segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Dos primeiros ou últimos encontros

Não sentia-se particularmente triste, contudo não era euforia, muito menos excitação. Apagou as luzes e resolveu caminhar um pouco, arejaria um pouco suas idéias. Era difícil explicar, não era dor, nem sua antítese. Muito menos apatia, por que não lhe consumia de maneira tão efetiva a ponto de proporcionar um comentário mais audacioso.

O apartamento, estava quente, um pouco de vento lhe faria bem, faria realmente bem. Quem sabe uma cerveja. Talvez.

Passou num pequeno mercado, comprou cervejas, cigarros e caminhou até a ponte. Uma ponte quebrada, onde conseguia apreciar bem um pouco da lua, um pouco daquela brisa do mar. O cheiro de cidade pequena era cada vez mais nítido.

Sentou num banco simpático, próximo ao centro da praça, podia assistir a lua cada vez mais nítidamente. Depois do terceiro gole pensou consigo que sim, a ruiva poderia aparecer.

Mas isto são projeções. Ruivas não aparecem dessa maneira, clichê. O máximo que posso fazer é olhar a lua e me satisfazer com elucubrações. (e racionalizar um conto é matá-lo totalmente pensou)

Recuso. Recuso sim, elas podem aparecer. Este é o meu conto, é minha vida. Talvez elas apareçam. Há um pouco de Vasili em todos nós pensou. Há uma Laura escondida em cada esquina, clamando por revelação. Mas nunca, eu disse nunca, definitivamente nunca, retirem os mistérios da vida. Matem a ciência, matem a psicanálise, matem o que for preciso(exceto o ser humano), mas permitam que o mistério exista, sem o mistério não haveriam cores. E cores são essenciais. Papéis laminados são invenções estúpidas, refletiu antes de abrir a próxima cerveja, cartesianamente falando.

Cortaram-lhe o pensamento de maneira súbita, estrondosa, um som metálico de pedais o que revelava sua total desatenção para com grande parte da realidade, com na verdade, uma bicicleta branca. Era a ruiva pedalando.

Usava um short curto que lhe caía bem, uma camisa larga demais, não estava com sutiã, e dentro da cestinha da bicicleta carregava morangos. Inicialmente tratou de pensar que era uma cena demasiadamente estúpida, mas a ruiva tratou de contornar toda a estupidez dos sentidos com seus trejeitos que encantavam metade do universo(aliás pensou o quão contraditório podia ser algo uniforme e múltiplo ao mesmo tempo... uni - verso). Ou seria um único verso? Além disso o sorriso da ruiva era capaz de tornar a cena mais ridícula possível na obra de arte mais interessante, na memória mais viva, e quem não vive de memórias... Memórias são fundamentais.

No momento em que a ruiva ainda fazia sinais com as mãos indicando cansaço e inclinava metade do corpo com a respiração ofegante, uma das lâmpadas de um dos postes da praça apagou e ele achou de certa forma(odiava esta palavra, de certa forma, lembrava fôrma e ele escreveria mentalmente errado para lembrar que algo que forma não pode ser bom de nenhuma forma) que isto foi um elemento síncrono, ou seja, resumidamente de relevância para ambos; mais para ele que pensava, do que para ela que pedalava apressada naquele momento, se ajeitando desajeitadamente com os morangos e a bicicleta cambaleante em uma das mãos.

Lutava para fazer com que o descanso da bicicleta mantivesse a bicicleta de pé, mas em vão, necessitou que Vasilli ajeitasse a bicicleta antes de iniciar o seguinte passo, não tão sincrônico e não tão perfeito como toda projeção deveria ser.

Com energia e vivacidade, a Ruiva mexe os peões:

- Oi.

- Oi.

- Gostou da minha bicicleta?

- Sim, quer dizer(mexeu a cabeça em tom de ironia), está de acordo com a situação(sorriu para deixar a cena mais agradável).

- Bobo. Eu trouxe morangos.

-Eu trouxe cervejas, apontou para as latas vazias.

- Está bem, me dá uma latinha, apontou a ruiva, antes de escorar-se sentada com todo seu típico descompromisso sob o banco da praça.

Era um medroso. Bebeu aceleradamente para evitar maiores diálogos. A ruiva tinha esta capacidade, de lhe manter constantemente num jogo de xadrez, onde deveria, mesmo que inconscientemente pensar e repensar seus diálogos, saber que palavra usar, não desagradá-la, mostrar se inteligente, suave, tolerante, deus, sabia que tudo isto não funcionava! Teria de ser natural, mas como ser, e fingir ser natural, com alguém que lhe tirava do padrão. E se o padrão é o natural, jamais conseguiria manter-se dentro do padrão.

Tinha medo, talvez quando a ruiva descobrisse quem realmente era, olhasse para seu âmago tudo ruiria. Mas tudo já estava ruindo. Era fácil falar de descompromisso e de liberdades amorosas quando a ruiva era um modelo para todos os envolvimentos futuros. Encontre uma jóia rara e saberá o que estou dizendo, pensou. Jóias raras são únicas. Padrões, cópias, pessoas iguais... Já conhecia muitas. Era fácil ser livre com os padrões. Difícil era abrir exceções às exceções, difícil era abrir mão do inédito. Ninguém quer abrir mão do inédito. O inédito é o inesperado e o inesperado faz parte do segredo, do mistério, que são sustentáculos básicos da vida.

Voltou ao assunto. Quando a ruiva, já virava a latinha de cerveja de maneira ruidosa e irresponsável, como ele realmente adorava, e era realmente adorável. As gotas fujonas, escorriam por seus lábios, enquanto ele lembrava que há duas semanas atrás, escutou sua música favorita, e não pode deixar de lembrar da ruiva. E lembrou que talvez não estaria ali caso ela tivesse sumido, digo aparecido(é da capacidade do conto e dos contistas inverter quaisquer tipo de situações, a palavra é pois uma serpente...).

