segunda-feira, 28 de maio de 2007

Microconto: O problema de Eduardo


Eduardo tinha um problema. Seu problema chamava-se Joana.

E nas quintas-feiras o problema acenava ou dava-lhe bom dia antes das aulas de metodologia do ensino aplicado II.

O temperamento outrora translúcido de Eduardo dava lugar a um sorriso oco e a uma expressão vaga de pena. Pena de si mesmo.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Da grande porca que sobrevivera

Todos os porcos são iguais. Mais há porcos mais iguais que os outros.

Entendeu?

Gritou; estava bêbado.

Jogara as chaves por cima da mesa, uma mesa de madeira patéticamente solitária, uma madeira de baixa qualidade, em cima apenas a porca, um cinzeiro cheio de guimbas e um bloco de papel com rascunhos quaisquer. A porca estava parcialmente manca, fruto de um derrubão que lhe arrancara parte da pata esquerda. Culpa da maldita cuba libre. Gritou um merda tão vivaz, que assustou o gato que resolvera circular toda semana passada pelo apartamento.

Ainda tateara alguns segundos para apagar o interruptor e acender o abajour de centro que comprara na feira de antiguidade aos sábados da Praça XV e não-se-sabe o porquê mas o vendedor resolveu limpar os dentes enquanto resolvia convencê-lo de que o valor do abajour era justo a princípio, coisa que de fato convenceu-o com um virar de costas teatral que definiu toda a futura barganha.

Pensou o quão classe média era. Estava dominado, recheado dos trejeitos e sonhos típicamente pequeno-burgueses que tanto fazia questão de rejeitar, ou diria projetar... projetar...

Sentou com a garrafa de cerveja próxima a cadeira, olhou para a porca, a admirou antes de encher o copo e tragar a espuma, a cerveja e parte das decepções. Botou a porca olhando para a parede oposta a da janela e pensou que escrever contos pequeno-burgueses era uma sina sua. Jamais conseguiria escrever contos que lhe trariam realmente um pouco de dignidade, por que era necessário um tom de sobriedade que não obtia durante os dias de semana quando resolvia confrontar-se com si próprio. Não era um Máximo Górki muito menos um Lima Barreto, era um arremedo de Kafka com umas pitadas repetitivas de um Badeulaire de quinta-categoria.

Nesses dias, era apenas emoção e fundos falsos. Parava para recolher pedaços durante seus introspectivos quartos vazios. Vazios de si próprio.

Pegou a porca novamente, alisou-a como uma lâmpada mágica, como um objeto parado poderia lhe dizer tanto? Como?

E dizia. Dizia sem abrir lábios que nem tinha. Dizia com as lembranças, com o simbólico, com o imaginário não-lido, com a falsa impressão dos sorrisos, com os encontros e desencontros dos dias finais da semana; dizia tanto que faltava chorar. Mas ela não tinha olhos, nem pupilas, apenas buracos em paredes de barro. Quando olhava para a porca lembrava dos mesmos olhares brilhantes que o castigavam com a indiferença. A indiferença, o desprezo é o oposto do amor, não o ódio. O ódio é parceiro. Falara isso numa situação esdrúxula é verdade, chovia, e era o dia dos conselhos errados. Conselhos errados era a data que quatro campeões se reuníam para construir uma meta-filosofia da desgraça. Era engraçado. Um axioma antigo que o reconfortava.

Pois sempre precisava falar, falar entre algumas mesas de bar era fundamental para ver se conseguia exorcizar a porca, o passado, o símbolo e o diabo a quatro! Mas não era tão fácil.

Não era tão fácil por que quando acordava tinha a porca para lembrar da ruiva, da maldita ruiva e quando dormia, os sonhos se encarregavam de mostrá-lo o quanto podia ser cruel essa tal de memória. Evitar não é o remédio. Confrontar é a solução. Não é um tratamento homeopático, mas mesmo assim é algo corajoso a se fazer.

A temática não era lá essas coisas. Mas isso resolveria nos próximos meses.

terça-feira, 22 de maio de 2007

"Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida!"

Entrevista interessante... sobre o i07... encontro em Paris....

"Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida!"

Nesta entrevista, Rafael, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), nos conta um pouco como foi sua participação e impressão do encontro internacional i07, que aconteceu entre 28 de abril e 1 de maio, em Paris, na França, juntando delegações de várias partes do mundo: Bangladesh, Camarão, Irlanda, Espanha, Nova Zelândia, Mali, Suécia, Polônia, Colômbia, Argentina, Alemanha, Costa do Marfim, Palestina, Marrocos, Argélia, Burkina Faso, Portugal, Grécia, Benin, Reino Unido, Estados Unidos, México, Brasil...

