sábado, 4 de agosto de 2007

Menta com hortelã


Ela queria vingança. E ia buscar parte do queria naquela noite chuvosa. Chuva irritante. A obrigava conversar consigo mesma. E odiava ter que se confrontar.

Ele desejou paz. Apesar do dia nublado, da chuva, e da lama na perna esquerda da calça jeans terem lhe tirado o humor.

Acendeu um cigarro, tragou uma, duas, três decepções, mas ela não conseguia esquecer.

Azar o seu.

Era assim que falavam os niilistas. Era claro que o azar era seu. Pessoal e intransferível, como os cartões de crédito. Azar e cartões de créditos: analogias baratas, totalmente apropriadas para um domingo a noite.

Costumava intrigar-se como as letras formavam palavras e como estas se articulavam às frases. Frases que teciam metáforas, redações frustradas, recados, cartas de amor, textos acadêmicos e todo o lixo semiótico que costumava ler.

Ele foi beber cervejas. Estava gelada. Estúpidamente bebeu as cervejas geladas.

Era tudo muito estúpido mesmo. Copos vazios, cervejas cheias, um pouco do tudo inacabado, liberdade, caos, libertinagem.

E lá estava ela, rompendo padrões: vagabunda, puta, piranha! Que gente racista. Preconceituosa. Ela enfrentava os padrões com os dentes! Jogava cartas com os pré-conceitos. Queimava os dogmas junto com as cinzas dos cigarros! E ainda assim sentia frio, medo, frio. Era uma pessoa comum. Frágil e comum. Indiferente e concentrada.

Ele costumava escrever as derrotas. Ela costumava ignorá-las.

Ele bebia whisky sem gelo. Ela, menta com hortelã.

Ambos sorriam quando alguém citava Almodóvar. Ninguém achava graça. E nenhum dos dois sabia o porquê.

Ele andava de bicicleta. Tinha sido roubado.

Ela de carro, assaltada por Pm's na 25 de março.

Juntavam os cacos uma vez por mês e resolviam deixar o caos se instalar. Não funcionava.

Acabavam na cama, depois de quatro doses de martini gelado.


terça-feira, 24 de julho de 2007

Dormiu até dormir

Em coma. Há seis meses que ele está em coma, sr. Voz grave. Falsa emoção de dor.

Um bom ator.

Como assim. Voltemos ao início. Eu tomei um whisky sem gelo com Nato. Ele recusou as pedras de gelo, o que habitualmente fugia do padrão. Eu demorei a perceber o que estava errado. Um telefonema. Dois telefonemas. E aí eu cheguei no hospital de St. Mary. Eram doze horas. Estava claro. E eu tinha uma coca-cola gelada numa das mãos e um amigo em coma.

Tudo estava meio branco. As paredes do consultório, do hospital, os uniformes, o pipoqueiro na saída do prédio e metade da folha de ofício que eu guardara no bolso esquerdo da calça jeans.

O teto não. O teto era bege.

Nato perdeu-se. O doutor explicava, usava metáforas(e o puto era bom de metáforas), me pedagogizava, me educava, castrava meus instintos, em prol de uma explicação objetiva. Os fatos estavam dados. Um amigo em coma, uma conta grande para pagar, um leito sem fiador.

Eram caminhos para o xadrez. Podiam aliás, pintar o leito de xadrez. Combinaria com Nato.

Nato era um homem sincero, meia idade, costumava bebericar nos finais de semana em pontualides britânicas. A rotina, a realidade conseguiram o chatear. E o que você faz com o que lhe chateia. Pede mais duas pedras de gelo e diz foda-se para o mundo.

Mas Nato conseguiu ir além. Quer dizer. O além ainda não era parte de Nato. Faltava mais um ou dois pontos antes do purgatório.

Eu brincava com o anel da latinha de coca-cola, sacudia os ombros e via Nato cheio de parafusos, mangueiras e aparelhos respiratórios. A vontade que eu tinha era levar o puto para um bar. Até sorri, quando imaginei Nato tomando um martini numa quinta a tarde com meia dúzia de catéters pendurados no corpo.

Nato. Homem que resolveu sonhar.

Tudo começou num poema. Este era o poema.

...
.....
.......


Mas poemas e sonhos eram todos iguais.

Resolveu não dormir mais.

No início apenas força de vontade. Após, estimulantes.

Cafeína. Anfetaminas, derivados do tipo.

Caía em si. Era um beat generation deslocado do tempo. Era a vez da yoga e da meditação. Apeasr do que não conseguiria forçar gravitações aleatórias.

Randômico.

Resolveu não acordar mais. Dormir era melhor do que sonhar. Por que no mundo de orpheu não haviam opressivas leis da gravidade.

E pensou ser melhor, enquanto Vasilli dormia, profundamente o sonho dos incautos.


(melhoramentos virão)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O curto verão do amor

Te amei
Por curtos dias
Te amei
Intensamente movi, cada grama
Da minha paixão em tua direção
Curta estação durou nosso amor
Morto antes do final do verão
Sobrou apenas tristeza em pedaços


Vigorosas tragédias
No escuro repartem
Um eu que não cabe
Mais em ti

Cujas fracas capacidades
Não possuem, de terminar
Um simples poema


segunda-feira, 16 de julho de 2007

Mesa de Vidro


Fumou o último cigarro do maço. A carreira de pó estava sobre a mesa de vidro. Hoje ele não iria cheirar, estava sem dormir há 4 dias.

Luana e Serena se revezavam com o canudinho improvisado da nota de 10. Tentou apostar mentalmente se iriam se agarrar antes das três ou iriam morgar no sofá do corredor.

Já estiveram em dias melhores. Há dois anos atrás era possível cheirar com uma nota de 100.

Mas eram maus tempos aqueles.

Estava insuportávelmente quente. Talvez fosse por isso que não conseguira raciocinar sobre quantas cervejas sobraram no congelador; ou talvez fossem as anfetaminas, não importa, um bem apertado equilibraria a situação.

Já eram duas e cinqüenta e sete quando resolveu descer e pegar mais cervejas, o colchão estava rasgado, haviam três camisinhas, um papel onde lia-se "compra-se ouro" e quatro moedas de 1 real sobre a estante de mogno, o rádio estava ligado e tocava "Riders on The Storm" do The Doors, the killer on the road como planejara antecipadamente. Luana e Serena já se pegavam; ignorado, resolveu cheirar o pó que sobrara antes das cervejas, tropeçou nos tacos quebrados da sala e caiu dentro.

Dentro era uma boa oposição.

Tinha fermento barato na coca, podia sentir claramente, era fermento royal, com aquela embalagem que não muda com o tempo, imutável, detestável. Não apreciava o estático. Seu mundo não era seguro. Mas os viciados mudam, pensou antes de sorrir ao espelho retirando espinhas e alisando a barba não-feita.

Os viciados mudam.

Vidrado, viciado, lembra vidro, lembra mesa de vidro, lembra a última carreira de pó que ele esqueceu de cheirar. Com o canudinho da nota de 10.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sonhos que não aconteceram

Subo as escadas. Encontro uma passagem à esquerda. Há quebra-cabeças a serem montados. Saio, subo mais escadas. Entro no vagão do trem. Está cheio. Uma música francesa no fundo. Eu desco. Pego flores. Chuva de rosas. Pétalas. Cubro-me. Está frio. Caminho pelo frio. Paralelepípedos. A ruiva sentada num deles. Eu olho para o sol, para as grades verdes. Ela desaparece em seguir. Há cigarros no meu bolso. Eu tento acendê-los. Há uma árvore. Não há isqueiro. Notas amassadas, pontos amassados, placas enferrujadas e uma caneta no bolso direito.

Venta demais. Está frio, escuro, é parte da noite. Caminho. Há um gramado. Uma pedra, uma cachoeira, um lago agradável e um encontro que não aconteceu. Há um círculo no meio disto tudo.

Eu fecho o livro. As borboletas ensaiam uma nova esperança. Novamente, fecho e abro ciclos.

Espanto a monotonia. E os dias incrívelmente demoram a passar.

sábado, 7 de julho de 2007

Meu primeiro dia de férias

Férias combinam com descanso, contrariando assertivas o emprego porção simples descartável que eu arrumei moía meus ossos, carne e espírito nem tanto, pois eu precisava realmente me alienar sabe. Apertar alguns botões. E nada melhor do que um emprego temporário ruim para realizar tal tarefa, afinal de alienação o capitalismo supera quaisquer concorrentes.

Sarcasmos e ironias a parte, nem meu fracasso homérico no curso de alemão, nem meu encontro com minha afta, diga-se de passagem cada vez menos inflamada, conseguiram destruir meu humor naquele dia. E foi fácil discutir os sete ensaios da realidade peruana sob sete cervejas da confraternização dos meus sete, desculpe não rimou, mas eram un 20 ou 21 amigos de classe proto-historiadores.

A caminhada até a Lapa rendeu algumas belas visões do Rio antigo, as escadinhas, os azulejos, as cores do marginal, do contrário, me rendiam boas intuições. Aliás, segundo o teste do "Cognitive Process" sou um intuitivo extrovertido com 42,9 % de desenvolvimento destas capacidades, o que segundo este, consigo deslocar a dinâmica de uma situação e explorar possibilidades potencialmente imaginativas. Sim, o "Cognitive Process" está correto. All right. Sehr Gut. Eu exploro demais estas situações por que são estas que me trazem algum significado que me fazem aturar boa parte do mundo cinza que criaram para mim, para nós, sem nos consultar se permitíamos tal ofensa aos instintos e desejos livres da vida.

Atravessei a Lapa até a praça Tiradentes, como de costume, costurando a rua da Carioca e amaldiçoando a estátua de D. Pedro II. Tão imponente e ridículo ao mesmo tempo. Meu ônibus aguardava-me no ponto, e como de costume, pensei com a coragem etílica e a subversão natural que me embalava o retorno para casa, naturalmente não pagar a passagem, viva a desobediência civil, pequenos atos; a oportunidade surgiu com um senhor que entrara pela porta de trás e eu furtivamente o acompanhei.

