da prefeitura entram em conluio, assim como a rua Carlos Lacerda, aquele filho da puta de extrema direita, de extrema direita sim, que Vasilli era obrigado a passar próximo às terças e quintas.

O mais importante no entanto, era realmente poder sentar nas fronteiras da Lapa, na parte externa ainda sem glamour, ainda não revitalizada(e que bom) sem ser importunado por meia dúzia de conhecidos, o que particularmente costumava detestar quando desejava a paz. A ansiedade lhe corroía, e isso pareceu atrair rápidamente o garçom; e seja como for que realmente tenha acontecido, o fato importante é que pediu uma cachaça de maçã: "pra aquietar o espírito" brincou em um tom simpático e jocoso que poderia ter sido proferido por alguém, no mesmo bar, há sessenta anos atrás.

Era uma frase senso comum, corrigia-se segundo este racionalismo chato que o atacava vez ou outra, que transformava padrões em padrões e tirava o significado oculto das coincidências, um milhão e setecentas mil coincidências ocorridas em uma semana sem explicações, transformadas em simples acaso, em simples "fora das probabilidades", "exceções". Ciência e estatística de merda.

A mesma que insistia em negar o mistério do desconhecido em prol de uma lógica moribunda, acabava com o abismo e trazia-lhe uma colher, um relógio ou uma aparelho de endoscopia importado da Coréia do Sul.

A ciência era um burro com uma cenoura amarrada, que jamais consegue alcançar-se! Eis a ciência contemporânea. Perdida em vazios que ela mesmo criou. Perdida em sua própria ansiedade.

E nem me fale em ansiedade. Vasilli contava seus trocados e esboçava profundidade em divagações, cigarros e sorrisos; todos óbviamente de duvidosa qualidade.

- A ansiedade é doença da modernidade. É da modernidade, esta merda de modernidade!

- Filha legítima!

Gritava, mas ninguém escutava, fantasmas e murmúrios desfilavam por entre os goles de cerveja.

A música lhe irritava, era uma mistura mal-sucedida de uma tentativa abrasileirada de um pop inglês de baixa qualidade, que o levou a tragar todo o resto da aguardente com vigor de um bêbado semi-profissional. Meu equipamento mental está totalmente viciado - assumia.

Somos viciados. Estamos condicionados como ratos, vagando por cidades sujas, respirando merda, sim respirando merda flutuante, exalada por fábricas imundas, símbolos fálicos flamejantes com rodas e outras porras com néon. Plástico, neon, essas merdas, que constróem templos do dinheiro, do consumo, reunindo cada vez mais ratos, que se aglutinam em torno de luzes, como aquelas vespas estúpidas que rodeiam luzes em dias de verão.

Templos do dinheiro, templos de deuses que vendem cocô misturado com amianto, seguidores mentecaptos, ovelhas e pastores, estética, estética, estética. Gritada, vociferada, por sob os escombros da roda, roda suja de sangue, engrenagens de um vazio: um vazio dinheiro.

Há uma ânsia por destruir, por construir.

A ânsia destruidora é uma ânsia criadora. Com explosivos o suficiente eu explodiria um prédio na avenida central, um templo do consumo durante a noite e evitar-ia milhares de moscas rodearem edifícios semelhantes por no mínimo cinquenta dias com otimismo, um tempo necessário para a mídia construir e instituir novos medos, vender, e enlatar sessenta e cinco ou sessenta e oito produtos pús-modernos que não precisamos. Riu da última divagação: era raivoso demais e ele nunca viu nada mais explosivo do que óleo diesel ou gás de cozinha, talvez até fogos de artifício, mas lhe sobrava ímpeto e a volúpia guardada pelos outréns.

Mais uma garçom!

Lembrara e observava com desdém, alguns atores baratos, criaturas suburbanas que vagueavam fantasiados de revoltados demodé. Não há nem mais romantismo nessa cultura urbana! A cultura urbana fracassou!, está morta. Enterrou-se sozinha. E estamos lutando para dividir seus espólios. O funeral no entanto, não acabou!

A rebeldia não está na imagem, na imagem só há ficção. Com polietileno, metal ou gel de cabelo eu conseguiria atrair todo o ódio de uma festa de primeira comunhão no bairro de Laranjeiras.

Escoteiros se ofendem até com caretas.

Sem as células, sem a porra das células, o tecido já estaria morto. Sem a merda da organização vamos vaguear como bostas. Riu de si mesmo, por que tudo fora do contexto poderia parecer realmente pior do que era, foi por issso que acendeu o segundo cigarro e pediu uma cachaça sabor-banana para fechar seu apetite de vez e torcer para que o sono viesse no princípio do terceiro trago. O garçom evidentemente não gostava, e ele deixava claro quando demorava, ou ignorava os sinais, os gritos, os sussurros inertes, porque cachaça segundo a episteme da gloriosa casa-receptora-de-droga-legalizada-pelo-governo é a que é feita de cana, a de açúcar, a de cinquenta escravos fugidos queimando a casa, o senhor do e o próprio engenho em 1793, antes das Antilhas fuderem a porra toda. Mas ainda restava o Haiti que era um exemplo corajoso; não racionalizaria novamente, se o garçom por princípios epistemológicos obrigasse-o a racionalizar alguma coisa, apenas diria que a cana possui um passado vergonhoso, mas no fundo no fundo o que estava na ponta dos culhões era dizer que a cachaça de maçã era mais gostosa.

O sono não veio. Algumas coisas temos de provocar, não é mesmo? Pensou, antes de observar o terceiro ou quarto grupo de revoltados demodé desfilar por entre as esguias calçadas(seguida de um brinde e um olhar carinhoso para a demodé da terceira fila apesar de Vasilli não estar vestindo a fantasia adequada para o intento afetivo).

Algumas das fantasias usavam óculos quadrados, vestiam roupas encomendadas, americanas, européias, rebeldia vestida; desfilavam-se, costuravam-se cheios de couraças.

Devem cagar Almodóvar no café da manhã. Riu solitáriamente da própria piada, o garçom entenderia, pois era engraçado, ele e a piada. Começou a enumerar o que deveria fazer na próxima semana: estava cheia, cheia de compromissos, vamos mudar o mundo!, dizia em silêncio, vamos, vamos mudá-lo, vamos, vamos correr, e aí ofegava, e parecia um miliciano da guerra civil espanhola, deslocado do tempo e do espaço, e aí bebia a cerveja com mais vigor, era aí, e exatamente aí que uma descarga de adrenalina percorria os brônquios que dilatavam, e aí, lembrava-se de Kafka, Bukowski, Cortázar, Neruda, Pessoa; e a cerveja vinha com mais força e aí, especificamente aí, os sobrenomes de algumas aftas emocionais apareciam por tabela.

Enforquem metade dos publicitários e já teremos um bom começo. Pensou baixo, por que atacar pessoas não era seu intento, gostava de esmagar posições, falemos baixinho - mas ninguém resiste a uma misantropia de vez em quando, é algo de tão bom tom em qualquer situação, desde que se consiga parecer irônico, mesmo com uma péssima má fama.

Odiava os misantropos que levavam sua misantropia realmente a sério, pois eram os primeiros a pedirem abraços em dinâmicas de grupo de psicoterapia; era tão óbvio quanto os ratos se aproximando das luzes de neon, dos óculos quadrados, das calçadas esguias e de todo aquele padrão e aquela fantasia criada apenas para incentivar perfis de consumo e torná-los "especiais".

"Para incentivar perfis de consumo." Falou alto, repetiu mentalmente, bebeu o último gole, amassou o cigarro na mesa de ferro, deixou alguns trocados na mesa e partiu.

Espreguiçou-se mentalmente: "Perfis de consumo... e é apenas isto."

Partiu rumo a um desconhecido, um desconhecido que se ele não apetecia, tornava-se pela força dos fatos insuportávelmente óbvio.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Temas sobre a insônia: Contatos com o Interior

Hoje passei no Largo do Machado. Precisava de 40 minutos de completo ócio, mas é mais fácil preencher espaços vazios com movimento e caoticidade na maior parte das vezes do que com reflexão. A própria geografia urbana não propicia este tipo de tomada de decisão. Resolvi comprar livros, que nada mais são do que uma soma de árvores mortas se formos pensar por um outro ângulo, o que inevitávelmente nos conduz à discussão de que não existe a separação vida x morte. Não chamaríamos a vida de vida e a morte de morte se ambas não fossem no fundo, uma coisa só.

Pois bem, voltando ao assunto dos livros, encontrei uma bela musa de cabelos cor ferrugem, era quase uma ruiva, se talvez levássemos em conta que só descobre-se uma ruiva quando se geralmente está a ponto de perdê-la. É um paradoxo interessante.

Bem, na verdade não podemos chamá-la de quase ruiva, por que era uma mera projeção. O fato é que fui comer um quibe de legumes com muito mais animação que o habitual. O Largo do Machado é cheio de vida e situações emocionalmente carregadas. Assistir uma apresentação de folclore por exemplo faz parte desta situação. Normalmente em época de reis, ou algo assim, nunca fui bom em datas. Coisa que não ocorreu hoje foi algum folclore; teria sido muito mais recompensador, do que comer quibes árabes.

Marco minhas datas com lembranças marcantes. Catarses individuais, situações limite e cartas mal lapidadas, voilá, meu calendário é algo entre isso tudo. Há um quê de passagem no Largo do Machado, algo que é o caminho mas torna-se o fim. É o mesmo com Madureira, porém indubitávelmente com psico-tensões geográficas extremamente particulares.

Há praças do Largo do Machado que ainda são verdadeiramente praças, apesar de dominadas por tipos conservadores e prédios e condomínios que os induzem a esta postura.

Quando a falsa ruiva se foi, eu tive vontade de chorar. Não era um choro própriamente dito. Talvez um insight, uma recordação malquista ou um neurônio e uma sinapse mal-sucedida, o fato é que foi algo tão curto, que não desencadeou nada, particularmente e absolutamente nada.

O que não é uma tentativa pessoal de negação do sentimento. Lembranças surgem é claro. O fato é que como um sentimento pode surgir em milisegundos a ponto de desaparecer em seguida? O que para mim, "ficou na metade", é parte de um gerador, de um verdadeiro gerador de sentimentos novíssimos, e isso é bom.