A ruiva bebeu. Ele também. Abraçaram-se, ela acariciou seu pescoço e ele passou a mão lentamente sobre seu cabelo, beijaram-se sem importar-se muito com a praça, com a bicicleta, ou com as cervejas jogadas. Eram apenas motivos, adereços muito bem colocados pelos próprios.

Pensou outra vez o quão amador era nesta arte. Dos mais principiantes. Ainda estava se descobrindo, descobrindo seu papel no jogo.

Largaram os morangos de lado, sorriám, enquanto estes caíam, a bicicleta e os beijos também... Os abraços fortes, os transeuntes passavam como objetos próprios de um conto que ambos criavam e toda aquela imperfeição parecia preencher-se de sentido. Resolveram passear com a bicicleta, com os morangos e com os sorrisos estampados na alma, a praça era pequena demais para um amor que ocupava o centro de suas emoções, o centro da cidade, o centro de suas vidas. Era um universo que construíam, que apesar de já existente consideravam-se em seu tabuleiro, com suas próprias regras, no centro.

Vasilli lamentou apenas ter acordado e revelado por meio de três ou quatro páginas com as devidas alterações gramaticais algo que não deveria ser racionalizado, mas teria de permanecer no centro de seus sonhos e de sua psiquê.

O último trecho da carta enviado, revela bem seu desejo: Jamais racionalizem seus sonhos. Matá-los é matar a si próprio. Sonhar é viver de "certa forma" plenamente.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Curriculum Vitae

No início você liga.

Com alguma camisa social ressuscitada de um tolo natal do ano passado, se esforça para calçar seu melhor sapato. Engraxando-o com o zelo e a nobreza de um profissional, pede até aquele cinto marrom verniz emprestado de seu pai que ele guarda para as datas comemorativas mais relevantes.

A calça de vinco passada com exaustão dá aos citados componentes uma aparência de sobriedade, de seriedade que você duvida realmente que o espelho possa estar dizendo a verdade. Você faz a barba, de forma que algum pêlo rebelde não possa revelar sua disposição crescente em participar de uma insurreição armada no interior do Rio de Janeiro.

O cabelo penteado de fora para dentro com um pente perolado de 28 dentes, dá o toque final à produção expressiva-corporal do seu nobre ofício. A camisa enrolada por dentro da calça é puxada alguns centímetros para fora, numa medida algébrica impecável, sendo afixada definitivamente pelos senos e cosenos de seu cinto marrom-verniz. Todo o conjunto fornece a tônica de um dia extremamente cínico. Algo entre o amargo do café e o doce do açúcar.

No segundo dia você relaxa. Troca a melhor camisa do mundo, por uma camisa day-by-day. Uma substituta de segunda, talvez até de terceira categoria, mas que ainda lhe concede o tom respeitável necessário. Suas unhas continuam cortadas como de costume. Seu sapato continua brilhante e seu cabelo mantém a aparência blasé necessária.

Tristemente chega-se ao fatídico terceiro dia. Você já não está usando seu sapato brilhante. Ele lhe apertava. Seu cabelo não é mais o mesmo, mas você ainda pode passar por uma blitz policial sem ser espancado por um cassetete de 90 centímetros.
Quatro dias. Já os Quatrocentos minutos de falsidade estética apresentada pelo seu personagem começam a se desfazer com alguns itens do seu antigo vestuário. Você usa uma blusa de malha simples, um verdadeiro pecado gerencial, talvez você tenha roubado o departamento financeiro, uma ou duas vezes. Aboliu a camisa social, mas continua exalando limpeza pelos cantos dos corredores administrativos. O sapato fora trocado por um tênis, o cinto continua emperolado como antes e exala um pouco de catolicismo fervoroso que tanto agrada o senhor Vilaça do terceiro andar.

Depois da primeira, da segunda e finalmente da terceira semana você é você novamente. O tênis preto está sujo por falta de tempo e de vontade, sustenta sua calça jeans horrorosa, um ode preconceituoso aos anos 90, desbotada pelo clima e pelo seu perceptível gosto musical duvidoso. As camisas sóbrias dão lugar a uma de malha laranja, o que demonstra claramente sua pré-disposição a cometer crimes familiares.

Suas unhas grandes, sua barba por fazer já não conseguem lhe ajudar a resolver o problema do banco de dados da senhorita Hilda do terceiro andar. Seu cabelo desgrenhado, abusado, é praticamente uma afronta a gerência de produtos e processos industriais. Não que você se importe, é claro.

Enfim, fizeste teu currículo falar por si só. Tu és um mártir.

obs 1: Escrevi há um tempão. Mas como estou trabalhando em coisas antigas, resolvi ajeitar e enviar para um jornaleco de poesia que tenho muito gosto. Resta saber se publicarão. Publiquei aqui para dar uma esquentada no garoto, os comentários serão o termômetro.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ausências em vermelho

Hoje não sonhei com você. Mas acordei com você. Não estava do meu lado, mas preencheu todo o quarto com meu desejo. Desejo de te ter ao meu lado. Desejo de me preencher na tua presença.
Mas presenças não preenchem nada. Pois a ausência está dentro de mim. A ausência está sempre dentro, não fora. Disseram-me que eu necessito desmistificar-te. Concordo. Diga isso para meu coração. Troque coração por inconsciente e ganhe algum respeito de quem lê ou escuta o que eu digo, mas o fato é que a razão não consegue mais dar conta da tua plenitude.