O motorista no entanto percebeu tal artimanha, e perguntou ao senhor se eu era seu acompanhante(afinal acompanhantes de pessoas idosas, deficientes visuais ou portadores de necessidades visuais não pagam passagem), para minha surpresa ele afirmou que sim, e começamos a conversar.

Ele era cego, contei a ele que estava sem dinheiro(e realmente estava) e que por isso não podia pagar a passagem. Ele me pediu para eu descê-lo na passarela 9 da Av. brasil.

Na hora achei graça, graça talvez nem seja(e não é provávelmente) a palavra correta, mas piadas internas a parte, o 9 me persegue há alguns anos e nada mais natural que tudo aconteça de forma cabalística neste momento que eu me ordenei, de forma um tanto autoritária a invadir o desfiladeiro do inconsciente, retornar a origem, buscando não respostas, mas iniciando o caminho.

Folhear o Tao Te Ching religiosamente antes de dormir ou escutar Amnesiac do Radiohead para embalar o caminho dos sonhos pode parecer profusamente confuso, mas na realidade as coisas só se modificam quando há pó de estrelas tentando acender uma supernova de introspecção.

É perigoso ser tragado, como um buraco negro zombeteiro que nega as leis da física e dobra o espaço-emoção em cacos disformes de dúvida ou assombro, mas faz parte do processo se endividar emocionalmente, saber o que realmente acontece, onde está o yin e o yang, o que fazem, como se comportam e por que diabos a criatividade resolve nos abandonar.

No ônibus, o senhor continuava, eu escutava mais do que falava, e também, estupefato pelo impacto sincrônico e da impressão sensorial que eu estava tendo, não consegui articular nada mais do que cinco ou seis frases. Ele catava papelão. Era cego... Sobrevivia assim. Disse que se deus quiser ele conseguiria ficar bom da vista..."

Aquilo foi indescritível. O raciocínio se perdera assim como eu perdi parte do que planejei para este pseudo-conto por que as palavras como bem disse Nietzsche são uma "serpente"; e afinal, nunca representarão(ainda mais com minha inabilidade poética e gramatical) o que realmente sentimos, vivemos, tocamos.

Talvez não esteja com tanta criatividade assim. O fato é que o cansaço me obriga a terminar um conto que poderia ser muito melhor do que meras frases farfalhantes de efeito moral.

Mas o cego... O cego era eu número 09... Estava cego de luz. Não é preciso olhos para enxergar. Eu tenho os meus e ainda me sinto tão cego. Lição que a passarela 09 e o senhor que eu ajudei a descer no ponto jamais me negarão na lembrança. Não é preciso entender muito para iluminar-se ou falar muito para fazer entender.

Aqueles olhos esbranquiçados, e voz calma e pausada, foram suficiente para eu tomar um bom banho de pó de estrelas e sentir o gosto da vida outra vez.

E como diria Lao Tse: "Quem se ergue às alturas sem desejo, enche de silêncio o coração."

sábado, 30 de junho de 2007

Conselhos próprios

O horizonte logo chegará. O céu obscuro, as nuvens carregadas, não impedem a chegada do novo, apenas o escondem.

Semana pesada. Dias pesados. Insônia, cansaço e decisões internas sendo paridas.

O instante da transformação não é percebido. Internamente as coisas caminham, por outro lado externamente a mudança não é sentida e nem pode ser avaliada. Não me conhecem. Não sabem por onde andei. Não podem ler minha mente. Podem apenas sugerir, adivinhar, arriscar algo que não conhecerão. Escutar-me. Sentir a pulsação. Cultivar o amor independe da doce solidão.

Ser completo. Não idealizar(algo delicioso no entanto), retirar-se, sentir o tempo, deixá-lo fluir.

À mediocridade apenas a indiferença. Gastar energia eliminando a mediocridade é esforço morto. À indiferença o destino. Ele se encarregará de tudo.

Trilhe seu caminho. Não vendo minha essência, não me rifo.

Por enquanto apenas busque paz e por favor, feche a maldita porta da geladeira da próxima vez.


sexta-feira, 29 de junho de 2007

Títulos bons para textos ruins

Eu pensei em tantas pessoas quanto pude lembrar ao escrever este conto. Foi um exercício. Talvez tenha esquecido de muitos. E também é muito provável que vocês estejam aqui. MUITO MESMO. Há tantas pessoas quanto as partes que vivem em mim. Procure-se aqui, deixe seu nome e identifique-se com os fragmentos CITADOS nos comentários, verei o quão oracular posso ser.

___________________________________________

Estávamos lá. Nos encarando. Você cultivava seu orgulho e eu minha fé no desastre.

Não era tão fácil quanto apertar botões do acaso e aguardar algo chegar, era apenas algumas metas pessimistas chegando. Era suicídio parcelado. Você me falou que eu era um errático. Eu lhe respondi que você já tinha tomado a pílula da consciência. Consciência traz iluminação, não felicidade. São coisas distintas.

O soluço de morte que nos venderam tinha nomes bem definidos, mas a única coisa que eu conseguia pensar era sobre problemas que eram só seus, só seus. Visitar terapeutas nos finais de semana, apertar parafusos nos intervalos e avaliar quem era você entre tudo isto.

Quando você consumia demais eu lhe pedi para parar. Você continou por orgulho. Apesar de sua inteligência emocional avançada, você era um pouco xiita.

Odiava interpelações, por que era uma viva. Racional demais para eu amar. E muito arriscada para eu prosseguir em minha auto-flagelação. Você era estranha.

Em alguns momentos eu me sentia centrado como um espírito de um mosteiro. Isso no entanto, não me fazia feliz. Álcool era mais apropriado para eu me esquecer da política de auto-destruição inconsciente que eu encomendei há alguns dias atrás.

E mesmo assim, as coisas iam queimando ao nosso redor e eu assistia o par de valetes esvaírem-se em fogueiras frente aos possíveis e impossíveis desejos, liberais e liberados, eram desejos que nos consumiam. Era a sinceridade que nos consumia.

Deste parágrafo em diante eu só pensava em você. Verdadeiramente, em você. Por que só você correspondia às minhas tristes idealizações.

E doía. Doía tão rápido e intensamente quanto meus acasos, quanto meus casos, que eu costumeiramente ia chafurdando em minha lama emocional. Por isso me evitavam.

Mesmo sob as pupilas, a luz perspassava meus sonhos. Eu tinha grandes desafios, grandes desejos e grandes abismos por caminhar.

Abri a janela, por meras conveniências gramaticais; era um estilo próprio. Outra corrida e eu chegaria no alto das estrelas.

Amanhã sobreviverei como todos vocês, apesar do que, não há idade para morrer ou viver sob o céu ou o brilho de estrelas que cartesianamente já estão mortas.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Da Reader Digest Colections

"A insônia pode ter causas orgânicas e psíquicas. Pesquisas apontam a produção inadequada de serotonina pelo organismo e o estresse provocado pelo desgaste quotidiano ou por situações-limite como causas mais importantes."

-Há. Fala sério. Onde está lendo isto?

- Numa reader digest.. seleções...

- Reader digest! É claro...! Este tipo de lixo é vendido em clínicas de eutanásia e assinada por aspirantes a suicidas... você deveria se envergonhar...

- Isso é muito consolador. Você já tomou chá preto?

- Chá-preto? Em uma semana ruim. Achei que conseguiria trocar a vodka por essa bosta, mas não foi possível a longo prazo, expirou Vasili a fumaça.

Enquanto a ruiva ia marcando o jogo de palavras cruzadas sob a luz furtada que iluminava o carpete da mesa de sinuca, Vasili ia simulando aproximações sinuosas, tomava tragos de cerveja, e parecia rabugento, mas estava feliz por passar aquele final de semana com a ruiva, esbanjando serotonina, trocando suor, saliva, e deixando-se seduzir por toda a imagem de vida selvagem e uma "freak" cidadania urbana que ambos se esmeraravam a construir.

Tempos bons.

Sentado no sofá, pensava que não havia muito sentido em permanecer por mais tempo na espelunca que ele chamava de lar, de templo.

A ruiva se foi. Eu já encomendei meu recomeço, e parte deste lugar está infestado de pó de estrela vermelho. Não é justo.

O fantasma da ruiva ainda caminhava por entre os quartos, enquanto Vasili lutava para não deixar a idade mascarar sua covardia.

- Você é auto-destrutivo.

-O que disse
Anatole?

- Auto-destrutivo. Não como um masoquista. Mas você clama por auto-destruição.

-Sério
? Perguntou nos dias de melhores ingenuidades.

-Sério.

Anatole, profuso e confuso Anatole, mestre das retiradas estratégicas, fundamentalmente uma boa companhia, mas um homem que não sabia usar pontos e vírgulas, ou era muito seco ou demasiadamente esquivo, normalmente contrariando o que a situação exigia, certamente.

-Estou com problemas de respiração Vasili.

-Como assim? Rinite?

- Não sei, não consegui entrar no banco semana passada. Travei na porta giratória. Passei mal. Não foi algo como a claustrofobia, por que mesmo após caminhar uns 50 metros até a estação do metrô, eu não consegui parar de respirar.

- Fume charutos. Resolverão seu problema.

Foi grosseiro o comentário dos charutos, mas eu estava tentando animar o velho "Tole". Ele ria das piores situações. Por que chegaria a fazer como a ruiva, sumir
?

Sinto saudades daquele puto.

Sinto amplas saudades como o mesmo brincava com a ruiva. Era um trio perfeito. Mas por que diabos ele resolveu amá-la. Eram problemas demais. A situação não permitia naquele momento um maldito caso de amor livre. Era arriscado e perigoso demais.

Um karma. Nós tentamos Tole... tentamos...

Abriu a geladeira, só haviam cervejas, uma tônica pela metade e umas maçãs desintegrando-se na gaveta inferior.

- Pela metade. Você faz as coisas pela metade Anatole.