O fato em si é; transbordar quando assim lhe aprouver. Determinados ambientes podem trazer isto a tona mediante uma relação causal e casual de esforço cognitivo. Isto passa por estar sintonizado consigo mesmo a partir de relações que podem proporcionar este aumento de contato interior. Um contato com o gerador, um gerador de emoções completamente novas.

Talvez um sonho iniciático sufi lhe seja suficiente.

É preciso ter um pó de estrelas dentro de si. É preciso saber que não há sentimento ruim. A tristeza não é ruim. A felicidade não é algo bom. A tristeza também não é boa e muito menos a felicidade seria algo ruim.

Mas elas estão lá. E isso dever ser intensamente aproveitado(e apropriado).

Quando isso for compreendido, o contato estará estabelecido. E será possível viajar por entre o self.

Não faço idéia(racional) do que escrevi exatamente, mas há uma luz que deseja coexistir com a sombra que começa a fazer total sentido para mim(como eu não faço a mínima idéia, aliás, o que é particularmente e cada vez mais interessante).

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Poucas palavras



Ausências.

Apenas,

Ausências.

Vazios.

Espaços cheios

Completos de;

Vazios, vazios e ausências.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Top 5 - Álbuns Introspectivos

Um top 5 é difícil, convenhamos, há inúmeros cd's introspectivos que eu escolheria, mas estes 5 são definitivamente os que entrariam na lista a partir de questões estritamente particulares. Não sei por que a idéia de me fazer um top 5 me ocorreu(sempre o faço, peguei este maldito cacoete após o filme Alta Fidelidade, eu confesso, mas nunca públicamente).

Confesso que o sr. Buckley entrou a partir de um pega pra capar feio com o Animals do Pink Floyd.

1 - Radiohead - Amnesiac
2 - Cat Power - Dear Sir
3 - Sonic Youth - Washing Machine
4 - Nirvana - Unplugged in New York
5 - Jeff Buckley - Grace

o 5º é honroso ao sr. Buckley, talvez pela frequência com que eu o escute e pelos seus angustiantes agudos, sua biografia confusa, fugaz e suas letras clichês que tanto me agradam. o 4º lugar é merecido, apesar de batido, este cd ainda me traz algumas lembranças incômodas, que cimentaram toda a metade dos anos 90. É um marco nos cds introspectivos, foi aí que tudo começou. Em 3º lugar temos o poderoso Sonic Youth, apesar deste cd ser normalmente desmerecido pelos fãs em geral do S. Youth, o acho de um brilhantismo exasperado, uma fase do Sonic Youth que provávelmente não se repetirá jamais, o que já é digno de figurar entre os três primeiros. E aquela voz sussurrante da Kim está completamente arrasadora. As guitarras sintetizadas, enfim, perfeição! Escolher algum disco da Cat Power também não foi tarefa fácil, o que lhe confere sem esforços o segundo lugar, numa fase em que a mulher exalava tristeza e melancolia, o Dear Sir será(anotem isto) uma exceção dentro dos próximos trabalhos de uma Chan Marshall mais soul e digamos feliz(o que fez questão de afirmar no Tim Festival deste ano). Cds angustiantes e profundos como o Dear Sir talvez tornem-se mais raridade...

E the winner is...

Inevitávelmente algum cd do Radiohead entraria, eu pensaria em mais dois nesta lista; Kid A e Ok Computer, contudo determinei a regra de 1 cd por banda, para tornarem as coisas mais justas. Talvez me perguntem por que não coloquei a perfeição dos anos 90, o aclamado Ok Computer. Sinceramente, sempre gostei muito de material outside dessas bandas. No caso do Radiohead isto é virtualmente impossível, mas é fácil eleger o Amnesiac como a coisa mais angustiante e introspectiva que já ouvi na vida pelas condições(O novo In Rainbows ainda não foi suficientemente digerido para isso).

Experimente morrer de frio numa aclamada viagem em homenagem aos aninhos do movimento punk(isto há seis anos atrás), dormir no chão de um ateliê sujo, estar completamente imbuído do espírito hardcore do evento e ainda assim escutar Amnesiac pela primeira vez e simplesmente pirar. Foi isso que me aconteceu(Há dois momentos em minha vida, A. A e D.A, Antes de Amnesiac e depois de Amnesiac). E por esses e outros motivos, AMNESIAC ganha indiscutívelmente seu posto no top 5. E você? Qual é o seu top 5?

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Dos primeiros ou últimos encontros

Não sentia-se particularmente triste, contudo não era euforia, muito menos excitação. Apagou as luzes e resolveu caminhar um pouco, arejaria um pouco suas idéias. Era difícil explicar, não era dor, nem sua antítese. Muito menos apatia, por que não lhe consumia de maneira tão efetiva a ponto de proporcionar um comentário mais audacioso.

O apartamento, estava quente, um pouco de vento lhe faria bem, faria realmente bem. Quem sabe uma cerveja. Talvez.

Passou num pequeno mercado, comprou cervejas, cigarros e caminhou até a ponte. Uma ponte quebrada, onde conseguia apreciar bem um pouco da lua, um pouco daquela brisa do mar. O cheiro de cidade pequena era cada vez mais nítido.

Sentou num banco simpático, próximo ao centro da praça, podia assistir a lua cada vez mais nítidamente. Depois do terceiro gole pensou consigo que sim, a ruiva poderia aparecer.

Mas isto são projeções. Ruivas não aparecem dessa maneira, clichê. O máximo que posso fazer é olhar a lua e me satisfazer com elucubrações. (e racionalizar um conto é matá-lo totalmente pensou)

Recuso. Recuso sim, elas podem aparecer. Este é o meu conto, é minha vida. Talvez elas apareçam. Há um pouco de Vasili em todos nós pensou. Há uma Laura escondida em cada esquina, clamando por revelação. Mas nunca, eu disse nunca, definitivamente nunca, retirem os mistérios da vida. Matem a ciência, matem a psicanálise, matem o que for preciso(exceto o ser humano), mas permitam que o mistério exista, sem o mistério não haveriam cores. E cores são essenciais. Papéis laminados são invenções estúpidas, refletiu antes de abrir a próxima cerveja, cartesianamente falando.

Cortaram-lhe o pensamento de maneira súbita, estrondosa, um som metálico de pedais o que revelava sua total desatenção para com grande parte da realidade, com na verdade, uma bicicleta branca. Era a ruiva pedalando.

Usava um short curto que lhe caía bem, uma camisa larga demais, não estava com sutiã, e dentro da cestinha da bicicleta carregava morangos. Inicialmente tratou de pensar que era uma cena demasiadamente estúpida, mas a ruiva tratou de contornar toda a estupidez dos sentidos com seus trejeitos que encantavam metade do universo(aliás pensou o quão contraditório podia ser algo uniforme e múltiplo ao mesmo tempo... uni - verso). Ou seria um único verso? Além disso o sorriso da ruiva era capaz de tornar a cena mais ridícula possível na obra de arte mais interessante, na memória mais viva, e quem não vive de memórias... Memórias são fundamentais.

No momento em que a ruiva ainda fazia sinais com as mãos indicando cansaço e inclinava metade do corpo com a respiração ofegante, uma das lâmpadas de um dos postes da praça apagou e ele achou de certa forma(odiava esta palavra, de certa forma, lembrava fôrma e ele escreveria mentalmente errado para lembrar que algo que forma não pode ser bom de nenhuma forma) que isto foi um elemento síncrono, ou seja, resumidamente de relevância para ambos; mais para ele que pensava, do que para ela que pedalava apressada naquele momento, se ajeitando desajeitadamente com os morangos e a bicicleta cambaleante em uma das mãos.

Lutava para fazer com que o descanso da bicicleta mantivesse a bicicleta de pé, mas em vão, necessitou que Vasilli ajeitasse a bicicleta antes de iniciar o seguinte passo, não tão sincrônico e não tão perfeito como toda projeção deveria ser.

Com energia e vivacidade, a Ruiva mexe os peões:

- Oi.

- Oi.

- Gostou da minha bicicleta?

- Sim, quer dizer(mexeu a cabeça em tom de ironia), está de acordo com a situação(sorriu para deixar a cena mais agradável).

- Bobo. Eu trouxe morangos.

-Eu trouxe cervejas, apontou para as latas vazias.

- Está bem, me dá uma latinha, apontou a ruiva, antes de escorar-se sentada com todo seu típico descompromisso sob o banco da praça.

Era um medroso. Bebeu aceleradamente para evitar maiores diálogos. A ruiva tinha esta capacidade, de lhe manter constantemente num jogo de xadrez, onde deveria, mesmo que inconscientemente pensar e repensar seus diálogos, saber que palavra usar, não desagradá-la, mostrar se inteligente, suave, tolerante, deus, sabia que tudo isto não funcionava! Teria de ser natural, mas como ser, e fingir ser natural, com alguém que lhe tirava do padrão. E se o padrão é o natural, jamais conseguiria manter-se dentro do padrão.

Tinha medo, talvez quando a ruiva descobrisse quem realmente era, olhasse para seu âmago tudo ruiria. Mas tudo já estava ruindo. Era fácil falar de descompromisso e de liberdades amorosas quando a ruiva era um modelo para todos os envolvimentos futuros. Encontre uma jóia rara e saberá o que estou dizendo, pensou. Jóias raras são únicas. Padrões, cópias, pessoas iguais... Já conhecia muitas. Era fácil ser livre com os padrões. Difícil era abrir exceções às exceções, difícil era abrir mão do inédito. Ninguém quer abrir mão do inédito. O inédito é o inesperado e o inesperado faz parte do segredo, do mistério, que são sustentáculos básicos da vida.

Voltou ao assunto. Quando a ruiva, já virava a latinha de cerveja de maneira ruidosa e irresponsável, como ele realmente adorava, e era realmente adorável. As gotas fujonas, escorriam por seus lábios, enquanto ele lembrava que há duas semanas atrás, escutou sua música favorita, e não pode deixar de lembrar da ruiva. E lembrou que talvez não estaria ali caso ela tivesse sumido, digo aparecido(é da capacidade do conto e dos contistas inverter quaisquer tipo de situações, a palavra é pois uma serpente...).

