terça-feira, 17 de abril de 2007

A I Carta para a Ruiva

Ruiva eu estou muito estranho. Não há mais tanto sofrimento. Inesperadamente eu passei sistemáticamente a dar conselhos e a administrar meus surtos poéticos em dias chuvosos. Estou virando um guru de final de semana eficiente. E quem vai me ajudar ruiva? Quem me ajudará? Quem vai me abraçar quando eu estiver deprimido ou quando eu resolver compartilhar sonhos? Quem ruiva? Quem vai escutar canções francesas a piano enquanto eu resolvo me perder dentro dos caminhos inconscientes que me movem?

Quem ruiva? Por que você me deixou tudo agora é mais fácil. É mais fácil entregar-me a algo ordenado. Paixão é caos. E caos é desordem. A rotina canaliza muito bem meus vazios. Ela ordena eles em séries, graus e às vezes, simplesmente não dá certo...

Não dá certo ruiva, por que eu continuo a escrever. Olhe para mim. Sim olhe para mim quando escrevo esta carta. Esta pose de auto-suficiência não dura nem cinco minutos. Apesar do que em outros períodos nem duraria dez ou doze segundos. Eu tenho boas idéias. Excelentes idéias. Faltam-me apenas argumentos para prová-las. Pois sou muito bom em sentir idéias do que própriamente prová-las.

Ruiva eu sinto medo do fim do que iniciei. Faça isso, arrume aquilo. Começar é bom, mas terminar é tão terrível. Por que as coisas terminam ruiva? Tenho dez respostas prontas para esta pergunta. E elas me confortam, mas não é demais distribuir dúvidas por aí não?

Chega de respostas. Eu estou tão concentrado ultimamente, mas tenho medo que esta concentração se dissipe e suma como você sumiu ruiva.

Quando você me disse uma vez que não havia ideal, que o ideal estava dentro de mim(eu sei que você vai dizer que não disse isto) mas de certa forma, eu sei(nós sabemos), que esta foi uma tentativa egoísta sua de me monopolizar. Agora parece que você conseguiu e armamos uma boa trégua.

Uma trégua tão insosa e perdida quanto eleger prioridades. Eu podia até tomar mais uma cerveja antes de encher isso aqui do que verdadeiramente você está esperando que eu encha, amor pútrido amor, câncer emocional, dor, fractais, cacos quebrados e queimaduras de cigarro.

Mas esta fase já passou. Sei que o tempo não é uma linha mas uma rede, e que estas idéias nem própriamente são minhas, nem são deles, nem de ninguém, mas de todos, mas o fato é que no momento sinto que tais proposições negativas não vão me convencer de que serão o caminho durante pelo menos alguns anos.

Talvez tudo seja novidade. Talvez eu esteja numa fase de aproveitar o que eu lutei muito para conseguir(não pude evitar esta frase jargão). Mas o fato é que o conflito com você só me rende poemas medianos e alguns contos medíocres.

Seja mais clara da próxima vez e aí poderemos nos agredir verbalmente ao som do velho Buckley.

Já construí minha cúpula psico-geodésica. É claro que o world trade center caiu, que o titanic afundou e que o mar Aral está morrendo, mas eu ainda acredito que símbolos são bons começos.


Afinal, atribuir significados a símbolos é a parte mais fácil. Podem me chamar de esquizofrênico, mas sinto cada vez mais a sua presença e atualmente sua paz(que eu oportunamente compartilho).

Outrem eu só via ódio e decepção, mas hoje consigo ver esperança e acordos internos. Isto é um bom sinal. Um bom sinal ruiva, que um dia lhe ofuscará de brinde.

Você é um vulcão adormecido e se eu te pedisse pra dormir durante 4 ou 5 anos, estaria mentindo para mim mesmo. A lava revigora o solo, dói, sangra, mas é da cicatriz que vem a flor.

Flor, vida, ressurgência, reação, opções plácidas no solo duro destes dias ruiva, destes dias...


sábado, 14 de abril de 2007

Recipiente vazio Recipiente cheio

Corro o risco de um plágio inconsciente, mas plagiar é copiar integralmente, e esta poesia apenas brotou do sentimento uno de tudo o que tenho lido e sentido nestes últimos meses.

Esvaziar-se é tão necessário quanto encher-se
Uma mente e um recipente cheio transbordam com facilidade
Esvaziar-se é não-pensar
Não-pensar é tão necessário quanto o pensar
Não na dualidade, mas sim na integração
É que caminhamos
Não procurando um caminho
Mas percorrendo-o
Um recipente cheio demais
É um fardo pesado
O homem que não aceita seu recipiente
Constrói jarros maiores
E carrega cada vez mais água
Caminhando com sofridão e lentidão
O homem santo ao contrário esvazia
Enche novamente
E integra-se ao mundo interior
Sem cegar-se pela realidade
Recipiente vazio e recipiente cheio
Eterno movimento
Que conduz o homem-santo
Ao caminho da paz


Este texto/poema/conto é copyleft e pode ser reproduzido integralmente desde que citada a fonte original(http://pseudocontos.blogspot.com/) e esta nota seja incluída.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Respondendo aos comentários

"Cambada de Vagabundos. A Polícia tinha mais era que descer o cacete nesses meliantes invasores. Estão pensando o que? Querem roubar na mão-grande? Ganharam foi o cacetete da PM. Parabéns a Justiça carioca que garantiu a reintegração de posse aos seus devidos donos." (anônimo)

"Em primeiro lugar eu não gosto de quem se esconde no anonimato para se expressar, usam pseudônimos ridículos. ACORDE "MR DUDEN"!! A ÉPOCA DA DITADURA JÁ ACABOU!! NÃO PRECISA MAIS SE ESCONDER!

