quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A Ruiva e os paralelepípedos amarelos


No fundo musical... Cat Power

Ah Ruiva. Como eu queria que você estivesse comigo quando eu subi aquela rua de paralelepípedos tão extensos. Pude sentir você sussurrando em meus ouvidos: chore, vai, chora... você precisa disso... E eu pude perceber na terceira, ou na quarta casa de tijolos amarelos, que meu caminhar, minha respiração estavam tão carregados Ruiva. E aí eu resolvi brecar ruiva.

Parar tudo. A revolução, as caminhadas, o esforço ruiva. Tudo tem de parar, antes que eu me perca, o que aliás é falso; já estou completamente perdido.

O horizonte estava cinza, ontem eu dormi no chão do meu quarto ruiva, ontem eu tinha visto alguns ratos imaginários correndo pelo piso do quarto. Ontem eu respirei um céu pesado, dobrei meus joelhos; minhas pupilas doíam, mas mesmo assim eu acordei e fui para aquela praça que você adora ruiva, uma praça singela, bonita, insignificante demais para ser percebida no subúrbio, mas eu cheguei lá ruiva. Fumei meu maldito cigarro, depois resolvi comprar um café bem forte pra me manter acordado.

Perambulei pela Biblioteca Nacional, pelo centro da cidade, vaguei até encontrar um banco vazio dentro de um prédio público. Eu deitei lá, com a cabeça para cima, com minha mochila servindo de travesseiro e tentei cochilar um pouco... Fui em busca de mais livros, tive que tratar com aquele idiota que vende livros na central do Brasil, mas foi por uma boa causa, consegui almoçar e ainda me restaram alguns trocados que me fizeram conseguir comprar as malditas pilhas recarregáveis que eu tanto procurava.

Jejuei de noite, só pra me sentir mais iluminado e próximo do quê eu não sei ruiva, mas eu estava próximo de alguma coisa que transcende a minha simples existência.

Enquanto eu cochilava, eu sentia meus pés flutuarem, e um pouco de esgotamento. Não aguento mais ruiva, não aguento mais viver das sobras, do resto. No início até parece divertido viver com esta neo-pobreza material e de espírito(espírito não, é melhor dizer destino), mas no balanço final não há muito o que comemorar. Eu envelheci demais, apesar do que a contagem do tempo se estagnou, o tempo definitivamente não é um bom aliado.

Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade, às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, você fingia que não queria me beijar, mas me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos intensamente; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram sempre as mesmas frases. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado. Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco...

E me deixava envolver neste joguete, enquanto algumas idéias malucas iam voando por entre os paralelepípedos. E aí eu estava. Sozinho caminhando por entre os mesmos paralelepípedos amarelos, fuçando quartos azuis, alguns com luzes de neon roxas. Em festas vazias, cheias de gente incompleta eu me senti, me sentia inadaptado, inadaptável, inadaptável demais para conseguir aturar mais do que duas ou três horas de simulacros humanos vazios movendo-se caóticamente em torno do quê ruiva, do quê ruiva? Eu não sei. Eles não buscam. Eles são. Esta é a diferença dos fracassados para os hedonistas. Eles apenas são. Acuse-os de medíocre, sem objetivo, mas é assim que eles conseguem ser felizes sem ter de tomar seis comprimidos de valium durante 1 mês. Ou como eu não ficaria, sem precisar manter-me acordado durante 72h.

Ruiva, estes dias tem sido pesados. As lágrimas estão escorrendo de maneira mais habitual e há um pouco de iluminação nisto tudo. Diante do abismo inicial ruiva há uma nuvem negra que se aproxima em tom de deboche. Há um pouco de caos espalhado sobre a mesa do meu quarto. Indícios do prenúncio da chuva de problemas. E quando isto ocorre, eu apenas deito na cama e tento trabalhar meus sentimentos. Eu me jogo no colchão Ruiva, olho para um ponto fixo na parede branca e deixo os pensamentos fluírem livremente. Nestes momentos sinto o quão pesada, bruta e mal lapidada é a mente ocidental Ruiva.

Abandonei os copos de vodka e as cervejas nos dias de semana, por que este era o último bastião Ruiva, o último bastião da degradação parcelada. Eu juntei algumas tintas hoje e pintei um quadro que eu chamei de Fusão. Básicamente era composto de duas cores, azul e amarelo, que se entrecortavam e se chocavam gerando um terceiro elemento, um verde discreto, tímido. A verdadeira síntese. Síntese do quê exatamente eu não sei Ruiva.

Ontem, eu achei alguns livros de literatura Argentina Ruiva, foi tão emocionante. Tive sorte, pois procurava estes livros há meses e os comprei por uma verdadeira bagatela.

Ruiva eu lhe encontrei semana passada. Você não estava lá verdadeiramente, mas para mim, era você lá. Na verdade eu lhe encontrei dividida em diversas situações. Na sexta-feira de tarde eu conversei com você dentro de uma sala de aula, no sábado de manhã eu lhe carreguei até a minha biblioteca preferida, e no domingo eu esbarrei com você num sarau barato organizado por meia dúzia de literatos fracassados.

Maluco, bobo. Adorava olhar para seus lábios ruiva. Mas agora não há lábios a enxergar. Há apenas um vazio. Um vazio profundo. Que precisa ser preenchido. Não por você Ruiva. Você já teve sua chance. Nem por outra Ruiva. Eu estou me preenchendo. E obras normalmente são lentas. Ainda mais quando não sei com que tijolos iniciá-las.

É por isto Ruiva que eu escrevo cartas a você. E te agarrava com força. Te beijava a exaustão.

Redundante Ruiva, Ruiva, nuvem negra.

Pontos fixos são parte da solução. Deixar fluir. E aqueles exercícios de respiração que você me ensinou Ruiva...

Vou me indo Ruiva, vou me chocar num terceiro elemento. Vou me fundir em parte alguma de mim. vou me fundir ruiva. Fundir. Não fugir. Por que ninguém consegue fugir de si mesmo.



sábado, 15 de setembro de 2007

Uma canja...

É nisso que estou trabalhando atualmente... Já faz algumas semanas... Pretendo preenchê-lo de vida aos poucos. Aí vai um trecho.

"Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade, às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, você fingia que não queria me beijar, mas me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos intensamente; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram sempre as mesmas frases. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado. Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco..."

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Mais sonhos... mais contos...

Provávelmente do dia 11 para o dia 12 de setembro.

Minha atividade consciente de escrever contos está praticamente interrompida atualmente. No entanto inconscientemente estou mais ativo do que nunca. E muito surpreso com tudo isto diga-se de passagem.


Sonhei que começava a flutuar, de maneira brusca, ia subindo, perdendo o controle do meu corpo e começava a voar em alta velocidade. Ia tentando ajeitar meu corpo para controlar a velocidade e o destino. Tentei subir para não cair no chão em alta velocidade. Fui subindo muito rápido, atravessei as nuvens e a cidade, o bairro ficara muito menor. E depois sumira. Fiquei com medo de subir demasiadamente ou de ser acertado por um avião e tentei descer, já conseguindo controlar melhor o corpo. Comecei a aproveitar melhor a viagem. Pensei, estou voando! Que legal!

Até que descortinadas as nuvens eu me deparo com a visão de uma estupenda e imensa cidade. Um palácio gigantesco, algo que eu nunca vi tão grande, com torres altas, se não me engano vermelhas, vejo uma grande escultura de águia com detalhes perfeitos nesta parte central da cidade, que foi a única que visualizei, e a partir disto meu corpo começa a como ser puxado lentamente até o solo. E eu desço, como se a isto fosse impelido.

Tudo na cidade é estupendo, grande, um excesso arquitetônico de formas e prédios. Vejo um templo. Eu entro. A águia está lá dentro, eu deito em cima dela, como se abraçasse. Há pessoas dentro do templo, elas jogam capoeira. Há uma pequena movimentação. E eu resolvo participar da dança. Sem pensar exatamente como voltaria. Como sairia de lá. Jogo capoeira com os cidadãos de lá e depois... acordo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Contos do Inconsciente

Estes dois sonhos me impressionaram. Perderei semanas tentando interpretá-los. Mas sinto que se conseguir fazê-lo as coisas daqui para frente ficarão bem claras. O mais impressionante, é que na segunda de manhã, assisti um filme na aula de socilogia que fala sobre uma menina vivendo na ditadura do Talibã, que se disfarça de menino durante algum tempo. De certa forma há sincronia com o segundo sonho e eu fiquei impressionado ao ver o filme. Dei nome aos dois, pois parecem contos.

A mina marrom (Semana passada, algo entre 03 do 09 e 08 do 09)

Estou numa caverna. Na verdade é uma mina, bem profunda, com paredes marrons. Converso com alguns companheiros. Há uma espécie de gerador que dá iluminação pra mina. Um companheiro reflete que outro companheiro irá chegar, como se desse a entender que se o gerador continuar a dar problemas seria algo que mostraria nossa incompetência em fazer o gerador funcionar e seria então, melhor desligá-lo ou deixá-lo funcionar como está. Há algumas partes com água. Em determinada parte da mina, eu não tenho(ou na verdade não sinto) coragem de passar. É uma parte mais estreita, pelo menos o teto é mais baixo. Há um objeto metálico fincado em uma das paredes no final deste corredor. Objeto que eu não consigo identificar bem o que é, mas reluz um pouco de longe.

Alguém me manda seguir. Mas sozinho eu não vou, penso eu. Até que de maneira impressionante, surge um outro "eu", físicamente idêntico a mim. Com ele eu vou. Sinto coragem. Descemos ao final da mina. Ambos. Eu vou com um pouco de medo. E olho para o objeto reluzente. É uma espécie de metal retorcido, não muito maior do que minha mão. Algum símbolo, alguma coisa estranha, aparentemente sem utilidades. Eu olho para o lado da mina, não há mais passagem. Eu penso na possibilidade dela desabar. Eu passo a mão em suas paredes. Há protuberâncias disformes, pedaços de cascalho. Como se faz uma mina eu pergunto. Uma empresa vem, gasta bilhões e a mina está pronta. Eu apareço no quintal da casa da minha vó, perto da minha casa. Eu acordo.