Finjo que não procuro, mais procuro. Todo mundo procura. Até quem não sabe disso, procura. Mas até agora não achei nada. Uma cartomante disse que viria em janeiro. Esperarei por que não sou superticioso.

O que devo fazer além de esperar? Esperar é agir. E ação é um copo de cerveja, cheio. Aliás não sei se tenho forças para minha autonomia psíquica. Prefiro o confortável abrigo das metáforas mal redigidas. Cizânias do destino.

Não me deixaria esperar de braços cruzados janeiro chegar? Deixaria?

A cartomante desconfia da previsão.

Por que percebe que eu vou perceber os momentos grandiosos até janeiro. E se eu conseguir percebê-los estragarei com toda previsão que ela se esforçou em cunhar. Ai de mim, e ai de todos os espíritos acorrentados no altruísmo.

No peito dos desafinados ainda bate um coração, saiba bem disto!

Ruiva, o que é o fundo do poço? O que é o maldito fundo do poço ruiva?

O fundo do poço ruiva é uma oportunidade. De contemplar a luz por um momento mais longo que o suficiente. Leia-se suficiência, deste mundo ocidental-cristão. A luz do poço ruiva, é sentir seu cheiro, andar pelas calçadas, procurar não esbarrar nos paralelepípedos, nem os cinzas, nem os amarelos, e continuar seguindo, mesmo que para isso você se confronte com seus maiores medos(leia possibilidades). É possível viver sem isto ruiva? Viver sem medo? Viver sem medo. Viver nas sombras? Viver na sombra. Espreitando, seguindo, guiando. Perdendo. Algo que nunca teremos?

Catarses solitárias são normalmente construídas sob a indefinição.

Cheiro de cerveja. De maldade. Tem muita maldade no mundo.

Há um espaço para poesia. Um espaço pequeno, que não respeita nada além do limite do óbvio.

Há algo que escreve mais do que própriamente dá sentido para.

Há um espaço vazio Ruiva, há a repetição das mesmas coisas, há parte de mim espalhada por aí... Há um concentrado de ausência em mim, que luta por permanência. Luta para ficar. Mas eu sinceramente quero despejá-lo. As repetições mataram nosso amor, explicarei isto mais adiante, adiante... Isto me torna ainda mais contraditório do que sou.

Por que quando você sair, a poesia inevitávelmente fugirá junto.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Diário de Jarbas: o Doutor Limítrofe


Procurei álcool na geladeira, mas não tinha. Pensei, mas que maneira covarde de tratar o cansaço doutor. Doutor é o caralho. Todo mundo tem dias ruins. E eu não serei o primeiro nem o último.

Faltam só 8(pensou no oito deitado, no infinito) sessões. Oito sessões e o senhor estará curado.

E até lá o que faço? Peço morfina para o ajudante de enfermeiro ou sorrio caridosamente para a loira de decote que fica na recepção?

O senhor pode pedir seus ansiolíticos para o Dr. Anísio.

(Anísio, um velho senil que trabalha no segundo andar)

Está bem. Terei que subornar o motorista da ambulância do turno da noite novamente para ele me conseguir algum sossega-leão.

Já tentou meditar? Já, não funciona no ocidente. Há muitos prédios, pouca paz. Não dá certo.

E a yoga. Abandonei, as orações antes das sessões me irritavam profundamente.

Afinal deus é um delírio. Ah sim. Disto tenho certeza. Certezas é o que todos nós queremos de vez em quando.

Ontem pintei uma linda mandala. É mesmo? Com que cores. Verde e laranja. Na verdade não é própriamente uma mandala. Só me lembra. É algo confuso, uma luta interna entre as cores.

Achei intenso. Intenso demais para mim. Quero que o ano acabe.

O sr. quer que eu ligue para o sr. Anísio agora?

Não. (por que diabos ele tem de falar nesse maldito velho senil toda vez que estou perto de me aprofundar nos meus próprios abismos)

Eu não quero falar com aquele velho senil(pronto, agora eu falei, quem mandou).

O sr. pode ter razão. Mas mesmo assim vou aumentar seu medicamento até o dia 30. Após este período as coisas podem se modificar.

Já fez seu plano astral? Já.

E o que achou. Detestável. Não acredito nessas coisas. Nem como forma de auto-conhecimento?

Não. Preciso dos meus cigarros novamente. Nicotina é uma desgraça eu sei. Estou tentando parar(todo fumante diz isso).

Nos vemos sexta a noite então? Sexta não.

Por que não?

Tenho um compromisso com uma mulher. Compromissos afetivos?

Não exatamente. É apenas um violão, um piano e uma música triste muito convidativa.

Ok. Vá se divertir. Até segunda então. Até.

Até mais.

Até e tenha um bom dia.

domingo, 21 de outubro de 2007

Melhorarás

Espero realmente que as coisas melhorem.

Ansiolíticos naturais; são perigosamente limítrofes.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Do Esquecimento temporário/definitivo da Ruiva

Por um período que eu posso chamar de confortável, no sentido que me fez produzir muito mais do que o eventual, você me deixou. Deixou de forma a conceber espaço para outras idéias mais importantes; falando de coisas práticas.

Eu ainda era obrigado a te lembrar, por que todos os malditos cortes de cabelo semelhantes traziam sua presença, mesmo que eu não te convidasse. A camisa que eu usava me remetia a algum comentário elogioso teu, sobre a estampa; e eu também lhe conseguia enxergar imaginando as situações onde você estaria, o que você acharia de determinados fatos, de determinadas situações ou opiniões coletivas. Também surgia com expressões que pipocavam aleatóriamente na minha cabeça. Eram nuvens fugazes, mas de uma textura tão viva, que sinceramente valorizei o tempo como o único remédio efetivo para males como este.

