sexta-feira, 30 de março de 2007

Os dias atípicos de Anatole

Onde ele foi?

Não sei merda. Eu não sei caralho!

Diz logo filha da puta!

Vai pra puta que te pariu seu bosta! Não vou dizer nunca!!! Nunca entendeu!

Uma cusparada rasgou o céu, a cara de Anatole encheu-se de ódio e saliva! Nojo! Raiva!

E Anatole! O velho Anatole! O doce e tranquilo Anatole! Jamais Brigara com Ninguém!

Que merda! Anatole imaginou-se no Tibet, na França de novo, no raio que o parta, na puta que pariu, na manifestação do passe livre. Anatole bateu. Socou, não sabe como, de que jeito, de que forma, qual o braço acertou primeiro, como derrubou o puto no chão, como socou a cara do pulha no paralelepípedo, como pensou nas coesões anafóricas enquanto esmurrava o maldito com os cotovelos, com a cabeça, com o joelho, com a raiva!!!

No primeiro momento ele tentou reagir, a camisa de Anatole rasgara-se, o cordão quebrou-se em pedaços, um soco na costela não o afetou, whatever, ele continou, continou, a raiva o dominou, não era mais Anatole lá, estava na lua, era algúem, algo superior ou inferior, que socava não com os punhos, mas com o passado.

Não batia para provocar a dor. Batia para tornar aquele pedaço de vida um algo inanimado, um pedaço de carne no chão. Lembrou de algumas parábolas. Parafraseou um jesus histórico indecente, enquanto tentavam lhe segurar. Não tinha mais vida ali. Eram só ossos, sangue, cartilagens e mentiras.

A poça de sangue tomara o lugar. O pedaço de granito manchado de vida rolou, as garrafas de cerveja caíram e quebraram com um tempero de sangue.

Me soltem! Me soltem!

O bar parou. O pequeno mundo de Anatole parou. O lugar esvaziou-se de atenção. Pela primeira vez, Anatole tinha toda a atenção. Ele pegou sua mochila. Olhou a todos. Seu lábio sangrava. Sua camisa estava rasgada e seus joelhos sujos. O corpo do maldito jazia no chão, olhos abertos, roxo, muito roxo, sangue espalhado nas pedras portugesas.

Anatole engoliu a cerveja com raiva. Bateu o copo na mesa. E partiu.

Precisava encontrar Vasilli.

sábado, 24 de março de 2007

Apertando os parafusos

Minha vida frouxa
Que frouxa, como desliza, corre
Não aperta, não se estabiliza, não conduz
Apenas seduz
Apenas reduz
Deitado o novo
Clareia um bom dia
Estapeia um alento
Enforca um talento
Só na medida do contrário
Do desespero agregário
Empurra os formosos passos
Ao empuxo das cores
Das dores
Das flores

Bêbados

Ao estar bêbado, somos poéticos. Então, lembrarei de Vasilli e de Laura, ainda ruiva de metáforas e envergonhada por não saber qual ônibus tomar nestas noites tão perfeitamentes meio-totalmente outonos.

Carpe diem e Bis Bald meus caros.

sexta-feira, 23 de março de 2007

As pazes de Terturiano

Terturiano cortava cenouras.
E resolveu cortar Márcia um dia
A delegacia de mulheres não gostou
E resolveram cortar Terturiano da sociedade
Jogaram-lhe numa cela, com dezesseis Terturianos
Para cinco metros quadrados
Enquanto o juiz resolvia quem iria cortar desta vez

Numa briga na penitenciária
Cortaram Terturiano com quatro iguais facas opostas.
E cortaram Terturiano em nove pedaços indefectíveis.
Márcia, no canal onze, assistiu a rebelião com suas quatorze cicatrizes.
E acendeu seis velas de sete dias para agradecer os cinco palmos de terra rasa
Que deus no nono dia de descanso lhe reservou

quarta-feira, 21 de março de 2007

Recuperando rascunhos antigos...

Acordei meio indisposto. Peguei o telefone e tentei falar com Laura, mas como de costume ela não atendia pela manhã. Ela precisava escutar o sonho que eu tive, eu sabia que não ia ter a surpresa desagradável de encontrar Vasilli atendendo o telefone, por que às quartas-feiras ele estava sempre mais preocupado em encontrar alguma utilidade para seus empreendimentos solitários.