- E o que isso tem haver com ser auto-destrutivo me diga
?

Ah... tem haver, escapou Vasili usando o abridor com destreza. Você não se formou, jamais terminou nenhum de seus, quantos mesmo
?, treze livros?, e além de tudo escuta meus cds de jazz pela metade.

Isso não é verdade... russo maldito.., protestou Anatole, com um pseudo-banho de cerveja no casaco marrom de Vasili.

- Sabe Anatole...

- Diz merda.

- A vida é algo muito esquisito. Um grande banco de dados de clichês.

- Aliás, pegue outra cerveja que hoje eu vou tentar dormir.

- Eu juro. Pensar enloquece.


quarta-feira, 20 de junho de 2007

Fechado para balanço


Por um tempo a definir.







A definir.

Caminha, não pára


Empreendi um novo rumo
Cataclisma emocional comedido
Um novo rumo
Sem teus baques, obrigado
Não haveriam meus caminhos
Apenas uma cadeira
Plantada no meio da sala

domingo, 17 de junho de 2007

"Se Não posso dançar não é minha revolução." (Emma Goldman)


Três pedras nas mãos. E ela caminhou por entre os armazéns do cais do porto pedindo por um encontro.

Estava cheia desse machismo, dessa agressividade dos símios, dos brutais machos envaidecidos por um pedaço de músculo entre as pernas. Se algum deles se atrevesse, já saberia o que fazer. Iria apedrejá-lo até a morte. Revidando as brutais agressões das mulheres muçulmanas condenadas por adultério.

Mas depois de quinze minutos, achou que era um morte muito brutal. Só mataria por legítima defesa. E foi assim que pensou durante os próximos minutos.

Caminhou com a raiva entre os dentes. Que mundo machista! Como era viver em meio à opressão de gênero, à ditadura do hormônio masculino, que lixo era pensar que o capital tinha sexo, sexo masculino, patriarcal, opressor, desigual, mantenedor muito além das estruturas de classe, mas das estruturas cotidianas de desigualdade.

Apedrejar alguém era medieval. Lembrou-se disto quando relacionou tal ato com o fato do machismo, do patriarcado ser medieval.

Raspara o cabelo para escapar do estereótipo feminino, mas até onde foi? Até onde foi, se queria apenas ser ela própria?

Ao caminhar, sentiu pena de um mundo que a obrigava a modificar sua essência por meio da antítese. Um estalo surgira. Não precisava explicitar a antítese. Bastava ser apenas ela. Chega de antíteses construídas exatamente para dividir. Dividir para conquistar. Não precisava disto.

"A rebeldia não está na imagem, está em meu sangue, em meu coração".

E por que tentou se adaptar a uma antítese construída pelas classes dominantes? Um estereótipo?

Serei apenas eu. Gritarei aleluia em tom de deboche! Aos padres! Aos "curas", aos conservadores de plantão emitirei sonoras risadas, sonoros sorrisos!

Aos que me pedirem castidade, os acusarei de estupro hormonal. Algo está errado no mundo.

Às revistas que suplicam por substituir o opressor masculino pelo feminino denunciarei-as, ridiculizarei-as. Opressores ou opressoras... De que me importa? São todos iguais!

O amor era livre até criarem servas e escravas, servos e escravos. Até criarem latifundiários e camponeses, patrões e operários.

A maior greve da história, a grande greve de 17 foi feita por mulheres. Na linha de frente, nas ocupações, nos despejos, no primeiro de maio, na guerra civil espanhola, na denúncia da opressão leninista/ stalinista na rússia, pelos direitos, sempre estão lá! Mulheres!

O amor é um pégasus. Ele voa sobre uma lua que pede por permanência.

O amor é algo recíproco. Algo que pede por contribuição! Por apoio e amor mútuo!

As pedras estão no bolso, mas só serão usadas quando a besta-fera machista ousar levantar-se.

Um golpe de ironia e sarcasmo. Uma dose de realidade e diálogo podem convencer muito mais do que pedras. As pedras são necessárias. Rochas, sólidas como princípios. Terei a inteligência para usá-las em momentos certos. Cada arma para seu momento.

O ponto de ônibus chegou. Não citarei o machismo da linguagem. Linguagem exclusiva.

Deixo para depois. Por enquanto há uma lua feminina clamando por permanência.

Farei ela ficar no céu agora. Sem pedras desta vez. Argumentos me bastam.




sábado, 16 de junho de 2007

Retrospectos

Fazendo um retrospecto, percebi que 90% dos últimos posts tem haver com a ruiva e que este assunto já deve ter saturado a minha legião de meia dúzia de leitores. Porém antes disto, eu já tinha me saturado de escrever sobre ela também. Não que eu tenha cansado de escrever sobre isso. O fato é que os últimos textos foram medíocres, pensando da forma mais utilitarista que eu posso pensar. E se a dor não produz algo belo poéticamente, ela não serve, recicle-a.

Mudemos então, a partir desta constatação a fonte da criação. Ruiva, desculpe, você caiu do cavalo, não me incentiva a ponto de conseguir escrever coisas tão belas. Sei que você vai me dizer que isso é culpa da minha inabilidade poética, tudo bem, eu posso até aceitar este argumento a princípio, mas é o combustível o que faz com que o poeta/escritor/fingidor consiga fazer algo de que valha a pena ser lembrado.

Portanto, a dor da ruiva já expirou. Prazo de validade esgotado. É a poesia que precede a dor, não o contrário. A poesia é mais importante. Portanto, se a dor não produz algo de tão interessante assim, sofra de outra forma!

Algo como o que falou o grande Fernando Pessoa:

"Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se.
E se ele me disser que o seu figado sofre com isso respondo: o que é o seu figado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto." (Fernando Pessoa)

Estou sendo sarcástico é claro. É bom ter alguns momentos de lucidez.

Mais legal ainda seria ser cult, isso daria uma dor de cabeça de verdade.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O Desabafo de Anatole

..
A RUIVA EXISTE CARALHO!!!!

Ela existe!!!!

Hahahahahaassahahahaa..

Bêbado, vodka, nada.

Amanhã ruiva talvez eu lhe veja. Talvez. Eu não gosto de lhe ver sempre. Nem gosto de escrever isso aqui e muito menos poucos gostam de ler esta porcaria. O fato é que no mundo dos normais. pouca coisa foge da rotina. Há a vodka. Hoje eu bebi muita vodka e pensei em me afastar de muita coisa. Por que quando eu tento dormir eu sinto dificuldade de me entregar aos sonhos. Eu me sinto um merda quando eu choro por você, por que há muitos racionais gritando aleluia por aí. E não há nada muito novo. Por que eu só escrevo sobre você e as pessoas que lêem isso aqui, no caso eu e minha multidão de vozes mais um algoritmo que soma mais 1 no final da linha estão realmente entediados com tanta falta de criatividade. Os poetas são fingidores. Eu não sou poeta e muito menos fingidor. Querem criatividade? Contratem publicitários. Por aqui só há um ócio criminoso reclamando fama.

Eu me programava antigamente. Agora eu me sigo pelos instintos. Está difícil permanecer como uma linha constante se eu nem consigo pensar direito sobre tudo isto. Estou me adaptando. Em um processo de adaptação desprezívelmente anti-poético.

Há um eletromagnetismo nisto tudo e uma lua pedindo por permanência. Não há como colocar colheres em equilíbrio nisto tudo. O que era novo agora espalha-se pútridamente pelo chão, pela terra. É um adubo novo. Um adubo novo. Parte do meu coração fechou-se como adubo.

Tudo é meio jargão. O sofrimento é algo tão comum, que já semeou metade deste latifúndio. Nem saberemos quem está realmente falando a verdade. É patético demais. Você sabe disto.

Não precisa provar o que sente. Só deslize e queime alguns ícones vez ou outra; chegamos então no final da totalidade.

Totalidade eu usei para lhe impressionar. Brincadeira. Não há uso. Apenas problemas mal resolvidos. Eu te amo. Quantas garrafas de vodka terei de beber para convencer este duende que corre em frente a mim?

A vodka é uma invenção russa. Ainda bem que você não é. Você é alemã. Consulados malditos.

Há metade de mim espalhado pelo quarto. Não dói tanto quanto aparenta doer. Mas faz todo o teatro parecer mais viral do que realmente é. Há parte do meu coração espalhado no que escrevi. Poucos ligam. Dinâmica homo-sapiens. Pedir esmolas emocionais é contrário tudo o que eu acredito. E eu finjo sentir que isto é em suma, verdade.


Não há sentido. Apenas partes espalhadas como disse anteriormente.

Prefiro acabar ruiva.

Mas por favor: fale isso para meu coração.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Da inteligência do cotidiano

Já faziam três dias que ele não conseguia sonhar direito. Muito menos dormir. Levantou da cama e tateou a mesinha de mogno. Achou as chaves da casa e duas latas de cerveja antes de pegar os cigarros. Sentou na cama, sacou o isqueiro e acendeu-os vislumbrando a janela. Pensou o quão suja estava, e o quão suja era toda aquela pós-modernidade pútrida que o visitava naquele ambiente tão falseado. O mundo não era tão pós-moderno assim. Bastava acordar às sete da manhã e ir comprar pão, que veria o quão clássico era tudo aquilo. Os sorrisos, o padeiro, as notas amassadas no caixa. Não havia muitos cigarros, nem músicas demodé e nem musas de cabelos vermelhos comprando pão naquele horário.

Mas ainda eram 3:40. Mais um sonho incompleto. Pegou a chave e ficou rodando-a, ignorando o tempo, a situação desconfortável. Resolveu levantar e tomar uma cerveja; fudido, fudido e meio, refletiu. Abriu o frigobar, pegou a penúltima lata, pensou que teria de comprar mais cervejas amanhã. Malditos supermercados, suas filas, seu ambiente de neón, sua maldita assepsia. Ambientes de plástico que não o agradavam. A imperfeição é parte do desastre, por que contê-la? Deixe que o caos fale por si e será agradável de certa forma.