Eu não consigo entender porque as pessoas não conseguem argumentar sem ofender os outros, sem agredir, sem injuriar. Qual é o problema? o vocabulário é pobre, não sabe argumentar dignamente? " hipócritas oficiais de justiça, juizes assassinos, promotores da miséria..." é muito fácil agredir os outros com palavras agora, não? gostaria de saber se "Mr Duden" teria tido a mesma "coragem" se estivesse diante de tais autoridades, acredito que é por esta razão que se mantém no anonimato, por pura covardia. AGORA, VEJA BEM, "Mr Duden", eu sou solidária a estas pobres pessoas, o Estado deveria cumprir o que está na nossa Constituição, mas, não cumpre, nós, como cidadões, devemos, sim, nos mobilizar para que um dos objetivos fundamentais do Estado, que é construir uma sociedade livre,justa e solidária se torne realidade, escolhendo melhor os nossos representantes... AGORA, O QUE EU LI FOI MUITO BLÁ BLÁ BLÁ. Me responda Mr Duden, o que você tem feito efetivamente para ajudar as pessoas carentes, além de ficar tentando desacreditar a Justiça, denegrir a imagem das autoridades, incentivar a violência e com isto enfraquecer a democracia, a mesma democracia que permite que o "senhor" expresse de modo tão vulgar as suas opiniões. (Verônica Lacerda)

Normalmente não perco tempo respondendo comentários. Poderia dizer que tenho mais o que fazer. Mas a resposta mais adequada é: escolho bem o que quero fazer. Pois bem, abrirei uma breve exceção.

Quanto ao primeiro comentário, está claro pelas declarações recheadas de conotações sexuais("mão grande", cacetete) que o referido sr. anônimo(anonimato -> voyeur) está repleto de couraças caracteriológicas[1] e situa-se políticamente no campo da direita ou extrema-direita e tem uma obsessão fálica latente. Aliás caro amigo, quando você cita cacetete, deve estar referindo-se a cassetete com dois "S", cacetete com "C" é uma derivação sufixal de cacete, atribuição fálica/morfológica da lingua portuguesa ao órgão sexual masculino. Confusões esclarecidas vamos ao próximo comentário que é muito mais divertido.

Primeiro Verônica, seu nome, Verônica Lacerda significa tanto para mim quanto Arnaldo Pinto, Bráulio Martins ou quaisquer nomes esdrúxulos que poderíamos inventar nos baseando em nosso amigo anônimo voyeur. E por que Mr. Durden Poulain deveria significar menos do que Verônica Lacerda? Como diz o grande personagem "V" da Graphic Novel "V de Vingança", "Atrás dessa máscara há uma idéia e idéias são a prova de balas".

A ditadura realmente já acabou, a política sim, mas serviços de inteligência ainda existem(quem me garante que seu nome não é Arnaldo Bocaiúvas, inspetor da central de inteligência de alguma delegacia federal dos rincões deste Brasil?) e enquanto houver Estado e capitalismo, haverá controle, disciplina e repressão.

Quanto à argumentação que eu utilizei no texto, o nível desta é apropriado a argumentação que os especuladores e burocratas utilizam para expropriar família de trabalhadores de suas casas: é algo bem chulo, bem baixo mesmo, sem embasamento ético nenhum. Caso eu quisesse lhe convencer de algo, preferia lhe levar pessoalmente à uma ocupação urbana, um assentamento rural de sem-terras, uma aldeia indígena espoliada por empresas capitalistas, uma favela, um gueto sul-africano, uma comunidade quilombola oprimida... fatos falam melhor do que argumentos normalmente.

Quanto a ter coragem de me expor... Bem o que eu preciso provar para você quando sei exatamente quem sou e o que quero? Talvez eu satisfaria nosso inspetor Virtual, o Arnaldo Bocaiúvas, dizendo que EU ESTAVA LÁ e fui ameaçado de prisão por me indignar com extrema e tamanha desigualdade, talvez isso o conformasse e desse algumas provas virtuais em algum futuro processo criminal(ou seria muita neurose de minha parte?), mas talvez eu pudesse dizer que eu JAMAIS ENTREI em alguma ocupação, sou uma pessoa ordeira, que apenas aperta botões nos dias de semana e volta para casa para assistir algum programa global como um imbecil controlado, apenas um blogueiro indignado de final de semana e que nunca esteve nesta tal Ocupação, que li tudo pelos relatos que me chegaram no mídia independente(http://www.midiaindependente.org) Talvez... Talvez... Afirmar qualquer coisa é perigoso nesta ditadura do capital em que vivemos...

Quanto a escolher melhores opressores, digo representantes, realmente não preciso argumentar, por que há clássicos e autores muito mais qualificados para demonstrarem a falácia da democracia representativa do que eu, Murray Bookchin, Cornelius Castoriadis, Bakunin, Proudhon, Chomsky, Malatesta, Kropotkin, etc, etc, etc.

O que eu fiz pelos carentes cara verônica é dar amor e carinho. Namoradas, amigos, amigas... Pessoas carentes precisam de carinho e amor não?

Quanto a pessoas oprimidas, as que você em sua lente classe média de respeito as instituições e ao E$tado enxerga como carentes(este verbete hipócrita e hierárquico a priori) estas estendemos um braço na luta e caminhamos lado a lado por uma sociedade sem classes, lutamos juntos, aprendemos, construímos a luta, com autonomia e liberdade ao invés de doarmos migalhas de algum almoço dominical para os "sujinhos" da praça ou divirmos um big mac sem fritas após a missa dominical com um indigente na semana santa: a atitude padrão da caridade pseudo-cristã.