Não havia mais fé. Havia o fluxo. As coisas, caminhando.

sábado, 17 de março de 2007

Da porca de barro que guardava idéias

Simplesmente fenomenal. A chuva, que bela chuva! Fenomenal. Eu andei, olhei para as calçadas portuguesas, digo pedrinhas portuguesas, construídas sob suor, sob o sol, mas o sol ali não estava, talvez a lua, mas o sol... quem dirá, o sol.

Quando eu precisava conversar ela sempre aparecia. Quando nada mais me dava atenção, um brilho surgia, um caos dançava dentro de mim e eu conseguia olhar no reflexo do espelho, enquanto escutava a voz, as vozes, encerrarem ritos.

Reclamavam da vida, o vagão-trator-vagão, petrificava os problemas, engessava e reduzia os transeuntes a um pó de vida-morte, morte-vida-pó, um quê de cousas sem identificação, que no final das contas, eram puros backgrounds, efeitos. Quando me perguntavam como eu encarava a dor, eu respondia que escrevia contos e bebia cervejas. Ninguém entendia. Achavam-me idiota ou sarcástico, talvez seja uma defesa que eu assumi. Alguns começavam a rir ou permaneciam calados em tom de respeito.

Mas o inconsciente fazia planos. E eu os desconhecia. Queria conversar, mas era difícil, conselhos eram desnecessários; só queria ser escutado(ela sussurrava que tudo era um devir... até mesmo ela). Ninguém entendia Laura.

Eu escrevia sobre e para ela. Ela também escrevia, mas era difícil conviver com as dúvidas que as pessoas encaminhavam sobre seu comportamento, sobre meu comportamento.

Foi num dia de verão que eu resolvi comprar uma porca de barro, estava alegre, juntaria não dinheiro, como a maioria, mas juntaria idéias. Cada momento de lucidez e de loucura, seria uma idéia colocada na porca. Poemas, contos, haikais, teorias, cartas de amor com destinatário ou sem destinatário, crônicas, catarses, fotografias dobradas, tudo seria colocado na porca de barro. Uma grande porca marrom(ou seria laranja...), vendida nos sinais, era a porca das idéias. Depois quebraria tudo e veria o que restou.

Pensei em quebrá-la várias vezes. Mas em todos os momentos ela me olhou e pediu clemência de uma maneira tão estática, que eu a poupei.

Laura me provocava. Dizia que eu não teria coragem, que eu me apeguei. Que a porca era um totem e totens não podiam ser destruídos, matem o séquito, mas os totens vivem, re-vivem.

Ela brincava de um jogo esquisito comigo, era uma provocação explícita. "A porca ou eu", dizia em momentos de raiva. Tudo para me testar. Cofre de sonhos. Isto era o que era a porca. Meu cofre de sonhos.

Laura quase atirara a porca mas eu a detive e neste dia, nos beijamos tão intensamente, que a porca repousou sobre o edredon da cama tão plácidamente, que quando abri meus olhos a vi de olhos abertos dizendo: "obrigado. obrigado".

Deixe-me falar sobre alguns dias específicos. A porca entrara em meus sonhos dizendo que teria de falar por metáforas durante anos, toda uma vida, pois quem guarda segredos, mesmo que inofensivos ou desejos, é um escravo. Um verdadeiro escravo. E escravos mandam pombos ou porcas-correio ao invés de se exporem. Por que a exposição traz alguns pedaços de morte.

E a porca não queria morrer.

A capacidade de criação aumentava. As coisas tornavam-se extremamente cíclicas e aí resolvi encontrar Justine, Justine, era doce, tinha seus próprios problemas. Seu problema chamava-se Nicolas. Era seu edema pessoal.

Nos encontramos no bar, eu e Justine. Resolvi falar do sumiço de Laura e ela do aparecimento de Nicolas. O papo teve alguns eixos temáticos, mas básicamente era o clássico "minha vida é irônica, deus joga dados e eu fumei Haxixe semana passada com um casal de argentinos". Eu só falei da porca e de Laura. Justine achou engraçado, por que ela movia os olhos e o cigarro de forma característica, então eu já sabia que ela iria sorrir depois desse padrão frenético de ironia.