Levantou e abriu a janela, que emitiu um ruído que lhe era agradável, talvez por isso não tenha pensado em ajeitar tudo aquilo. Debruçou-se e prosperou a fumar. Gostava da idéia de fazer situações absurdas em momento semânticamente contrários.

A rua estava vazia... mas havia um vulto esgueirando-se por entre as lixeiras da "Bread & Milk". Sim era uma padaria latino-americana. Americanizada. Ou melhor estadosunidensezada. Tudo igual.

Vestia um gorro engraçado, que lhe tapava as orelhas mas deixava seu cabelo grisalho à mostra.

O vulto fuçava algumas latas de lixo, mexia algo no bolso que Vasili não conseguia enxergar.

Continuou a observar a criatura noturna, e por um momento uma identificação fortíssima lhe acometeu: eram irmãos gemêos da mesma desgraça, em graus diferentes é claro.

"Ainda tenho minha cerveja, uma cama, e um quarto sujo, aliás essa mesa de mogno é um insulto. E esse quarto fede a mofo. " Pensou. Mas não posso trocá-la! Seria uma heresia com meu dia anti-pós-moderno(parecia bêbado).

E o que ele tem? Somos dois fudidos em graus diferentes. O mesmo mecanismo. É uma porra de um suicídio coletivo.

Tragava o cigarro e observava o homem remexer as latas de lixo, as caixas de papelão...

Talvez ele tenha sorte.

Não se sabe por que impulso, resolveu assobiar. O homem demorou a perceber o assobio. Tateou suas caixas de papelão como se ignorasse a suposta afronta. Por um momento demonstrou despreocupação e até mesmo ignorância perceptiva sobre o local exato do princípio do assobio.

Após a segunda ou terceira tragada do cigarro, surpreendentemente, caminhou com as mãos para dentro do paletó marrom, sim era marrom e agora dava para ver nítidamente um dos bolsos rasgados, poídos, e pegou uma outra caixa. Do outro lado da rua. Do lado do apart-hotel-pulgueiro em que Vasili encontrava-se instalado, e jogou uma guimba na calçada e olhando para baixo para enxergar o andarilho.

Deve estar pensando que estou querendo repreendê-lo...

Saiu da janela... Pegou mais uns cigarros, colocou no bolso, remexeu embaixo da cama a procura daquela garrafa de vodka russa que Anatole comprara no duty-free shopping em sua viagem, meio burguês, é verdade. Contradições. Parte da modernidade.

Abriu sua porta, o prédio calava-se, desceu as escadas rápidamente, estava frio, era um acaso estar de casaco. Abriu a porta... Caminhou até o portão destravou a fechadura... saiu... acendeu o cigarro... o homem ainda mexia nas caixas de papelão, desta vez num ritmo frenético, quase um trabalho fabril, de desmontar e guardar os pedaços num carrinho de supermercado enferrujado, do qual Vasili não tomara conhecimento desde a primeira visão.

Gaijin. Comentou alto.

Os olhos do andarilho fixaram-se com prontidão na figura de Vasili. Com uma ênfase especial na garrafa de vodka. Bebe comigo?

Ele continou caminhando no ritmo desmonte-caixa / encha o carrinho. Contudo por um momento interrompeu bruscamente a dança e resolveu encarar Vasili. Vodka?

Sim, Vodka.

Tem um cigarro? Perguntou.

Claro, tome, respondeu Vasili.

Está frio, resmungou acendendo o cigarro no isqueiro de metal de Vasili.

Sim... Frio... Mas não é como na Rússia...

Você é russo?

Não... Quer dizer... meio eslavo...

O homem riu. Uma risada roca, a simpatia brilhava nos seus olhos. Era uma boa companhia. Definitivamente uma boa companhia. Sua intuição falava assim e Vasili seguia sua intuição, por que normalmente dava certo.

Você mora aqui?

Moro por enquanto. Essa merda é um pulgueiro.

Ah rapaz, dá um pulo na sé. Lá tem pulgueiros melhores que esse.

Riu novamente... Um sorriso amarelo e uma risada rouca, forte, que abafava Vasili.

Sentaram e começaram a falar do mercado do papelão. Ele vendia, percorria a cidade, vendia, percorria a cidade. Era um ciclo eterno. Fabril. Da sua família, dos problemas, GRANDES problemas. Do governo, da polícia, da repressão, dos golpes, dos amigos mortos. Das drogas. As drogas da pós-modernidade.

Vasili ao contrário falara da ruiva metade do tempo, quão pequeneníssimo burguês tinha se tornado. Partes diferentes e semelhantes de um mesmo problema. No início achou que Gérson só queria a vodka russa. Mas ele era tão atencioso que o desconcertou; acabou que Vasili lhe deu cigarros e algum dinheiro para o almoço de amanhã.

Seus problemas lhe pareciam tão pequenos. Ínfimos. Existiam, mas eram pequenos.

Você tem problemas maiores que eu. Pensou. Não falou. Era óbvio demais. Falar... nem pensar!

Fumaram alguns cigarros. Não vá se perder por aí, apontou Vasili.

Pode deixar. E olha só Vazilo, tudo tem um propósito, quando não tem a gente inventa um cara...

Vasili gargalhou antes de fechar a portaria, e subiu as escadas. Caminhou até o apartamento, escutando o ranger das rodas do velho carrinho enferrujado de compras de Gérson, o "Fuligem". Gérson-fuligem... Parte das cinzas, parte deste mundinho pós-moderno, que tanto os nega, que tanto nos nega, afirmou.

Abriu a porta de casa(se é que poderia se chamar aquele little chiqueiro de casa) e fechou a janela, Gérson já tinha desaparecido na fuligem da noite. O pós-modernismo foi com ele. Teoria não há com barriga vazia, pensou.

E quando não houver um propósito. Invente um.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Sirva seus servos

Eu adorava dormir com a ruiva. E olha que eu já dormi com muita gente. Mas a ruiva era realmente especial. Eu gostava de boa parte do metodismo dela quando ela estava com sono. Por que eu só via a ruiva metódica nesses momentos, quando ela dormia. E então deus falou que isso era bom, no sétimo dia, digo segundo mês. O meu deus é meio preguiçoso. Até para me ajudar. Foi por isso que virei ateu. Até o segundo ano do segundo grau. Depois resolvi ser um agnóstico espiritual por que sem dúvida nenhuma era muito mais charmoso.

Mas quando eu falo dormir, as pessoas relacionam com sexo. Não é isso. Não que o sexo com a ruiva tenha sido ruim. Pelo contrário. Era sublime. Mas não é disso o que eu falo. Falo de dormir, sonhar ao lado dela, com um pouco de pó de estrela na cabeça. Eu nunca soube o que é paixão própriamente.

Eu achava que era apaixonado por uma meia dúzia de pessoas. Eu me enganei. Fui em graus distintos. Mas que se foda a razão. Estar apaixonado é estar sem razão e que se fodam os racionais que vão analisar isso aqui da maneira mais chata possível. Eles(libertários ou não) só sabem ver as coisas por esse ângulo. Apaixonem-se e verão o que estou falando. Se nunca se apaixonaram não é problema meu, a paixão precede todas as ideologias.

A paixão faz você botar a porra da cabeça no travesseiro numa segunda-feira pós-feriado e faz você sentir falta da ruiva, mesmo lutando racionalmente para que isso não aconteça, mas você sente falta da ruiva, sente mesmo e tenta entender a porra dos mecanismos primitivos(??) que te fazem agir desta forma. Ela está lá, e às vezes visita seus sonhos. A paixão faz isso com você. E é pior que a carência. Muito mais, por que na carência, você joga seus doces emocionais avanço e qualquer cozinheira consegue agarrar os quitutes, mas a paixão não te dá oportunidade Não há muitas escolhas.

Eu gostava de ver a ruiva dormir, mas eu adorava mesmo assistir ela acordando. Era lindo!

O rosto que ela fazia, o cabelo desgrenhado, mas tão sexy, o esforço por permanecer sóbria, tudo isso me contagiava. Na verdade não consigo descrever exatamente, por que a paixão também faz isso com você, ela te faz ficar acordado até as 5 da manhã rodopiando com um caos dançarino dentro de si. Te faz escrever, escutar e reagir de maneiras que você não gostaria. Te faz.

É difícil, por que você não faz força, nem sentido. Quando escrever torna-se(te) difícil levanta-te no outro dia caralho!

Eu só queria que ela falasse comigo. Da forma que ela falava antes. Com seus cabelos vermelhos. Eu queria não estar passando por isso, que não-é-porra-nenhuma diante do sofrimento do mundo, global. Mas está aqui. É algo concreto.

Vou tentar dormir. Cobrir-me, e afundar-me em alguns abismos introspectivos. Talvez eles me salvem.

Sangue novo na praça!

A divulgação vale a pena. Isso aqui vai dar o que falar realmente. Pelo menos entre nós três...

http://dedoscruzados.blogspot.com/

Um pseudo-historiador, um pseudo-cientista social e um pseudo-psicólogo se reúnem para formar a escola deIsabel-furt(contemporânea da escolinha de Frankfurt do titio Adorno e Marcuse).

Algo de genial deve sair disso tudo. Afinal nossas cervejas sempre nos proporcionaram coisas proto-geniais. E algumas análises bem interessantes.

Voilá, que post arrogante.

domingo, 3 de junho de 2007

Dos seus Abismos Oceânicos

E eu fui só até o limite. Por que até o limite é uma coisa boa disse no primeiro dia. Antes de ultrapassá-lo eu consegui respirar forte. E estava na direção correta, rumo ao fim do oceano. Oceano de memórias, fragmentos. Eu nado em busca do horizonte , do horizonte de, da verdade. Mas o horizonte é infinito, infinito. Eu descubro após me cansar. O mar é azul, de longe parece verde. Parece estar verde.

Meu rosto está molhado de sol, de sal. Eu nado com o vermelho dos olhos, antes de pensar se voltar a superfície foi realmente uma boa idéia.