Eu jamais denegri a imagem das autoridades ou desacreditei a justiça. Estas já estão degeneradas o suficiente para que eu, um simples cidadão consiga piorar seu estado pútrido! Os fatos falam por si só.

Quanto a democracia, esta é forte e VIOLENTA o suficiente quando lhe convém na hora de expulsar moradores sem-teto, "varrer" mendicantes para maquiar situações de pobreza ou exterminar os pobres em comunidades e favelas! Não precisamos incentivar algo que é inerente à própria existência do capitalismo: VIOLÊNCIA E OPRESSÃO.

Sim, esta tal democracia permite por hora que eu fale, que eu esboçe um mero sussuro controlado, vigiado... Mas a história prova que quando tais vozes de indignação tornam-se pernicivas ao poder este não mede esforços para recorrer a atitude mais utilizada pelo capitalismo quando a democracia não dá conta de reprimir os descontentes: O FASCISMO!!!

Espero ter conseguido me fazer entender.

[1] O conceito é oriundo das obras do psicanalista Wilhelm Reich.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Lilac Wine (tradução)

Jeff Buckley

Eu me perdi numa noite úmida e fresca
Entreguei-me àquela luz nebulosa
Estava hipnotizado por um estranho prazer
Embaixo de uma árvore lilás
Eu fiz vinho da árvore lilás
Pus meu coração nessa receita
Isso me faz ver o que quero ver…
E ser o que quero ser
Quando eu penso mais do que quero pensar
Faço tantas coisas que nunca deveria fazer
Bebo muito mais do que devo beber
Porque isso me leva de volta pra você...
Vinho lilás é doce e faz a cabeça, como meu amor
Vinho lilás, eu me sinto inconstante, como meu amor
Escute-me…
Eu não consigo ver claramente
Ela não está se aproximando de mim?
Vinho lilás é doce e faz a cabeça. Onde está meu amor?
Vinho lilás, eu me sinto inconstante, Onde está o meu amor? Escute-me, por que tudo é tão nebuloso?
É ela, ou eu estou ficando maluco, querida?
Vinho lilás,
Eu não me sinto pronto para o meu amor...

Seu nome é Buckley, Jeff Buckley

São poucos os artistas ou grupos musicais que me cativam em apenas uma única e deliciosa culinária áudio-musical. Eu normalmente sou avesso a pegar cds's emprestados de coisas que eu não conheço. Gosto de me aventurar sozinho, descobrir e lapidar talentos conhecidos ou não. Não suporto que me empurrem bandas ou artistas, as descubro sozinhas na maioria das vezes. E quando me emprestam algo, sou um profundo desconfiado. Escuto normalmente, o que quero, quando quero. Não adianta empurrar na maioria das vezes. Gosto de estar no controle.

Há exceções. E dentro destas, há aquele cd que você não precisa escutar mais do que duas vezes para te cativar. Isso pra mim é raro. O Echo and the Bunnymen, o Interpol e até mesmo o Sonic Youth precisaram mais do que uma sessão de cd's pra me convencer.

Digerir o quitute com calma. Mas há exceções. Há coisas que são como chocolates sonoros. Alhos semi-acústicos, ou gostamos ou detestamos. E este senhor, este senhor de sobrenome Buckley, Jeff Buckley, me convenceu a ponto de escrever um pequeno texto em sua homenagem. Sua música me convenceu. Convenceu-me como Morphine, Nirvana, Cat Power, Radiohead. Não precisei de segundas opiniões. Isso não torna algo melhor ou pior, mas cria inevitávelmente uma boa impressão. Não há nenhum problema em ter de escutar um bom cd mais do que uma vez, para se certificar internamente que sim... é isso... é este...

Há livros, discos e até pessoas que precisam ter seu momento certo para surgirem. Há coisas quentes, frias, viscosas, geladas, suaves... tudo tem seu momento, seu tempo certo. E não seria diferente com a música.

Conheci o sr. Buckley numa trilha sonora de um filme chamado "Edukators" que por sinal é um excelente filme e achei sua música razoávelmente boa nada mais, ele cantava a música Hallelujaj do grande Leonard Cohen com personalidade, mas sinceramente não me convencera a ponto de explorar mais sua discografia. Estava enganado na verdade. E no metrô hoje cedo, qiuando me lembrei do suicídio de algum anônimo na linha 2 esta semana que parou metade das estações da zona sul, eu só pude pensar que alguém que canta desta maneira, só pode ser um angustiado ou um suicida. Ou alguém com um destino trágico. Eu preferia estar errado(e o casamento da Chan Marshall com o sr. Buckley só poderia ser no além segundo a Rayssa...). Fuçando a biografia do sr. Buckley, motivado por tais sinais, entristeci-me com o afogamento prematuro dessa grande promessa.

Afogou-se trágicamente, mas sua música continua a correr como as águas do mestre Cartola, e quando isso acontece só podemos bater palmas.

Bater palmas para Buckley, Jeff Buckley(e mais palmas para a Rayssa que me emprestou o cd!).

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Laura

Ela está aqui, ela está ali
Como um processo, ela me observa
E é observada
E às vezes confundimos quais papéis assumir
Está dentro e fora ao mesmo tempo
É espelho e reflexo
É respiração e expiração
Sem perder, sem perdermos o que fomos
Ela domina e deixa ser dominada
Seu reflexo confunde-me
Ilude-me em projeções
Um cordão umbilical nos une
Um não pode viver sem outro
Mas somos um só
Só temos este corpo
E afinal
Quem foi que escreveu este poema?

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Indignação!