A mulher, o velho, o paranormal e a criança(do dia 10 para o dia 11 de setembro)

Estou eu e meu primo, andando perto de uma universidade. Parece a UERJ, mas não é, entre a rua e a UERJ há cercas de arame, na verdade alambrados, como esses de eventos públicos. Entramos pela parte da UERJ, por uma espécie de passarela. Há toda uma preparação dentro destes alambrados para uma espécie de show. Parece que vai ser funk. Há uma fila imensa de pessoas na parte de fora, aglomeradas para entrar. É muita gente. E eu converso com ele sobre isto. As pessoas começam a entrar. Há geradores, fios, caixas de som no evento. Eu e ele resolvemos sair antes que o evento fique muito cheio. E eu penso sobre a facilidade de se entrar por esta parte de trás, sem precisar pagar nada. Como eu não gosto do estilo musical eu volto em direção a faculdade.

Eu chego num prédio. Um prédio grande, com janelas e vidros transparentes bem visíveis. Estou em alguma cidade que não conheço, ou nunca fui. Eu subo o prédio e chego numa sala. É uma sala curta, há uma espécie de quadro branco, pessoas aglomeradas das quais sinto que conheço, ou pelo menos permaneço sem maiores embaraços. Há uma mulher que é a oradora, ou expositora de algum tema, ela parece bem disciplinadora, e eu não gosto dela por algum motivo. Ela senta numa cadeira. Com um movimento de olhos, eu giro a cadeira por telecinese, forçando lentamente a cadeira a desiquilibrar-se rumo a um recorte na parede e ela bate a cabeça nesta quina. Ela comenta algo sobre o acontecido, sobre a possibilidade de ter sido algum et. Sim, os ets estão vindo aqui frequentemente, ela diz.

Eu ainda quero irritá-la eu acho, sem que ela perceba. Eu faço(tudo mediante a telecinese) com que um dos tapumes de compensado que forram o teto cai no meio da sala. Ela percebe que fui eu. Um dos alunos começa a discutir comigo, insinuando que tinha sido eu. E começa a descrever algo sobre mim. Eu falo algo para ele relativo a ter um cinto de caveira, olho nos seus olhos de forma ameaçadora, meus olhos brilham com riscos cor de fogo em toda a pupila de maneira a intimidá-lo, como forma de demonstrar meus poderes. Há uma mulher mascarada dentro da sala. A tal professora, ou o que quer que seja, pergunta por que ela não pode tirar a máscara. você é wikka? É religião ou algo assim? A mascarada, que está com uma espécie de véu cobrindo o rosto e que exibe apenas seus olhos apenas confirma algo com a cabeça. Eu a conheço. E sinto algum medo sobre a possibilidade dela ser desmascarada. Ela é idêntica a mim. Tem o meu rosto. Mas é feminina. É o meu rosto, mas numa mulher.

Eu olho para uma das janelas, há uma gigantesca nave negra com grandes propulsores passando pela lateral do prédio.

Eu aviso a todos, que os alienígenas chegaram, que há etês lá fora. As pessoas se alvoroçam. Eu resolvo sair dali. E levo comigo duas pessoas, que eu não me recordo se estavam na sala. Um velho, um ancião. E uma criança.

A mascarada eu deixo lá. Não a salvei ou pensei em salvar por algum motivo. Eu procuro saídas. E resolvo sair por uma das saídas laterais, acho que a direita. Não sei como descer do prédio. Afinal este por algum motivo, não tinha escadas ou elevador. As janelas estão abertas, são grandes e não tem vidraças. Eu salto com o velho e com a criança, uso meus poderes e crio uma rajada de vento para amortecer a queda.
Conseguimos descer. Eu tento correr. A nave negra com seus imensos propulsores se move e está sobre mim, há um vento muito intenso que me nubla a visão e que atrapalha todo o meu movimento. Eu consigo correr. Há um gramado e um rio que o corta. As pessoas estão correndo de um lado ao outro, a nave ficou para trás. O velho e a criança estão comigo, bem próximos. Um carro desgovernado vem em direção a mim, eu protejo o velho e a criança e com meu poder telecinético vou detendo o avanço do carro com dificuldade, parece que ele vai me atropelar, mas minhas rajadas de vento o fazem capotar para trás. Eu decido deixá-lo capotado para não causar mais confusões, por que me pareceu meio intencional ele ter me atropelado.

Eu prossigo e procuro um carro para andar mais rápido. Descarto um ou outro, e acho um carro laranja, de formas arredondadas Eu entro nele e dirijo, peço para o velho e a criança entrarem. O velho é magro, tem barbas brancas e cabelo desgrenhado eu acho. Eles pulam no carro. Eu dirijo Olho para a direita, há vários prédios, não sei para onde ir. Resolvo ir para a esquerda, mas há um lago por lá, eu perco a direção e o carro está indo para o lago, alguém, ou o velho ou a criança, gritam, que para aí não, vamos cair. Eu crio uma ponte invisível que sustenta o carro antes que ele afunde no lago. Nós conseguimos descer. Eu tenho a sensação que esta parte da cidade é seu extremo. Não há como ir para lugar nenhum. O espaço acabou ali. Eu sigo o gramado, mas uma série de homens tribais, de cor amarelada, começam a surgir por toda parte. Não sei se são os etês. Eles vem em minha direção e parecem ser agressivos. Eu grito ao velho e a criança: Fiquem atrás de mim!

Eles tem lanças e facas. Eu crio a partir da terra e da lama um golem que soca o primeiro tribal. Eu o arremesso longe. O segundo golpe joga o tribal para bem longe. Eu penso que naquele trecho onde estou(onde o carro laranja quase afundou) há algum tipo de passagem subterrânea para onde conseguiríamos fugir. Eu soco mais alguns tribais. Um deles entra em luta corporal comigo e quando tenta me esfaquear já não estou mais ali.

Estou num corredor de um prédio de apartamentos de alguém que parece ser um amigo. Ele usa óculos. E eu na verdade estava demonstrando como o tribal tentou me esfaquear, contando tudo a ele.

Eu acordo.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Insônia

Meu corpo está clamando por pontos finais seguidos de parágrafos bem longos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Marcadores

Dividi o blog todo em marcadores. Isto significa que, abaixo de todo o texto, há algumas palavra chaves após marcadores. Clicando na palavra escolhida aparecerão apenas os textos onde existem esses marcadores.

Existem vários marcadores. O que mais me atraiu e o que eu acho que pode ser útil, é o marcador: Sob efeito leve, sob efeito moderado e sob efeito pesado de cerveja. Clicando nestes marcadores é possível saber com exatidão quais textos escrevi levemente, parcialmente, ou completamente bêbado. Os textos escritos sob o efeito de insônia também estão devidamente marcados. Agora realmente é que fui entender a praticidade dos temíveis marcadores. Viva a tecnologia, capaz de nos conectar ao mundo todo, nos isolando.

Produzir essas merdas é fácil

Completava seis semanas de isolamento. Era hora de voltar para o Rio. Pegou a BR no dia doze, e pretendia voltar no dia 19, mais por contigências, por determinadas situações acabou ficando seis semanas. Seis longas semanas. Não sabia mais o que era. Tinha apenas uma ligeira impressão.

Amassou o cigarro na bota, fez sinal para o ônibus e partiu.

A janela do coletivo lhe deu boas impressões. O sereno firme, posterior chuva irritante, embaçava os vidros, tocava John Coltrane no fundo. Música ambiente. Tudo proporcionado pela empresa de ônibus.

Não havia mais jeito. Não havia mais fuga. Fugir era inútil. E agora ele sabia disto. O mundo era demasiadamente pequeno. Isto o irritava, por que um viciado pelo novo não conseguiria relaxar no Rio de Janeiro. A cidade inteira se conhecia. Cidade estressante. E era verdade. Não aguentava mais frequentar o velho. Arcos Velhos, festas velhas, pessoas velhas, velhas conhecidas. Antigos bares, festas e situações. Estava exausto disto tudo.

Não via mais honestidade nas pessoas, apenas promessas, teatros. Quando ele odiava odiava mesmo. Era difícil voltar atrás. Conhecia poucos casos onde conseguira voltar atrás.

Poucos mesmo. Mais que merda! Que merda! Gritou dentro do ônibus! Que merda de mundo! Caralho! Que teatrinho de merda! Vão pra puta que pariu! Desceu. Andou. Estava perto do caos. Pegou outra condução, foi para a rodoviária. Perambulou, comprou uma dose de menta, sentou, deitou, olhou as estrelas. Voltou pro apartamento vazio do centro. Abriu a porta. Acendeu um incenso, abriu a janela para entrar ar. O telefone tocou.

Pisou, esmigalhou com raiva e não satisfeito arrancou o fio que o prendia

Foi pra cozinha, colocou algo para cozinhar, comeu, engoliu, merda de alimentação. Abriu uma garrafa de vodka, espremeu alguns limões, tomou uma caipivodka escutando Coltrane novamente. Agora deliberadamente.

Percebeu um ou dois envelopes, por baixo da porta. Largou o copo, pegou-os, rasgou e começou a ler. Promoções, e uma conta de luz. Nada demais. Não era tão importante assim para receber cartas em casa. Chutou a porra dos envelopes.

Não tinha mais nada pra pensar. Dormiu abraçado com a vodka. Se alguém batesse na porta gritaria um foda-se já anteriormente ensaiado.

Mas que merda de dia misantropo, pensou antes de cochilar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Morre e ainda me assombra - Jeff Buckley

Trecho da Música - Liliac Wine

"When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more that I ought to drink
Because (it) brings me back you..."

"Quando eu penso mais do que eu quero pensar
Faço coisas que eu nunca deveria fazer
Eu bebo muito mais do que eu poderia beber
Por que (isto) me traz você de volta..."