Eu sinto vontade de voltar ao fundo. Por que o fundo é reconfortante, apesar de desfocado e confuso como toda profundidade normalmente é.

A superfície não me encanta. São os oceanos, suas cavernas, sua escuridão, que me seduzem. Eu continuo a nadar, mais meus braços dóem. Vejo um barco contornar o horizonte. Eu grito. Agito braços, pernas, em vão. Está desfocado, longe da visão. As velas tem ligeiros traços amarelos, mas eu nunca saberei de verdade qual cor realmente é. Não importa. Eu observo sua trajetória, ele contorna o horizonte, o oceano e desaparece... Eu fico boiando. O sol tosta minha derme, não há mais esperança, apenas ilusão, algumas nuvens cobrem o astro-rei, rei do quê? Um rei sem súditos não é rei, é um vassalo corrupto.

Eu busco uma ilha. Mas não há nenhuma no horizonte. As nuvens cobrem o céu de piedade, e eu caço desenhos no alto, procuro padrões enquanto a noite não chega.

Eu me canso... As nuvens se enegrecem. A chuva cai. E com ela parte da superfície. A superfícia agita-se e eu resolvo deixar-me levar. Primeiro é a mente que decide. Os membros obedecem contraditóriamente a necessidade intríseca de sobreviver. É o instinto de conservação.

Eu bebo água salgada. Uma das mãos estica-se. O oceano vai me consumindo, me engolindo lentamente. A digestão é calma, tranquila. Eu afundo. A superfície torna-se cada vez mais distante. O sol desfoca-se pela lente da superfície, o sorriso é interno, a queda ao fundo, reconfortante. As trevas internas consomem-me, o fundo está mais próximo, o sol me dá adeus, as cavernas do desconhecido aguardam-me. Está mais escuro. Mais frio. E muito reconfortante...

sábado, 2 de junho de 2007

Do último sonho, do último porre

Sem poesias. Vamos aos fatos agora.

Tudo começou como um sonho. Vamos ao sonho:

Um acidente de ônibus. Micro-ônibus. O micro-ônibus tomba, as pessoas saem, ninguém se fere, eu estou fora, assisto a tudo. Meu pai vai chamar ajuda. Eu vejo um ambulância chegar atrasada, todos estão bem, ninguém se fere. Eu caminho. Vejo meu bolo de morango(*), mas (até) no sonho eu me confundo. É uma pessoa parecida(guarde este trecho iremos para a realidade com ele mais a frente), mas não é ela. Eu caminho. Fim da parte A.

Estou no prédio da minha faculdade(eu sinto que é, mas na verdade não é o prédio...).

Eu entro numa sala que está interditada. É o instituto de física. Eu abro a porta, invado o local. Todo o chão é de madeira, placas de madeira. Há um cômodo, com janelas, portas, todas lacradas com madeira, eu vou para outro cômodo, quando piso no chão deste cômodo algumas madeiras do chão rangem, quebram, eu quase caio lá embaixo e vejo que há um outro cômodo secreto debaixo deste piso desta sala. Tenho medo de cair, volto a outra sala do cômodo, abro algumas janelas, portas(na verdade elas se descortinam), vejo pessoas lá fora. A sensação é de estar num castelo. Tento fechar tais portas, tais janelas, mas elas não fecham. As madeiras que a escoram caem, nada se encaixa novamente no lugar. Eu volto para o ambiente dois, o ambiente onde o piso cai, e eu desco para o ambiente, me jogo pelo buraco criado no piso. E vou para outro lugar.

Um lugar secreto, nos subterrâneos da minha faculdade(ou seria da minha mente?).

Eu desco. Vou andando. É um galpão. Enorme. Ninguém. Eu me esgueiro pelas colunas que sustentam o teto, desco até o chão acho uma pequena escada, subo, e vejo um teto suspenso, um piso suspenso neste galpão, neste piso, milhões de brinquedos de criança(minha infância armazenada? escondida?), tem muitos bichos de pelúcia, em sacos plásticos, gigantes, eu me impressiono com tudo aquilo. Alguém está roubando a infância de alguém? Estão em bom estado. Mostram organização. A infância guardada, organizada, escondida. Dois duendes passam por mim. Não são duendes. Eu acho que são crianças, mas me lembro no sonho o trecho do poema do Nietzsche: "... este duende que corre entre vós...".

Não são duendes. Eu agarro um deles. São bonecos, bonecas de criança que andam, mexem os olhos, quando eu agarro um deles, ele(ou ela) simplesmente permanece parad@ como algo inanimado, mas o outro corre no meio do piso elevado do galpão. Duas pessoas neste momento passam na parte de baixo do galpão. Eu me escondo atrás da parede onde se escondem os brinquedos. Uma ruiva passa pelo galpão. Cabelos vermelhos longos e uma outra mulher que não me recordo a aparência. Um dos duendes joga um dos bichos de pelúcia nas duas mulheres, nas ruivas. Joga vários. Eu jogo também alguns eu acho. A ruiva e a outra mulher olham, ficam assustadas, procuram os autores do golpe. Correm... Eu pulo o tal muro. Corro atrás delas. Os duendes ficam. Eu corro atravesso o galpão para um lugar muito maior. Elas estão bem mais a frente, eu me lembro que tento alcançá-las para explicar que foram os duendes e não eu os que atiraram os bichos de pelúcia.

Enquanto eu corro em direção a elas, dois homens vem em direção a mim. Eles gritam, me avisam, "o que está fazendo", acho que vão me agredir, um mal entendido. Eu alcanço a ruiva, seguro ela, mas os dois homens, rapazes, vem em direção a mim. Eu explico, tento explicar tudo. Dou um mortal com o corpo para trás. Uns passos de capoeira, uma estrela no ar. E as coisas se explicam. Eles não me agridem.

Eu acordo. E só me lembro disso até agora.

Na realidade. Encontro uma ruiva. E um simulacro de ruiva(o trecho que eu pedi para guardar). As coisas vão se encaixando. A noite cai. Cai e eu fico sozinho, no ponto de ônibus. A falsa ruiva vai embora muito cedo. Ela não é tão ruiva quanto eu pensei. Estou vendo a ruiva em todos os lugares eu imaginei. E é verdade.

A noite não cai, desaba. A lua está bonita, apesar de tudo escuro. Ainda rolam algumas cervejas, uma música triste e uma plena capacidade de escrever isso tudo.

Aqui.


sexta-feira, 1 de junho de 2007

Das carcaças do desagravo

Maldito vinho seco. Chagas emocionais! Malditas sejam. Maldita seja a semiótica, a linguística e os professores de língua portuguesa. Maldito sejam os duendes de jardim e os onanistas intelectuais. E antes que eu transforme isso num pobre manifesto eu preciso partir para outros estágios da percepção. Depois do segundo gole é perfeito.

Teorize. Teorize seu merda. Teorize sobre suas, nossas, vossas, aftas emocionais! Teorize! Teorizar lhe dá uma robustez intelectual medíocre! Medíocre esté me entendendo? No natal você se lembra? No natal? O parto, a vitória e você lá, esparramado como se não ligasse para o amigo oculto, para a ceia, para o frango repleto de hormônios estatelado sobre a mesa seu niilista de merda! Seu pedaço de entulho poético mal acabado!

Quando crescer me chame para eu carregar seu caixão de neon; esdrúxulo perdido.

Continuar? Não? Diga alguma coisa. Como se arqueja e estrebucha como um símio, caricato, imitando o pai, a mãe e os parentes no dia de ação de graças. Mas graças ao que? Se não há similaridade no torto, no feio... Na conta não paga e no tropeção que derruba o rádio da mamãe.

Quando você dançar para o rádio novamente eu vou fazer café, servido? Servido seu filho da puta? Quer café? Tome café! Tome seu maldito! Tome! Vou esparramar café sobre sua corcunda maldita! Maldita! Como se regorzija, comendo empadas, pastéis e risolhes de deboche!

Eu te reconheceria há léguas de distância, léguas, com seu cheiro pútrido infeccionar nossa festa. Nossa família. Nossa honra, nossa tradição! Você é uma mácula sombria dentro de nossa árvore genealógica. Um pútrida, um espúrio! Um poço de fezes! Uma aberração sombria que insiste em manter-se vivo para nos atormentar! Canalha! Cachorro! Fedido! Ferrado! Judas! Mendigo! Tu é um abissal a procura de um buraco imundo! Chagas nojentas tu se alimenta! Atroz imundície tu representa, a procura de uma carcaça para destilar teus vermes corporais!!!

Morre maldito! Morre encarnação da desgraça, da desonra e da devassidão! Morre de vez!!!!!!

Só por que quebrei o aparelho de som da mamãe irmão?

É estrupício! SÓ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 30 de maio de 2007

"Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos". (Nietzsche)


Feliz é o destino da inocente vestal
Esquecida pelo mundo que ela esqueceu
Brilho eterno da mente sem lembrança!

(Alexander Pope)


O tratado definitivo sobre a empatia e suas implicações

Para questões de esclarecimento, eu preferia ter escrito esta carta mais cedo. Contudo, quando você partiu naquela noite de passos apressados, eu sabia exatamente que correr atrás de você só tornariam as coisas mais hilárias do que já estavam.

Deixei você ir embora deliberadamente, por que não tenho a paciência medíocre para iniciar esses jogos de demanda e oferta emocional, que eu naturalmente(e você sabe disto) detesto.

Quanto a Anatole, ele ficou feliz com sua partida, por que eu quebrei o círculo que ele tanto se esmerou a construir e ele sabia exatamente, que isto seria um excelente motivo para ele me torturar durante algumas semanas, ou simplesmente sumir, como tentativa de me punir em conjunto.

Eu simplesmente não me sinto adaptado com estas mudanças. E ultimamente estou numa fase estúpida. Não estou mais aqui. Estou não estando. Você deve ter sentido isto alguns dias atrás é claro, mulheres tem excelentes percepções(sei que você odeia generalizações do tipo, mas voilá isto é empíricamente provado!), do tipo que assustam, algumas devo confessar(por mais que eu sempre negue) parecem verdadeiras paranormais de tão exatas e intuitivas que conseguem ser.