Agência de Notícias Anarquistas > Podemos começar essa conversa com você contando sua impressão sobre o encontro internacional i07 em Paris. Sua avaliação é positiva?

Rafael Viana < style="font-weight: bold;">ANA > E você participou efetivamente de algum tema específico? Foste como delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)?

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Já tive a oportunidade de ouvir uma fala desta jovem companheira de Atenco, e me impressionou a força nas suas palavras... Nessa oportunidade, em Paris, ela falou com um facão na mão, não? Vi fotos... (risos)

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Ficou articulado alguma campanha entre os grupos latinos? Li algo sobre se criar uma Coordenação Anticapitalista Internacional...

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Também esteve na passeata do 1° de Maio? Imagino que tenhas ficado emocionado em ver tantos libertários juntos, não? (risos)

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Alguma coisa te chamou a atenção nessa passeata? Por exemplo, a presença de negros? Gente de várias idades...

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Apesar de tudo, da apatia geral, das coisas serem tão difíceis para nós anarquistas, e longe de querer cair num otimismo estéril, podemos dizer que o anarquismo se expande por todos os lados? Que ele continua carregado de sentidos?

Rafael < style="font-weight: bold;">ANA > Quer acrescentar algo para finalizar?

Rafael < style="font-style: italic;">Enfiou os dedos na terra, plantou uma semente e dormiu.

Microcontos - Jane Zandonade

domingo, 20 de maio de 2007

A princesa negra visitou-me.

Cat Power e cerveja.

sábado, 19 de maio de 2007

Exatamente como eu me sinto





Pyramid Song - Radiohead

I jumped in the river and what did I see?
Black-eyed angels swam with me
A moon full of stars and astral cars
All the things I used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat
There was nothing to fear and nothing to doubt

I jumped into the river
Black-eyed angels swam with me
A moon full of stars and astral cars
And all the things I used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat
There was nothing to fear and nothing to doubt

There was nothing to fear and nothing to doubt
There was nothing to fear and nothing to doubt


Eu pulei no rio e o que eu vi?
Anjos de asas negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e presente
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco

Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

Eu pulei no rio
Anjos de asas negros nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todas as figuras que eu costumava ver
Todas os meus amores estavam lá comigo
Todo o meu passado e presente
E todos nós fomos para o paraíso num pequeno barco
Não havia nada a temer e nada do que se duvidar

sexta-feira, 18 de maio de 2007

zzzzzzzz.....


Dormirei... Os sonhos eu deixo para quando acordar.

Eu lírico em dia de fúria

Eram muitos rascunhos. Eu estava atolado de rascunhos, entulhos poéticos que não me servem de nada!, eu gritei! Nada estão me escutando!, gritei na janela para metade dos vizinhos ouvirem.

Um gato fugiu. Preto, esquálido, deve ser mau agouro! Mau agouro! Pensei com meus botões. E eu estava de pijama...

Todo homem tem seu vício. O meu é de beber cervejas e escrever contos. Alcoolizo-me e ponho a beber. Cada homem, cada mulher, cada alienígena com seu fardo, com sua cruz! Converso com meus personagens(é mentira) a noite inteira, xingo minhas vozes interiores(continua mentindo...) e me faço poético como um bom fingidor que sou(parafraseando Fernando Pessoa para demonstrar erudição literária).

Onde estão os espelhos. Chega de coisas tortas(chegando na fase terminal...). Chega, vamos ser diretos. Chega de espelhos. Chega de metáforas escrotas. Queremos ser diretos. Nós os leitores clamamos por coisas mais fáceis. Chega de escritores sofredores. De palavras incompreensíveis que só os mesmos entendem. Chega de citações arrogantes, que nos fazem perder alguns minutos em buscadores enciclopédicos a procura de seu significado. Cortázar, Saramago, Pessoa... que se vão todos! Que morram entupidos com suas galhafas(esta palavra ele inventou) poético-acrobáticas.

Não grite, não gritem, é só um espasmo, eu não quis ofendê-los, quero apenas torturá-los, matá-los aos poucos com seus próprios venenos! Não me venham com músicas! Chega de artistas. O mundo está cheio deles. Façam como Kafka, rasguem tudo o que escrevi. Não há felicidade na desgraça alheia.

Cansei. É uma pena. Vou descer e comprar veneno.