Parando para pensar e pensando para parar

Não tenho a intenção de achar maneiras de acabar com a depressão. A depressão traz a lentidão, um movimento contrário à mania, intimidade. Ela abre a porta a algum tipo de beleza. Logo, parece haver algo lá dentro além da forma como você, o ego, enxerga,” (James Hilman)

Já faz algum tempo(não muito é verdade) que eu resolvi parar. Parar. Tudo começou com o Wu-wei do taoísmo, a não-ação. Contudo eu fui além. Além do Wu-wei. Fui, mas não estou.

É engraçado. Tudo começou com uma discussão política. Sobre a metáfora do trem. O trem que deve parar na estação. O trem que se movimenta mais rápido do que eu. Mais caralho, quem é que move a porra do trem? Sou eu. Somos nós. Todos nós. No meu caso particular: eu. O trem está se movendo mais rápido por que há pessoas movendo a porra do trem mais rápido do que podem suportar. No caso eu. "Há muito trabalho a ser feito". Há. Há muita coisa a ser feita. Eu enxergo o todo. Eu coloco o todo nas costas. Não tenho que parar? Será mesmo?

E quando não é a paixão que me move, quando não é o desejo, quando é simplesmente uma mania, idéia fixa. Algo que eu sou movido. É isso mesmo? Viverei assim? Não é hora de brecar. De pisar no freio. De dizer: chega!

Não é hora da reflexão? Conseguirei? Será que o que eu movo é parte de mim a ponto de se eu tiver que me livrar disto, mato uma parte do meu eu?

Pois bem. Penso em parar. Em parar por algum tempo. E só penso: "há pessoas que precisam de mim". Mas que merda cristã! Mas que merda cristã! Desejo eu viver na transcendência? É isso mesmo?

Não é hora de parar? Não seria a hora exata de parar? Irresponsável! Talvez sim! Talvez Sim! Já fiz muito avanços, penso eu! Já consegui dosar exatamente onde posso focalizar. Onde posso atuar.

Mas ainda assim, ainda assim. Dúvidas me cercam. Dúvidas existenciais. E quem não as teve que atire a primeira pedra! Estou em tudo! Estou em tudo! Estou em nada? Não... Estou mesmo. Estou. Mas quando pensei em mim? Quando foi a última vez que estive integrado. Quando foi que voltei os holofotes pro meu eu?

É tão divertido! Caramba! Sonhos a parte eu me divirto com tudo isso! Divirto-me em mudar o mundo! Gosto de ser odiado! Odeie-me burguesia! Odeie-me! Piadas internas!

O que sou? Sou parte da transcedência, ela é parte de mim! Há algo superior nisto tudo? A mudança! A mudança!

E o que quero. O que desejo. Alguém que simplesmente compartilhe da mania? Alguém com idéias fixas? Não posso parar então? Tenho que fazer alguém acelerar? Mas que merda egoísta! Que merda obreirista! Que ritmo fabril!

Febril!!!

Fiquei doente esta semana. Resfriado. Vírus. Foi necessário pra parar. Não me parou totalmente. O que mais preciso pra parar. O que mais?

Sei lá. Divagações são necessárias.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Seu coração era um cinzeiro


O cinzeiro estava cheio de guimbas, de cinzas, de lágrimas. Seu coração era um cinzeiro. Latas de cerveja vazias, alguns cubos de gelo derretendo em cima da pia. A cozinha estava suja.

Evitou-a fumando um cigarro na sala. Abriu a janela, viu a lua, parcialmente escondida , parcialmente exposta. Livros amontoados na sala, cd's velhos, um sofá com um rasgo em um dos assentos e uma garrafa de vodka metade vazia e metade cheia(de hábitos).

Enfrentaria seus fantasmas com as gengivas sangrando se for necessário. Não tinha medo da dor. Aprendera boas lições com o passado, aprendera boas lições e tragaria o último gole de esperança com um pouco de coragem entre os dentes. Chafurdaria-se nas lamas do inconsciente. Iria até o fundo se necessário. Não tinha medo da tempestade. Era um desbravador. Tornaria-se o que era, o que é. Iria se buscar nos abismos emocionais, iria resgatar-se do limbo, iria salvar a si mesmo. Seria seu próprio redentor. Sua redenção do-it-yourself embalada em embalagem a vácuo.

Por enquanto, apesar do discurso, possuía apenas uma vidinha medíocre e contas a pagar; sem nos esquecermos da lasanha políticamente incorreta que guardava no congelador há meses.

Olhava para a mesa de vidro e seu reflexo. Sentiu vontade de chorar. Escorregou do sofá e sentou no chão, cruzou as pernas, apagou o cigarro e enquanto tamborilava os dedos na mesa, pensou em não-agir. Em não pensar. Era preciso se encontrar. Era preciso parar e não pensar.

As coisas ferviam lá fora. A maldade tinha lhe encontrado em duas ou três ocasiões, mas conseguira esquivar-se. Estava vivo e expectativas demasiadas só traziam problemas demasiados.

Contentaria-se com o pouco. Este era seu plano. Habituar-se com o necessário. Sem excessos. Sem excessos, sobreviveria. Café, alguma erva, cerveja e livros. Nada mais.

No quesito afetivo, seguiria a mesma recomendação: casos esporádicos, afetos ocasionais, sem compromissos, sexo casual, nada mais.

Era um bom filósofo de bar. Também não almejava muito além. Algumas cervejas e janelas de ônibus, serviam-lhe farto material filosófico; sentia-se feliz.

Na segunda tragada começou a sorrir. Era curioso, considerava-se um péssimo ator, e normalmente era. Mas quando do caos interno e introspectivo feito em maiores graus que suas máscaras, o lodo aflorava.

Pegou o metrô, escorou-se em uma das portas, lembrou de Paris, da Catalunha, lembrou da Av. Presidente Vargas. Desceu as escadas, olhava as faces ocultas, tentava adivinhar o que pensavam de si próprios, o que pensavam dele e o que pensavam da vida. Ao chegar na rua da Alfândega, ficou costurando os transeuntes como de costume, era um bom esporte, salgados chineses, pessoas na rua, panfletos que jamais pegava, sextas-feiras repetitivas.

No Largo de São Francisco sempre esbarrava com uma alma incauta, um espírito do Rio novo, do Rio pós-moderno, da nova pútrida modernidade enciumada e encolerizada como de costume. Suas máscaras afloravam, consumidas por doses de café. Olhos fixos, sem açúcar e uma ligeira dor de cabeça o conduziram até casa.

Chamaremos aquela doce imundície de casa.

E quando olhou para aquele quadro velho, no intervalo dos comerciais da agradável insônia da madrugada, teve vontade de pintar, de fazer poesia, de cantar, mas nada aquilo aquietaria seu espírito. Bastava se retomar, perder-se dentro de seu caos, e fulgurar diante do nada com os desejos explodindo sua epiderme. Havia caos, havia luz, havia um pedaço de vida diante da morte programada e ele não se eximiria mais do seu destino. As cinzas cimentavam o novo caminho.

"É um "pessimismo-realista" que me motiva a viver." disse a si mesmo. Como assim? Há contradição nesta frase. Há sim. Há sim. Há muita contradição na vida. E no momento. Neste parágrafo, deste momento, ele pensava em continuar. Por que continuar era a única coisa que aprendeu a fazer em todos estes anos.

Agradecimento especial à Helena Dantas e seu poema que me inspirou o título acima.

domingo, 26 de agosto de 2007

Sobre o mês do desgosto

Decadência. Definitivamente não é o caminho meu amigo.

Este mês também não tem sido. Não tem sido. Definitivamente, não é.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Fernando Pessoa e seus heterônimos

Contemplou-me maravilhosamente bem...

Por Álvaro de Campos


Estou Cansado
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Divagações sem propósito - I

Algumas cervejas. Corpos na rua, defuntos na rua. Não é literatura. É vida real. Subúrbio, violência, segregação sócio-espacial. Bairros dormitórios. Trens, vagões, coletivos, pedaços de metal carregam o gado aos matadouros. Alguns morrem no caminho. Alguns caminham já mortos, apertam botões, consomem, apertam botões. Tento me encontrar, ao som de Cartola, ao som de Coltrane ao som do caralho a quatro, mas simplesmente a música perfeita fica sem função quando meus pés começam a doer. Os passos estão mais curtos, a vontade de mudança é a mesma, e eu me pego me chafurdando em zonas autônomas temporárias que eu não criei. Há poesia no fundo do poço, eu estou bem longe de lá: não terei este problema enquanto meus pés continuarem a doer.

As veias da urbe incham-se de sonhos, de pesadelos, há engarrafamentos nas sextas, há falsas sensações de liberdade na quinta, e há alguns travesseiros vazios nas terças. Há espaço para poesias nos intervalos dos ônibus que não chegam. Há um pouco de teatro no cotidiano que o cerca. Há vazios ocasionais. Há um mover frenético, uma luta extensa encobrindo algumas dores.

Dores urbanas, humanas, sazonais. Temporais.

Há um pouco disso tudo aí. Disso aí mesmo! É disto! Do que você falou, pensou. Um tudo que não se descreve em texto por que sinceramente não há paciência, nem pausa para tal coisa.

domingo, 19 de agosto de 2007

Flores

flores, quietas demais
para serem flores
rasas demais para terem cores
poetisas demais para sentirem dores

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

E(s) finges

Decifra-me ou me devoro!

Rápido!!

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Multiplicidades

É preciso perder um pouco de si
Para atingir o que se deseja
Mas atingir o que?
Se quando chegar, já não serei mais o que era?

E o que eu desejo?
Se meus desejos
São obra de um eu que faz perder-me
Todos os dias dentro de mim!

Devo caminhar mais um pouco?
Para voltar a ser o que eu era?
Mas não há retorno algum neste mundo!
Em que nada volta ao seu estado original!

Deste ser que não é
Resta um amontoado de soma, de somos
Pedaços vorazes, que competem entre si
Pelo meu próprio domínio

Mas de que bela contradição
É feita a natureza humana!

Isolation - Joy Division

In fear every day, every evening,
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love,
Surrendered to self preservation,
From others who care for themselves.
A blindness that touches perfection,
But hurts just like anything else.

Isolation, isolation, isolation.