Não estar significa, que esta realidade me parece tão estúpida, que prefiro empreender uma bela dança sob meu espelho vazio de sentido. E desconstruir algumas coisas é fácil demais, reconstruí-las é que me parece um trabalho hérculeo, um trabalho cansativo, que me vence, da maneira mais morna possível.















Eu joguei dominó com aquele monge taoísta(eu perdi todas as partidas é claro) que você falou, ele me encontrou fuçando alguns livros na livraria do templo e resolveu conversar comigo, pois alguém(você) deve ter falado pra ele que eu era o seu problema. O seu problema em tempo integral.

Ele foi muito amável e sincero. Coisa que eu detestei a princípio, pois pessoas que amam a religião se obrigam a ser amáveis e sinceras, o que é particularmente ridículo, mas eu tive que me desarmar, e contei para ele que não te amava tanto assim. Claro que ele não te disse isto. As coisas fluíram e eu mesmo contei. Contei agora.

É claro que eu estou mentindo. Eu te amo. Não posso amar algo que não é concreto, isto é verdade. Anatole diz que eu digo exatamente o contrário do que eu quero dizer em determinadas situações, mas segundo ele, eu consigo manter o jogo fechado e é a única coisa misteriosa em mim que vale a pena ser observada. Mas metade do mundo faz isto: e esta metade se orgulham.

O puto teve que tomar dois copos de vodka e um whisky sem gelo para criar coragem de falar isso e mais um pouco, mas poderia ser pior, ele poderia fazer uma festa de aniversário, há pretextos muito piores.

E ele foi além da conversa habitual, falou que eu não te merecia, e no jogo torto da vida, atenção demais gera repulsão(decepções do Anatole que não estão demasiadamente erradas, apesar do seu pouco tato para este tipo de coisa).

Mas até que ele está certo em grande parte. É impressionante como é que eu deixei de amar muitos possíveis amores quando recebi atenção em demasiada e como é que eu amei quando não recebi(sei que pode parecer estranho mas impressionantemente funciona desta maneira). É claro que há todo um equilíbrio, e quem sabe lidar com esta brincadeira acrobática, consegue sustentar um(a) idiota apaixonado durante toda uma vida(como eu por exemplo). É claro que depois de um tempo não tão curto, você conseguirá manter o(a) idiota preso(a) demais para tentar se desvencilhar tão fácilmente e dependendo da sua habilidade(é uma habilidade inconsciente para os honestos e consciente para os sórdidos) a coisa se desenrola em três ou quatro meses(experts fazem em dois, por experiência própria).

Mas ruiva, mudando radicalmente de assunto você devia ter visto a cara das pessoas hoje. Um cara se suicidou no metrô. Muita gente faz isso, e tem gente que se mata pagando em prestações parceladas, mas o metrô escondeu, abafou a situação. É um tema muito delicado, a mídia não fala, existem manuais de ética sobre isso.

Não fale sobre suicídios garoto, isso pode motivar as pessoas a se matarem e isto criaria um problema de saúde para nós e seria mal por que teríamos de contar aos nossos filhos por que as pessoas estão caindo de prédios como no crack da bolsa em 29 sem própriamente termos uma crise econômica para justificar esta "exceção". O fato é que este mundo cinza, não consegue mais dar felicidade ou sentido para as pessoas. Nos países pobres há apenas opressão e miséria, nos ricos ilhas de consumo, playstation, mac donald's, viagra, prozak e consumo, mais consumo, em ritmos fora do normais.

O mais interessante é que quando alguém se mata numa linha de metrô ou tem as pernas amputadas na melhor das hipóteses, há algo que particularmente costuma gerar uma tensão que necessita ser resolvida com o depoimento de dois ou três "profissionais" da saúde. Estes lubrificadores de engrenagem são uma parte funcional e essencial do sistema que precisa reforçar a "anormalidade" presente em todos os casos. Anormais se jogam da plataforma e pessoas normais trabalham doze horas por dia até envelhecerem. E aí a engrenagem volta a funcionar.

Sobre isto evidentemente você sabe, sabe com vigor e profundidade, por que nós lutamos juntos para mudar toda esta merda; merda instalada em todos os âmbitos, em todos os buracos, onde apertamos, onde esprememos a merda espirra, escorre e se espalha.

Mas chega de política, eu te mandei esta carta para falar de nós. Falar em "nós" é simplista e de uma certa maneira estúpido, por que estamos separados por milhas de distância enquanto eu escuto aquelas músicas covardes que você tanto detesta. É incrível como as pessoas acham que lhe conhecem profundamente, mas há momentos em que elas não são mais suficientes ou a empatia(ou a paciência) delas começa a denegrir-se de maneira tão visível, que é hora de trocar os estepes e conhecermos pessoalmente aquele duende que corre, dança e ironiza-se entre nós.

Anatole não tem ou atingiu esta capacidade, por que ele nunca foi empático o suficiente, ele não tenta ser empático, é rude quando e normalmente precisa, e não vai perder algo que nunca teve.

É o velho abismo. O velho abismo ruiva... Que nós mesmos alimentamos, mas são necessidades civilizacionais. Dizer tudo deveria ser proibido. Quem é covarde o suficiente para não se encarar desta maneira ruiva?

Eu vou continuar esta carta, mas a minha necessidade de ser exposto como um melão numa feira de sábado a tarde é mais preemente e visível que a minha suposta modéstia em me abastecer e me ver necessário comigo mesmo e meus duendes, ou chame do que quer chamar estas partes de mim que eu ora rejeito ora acolho em meus braços.

Continuarei. Acho eu.

Beijos do seu não-ruivo de cabelos, olhos, negros, castanhos.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

A lascividade do último encontro

Convidou Amanda para o bar não por que precisasse conversar própriamente, mas porque gostaria de soltar meia dúzia de frases de efeito e ter algum material fresco para colocar suas idéias literárias em prática.

Isso era egoísmo, mas pelo menos ele era um egoísta sincero. No caminho o egoísmo dava lugar a um sentimeno altruísta muito ocasional. Na verdade era um disputa interna entre suas múltiplas faces. Quando atravessou a faixa de pedestres, prometeu que seria atencioso e carinhoso com Amanda tempo o suficiente para embebedar-se com seis ou sete cervejas.

Não houve muito tempo.

Amanda em alguns momentos era uma filha da p#$@ egocêntrica. Ele a adorava, mas ela insistia em ser egocêntrica nas ocasiões erradas e isso tornava tudo a partir daí muito mais difícil e intricado.

Amanda lera seus poemas? Jamais! Amanda o visitou quando ficou doente? Nunca! Amanda esqueceu de seu aniversário? Duas vezes! Afinal, o que era Amanda além de um ser miserável, imprestável, que não merecia sua atenção!?

Mas lá estava ele! Como um Gandhi moderno, uma madre teresa de Calcutá contemporânea ouvindo as aflitas lamentações/considerações de Amanda. O casaco perdido, a díficil situação financeira dos seus pais, sua rotina extenuante de estudos, o caso mal resolvido com seu antigo affair... Deus, a lista era enorme. Amanda falava, gesticulava, apontava e decidia onde a conversa iniciava, onde as palavras delimitavam mudanças de tema, ela avaliava quais piadas eram realmente interessantes, quais considerações importantes e quais lamúrias ela estaria efetivamente interessada em escutar.

- A partir do momento em que parei de girar a sociedade em torno do meu umbigo, respondeu a Amanda com um gole de cerveja pontuando a frase, eu consegui me tornar mais nobre, mas muito mas infeliz.

Amanda sorriu, era um sorriso que revelava que ela não estava muito inclinada a entender, apenas a esperar sua vez de falar. A maioria das pessoas funcionava sob esta lógica.

E foi assim, até que ela foi embora para suas luzes de neon; um mundinho micro fascista chamado boate, que vendia ambientes geométricamente perfeitos que simulavam alguns sonhos e realidades, das quais muito chamavam de diversão.

Antes disso a ruiva tinha chegado, cumprimentaram-se enquanto ele esperava a fase da qual as confluências, ou seja, o acordo mútuo entre qual seria o eixo temático da conversa básicamente surgisse. Mais a Ruiva era uma artista dedicada e sincera diga-se de passagem, que conseguia transitar por todos os terrenos, entrar e sair por todas as portas como uma lady inglesa, não com a mesma falsidade, claro.

Amanda despedira-se como de habitual, com um toque de honestidade que sempre acabava salvando a impressão de que ele guardaria para o resto da noite.

Após o "como você está" mais insoso que ele já ensaiou com a ruiva ele resolveu repetir as mesmas palavras para ver se a convencia a entrar em um delicioso jogo filosófico que só ela sabia fazer.

- A partir do momento em que parei de girar a sociedade(...) repetiu.

- Como assim? Você não está sendo claro.

Respirou fundo.

-Essa cidade parece ser uma junção de pessoas sem propósito. E quando eu resolvi falar menos e ouvir mais eu quebrei uma merda de uma lógica. E agora isso fica tão brilhante que eu consigo ver esse amontoado de egocentrismo espirrar por todos os lados dos meus dias.

-Seja mais direto.

- Essa é a questão. A linguagem está presa, condicionada por esse tempo cínico e cruel em que vivemos. Não há tempo para desenvolver as idéias, por que o nosso comportamento de apertadores cíclicos de botões nos encaixou em modelos opressivos de comunicação. Se desenvolvo uma idéia com mais profundidade sou interrompido. Se falo algo curto, a princípio sou aceito, mas estão apenas esperando sua vez de falar. Obrigam-me a ser sintético.

- Eu olho para uma formiga na parede do meu quarto e aprendo mais com ela do que com os discursos de bar. Esses discursos de bar são uma merda.

- Você tem razão... mas eu gostaria de lembrar que as pessoas são diferentes. São como...