Ela olhou nos meus olhos e perguntou como estava. Eu disse que não muito bem, e ela tragou mais um pouco do cigarro, antes de me fazer um cafuné-placebo e eu com aquela cara de tédio tradicional, que me impelia a esperar os primeiros passos.

Conversamos sobre livros que já tínhamos lidos, frases clichês e derrotas, parecia que Justine por um momento poderia ser uma boa companheira de final de semana, mas havia alguma barreira metafísica, que nos dizia mútuamente, que o maior contato que teríamos era o de contar frustrações e desenhar balões de tristeza no alto de algum morro.

-Tenho medo que você se suicide, ela falou.

-Não vou me suicidar. De onde tirou essa idéia?

-Ela veio falar comigo. Disse que você está estranho últimamente.

-Deve ser a porca, eu respondi, se é por ela... saiba que...

Ela me interrompeu. Disse que eu não podia mais ter este tipo de atitude.

-Como assim Justine?

-Simples. Você já superou todos os padrões. Já não é um há muito tempo. Não chega a ser um übermensch mas sobreviveu e eu te admiro por isso seu filho da puta.

-Prossiga.

-Caso você se mate, vai jogar parte da merda onde ela tem que ficar: na merda. Contudo você é um puto transgressor. E eu acredito na essência disso, seu grande filho da puta. Você vai assistir sua própria decadência. É homem o suficiente para isto.

-Você é uma merda de um exemplo. Um exemplo ruim. Tem de se manter vivo. A decadência, a derrota, deve se refletir. Você sabe disto.

-Sim, eu sei. Mas não tenho vocação de mártir. E todo suicida é um egoísta. No fundo é o ego, o eu, que manda e diz: "filho da puta, não sofra mais por eles". O altruísta, como disse Stirner, como disse o filho da puta de bigode grande, é o pior dos egoístas.

Ela sorriu, foi uma piada desigual, fora de foco, de hora. E eu já havia me cansado daquilo tudo.

-Responda-me, sem hesitação... Quantas pessoas lêem o que você escreve, ela me perguntou.

-Hum... Seis, em dias bons.

-E quantas se importam?

-Talvez nenhuma.

-E a importância não vem da perda? Da maldita perda?

-Pense?! É um belo prato de macarrão. É tentador viver na morte não? É o que fazem os malditos, os tuberculosos e os suicidas.

Uma longa pausa ocorreu. Eu bebi minha cerveja e olhei para o vazio. Justine sorriu e começou a falar de futilidades, do livro do Korczak, da pedagogia, das aulas de alemão, e eu esqueci que tudo aquilo poderia não ser real.

Aí eu entornei meu copo de cerveja, fechei meu casaco de flanela, me lembrei dos edemas provocados pela bebida e resolvi voltar pra casa. Justine me acompanhou, por que acreditava que cantar "las barricadas" durante o caminho do bar à minha casa poderia me ajudar a não morrer naquele dia.

Mal sabia que eu já estava morto. A porca sobrevivera, mas eu... eu era um triste pedaço de morte.

Este texto pode ser reproduzido para fins-não comerciais, desde que citada a fonte original(http://pseudocontos.blogspot.com/) e esta nota incluída.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Alegria

Cartola

Composição: Cartola

Alegria,
Era o que faltava em mim,
Uma esperança vaga,
Eu já encontrei,
Pelos carinhos que me faz,
Me deixa em paz,
Não te quero ver,
Para nunca mais.

Eu sei,
Que teus beijos e abraços,
Tudo isso não passa,
De pura hipocrisia,
Já que tu não és sincera,
Eu vou te abandonar,
Um dia.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Considerações

Então já que aconteceu toda esta confusão sobre posts copiados, mas que na verdade não foram copiados, não foram devidamente citados... eu vou falar sobre copyleft e a questão da informação na internet, da degradação, num próximo post(eu prometo).

É bom, por que a internet é um mar de coisas não-confiáveis. Posso escrever um texto e assinar com qualquer nome, difundí-lo por email e assistir a confusão por camarote. Isso pode ser extremamente positivo para desestabilizar determinados jornalistas mal intencionados ou regimes de manipulação de massa, mas muitas coisas ruins surgem destas questões também.

É uma faca de dois gumes.