A ruiva bebeu. Ele também. Abraçaram-se, ela acariciou seu pescoço e ele passou a mão lentamente sobre seu cabelo, beijaram-se sem importar-se muito com a praça, com a bicicleta, ou com as cervejas jogadas. Eram apenas motivos, adereços muito bem colocados pelos próprios.

Pensou outra vez o quão amador era nesta arte. Dos mais principiantes. Ainda estava se descobrindo, descobrindo seu papel no jogo.

Largaram os morangos de lado, sorriám, enquanto estes caíam, a bicicleta e os beijos também... Os abraços fortes, os transeuntes passavam como objetos próprios de um conto que ambos criavam e toda aquela imperfeição parecia preencher-se de sentido. Resolveram passear com a bicicleta, com os morangos e com os sorrisos estampados na alma, a praça era pequena demais para um amor que ocupava o centro de suas emoções, o centro da cidade, o centro de suas vidas. Era um universo que construíam, que apesar de já existente consideravam-se em seu tabuleiro, com suas próprias regras, no centro.

Vasilli lamentou apenas ter acordado e revelado por meio de três ou quatro páginas com as devidas alterações gramaticais algo que não deveria ser racionalizado, mas teria de permanecer no centro de seus sonhos e de sua psiquê.

O último trecho da carta enviado, revela bem seu desejo: Jamais racionalizem seus sonhos. Matá-los é matar a si próprio. Sonhar é viver de "certa forma" plenamente.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Curriculum Vitae

No início você liga.

Com alguma camisa social ressuscitada de um tolo natal do ano passado, se esforça para calçar seu melhor sapato. Engraxando-o com o zelo e a nobreza de um profissional, pede até aquele cinto marrom verniz emprestado de seu pai que ele guarda para as datas comemorativas mais relevantes.

A calça de vinco passada com exaustão dá aos citados componentes uma aparência de sobriedade, de seriedade que você duvida realmente que o espelho possa estar dizendo a verdade. Você faz a barba, de forma que algum pêlo rebelde não possa revelar sua disposição crescente em participar de uma insurreição armada no interior do Rio de Janeiro.

O cabelo penteado de fora para dentro com um pente perolado de 28 dentes, dá o toque final à produção expressiva-corporal do seu nobre ofício. A camisa enrolada por dentro da calça é puxada alguns centímetros para fora, numa medida algébrica impecável, sendo afixada definitivamente pelos senos e cosenos de seu cinto marrom-verniz. Todo o conjunto fornece a tônica de um dia extremamente cínico. Algo entre o amargo do café e o doce do açúcar.

No segundo dia você relaxa. Troca a melhor camisa do mundo, por uma camisa day-by-day. Uma substituta de segunda, talvez até de terceira categoria, mas que ainda lhe concede o tom respeitável necessário. Suas unhas continuam cortadas como de costume. Seu sapato continua brilhante e seu cabelo mantém a aparência blasé necessária.

Tristemente chega-se ao fatídico terceiro dia. Você já não está usando seu sapato brilhante. Ele lhe apertava. Seu cabelo não é mais o mesmo, mas você ainda pode passar por uma blitz policial sem ser espancado por um cassetete de 90 centímetros.
Quatro dias. Já os Quatrocentos minutos de falsidade estética apresentada pelo seu personagem começam a se desfazer com alguns itens do seu antigo vestuário. Você usa uma blusa de malha simples, um verdadeiro pecado gerencial, talvez você tenha roubado o departamento financeiro, uma ou duas vezes. Aboliu a camisa social, mas continua exalando limpeza pelos cantos dos corredores administrativos. O sapato fora trocado por um tênis, o cinto continua emperolado como antes e exala um pouco de catolicismo fervoroso que tanto agrada o senhor Vilaça do terceiro andar.

Depois da primeira, da segunda e finalmente da terceira semana você é você novamente. O tênis preto está sujo por falta de tempo e de vontade, sustenta sua calça jeans horrorosa, um ode preconceituoso aos anos 90, desbotada pelo clima e pelo seu perceptível gosto musical duvidoso. As camisas sóbrias dão lugar a uma de malha laranja, o que demonstra claramente sua pré-disposição a cometer crimes familiares.

Suas unhas grandes, sua barba por fazer já não conseguem lhe ajudar a resolver o problema do banco de dados da senhorita Hilda do terceiro andar. Seu cabelo desgrenhado, abusado, é praticamente uma afronta a gerência de produtos e processos industriais. Não que você se importe, é claro.

Enfim, fizeste teu currículo falar por si só. Tu és um mártir.

obs 1: Escrevi há um tempão. Mas como estou trabalhando em coisas antigas, resolvi ajeitar e enviar para um jornaleco de poesia que tenho muito gosto. Resta saber se publicarão. Publiquei aqui para dar uma esquentada no garoto, os comentários serão o termômetro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ausências em vermelho

Hoje não sonhei com você. Mas acordei com você. Não estava do meu lado, mas preencheu todo o quarto com meu desejo. Desejo de te ter ao meu lado. Desejo de me preencher na tua presença.
Mas presenças não preenchem nada. Pois a ausência está dentro de mim. A ausência está sempre dentro, não fora. Disseram-me que eu necessito desmistificar-te. Concordo. Diga isso para meu coração. Troque coração por inconsciente e ganhe algum respeito de quem lê ou escuta o que eu digo, mas o fato é que a razão não consegue mais dar conta da tua plenitude.

Finjo que não procuro, mais procuro. Todo mundo procura. Até quem não sabe disso, procura. Mas até agora não achei nada. Uma cartomante disse que viria em janeiro. Esperarei por que não sou superticioso.

O que devo fazer além de esperar? Esperar é agir. E ação é um copo de cerveja, cheio. Aliás não sei se tenho forças para minha autonomia psíquica. Prefiro o confortável abrigo das metáforas mal redigidas. Cizânias do destino.

Não me deixaria esperar de braços cruzados janeiro chegar? Deixaria?

A cartomante desconfia da previsão.

Por que percebe que eu vou perceber os momentos grandiosos até janeiro. E se eu conseguir percebê-los estragarei com toda previsão que ela se esforçou em cunhar. Ai de mim, e ai de todos os espíritos acorrentados no altruísmo.

No peito dos desafinados ainda bate um coração, saiba bem disto!

Ruiva, o que é o fundo do poço? O que é o maldito fundo do poço ruiva?

O fundo do poço ruiva é uma oportunidade. De contemplar a luz por um momento mais longo que o suficiente. Leia-se suficiência, deste mundo ocidental-cristão. A luz do poço ruiva, é sentir seu cheiro, andar pelas calçadas, procurar não esbarrar nos paralelepípedos, nem os cinzas, nem os amarelos, e continuar seguindo, mesmo que para isso você se confronte com seus maiores medos(leia possibilidades). É possível viver sem isto ruiva? Viver sem medo? Viver sem medo. Viver nas sombras? Viver na sombra. Espreitando, seguindo, guiando. Perdendo. Algo que nunca teremos?

Catarses solitárias são normalmente construídas sob a indefinição.

Cheiro de cerveja. De maldade. Tem muita maldade no mundo.

Há um espaço para poesia. Um espaço pequeno, que não respeita nada além do limite do óbvio.

Há algo que escreve mais do que própriamente dá sentido para.

Há um espaço vazio Ruiva, há a repetição das mesmas coisas, há parte de mim espalhada por aí... Há um concentrado de ausência em mim, que luta por permanência. Luta para ficar. Mas eu sinceramente quero despejá-lo. As repetições mataram nosso amor, explicarei isto mais adiante, adiante... Isto me torna ainda mais contraditório do que sou.

Por que quando você sair, a poesia inevitávelmente fugirá junto.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Diário de Jarbas: o Doutor Limítrofe


Procurei álcool na geladeira, mas não tinha. Pensei, mas que maneira covarde de tratar o cansaço doutor. Doutor é o caralho. Todo mundo tem dias ruins. E eu não serei o primeiro nem o último.

Faltam só 8(pensou no oito deitado, no infinito) sessões. Oito sessões e o senhor estará curado.

E até lá o que faço? Peço morfina para o ajudante de enfermeiro ou sorrio caridosamente para a loira de decote que fica na recepção?

O senhor pode pedir seus ansiolíticos para o Dr. Anísio.

(Anísio, um velho senil que trabalha no segundo andar)

Está bem. Terei que subornar o motorista da ambulância do turno da noite novamente para ele me conseguir algum sossega-leão.

Já tentou meditar? Já, não funciona no ocidente. Há muitos prédios, pouca paz. Não dá certo.

E a yoga. Abandonei, as orações antes das sessões me irritavam profundamente.

Afinal deus é um delírio. Ah sim. Disto tenho certeza. Certezas é o que todos nós queremos de vez em quando.

Ontem pintei uma linda mandala. É mesmo? Com que cores. Verde e laranja. Na verdade não é própriamente uma mandala. Só me lembra. É algo confuso, uma luta interna entre as cores.

Achei intenso. Intenso demais para mim. Quero que o ano acabe.

O sr. quer que eu ligue para o sr. Anísio agora?

Não. (por que diabos ele tem de falar nesse maldito velho senil toda vez que estou perto de me aprofundar nos meus próprios abismos)

Eu não quero falar com aquele velho senil(pronto, agora eu falei, quem mandou).

O sr. pode ter razão. Mas mesmo assim vou aumentar seu medicamento até o dia 30. Após este período as coisas podem se modificar.

Já fez seu plano astral? Já.

E o que achou. Detestável. Não acredito nessas coisas. Nem como forma de auto-conhecimento?

Não. Preciso dos meus cigarros novamente. Nicotina é uma desgraça eu sei. Estou tentando parar(todo fumante diz isso).

Nos vemos sexta a noite então? Sexta não.

Por que não?

Tenho um compromisso com uma mulher. Compromissos afetivos?

Não exatamente. É apenas um violão, um piano e uma música triste muito convidativa.

Ok. Vá se divertir. Até segunda então. Até.

Até mais.