- Amanda?

- Sim. São como ela.

- Eu não quero desenvolver meu senso antropofágico de relação social, você sabe que eu não sou assim, mas eu gostaria de um interesse mais transparente na maior parte das vezes.

- É... todos queremos... Pontuou a ruiva.

Ela abaixou a cabeça, o olhar se perdeu, algumas imagens de outras situações e bares lhe ocorreram, mas ele tinha concentração o suficiente para concluir. O pensamento de ambos começava a se encontrar.

- As pessoas me cansam, por que elas se cansam delas próprias e acabam tornando seus amigos, conhecidos ou diabos um bando de espelhos. Às vezes me sinto acorrentado com uma arma nos córneos sendo obrigado a assistir um stripper ou uma operação cirúrgica das entranhas do egocentrismo. Tome este órgão doutor, segure o bisturi, segure meu fígado, tome meu rim, feche meu ferimento. Que grande merda! Assista isso! Minha mãe, meu estudos, meu eu, meu namorado, minha vida, meu eu, meu ego, meu meu meu meu... Tudo bem! Um pouco de reciprocidade é positivo, mas isso está tomando proporções muito perigosas.

- Você bebe demais.

Ele riu. Era um ótimo corte. Da melhor forma que só a ruiva poderia oferecer.

-Se eu falar "tá bom vamos falar de outra coisa" isso não seria extremamente unilateral? Não é um pedido, essa merda é uma ordem! As pessoas fazem isso todo o tempo.

- Dizem. Fazem isso cotidianamente. É como vestir luvas de auto-indulgência para com seus próprios erros.

A inteligência da ruiva merecia um comentário a parte. Uma inteligência emocional fantástica que o fascinava.

- Vamos dançar. Ela provocou.

Ele não precisou convencer-se, já estava; quando aquele olhar fascinante, aqueles belos cabelos vermelhos, e aquela camisa cinza baby look(pensou o quão americanizada era esta palavra em todos os sentidos do termo) que ressaltava seus belo seios, o seduziam e o negavam não necessáriamente nesta mesma ordem.

- Vamos.

E dirigiram-se sem darem as mãos uns aos outros(ele estava na fase de odiar esses ritos) e ela pensou que não seria agradável despertar muitas certezas, certezas estragavam quaisquer surpresas e ele com certeza ficaria surpreso por que tudo já estava decidido na cabeça dela e aquele seria um teste de fogo. Não como cigarros queimados nos pulsos, mas doeria muito mais diga-se de passagem.

Andaram... caminharam pela praia, emendaram em algumas ruas escondidas, e pegaram o ônibus rumo a destinos semelhantes, mas tão diversos dentro da dinâmica em que os dois se envolveram.

Não houve conversa durante a viagem. Estavam mais preocupados em certificarem-se cada um à sua maneira e sua expectativa o tamanho do estrago que iriam causar.

E o estrago começou no elevador do prédio dela, quando ele resolveu brincar com seus cabelos vermelhos enquanto ela fingia que não ligava ele se diminuiu a ponto de planejar quantos minutos ele demoraria para deixar ela no apartamento, tomar uma dose de gim e voltar para o ponto de ônibus a procura de um taxi.

Mas isso não ocorreu e não poderia ocorrer, por que neste dias ambos estavam sintonizados, e foi só ela parar na porta do quarto com um ar lascivo sorrir e entrar porta a dentro com seus cabelos vermelhos cuidadosamente desgrenhados que ele largou a cerveja perto do sofá e atirou-se descuidadamente em sua direção. As bocas se encontravam num ritmo febril, uma necessidade, como um vício, uma dependência mútua que encontrava ali seu auge mais explícito.

Enquanto ela dava alguns passos para trás ele jogava-a na cama com uma violência tão sutil que os olhos da ruiva reviraram enquanto ela tateava o rádio a procura do botão que desencadearia a trilha sonora do que seria talvez, o último encontro carnal dos dois.

A música do corpo, as peles se encontravam, os toques as reações, os gemidos lentamente construídos sobre a moldura do prazer, tudo se esquadrinhava em volta do grande erro que cometiam, um delicioso erro, um delicioso erro, que comprometia parte do juramento que fizeram juntos. O perfeito não existia, não existira, era apenas uma imagem ideal da realidade, mas não seria heresia nenhuma chamar isolar aquele momento e chamá-lo de perfeito. De maneira alguma... pois eles se permitiam tal luxúria...

Microconto: O problema de Eduardo


Eduardo tinha um problema. Seu problema chamava-se Joana.

E nas quintas-feiras o problema acenava ou dava-lhe bom dia antes das aulas de metodologia do ensino aplicado II.

O temperamento outrora translúcido de Eduardo dava lugar a um sorriso oco e a uma expressão vaga de pena. Pena de si mesmo.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Da grande porca que sobrevivera

Todos os porcos são iguais. Mais há porcos mais iguais que os outros.

Entendeu?

Gritou; estava bêbado.

Jogara as chaves por cima da mesa, uma mesa de madeira patéticamente solitária, uma madeira de baixa qualidade, em cima apenas a porca, um cinzeiro cheio de guimbas e um bloco de papel com rascunhos quaisquer. A porca estava parcialmente manca, fruto de um derrubão que lhe arrancara parte da pata esquerda. Culpa da maldita cuba libre. Gritou um merda tão vivaz, que assustou o gato que resolvera circular toda semana passada pelo apartamento.

Ainda tateara alguns segundos para apagar o interruptor e acender o abajour de centro que comprara na feira de antiguidade aos sábados da Praça XV e não-se-sabe o porquê mas o vendedor resolveu limpar os dentes enquanto resolvia convencê-lo de que o valor do abajour era justo a princípio, coisa que de fato convenceu-o com um virar de costas teatral que definiu toda a futura barganha.

Pensou o quão classe média era. Estava dominado, recheado dos trejeitos e sonhos típicamente pequeno-burgueses que tanto fazia questão de rejeitar, ou diria projetar... projetar...

Sentou com a garrafa de cerveja próxima a cadeira, olhou para a porca, a admirou antes de encher o copo e tragar a espuma, a cerveja e parte das decepções. Botou a porca olhando para a parede oposta a da janela e pensou que escrever contos pequeno-burgueses era uma sina sua. Jamais conseguiria escrever contos que lhe trariam realmente um pouco de dignidade, por que era necessário um tom de sobriedade que não obtia durante os dias de semana quando resolvia confrontar-se com si próprio. Não era um Máximo Górki muito menos um Lima Barreto, era um arremedo de Kafka com umas pitadas repetitivas de um Badeulaire de quinta-categoria.

Nesses dias, era apenas emoção e fundos falsos. Parava para recolher pedaços durante seus introspectivos quartos vazios. Vazios de si próprio.

Pegou a porca novamente, alisou-a como uma lâmpada mágica, como um objeto parado poderia lhe dizer tanto? Como?

E dizia. Dizia sem abrir lábios que nem tinha. Dizia com as lembranças, com o simbólico, com o imaginário não-lido, com a falsa impressão dos sorrisos, com os encontros e desencontros dos dias finais da semana; dizia tanto que faltava chorar. Mas ela não tinha olhos, nem pupilas, apenas buracos em paredes de barro. Quando olhava para a porca lembrava dos mesmos olhares brilhantes que o castigavam com a indiferença. A indiferença, o desprezo é o oposto do amor, não o ódio. O ódio é parceiro. Falara isso numa situação esdrúxula é verdade, chovia, e era o dia dos conselhos errados. Conselhos errados era a data que quatro campeões se reuníam para construir uma meta-filosofia da desgraça. Era engraçado. Um axioma antigo que o reconfortava.

Pois sempre precisava falar, falar entre algumas mesas de bar era fundamental para ver se conseguia exorcizar a porca, o passado, o símbolo e o diabo a quatro! Mas não era tão fácil.

Não era tão fácil por que quando acordava tinha a porca para lembrar da ruiva, da maldita ruiva e quando dormia, os sonhos se encarregavam de mostrá-lo o quanto podia ser cruel essa tal de memória. Evitar não é o remédio. Confrontar é a solução. Não é um tratamento homeopático, mas mesmo assim é algo corajoso a se fazer.

A temática não era lá essas coisas. Mas isso resolveria nos próximos meses.

terça-feira, 22 de maio de 2007

"Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida!"

Entrevista interessante... sobre o i07... encontro em Paris....

"Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida!"

Nesta entrevista, Rafael, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), nos conta um pouco como foi sua participação e impressão do encontro internacional i07, que aconteceu entre 28 de abril e 1 de maio, em Paris, na França, juntando delegações de várias partes do mundo: Bangladesh, Camarão, Irlanda, Espanha, Nova Zelândia, Mali, Suécia, Polônia, Colômbia, Argentina, Alemanha, Costa do Marfim, Palestina, Marrocos, Argélia, Burkina Faso, Portugal, Grécia, Benin, Reino Unido, Estados Unidos, México, Brasil...

Agência de Notícias Anarquistas > Podemos começar essa conversa com você contando sua impressão sobre o encontro internacional i07 em Paris. Sua avaliação é positiva?

Rafael Viana < style="font-weight: bold;">ANA > E você participou efetivamente de algum tema específico? Foste como delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)?

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Já tive a oportunidade de ouvir uma fala desta jovem companheira de Atenco, e me impressionou a força nas suas palavras... Nessa oportunidade, em Paris, ela falou com um facão na mão, não? Vi fotos... (risos)

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Ficou articulado alguma campanha entre os grupos latinos? Li algo sobre se criar uma Coordenação Anticapitalista Internacional...

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Também esteve na passeata do 1° de Maio? Imagino que tenhas ficado emocionado em ver tantos libertários juntos, não? (risos)

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Alguma coisa te chamou a atenção nessa passeata? Por exemplo, a presença de negros? Gente de várias idades...

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Apesar de tudo, da apatia geral, das coisas serem tão difíceis para nós anarquistas, e longe de querer cair num otimismo estéril, podemos dizer que o anarquismo se expande por todos os lados? Que ele continua carregado de sentidos?