E isso tudo por um chute na bunda. Agripino era mesmo um bosta-rala, como diziam seus inimigos da academia

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Isso aqui está virando um cemitério de letras... de tão pouco comentado...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Roberto e os impasses nucleares

Quando Roberto chegou em casa, encontrou uma barata voadora passeando dentro do seu quarto. Pegou o inseticida e alvejou a desgraçada no meio de uma acrobacia desengonçada sob a escrivaninha marrom. A bicha caiu, não voava mais, mas era capaz de rastejar de forma a irritar qualquer homen sapiens sapiens, teve que apelar para a vassoura e quase sentiu pena daquele bicho repugnante, tentando sobreviver às custas da fraqueza de armas nucleares. Sim, armas nucleares.

domingo, 13 de maio de 2007

Andar de Bicicleta é muito bom!

Hoje eu andei de bicicleta bêbado. Como um equilibrista eu desafiava os pedestres, quase os atropelava meio torpe, fingindo ser um fundo de uma paisagem urbana decadente. Descendo uma ladeira sem as mãos no guidão e abraçando o vento, a adrenalina, a vida. Cantando sozinho refrãos desconhecidos pela turba, eu quase atropelei um velho andarilho. Quanta falta de respeito, quanta falta de limites, de freio. Onde estão os padrões? Onde estão? Vontade de dormir cedo... Mas já é tão tarde e eu continuo com sono, apesar dos copos de água e dos pães com queijo.

Vamos dormir. Vamos. Até outro dia. Bis Bald pra você.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

De quando ela abriu a carta e resolveu lê-la até o final

Em certos dias eu detesto diálogos. Por isso ruiva hoje eu resolvi pintar, por que pintando eu me obrigo a ficar calado e meu dia é muito mais silencioso. Eu estava cansado da velha rotina, e quando eu voltei, desci na estação de metrô mais convencional, antes de tomar umas cervejas sozinho no bar de costume. Eu apagava um ou dois cigarros, como fazia com as letras e as vírgulas em meus dias de ociosidade, antes de partir para Les Ardoines com uma das mãos escondidas nos bolsos do meu casaco comprado no mercado das pulgas local.

Nessas horas eu às vezes me deparava com algum vazio criativo, não sem antes me lembrar as ruas tão cheias de miséria que assolavam a América do Sul. Decerto a miséria aparecia de maneiras mais sutis, como num metrô de dia de semana ou escondida em alguns bancos perto da estação de Gare Austerlitz, não tão vivaz quanto a humilhação dos catadores de papel e de lixo que lutavam para sobreviver na selva de pedra do centro da cidade do Rio de Janeiro mas o mecanismo primordial era essencialmente o mesmo: a exploração, o capital, o lucro.

A exclusão, o cinismo dos coniventes com parte deste sistema maldito e a depravação social com que parte deste darwinismo social era encarado eram apenas faces tímidas de um liberalismo que podia ser muito mais cruel na África ou em parte da América Central, mas que continuavam a me encher de ódio ruiva, de ódio e de vontade de construir um novo mundo. Sei que mesmo afastada de mim você estaria fazendo o mesmo, por que desde que nosso plano conjunto deu errado, eu vez ou outra achei que iria desistir de tudo por alguns momentos e projetei essa minha fraqueza em minhas falsas intuições que diziam que você foi tomar algum chá de erva na Bolívia enquanto despedia-se da face mais agressiva da luta contra este sistema maldito, mas eu estava errado, eu sinto que estava completamente equivocado e efetivamente eu usei mais sinais do que poderia para mostrar que você ainda estava viva em meu coração.

Sei que você está lutando contra este sistema maldito e inundando as pessoas e os locais que você deve estar se envolvendo com otimismo e força de vontade para mudar senão a totalidade, mas parte desse cotidiano sofrido. Pintar parte da realidade sempre foi nosso propósito, mesmo que vez outra tivéssemos recorrido à maneiras não muito convencionais de colorir o mundo, podemos dizer que nós tentamos. Fomos Chiapas, Paris no primeiro de maio, um pouco dos sindicalistas na Colômbia e dos professores de Oaxaca. Fomos um pouco de tudo. Andamos e falamos como os palestinos em noites de tristeza ou quando a lua insistia em nos perseguir éramos nós mesmos.

Sei que isso não fará sentido para muitas pessoas, mas decerto consegui remover muito da dor que é não estar ao teu lado, pensando que de alguma maneira estamos mais conectados que muitas pessoas estariam, apesar do que não físicamente.

Falamos a mesma língua, apesar de nem sempre o mesmo idioma. Somos parte de uma resistência que tímida como uma flor que nasce no asfalto prefere não se expor totalmente, mas arisca, insiste em não retroceder frente ao mundo plástico que a rodeia.