E às vezes eu até lhe incorporava, o que me deixava cada vez mais certo que os gêneros opostos que vivem em todos nós, se manifestam de forma mais violenta quando se enxergam em corpos alheios. Nunca tentei tornar poético o trivial. Você encheu minha vida de trivial e eu agradeci inicialmente, perguntando com meu atual aspecto de surpresa, se não seriam necessárias mais algumas tragédias antes de me enebriar totalmente com teu perfume tão saboroso.

Mas não foram. Minha grande tragédia foi lhe conhecer, como uma tragédia grega onde nada se perde de verdade, onde um mundo se descortina, oracular como sempre deve ser.

Sensações a parte, acho que todo este caminho está estruturado de forma teleológica a me reinventar de forma infinita. Este é o destino.

Diante da impossibilidade de trazer a tona este inconsciente meramente poético que me circunda, deixo as impossibilidades práticas ganharem mais força. Não sei por que me lembrei de Zaratrusta. Devo ter mudado o eixo da discussão propositadamente.

Talvez me sinta culpado por te perder. (é claro que não me sinto ora bolas)

Em cartas antigas eu tinha de explicar que você é fruto da minha imaginação. Já perdi completamente esta capacidade. Esvaiu-se com o estilo poético que outrora você fortuitamente(e só e é claro na minha imaginação) apreciava.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Citações

Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana. [...]”. (Mikhail Bakunin)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Espaços Vazios em Grandes Salas Cheias

Não há muita criatividade. Apenas um cheiro de chuva que me faz observar os pingos respingarem no paralelepípedo. Dá pra sentir-se satisfeito, com aquele calor irritante se esvaindo na primeira pancada de chuva. As nuvens anunciam, há um pequeno estrondo e pronto, a mágica está feita.

Há um móvel novo na sala. Perto da cadeira branca. É nela que estou sentado, de frente àquela janela grande, do qual cnsigo observar todos sem que me observem. Há um senhor apressado de terno correndo com um jornal cobrindo a fronte enquanto a chuva o alcança; há uma senhora firme de si, desfilando com um grande guarda-chuva que antecipa as pancadas mais fortes.

A janela começa a embaçar e eu me canso dessa brincadeira a toa. Tento me concentrar, mas meu pensamento flutua livre pelas barreiras geográficas, me sinto pequeno.

Há um espaço vazio demasiado cheio de sentido dentro daquela sala minúscula. É difícil explicar, mas sinto que sem aquele vazio, não conseguiria obter reflexões como as dos dias chuvosos.

Geralmente, espero alguém ligar e aí inicio um jogo gestáltico de figura e fundo, onde as coisas se interpelam. Telefone-fundo, paisagem-figura, figura-telefone, fundo-paisagem, tudo depende de quem liga e das flutuações sempre inconstantes do meu humor temporal.

Há dias reservei alguns dias na agenda para preencher lacunas criativas como esta. Habituar o escritor e o leitor há sentir o vazio. Era preciso ter uma sala com poucos móveis. Uma cadeira bastava. E tinha de ser branca. Uma mesa de mogno, uma escrivaninha e poucas pilhas de papéis davam a tônica final.

Fora disso, havia apenas uma necessidade de me silenciar mais, sobre tudo um pouco. Era mais do que uma necessidade, era quase uma sobrevivência.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Passeio Beatnik

Flores no parque
Um parque tão límpido
Rosas, Girassóis, Bromélias
Uma doce trilha de pedra
Descortina um límpido rio

O canto do Rouxinol
Levou-lhe a uma pedra

Solitária

O cheiro de terra
Era tenro
Era doce

O silêncio do verde
Trouxe-o de volta
À pedra

Gostava de si
Quando lhe deixava
Sozinho

Mas sob a umidade do bosque
Restava-lhe a Insônia

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O Desapego

Tradução não muito fiel, mas o significado é profundo

As palavras corretas nem sempre são agradáveis.
As palavras agradáveis geralmente não são corretas.

Os homens sábios jamais discutem.
Os que discutem estão mal informados.

O homem sábio não fala muito.
O sábio não é necessariamente instruído.
O instruído não é necessariamente sábio.

O sábio nada possui, nada mantém na memória mas serve a todos e com isso tudo possui.

Já que continuamente se dá a todos; no fim, conquista o que nunca desejou.
O caminho Perito conduz ao Céu, é sempre benéfico e não conduz qualquer mal.
O sábio é o que segue o Tao, o que possui pratica a não-ação e com isso serve aos outros
E jamais será a causa de uma luta inglória.

Tao Te Ching

domingo, 23 de setembro de 2007

Tudo lembra você

Quando eu me esquecer de você
Haverá um belo sol
Um sol novo no horizonte
Vermelho de dúvidas

Haverá uma mesa posta
Para o café da manhã

Haverá um quarto vazio
Vazio de escolhas

Haverá um maço de cigarro
Jogado na mesa
Mas eu não fumo

Haverão algumas partes
Espalhadas

Sem que para isto
E na verdade
Você merecesse

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A Ruiva e os paralelepípedos amarelos


No fundo musical... Cat Power

Ah Ruiva. Como eu queria que você estivesse comigo quando eu subi aquela rua de paralelepípedos tão extensos. Pude sentir você sussurrando em meus ouvidos: chore, vai, chora... você precisa disso... E eu pude perceber na terceira, ou na quarta casa de tijolos amarelos, que meu caminhar, minha respiração estavam tão carregados Ruiva. E aí eu resolvi brecar ruiva.

Parar tudo. A revolução, as caminhadas, o esforço ruiva. Tudo tem de parar, antes que eu me perca, o que aliás é falso; já estou completamente perdido.