Tentei encontrar palavra pior que o fascismo para descrever o que fizeram com a ocupação Poeta Xynaíba, mas sinceramente não encontrei. Fascistas! Sim, fascistas é o que são! Eu os vi, li seus olhos, suas intenções, assisti seu circo dos horrores! Se a luta de classes é um conceito teórico, hoje eu a vi nua e crua! Na forma mais real! Explícita!

Repórteres da mídia oficial(e oficialesca), hipócritas oficiais de justiça, sádicos policiais, juízes assassinos, promotores não da justiça, mas da miséria! Da extrema miséria! Perpetuam, mantém, protegem um sistema assassino!

Um espaço que estava abandonado há décadas, largado pelo tempo, pela especulação imobiliária do cinismo, da ganância!! Pedra a pedra, os moradores se organizaram, criaram um centro comunitário, com aulas para as crianças, colocaram um portão, limparam e conservaram a antiga vila operária, ganharam dignidade, vida, decência!

Contudo os setores a serviço do capital e da justiça burguesa apressaram-se a defender a propriedade privada! Um batalhão de polícia inteiro mobilizado para expulsar trabalhadores, donas de casa e crianças de suas casas! Caminhões e caminhões para jogar seus pertences em algum depósito imundo da prefeitura! Balas de borracha e gás lacrimogênio para calar as vozes dos descontentes! Camburão e cassetete para o negro pobre, assim como o açoite do negro escravo! Demagogia nas bocas de quem dormirá tranquilo sob pequenas fortunas acumuladas sob a base da exploração! Falsa preocupação de uma assistência social fictícia da prefeitura! Hipócrita! Vendida!

Crianças nas ruas! Quem se importa! Para onde vão? Não tenho a mínima idéia! O abrigo da prefeitura só permite ficar seis meses! Se vire! Corra atrás! Pague um aluguel extorsivo! Dê graças a deus por estar vivo! Trator sob as casas dos descontentes! Prisão para os que não aceitam a injustiça e a maldade escondida sob os olhos do direito constitucional!

Onde está a democracia? Encolhida sob a farda de um fascista corporativo ou esmagada sob o coturno da polícia militar?

Pútrida democracia! Pútrida liberdade que nos oferecem! A liberdade de morrer sem reclamar! De ser esmagado, vilipendiado, reduzido à cinzas, tratado como animais!

Posso ler seus lábios, suas mentes e ouvir seus sussurros sem para isso me esforçar.

Favelados! Gentalha! Gentinha!

Eis a justiça! Eis o direito constitucional! Que protege o mais forte! Esmaga o mais pobre! Que só deixa vencer, quando o capital não se incomoda, quando não reclama!

Suas armas, suas viaturas, seus coronéis, seus patrocinadore$ podem nos enganar e nos torturarcom a ditadura do capital durante anos, mas nada, nada é eterno. Nada dura para sempre além do tempo. E enquanto tivermos revolta e indignação para mover nossos músculos! Saibam bem, que vocês especuladores, capitalistas, burocratas e servos do Estado JAMAIS DORMIRÃO EM PAZ! JAMAIS!!!

PAZ ENTRE NÓS E GUERRA AOS SENHORES!!!

MATEM UMA ROSA, MAS JAMAIS DETERÃO A PRIMAVERA!!!

Mais informações em: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2007/04/377901.shtml

Este texto é copyleft, ou seja, pode ser livremente reproduzido para fins não-comerciais, desde que a fonte seja citada(http://pseudocontos.blogspot.com) e esta nota seja incluída.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Os dias atípicos de Anatole

Onde ele foi?

Não sei merda. Eu não sei caralho!

Diz logo filha da puta!

Vai pra puta que te pariu seu bosta! Não vou dizer nunca!!! Nunca entendeu!

Uma cusparada rasgou o céu, a cara de Anatole encheu-se de ódio e saliva! Nojo! Raiva!

E Anatole! O velho Anatole! O doce e tranquilo Anatole! Jamais Brigara com Ninguém!

Que merda! Anatole imaginou-se no Tibet, na França de novo, no raio que o parta, na puta que pariu, na manifestação do passe livre. Anatole bateu. Socou, não sabe como, de que jeito, de que forma, qual o braço acertou primeiro, como derrubou o puto no chão, como socou a cara do pulha no paralelepípedo, como pensou nas coesões anafóricas enquanto esmurrava o maldito com os cotovelos, com a cabeça, com o joelho, com a raiva!!!

No primeiro momento ele tentou reagir, a camisa de Anatole rasgara-se, o cordão quebrou-se em pedaços, um soco na costela não o afetou, whatever, ele continou, continou, a raiva o dominou, não era mais Anatole lá, estava na lua, era algúem, algo superior ou inferior, que socava não com os punhos, mas com o passado.

Não batia para provocar a dor. Batia para tornar aquele pedaço de vida um algo inanimado, um pedaço de carne no chão. Lembrou de algumas parábolas. Parafraseou um jesus histórico indecente, enquanto tentavam lhe segurar. Não tinha mais vida ali. Eram só ossos, sangue, cartilagens e mentiras.

A poça de sangue tomara o lugar. O pedaço de granito manchado de vida rolou, as garrafas de cerveja caíram e quebraram com um tempero de sangue.

Me soltem! Me soltem!

O bar parou. O pequeno mundo de Anatole parou. O lugar esvaziou-se de atenção. Pela primeira vez, Anatole tinha toda a atenção. Ele pegou sua mochila. Olhou a todos. Seu lábio sangrava. Sua camisa estava rasgada e seus joelhos sujos. O corpo do maldito jazia no chão, olhos abertos, roxo, muito roxo, sangue espalhado nas pedras portugesas.

Anatole engoliu a cerveja com raiva. Bateu o copo na mesa. E partiu.