Mother I tried please believe me,
I'm doing the best that I can.
I'm ashamed of the things I've been put through,
I'm ashamed of the person I am.

Isolation, isolation, isolation.

But if you could just see the beauty,
These things I could never describe,
These pleasures a wayward distraction,
This is my one lucky prize.

Isolation, isolation, isolation, isolation, isolation.

sábado, 11 de agosto de 2007

Mate a poesia

É preciso matar a poesia
Comê-la viva, diante dos olhos
Atentos do leitor
Destrinchá-la com raiva entre os dentes
Sem salvar palavras inocentes
E fazê-la esquartejada
Diante do sentido
Outrora perdido, vendido

Não há poema sem parto
Sem dor, antrofagonia
Ironia vadia!
Percorre urbanas hemáceas
Sobre as cinzas da rima-flor
Fútil flor
No vazio dos cacos
Há apenas narciso
Que me olhou
Cínico, vendido, vazio!
Poema, rimas...
Esquartejamento sem cor

Há parte da poesia
Espalhada no ardor
Do momento..
Do momento... Já morto!

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

mujeres y amor

Adorei esta poesia. Deste grande poeta e anarquista peruano.

Amor hace de la vida
Un morir amargo y lento;
Mas qué horrorosa la vida
De quien no vive muriendo!

(GRAFITOS, Manuel González Prada)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Agosto mês do desgosto





Tentativa de assalto e de apedrejamento, perda de oportunidade de emprego, notícias desagradáveis, sumiços temporários de bicicletas, reuniões estressantes, fantasmas inconvenientes-recorrentes, dívidas, enfim.

Nada disso vai me derrotar este mês!

Axioma de alento: Há farto material literário a disposição!

sábado, 4 de agosto de 2007

Menta com hortelã


Ela queria vingança. E ia buscar parte do queria naquela noite chuvosa. Chuva irritante. A obrigava conversar consigo mesma. E odiava ter que se confrontar.

Ele desejou paz. Apesar do dia nublado, da chuva, e da lama na perna esquerda da calça jeans terem lhe tirado o humor.

Acendeu um cigarro, tragou uma, duas, três decepções, mas ela não conseguia esquecer.

Azar o seu.

Era assim que falavam os niilistas. Era claro que o azar era seu. Pessoal e intransferível, como os cartões de crédito. Azar e cartões de créditos: analogias baratas, totalmente apropriadas para um domingo a noite.

Costumava intrigar-se como as letras formavam palavras e como estas se articulavam às frases. Frases que teciam metáforas, redações frustradas, recados, cartas de amor, textos acadêmicos e todo o lixo semiótico que costumava ler.

Ele foi beber cervejas. Estava gelada. Estúpidamente bebeu as cervejas geladas.

Era tudo muito estúpido mesmo. Copos vazios, cervejas cheias, um pouco do tudo inacabado, liberdade, caos, libertinagem.

E lá estava ela, rompendo padrões: vagabunda, puta, piranha! Que gente racista. Preconceituosa. Ela enfrentava os padrões com os dentes! Jogava cartas com os pré-conceitos. Queimava os dogmas junto com as cinzas dos cigarros! E ainda assim sentia frio, medo, frio. Era uma pessoa comum. Frágil e comum. Indiferente e concentrada.

Ele costumava escrever as derrotas. Ela costumava ignorá-las.

Ele bebia whisky sem gelo. Ela, menta com hortelã.

Ambos sorriam quando alguém citava Almodóvar. Ninguém achava graça. E nenhum dos dois sabia o porquê.

Ele andava de bicicleta. Tinha sido roubado.

Ela de carro, assaltada por Pm's na 25 de março.

Juntavam os cacos uma vez por mês e resolviam deixar o caos se instalar. Não funcionava.

Acabavam na cama, depois de quatro doses de martini gelado.


terça-feira, 24 de julho de 2007

Dormiu até dormir

Em coma. Há seis meses que ele está em coma, sr. Voz grave. Falsa emoção de dor.

Um bom ator.

Como assim. Voltemos ao início. Eu tomei um whisky sem gelo com Nato. Ele recusou as pedras de gelo, o que habitualmente fugia do padrão. Eu demorei a perceber o que estava errado. Um telefonema. Dois telefonemas. E aí eu cheguei no hospital de St. Mary. Eram doze horas. Estava claro. E eu tinha uma coca-cola gelada numa das mãos e um amigo em coma.

Tudo estava meio branco. As paredes do consultório, do hospital, os uniformes, o pipoqueiro na saída do prédio e metade da folha de ofício que eu guardara no bolso esquerdo da calça jeans.

O teto não. O teto era bege.

Nato perdeu-se. O doutor explicava, usava metáforas(e o puto era bom de metáforas), me pedagogizava, me educava, castrava meus instintos, em prol de uma explicação objetiva. Os fatos estavam dados. Um amigo em coma, uma conta grande para pagar, um leito sem fiador.

Eram caminhos para o xadrez. Podiam aliás, pintar o leito de xadrez. Combinaria com Nato.

Nato era um homem sincero, meia idade, costumava bebericar nos finais de semana em pontualides britânicas. A rotina, a realidade conseguiram o chatear. E o que você faz com o que lhe chateia. Pede mais duas pedras de gelo e diz foda-se para o mundo.

Mas Nato conseguiu ir além. Quer dizer. O além ainda não era parte de Nato. Faltava mais um ou dois pontos antes do purgatório.

Eu brincava com o anel da latinha de coca-cola, sacudia os ombros e via Nato cheio de parafusos, mangueiras e aparelhos respiratórios. A vontade que eu tinha era levar o puto para um bar. Até sorri, quando imaginei Nato tomando um martini numa quinta a tarde com meia dúzia de catéters pendurados no corpo.

Nato. Homem que resolveu sonhar.

Tudo começou num poema. Este era o poema.

...
.....
.......


Mas poemas e sonhos eram todos iguais.

Resolveu não dormir mais.

No início apenas força de vontade. Após, estimulantes.

Cafeína. Anfetaminas, derivados do tipo.

Caía em si. Era um beat generation deslocado do tempo. Era a vez da yoga e da meditação. Apeasr do que não conseguiria forçar gravitações aleatórias.

Randômico.

Resolveu não acordar mais. Dormir era melhor do que sonhar. Por que no mundo de orpheu não haviam opressivas leis da gravidade.

E pensou ser melhor, enquanto Vasilli dormia, profundamente o sonho dos incautos.


(melhoramentos virão)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O curto verão do amor

Te amei
Por curtos dias
Te amei
Intensamente movi, cada grama
Da minha paixão em tua direção
Curta estação durou nosso amor
Morto antes do final do verão
Sobrou apenas tristeza em pedaços


Vigorosas tragédias
No escuro repartem
Um eu que não cabe
Mais em ti

Cujas fracas capacidades
Não possuem, de terminar
Um simples poema


segunda-feira, 16 de julho de 2007

Mesa de Vidro


Fumou o último cigarro do maço. A carreira de pó estava sobre a mesa de vidro. Hoje ele não iria cheirar, estava sem dormir há 4 dias.

Luana e Serena se revezavam com o canudinho improvisado da nota de 10. Tentou apostar mentalmente se iriam se agarrar antes das três ou iriam morgar no sofá do corredor.

Já estiveram em dias melhores. Há dois anos atrás era possível cheirar com uma nota de 100.

Mas eram maus tempos aqueles.

Estava insuportávelmente quente. Talvez fosse por isso que não conseguira raciocinar sobre quantas cervejas sobraram no congelador; ou talvez fossem as anfetaminas, não importa, um bem apertado equilibraria a situação.

Já eram duas e cinqüenta e sete quando resolveu descer e pegar mais cervejas, o colchão estava rasgado, haviam três camisinhas, um papel onde lia-se "compra-se ouro" e quatro moedas de 1 real sobre a estante de mogno, o rádio estava ligado e tocava "Riders on The Storm" do The Doors, the killer on the road como planejara antecipadamente. Luana e Serena já se pegavam; ignorado, resolveu cheirar o pó que sobrara antes das cervejas, tropeçou nos tacos quebrados da sala e caiu dentro.

Dentro era uma boa oposição.

Tinha fermento barato na coca, podia sentir claramente, era fermento royal, com aquela embalagem que não muda com o tempo, imutável, detestável. Não apreciava o estático. Seu mundo não era seguro. Mas os viciados mudam, pensou antes de sorrir ao espelho retirando espinhas e alisando a barba não-feita.

Os viciados mudam.

Vidrado, viciado, lembra vidro, lembra mesa de vidro, lembra a última carreira de pó que ele esqueceu de cheirar. Com o canudinho da nota de 10.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sonhos que não aconteceram

Subo as escadas. Encontro uma passagem à esquerda. Há quebra-cabeças a serem montados. Saio, subo mais escadas. Entro no vagão do trem. Está cheio. Uma música francesa no fundo. Eu desco. Pego flores. Chuva de rosas. Pétalas. Cubro-me. Está frio. Caminho pelo frio. Paralelepípedos. A ruiva sentada num deles. Eu olho para o sol, para as grades verdes. Ela desaparece em seguir. Há cigarros no meu bolso. Eu tento acendê-los. Há uma árvore. Não há isqueiro. Notas amassadas, pontos amassados, placas enferrujadas e uma caneta no bolso direito.

Venta demais. Está frio, escuro, é parte da noite. Caminho. Há um gramado. Uma pedra, uma cachoeira, um lago agradável e um encontro que não aconteceu. Há um círculo no meio disto tudo.

Eu fecho o livro. As borboletas ensaiam uma nova esperança. Novamente, fecho e abro ciclos.

Espanto a monotonia. E os dias incrívelmente demoram a passar.

sábado, 7 de julho de 2007

Meu primeiro dia de férias

Férias combinam com descanso, contrariando assertivas o emprego porção simples descartável que eu arrumei moía meus ossos, carne e espírito nem tanto, pois eu precisava realmente me alienar sabe. Apertar alguns botões. E nada melhor do que um emprego temporário ruim para realizar tal tarefa, afinal de alienação o capitalismo supera quaisquer concorrentes.