Não há muito para falar. A poesia da revolta ainda me seduz com uma excitação tão nova e contagiante, que escrever esta carta é apenas parte do processo.

Caso não nos encontremos mais, como você mesmo dizia.... Nos vemos no arco-íris da história, nos vemos no céu colorido da esperança...

quinta-feira, 3 de maio de 2007

De volta a terra de Santa Cruz

Voltei! 10 dias longe de casa! Lar doce Lar. Depois conto minhas desventuras na cidade luz. Por enquanto concedo aos leitores um pseudo-conto fresquinho.

Um bilhete para ruiva escrito no avião

Andando de bicicleta à margem do sena, costurando a praça da bastilha pelo lado oposto ao da Biblioteca Forney, comendo uma baguete perto do cemitério de Perry lachaise eu me senti vivo novamente, pulsante como uma lua ao som da velha torre Eiffel enquanto um sonho ruim da noite anterior, a noite do quarto do sótão de Vitry Sur Seine trazia você para mim ruiva, aos meus passos de caracol e ao meu cheiro de uva, de vinho de bordeaux, eu soprava seus sonhos em formato de bolhas de sabão-maduro e conseguia dentro dos bolsos do meu casaco azul, contar quantos motivos eu tinha para cansar-me de esperar você chegar naquele banco de madeira que nós costumávamos nos entregar em Montparnasse.

Mas não, eu até podia imitar alguns hermanos gênios literários da argentina(e isso eu sabia fazer muito bem até você chegar) que com isso nunca seria tão original a ponto de produzir sensações de empatia nas pessoas que resolviam não sei por que motivo, ler o amontoado de bobagens que eu chamava de poesia; em seu nome, tudo em seu nome ruiva.

Quando o avião partiu, eu vi a cidade diminuir, mas meu coração parecia cada vez maior e alguns disseram-me que você não existia, o garoto do Pub de Buzenval, o garçom embriagado dos Arcos da Lapa e até mesmo o entediante vendedor de livros de Buenos Aires. Mas ninguém convenceu-me que parece ser mais apropriado apenas espantar esses devaneios metafísicos em troca de uma noite de sono segura.

Não darei esta chance a eles nem a você, por que há um universo de coisas dentro de mim, e você é todo o elo que une este mundo interno aos frangalhos esfarrapados de realidade que eu consigo ver.

Fugir não foi um bom caminho ruiva.

Não foi um bom caminho.

terça-feira, 17 de abril de 2007

A I Carta para a Ruiva

Ruiva eu estou muito estranho. Não há mais tanto sofrimento. Inesperadamente eu passei sistemáticamente a dar conselhos e a administrar meus surtos poéticos em dias chuvosos. Estou virando um guru de final de semana eficiente. E quem vai me ajudar ruiva? Quem me ajudará? Quem vai me abraçar quando eu estiver deprimido ou quando eu resolver compartilhar sonhos? Quem ruiva? Quem vai escutar canções francesas a piano enquanto eu resolvo me perder dentro dos caminhos inconscientes que me movem?

Quem ruiva? Por que você me deixou tudo agora é mais fácil. É mais fácil entregar-me a algo ordenado. Paixão é caos. E caos é desordem. A rotina canaliza muito bem meus vazios. Ela ordena eles em séries, graus e às vezes, simplesmente não dá certo...

Não dá certo ruiva, por que eu continuo a escrever. Olhe para mim. Sim olhe para mim quando escrevo esta carta. Esta pose de auto-suficiência não dura nem cinco minutos. Apesar do que em outros períodos nem duraria dez ou doze segundos. Eu tenho boas idéias. Excelentes idéias. Faltam-me apenas argumentos para prová-las. Pois sou muito bom em sentir idéias do que própriamente prová-las.

Ruiva eu sinto medo do fim do que iniciei. Faça isso, arrume aquilo. Começar é bom, mas terminar é tão terrível. Por que as coisas terminam ruiva? Tenho dez respostas prontas para esta pergunta. E elas me confortam, mas não é demais distribuir dúvidas por aí não?

Chega de respostas. Eu estou tão concentrado ultimamente, mas tenho medo que esta concentração se dissipe e suma como você sumiu ruiva.

Quando você me disse uma vez que não havia ideal, que o ideal estava dentro de mim(eu sei que você vai dizer que não disse isto) mas de certa forma, eu sei(nós sabemos), que esta foi uma tentativa egoísta sua de me monopolizar. Agora parece que você conseguiu e armamos uma boa trégua.