Este texto é livre de ser reproduzido para fins não-comerciais, desde que citada a fonte original e esta nota seja incluída.

copyleft

Breves histórias

Vasilli em seu jogo de cartas semanal, no truco filosófico que mantinha com Anatole, e impreterívelmente Laura costumava aparecer, não para ganhar, mas para fazer com que
alguma graça surgisse além da praticidade mórbida daquele ritual de fim de semana, costumava digitar oralmente algumas histórias(ou seriam estórias) interessantes, que faziam Anatole revisar o que era realmente mais importante; aprender Fitche ou Shopenhauer ou viver intensamente relações sociais.

Vasilli sempre assobiava e completava com uns trocos de música, quando uma rodada estava a seu favor, versos batidos, "alegria era o que faltava em mim", assobiava Cartola em tom de sarcasmo, era um recado para Anatole. Uma crítica clara, direta. Como era vil quando conseguia. Ele sempre fazia algo do tipo, percebia que Anatole costumava abaixar as sombrancelhas em tom de protesto, perder não era um bom negócio claro, e o que era um jogo transmutava-se numa batalha campal de filosofia e sarcasmo; Anatole sempre encerrara tais situações com olhares deprimidos ou comentários polêmicos sobre algum livro que Vasilli celebrara.

Bati!, gritou Vasilli... Hahá! Par de ases!

Anatole, recolheu as cartas, e embaralhou mecânicamente os valetes, os reis e as damas, enquanto Laura, movia-se frenéticamente até a geladeira, daquele cômodo sujo, um carpete marrom que negava a modernidade, tufos de cabelo e pedaços de papel no chão constrastavam com a louça suja, um macarrão a alho e óleo que Vasilli tão hipócritamente cozinhara para todos.

Era a raiva que o dominava...

Bebeu o copo de contini com força. E na ausência de Laura, que se jogara no colchão rasgado e sujo ao lado da garrafa de vodka que na sua metade, desafiava os que ali estavam a assassinar aquele indecente caminho para as portas da percepção, continuou a embaralhar as cartas. Vasilli, segurou suas mãos e disse: "acabou companheiro. acabou."

Olhou nos seus olhos e disse: "O homem sagrado não compete, por isso ninguém pode competir com ele".

Anatole, esperava mais. Mais as rosas não falam. E as de plástico, emolduradas, entorpecidas pelo ambiente, aquela luz, aquela lâmpada de 60 watts, que iluminava pendurada num bocal sinuoso e problemático, traduziam a noite.

Laura, doce laura, perfume que dominava o ambiente, de bruços, com sua calça jeans negra, seu tênis amarelado, do brechó de algum jardim, de algum pseudo-jardim, da lapa, dos arcos, de santa teresa, de algum convento, de alguma igreja do subúrbio, eram tantas versões, que exalavam todo o perfume doce de Laura. Seus cabelos curtos, olhos de amêndoa, moderna e tão ultrapassada, assim era Laura, enquanto o caos rodopiava sob seus olhos, ela simplesmente dormia.

O que você disse?

Que acabou.

Acenou com a cabeça. Despejou o baralho sobre a toalha de mesa e incitou Vasilli a ficar bêbado naquela noite: "outra cerveja Gaijin."

Vasilli foi submisso a idéia.

Enquanto tirava a chapinha com um pedaço improvisado de faca, que usava como abridor, a porta anunciava algum viajante. Batiam na porta com virulência, violência. Vasilli sorriu, transparecia uma felicidade mórbida, o coração de Anatole preocupou-se com a semi-automática dentro da gaveta, quando Vasilli trouxera os pacotes de alho; emudeceu, tomou mais contini e preocupou-se com aquele momento.

Vasilli caminhou até a porta com um casco nas mãos e abriu a porta sem nenhum pudor. Apenas a cerveja e o sarcasmo eram suas armas naquele momento. Era o fim da noite.

O sr. Fitche chegara, não em pessoa, mas em idéias. Pizza.

Comeram pizza de mussarela, e falaram da morte de animais, abatedouros e dormiram como pedras pomes até o sumiço do russo.

Dia eventual, que deixou Anatole, finalmente sozinho com Laura.