O horizonte estava cinza, ontem eu dormi no chão do meu quarto ruiva, ontem eu tinha visto alguns ratos imaginários correndo pelo piso do quarto. Ontem eu respirei um céu pesado, dobrei meus joelhos; minhas pupilas doíam, mas mesmo assim eu acordei e fui para aquela praça que você adora ruiva, uma praça singela, bonita, insignificante demais para ser percebida no subúrbio, mas eu cheguei lá ruiva. Fumei meu maldito cigarro, depois resolvi comprar um café bem forte pra me manter acordado.

Perambulei pela Biblioteca Nacional, pelo centro da cidade, vaguei até encontrar um banco vazio dentro de um prédio público. Eu deitei lá, com a cabeça para cima, com minha mochila servindo de travesseiro e tentei cochilar um pouco... Fui em busca de mais livros, tive que tratar com aquele idiota que vende livros na central do Brasil, mas foi por uma boa causa, consegui almoçar e ainda me restaram alguns trocados que me fizeram conseguir comprar as malditas pilhas recarregáveis que eu tanto procurava.

Jejuei de noite, só pra me sentir mais iluminado e próximo do quê eu não sei ruiva, mas eu estava próximo de alguma coisa que transcende a minha simples existência.

Enquanto eu cochilava, eu sentia meus pés flutuarem, e um pouco de esgotamento. Não aguento mais ruiva, não aguento mais viver das sobras, do resto. No início até parece divertido viver com esta neo-pobreza material e de espírito(espírito não, é melhor dizer destino), mas no balanço final não há muito o que comemorar. Eu envelheci demais, apesar do que a contagem do tempo se estagnou, o tempo definitivamente não é um bom aliado.

Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade, às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, você fingia que não queria me beijar, mas me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos intensamente; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram sempre as mesmas frases. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado. Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco...

E me deixava envolver neste joguete, enquanto algumas idéias malucas iam voando por entre os paralelepípedos. E aí eu estava. Sozinho caminhando por entre os mesmos paralelepípedos amarelos, fuçando quartos azuis, alguns com luzes de neon roxas. Em festas vazias, cheias de gente incompleta eu me senti, me sentia inadaptado, inadaptável, inadaptável demais para conseguir aturar mais do que duas ou três horas de simulacros humanos vazios movendo-se caóticamente em torno do quê ruiva, do quê ruiva? Eu não sei. Eles não buscam. Eles são. Esta é a diferença dos fracassados para os hedonistas. Eles apenas são. Acuse-os de medíocre, sem objetivo, mas é assim que eles conseguem ser felizes sem ter de tomar seis comprimidos de valium durante 1 mês. Ou como eu não ficaria, sem precisar manter-me acordado durante 72h.

Ruiva, estes dias tem sido pesados. As lágrimas estão escorrendo de maneira mais habitual e há um pouco de iluminação nisto tudo. Diante do abismo inicial ruiva há uma nuvem negra que se aproxima em tom de deboche. Há um pouco de caos espalhado sobre a mesa do meu quarto. Indícios do prenúncio da chuva de problemas. E quando isto ocorre, eu apenas deito na cama e tento trabalhar meus sentimentos. Eu me jogo no colchão Ruiva, olho para um ponto fixo na parede branca e deixo os pensamentos fluírem livremente. Nestes momentos sinto o quão pesada, bruta e mal lapidada é a mente ocidental Ruiva.

Abandonei os copos de vodka e as cervejas nos dias de semana, por que este era o último bastião Ruiva, o último bastião da degradação parcelada. Eu juntei algumas tintas hoje e pintei um quadro que eu chamei de Fusão. Básicamente era composto de duas cores, azul e amarelo, que se entrecortavam e se chocavam gerando um terceiro elemento, um verde discreto, tímido. A verdadeira síntese. Síntese do quê exatamente eu não sei Ruiva.

Ontem, eu achei alguns livros de literatura Argentina Ruiva, foi tão emocionante. Tive sorte, pois procurava estes livros há meses e os comprei por uma verdadeira bagatela.

Ruiva eu lhe encontrei semana passada. Você não estava lá verdadeiramente, mas para mim, era você lá. Na verdade eu lhe encontrei dividida em diversas situações. Na sexta-feira de tarde eu conversei com você dentro de uma sala de aula, no sábado de manhã eu lhe carreguei até a minha biblioteca preferida, e no domingo eu esbarrei com você num sarau barato organizado por meia dúzia de literatos fracassados.

Maluco, bobo. Adorava olhar para seus lábios ruiva. Mas agora não há lábios a enxergar. Há apenas um vazio. Um vazio profundo. Que precisa ser preenchido. Não por você Ruiva. Você já teve sua chance. Nem por outra Ruiva. Eu estou me preenchendo. E obras normalmente são lentas. Ainda mais quando não sei com que tijolos iniciá-las.

É por isto Ruiva que eu escrevo cartas a você. E te agarrava com força. Te beijava a exaustão.

Redundante Ruiva, Ruiva, nuvem negra.

Pontos fixos são parte da solução. Deixar fluir. E aqueles exercícios de respiração que você me ensinou Ruiva...

Vou me indo Ruiva, vou me chocar num terceiro elemento. Vou me fundir em parte alguma de mim. vou me fundir ruiva. Fundir. Não fugir. Por que ninguém consegue fugir de si mesmo.



sábado, 15 de setembro de 2007

Uma canja...

É nisso que estou trabalhando atualmente... Já faz algumas semanas... Pretendo preenchê-lo de vida aos poucos. Aí vai um trecho.

"Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade, às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, você fingia que não queria me beijar, mas me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos intensamente; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram sempre as mesmas frases. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado. Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco..."