Uma trégua tão insosa e perdida quanto eleger prioridades. Eu podia até tomar mais uma cerveja antes de encher isso aqui do que verdadeiramente você está esperando que eu encha, amor pútrido amor, câncer emocional, dor, fractais, cacos quebrados e queimaduras de cigarro.

Mas esta fase já passou. Sei que o tempo não é uma linha mas uma rede, e que estas idéias nem própriamente são minhas, nem são deles, nem de ninguém, mas de todos, mas o fato é que no momento sinto que tais proposições negativas não vão me convencer de que serão o caminho durante pelo menos alguns anos.

Talvez tudo seja novidade. Talvez eu esteja numa fase de aproveitar o que eu lutei muito para conseguir(não pude evitar esta frase jargão). Mas o fato é que o conflito com você só me rende poemas medianos e alguns contos medíocres.

Seja mais clara da próxima vez e aí poderemos nos agredir verbalmente ao som do velho Buckley.

Já construí minha cúpula psico-geodésica. É claro que o world trade center caiu, que o titanic afundou e que o mar Aral está morrendo, mas eu ainda acredito que símbolos são bons começos.


Afinal, atribuir significados a símbolos é a parte mais fácil. Podem me chamar de esquizofrênico, mas sinto cada vez mais a sua presença e atualmente sua paz(que eu oportunamente compartilho).

Outrem eu só via ódio e decepção, mas hoje consigo ver esperança e acordos internos. Isto é um bom sinal. Um bom sinal ruiva, que um dia lhe ofuscará de brinde.

Você é um vulcão adormecido e se eu te pedisse pra dormir durante 4 ou 5 anos, estaria mentindo para mim mesmo. A lava revigora o solo, dói, sangra, mas é da cicatriz que vem a flor.

Flor, vida, ressurgência, reação, opções plácidas no solo duro destes dias ruiva, destes dias...


sábado, 14 de abril de 2007

Recipiente vazio Recipiente cheio

Corro o risco de um plágio inconsciente, mas plagiar é copiar integralmente, e esta poesia apenas brotou do sentimento uno de tudo o que tenho lido e sentido nestes últimos meses.

Esvaziar-se é tão necessário quanto encher-se
Uma mente e um recipente cheio transbordam com facilidade
Esvaziar-se é não-pensar
Não-pensar é tão necessário quanto o pensar
Não na dualidade, mas sim na integração
É que caminhamos
Não procurando um caminho
Mas percorrendo-o
Um recipente cheio demais
É um fardo pesado
O homem que não aceita seu recipiente
Constrói jarros maiores
E carrega cada vez mais água
Caminhando com sofridão e lentidão
O homem santo ao contrário esvazia
Enche novamente
E integra-se ao mundo interior
Sem cegar-se pela realidade
Recipiente vazio e recipiente cheio
Eterno movimento
Que conduz o homem-santo
Ao caminho da paz


Este texto/poema/conto é copyleft e pode ser reproduzido integralmente desde que citada a fonte original(http://pseudocontos.blogspot.com/) e esta nota seja incluída.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Respondendo aos comentários

"Cambada de Vagabundos. A Polícia tinha mais era que descer o cacete nesses meliantes invasores. Estão pensando o que? Querem roubar na mão-grande? Ganharam foi o cacetete da PM. Parabéns a Justiça carioca que garantiu a reintegração de posse aos seus devidos donos." (anônimo)

"Em primeiro lugar eu não gosto de quem se esconde no anonimato para se expressar, usam pseudônimos ridículos. ACORDE "MR DUDEN"!! A ÉPOCA DA DITADURA JÁ ACABOU!! NÃO PRECISA MAIS SE ESCONDER!

Eu não consigo entender porque as pessoas não conseguem argumentar sem ofender os outros, sem agredir, sem injuriar. Qual é o problema? o vocabulário é pobre, não sabe argumentar dignamente? " hipócritas oficiais de justiça, juizes assassinos, promotores da miséria..." é muito fácil agredir os outros com palavras agora, não? gostaria de saber se "Mr Duden" teria tido a mesma "coragem" se estivesse diante de tais autoridades, acredito que é por esta razão que se mantém no anonimato, por pura covardia. AGORA, VEJA BEM, "Mr Duden", eu sou solidária a estas pobres pessoas, o Estado deveria cumprir o que está na nossa Constituição, mas, não cumpre, nós, como cidadões, devemos, sim, nos mobilizar para que um dos objetivos fundamentais do Estado, que é construir uma sociedade livre,justa e solidária se torne realidade, escolhendo melhor os nossos representantes... AGORA, O QUE EU LI FOI MUITO BLÁ BLÁ BLÁ. Me responda Mr Duden, o que você tem feito efetivamente para ajudar as pessoas carentes, além de ficar tentando desacreditar a Justiça, denegrir a imagem das autoridades, incentivar a violência e com isto enfraquecer a democracia, a mesma democracia que permite que o "senhor" expresse de modo tão vulgar as suas opiniões. (Verônica Lacerda)