Sarcasmos e ironias a parte, nem meu fracasso homérico no curso de alemão, nem meu encontro com minha afta, diga-se de passagem cada vez menos inflamada, conseguiram destruir meu humor naquele dia. E foi fácil discutir os sete ensaios da realidade peruana sob sete cervejas da confraternização dos meus sete, desculpe não rimou, mas eram un 20 ou 21 amigos de classe proto-historiadores.

A caminhada até a Lapa rendeu algumas belas visões do Rio antigo, as escadinhas, os azulejos, as cores do marginal, do contrário, me rendiam boas intuições. Aliás, segundo o teste do "Cognitive Process" sou um intuitivo extrovertido com 42,9 % de desenvolvimento destas capacidades, o que segundo este, consigo deslocar a dinâmica de uma situação e explorar possibilidades potencialmente imaginativas. Sim, o "Cognitive Process" está correto. All right. Sehr Gut. Eu exploro demais estas situações por que são estas que me trazem algum significado que me fazem aturar boa parte do mundo cinza que criaram para mim, para nós, sem nos consultar se permitíamos tal ofensa aos instintos e desejos livres da vida.

Atravessei a Lapa até a praça Tiradentes, como de costume, costurando a rua da Carioca e amaldiçoando a estátua de D. Pedro II. Tão imponente e ridículo ao mesmo tempo. Meu ônibus aguardava-me no ponto, e como de costume, pensei com a coragem etílica e a subversão natural que me embalava o retorno para casa, naturalmente não pagar a passagem, viva a desobediência civil, pequenos atos; a oportunidade surgiu com um senhor que entrara pela porta de trás e eu furtivamente o acompanhei.

O motorista no entanto percebeu tal artimanha, e perguntou ao senhor se eu era seu acompanhante(afinal acompanhantes de pessoas idosas, deficientes visuais ou portadores de necessidades visuais não pagam passagem), para minha surpresa ele afirmou que sim, e começamos a conversar.

Ele era cego, contei a ele que estava sem dinheiro(e realmente estava) e que por isso não podia pagar a passagem. Ele me pediu para eu descê-lo na passarela 9 da Av. brasil.

Na hora achei graça, graça talvez nem seja(e não é provávelmente) a palavra correta, mas piadas internas a parte, o 9 me persegue há alguns anos e nada mais natural que tudo aconteça de forma cabalística neste momento que eu me ordenei, de forma um tanto autoritária a invadir o desfiladeiro do inconsciente, retornar a origem, buscando não respostas, mas iniciando o caminho.

Folhear o Tao Te Ching religiosamente antes de dormir ou escutar Amnesiac do Radiohead para embalar o caminho dos sonhos pode parecer profusamente confuso, mas na realidade as coisas só se modificam quando há pó de estrelas tentando acender uma supernova de introspecção.

É perigoso ser tragado, como um buraco negro zombeteiro que nega as leis da física e dobra o espaço-emoção em cacos disformes de dúvida ou assombro, mas faz parte do processo se endividar emocionalmente, saber o que realmente acontece, onde está o yin e o yang, o que fazem, como se comportam e por que diabos a criatividade resolve nos abandonar.

No ônibus, o senhor continuava, eu escutava mais do que falava, e também, estupefato pelo impacto sincrônico e da impressão sensorial que eu estava tendo, não consegui articular nada mais do que cinco ou seis frases. Ele catava papelão. Era cego... Sobrevivia assim. Disse que se deus quiser ele conseguiria ficar bom da vista..."

Aquilo foi indescritível. O raciocínio se perdera assim como eu perdi parte do que planejei para este pseudo-conto por que as palavras como bem disse Nietzsche são uma "serpente"; e afinal, nunca representarão(ainda mais com minha inabilidade poética e gramatical) o que realmente sentimos, vivemos, tocamos.

Talvez não esteja com tanta criatividade assim. O fato é que o cansaço me obriga a terminar um conto que poderia ser muito melhor do que meras frases farfalhantes de efeito moral.

Mas o cego... O cego era eu número 09... Estava cego de luz. Não é preciso olhos para enxergar. Eu tenho os meus e ainda me sinto tão cego. Lição que a passarela 09 e o senhor que eu ajudei a descer no ponto jamais me negarão na lembrança. Não é preciso entender muito para iluminar-se ou falar muito para fazer entender.

Aqueles olhos esbranquiçados, e voz calma e pausada, foram suficiente para eu tomar um bom banho de pó de estrelas e sentir o gosto da vida outra vez.

E como diria Lao Tse: "Quem se ergue às alturas sem desejo, enche de silêncio o coração."

sábado, 30 de junho de 2007

Conselhos próprios

O horizonte logo chegará. O céu obscuro, as nuvens carregadas, não impedem a chegada do novo, apenas o escondem.

Semana pesada. Dias pesados. Insônia, cansaço e decisões internas sendo paridas.

O instante da transformação não é percebido. Internamente as coisas caminham, por outro lado externamente a mudança não é sentida e nem pode ser avaliada. Não me conhecem. Não sabem por onde andei. Não podem ler minha mente. Podem apenas sugerir, adivinhar, arriscar algo que não conhecerão. Escutar-me. Sentir a pulsação. Cultivar o amor independe da doce solidão.

Ser completo. Não idealizar(algo delicioso no entanto), retirar-se, sentir o tempo, deixá-lo fluir.

À mediocridade apenas a indiferença. Gastar energia eliminando a mediocridade é esforço morto. À indiferença o destino. Ele se encarregará de tudo.

Trilhe seu caminho. Não vendo minha essência, não me rifo.

Por enquanto apenas busque paz e por favor, feche a maldita porta da geladeira da próxima vez.


sexta-feira, 29 de junho de 2007

Títulos bons para textos ruins

Eu pensei em tantas pessoas quanto pude lembrar ao escrever este conto. Foi um exercício. Talvez tenha esquecido de muitos. E também é muito provável que vocês estejam aqui. MUITO MESMO. Há tantas pessoas quanto as partes que vivem em mim. Procure-se aqui, deixe seu nome e identifique-se com os fragmentos CITADOS nos comentários, verei o quão oracular posso ser.

___________________________________________

Estávamos lá. Nos encarando. Você cultivava seu orgulho e eu minha fé no desastre.

Não era tão fácil quanto apertar botões do acaso e aguardar algo chegar, era apenas algumas metas pessimistas chegando. Era suicídio parcelado. Você me falou que eu era um errático. Eu lhe respondi que você já tinha tomado a pílula da consciência. Consciência traz iluminação, não felicidade. São coisas distintas.

O soluço de morte que nos venderam tinha nomes bem definidos, mas a única coisa que eu conseguia pensar era sobre problemas que eram só seus, só seus. Visitar terapeutas nos finais de semana, apertar parafusos nos intervalos e avaliar quem era você entre tudo isto.

Quando você consumia demais eu lhe pedi para parar. Você continou por orgulho. Apesar de sua inteligência emocional avançada, você era um pouco xiita.

Odiava interpelações, por que era uma viva. Racional demais para eu amar. E muito arriscada para eu prosseguir em minha auto-flagelação. Você era estranha.

Em alguns momentos eu me sentia centrado como um espírito de um mosteiro. Isso no entanto, não me fazia feliz. Álcool era mais apropriado para eu me esquecer da política de auto-destruição inconsciente que eu encomendei há alguns dias atrás.

E mesmo assim, as coisas iam queimando ao nosso redor e eu assistia o par de valetes esvaírem-se em fogueiras frente aos possíveis e impossíveis desejos, liberais e liberados, eram desejos que nos consumiam. Era a sinceridade que nos consumia.

Deste parágrafo em diante eu só pensava em você. Verdadeiramente, em você. Por que só você correspondia às minhas tristes idealizações.

E doía. Doía tão rápido e intensamente quanto meus acasos, quanto meus casos, que eu costumeiramente ia chafurdando em minha lama emocional. Por isso me evitavam.

Mesmo sob as pupilas, a luz perspassava meus sonhos. Eu tinha grandes desafios, grandes desejos e grandes abismos por caminhar.

Abri a janela, por meras conveniências gramaticais; era um estilo próprio. Outra corrida e eu chegaria no alto das estrelas.

Amanhã sobreviverei como todos vocês, apesar do que, não há idade para morrer ou viver sob o céu ou o brilho de estrelas que cartesianamente já estão mortas.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Da Reader Digest Colections

"A insônia pode ter causas orgânicas e psíquicas. Pesquisas apontam a produção inadequada de serotonina pelo organismo e o estresse provocado pelo desgaste quotidiano ou por situações-limite como causas mais importantes."

-Há. Fala sério. Onde está lendo isto?

- Numa reader digest.. seleções...

- Reader digest! É claro...! Este tipo de lixo é vendido em clínicas de eutanásia e assinada por aspirantes a suicidas... você deveria se envergonhar...

- Isso é muito consolador. Você já tomou chá preto?

- Chá-preto? Em uma semana ruim. Achei que conseguiria trocar a vodka por essa bosta, mas não foi possível a longo prazo, expirou Vasili a fumaça.

Enquanto a ruiva ia marcando o jogo de palavras cruzadas sob a luz furtada que iluminava o carpete da mesa de sinuca, Vasili ia simulando aproximações sinuosas, tomava tragos de cerveja, e parecia rabugento, mas estava feliz por passar aquele final de semana com a ruiva, esbanjando serotonina, trocando suor, saliva, e deixando-se seduzir por toda a imagem de vida selvagem e uma "freak" cidadania urbana que ambos se esmeraravam a construir.

Tempos bons.

Sentado no sofá, pensava que não havia muito sentido em permanecer por mais tempo na espelunca que ele chamava de lar, de templo.

A ruiva se foi. Eu já encomendei meu recomeço, e parte deste lugar está infestado de pó de estrela vermelho. Não é justo.

O fantasma da ruiva ainda caminhava por entre os quartos, enquanto Vasili lutava para não deixar a idade mascarar sua covardia.

- Você é auto-destrutivo.

-O que disse
Anatole?