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Mais sonhos... mais contos...

Provávelmente do dia 11 para o dia 12 de setembro.

Minha atividade consciente de escrever contos está praticamente interrompida atualmente. No entanto inconscientemente estou mais ativo do que nunca. E muito surpreso com tudo isto diga-se de passagem.


Sonhei que começava a flutuar, de maneira brusca, ia subindo, perdendo o controle do meu corpo e começava a voar em alta velocidade. Ia tentando ajeitar meu corpo para controlar a velocidade e o destino. Tentei subir para não cair no chão em alta velocidade. Fui subindo muito rápido, atravessei as nuvens e a cidade, o bairro ficara muito menor. E depois sumira. Fiquei com medo de subir demasiadamente ou de ser acertado por um avião e tentei descer, já conseguindo controlar melhor o corpo. Comecei a aproveitar melhor a viagem. Pensei, estou voando! Que legal!

Até que descortinadas as nuvens eu me deparo com a visão de uma estupenda e imensa cidade. Um palácio gigantesco, algo que eu nunca vi tão grande, com torres altas, se não me engano vermelhas, vejo uma grande escultura de águia com detalhes perfeitos nesta parte central da cidade, que foi a única que visualizei, e a partir disto meu corpo começa a como ser puxado lentamente até o solo. E eu desço, como se a isto fosse impelido.

Tudo na cidade é estupendo, grande, um excesso arquitetônico de formas e prédios. Vejo um templo. Eu entro. A águia está lá dentro, eu deito em cima dela, como se abraçasse. Há pessoas dentro do templo, elas jogam capoeira. Há uma pequena movimentação. E eu resolvo participar da dança. Sem pensar exatamente como voltaria. Como sairia de lá. Jogo capoeira com os cidadãos de lá e depois... acordo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Contos do Inconsciente

Estes dois sonhos me impressionaram. Perderei semanas tentando interpretá-los. Mas sinto que se conseguir fazê-lo as coisas daqui para frente ficarão bem claras. O mais impressionante, é que na segunda de manhã, assisti um filme na aula de socilogia que fala sobre uma menina vivendo na ditadura do Talibã, que se disfarça de menino durante algum tempo. De certa forma há sincronia com o segundo sonho e eu fiquei impressionado ao ver o filme. Dei nome aos dois, pois parecem contos.

A mina marrom (Semana passada, algo entre 03 do 09 e 08 do 09)

Estou numa caverna. Na verdade é uma mina, bem profunda, com paredes marrons. Converso com alguns companheiros. Há uma espécie de gerador que dá iluminação pra mina. Um companheiro reflete que outro companheiro irá chegar, como se desse a entender que se o gerador continuar a dar problemas seria algo que mostraria nossa incompetência em fazer o gerador funcionar e seria então, melhor desligá-lo ou deixá-lo funcionar como está. Há algumas partes com água. Em determinada parte da mina, eu não tenho(ou na verdade não sinto) coragem de passar. É uma parte mais estreita, pelo menos o teto é mais baixo. Há um objeto metálico fincado em uma das paredes no final deste corredor. Objeto que eu não consigo identificar bem o que é, mas reluz um pouco de longe.

Alguém me manda seguir. Mas sozinho eu não vou, penso eu. Até que de maneira impressionante, surge um outro "eu", físicamente idêntico a mim. Com ele eu vou. Sinto coragem. Descemos ao final da mina. Ambos. Eu vou com um pouco de medo. E olho para o objeto reluzente. É uma espécie de metal retorcido, não muito maior do que minha mão. Algum símbolo, alguma coisa estranha, aparentemente sem utilidades. Eu olho para o lado da mina, não há mais passagem. Eu penso na possibilidade dela desabar. Eu passo a mão em suas paredes. Há protuberâncias disformes, pedaços de cascalho. Como se faz uma mina eu pergunto. Uma empresa vem, gasta bilhões e a mina está pronta. Eu apareço no quintal da casa da minha vó, perto da minha casa. Eu acordo.

A mulher, o velho, o paranormal e a criança(do dia 10 para o dia 11 de setembro)

Estou eu e meu primo, andando perto de uma universidade. Parece a UERJ, mas não é, entre a rua e a UERJ há cercas de arame, na verdade alambrados, como esses de eventos públicos. Entramos pela parte da UERJ, por uma espécie de passarela. Há toda uma preparação dentro destes alambrados para uma espécie de show. Parece que vai ser funk. Há uma fila imensa de pessoas na parte de fora, aglomeradas para entrar. É muita gente. E eu converso com ele sobre isto. As pessoas começam a entrar. Há geradores, fios, caixas de som no evento. Eu e ele resolvemos sair antes que o evento fique muito cheio. E eu penso sobre a facilidade de se entrar por esta parte de trás, sem precisar pagar nada. Como eu não gosto do estilo musical eu volto em direção a faculdade.

Eu chego num prédio. Um prédio grande, com janelas e vidros transparentes bem visíveis. Estou em alguma cidade que não conheço, ou nunca fui. Eu subo o prédio e chego numa sala. É uma sala curta, há uma espécie de quadro branco, pessoas aglomeradas das quais sinto que conheço, ou pelo menos permaneço sem maiores embaraços. Há uma mulher que é a oradora, ou expositora de algum tema, ela parece bem disciplinadora, e eu não gosto dela por algum motivo. Ela senta numa cadeira. Com um movimento de olhos, eu giro a cadeira por telecinese, forçando lentamente a cadeira a desiquilibrar-se rumo a um recorte na parede e ela bate a cabeça nesta quina. Ela comenta algo sobre o acontecido, sobre a possibilidade de ter sido algum et. Sim, os ets estão vindo aqui frequentemente, ela diz.