Normalmente não perco tempo respondendo comentários. Poderia dizer que tenho mais o que fazer. Mas a resposta mais adequada é: escolho bem o que quero fazer. Pois bem, abrirei uma breve exceção.

Quanto ao primeiro comentário, está claro pelas declarações recheadas de conotações sexuais("mão grande", cacetete) que o referido sr. anônimo(anonimato -> voyeur) está repleto de couraças caracteriológicas[1] e situa-se políticamente no campo da direita ou extrema-direita e tem uma obsessão fálica latente. Aliás caro amigo, quando você cita cacetete, deve estar referindo-se a cassetete com dois "S", cacetete com "C" é uma derivação sufixal de cacete, atribuição fálica/morfológica da lingua portuguesa ao órgão sexual masculino. Confusões esclarecidas vamos ao próximo comentário que é muito mais divertido.

Primeiro Verônica, seu nome, Verônica Lacerda significa tanto para mim quanto Arnaldo Pinto, Bráulio Martins ou quaisquer nomes esdrúxulos que poderíamos inventar nos baseando em nosso amigo anônimo voyeur. E por que Mr. Durden Poulain deveria significar menos do que Verônica Lacerda? Como diz o grande personagem "V" da Graphic Novel "V de Vingança", "Atrás dessa máscara há uma idéia e idéias são a prova de balas".

A ditadura realmente já acabou, a política sim, mas serviços de inteligência ainda existem(quem me garante que seu nome não é Arnaldo Bocaiúvas, inspetor da central de inteligência de alguma delegacia federal dos rincões deste Brasil?) e enquanto houver Estado e capitalismo, haverá controle, disciplina e repressão.

Quanto à argumentação que eu utilizei no texto, o nível desta é apropriado a argumentação que os especuladores e burocratas utilizam para expropriar família de trabalhadores de suas casas: é algo bem chulo, bem baixo mesmo, sem embasamento ético nenhum. Caso eu quisesse lhe convencer de algo, preferia lhe levar pessoalmente à uma ocupação urbana, um assentamento rural de sem-terras, uma aldeia indígena espoliada por empresas capitalistas, uma favela, um gueto sul-africano, uma comunidade quilombola oprimida... fatos falam melhor do que argumentos normalmente.

Quanto a ter coragem de me expor... Bem o que eu preciso provar para você quando sei exatamente quem sou e o que quero? Talvez eu satisfaria nosso inspetor Virtual, o Arnaldo Bocaiúvas, dizendo que EU ESTAVA LÁ e fui ameaçado de prisão por me indignar com extrema e tamanha desigualdade, talvez isso o conformasse e desse algumas provas virtuais em algum futuro processo criminal(ou seria muita neurose de minha parte?), mas talvez eu pudesse dizer que eu JAMAIS ENTREI em alguma ocupação, sou uma pessoa ordeira, que apenas aperta botões nos dias de semana e volta para casa para assistir algum programa global como um imbecil controlado, apenas um blogueiro indignado de final de semana e que nunca esteve nesta tal Ocupação, que li tudo pelos relatos que me chegaram no mídia independente(http://www.midiaindependente.org) Talvez... Talvez... Afirmar qualquer coisa é perigoso nesta ditadura do capital em que vivemos...

Quanto a escolher melhores opressores, digo representantes, realmente não preciso argumentar, por que há clássicos e autores muito mais qualificados para demonstrarem a falácia da democracia representativa do que eu, Murray Bookchin, Cornelius Castoriadis, Bakunin, Proudhon, Chomsky, Malatesta, Kropotkin, etc, etc, etc.

O que eu fiz pelos carentes cara verônica é dar amor e carinho. Namoradas, amigos, amigas... Pessoas carentes precisam de carinho e amor não?

Quanto a pessoas oprimidas, as que você em sua lente classe média de respeito as instituições e ao E$tado enxerga como carentes(este verbete hipócrita e hierárquico a priori) estas estendemos um braço na luta e caminhamos lado a lado por uma sociedade sem classes, lutamos juntos, aprendemos, construímos a luta, com autonomia e liberdade ao invés de doarmos migalhas de algum almoço dominical para os "sujinhos" da praça ou divirmos um big mac sem fritas após a missa dominical com um indigente na semana santa: a atitude padrão da caridade pseudo-cristã.