- Auto-destrutivo. Não como um masoquista. Mas você clama por auto-destruição.

-Sério
? Perguntou nos dias de melhores ingenuidades.

-Sério.

Anatole, profuso e confuso Anatole, mestre das retiradas estratégicas, fundamentalmente uma boa companhia, mas um homem que não sabia usar pontos e vírgulas, ou era muito seco ou demasiadamente esquivo, normalmente contrariando o que a situação exigia, certamente.

-Estou com problemas de respiração Vasili.

-Como assim? Rinite?

- Não sei, não consegui entrar no banco semana passada. Travei na porta giratória. Passei mal. Não foi algo como a claustrofobia, por que mesmo após caminhar uns 50 metros até a estação do metrô, eu não consegui parar de respirar.

- Fume charutos. Resolverão seu problema.

Foi grosseiro o comentário dos charutos, mas eu estava tentando animar o velho "Tole". Ele ria das piores situações. Por que chegaria a fazer como a ruiva, sumir
?

Sinto saudades daquele puto.

Sinto amplas saudades como o mesmo brincava com a ruiva. Era um trio perfeito. Mas por que diabos ele resolveu amá-la. Eram problemas demais. A situação não permitia naquele momento um maldito caso de amor livre. Era arriscado e perigoso demais.

Um karma. Nós tentamos Tole... tentamos...

Abriu a geladeira, só haviam cervejas, uma tônica pela metade e umas maçãs desintegrando-se na gaveta inferior.

- Pela metade. Você faz as coisas pela metade Anatole.

- E o que isso tem haver com ser auto-destrutivo me diga
?

Ah... tem haver, escapou Vasili usando o abridor com destreza. Você não se formou, jamais terminou nenhum de seus, quantos mesmo
?, treze livros?, e além de tudo escuta meus cds de jazz pela metade.

Isso não é verdade... russo maldito.., protestou Anatole, com um pseudo-banho de cerveja no casaco marrom de Vasili.

- Sabe Anatole...

- Diz merda.

- A vida é algo muito esquisito. Um grande banco de dados de clichês.

- Aliás, pegue outra cerveja que hoje eu vou tentar dormir.

- Eu juro. Pensar enloquece.


quarta-feira, 20 de junho de 2007

Fechado para balanço


Por um tempo a definir.







A definir.

Caminha, não pára


Empreendi um novo rumo
Cataclisma emocional comedido
Um novo rumo
Sem teus baques, obrigado
Não haveriam meus caminhos
Apenas uma cadeira
Plantada no meio da sala

domingo, 17 de junho de 2007

"Se Não posso dançar não é minha revolução." (Emma Goldman)


Três pedras nas mãos. E ela caminhou por entre os armazéns do cais do porto pedindo por um encontro.

Estava cheia desse machismo, dessa agressividade dos símios, dos brutais machos envaidecidos por um pedaço de músculo entre as pernas. Se algum deles se atrevesse, já saberia o que fazer. Iria apedrejá-lo até a morte. Revidando as brutais agressões das mulheres muçulmanas condenadas por adultério.

Mas depois de quinze minutos, achou que era um morte muito brutal. Só mataria por legítima defesa. E foi assim que pensou durante os próximos minutos.

Caminhou com a raiva entre os dentes. Que mundo machista! Como era viver em meio à opressão de gênero, à ditadura do hormônio masculino, que lixo era pensar que o capital tinha sexo, sexo masculino, patriarcal, opressor, desigual, mantenedor muito além das estruturas de classe, mas das estruturas cotidianas de desigualdade.

Apedrejar alguém era medieval. Lembrou-se disto quando relacionou tal ato com o fato do machismo, do patriarcado ser medieval.

Raspara o cabelo para escapar do estereótipo feminino, mas até onde foi? Até onde foi, se queria apenas ser ela própria?

Ao caminhar, sentiu pena de um mundo que a obrigava a modificar sua essência por meio da antítese. Um estalo surgira. Não precisava explicitar a antítese. Bastava ser apenas ela. Chega de antíteses construídas exatamente para dividir. Dividir para conquistar. Não precisava disto.

"A rebeldia não está na imagem, está em meu sangue, em meu coração".

E por que tentou se adaptar a uma antítese construída pelas classes dominantes? Um estereótipo?

Serei apenas eu. Gritarei aleluia em tom de deboche! Aos padres! Aos "curas", aos conservadores de plantão emitirei sonoras risadas, sonoros sorrisos!

Aos que me pedirem castidade, os acusarei de estupro hormonal. Algo está errado no mundo.

Às revistas que suplicam por substituir o opressor masculino pelo feminino denunciarei-as, ridiculizarei-as. Opressores ou opressoras... De que me importa? São todos iguais!

O amor era livre até criarem servas e escravas, servos e escravos. Até criarem latifundiários e camponeses, patrões e operários.

A maior greve da história, a grande greve de 17 foi feita por mulheres. Na linha de frente, nas ocupações, nos despejos, no primeiro de maio, na guerra civil espanhola, na denúncia da opressão leninista/ stalinista na rússia, pelos direitos, sempre estão lá! Mulheres!

O amor é um pégasus. Ele voa sobre uma lua que pede por permanência.

O amor é algo recíproco. Algo que pede por contribuição! Por apoio e amor mútuo!

As pedras estão no bolso, mas só serão usadas quando a besta-fera machista ousar levantar-se.

Um golpe de ironia e sarcasmo. Uma dose de realidade e diálogo podem convencer muito mais do que pedras. As pedras são necessárias. Rochas, sólidas como princípios. Terei a inteligência para usá-las em momentos certos. Cada arma para seu momento.

O ponto de ônibus chegou. Não citarei o machismo da linguagem. Linguagem exclusiva.

Deixo para depois. Por enquanto há uma lua feminina clamando por permanência.

Farei ela ficar no céu agora. Sem pedras desta vez. Argumentos me bastam.




sábado, 16 de junho de 2007

Retrospectos

Fazendo um retrospecto, percebi que 90% dos últimos posts tem haver com a ruiva e que este assunto já deve ter saturado a minha legião de meia dúzia de leitores. Porém antes disto, eu já tinha me saturado de escrever sobre ela também. Não que eu tenha cansado de escrever sobre isso. O fato é que os últimos textos foram medíocres, pensando da forma mais utilitarista que eu posso pensar. E se a dor não produz algo belo poéticamente, ela não serve, recicle-a.

Mudemos então, a partir desta constatação a fonte da criação. Ruiva, desculpe, você caiu do cavalo, não me incentiva a ponto de conseguir escrever coisas tão belas. Sei que você vai me dizer que isso é culpa da minha inabilidade poética, tudo bem, eu posso até aceitar este argumento a princípio, mas é o combustível o que faz com que o poeta/escritor/fingidor consiga fazer algo de que valha a pena ser lembrado.

Portanto, a dor da ruiva já expirou. Prazo de validade esgotado. É a poesia que precede a dor, não o contrário. A poesia é mais importante. Portanto, se a dor não produz algo de tão interessante assim, sofra de outra forma!

Algo como o que falou o grande Fernando Pessoa:

"Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se.
E se ele me disser que o seu figado sofre com isso respondo: o que é o seu figado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto." (Fernando Pessoa)

Estou sendo sarcástico é claro. É bom ter alguns momentos de lucidez.

Mais legal ainda seria ser cult, isso daria uma dor de cabeça de verdade.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O Desabafo de Anatole

..
A RUIVA EXISTE CARALHO!!!!

Ela existe!!!!

Hahahahahaassahahahaa..

Bêbado, vodka, nada.

Amanhã ruiva talvez eu lhe veja. Talvez. Eu não gosto de lhe ver sempre. Nem gosto de escrever isso aqui e muito menos poucos gostam de ler esta porcaria. O fato é que no mundo dos normais. pouca coisa foge da rotina. Há a vodka. Hoje eu bebi muita vodka e pensei em me afastar de muita coisa. Por que quando eu tento dormir eu sinto dificuldade de me entregar aos sonhos. Eu me sinto um merda quando eu choro por você, por que há muitos racionais gritando aleluia por aí. E não há nada muito novo. Por que eu só escrevo sobre você e as pessoas que lêem isso aqui, no caso eu e minha multidão de vozes mais um algoritmo que soma mais 1 no final da linha estão realmente entediados com tanta falta de criatividade. Os poetas são fingidores. Eu não sou poeta e muito menos fingidor. Querem criatividade? Contratem publicitários. Por aqui só há um ócio criminoso reclamando fama.

Eu me programava antigamente. Agora eu me sigo pelos instintos. Está difícil permanecer como uma linha constante se eu nem consigo pensar direito sobre tudo isto. Estou me adaptando. Em um processo de adaptação desprezívelmente anti-poético.

Há um eletromagnetismo nisto tudo e uma lua pedindo por permanência. Não há como colocar colheres em equilíbrio nisto tudo. O que era novo agora espalha-se pútridamente pelo chão, pela terra. É um adubo novo. Um adubo novo. Parte do meu coração fechou-se como adubo.

Tudo é meio jargão. O sofrimento é algo tão comum, que já semeou metade deste latifúndio. Nem saberemos quem está realmente falando a verdade. É patético demais. Você sabe disto.

Não precisa provar o que sente. Só deslize e queime alguns ícones vez ou outra; chegamos então no final da totalidade.

Totalidade eu usei para lhe impressionar. Brincadeira. Não há uso. Apenas problemas mal resolvidos. Eu te amo. Quantas garrafas de vodka terei de beber para convencer este duende que corre em frente a mim?

A vodka é uma invenção russa. Ainda bem que você não é. Você é alemã. Consulados malditos.

Há metade de mim espalhado pelo quarto. Não dói tanto quanto aparenta doer. Mas faz todo o teatro parecer mais viral do que realmente é. Há parte do meu coração espalhado no que escrevi. Poucos ligam. Dinâmica homo-sapiens. Pedir esmolas emocionais é contrário tudo o que eu acredito. E eu finjo sentir que isto é em suma, verdade.


Não há sentido. Apenas partes espalhadas como disse anteriormente.