Até e tenha um bom dia.

domingo, 21 de outubro de 2007

Melhorarás

Espero realmente que as coisas melhorem.

Ansiolíticos naturais; são perigosamente limítrofes.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Do Esquecimento temporário/definitivo da Ruiva

Por um período que eu posso chamar de confortável, no sentido que me fez produzir muito mais do que o eventual, você me deixou. Deixou de forma a conceber espaço para outras idéias mais importantes; falando de coisas práticas.

Eu ainda era obrigado a te lembrar, por que todos os malditos cortes de cabelo semelhantes traziam sua presença, mesmo que eu não te convidasse. A camisa que eu usava me remetia a algum comentário elogioso teu, sobre a estampa; e eu também lhe conseguia enxergar imaginando as situações onde você estaria, o que você acharia de determinados fatos, de determinadas situações ou opiniões coletivas. Também surgia com expressões que pipocavam aleatóriamente na minha cabeça. Eram nuvens fugazes, mas de uma textura tão viva, que sinceramente valorizei o tempo como o único remédio efetivo para males como este.

E às vezes eu até lhe incorporava, o que me deixava cada vez mais certo que os gêneros opostos que vivem em todos nós, se manifestam de forma mais violenta quando se enxergam em corpos alheios. Nunca tentei tornar poético o trivial. Você encheu minha vida de trivial e eu agradeci inicialmente, perguntando com meu atual aspecto de surpresa, se não seriam necessárias mais algumas tragédias antes de me enebriar totalmente com teu perfume tão saboroso.

Mas não foram. Minha grande tragédia foi lhe conhecer, como uma tragédia grega onde nada se perde de verdade, onde um mundo se descortina, oracular como sempre deve ser.

Sensações a parte, acho que todo este caminho está estruturado de forma teleológica a me reinventar de forma infinita. Este é o destino.

Diante da impossibilidade de trazer a tona este inconsciente meramente poético que me circunda, deixo as impossibilidades práticas ganharem mais força. Não sei por que me lembrei de Zaratrusta. Devo ter mudado o eixo da discussão propositadamente.

Talvez me sinta culpado por te perder. (é claro que não me sinto ora bolas)

Em cartas antigas eu tinha de explicar que você é fruto da minha imaginação. Já perdi completamente esta capacidade. Esvaiu-se com o estilo poético que outrora você fortuitamente(e só e é claro na minha imaginação) apreciava.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Citações

Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana. [...]”. (Mikhail Bakunin)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Espaços Vazios em Grandes Salas Cheias

Não há muita criatividade. Apenas um cheiro de chuva que me faz observar os pingos respingarem no paralelepípedo. Dá pra sentir-se satisfeito, com aquele calor irritante se esvaindo na primeira pancada de chuva. As nuvens anunciam, há um pequeno estrondo e pronto, a mágica está feita.

Há um móvel novo na sala. Perto da cadeira branca. É nela que estou sentado, de frente àquela janela grande, do qual cnsigo observar todos sem que me observem. Há um senhor apressado de terno correndo com um jornal cobrindo a fronte enquanto a chuva o alcança; há uma senhora firme de si, desfilando com um grande guarda-chuva que antecipa as pancadas mais fortes.

A janela começa a embaçar e eu me canso dessa brincadeira a toa. Tento me concentrar, mas meu pensamento flutua livre pelas barreiras geográficas, me sinto pequeno.

Há um espaço vazio demasiado cheio de sentido dentro daquela sala minúscula. É difícil explicar, mas sinto que sem aquele vazio, não conseguiria obter reflexões como as dos dias chuvosos.

Geralmente, espero alguém ligar e aí inicio um jogo gestáltico de figura e fundo, onde as coisas se interpelam. Telefone-fundo, paisagem-figura, figura-telefone, fundo-paisagem, tudo depende de quem liga e das flutuações sempre inconstantes do meu humor temporal.

Há dias reservei alguns dias na agenda para preencher lacunas criativas como esta. Habituar o escritor e o leitor há sentir o vazio. Era preciso ter uma sala com poucos móveis. Uma cadeira bastava. E tinha de ser branca. Uma mesa de mogno, uma escrivaninha e poucas pilhas de papéis davam a tônica final.

Fora disso, havia apenas uma necessidade de me silenciar mais, sobre tudo um pouco. Era mais do que uma necessidade, era quase uma sobrevivência.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Passeio Beatnik

Flores no parque
Um parque tão límpido
Rosas, Girassóis, Bromélias
Uma doce trilha de pedra
Descortina um límpido rio

O canto do Rouxinol
Levou-lhe a uma pedra

Solitária

O cheiro de terra
Era tenro
Era doce

O silêncio do verde
Trouxe-o de volta
À pedra

Gostava de si
Quando lhe deixava
Sozinho

Mas sob a umidade do bosque
Restava-lhe a Insônia

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O Desapego

Tradução não muito fiel, mas o significado é profundo

As palavras corretas nem sempre são agradáveis.
As palavras agradáveis geralmente não são corretas.

Os homens sábios jamais discutem.
Os que discutem estão mal informados.

O homem sábio não fala muito.
O sábio não é necessariamente instruído.
O instruído não é necessariamente sábio.

O sábio nada possui, nada mantém na memória mas serve a todos e com isso tudo possui.

Já que continuamente se dá a todos; no fim, conquista o que nunca desejou.
O caminho Perito conduz ao Céu, é sempre benéfico e não conduz qualquer mal.
O sábio é o que segue o Tao, o que possui pratica a não-ação e com isso serve aos outros
E jamais será a causa de uma luta inglória.

Tao Te Ching

domingo, 23 de setembro de 2007

Tudo lembra você

Quando eu me esquecer de você
Haverá um belo sol
Um sol novo no horizonte
Vermelho de dúvidas

Haverá uma mesa posta
Para o café da manhã

Haverá um quarto vazio
Vazio de escolhas

Haverá um maço de cigarro
Jogado na mesa
Mas eu não fumo

Haverão algumas partes
Espalhadas

Sem que para isto
E na verdade
Você merecesse

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A Ruiva e os paralelepípedos amarelos


No fundo musical... Cat Power

Ah Ruiva. Como eu queria que você estivesse comigo quando eu subi aquela rua de paralelepípedos tão extensos. Pude sentir você sussurrando em meus ouvidos: chore, vai, chora... você precisa disso... E eu pude perceber na terceira, ou na quarta casa de tijolos amarelos, que meu caminhar, minha respiração estavam tão carregados Ruiva. E aí eu resolvi brecar ruiva.

Parar tudo. A revolução, as caminhadas, o esforço ruiva. Tudo tem de parar, antes que eu me perca, o que aliás é falso; já estou completamente perdido.

O horizonte estava cinza, ontem eu dormi no chão do meu quarto ruiva, ontem eu tinha visto alguns ratos imaginários correndo pelo piso do quarto. Ontem eu respirei um céu pesado, dobrei meus joelhos; minhas pupilas doíam, mas mesmo assim eu acordei e fui para aquela praça que você adora ruiva, uma praça singela, bonita, insignificante demais para ser percebida no subúrbio, mas eu cheguei lá ruiva. Fumei meu maldito cigarro, depois resolvi comprar um café bem forte pra me manter acordado.

Perambulei pela Biblioteca Nacional, pelo centro da cidade, vaguei até encontrar um banco vazio dentro de um prédio público. Eu deitei lá, com a cabeça para cima, com minha mochila servindo de travesseiro e tentei cochilar um pouco... Fui em busca de mais livros, tive que tratar com aquele idiota que vende livros na central do Brasil, mas foi por uma boa causa, consegui almoçar e ainda me restaram alguns trocados que me fizeram conseguir comprar as malditas pilhas recarregáveis que eu tanto procurava.

Jejuei de noite, só pra me sentir mais iluminado e próximo do quê eu não sei ruiva, mas eu estava próximo de alguma coisa que transcende a minha simples existência.

Enquanto eu cochilava, eu sentia meus pés flutuarem, e um pouco de esgotamento. Não aguento mais ruiva, não aguento mais viver das sobras, do resto. No início até parece divertido viver com esta neo-pobreza material e de espírito(espírito não, é melhor dizer destino), mas no balanço final não há muito o que comemorar. Eu envelheci demais, apesar do que a contagem do tempo se estagnou, o tempo definitivamente não é um bom aliado.

Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade, às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, você fingia que não queria me beijar, mas me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos intensamente; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram sempre as mesmas frases. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado. Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco...

E me deixava envolver neste joguete, enquanto algumas idéias malucas iam voando por entre os paralelepípedos. E aí eu estava. Sozinho caminhando por entre os mesmos paralelepípedos amarelos, fuçando quartos azuis, alguns com luzes de neon roxas. Em festas vazias, cheias de gente incompleta eu me senti, me sentia inadaptado, inadaptável, inadaptável demais para conseguir aturar mais do que duas ou três horas de simulacros humanos vazios movendo-se caóticamente em torno do quê ruiva, do quê ruiva? Eu não sei. Eles não buscam. Eles são. Esta é a diferença dos fracassados para os hedonistas. Eles apenas são. Acuse-os de medíocre, sem objetivo, mas é assim que eles conseguem ser felizes sem ter de tomar seis comprimidos de valium durante 1 mês. Ou como eu não ficaria, sem precisar manter-me acordado durante 72h.

Ruiva, estes dias tem sido pesados. As lágrimas estão escorrendo de maneira mais habitual e há um pouco de iluminação nisto tudo. Diante do abismo inicial ruiva há uma nuvem negra que se aproxima em tom de deboche. Há um pouco de caos espalhado sobre a mesa do meu quarto. Indícios do prenúncio da chuva de problemas. E quando isto ocorre, eu apenas deito na cama e tento trabalhar meus sentimentos. Eu me jogo no colchão Ruiva, olho para um ponto fixo na parede branca e deixo os pensamentos fluírem livremente. Nestes momentos sinto o quão pesada, bruta e mal lapidada é a mente ocidental Ruiva.