Precisava encontrar Vasilli.

sábado, 24 de março de 2007

Apertando os parafusos

Minha vida frouxa
Que frouxa, como desliza, corre
Não aperta, não se estabiliza, não conduz
Apenas seduz
Apenas reduz
Deitado o novo
Clareia um bom dia
Estapeia um alento
Enforca um talento
Só na medida do contrário
Do desespero agregário
Empurra os formosos passos
Ao empuxo das cores
Das dores
Das flores

Bêbados

Ao estar bêbado, somos poéticos. Então, lembrarei de Vasilli e de Laura, ainda ruiva de metáforas e envergonhada por não saber qual ônibus tomar nestas noites tão perfeitamentes meio-totalmente outonos.

Carpe diem e Bis Bald meus caros.

sexta-feira, 23 de março de 2007

As pazes de Terturiano

Terturiano cortava cenouras.
E resolveu cortar Márcia um dia
A delegacia de mulheres não gostou
E resolveram cortar Terturiano da sociedade
Jogaram-lhe numa cela, com dezesseis Terturianos
Para cinco metros quadrados
Enquanto o juiz resolvia quem iria cortar desta vez

Numa briga na penitenciária
Cortaram Terturiano com quatro iguais facas opostas.
E cortaram Terturiano em nove pedaços indefectíveis.
Márcia, no canal onze, assistiu a rebelião com suas quatorze cicatrizes.
E acendeu seis velas de sete dias para agradecer os cinco palmos de terra rasa
Que deus no nono dia de descanso lhe reservou

quarta-feira, 21 de março de 2007

Recuperando rascunhos antigos...

Acordei meio indisposto. Peguei o telefone e tentei falar com Laura, mas como de costume ela não atendia pela manhã. Ela precisava escutar o sonho que eu tive, eu sabia que não ia ter a surpresa desagradável de encontrar Vasilli atendendo o telefone, por que às quartas-feiras ele estava sempre mais preocupado em encontrar alguma utilidade para seus empreendimentos solitários.

Não havia mais fé. Havia o fluxo. As coisas, caminhando.

sábado, 17 de março de 2007

Da porca de barro que guardava idéias

Simplesmente fenomenal. A chuva, que bela chuva! Fenomenal. Eu andei, olhei para as calçadas portuguesas, digo pedrinhas portuguesas, construídas sob suor, sob o sol, mas o sol ali não estava, talvez a lua, mas o sol... quem dirá, o sol.

Quando eu precisava conversar ela sempre aparecia. Quando nada mais me dava atenção, um brilho surgia, um caos dançava dentro de mim e eu conseguia olhar no reflexo do espelho, enquanto escutava a voz, as vozes, encerrarem ritos.

Reclamavam da vida, o vagão-trator-vagão, petrificava os problemas, engessava e reduzia os transeuntes a um pó de vida-morte, morte-vida-pó, um quê de cousas sem identificação, que no final das contas, eram puros backgrounds, efeitos. Quando me perguntavam como eu encarava a dor, eu respondia que escrevia contos e bebia cervejas. Ninguém entendia. Achavam-me idiota ou sarcástico, talvez seja uma defesa que eu assumi. Alguns começavam a rir ou permaneciam calados em tom de respeito.

Mas o inconsciente fazia planos. E eu os desconhecia. Queria conversar, mas era difícil, conselhos eram desnecessários; só queria ser escutado(ela sussurrava que tudo era um devir... até mesmo ela). Ninguém entendia Laura.

Eu escrevia sobre e para ela. Ela também escrevia, mas era difícil conviver com as dúvidas que as pessoas encaminhavam sobre seu comportamento, sobre meu comportamento.

Foi num dia de verão que eu resolvi comprar uma porca de barro, estava alegre, juntaria não dinheiro, como a maioria, mas juntaria idéias. Cada momento de lucidez e de loucura, seria uma idéia colocada na porca. Poemas, contos, haikais, teorias, cartas de amor com destinatário ou sem destinatário, crônicas, catarses, fotografias dobradas, tudo seria colocado na porca de barro. Uma grande porca marrom(ou seria laranja...), vendida nos sinais, era a porca das idéias. Depois quebraria tudo e veria o que restou.

Pensei em quebrá-la várias vezes. Mas em todos os momentos ela me olhou e pediu clemência de uma maneira tão estática, que eu a poupei.

Laura me provocava. Dizia que eu não teria coragem, que eu me apeguei. Que a porca era um totem e totens não podiam ser destruídos, matem o séquito, mas os totens vivem, re-vivem.

Ela brincava de um jogo esquisito comigo, era uma provocação explícita. "A porca ou eu", dizia em momentos de raiva. Tudo para me testar. Cofre de sonhos. Isto era o que era a porca. Meu cofre de sonhos.

Laura quase atirara a porca mas eu a detive e neste dia, nos beijamos tão intensamente, que a porca repousou sobre o edredon da cama tão plácidamente, que quando abri meus olhos a vi de olhos abertos dizendo: "obrigado. obrigado".

Deixe-me falar sobre alguns dias específicos. A porca entrara em meus sonhos dizendo que teria de falar por metáforas durante anos, toda uma vida, pois quem guarda segredos, mesmo que inofensivos ou desejos, é um escravo. Um verdadeiro escravo. E escravos mandam pombos ou porcas-correio ao invés de se exporem. Por que a exposição traz alguns pedaços de morte.

E a porca não queria morrer.

A capacidade de criação aumentava. As coisas tornavam-se extremamente cíclicas e aí resolvi encontrar Justine, Justine, era doce, tinha seus próprios problemas. Seu problema chamava-se Nicolas. Era seu edema pessoal.