Prefiro acabar ruiva.

Mas por favor: fale isso para meu coração.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Da inteligência do cotidiano

Já faziam três dias que ele não conseguia sonhar direito. Muito menos dormir. Levantou da cama e tateou a mesinha de mogno. Achou as chaves da casa e duas latas de cerveja antes de pegar os cigarros. Sentou na cama, sacou o isqueiro e acendeu-os vislumbrando a janela. Pensou o quão suja estava, e o quão suja era toda aquela pós-modernidade pútrida que o visitava naquele ambiente tão falseado. O mundo não era tão pós-moderno assim. Bastava acordar às sete da manhã e ir comprar pão, que veria o quão clássico era tudo aquilo. Os sorrisos, o padeiro, as notas amassadas no caixa. Não havia muitos cigarros, nem músicas demodé e nem musas de cabelos vermelhos comprando pão naquele horário.

Mas ainda eram 3:40. Mais um sonho incompleto. Pegou a chave e ficou rodando-a, ignorando o tempo, a situação desconfortável. Resolveu levantar e tomar uma cerveja; fudido, fudido e meio, refletiu. Abriu o frigobar, pegou a penúltima lata, pensou que teria de comprar mais cervejas amanhã. Malditos supermercados, suas filas, seu ambiente de neón, sua maldita assepsia. Ambientes de plástico que não o agradavam. A imperfeição é parte do desastre, por que contê-la? Deixe que o caos fale por si e será agradável de certa forma.

Levantou e abriu a janela, que emitiu um ruído que lhe era agradável, talvez por isso não tenha pensado em ajeitar tudo aquilo. Debruçou-se e prosperou a fumar. Gostava da idéia de fazer situações absurdas em momento semânticamente contrários.

A rua estava vazia... mas havia um vulto esgueirando-se por entre as lixeiras da "Bread & Milk". Sim era uma padaria latino-americana. Americanizada. Ou melhor estadosunidensezada. Tudo igual.

Vestia um gorro engraçado, que lhe tapava as orelhas mas deixava seu cabelo grisalho à mostra.

O vulto fuçava algumas latas de lixo, mexia algo no bolso que Vasili não conseguia enxergar.

Continuou a observar a criatura noturna, e por um momento uma identificação fortíssima lhe acometeu: eram irmãos gemêos da mesma desgraça, em graus diferentes é claro.

"Ainda tenho minha cerveja, uma cama, e um quarto sujo, aliás essa mesa de mogno é um insulto. E esse quarto fede a mofo. " Pensou. Mas não posso trocá-la! Seria uma heresia com meu dia anti-pós-moderno(parecia bêbado).

E o que ele tem? Somos dois fudidos em graus diferentes. O mesmo mecanismo. É uma porra de um suicídio coletivo.

Tragava o cigarro e observava o homem remexer as latas de lixo, as caixas de papelão...

Talvez ele tenha sorte.

Não se sabe por que impulso, resolveu assobiar. O homem demorou a perceber o assobio. Tateou suas caixas de papelão como se ignorasse a suposta afronta. Por um momento demonstrou despreocupação e até mesmo ignorância perceptiva sobre o local exato do princípio do assobio.

Após a segunda ou terceira tragada do cigarro, surpreendentemente, caminhou com as mãos para dentro do paletó marrom, sim era marrom e agora dava para ver nítidamente um dos bolsos rasgados, poídos, e pegou uma outra caixa. Do outro lado da rua. Do lado do apart-hotel-pulgueiro em que Vasili encontrava-se instalado, e jogou uma guimba na calçada e olhando para baixo para enxergar o andarilho.

Deve estar pensando que estou querendo repreendê-lo...

Saiu da janela... Pegou mais uns cigarros, colocou no bolso, remexeu embaixo da cama a procura daquela garrafa de vodka russa que Anatole comprara no duty-free shopping em sua viagem, meio burguês, é verdade. Contradições. Parte da modernidade.

Abriu sua porta, o prédio calava-se, desceu as escadas rápidamente, estava frio, era um acaso estar de casaco. Abriu a porta... Caminhou até o portão destravou a fechadura... saiu... acendeu o cigarro... o homem ainda mexia nas caixas de papelão, desta vez num ritmo frenético, quase um trabalho fabril, de desmontar e guardar os pedaços num carrinho de supermercado enferrujado, do qual Vasili não tomara conhecimento desde a primeira visão.

Gaijin. Comentou alto.

Os olhos do andarilho fixaram-se com prontidão na figura de Vasili. Com uma ênfase especial na garrafa de vodka. Bebe comigo?

Ele continou caminhando no ritmo desmonte-caixa / encha o carrinho. Contudo por um momento interrompeu bruscamente a dança e resolveu encarar Vasili. Vodka?

Sim, Vodka.

Tem um cigarro? Perguntou.

Claro, tome, respondeu Vasili.

Está frio, resmungou acendendo o cigarro no isqueiro de metal de Vasili.

Sim... Frio... Mas não é como na Rússia...

Você é russo?

Não... Quer dizer... meio eslavo...

O homem riu. Uma risada roca, a simpatia brilhava nos seus olhos. Era uma boa companhia. Definitivamente uma boa companhia. Sua intuição falava assim e Vasili seguia sua intuição, por que normalmente dava certo.

Você mora aqui?

Moro por enquanto. Essa merda é um pulgueiro.

Ah rapaz, dá um pulo na sé. Lá tem pulgueiros melhores que esse.

Riu novamente... Um sorriso amarelo e uma risada rouca, forte, que abafava Vasili.

Sentaram e começaram a falar do mercado do papelão. Ele vendia, percorria a cidade, vendia, percorria a cidade. Era um ciclo eterno. Fabril. Da sua família, dos problemas, GRANDES problemas. Do governo, da polícia, da repressão, dos golpes, dos amigos mortos. Das drogas. As drogas da pós-modernidade.

Vasili ao contrário falara da ruiva metade do tempo, quão pequeneníssimo burguês tinha se tornado. Partes diferentes e semelhantes de um mesmo problema. No início achou que Gérson só queria a vodka russa. Mas ele era tão atencioso que o desconcertou; acabou que Vasili lhe deu cigarros e algum dinheiro para o almoço de amanhã.

Seus problemas lhe pareciam tão pequenos. Ínfimos. Existiam, mas eram pequenos.

Você tem problemas maiores que eu. Pensou. Não falou. Era óbvio demais. Falar... nem pensar!

Fumaram alguns cigarros. Não vá se perder por aí, apontou Vasili.

Pode deixar. E olha só Vazilo, tudo tem um propósito, quando não tem a gente inventa um cara...

Vasili gargalhou antes de fechar a portaria, e subiu as escadas. Caminhou até o apartamento, escutando o ranger das rodas do velho carrinho enferrujado de compras de Gérson, o "Fuligem". Gérson-fuligem... Parte das cinzas, parte deste mundinho pós-moderno, que tanto os nega, que tanto nos nega, afirmou.

Abriu a porta de casa(se é que poderia se chamar aquele little chiqueiro de casa) e fechou a janela, Gérson já tinha desaparecido na fuligem da noite. O pós-modernismo foi com ele. Teoria não há com barriga vazia, pensou.

E quando não houver um propósito. Invente um.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Sirva seus servos

Eu adorava dormir com a ruiva. E olha que eu já dormi com muita gente. Mas a ruiva era realmente especial. Eu gostava de boa parte do metodismo dela quando ela estava com sono. Por que eu só via a ruiva metódica nesses momentos, quando ela dormia. E então deus falou que isso era bom, no sétimo dia, digo segundo mês. O meu deus é meio preguiçoso. Até para me ajudar. Foi por isso que virei ateu. Até o segundo ano do segundo grau. Depois resolvi ser um agnóstico espiritual por que sem dúvida nenhuma era muito mais charmoso.

Mas quando eu falo dormir, as pessoas relacionam com sexo. Não é isso. Não que o sexo com a ruiva tenha sido ruim. Pelo contrário. Era sublime. Mas não é disso o que eu falo. Falo de dormir, sonhar ao lado dela, com um pouco de pó de estrela na cabeça. Eu nunca soube o que é paixão própriamente.

Eu achava que era apaixonado por uma meia dúzia de pessoas. Eu me enganei. Fui em graus distintos. Mas que se foda a razão. Estar apaixonado é estar sem razão e que se fodam os racionais que vão analisar isso aqui da maneira mais chata possível. Eles(libertários ou não) só sabem ver as coisas por esse ângulo. Apaixonem-se e verão o que estou falando. Se nunca se apaixonaram não é problema meu, a paixão precede todas as ideologias.

A paixão faz você botar a porra da cabeça no travesseiro numa segunda-feira pós-feriado e faz você sentir falta da ruiva, mesmo lutando racionalmente para que isso não aconteça, mas você sente falta da ruiva, sente mesmo e tenta entender a porra dos mecanismos primitivos(??) que te fazem agir desta forma. Ela está lá, e às vezes visita seus sonhos. A paixão faz isso com você. E é pior que a carência. Muito mais, por que na carência, você joga seus doces emocionais avanço e qualquer cozinheira consegue agarrar os quitutes, mas a paixão não te dá oportunidade Não há muitas escolhas.

Eu gostava de ver a ruiva dormir, mas eu adorava mesmo assistir ela acordando. Era lindo!

O rosto que ela fazia, o cabelo desgrenhado, mas tão sexy, o esforço por permanecer sóbria, tudo isso me contagiava. Na verdade não consigo descrever exatamente, por que a paixão também faz isso com você, ela te faz ficar acordado até as 5 da manhã rodopiando com um caos dançarino dentro de si. Te faz escrever, escutar e reagir de maneiras que você não gostaria. Te faz.

É difícil, por que você não faz força, nem sentido. Quando escrever torna-se(te) difícil levanta-te no outro dia caralho!

Eu só queria que ela falasse comigo. Da forma que ela falava antes. Com seus cabelos vermelhos. Eu queria não estar passando por isso, que não-é-porra-nenhuma diante do sofrimento do mundo, global. Mas está aqui. É algo concreto.