Mas isso é uma outra questão.




sábado, 10 de março de 2007

Da salvação da ruiva


Quando ele se decidiu a participar do jogo não imaginava que tantas coisas ruins poderiam acontecer. Tudo era simples, precisávamos de apenas cinco minutos para entrar e sair, apontar as pistolas para o lugar certo, cada jogador no seu lugar, cada peão movendo-se como combinado, cada comprador assustado no seu exato lugar, os móveis, a mobília, as malditas jóias, o dinheiro, não ferir funcionários, fora o combinado, fuder o patrão era um bônus game, mas a intenção era simplesmente mudar as coisas de lugar, não destruir pessoas, pessoas não estavam na lista. O plano era abalar posições, não ferir pessoas.

Suas mãos tremiam. Acendeu um cigarro, apoiou-o no cinzeiro, e desengatilhou sua clock, tirando o pente, recolocou, apertou a pistola na cintura e fez sentir-se patético por ainda precisar estar usando este tipo de ferramenta. Era como um violino. Mas sempre há um dia ruim. Ele nunca confiou na sorte. Coincidências, azares cotidianos acontecem ora bolas, nos viramos com o fato, não com as possibilidades anteriores; o que vale é o a posteriori, o a priori é merda, é adubo metafísico, meditou.

Ele era um defensor da propriedade privada, mas deus, maldito deus, eu nunca me insurgi contra a humanidade, uma longa discussão sobre o pacifismo de Gandhi me levara a xingar Anatole em francês durante vinte segundos, mas isto era diferente, eram posições a serem quebradas, retorcidas. Ele tombou por defendê-la, sussurrava como autoconfiança.

Tudo caminhava bem, a ruiva dava conta do serviço, e era mais enérgica do que precisaríamos ser, sua frieza contrastava com o reluzente brilho das jóias, espalhadas no balcão, era simples, enchíamos os sacos, obrigávamos o gerente a mostrar a grana, não éramos sádicos, simplesmente acontecia naturalmente, o curso nos guiava, embalávamos o dinheiro, íamos embora de van, deixávamos tickets, provas falsas, e outras miscelâneas para trás. A comemoração vinha depois. O destino da grana era escolhido em futuras reuniões, nove dias após os eventos. Sempre em 9 dias, em horários determinados. Não havia muitas regras, mas as que existiam bastavam. Mas desta vez era diferente, era preciso uma exceção. Era preciso que todos nós nos encontremos antes do previsto.

Quando ele tentou acertar a ruiva, eu o matei, tive que fazer, e fiz com uma certa dose de raiva misturada a satisfação de não vê-la estirada naquele carpete vermelho. Maldito segurança. E se voltasse atrás faria novamente. Está feito. Era uma deriva perigosa.

Pensou em ligar para ela, mas era inútil, saberia que a ruiva não atenderia, estaria mais preocupada em raciocinar sobre o fato e acumular axiomas para o próximo encontro.

Não tento mais reagir à dor. Chorou um pouco, não talvez pelo segurança abatido, mas pelo que ele representava dento do jogo contraditório do maldito sistema de controle.

Socialismo ou barbárie comentou a si mesmo, reproduzindo talvez algum muro pichado de 1968.

Aliás pixar é com X ou com Ch? Não importa.

E ainda estamos na barbárie. Raciocinou, antes de abrir a geladeira e emendar umas três cervejas em tom de revolta: onde está a conjuntura? Aqui está. Eu a criei. É bom que o mundo se entenda.

Não leu Kurz naquele dia.


terça-feira, 6 de março de 2007

pseudocoitos

Pule, coma isso. Não há sentido. Sem tido. Sem haver alho. Algo eu quis

dizer. Sem sódio. Ou lítio ou você. Bugalhos, sem ódios, não fazem

parnasianísticos rimadores de academia.

Ia. Eu ia sem ir. Eu ia sem mia, sem ria, pensei não sendo, o zacarias,

não vinha, tantas vinhas, uvas tangerínicamente trangênicas.

Pátios proto-físicos.

Sonhos, som, herdando sonhos e felicidade.

Bela poesia. Bela.

Do teste de amor

E usam a internet para isso?

- Usam é verdade. Virtual.

Porra, é virtual. Comentários não enchem a alma.

Entschuldigung!