Nos encontramos no bar, eu e Justine. Resolvi falar do sumiço de Laura e ela do aparecimento de Nicolas. O papo teve alguns eixos temáticos, mas básicamente era o clássico "minha vida é irônica, deus joga dados e eu fumei Haxixe semana passada com um casal de argentinos". Eu só falei da porca e de Laura. Justine achou engraçado, por que ela movia os olhos e o cigarro de forma característica, então eu já sabia que ela iria sorrir depois desse padrão frenético de ironia.

Ela olhou nos meus olhos e perguntou como estava. Eu disse que não muito bem, e ela tragou mais um pouco do cigarro, antes de me fazer um cafuné-placebo e eu com aquela cara de tédio tradicional, que me impelia a esperar os primeiros passos.

Conversamos sobre livros que já tínhamos lidos, frases clichês e derrotas, parecia que Justine por um momento poderia ser uma boa companheira de final de semana, mas havia alguma barreira metafísica, que nos dizia mútuamente, que o maior contato que teríamos era o de contar frustrações e desenhar balões de tristeza no alto de algum morro.

-Tenho medo que você se suicide, ela falou.

-Não vou me suicidar. De onde tirou essa idéia?

-Ela veio falar comigo. Disse que você está estranho últimamente.

-Deve ser a porca, eu respondi, se é por ela... saiba que...

Ela me interrompeu. Disse que eu não podia mais ter este tipo de atitude.

-Como assim Justine?

-Simples. Você já superou todos os padrões. Já não é um há muito tempo. Não chega a ser um übermensch mas sobreviveu e eu te admiro por isso seu filho da puta.

-Prossiga.

-Caso você se mate, vai jogar parte da merda onde ela tem que ficar: na merda. Contudo você é um puto transgressor. E eu acredito na essência disso, seu grande filho da puta. Você vai assistir sua própria decadência. É homem o suficiente para isto.

-Você é uma merda de um exemplo. Um exemplo ruim. Tem de se manter vivo. A decadência, a derrota, deve se refletir. Você sabe disto.

-Sim, eu sei. Mas não tenho vocação de mártir. E todo suicida é um egoísta. No fundo é o ego, o eu, que manda e diz: "filho da puta, não sofra mais por eles". O altruísta, como disse Stirner, como disse o filho da puta de bigode grande, é o pior dos egoístas.

Ela sorriu, foi uma piada desigual, fora de foco, de hora. E eu já havia me cansado daquilo tudo.

-Responda-me, sem hesitação... Quantas pessoas lêem o que você escreve, ela me perguntou.

-Hum... Seis, em dias bons.

-E quantas se importam?

-Talvez nenhuma.

-E a importância não vem da perda? Da maldita perda?

-Pense?! É um belo prato de macarrão. É tentador viver na morte não? É o que fazem os malditos, os tuberculosos e os suicidas.

Uma longa pausa ocorreu. Eu bebi minha cerveja e olhei para o vazio. Justine sorriu e começou a falar de futilidades, do livro do Korczak, da pedagogia, das aulas de alemão, e eu esqueci que tudo aquilo poderia não ser real.

Aí eu entornei meu copo de cerveja, fechei meu casaco de flanela, me lembrei dos edemas provocados pela bebida e resolvi voltar pra casa. Justine me acompanhou, por que acreditava que cantar "las barricadas" durante o caminho do bar à minha casa poderia me ajudar a não morrer naquele dia.

Mal sabia que eu já estava morto. A porca sobrevivera, mas eu... eu era um triste pedaço de morte.

Este texto pode ser reproduzido para fins-não comerciais, desde que citada a fonte original(http://pseudocontos.blogspot.com/) e esta nota incluída.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Alegria

Cartola

Composição: Cartola

Alegria,
Era o que faltava em mim,
Uma esperança vaga,
Eu já encontrei,
Pelos carinhos que me faz,
Me deixa em paz,
Não te quero ver,
Para nunca mais.

Eu sei,
Que teus beijos e abraços,
Tudo isso não passa,
De pura hipocrisia,
Já que tu não és sincera,
Eu vou te abandonar,
Um dia.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Considerações

Então já que aconteceu toda esta confusão sobre posts copiados, mas que na verdade não foram copiados, não foram devidamente citados... eu vou falar sobre copyleft e a questão da informação na internet, da degradação, num próximo post(eu prometo).

É bom, por que a internet é um mar de coisas não-confiáveis. Posso escrever um texto e assinar com qualquer nome, difundí-lo por email e assistir a confusão por camarote. Isso pode ser extremamente positivo para desestabilizar determinados jornalistas mal intencionados ou regimes de manipulação de massa, mas muitas coisas ruins surgem destas questões também.

É uma faca de dois gumes.

Este texto é livre de ser reproduzido para fins não-comerciais, desde que citada a fonte original e esta nota seja incluída.

copyleft

Breves histórias

Vasilli em seu jogo de cartas semanal, no truco filosófico que mantinha com Anatole, e impreterívelmente Laura costumava aparecer, não para ganhar, mas para fazer com que
alguma graça surgisse além da praticidade mórbida daquele ritual de fim de semana, costumava digitar oralmente algumas histórias(ou seriam estórias) interessantes, que faziam Anatole revisar o que era realmente mais importante; aprender Fitche ou Shopenhauer ou viver intensamente relações sociais.

Vasilli sempre assobiava e completava com uns trocos de música, quando uma rodada estava a seu favor, versos batidos, "alegria era o que faltava em mim", assobiava Cartola em tom de sarcasmo, era um recado para Anatole. Uma crítica clara, direta. Como era vil quando conseguia. Ele sempre fazia algo do tipo, percebia que Anatole costumava abaixar as sombrancelhas em tom de protesto, perder não era um bom negócio claro, e o que era um jogo transmutava-se numa batalha campal de filosofia e sarcasmo; Anatole sempre encerrara tais situações com olhares deprimidos ou comentários polêmicos sobre algum livro que Vasilli celebrara.