Vou tentar dormir. Cobrir-me, e afundar-me em alguns abismos introspectivos. Talvez eles me salvem.

Sangue novo na praça!

A divulgação vale a pena. Isso aqui vai dar o que falar realmente. Pelo menos entre nós três...

http://dedoscruzados.blogspot.com/

Um pseudo-historiador, um pseudo-cientista social e um pseudo-psicólogo se reúnem para formar a escola deIsabel-furt(contemporânea da escolinha de Frankfurt do titio Adorno e Marcuse).

Algo de genial deve sair disso tudo. Afinal nossas cervejas sempre nos proporcionaram coisas proto-geniais. E algumas análises bem interessantes.

Voilá, que post arrogante.

domingo, 3 de junho de 2007

Dos seus Abismos Oceânicos

E eu fui só até o limite. Por que até o limite é uma coisa boa disse no primeiro dia. Antes de ultrapassá-lo eu consegui respirar forte. E estava na direção correta, rumo ao fim do oceano. Oceano de memórias, fragmentos. Eu nado em busca do horizonte , do horizonte de, da verdade. Mas o horizonte é infinito, infinito. Eu descubro após me cansar. O mar é azul, de longe parece verde. Parece estar verde.

Meu rosto está molhado de sol, de sal. Eu nado com o vermelho dos olhos, antes de pensar se voltar a superfície foi realmente uma boa idéia.

Eu sinto vontade de voltar ao fundo. Por que o fundo é reconfortante, apesar de desfocado e confuso como toda profundidade normalmente é.

A superfície não me encanta. São os oceanos, suas cavernas, sua escuridão, que me seduzem. Eu continuo a nadar, mais meus braços dóem. Vejo um barco contornar o horizonte. Eu grito. Agito braços, pernas, em vão. Está desfocado, longe da visão. As velas tem ligeiros traços amarelos, mas eu nunca saberei de verdade qual cor realmente é. Não importa. Eu observo sua trajetória, ele contorna o horizonte, o oceano e desaparece... Eu fico boiando. O sol tosta minha derme, não há mais esperança, apenas ilusão, algumas nuvens cobrem o astro-rei, rei do quê? Um rei sem súditos não é rei, é um vassalo corrupto.

Eu busco uma ilha. Mas não há nenhuma no horizonte. As nuvens cobrem o céu de piedade, e eu caço desenhos no alto, procuro padrões enquanto a noite não chega.

Eu me canso... As nuvens se enegrecem. A chuva cai. E com ela parte da superfície. A superfícia agita-se e eu resolvo deixar-me levar. Primeiro é a mente que decide. Os membros obedecem contraditóriamente a necessidade intríseca de sobreviver. É o instinto de conservação.

Eu bebo água salgada. Uma das mãos estica-se. O oceano vai me consumindo, me engolindo lentamente. A digestão é calma, tranquila. Eu afundo. A superfície torna-se cada vez mais distante. O sol desfoca-se pela lente da superfície, o sorriso é interno, a queda ao fundo, reconfortante. As trevas internas consomem-me, o fundo está mais próximo, o sol me dá adeus, as cavernas do desconhecido aguardam-me. Está mais escuro. Mais frio. E muito reconfortante...

sábado, 2 de junho de 2007

Do último sonho, do último porre

Sem poesias. Vamos aos fatos agora.

Tudo começou como um sonho. Vamos ao sonho:

Um acidente de ônibus. Micro-ônibus. O micro-ônibus tomba, as pessoas saem, ninguém se fere, eu estou fora, assisto a tudo. Meu pai vai chamar ajuda. Eu vejo um ambulância chegar atrasada, todos estão bem, ninguém se fere. Eu caminho. Vejo meu bolo de morango(*), mas (até) no sonho eu me confundo. É uma pessoa parecida(guarde este trecho iremos para a realidade com ele mais a frente), mas não é ela. Eu caminho. Fim da parte A.

Estou no prédio da minha faculdade(eu sinto que é, mas na verdade não é o prédio...).

Eu entro numa sala que está interditada. É o instituto de física. Eu abro a porta, invado o local. Todo o chão é de madeira, placas de madeira. Há um cômodo, com janelas, portas, todas lacradas com madeira, eu vou para outro cômodo, quando piso no chão deste cômodo algumas madeiras do chão rangem, quebram, eu quase caio lá embaixo e vejo que há um outro cômodo secreto debaixo deste piso desta sala. Tenho medo de cair, volto a outra sala do cômodo, abro algumas janelas, portas(na verdade elas se descortinam), vejo pessoas lá fora. A sensação é de estar num castelo. Tento fechar tais portas, tais janelas, mas elas não fecham. As madeiras que a escoram caem, nada se encaixa novamente no lugar. Eu volto para o ambiente dois, o ambiente onde o piso cai, e eu desco para o ambiente, me jogo pelo buraco criado no piso. E vou para outro lugar.

Um lugar secreto, nos subterrâneos da minha faculdade(ou seria da minha mente?).

Eu desco. Vou andando. É um galpão. Enorme. Ninguém. Eu me esgueiro pelas colunas que sustentam o teto, desco até o chão acho uma pequena escada, subo, e vejo um teto suspenso, um piso suspenso neste galpão, neste piso, milhões de brinquedos de criança(minha infância armazenada? escondida?), tem muitos bichos de pelúcia, em sacos plásticos, gigantes, eu me impressiono com tudo aquilo. Alguém está roubando a infância de alguém? Estão em bom estado. Mostram organização. A infância guardada, organizada, escondida. Dois duendes passam por mim. Não são duendes. Eu acho que são crianças, mas me lembro no sonho o trecho do poema do Nietzsche: "... este duende que corre entre vós...".

Não são duendes. Eu agarro um deles. São bonecos, bonecas de criança que andam, mexem os olhos, quando eu agarro um deles, ele(ou ela) simplesmente permanece parad@ como algo inanimado, mas o outro corre no meio do piso elevado do galpão. Duas pessoas neste momento passam na parte de baixo do galpão. Eu me escondo atrás da parede onde se escondem os brinquedos. Uma ruiva passa pelo galpão. Cabelos vermelhos longos e uma outra mulher que não me recordo a aparência. Um dos duendes joga um dos bichos de pelúcia nas duas mulheres, nas ruivas. Joga vários. Eu jogo também alguns eu acho. A ruiva e a outra mulher olham, ficam assustadas, procuram os autores do golpe. Correm... Eu pulo o tal muro. Corro atrás delas. Os duendes ficam. Eu corro atravesso o galpão para um lugar muito maior. Elas estão bem mais a frente, eu me lembro que tento alcançá-las para explicar que foram os duendes e não eu os que atiraram os bichos de pelúcia.

Enquanto eu corro em direção a elas, dois homens vem em direção a mim. Eles gritam, me avisam, "o que está fazendo", acho que vão me agredir, um mal entendido. Eu alcanço a ruiva, seguro ela, mas os dois homens, rapazes, vem em direção a mim. Eu explico, tento explicar tudo. Dou um mortal com o corpo para trás. Uns passos de capoeira, uma estrela no ar. E as coisas se explicam. Eles não me agridem.

Eu acordo. E só me lembro disso até agora.

Na realidade. Encontro uma ruiva. E um simulacro de ruiva(o trecho que eu pedi para guardar). As coisas vão se encaixando. A noite cai. Cai e eu fico sozinho, no ponto de ônibus. A falsa ruiva vai embora muito cedo. Ela não é tão ruiva quanto eu pensei. Estou vendo a ruiva em todos os lugares eu imaginei. E é verdade.

A noite não cai, desaba. A lua está bonita, apesar de tudo escuro. Ainda rolam algumas cervejas, uma música triste e uma plena capacidade de escrever isso tudo.

Aqui.


sexta-feira, 1 de junho de 2007

Das carcaças do desagravo

Maldito vinho seco. Chagas emocionais! Malditas sejam. Maldita seja a semiótica, a linguística e os professores de língua portuguesa. Maldito sejam os duendes de jardim e os onanistas intelectuais. E antes que eu transforme isso num pobre manifesto eu preciso partir para outros estágios da percepção. Depois do segundo gole é perfeito.

Teorize. Teorize seu merda. Teorize sobre suas, nossas, vossas, aftas emocionais! Teorize! Teorizar lhe dá uma robustez intelectual medíocre! Medíocre esté me entendendo? No natal você se lembra? No natal? O parto, a vitória e você lá, esparramado como se não ligasse para o amigo oculto, para a ceia, para o frango repleto de hormônios estatelado sobre a mesa seu niilista de merda! Seu pedaço de entulho poético mal acabado!

Quando crescer me chame para eu carregar seu caixão de neon; esdrúxulo perdido.

Continuar? Não? Diga alguma coisa. Como se arqueja e estrebucha como um símio, caricato, imitando o pai, a mãe e os parentes no dia de ação de graças. Mas graças ao que? Se não há similaridade no torto, no feio... Na conta não paga e no tropeção que derruba o rádio da mamãe.

Quando você dançar para o rádio novamente eu vou fazer café, servido? Servido seu filho da puta? Quer café? Tome café! Tome seu maldito! Tome! Vou esparramar café sobre sua corcunda maldita! Maldita! Como se regorzija, comendo empadas, pastéis e risolhes de deboche!

Eu te reconheceria há léguas de distância, léguas, com seu cheiro pútrido infeccionar nossa festa. Nossa família. Nossa honra, nossa tradição! Você é uma mácula sombria dentro de nossa árvore genealógica. Um pútrida, um espúrio! Um poço de fezes! Uma aberração sombria que insiste em manter-se vivo para nos atormentar! Canalha! Cachorro! Fedido! Ferrado! Judas! Mendigo! Tu é um abissal a procura de um buraco imundo! Chagas nojentas tu se alimenta! Atroz imundície tu representa, a procura de uma carcaça para destilar teus vermes corporais!!!

Morre maldito! Morre encarnação da desgraça, da desonra e da devassidão! Morre de vez!!!!!!

Só por que quebrei o aparelho de som da mamãe irmão?

É estrupício! SÓ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!