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Quer acrescentar algo para finalizar?

Rafael < style="font-style: italic;">Enfiou os dedos na terra, plantou uma semente e dormiu.

Microcontos - Jane Zandonade

domingo, 20 de maio de 2007

A princesa negra visitou-me.

Cat Power e cerveja.

sábado, 19 de maio de 2007

Exatamente como eu me sinto





Pyramid Song - Radiohead

I jumped in the river and what did I see?
Black-eyed angels swam with me
A moon full of stars and astral cars
All the things I used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat
There was nothing to fear and nothing to doubt

I jumped into the river
Black-eyed angels swam with me
A moon full of stars and astral cars
And all the things I used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat
There was nothing to fear and nothing to doubt

There was nothing to fear and nothing to doubt
There was nothing to fear and nothing to doubt


Eu pulei no rio e o que eu vi?
Anjos de asas negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e presente
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco

Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

Eu pulei no rio
Anjos de asas negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e presente
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco
Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

sexta-feira, 18 de maio de 2007

zzzzzzzz.....


Dormirei... Os sonhos eu deixo para quando acordar.

Eu lírico em dia de fúria

Eram muitos rascunhos. Eu estava atolado de rascunhos, entulhos poéticos que não me servem de nada!, eu gritei! Nada estão me escutando!, gritei na janela para metade dos vizinhos ouvirem.

Um gato fugiu. Preto, esquálido, deve ser mau agouro! Mau agouro! Pensei com meus botões. E eu estava de pijama...

Todo homem tem seu vício. O meu é de beber cervejas e escrever contos. Alcoolizo-me e ponho a beber. Cada homem, cada mulher, cada alienígena com seu fardo, com sua cruz! Converso com meus personagens(é mentira) a noite inteira, xingo minhas vozes interiores(continua mentindo...) e me faço poético como um bom fingidor que sou(parafraseando Fernando Pessoa para demonstrar erudição literária).

Onde estão os espelhos. Chega de coisas tortas(chegando na fase terminal...). Chega, vamos ser diretos. Chega de espelhos. Chega de metáforas escrotas. Queremos ser diretos. Nós os leitores clamamos por coisas mais fáceis. Chega de escritores sofredores. De palavras incompreensíveis que só os mesmos entendem. Chega de citações arrogantes, que nos fazem perder alguns minutos em buscadores enciclopédicos a procura de seu significado. Cortázar, Saramago, Pessoa... que se vão todos! Que morram entupidos com suas galhafas(esta palavra ele inventou) poético-acrobáticas.

Não grite, não gritem, é só um espasmo, eu não quis ofendê-los, quero apenas torturá-los, matá-los aos poucos com seus próprios venenos! Não me venham com músicas! Chega de artistas. O mundo está cheio deles. Façam como Kafka, rasguem tudo o que escrevi. Não há felicidade na desgraça alheia.

Cansei. É uma pena. Vou descer e comprar veneno.

E isso tudo por um chute na bunda. Agripino era mesmo um bosta-rala, como diziam seus inimigos da academia

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Isso aqui está virando um cemitério de letras... de tão pouco comentado...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Roberto e os impasses nucleares

Quando Roberto chegou em casa, encontrou uma barata voadora passeando dentro do seu quarto. Pegou o inseticida e alvejou a desgraçada no meio de uma acrobacia desengonçada sob a escrivaninha marrom. A bicha caiu, não voava mais, mas era capaz de rastejar de forma a irritar qualquer homen sapiens sapiens, teve que apelar para a vassoura e quase sentiu pena daquele bicho repugnante, tentando sobreviver às custas da fraqueza de armas nucleares. Sim, armas nucleares.

domingo, 13 de maio de 2007

Andar de Bicicleta é muito bom!

Hoje eu andei de bicicleta bêbado. Como um equilibrista eu desafiava os pedestres, quase os atropelava meio torpe, fingindo ser um fundo de uma paisagem urbana decadente. Descendo uma ladeira sem as mãos no guidão e abraçando o vento, a adrenalina, a vida. Cantando sozinho refrãos desconhecidos pela turba, eu quase atropelei um velho andarilho. Quanta falta de respeito, quanta falta de limites, de freio. Onde estão os padrões? Onde estão? Vontade de dormir cedo... Mas já é tão tarde e eu continuo com sono, apesar dos copos de água e dos pães com queijo.

Vamos dormir. Vamos. Até outro dia. Bis Bald pra você.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

De quando ela abriu a carta e resolveu lê-la até o final

Em certos dias eu detesto diálogos. Por isso ruiva hoje eu resolvi pintar, por que pintando eu me obrigo a ficar calado e meu dia é muito mais silencioso. Eu estava cansado da velha rotina, e quando eu voltei, desci na estação de metrô mais convencional, antes de tomar umas cervejas sozinho no bar de costume. Eu apagava um ou dois cigarros, como fazia com as letras e as vírgulas em meus dias de ociosidade, antes de partir para Les Ardoines com uma das mãos escondidas nos bolsos do meu casaco comprado no mercado das pulgas local.

Nessas horas eu às vezes me deparava com algum vazio criativo, não sem antes me lembrar as ruas tão cheias de miséria que assolavam a América do Sul. Decerto a miséria aparecia de maneiras mais sutis, como num metrô de dia de semana ou escondida em alguns bancos perto da estação de Gare Austerlitz, não tão vivaz quanto a humilhação dos catadores de papel e de lixo que lutavam para sobreviver na selva de pedra do centro da cidade do Rio de Janeiro mas o mecanismo primordial era essencialmente o mesmo: a exploração, o capital, o lucro.

A exclusão, o cinismo dos coniventes com parte deste sistema maldito e a depravação social com que parte deste darwinismo social era encarado eram apenas faces tímidas de um liberalismo que podia ser muito mais cruel na África ou em parte da América Central, mas que continuavam a me encher de ódio ruiva, de ódio e de vontade de construir um novo mundo. Sei que mesmo afastada de mim você estaria fazendo o mesmo, por que desde que nosso plano conjunto deu errado, eu vez ou outra achei que iria desistir de tudo por alguns momentos e projetei essa minha fraqueza em minhas falsas intuições que diziam que você foi tomar algum chá de erva na Bolívia enquanto despedia-se da face mais agressiva da luta contra este sistema maldito, mas eu estava errado, eu sinto que estava completamente equivocado e efetivamente eu usei mais sinais do que poderia para mostrar que você ainda estava viva em meu coração.

Sei que você está lutando contra este sistema maldito e inundando as pessoas e os locais que você deve estar se envolvendo com otimismo e força de vontade para mudar senão a totalidade, mas parte desse cotidiano sofrido. Pintar parte da realidade sempre foi nosso propósito, mesmo que vez outra tivéssemos recorrido à maneiras não muito convencionais de colorir o mundo, podemos dizer que nós tentamos. Fomos Chiapas, Paris no primeiro de maio, um pouco dos sindicalistas na Colômbia e dos professores de Oaxaca. Fomos um pouco de tudo. Andamos e falamos como os palestinos em noites de tristeza ou quando a lua insistia em nos perseguir éramos nós mesmos.

Sei que isso não fará sentido para muitas pessoas, mas decerto consegui remover muito da dor que é não estar ao teu lado, pensando que de alguma maneira estamos mais conectados que muitas pessoas estariam, apesar do que não físicamente.

Falamos a mesma língua, apesar de nem sempre o mesmo idioma. Somos parte de uma resistência que tímida como uma flor que nasce no asfalto prefere não se expor totalmente, mas arisca, insiste em não retroceder frente ao mundo plástico que a rodeia.

Não há muito para falar. A poesia da revolta ainda me seduz com uma excitação tão nova e contagiante, que escrever esta carta é apenas parte do processo.

Caso não nos encontremos mais, como você mesmo dizia.... Nos vemos no arco-íris da história, nos vemos no céu colorido da esperança...

quinta-feira, 3 de maio de 2007

De volta a terra de Santa Cruz

Voltei! 10 dias longe de casa! Lar doce Lar. Depois conto minhas desventuras na cidade luz. Por enquanto concedo aos leitores um pseudo-conto fresquinho.

Um bilhete para ruiva escrito no avião

Andando de bicicleta à margem do sena, costurando a praça da bastilha pelo lado oposto ao da Biblioteca Forney, comendo uma baguete perto do cemitério de Perry lachaise eu me senti vivo novamente, pulsante como uma lua ao som da velha torre Eiffel enquanto um sonho ruim da noite anterior, a noite do quarto do sótão de Vitry Sur Seine trazia você para mim ruiva, aos meus passos de caracol e ao meu cheiro de uva, de vinho de bordeaux, eu soprava seus sonhos em formato de bolhas de sabão-maduro e conseguia dentro dos bolsos do meu casaco azul, contar quantos motivos eu tinha para cansar-me de esperar você chegar naquele banco de madeira que nós costumávamos nos entregar em Montparnasse.

Mas não, eu até podia imitar alguns hermanos gênios literários da argentina(e isso eu sabia fazer muito bem até você chegar) que com isso nunca seria tão original a ponto de produzir sensações de empatia nas pessoas que resolviam não sei por que motivo, ler o amontoado de bobagens que eu chamava de poesia; em seu nome, tudo em seu nome ruiva.

Quando o avião partiu, eu vi a cidade diminuir, mas meu coração parecia cada vez maior e alguns disseram-me que você não existia, o garoto do Pub de Buzenval, o garçom embriagado dos Arcos da Lapa e até mesmo o entediante vendedor de livros de Buenos Aires. Mas ninguém convenceu-me que parece ser mais apropriado apenas espantar esses devaneios metafísicos em troca de uma noite de sono segura.

Não darei esta chance a eles nem a você, por que há um universo de coisas dentro de mim, e você é todo o elo que une este mundo interno aos frangalhos esfarrapados de realidade que eu consigo ver.

Fugir não foi um bom caminho ruiva.

Não foi um bom caminho.