Eu ainda quero irritá-la eu acho, sem que ela perceba. Eu faço(tudo mediante a telecinese) com que um dos tapumes de compensado que forram o teto cai no meio da sala. Ela percebe que fui eu. Um dos alunos começa a discutir comigo, insinuando que tinha sido eu. E começa a descrever algo sobre mim. Eu falo algo para ele relativo a ter um cinto de caveira, olho nos seus olhos de forma ameaçadora, meus olhos brilham com riscos cor de fogo em toda a pupila de maneira a intimidá-lo, como forma de demonstrar meus poderes. Há uma mulher mascarada dentro da sala. A tal professora, ou o que quer que seja, pergunta por que ela não pode tirar a máscara. você é wikka? É religião ou algo assim? A mascarada, que está com uma espécie de véu cobrindo o rosto e que exibe apenas seus olhos apenas confirma algo com a cabeça. Eu a conheço. E sinto algum medo sobre a possibilidade dela ser desmascarada. Ela é idêntica a mim. Tem o meu rosto. Mas é feminina. É o meu rosto, mas numa mulher.

Eu olho para uma das janelas, há uma gigantesca nave negra com grandes propulsores passando pela lateral do prédio.

Eu aviso a todos, que os alienígenas chegaram, que há etês lá fora. As pessoas se alvoroçam. Eu resolvo sair dali. E levo comigo duas pessoas, que eu não me recordo se estavam na sala. Um velho, um ancião. E uma criança.

A mascarada eu deixo lá. Não a salvei ou pensei em salvar por algum motivo. Eu procuro saídas. E resolvo sair por uma das saídas laterais, acho que a direita. Não sei como descer do prédio. Afinal este por algum motivo, não tinha escadas ou elevador. As janelas estão abertas, são grandes e não tem vidraças. Eu salto com o velho e com a criança, uso meus poderes e crio uma rajada de vento para amortecer a queda.
Conseguimos descer. Eu tento correr. A nave negra com seus imensos propulsores se move e está sobre mim, há um vento muito intenso que me nubla a visão e que atrapalha todo o meu movimento. Eu consigo correr. Há um gramado e um rio que o corta. As pessoas estão correndo de um lado ao outro, a nave ficou para trás. O velho e a criança estão comigo, bem próximos. Um carro desgovernado vem em direção a mim, eu protejo o velho e a criança e com meu poder telecinético vou detendo o avanço do carro com dificuldade, parece que ele vai me atropelar, mas minhas rajadas de vento o fazem capotar para trás. Eu decido deixá-lo capotado para não causar mais confusões, por que me pareceu meio intencional ele ter me atropelado.

Eu prossigo e procuro um carro para andar mais rápido. Descarto um ou outro, e acho um carro laranja, de formas arredondadas Eu entro nele e dirijo, peço para o velho e a criança entrarem. O velho é magro, tem barbas brancas e cabelo desgrenhado eu acho. Eles pulam no carro. Eu dirijo Olho para a direita, há vários prédios, não sei para onde ir. Resolvo ir para a esquerda, mas há um lago por lá, eu perco a direção e o carro está indo para o lago, alguém, ou o velho ou a criança, gritam, que para aí não, vamos cair. Eu crio uma ponte invisível que sustenta o carro antes que ele afunde no lago. Nós conseguimos descer. Eu tenho a sensação que esta parte da cidade é seu extremo. Não há como ir para lugar nenhum. O espaço acabou ali. Eu sigo o gramado, mas uma série de homens tribais, de cor amarelada, começam a surgir por toda parte. Não sei se são os etês. Eles vem em minha direção e parecem ser agressivos. Eu grito ao velho e a criança: Fiquem atrás de mim!

Eles tem lanças e facas. Eu crio a partir da terra e da lama um golem que soca o primeiro tribal. Eu o arremesso longe. O segundo golpe joga o tribal para bem longe. Eu penso que naquele trecho onde estou(onde o carro laranja quase afundou) há algum tipo de passagem subterrânea para onde conseguiríamos fugir. Eu soco mais alguns tribais. Um deles entra em luta corporal comigo e quando tenta me esfaquear já não estou mais ali.

Estou num corredor de um prédio de apartamentos de alguém que parece ser um amigo. Ele usa óculos. E eu na verdade estava demonstrando como o tribal tentou me esfaquear, contando tudo a ele.

Eu acordo.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Insônia

Meu corpo está clamando por pontos finais seguidos de parágrafos bem longos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Marcadores

Dividi o blog todo em marcadores. Isto significa que, abaixo de todo o texto, há algumas palavra chaves após marcadores. Clicando na palavra escolhida aparecerão apenas os textos onde existem esses marcadores.

Existem vários marcadores. O que mais me atraiu e o que eu acho que pode ser útil, é o marcador: Sob efeito leve, sob efeito moderado e sob efeito pesado de cerveja. Clicando nestes marcadores é possível saber com exatidão quais textos escrevi levemente, parcialmente, ou completamente bêbado. Os textos escritos sob o efeito de insônia também estão devidamente marcados. Agora realmente é que fui entender a praticidade dos temíveis marcadores. Viva a tecnologia, capaz de nos conectar ao mundo todo, nos isolando.

Produzir essas merdas é fácil

Completava seis semanas de isolamento. Era hora de voltar para o Rio. Pegou a BR no dia doze, e pretendia voltar no dia 19, mais por contigências, por determinadas situações acabou ficando seis semanas. Seis longas semanas. Não sabia mais o que era. Tinha apenas uma ligeira impressão.

Amassou o cigarro na bota, fez sinal para o ônibus e partiu.