Abandonei os copos de vodka e as cervejas nos dias de semana, por que este era o último bastião Ruiva, o último bastião da degradação parcelada. Eu juntei algumas tintas hoje e pintei um quadro que eu chamei de Fusão. Básicamente era composto de duas cores, azul e amarelo, que se entrecortavam e se chocavam gerando um terceiro elemento, um verde discreto, tímido. A verdadeira síntese. Síntese do quê exatamente eu não sei Ruiva.

Ontem, eu achei alguns livros de literatura Argentina Ruiva, foi tão emocionante. Tive sorte, pois procurava estes livros há meses e os comprei por uma verdadeira bagatela.

Ruiva eu lhe encontrei semana passada. Você não estava lá verdadeiramente, mas para mim, era você lá. Na verdade eu lhe encontrei dividida em diversas situações. Na sexta-feira de tarde eu conversei com você dentro de uma sala de aula, no sábado de manhã eu lhe carreguei até a minha biblioteca preferida, e no domingo eu esbarrei com você num sarau barato organizado por meia dúzia de literatos fracassados.

Maluco, bobo. Adorava olhar para seus lábios ruiva. Mas agora não há lábios a enxergar. Há apenas um vazio. Um vazio profundo. Que precisa ser preenchido. Não por você Ruiva. Você já teve sua chance. Nem por outra Ruiva. Eu estou me preenchendo. E obras normalmente são lentas. Ainda mais quando não sei com que tijolos iniciá-las.

É por isto Ruiva que eu escrevo cartas a você. E te agarrava com força. Te beijava a exaustão.

Redundante Ruiva, Ruiva, nuvem negra.

Pontos fixos são parte da solução. Deixar fluir. E aqueles exercícios de respiração que você me ensinou Ruiva...

Vou me indo Ruiva, vou me chocar num terceiro elemento. Vou me fundir em parte alguma de mim. vou me fundir ruiva. Fundir. Não fugir. Por que ninguém consegue fugir de si mesmo.



sábado, 15 de setembro de 2007

Uma canja...

É nisso que estou trabalhando atualmente... Já faz algumas semanas... Pretendo preenchê-lo de vida aos poucos. Aí vai um trecho.

"Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade, às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, você fingia que não queria me beijar, mas me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos intensamente; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram sempre as mesmas frases. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado. Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco..."

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Mais sonhos... mais contos...

Provávelmente do dia 11 para o dia 12 de setembro.

Minha atividade consciente de escrever contos está praticamente interrompida atualmente. No entanto inconscientemente estou mais ativo do que nunca. E muito surpreso com tudo isto diga-se de passagem.


Sonhei que começava a flutuar, de maneira brusca, ia subindo, perdendo o controle do meu corpo e começava a voar em alta velocidade. Ia tentando ajeitar meu corpo para controlar a velocidade e o destino. Tentei subir para não cair no chão em alta velocidade. Fui subindo muito rápido, atravessei as nuvens e a cidade, o bairro ficara muito menor. E depois sumira. Fiquei com medo de subir demasiadamente ou de ser acertado por um avião e tentei descer, já conseguindo controlar melhor o corpo. Comecei a aproveitar melhor a viagem. Pensei, estou voando! Que legal!

Até que descortinadas as nuvens eu me deparo com a visão de uma estupenda e imensa cidade. Um palácio gigantesco, algo que eu nunca vi tão grande, com torres altas, se não me engano vermelhas, vejo uma grande escultura de águia com detalhes perfeitos nesta parte central da cidade, que foi a única que visualizei, e a partir disto meu corpo começa a como ser puxado lentamente até o solo. E eu desço, como se a isto fosse impelido.

Tudo na cidade é estupendo, grande, um excesso arquitetônico de formas e prédios. Vejo um templo. Eu entro. A águia está lá dentro, eu deito em cima dela, como se abraçasse. Há pessoas dentro do templo, elas jogam capoeira. Há uma pequena movimentação. E eu resolvo participar da dança. Sem pensar exatamente como voltaria. Como sairia de lá. Jogo capoeira com os cidadãos de lá e depois... acordo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Contos do Inconsciente

Estes dois sonhos me impressionaram. Perderei semanas tentando interpretá-los. Mas sinto que se conseguir fazê-lo as coisas daqui para frente ficarão bem claras. O mais impressionante, é que na segunda de manhã, assisti um filme na aula de socilogia que fala sobre uma menina vivendo na ditadura do Talibã, que se disfarça de menino durante algum tempo. De certa forma há sincronia com o segundo sonho e eu fiquei impressionado ao ver o filme. Dei nome aos dois, pois parecem contos.

A mina marrom (Semana passada, algo entre 03 do 09 e 08 do 09)

Estou numa caverna. Na verdade é uma mina, bem profunda, com paredes marrons. Converso com alguns companheiros. Há uma espécie de gerador que dá iluminação pra mina. Um companheiro reflete que outro companheiro irá chegar, como se desse a entender que se o gerador continuar a dar problemas seria algo que mostraria nossa incompetência em fazer o gerador funcionar e seria então, melhor desligá-lo ou deixá-lo funcionar como está. Há algumas partes com água. Em determinada parte da mina, eu não tenho(ou na verdade não sinto) coragem de passar. É uma parte mais estreita, pelo menos o teto é mais baixo. Há um objeto metálico fincado em uma das paredes no final deste corredor. Objeto que eu não consigo identificar bem o que é, mas reluz um pouco de longe.

Alguém me manda seguir. Mas sozinho eu não vou, penso eu. Até que de maneira impressionante, surge um outro "eu", físicamente idêntico a mim. Com ele eu vou. Sinto coragem. Descemos ao final da mina. Ambos. Eu vou com um pouco de medo. E olho para o objeto reluzente. É uma espécie de metal retorcido, não muito maior do que minha mão. Algum símbolo, alguma coisa estranha, aparentemente sem utilidades. Eu olho para o lado da mina, não há mais passagem. Eu penso na possibilidade dela desabar. Eu passo a mão em suas paredes. Há protuberâncias disformes, pedaços de cascalho. Como se faz uma mina eu pergunto. Uma empresa vem, gasta bilhões e a mina está pronta. Eu apareço no quintal da casa da minha vó, perto da minha casa. Eu acordo.

A mulher, o velho, o paranormal e a criança(do dia 10 para o dia 11 de setembro)

Estou eu e meu primo, andando perto de uma universidade. Parece a UERJ, mas não é, entre a rua e a UERJ há cercas de arame, na verdade alambrados, como esses de eventos públicos. Entramos pela parte da UERJ, por uma espécie de passarela. Há toda uma preparação dentro destes alambrados para uma espécie de show. Parece que vai ser funk. Há uma fila imensa de pessoas na parte de fora, aglomeradas para entrar. É muita gente. E eu converso com ele sobre isto. As pessoas começam a entrar. Há geradores, fios, caixas de som no evento. Eu e ele resolvemos sair antes que o evento fique muito cheio. E eu penso sobre a facilidade de se entrar por esta parte de trás, sem precisar pagar nada. Como eu não gosto do estilo musical eu volto em direção a faculdade.

Eu chego num prédio. Um prédio grande, com janelas e vidros transparentes bem visíveis. Estou em alguma cidade que não conheço, ou nunca fui. Eu subo o prédio e chego numa sala. É uma sala curta, há uma espécie de quadro branco, pessoas aglomeradas das quais sinto que conheço, ou pelo menos permaneço sem maiores embaraços. Há uma mulher que é a oradora, ou expositora de algum tema, ela parece bem disciplinadora, e eu não gosto dela por algum motivo. Ela senta numa cadeira. Com um movimento de olhos, eu giro a cadeira por telecinese, forçando lentamente a cadeira a desiquilibrar-se rumo a um recorte na parede e ela bate a cabeça nesta quina. Ela comenta algo sobre o acontecido, sobre a possibilidade de ter sido algum et. Sim, os ets estão vindo aqui frequentemente, ela diz.

Eu ainda quero irritá-la eu acho, sem que ela perceba. Eu faço(tudo mediante a telecinese) com que um dos tapumes de compensado que forram o teto cai no meio da sala. Ela percebe que fui eu. Um dos alunos começa a discutir comigo, insinuando que tinha sido eu. E começa a descrever algo sobre mim. Eu falo algo para ele relativo a ter um cinto de caveira, olho nos seus olhos de forma ameaçadora, meus olhos brilham com riscos cor de fogo em toda a pupila de maneira a intimidá-lo, como forma de demonstrar meus poderes. Há uma mulher mascarada dentro da sala. A tal professora, ou o que quer que seja, pergunta por que ela não pode tirar a máscara. você é wikka? É religião ou algo assim? A mascarada, que está com uma espécie de véu cobrindo o rosto e que exibe apenas seus olhos apenas confirma algo com a cabeça. Eu a conheço. E sinto algum medo sobre a possibilidade dela ser desmascarada. Ela é idêntica a mim. Tem o meu rosto. Mas é feminina. É o meu rosto, mas numa mulher.

Eu olho para uma das janelas, há uma gigantesca nave negra com grandes propulsores passando pela lateral do prédio.

Eu aviso a todos, que os alienígenas chegaram, que há etês lá fora. As pessoas se alvoroçam. Eu resolvo sair dali. E levo comigo duas pessoas, que eu não me recordo se estavam na sala. Um velho, um ancião. E uma criança.

A mascarada eu deixo lá. Não a salvei ou pensei em salvar por algum motivo. Eu procuro saídas. E resolvo sair por uma das saídas laterais, acho que a direita. Não sei como descer do prédio. Afinal este por algum motivo, não tinha escadas ou elevador. As janelas estão abertas, são grandes e não tem vidraças. Eu salto com o velho e com a criança, uso meus poderes e crio uma rajada de vento para amortecer a queda.
Conseguimos descer. Eu tento correr. A nave negra com seus imensos propulsores se move e está sobre mim, há um vento muito intenso que me nubla a visão e que atrapalha todo o meu movimento. Eu consigo correr. Há um gramado e um rio que o corta. As pessoas estão correndo de um lado ao outro, a nave ficou para trás. O velho e a criança estão comigo, bem próximos. Um carro desgovernado vem em direção a mim, eu protejo o velho e a criança e com meu poder telecinético vou detendo o avanço do carro com dificuldade, parece que ele vai me atropelar, mas minhas rajadas de vento o fazem capotar para trás. Eu decido deixá-lo capotado para não causar mais confusões, por que me pareceu meio intencional ele ter me atropelado.