Bati!, gritou Vasilli... Hahá! Par de ases!

Anatole, recolheu as cartas, e embaralhou mecânicamente os valetes, os reis e as damas, enquanto Laura, movia-se frenéticamente até a geladeira, daquele cômodo sujo, um carpete marrom que negava a modernidade, tufos de cabelo e pedaços de papel no chão constrastavam com a louça suja, um macarrão a alho e óleo que Vasilli tão hipócritamente cozinhara para todos.

Era a raiva que o dominava...

Bebeu o copo de contini com força. E na ausência de Laura, que se jogara no colchão rasgado e sujo ao lado da garrafa de vodka que na sua metade, desafiava os que ali estavam a assassinar aquele indecente caminho para as portas da percepção, continuou a embaralhar as cartas. Vasilli, segurou suas mãos e disse: "acabou companheiro. acabou."

Olhou nos seus olhos e disse: "O homem sagrado não compete, por isso ninguém pode competir com ele".

Anatole, esperava mais. Mais as rosas não falam. E as de plástico, emolduradas, entorpecidas pelo ambiente, aquela luz, aquela lâmpada de 60 watts, que iluminava pendurada num bocal sinuoso e problemático, traduziam a noite.

Laura, doce laura, perfume que dominava o ambiente, de bruços, com sua calça jeans negra, seu tênis amarelado, do brechó de algum jardim, de algum pseudo-jardim, da lapa, dos arcos, de santa teresa, de algum convento, de alguma igreja do subúrbio, eram tantas versões, que exalavam todo o perfume doce de Laura. Seus cabelos curtos, olhos de amêndoa, moderna e tão ultrapassada, assim era Laura, enquanto o caos rodopiava sob seus olhos, ela simplesmente dormia.

O que você disse?

Que acabou.

Acenou com a cabeça. Despejou o baralho sobre a toalha de mesa e incitou Vasilli a ficar bêbado naquela noite: "outra cerveja Gaijin."

Vasilli foi submisso a idéia.

Enquanto tirava a chapinha com um pedaço improvisado de faca, que usava como abridor, a porta anunciava algum viajante. Batiam na porta com virulência, violência. Vasilli sorriu, transparecia uma felicidade mórbida, o coração de Anatole preocupou-se com a semi-automática dentro da gaveta, quando Vasilli trouxera os pacotes de alho; emudeceu, tomou mais contini e preocupou-se com aquele momento.

Vasilli caminhou até a porta com um casco nas mãos e abriu a porta sem nenhum pudor. Apenas a cerveja e o sarcasmo eram suas armas naquele momento. Era o fim da noite.

O sr. Fitche chegara, não em pessoa, mas em idéias. Pizza.

Comeram pizza de mussarela, e falaram da morte de animais, abatedouros e dormiram como pedras pomes até o sumiço do russo.

Dia eventual, que deixou Anatole, finalmente sozinho com Laura.

Mas isso é uma outra questão.




sábado, 10 de março de 2007

Da salvação da ruiva


Quando ele se decidiu a participar do jogo não imaginava que tantas coisas ruins poderiam acontecer. Tudo era simples, precisávamos de apenas cinco minutos para entrar e sair, apontar as pistolas para o lugar certo, cada jogador no seu lugar, cada peão movendo-se como combinado, cada comprador assustado no seu exato lugar, os móveis, a mobília, as malditas jóias, o dinheiro, não ferir funcionários, fora o combinado, fuder o patrão era um bônus game, mas a intenção era simplesmente mudar as coisas de lugar, não destruir pessoas, pessoas não estavam na lista. O plano era abalar posições, não ferir pessoas.

Suas mãos tremiam. Acendeu um cigarro, apoiou-o no cinzeiro, e desengatilhou sua clock, tirando o pente, recolocou, apertou a pistola na cintura e fez sentir-se patético por ainda precisar estar usando este tipo de ferramenta. Era como um violino. Mas sempre há um dia ruim. Ele nunca confiou na sorte. Coincidências, azares cotidianos acontecem ora bolas, nos viramos com o fato, não com as possibilidades anteriores; o que vale é o a posteriori, o a priori é merda, é adubo metafísico, meditou.

Ele era um defensor da propriedade privada, mas deus, maldito deus, eu nunca me insurgi contra a humanidade, uma longa discussão sobre o pacifismo de Gandhi me levara a xingar Anatole em francês durante vinte segundos, mas isto era diferente, eram posições a serem quebradas, retorcidas. Ele tombou por defendê-la, sussurrava como autoconfiança.

Tudo caminhava bem, a ruiva dava conta do serviço, e era mais enérgica do que precisaríamos ser, sua frieza contrastava com o reluzente brilho das jóias, espalhadas no balcão, era simples, enchíamos os sacos, obrigávamos o gerente a mostrar a grana, não éramos sádicos, simplesmente acontecia naturalmente, o curso nos guiava, embalávamos o dinheiro, íamos embora de van, deixávamos tickets, provas falsas, e outras miscelâneas para trás. A comemoração vinha depois. O destino da grana era escolhido em futuras reuniões, nove dias após os eventos. Sempre em 9 dias, em horários determinados. Não havia muitas regras, mas as que existiam bastavam. Mas desta vez era diferente, era preciso uma exceção. Era preciso que todos nós nos encontremos antes do previsto.

Quando ele tentou acertar a ruiva, eu o matei, tive que fazer, e fiz com uma certa dose de raiva misturada a satisfação de não vê-la estirada naquele carpete vermelho. Maldito segurança. E se voltasse atrás faria novamente. Está feito. Era uma deriva perigosa.