A janela do coletivo lhe deu boas impressões. O sereno firme, posterior chuva irritante, embaçava os vidros, tocava John Coltrane no fundo. Música ambiente. Tudo proporcionado pela empresa de ônibus.

Não havia mais jeito. Não havia mais fuga. Fugir era inútil. E agora ele sabia disto. O mundo era demasiadamente pequeno. Isto o irritava, por que um viciado pelo novo não conseguiria relaxar no Rio de Janeiro. A cidade inteira se conhecia. Cidade estressante. E era verdade. Não aguentava mais frequentar o velho. Arcos Velhos, festas velhas, pessoas velhas, velhas conhecidas. Antigos bares, festas e situações. Estava exausto disto tudo.

Não via mais honestidade nas pessoas, apenas promessas, teatros. Quando ele odiava odiava mesmo. Era difícil voltar atrás. Conhecia poucos casos onde conseguira voltar atrás.

Poucos mesmo. Mais que merda! Que merda! Gritou dentro do ônibus! Que merda de mundo! Caralho! Que teatrinho de merda! Vão pra puta que pariu! Desceu. Andou. Estava perto do caos. Pegou outra condução, foi para a rodoviária. Perambulou, comprou uma dose de menta, sentou, deitou, olhou as estrelas. Voltou pro apartamento vazio do centro. Abriu a porta. Acendeu um incenso, abriu a janela para entrar ar. O telefone tocou.

Pisou, esmigalhou com raiva e não satisfeito arrancou o fio que o prendia

Foi pra cozinha, colocou algo para cozinhar, comeu, engoliu, merda de alimentação. Abriu uma garrafa de vodka, espremeu alguns limões, tomou uma caipivodka escutando Coltrane novamente. Agora deliberadamente.

Percebeu um ou dois envelopes, por baixo da porta. Largou o copo, pegou-os, rasgou e começou a ler. Promoções, e uma conta de luz. Nada demais. Não era tão importante assim para receber cartas em casa. Chutou a porra dos envelopes.

Não tinha mais nada pra pensar. Dormiu abraçado com a vodka. Se alguém batesse na porta gritaria um foda-se já anteriormente ensaiado.

Mas que merda de dia misantropo, pensou antes de cochilar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Morre e ainda me assombra - Jeff Buckley

Trecho da Música - Liliac Wine

"When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more that I ought to drink
Because (it) brings me back you..."

"Quando eu penso mais do que eu quero pensar
Faço coisas que eu nunca deveria fazer
Eu bebo muito mais do que eu poderia beber
Por que (isto) me traz você de volta..."

Parando para pensar e pensando para parar

Não tenho a intenção de achar maneiras de acabar com a depressão. A depressão traz a lentidão, um movimento contrário à mania, intimidade. Ela abre a porta a algum tipo de beleza. Logo, parece haver algo lá dentro além da forma como você, o ego, enxerga,” (James Hilman)

Já faz algum tempo(não muito é verdade) que eu resolvi parar. Parar. Tudo começou com o Wu-wei do taoísmo, a não-ação. Contudo eu fui além. Além do Wu-wei. Fui, mas não estou.

É engraçado. Tudo começou com uma discussão política. Sobre a metáfora do trem. O trem que deve parar na estação. O trem que se movimenta mais rápido do que eu. Mais caralho, quem é que move a porra do trem? Sou eu. Somos nós. Todos nós. No meu caso particular: eu. O trem está se movendo mais rápido por que há pessoas movendo a porra do trem mais rápido do que podem suportar. No caso eu. "Há muito trabalho a ser feito". Há. Há muita coisa a ser feita. Eu enxergo o todo. Eu coloco o todo nas costas. Não tenho que parar? Será mesmo?

E quando não é a paixão que me move, quando não é o desejo, quando é simplesmente uma mania, idéia fixa. Algo que eu sou movido. É isso mesmo? Viverei assim? Não é hora de brecar. De pisar no freio. De dizer: chega!

Não é hora da reflexão? Conseguirei? Será que o que eu movo é parte de mim a ponto de se eu tiver que me livrar disto, mato uma parte do meu eu?

Pois bem. Penso em parar. Em parar por algum tempo. E só penso: "há pessoas que precisam de mim". Mas que merda cristã! Mas que merda cristã! Desejo eu viver na transcendência? É isso mesmo?

Não é hora de parar? Não seria a hora exata de parar? Irresponsável! Talvez sim! Talvez Sim! Já fiz muito avanços, penso eu! Já consegui dosar exatamente onde posso focalizar. Onde posso atuar.

Mas ainda assim, ainda assim. Dúvidas me cercam. Dúvidas existenciais. E quem não as teve que atire a primeira pedra! Estou em tudo! Estou em tudo! Estou em nada? Não... Estou mesmo. Estou. Mas quando pensei em mim? Quando foi a última vez que estive integrado. Quando foi que voltei os holofotes pro meu eu?

É tão divertido! Caramba! Sonhos a parte eu me divirto com tudo isso! Divirto-me em mudar o mundo! Gosto de ser odiado! Odeie-me burguesia! Odeie-me! Piadas internas!

O que sou? Sou parte da transcedência, ela é parte de mim! Há algo superior nisto tudo? A mudança! A mudança!

E o que quero. O que desejo. Alguém que simplesmente compartilhe da mania? Alguém com idéias fixas? Não posso parar então? Tenho que fazer alguém acelerar? Mas que merda egoísta! Que merda obreirista! Que ritmo fabril!

Febril!!!

Fiquei doente esta semana. Resfriado. Vírus. Foi necessário pra parar. Não me parou totalmente. O que mais preciso pra parar. O que mais?

Sei lá. Divagações são necessárias.