Saúde.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Da série: ficção e realidade

O método era científico. Consistia em apertar alguns parafusos emocionais, beber meia dúzia de cervejas e esperar que ela chegasse. Uma película amarelada, o ônibus cruzava a avenida Brasil, antes, porém, tudo fora muito mais real.

Domingo. Nunca imaginei que poderia ver ruas tão vazias. Ruas cariocas vazias. Tudo bem que da Lapa à cinelândia era apenas uma questão de puro pragmatismo, alguns passos fortes e eu podia ver a estação de metrô fechada; lembrei-me do consulado americano, das passeatas, e de mais alguma coisa que não me recordo. Apertei o passo, cruzei umas ruas até o largo da carioca, os prédios cinzas estavam bonitos, não havia ninguém; ninguém mesmo, além de uma cabine distante da polícia militar e o clássico ponteiro do relógio, histórico do largo da carioca. Senti-me um personagem vivo, de algum conto do ano passado, antes de entrar na rua da carioca. Passei em frente a um caixa eletrônico e as idéias insurrecionistas me acometeram de coragem, mas que cidade, que cidade, seguranças discretos, eram os olhares, e não estávamos ainda sob as asas do "grande irmão". Minha mente ocidental, repleta de vícios, e eu ainda estava galgando estágios, me descondicionando, quando eu olhei para o belo eclipse lunar da noite anterior. De tão simples, o caminho, o curso revelou-me minha própria natureza. Uma árvore no quintal me deu explicações bem melhores do que meus sete ou nove livros de psicologia em cima da estante.

Horas antes, eu passava no Museu de Arte moderna, no Flamengo, com um amigo meu, bons papos, apesar de curtos, não assisti os filmes neo-realistas, mas consegui voltar e olhar para aquela fonte de água, era o curso/caminho se revelando novamente, tão suscinto, sempre esteve aqui, e acolá, como se desejasse me surpreender. Eu tentei escrever durante toda semana, mas me senti vigiado, observado. A tecnologia eliminou toda privacidade. Tudo tem de ser compartilhado, vigiado. Talvez seja o momento de colocar o velho plano da reclusão em prática. Do desapego, da transitoriedade. Podendo entender o vazio, o cheio, esta independência se revela muito mais confortante. As respostas que eu não encontrei na ação, mas na não-ação. Um amigo para cada fase. Eu estou muito inclinado a tomar medidas radicais, mas sempre pensei no equilíbrio como uma forma polida de comunicar-me com o mundo e dizer "está tudo bem". É pura política no final das contas. Da última vez que senti sua presença, ela me encheu de medo. Eu escrevia, e ela me olhava no fundo do quarto(a parede da esquerda ainda não era verde). Eu pirei naquele dia.

Que me mandasse mensagens pelos sonhos; assim era assustador demais. Comecei a sentir medo, quando pensei na possibilidade de poder enjoar em transformar minha própria vida em letras, contos, letras. Os desastres não chegavam, e não dava a possibilidade de argumentar, embasar boa parte de toda a figuração dramática que eu tão bem encenava. Eu não conseguia mais compartilhar a indefinição com ninguém. O caminho tornou-se muito complexo, a ponto, de eu desistir sistemáticamente a me expor sempre que assim a vontade me toma. É um caminho inverso. A introversão virou extroversão e agora reclama sua natureza novamente, está voltando. Efeito bumerangue, em breve, terei de resolver todos os problemas internos completamente só, a estrada é uma preparação. É bom se preparar garoto. Quando Laura chegar, ela vai pedir o que lhe é devido. E é bom estar preparado. Você fala muito no passado, ouvi ela me dizer, chegarei nos seus sonhos, por que apesar de irreal, eu estou mais presente do que todas já estiveram. Você pode fazer sexo de olhos fechados e acender um cigarro num sábado a noite, mas saiba que quando eu lhe domino, nem seus dedos conseguem saber exatamente o caminho a tomar. Amanhã conversamos melhor.

Tá bem. Apesar de incompleto e prematuro. Estava tudo bem... tudo bem..