Eu prossigo e procuro um carro para andar mais rápido. Descarto um ou outro, e acho um carro laranja, de formas arredondadas Eu entro nele e dirijo, peço para o velho e a criança entrarem. O velho é magro, tem barbas brancas e cabelo desgrenhado eu acho. Eles pulam no carro. Eu dirijo Olho para a direita, há vários prédios, não sei para onde ir. Resolvo ir para a esquerda, mas há um lago por lá, eu perco a direção e o carro está indo para o lago, alguém, ou o velho ou a criança, gritam, que para aí não, vamos cair. Eu crio uma ponte invisível que sustenta o carro antes que ele afunde no lago. Nós conseguimos descer. Eu tenho a sensação que esta parte da cidade é seu extremo. Não há como ir para lugar nenhum. O espaço acabou ali. Eu sigo o gramado, mas uma série de homens tribais, de cor amarelada, começam a surgir por toda parte. Não sei se são os etês. Eles vem em minha direção e parecem ser agressivos. Eu grito ao velho e a criança: Fiquem atrás de mim!

Eles tem lanças e facas. Eu crio a partir da terra e da lama um golem que soca o primeiro tribal. Eu o arremesso longe. O segundo golpe joga o tribal para bem longe. Eu penso que naquele trecho onde estou(onde o carro laranja quase afundou) há algum tipo de passagem subterrânea para onde conseguiríamos fugir. Eu soco mais alguns tribais. Um deles entra em luta corporal comigo e quando tenta me esfaquear já não estou mais ali.

Estou num corredor de um prédio de apartamentos de alguém que parece ser um amigo. Ele usa óculos. E eu na verdade estava demonstrando como o tribal tentou me esfaquear, contando tudo a ele.

Eu acordo.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Insônia

Meu corpo está clamando por pontos finais seguidos de parágrafos bem longos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Marcadores

Dividi o blog todo em marcadores. Isto significa que, abaixo de todo o texto, há algumas palavra chaves após marcadores. Clicando na palavra escolhida aparecerão apenas os textos onde existem esses marcadores.

Existem vários marcadores. O que mais me atraiu e o que eu acho que pode ser útil, é o marcador: Sob efeito leve, sob efeito moderado e sob efeito pesado de cerveja. Clicando nestes marcadores é possível saber com exatidão quais textos escrevi levemente, parcialmente, ou completamente bêbado. Os textos escritos sob o efeito de insônia também estão devidamente marcados. Agora realmente é que fui entender a praticidade dos temíveis marcadores. Viva a tecnologia, capaz de nos conectar ao mundo todo, nos isolando.

Produzir essas merdas é fácil

Completava seis semanas de isolamento. Era hora de voltar para o Rio. Pegou a BR no dia doze, e pretendia voltar no dia 19, mais por contigências, por determinadas situações acabou ficando seis semanas. Seis longas semanas. Não sabia mais o que era. Tinha apenas uma ligeira impressão.

Amassou o cigarro na bota, fez sinal para o ônibus e partiu.

A janela do coletivo lhe deu boas impressões. O sereno firme, posterior chuva irritante, embaçava os vidros, tocava John Coltrane no fundo. Música ambiente. Tudo proporcionado pela empresa de ônibus.

Não havia mais jeito. Não havia mais fuga. Fugir era inútil. E agora ele sabia disto. O mundo era demasiadamente pequeno. Isto o irritava, por que um viciado pelo novo não conseguiria relaxar no Rio de Janeiro. A cidade inteira se conhecia. Cidade estressante. E era verdade. Não aguentava mais frequentar o velho. Arcos Velhos, festas velhas, pessoas velhas, velhas conhecidas. Antigos bares, festas e situações. Estava exausto disto tudo.

Não via mais honestidade nas pessoas, apenas promessas, teatros. Quando ele odiava odiava mesmo. Era difícil voltar atrás. Conhecia poucos casos onde conseguira voltar atrás.

Poucos mesmo. Mais que merda! Que merda! Gritou dentro do ônibus! Que merda de mundo! Caralho! Que teatrinho de merda! Vão pra puta que pariu! Desceu. Andou. Estava perto do caos. Pegou outra condução, foi para a rodoviária. Perambulou, comprou uma dose de menta, sentou, deitou, olhou as estrelas. Voltou pro apartamento vazio do centro. Abriu a porta. Acendeu um incenso, abriu a janela para entrar ar. O telefone tocou.

Pisou, esmigalhou com raiva e não satisfeito arrancou o fio que o prendia

Foi pra cozinha, colocou algo para cozinhar, comeu, engoliu, merda de alimentação. Abriu uma garrafa de vodka, espremeu alguns limões, tomou uma caipivodka escutando Coltrane novamente. Agora deliberadamente.

Percebeu um ou dois envelopes, por baixo da porta. Largou o copo, pegou-os, rasgou e começou a ler. Promoções, e uma conta de luz. Nada demais. Não era tão importante assim para receber cartas em casa. Chutou a porra dos envelopes.

Não tinha mais nada pra pensar. Dormiu abraçado com a vodka. Se alguém batesse na porta gritaria um foda-se já anteriormente ensaiado.

Mas que merda de dia misantropo, pensou antes de cochilar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Morre e ainda me assombra - Jeff Buckley

Trecho da Música - Liliac Wine

"When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more that I ought to drink
Because (it) brings me back you..."

"Quando eu penso mais do que eu quero pensar
Faço coisas que eu nunca deveria fazer
Eu bebo muito mais do que eu poderia beber
Por que (isto) me traz você de volta..."

Parando para pensar e pensando para parar

Não tenho a intenção de achar maneiras de acabar com a depressão. A depressão traz a lentidão, um movimento contrário à mania, intimidade. Ela abre a porta a algum tipo de beleza. Logo, parece haver algo lá dentro além da forma como você, o ego, enxerga,” (James Hilman)

Já faz algum tempo(não muito é verdade) que eu resolvi parar. Parar. Tudo começou com o Wu-wei do taoísmo, a não-ação. Contudo eu fui além. Além do Wu-wei. Fui, mas não estou.

É engraçado. Tudo começou com uma discussão política. Sobre a metáfora do trem. O trem que deve parar na estação. O trem que se movimenta mais rápido do que eu. Mais caralho, quem é que move a porra do trem? Sou eu. Somos nós. Todos nós. No meu caso particular: eu. O trem está se movendo mais rápido por que há pessoas movendo a porra do trem mais rápido do que podem suportar. No caso eu. "Há muito trabalho a ser feito". Há. Há muita coisa a ser feita. Eu enxergo o todo. Eu coloco o todo nas costas. Não tenho que parar? Será mesmo?

E quando não é a paixão que me move, quando não é o desejo, quando é simplesmente uma mania, idéia fixa. Algo que eu sou movido. É isso mesmo? Viverei assim? Não é hora de brecar. De pisar no freio. De dizer: chega!

Não é hora da reflexão? Conseguirei? Será que o que eu movo é parte de mim a ponto de se eu tiver que me livrar disto, mato uma parte do meu eu?

Pois bem. Penso em parar. Em parar por algum tempo. E só penso: "há pessoas que precisam de mim". Mas que merda cristã! Mas que merda cristã! Desejo eu viver na transcendência? É isso mesmo?

Não é hora de parar? Não seria a hora exata de parar? Irresponsável! Talvez sim! Talvez Sim! Já fiz muito avanços, penso eu! Já consegui dosar exatamente onde posso focalizar. Onde posso atuar.

Mas ainda assim, ainda assim. Dúvidas me cercam. Dúvidas existenciais. E quem não as teve que atire a primeira pedra! Estou em tudo! Estou em tudo! Estou em nada? Não... Estou mesmo. Estou. Mas quando pensei em mim? Quando foi a última vez que estive integrado. Quando foi que voltei os holofotes pro meu eu?

É tão divertido! Caramba! Sonhos a parte eu me divirto com tudo isso! Divirto-me em mudar o mundo! Gosto de ser odiado! Odeie-me burguesia! Odeie-me! Piadas internas!

O que sou? Sou parte da transcedência, ela é parte de mim! Há algo superior nisto tudo? A mudança! A mudança!

E o que quero. O que desejo. Alguém que simplesmente compartilhe da mania? Alguém com idéias fixas? Não posso parar então? Tenho que fazer alguém acelerar? Mas que merda egoísta! Que merda obreirista! Que ritmo fabril!

Febril!!!

Fiquei doente esta semana. Resfriado. Vírus. Foi necessário pra parar. Não me parou totalmente. O que mais preciso pra parar. O que mais?

Sei lá. Divagações são necessárias.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Seu coração era um cinzeiro


O cinzeiro estava cheio de guimbas, de cinzas, de lágrimas. Seu coração era um cinzeiro. Latas de cerveja vazias, alguns cubos de gelo derretendo em cima da pia. A cozinha estava suja.

Evitou-a fumando um cigarro na sala. Abriu a janela, viu a lua, parcialmente escondida , parcialmente exposta. Livros amontoados na sala, cd's velhos, um sofá com um rasgo em um dos assentos e uma garrafa de vodka metade vazia e metade cheia(de hábitos).

Enfrentaria seus fantasmas com as gengivas sangrando se for necessário. Não tinha medo da dor. Aprendera boas lições com o passado, aprendera boas lições e tragaria o último gole de esperança com um pouco de coragem entre os dentes. Chafurdaria-se nas lamas do inconsciente. Iria até o fundo se necessário. Não tinha medo da tempestade. Era um desbravador. Tornaria-se o que era, o que é. Iria se buscar nos abismos emocionais, iria resgatar-se do limbo, iria salvar a si mesmo. Seria seu próprio redentor. Sua redenção do-it-yourself embalada em embalagem a vácuo.

Por enquanto, apesar do discurso, possuía apenas uma vidinha medíocre e contas a pagar; sem nos esquecermos da lasanha políticamente incorreta que guardava no congelador há meses.