Pensou em ligar para ela, mas era inútil, saberia que a ruiva não atenderia, estaria mais preocupada em raciocinar sobre o fato e acumular axiomas para o próximo encontro.

Não tento mais reagir à dor. Chorou um pouco, não talvez pelo segurança abatido, mas pelo que ele representava dento do jogo contraditório do maldito sistema de controle.

Socialismo ou barbárie comentou a si mesmo, reproduzindo talvez algum muro pichado de 1968.

Aliás pixar é com X ou com Ch? Não importa.

E ainda estamos na barbárie. Raciocinou, antes de abrir a geladeira e emendar umas três cervejas em tom de revolta: onde está a conjuntura? Aqui está. Eu a criei. É bom que o mundo se entenda.

Não leu Kurz naquele dia.


terça-feira, 6 de março de 2007

pseudocoitos

Pule, coma isso. Não há sentido. Sem tido. Sem haver alho. Algo eu quis

dizer. Sem sódio. Ou lítio ou você. Bugalhos, sem ódios, não fazem

parnasianísticos rimadores de academia.

Ia. Eu ia sem ir. Eu ia sem mia, sem ria, pensei não sendo, o zacarias,

não vinha, tantas vinhas, uvas tangerínicamente trangênicas.

Pátios proto-físicos.

Sonhos, som, herdando sonhos e felicidade.

Bela poesia. Bela.

Do teste de amor

E usam a internet para isso?

- Usam é verdade. Virtual.

Porra, é virtual. Comentários não enchem a alma.

Entschuldigung!

Saúde.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Da série: ficção e realidade

O método era científico. Consistia em apertar alguns parafusos emocionais, beber meia dúzia de cervejas e esperar que ela chegasse. Uma película amarelada, o ônibus cruzava a avenida Brasil, antes, porém, tudo fora muito mais real.

Domingo. Nunca imaginei que poderia ver ruas tão vazias. Ruas cariocas vazias. Tudo bem que da Lapa à cinelândia era apenas uma questão de puro pragmatismo, alguns passos fortes e eu podia ver a estação de metrô fechada; lembrei-me do consulado americano, das passeatas, e de mais alguma coisa que não me recordo. Apertei o passo, cruzei umas ruas até o largo da carioca, os prédios cinzas estavam bonitos, não havia ninguém; ninguém mesmo, além de uma cabine distante da polícia militar e o clássico ponteiro do relógio, histórico do largo da carioca. Senti-me um personagem vivo, de algum conto do ano passado, antes de entrar na rua da carioca. Passei em frente a um caixa eletrônico e as idéias insurrecionistas me acometeram de coragem, mas que cidade, que cidade, seguranças discretos, eram os olhares, e não estávamos ainda sob as asas do "grande irmão". Minha mente ocidental, repleta de vícios, e eu ainda estava galgando estágios, me descondicionando, quando eu olhei para o belo eclipse lunar da noite anterior. De tão simples, o caminho, o curso revelou-me minha própria natureza. Uma árvore no quintal me deu explicações bem melhores do que meus sete ou nove livros de psicologia em cima da estante.

Horas antes, eu passava no Museu de Arte moderna, no Flamengo, com um amigo meu, bons papos, apesar de curtos, não assisti os filmes neo-realistas, mas consegui voltar e olhar para aquela fonte de água, era o curso/caminho se revelando novamente, tão suscinto, sempre esteve aqui, e acolá, como se desejasse me surpreender. Eu tentei escrever durante toda semana, mas me senti vigiado, observado. A tecnologia eliminou toda privacidade. Tudo tem de ser compartilhado, vigiado. Talvez seja o momento de colocar o velho plano da reclusão em prática. Do desapego, da transitoriedade. Podendo entender o vazio, o cheio, esta independência se revela muito mais confortante. As respostas que eu não encontrei na ação, mas na não-ação. Um amigo para cada fase. Eu estou muito inclinado a tomar medidas radicais, mas sempre pensei no equilíbrio como uma forma polida de comunicar-me com o mundo e dizer "está tudo bem". É pura política no final das contas. Da última vez que senti sua presença, ela me encheu de medo. Eu escrevia, e ela me olhava no fundo do quarto(a parede da esquerda ainda não era verde). Eu pirei naquele dia.

Que me mandasse mensagens pelos sonhos; assim era assustador demais. Comecei a sentir medo, quando pensei na possibilidade de poder enjoar em transformar minha própria vida em letras, contos, letras. Os desastres não chegavam, e não dava a possibilidade de argumentar, embasar boa parte de toda a figuração dramática que eu tão bem encenava. Eu não conseguia mais compartilhar a indefinição com ninguém. O caminho tornou-se muito complexo, a ponto, de eu desistir sistemáticamente a me expor sempre que assim a vontade me toma. É um caminho inverso. A introversão virou extroversão e agora reclama sua natureza novamente, está voltando. Efeito bumerangue, em breve, terei de resolver todos os problemas internos completamente só, a estrada é uma preparação. É bom se preparar garoto. Quando Laura chegar, ela vai pedir o que lhe é devido. E é bom estar preparado. Você fala muito no passado, ouvi ela me dizer, chegarei nos seus sonhos, por que apesar de irreal, eu estou mais presente do que todas já estiveram. Você pode fazer sexo de olhos fechados e acender um cigarro num sábado a noite, mas saiba que quando eu lhe domino, nem seus dedos conseguem saber exatamente o caminho a tomar. Amanhã conversamos melhor.

Tá bem. Apesar de incompleto e prematuro. Estava tudo bem... tudo bem..