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Sobre o caminho

CAPÍTULO 63 (excertos do Tao Te Ching)

Ação através da não-ação
Atividade através da não-atividade
Sabor através do não-sabor
Grande como pequeno, muito como pouco
Retribuir injustiça através da Virtude
Planejar o difícil a partir do fácil
Realizar o grande a partir do pequeno
Sob o céu
A difícil atividade se realiza certamente a partir da fácil
A grande atividade se realiza certamente a partir da pequena
Promessas levianas certamente carecem de confiança
Excesso de facilidades certamente traz excesso de dificuldades
Sendo assim,
O Homem Sagrado assemelha-se ao difícil
E, por isso, até o fim, não tem dificuldades

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Processos oníricos?

Não estou conseguindo me lembrar muito bem dos meus sonhos e isto certamente me entristece muito(adotei um tom dramático no final para aproveitar este trecho nos textos pós-modernos anatolianos-vasilianos). Além disso, não sei se há alguma relação, mas estou acordando enjoado há algumas semanas(deve ser a maldita rinite, capiti). Pode ser psicosomático também, mas eu duvido muito, pois isto seria um tanto quanto melodramático. A madrugada é que insiste em me manter acordado, enquanto as aulas não começam... E eu tento ocupar minha mente com a idéia de um emprego. Teóricamente, não estou produzindo nada. Apenas lendo o Zaratrusta e saboreando de vez em quando a história dos Incas, dos Siouxes e de outras questões indígenas. Ah, lendo Jung também. Quero dizer, fuçando os Jungianos. Por falar nisso, fiz uma camisa do Nietzsche engraçadinha. E por falar nisso também, devo dizer que o cara nem é isso tudo que pensam. Um banho gelado deve resolver a situação, enquanto os processos oníricos não chegam ao consciente.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Momento do vício pequeno-burguês

É impressionante como conseguimos tanta lucidez depois de alguns copos de vodka, contini e sex on the beach. Cervejas no posto não contam, mas fazem a cabeça doer.

De quando ele escreveu bêbado

Não há resistência, há resistentes; como problemas ignóbeis, problemas. Cervejas estragadas. Cervejas sem ritmo, sem vida. E eu posso talvez, lembrar-me das mesóclises, das tentativas vãs. das tentativas gramáticas. das esgrogues possibilidades dso protozoários literários. Das ist.

É isto Vasilli vazio. Mas eu sou um crepe. Eu sou um crepe. E que inferno estou fazendo aqui. Eu não quero estar durante muito tempo aqui.

E talvez. E durante um talvez perfeito. Um perfeito, tchau, uma onomatopéia espúria, eu consiga dizer duas palavras com sentido. duas. Apesar de preferir o nove. Nove razões. Nove metáforas.

Duas. Eu chutei. Escolhi. Escolhi. E não me culpem por isso. Eu queria gritar "a projeção do meu pavor apareceu" como meu grande amigo, mas eu faço alguns barulhos e isso é bom. Grandes crises.

Uma doença perfeita. Perfeita.

Desculpe-me; é tudo pra você. Negros cabelos. É tudo para você. Saboreie. Não importa o depois. Sei que fracassei e não fui tão possívelmente sincero; perdi, admito. E é você que verá isto.

Talvez não entenda. E talvez continue não entender. A escolha é sua não minha. Eu já perdi. Eu me fudi com o Anatole e o Vasilli. Eu perdi toda graça. Eu fui ao nirvana sem buda.

Não ache que são lágrimas. São lágrimas.

A verdade só vem com o tempo e com a sinceridade. Sei que errei(e ainda posso errar) e todo ser humano erra, você acha que não é você, mais é. Acha que eu sou algo que eu não fui. Sintético. Garoto sintético. Não sou. Melhor do que isto, só nesta prática sem nobreza da vida.

Te espero. Apesar do que, acho que não olharás mais pra mim. Desejo-te um momento. Olho no olho e te dizer o que penso. Contudo sei que pensarás ser uma armadilha.

Não tenho vocação para maquiavel.