Olhava para a mesa de vidro e seu reflexo. Sentiu vontade de chorar. Escorregou do sofá e sentou no chão, cruzou as pernas, apagou o cigarro e enquanto tamborilava os dedos na mesa, pensou em não-agir. Em não pensar. Era preciso se encontrar. Era preciso parar e não pensar.

As coisas ferviam lá fora. A maldade tinha lhe encontrado em duas ou três ocasiões, mas conseguira esquivar-se. Estava vivo e expectativas demasiadas só traziam problemas demasiados.

Contentaria-se com o pouco. Este era seu plano. Habituar-se com o necessário. Sem excessos. Sem excessos, sobreviveria. Café, alguma erva, cerveja e livros. Nada mais.

No quesito afetivo, seguiria a mesma recomendação: casos esporádicos, afetos ocasionais, sem compromissos, sexo casual, nada mais.

Era um bom filósofo de bar. Também não almejava muito além. Algumas cervejas e janelas de ônibus, serviam-lhe farto material filosófico; sentia-se feliz.

Na segunda tragada começou a sorrir. Era curioso, considerava-se um péssimo ator, e normalmente era. Mas quando do caos interno e introspectivo feito em maiores graus que suas máscaras, o lodo aflorava.

Pegou o metrô, escorou-se em uma das portas, lembrou de Paris, da Catalunha, lembrou da Av. Presidente Vargas. Desceu as escadas, olhava as faces ocultas, tentava adivinhar o que pensavam de si próprios, o que pensavam dele e o que pensavam da vida. Ao chegar na rua da Alfândega, ficou costurando os transeuntes como de costume, era um bom esporte, salgados chineses, pessoas na rua, panfletos que jamais pegava, sextas-feiras repetitivas.

No Largo de São Francisco sempre esbarrava com uma alma incauta, um espírito do Rio novo, do Rio pós-moderno, da nova pútrida modernidade enciumada e encolerizada como de costume. Suas máscaras afloravam, consumidas por doses de café. Olhos fixos, sem açúcar e uma ligeira dor de cabeça o conduziram até casa.

Chamaremos aquela doce imundície de casa.

E quando olhou para aquele quadro velho, no intervalo dos comerciais da agradável insônia da madrugada, teve vontade de pintar, de fazer poesia, de cantar, mas nada aquilo aquietaria seu espírito. Bastava se retomar, perder-se dentro de seu caos, e fulgurar diante do nada com os desejos explodindo sua epiderme. Havia caos, havia luz, havia um pedaço de vida diante da morte programada e ele não se eximiria mais do seu destino. As cinzas cimentavam o novo caminho.

"É um "pessimismo-realista" que me motiva a viver." disse a si mesmo. Como assim? Há contradição nesta frase. Há sim. Há sim. Há muita contradição na vida. E no momento. Neste parágrafo, deste momento, ele pensava em continuar. Por que continuar era a única coisa que aprendeu a fazer em todos estes anos.

Agradecimento especial à Helena Dantas e seu poema que me inspirou o título acima.

domingo, 26 de agosto de 2007

Sobre o mês do desgosto

Decadência. Definitivamente não é o caminho meu amigo.

Este mês também não tem sido. Não tem sido. Definitivamente, não é.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Fernando Pessoa e seus heterônimos

Contemplou-me maravilhosamente bem...

Por Álvaro de Campos


Estou Cansado
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Divagações sem propósito - I

Algumas cervejas. Corpos na rua, defuntos na rua. Não é literatura. É vida real. Subúrbio, violência, segregação sócio-espacial. Bairros dormitórios. Trens, vagões, coletivos, pedaços de metal carregam o gado aos matadouros. Alguns morrem no caminho. Alguns caminham já mortos, apertam botões, consomem, apertam botões. Tento me encontrar, ao som de Cartola, ao som de Coltrane ao som do caralho a quatro, mas simplesmente a música perfeita fica sem função quando meus pés começam a doer. Os passos estão mais curtos, a vontade de mudança é a mesma, e eu me pego me chafurdando em zonas autônomas temporárias que eu não criei. Há poesia no fundo do poço, eu estou bem longe de lá: não terei este problema enquanto meus pés continuarem a doer.

As veias da urbe incham-se de sonhos, de pesadelos, há engarrafamentos nas sextas, há falsas sensações de liberdade na quinta, e há alguns travesseiros vazios nas terças. Há espaço para poesias nos intervalos dos ônibus que não chegam. Há um pouco de teatro no cotidiano que o cerca. Há vazios ocasionais. Há um mover frenético, uma luta extensa encobrindo algumas dores.

Dores urbanas, humanas, sazonais. Temporais.

Há um pouco disso tudo aí. Disso aí mesmo! É disto! Do que você falou, pensou. Um tudo que não se descreve em texto por que sinceramente não há paciência, nem pausa para tal coisa.

domingo, 19 de agosto de 2007

Flores

flores, quietas demais
para serem flores
rasas demais para terem cores
poetisas demais para sentirem dores

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

E(s) finges

Decifra-me ou me devoro!

Rápido!!

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Multiplicidades

É preciso perder um pouco de si
Para atingir o que se deseja
Mas atingir o que?
Se quando chegar, já não serei mais o que era?

E o que eu desejo?
Se meus desejos
São obra de um eu que faz perder-me
Todos os dias dentro de mim!

Devo caminhar mais um pouco?
Para voltar a ser o que eu era?
Mas não há retorno algum neste mundo!
Em que nada volta ao seu estado original!

Deste ser que não é
Resta um amontoado de soma, de somos
Pedaços vorazes, que competem entre si
Pelo meu próprio domínio

Mas de que bela contradição
É feita a natureza humana!

Isolation - Joy Division

In fear every day, every evening,
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love,
Surrendered to self preservation,
From others who care for themselves.
A blindness that touches perfection,
But hurts just like anything else.

Isolation, isolation, isolation.

Mother I tried please believe me,
I'm doing the best that I can.
I'm ashamed of the things I've been put through,
I'm ashamed of the person I am.

Isolation, isolation, isolation.

But if you could just see the beauty,
These things I could never describe,
These pleasures a wayward distraction,
This is my one lucky prize.

Isolation, isolation, isolation, isolation, isolation.

sábado, 11 de agosto de 2007

Mate a poesia

É preciso matar a poesia
Comê-la viva, diante dos olhos
Atentos do leitor
Destrinchá-la com raiva entre os dentes
Sem salvar palavras inocentes
E fazê-la esquartejada
Diante do sentido
Outrora perdido, vendido

Não há poema sem parto
Sem dor, antrofagonia
Ironia vadia!
Percorre urbanas hemáceas
Sobre as cinzas da rima-flor
Fútil flor
No vazio dos cacos
Há apenas narciso
Que me olhou
Cínico, vendido, vazio!
Poema, rimas...
Esquartejamento sem cor

Há parte da poesia
Espalhada no ardor
Do momento..
Do momento... Já morto!

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

mujeres y amor

Adorei esta poesia. Deste grande poeta e anarquista peruano.

Amor hace de la vida
Un morir amargo y lento;
Mas qué horrorosa la vida
De quien no vive muriendo!

(GRAFITOS, Manuel González Prada)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Agosto mês do desgosto





Tentativa de assalto e de apedrejamento, perda de oportunidade de emprego, notícias desagradáveis, sumiços temporários de bicicletas, reuniões estressantes, fantasmas inconvenientes-recorrentes, dívidas, enfim.

Nada disso vai me derrotar este mês!

Axioma de alento: Há farto material literário a disposição!

sábado, 4 de agosto de 2007

Menta com hortelã


Ela queria vingança. E ia buscar parte do queria naquela noite chuvosa. Chuva irritante. A obrigava conversar consigo mesma. E odiava ter que se confrontar.

Ele desejou paz. Apesar do dia nublado, da chuva, e da lama na perna esquerda da calça jeans terem lhe tirado o humor.

Acendeu um cigarro, tragou uma, duas, três decepções, mas ela não conseguia esquecer.

Azar o seu.

Era assim que falavam os niilistas. Era claro que o azar era seu. Pessoal e intransferível, como os cartões de crédito. Azar e cartões de créditos: analogias baratas, totalmente apropriadas para um domingo a noite.

Costumava intrigar-se como as letras formavam palavras e como estas se articulavam às frases. Frases que teciam metáforas, redações frustradas, recados, cartas de amor, textos acadêmicos e todo o lixo semiótico que costumava ler.

Ele foi beber cervejas. Estava gelada. Estúpidamente bebeu as cervejas geladas.

Era tudo muito estúpido mesmo. Copos vazios, cervejas cheias, um pouco do tudo inacabado, liberdade, caos, libertinagem.

E lá estava ela, rompendo padrões: vagabunda, puta, piranha! Que gente racista. Preconceituosa. Ela enfrentava os padrões com os dentes! Jogava cartas com os pré-conceitos. Queimava os dogmas junto com as cinzas dos cigarros! E ainda assim sentia frio, medo, frio. Era uma pessoa comum. Frágil e comum. Indiferente e concentrada.

Ele costumava escrever as derrotas. Ela costumava ignorá-las.

Ele bebia whisky sem gelo. Ela, menta com hortelã.

Ambos sorriam quando alguém citava Almodóvar. Ninguém achava graça. E nenhum dos dois sabia o porquê.

Ele andava de bicicleta. Tinha sido roubado.

Ela de carro, assaltada por Pm's na 25 de março.

Juntavam os cacos uma vez por mês e resolviam deixar o caos se instalar. Não funcionava.

Acabavam na cama, depois de quatro doses de martini gelado.


terça-feira, 24 de julho de 2007

Dormiu até dormir

Em coma. Há seis meses que ele está em coma, sr. Voz grave. Falsa emoção de dor.

Um bom ator.

Como assim. Voltemos ao início. Eu tomei um whisky sem gelo com Nato. Ele recusou as pedras de gelo, o que habitualmente fugia do padrão. Eu demorei a perceber o que estava errado. Um telefonema. Dois telefonemas. E aí eu cheguei no hospital de St. Mary. Eram doze horas. Estava claro. E eu tinha uma coca-cola gelada numa das mãos e um amigo em coma.

Tudo estava meio branco. As paredes do consultório, do hospital, os uniformes, o pipoqueiro na saída do prédio e metade da folha de ofício que eu guardara no bolso esquerdo da calça jeans.