Eu jamais denegri a imagem das autoridades ou desacreditei a justiça. Estas já estão degeneradas o suficiente para que eu, um simples cidadão consiga piorar seu estado pútrido! Os fatos falam por si só.

Quanto a democracia, esta é forte e VIOLENTA o suficiente quando lhe convém na hora de expulsar moradores sem-teto, "varrer" mendicantes para maquiar situações de pobreza ou exterminar os pobres em comunidades e favelas! Não precisamos incentivar algo que é inerente à própria existência do capitalismo: VIOLÊNCIA E OPRESSÃO.

Sim, esta tal democracia permite por hora que eu fale, que eu esboçe um mero sussuro controlado, vigiado... Mas a história prova que quando tais vozes de indignação tornam-se pernicivas ao poder este não mede esforços para recorrer a atitude mais utilizada pelo capitalismo quando a democracia não dá conta de reprimir os descontentes: O FASCISMO!!!

Espero ter conseguido me fazer entender.

[1] O conceito é oriundo das obras do psicanalista Wilhelm Reich.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Lilac Wine (tradução)

Jeff Buckley

Eu me perdi numa noite úmida e fresca
Entreguei-me àquela luz nebulosa
Estava hipnotizado por um estranho prazer
Embaixo de uma árvore lilás
Eu fiz vinho da árvore lilás
Pus meu coração nessa receita
Isso me faz ver o que quero ver…
E ser o que quero ser
Quando eu penso mais do que quero pensar
Faço tantas coisas que nunca deveria fazer
Bebo muito mais do que devo beber
Porque isso me leva de volta pra você...
Vinho lilás é doce e faz a cabeça, como meu amor
Vinho lilás, eu me sinto inconstante, como meu amor
Escute-me…
Eu não consigo ver claramente
Ela não está se aproximando de mim?
Vinho lilás é doce e faz a cabeça. Onde está meu amor?
Vinho lilás, eu me sinto inconstante, Onde está o meu amor? Escute-me, por que tudo é tão nebuloso?
É ela, ou eu estou ficando maluco, querida?
Vinho lilás,
Eu não me sinto pronto para o meu amor...

Seu nome é Buckley, Jeff Buckley

São poucos os artistas ou grupos musicais que me cativam em apenas uma única e deliciosa culinária áudio-musical. Eu normalmente sou avesso a pegar cds's emprestados de coisas que eu não conheço. Gosto de me aventurar sozinho, descobrir e lapidar talentos conhecidos ou não. Não suporto que me empurrem bandas ou artistas, as descubro sozinhas na maioria das vezes. E quando me emprestam algo, sou um profundo desconfiado. Escuto normalmente, o que quero, quando quero. Não adianta empurrar na maioria das vezes. Gosto de estar no controle.

Há exceções. E dentro destas, há aquele cd que você não precisa escutar mais do que duas vezes para te cativar. Isso pra mim é raro. O Echo and the Bunnymen, o Interpol e até mesmo o Sonic Youth precisaram mais do que uma sessão de cd's pra me convencer.

Digerir o quitute com calma. Mas há exceções. Há coisas que são como chocolates sonoros. Alhos semi-acústicos, ou gostamos ou detestamos. E este senhor, este senhor de sobrenome Buckley, Jeff Buckley, me convenceu a ponto de escrever um pequeno texto em sua homenagem. Sua música me convenceu. Convenceu-me como Morphine, Nirvana, Cat Power, Radiohead. Não precisei de segundas opiniões. Isso não torna algo melhor ou pior, mas cria inevitávelmente uma boa impressão. Não há nenhum problema em ter de escutar um bom cd mais do que uma vez, para se certificar internamente que sim... é isso... é este...

Há livros, discos e até pessoas que precisam ter seu momento certo para surgirem. Há coisas quentes, frias, viscosas, geladas, suaves... tudo tem seu momento, seu tempo certo. E não seria diferente com a música.

Conheci o sr. Buckley numa trilha sonora de um filme chamado "Edukators" que por sinal é um excelente filme e achei sua música razoávelmente boa nada mais, ele cantava a música Hallelujaj do grande Leonard Cohen com personalidade, mas sinceramente não me convencera a ponto de explorar mais sua discografia. Estava enganado na verdade. E no metrô hoje cedo, qiuando me lembrei do suicídio de algum anônimo na linha 2 esta semana que parou metade das estações da zona sul, eu só pude pensar que alguém que canta desta maneira, só pode ser um angustiado ou um suicida. Ou alguém com um destino trágico. Eu preferia estar errado(e o casamento da Chan Marshall com o sr. Buckley só poderia ser no além segundo a Rayssa...). Fuçando a biografia do sr. Buckley, motivado por tais sinais, entristeci-me com o afogamento prematuro dessa grande promessa.