O teto não. O teto era bege.

Nato perdeu-se. O doutor explicava, usava metáforas(e o puto era bom de metáforas), me pedagogizava, me educava, castrava meus instintos, em prol de uma explicação objetiva. Os fatos estavam dados. Um amigo em coma, uma conta grande para pagar, um leito sem fiador.

Eram caminhos para o xadrez. Podiam aliás, pintar o leito de xadrez. Combinaria com Nato.

Nato era um homem sincero, meia idade, costumava bebericar nos finais de semana em pontualides britânicas. A rotina, a realidade conseguiram o chatear. E o que você faz com o que lhe chateia. Pede mais duas pedras de gelo e diz foda-se para o mundo.

Mas Nato conseguiu ir além. Quer dizer. O além ainda não era parte de Nato. Faltava mais um ou dois pontos antes do purgatório.

Eu brincava com o anel da latinha de coca-cola, sacudia os ombros e via Nato cheio de parafusos, mangueiras e aparelhos respiratórios. A vontade que eu tinha era levar o puto para um bar. Até sorri, quando imaginei Nato tomando um martini numa quinta a tarde com meia dúzia de catéters pendurados no corpo.

Nato. Homem que resolveu sonhar.

Tudo começou num poema. Este era o poema.

...
.....
.......


Mas poemas e sonhos eram todos iguais.

Resolveu não dormir mais.

No início apenas força de vontade. Após, estimulantes.

Cafeína. Anfetaminas, derivados do tipo.

Caía em si. Era um beat generation deslocado do tempo. Era a vez da yoga e da meditação. Apeasr do que não conseguiria forçar gravitações aleatórias.

Randômico.

Resolveu não acordar mais. Dormir era melhor do que sonhar. Por que no mundo de orpheu não haviam opressivas leis da gravidade.

E pensou ser melhor, enquanto Vasilli dormia, profundamente o sonho dos incautos.


(melhoramentos virão)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O curto verão do amor

Te amei
Por curtos dias
Te amei
Intensamente movi, cada grama
Da minha paixão em tua direção
Curta estação durou nosso amor
Morto antes do final do verão
Sobrou apenas tristeza em pedaços


Vigorosas tragédias
No escuro repartem
Um eu que não cabe
Mais em ti

Cujas fracas capacidades
Não possuem, de terminar
Um simples poema


segunda-feira, 16 de julho de 2007

Mesa de Vidro


Fumou o último cigarro do maço. A carreira de pó estava sobre a mesa de vidro. Hoje ele não iria cheirar, estava sem dormir há 4 dias.

Luana e Serena se revezavam com o canudinho improvisado da nota de 10. Tentou apostar mentalmente se iriam se agarrar antes das três ou iriam morgar no sofá do corredor.

Já estiveram em dias melhores. Há dois anos atrás era possível cheirar com uma nota de 100.

Mas eram maus tempos aqueles.

Estava insuportávelmente quente. Talvez fosse por isso que não conseguira raciocinar sobre quantas cervejas sobraram no congelador; ou talvez fossem as anfetaminas, não importa, um bem apertado equilibraria a situação.

Já eram duas e cinqüenta e sete quando resolveu descer e pegar mais cervejas, o colchão estava rasgado, haviam três camisinhas, um papel onde lia-se "compra-se ouro" e quatro moedas de 1 real sobre a estante de mogno, o rádio estava ligado e tocava "Riders on The Storm" do The Doors, the killer on the road como planejara antecipadamente. Luana e Serena já se pegavam; ignorado, resolveu cheirar o pó que sobrara antes das cervejas, tropeçou nos tacos quebrados da sala e caiu dentro.

Dentro era uma boa oposição.

Tinha fermento barato na coca, podia sentir claramente, era fermento royal, com aquela embalagem que não muda com o tempo, imutável, detestável. Não apreciava o estático. Seu mundo não era seguro. Mas os viciados mudam, pensou antes de sorrir ao espelho retirando espinhas e alisando a barba não-feita.

Os viciados mudam.

Vidrado, viciado, lembra vidro, lembra mesa de vidro, lembra a última carreira de pó que ele esqueceu de cheirar. Com o canudinho da nota de 10.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sonhos que não aconteceram

Subo as escadas. Encontro uma passagem à esquerda. Há quebra-cabeças a serem montados. Saio, subo mais escadas. Entro no vagão do trem. Está cheio. Uma música francesa no fundo. Eu desco. Pego flores. Chuva de rosas. Pétalas. Cubro-me. Está frio. Caminho pelo frio. Paralelepípedos. A ruiva sentada num deles. Eu olho para o sol, para as grades verdes. Ela desaparece em seguir. Há cigarros no meu bolso. Eu tento acendê-los. Há uma árvore. Não há isqueiro. Notas amassadas, pontos amassados, placas enferrujadas e uma caneta no bolso direito.

Venta demais. Está frio, escuro, é parte da noite. Caminho. Há um gramado. Uma pedra, uma cachoeira, um lago agradável e um encontro que não aconteceu. Há um círculo no meio disto tudo.

Eu fecho o livro. As borboletas ensaiam uma nova esperança. Novamente, fecho e abro ciclos.

Espanto a monotonia. E os dias incrívelmente demoram a passar.

sábado, 7 de julho de 2007

Meu primeiro dia de férias

Férias combinam com descanso, contrariando assertivas o emprego porção simples descartável que eu arrumei moía meus ossos, carne e espírito nem tanto, pois eu precisava realmente me alienar sabe. Apertar alguns botões. E nada melhor do que um emprego temporário ruim para realizar tal tarefa, afinal de alienação o capitalismo supera quaisquer concorrentes.

Sarcasmos e ironias a parte, nem meu fracasso homérico no curso de alemão, nem meu encontro com minha afta, diga-se de passagem cada vez menos inflamada, conseguiram destruir meu humor naquele dia. E foi fácil discutir os sete ensaios da realidade peruana sob sete cervejas da confraternização dos meus sete, desculpe não rimou, mas eram un 20 ou 21 amigos de classe proto-historiadores.

A caminhada até a Lapa rendeu algumas belas visões do Rio antigo, as escadinhas, os azulejos, as cores do marginal, do contrário, me rendiam boas intuições. Aliás, segundo o teste do "Cognitive Process" sou um intuitivo extrovertido com 42,9 % de desenvolvimento destas capacidades, o que segundo este, consigo deslocar a dinâmica de uma situação e explorar possibilidades potencialmente imaginativas. Sim, o "Cognitive Process" está correto. All right. Sehr Gut. Eu exploro demais estas situações por que são estas que me trazem algum significado que me fazem aturar boa parte do mundo cinza que criaram para mim, para nós, sem nos consultar se permitíamos tal ofensa aos instintos e desejos livres da vida.

Atravessei a Lapa até a praça Tiradentes, como de costume, costurando a rua da Carioca e amaldiçoando a estátua de D. Pedro II. Tão imponente e ridículo ao mesmo tempo. Meu ônibus aguardava-me no ponto, e como de costume, pensei com a coragem etílica e a subversão natural que me embalava o retorno para casa, naturalmente não pagar a passagem, viva a desobediência civil, pequenos atos; a oportunidade surgiu com um senhor que entrara pela porta de trás e eu furtivamente o acompanhei.

O motorista no entanto percebeu tal artimanha, e perguntou ao senhor se eu era seu acompanhante(afinal acompanhantes de pessoas idosas, deficientes visuais ou portadores de necessidades visuais não pagam passagem), para minha surpresa ele afirmou que sim, e começamos a conversar.

Ele era cego, contei a ele que estava sem dinheiro(e realmente estava) e que por isso não podia pagar a passagem. Ele me pediu para eu descê-lo na passarela 9 da Av. brasil.

Na hora achei graça, graça talvez nem seja(e não é provávelmente) a palavra correta, mas piadas internas a parte, o 9 me persegue há alguns anos e nada mais natural que tudo aconteça de forma cabalística neste momento que eu me ordenei, de forma um tanto autoritária a invadir o desfiladeiro do inconsciente, retornar a origem, buscando não respostas, mas iniciando o caminho.

Folhear o Tao Te Ching religiosamente antes de dormir ou escutar Amnesiac do Radiohead para embalar o caminho dos sonhos pode parecer profusamente confuso, mas na realidade as coisas só se modificam quando há pó de estrelas tentando acender uma supernova de introspecção.

É perigoso ser tragado, como um buraco negro zombeteiro que nega as leis da física e dobra o espaço-emoção em cacos disformes de dúvida ou assombro, mas faz parte do processo se endividar emocionalmente, saber o que realmente acontece, onde está o yin e o yang, o que fazem, como se comportam e por que diabos a criatividade resolve nos abandonar.

No ônibus, o senhor continuava, eu escutava mais do que falava, e também, estupefato pelo impacto sincrônico e da impressão sensorial que eu estava tendo, não consegui articular nada mais do que cinco ou seis frases. Ele catava papelão. Era cego... Sobrevivia assim. Disse que se deus quiser ele conseguiria ficar bom da vista..."

Aquilo foi indescritível. O raciocínio se perdera assim como eu perdi parte do que planejei para este pseudo-conto por que as palavras como bem disse Nietzsche são uma "serpente"; e afinal, nunca representarão(ainda mais com minha inabilidade poética e gramatical) o que realmente sentimos, vivemos, tocamos.

Talvez não esteja com tanta criatividade assim. O fato é que o cansaço me obriga a terminar um conto que poderia ser muito melhor do que meras frases farfalhantes de efeito moral.

Mas o cego... O cego era eu número 09... Estava cego de luz. Não é preciso olhos para enxergar. Eu tenho os meus e ainda me sinto tão cego. Lição que a passarela 09 e o senhor que eu ajudei a descer no ponto jamais me negarão na lembrança. Não é preciso entender muito para iluminar-se ou falar muito para fazer entender.

Aqueles olhos esbranquiçados, e voz calma e pausada, foram suficiente para eu tomar um bom banho de pó de estrelas e sentir o gosto da vida outra vez.

E como diria Lao Tse: "Quem se ergue às alturas sem desejo, enche de silêncio o coração."