Afogou-se trágicamente, mas sua música continua a correr como as águas do mestre Cartola, e quando isso acontece só podemos bater palmas.

Bater palmas para Buckley, Jeff Buckley(e mais palmas para a Rayssa que me emprestou o cd!).

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Laura

Ela está aqui, ela está ali
Como um processo, ela me observa
E é observada
E às vezes confundimos quais papéis assumir
Está dentro e fora ao mesmo tempo
É espelho e reflexo
É respiração e expiração
Sem perder, sem perdermos o que fomos
Ela domina e deixa ser dominada
Seu reflexo confunde-me
Ilude-me em projeções
Um cordão umbilical nos une
Um não pode viver sem outro
Mas somos um só
Só temos este corpo
E afinal
Quem foi que escreveu este poema?

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Indignação!

Tentei encontrar palavra pior que o fascismo para descrever o que fizeram com a ocupação Poeta Xynaíba, mas sinceramente não encontrei. Fascistas! Sim, fascistas é o que são! Eu os vi, li seus olhos, suas intenções, assisti seu circo dos horrores! Se a luta de classes é um conceito teórico, hoje eu a vi nua e crua! Na forma mais real! Explícita!

Repórteres da mídia oficial(e oficialesca), hipócritas oficiais de justiça, sádicos policiais, juízes assassinos, promotores não da justiça, mas da miséria! Da extrema miséria! Perpetuam, mantém, protegem um sistema assassino!

Um espaço que estava abandonado há décadas, largado pelo tempo, pela especulação imobiliária do cinismo, da ganância!! Pedra a pedra, os moradores se organizaram, criaram um centro comunitário, com aulas para as crianças, colocaram um portão, limparam e conservaram a antiga vila operária, ganharam dignidade, vida, decência!

Contudo os setores a serviço do capital e da justiça burguesa apressaram-se a defender a propriedade privada! Um batalhão de polícia inteiro mobilizado para expulsar trabalhadores, donas de casa e crianças de suas casas! Caminhões e caminhões para jogar seus pertences em algum depósito imundo da prefeitura! Balas de borracha e gás lacrimogênio para calar as vozes dos descontentes! Camburão e cassetete para o negro pobre, assim como o açoite do negro escravo! Demagogia nas bocas de quem dormirá tranquilo sob pequenas fortunas acumuladas sob a base da exploração! Falsa preocupação de uma assistência social fictícia da prefeitura! Hipócrita! Vendida!

Crianças nas ruas! Quem se importa! Para onde vão? Não tenho a mínima idéia! O abrigo da prefeitura só permite ficar seis meses! Se vire! Corra atrás! Pague um aluguel extorsivo! Dê graças a deus por estar vivo! Trator sob as casas dos descontentes! Prisão para os que não aceitam a injustiça e a maldade escondida sob os olhos do direito constitucional!

Onde está a democracia? Encolhida sob a farda de um fascista corporativo ou esmagada sob o coturno da polícia militar?

Pútrida democracia! Pútrida liberdade que nos oferecem! A liberdade de morrer sem reclamar! De ser esmagado, vilipendiado, reduzido à cinzas, tratado como animais!

Posso ler seus lábios, suas mentes e ouvir seus sussurros sem para isso me esforçar.

Favelados! Gentalha! Gentinha!

Eis a justiça! Eis o direito constitucional! Que protege o mais forte! Esmaga o mais pobre! Que só deixa vencer, quando o capital não se incomoda, quando não reclama!

Suas armas, suas viaturas, seus coronéis, seus patrocinadore$ podem nos enganar e nos torturarcom a ditadura do capital durante anos, mas nada, nada é eterno. Nada dura para sempre além do tempo. E enquanto tivermos revolta e indignação para mover nossos músculos! Saibam bem, que vocês especuladores, capitalistas, burocratas e servos do Estado JAMAIS DORMIRÃO EM PAZ! JAMAIS!!!

PAZ ENTRE NÓS E GUERRA AOS SENHORES!!!

MATEM UMA ROSA, MAS JAMAIS DETERÃO A PRIMAVERA!!!

Mais informações em: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2007/04/377901.shtml

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