Laura e você são muito parecidas.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

De quando o carnaval começou

Uma cerveja e uma caminhada pelo centro. O bloco passa, a vida passa. Eu leio Buda, Zaratrusta e escuto Velvet Ünderground enquanto sinto o gosto do carnaval passar.
Tempo o suficiente para tomar decisões. Trabalhar com os fatos, não com o futuro ou o presente.
Sofrimento é inevitável diz Buda. Precisamos do übermensch, entoa Zaratrusta(música do uma Odisséia ao espaço segundo meu pai), precisamos da iluminação responde Buda. Dharma. Essência, dharma.
Dualismos a parte, um belo horizonte, um gosto de sal na boca e uma maresia que resseca as mãos e um pouco do espírito, diga-se de passagem.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

De quando ele quebrou a cabeça

Estávamos lá, sentados lado a lado, enquanto eu a olhava meio cabisbaixo. Não. Eu não, em algum momento pensei em fechar os olhos enquanto recitava o tao te ching em tom de deboche. Ela estava lá. Eu não cheirei sua beleza. Não. Não a provoquei como de costume, por que isto seria fácil, seria fácil como ler sua face estampada de decisão. Ela me disse estar confusa e eu jurei expor isto aqui. Na verdade não jurei nada, apenas me pareceu mais nobre, escrever algo que eu não entendia ao invés de pensar. Eu não sei quem eu seria, se Vasilli, se Anatole ou se eu seria o autor dos dois. Brincar de deus, de criatura era tão fácil quando se conseguia dominar tais frágeis letras...

Ficar confuso era mais frágil ainda. Eu lembrei da menina do saxofone, que supostamente iria me acompanhar até me curar, não falo de amor eterno, esta inverdade eu fiz questão de abandonar há alguns anos atrás. Minha cabeça estava sangrando. Eu tropecei durante segundos o suficiente para me esforçar em procurar uma sutura bem dada e o médico repetiu, "tome mais cuidado, você ainda tem toda uma vida pela frente".

Eu jurei repensar e aceitar o amor temporário, que existe tempo o suficiente pra acabar, e também não podia aceitar o véu e a grinalda fictícia, que desmancham durante anos sob a hipócrita farsa da monogamia moderna. Contudo, meu coração pedia clemência, vida, clemência. Fiz questão de frisar a clemência no hospital: "Não tem clemência doutor? Que rasgo enorme na cabeça e o sr. me trata como se eu fosse um acidentado comum..., Não tem vergonha?"

Por que falar de sua beleza? Ela era linda, perfeitamente linda. E era isto que me cansava. Cansava-me, desgastava frágeis ossos de indecisão, conturbava percepções, fazia do criador, doce criatura e da criatura, doce criador.

Eu remendei o passado. Este era bom. Bom o suficiente para fornecer-me material fresco para meia-dúzia de contos. Meu passado era um tratamento inacabado, que funcionava.

Enquanto a enfermeira pegava o algodão, eu olhei para os Arcos da Lapa, onde eu deixei parte do meu sangue lá, na rua Riachuelo, na parte onde eu olhava para as pessoas ao meu redor, onde tinha ido procurar Laura, pois esta óbviamente não achou meu sangue engraçado, e encaminhou-me ao furgão do doutor paramédico gentileza.

Laura me olhou com ódio, um ódio seletivo é verdade, mas que transparecia uma certa verdade de seu coração vermelho. Eu a olhei com a carência propícia que a situação exigia, enquanto a enfermeira preparava a injeção com olhares de "talvez estejam discutindo a relação".

Mas não havia relação. Ela era um fantasma. Uma acompanhante perdida. Nenhuma me amou, pensei com os lábios, mas isto era tão loser, tão perdedor, tão fatídicamente esgrogue, que eu fiz uma careta e comecei a rir, cantando uma música equatoriana que um velho amigo me ensinara em sete noites atrás. Ela sorriu, passou as mãos sobre parte da minha nuca que não estava dominada pelas hemáceas e disse um tchau tão delicioso, seguido de um beijo estalado no rosto, que eu aceitei toda a situação, apesar do choque inicial.

Peguei o metrô, tentando esconder as gazes, mas era tarde demais. As feridas estavam aí, expostas.

Pensei nela novamente e com uma das mãos escoradas no ferro do vagão, olhei para o maracanã e tive a impressão que a vida era um jogo. E eu ainda estava na segunda divisão.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Mastigando letras / Resenhas

O Jogo da Amarelinha / Julio Cortázar

SOBRE O AUTOR

Nasceu por acaso em Bruxelas, em 1914. De pais argentinos, voltou à Argentina aos quatro anos de idade. Formou-se professor e lecionou em algumas cidades do interior do país, inclusive na Universidade de Cuyo, mas renunciou ao cargo quando Perón assumiu a presidência. Em 1951, Cortázar partiu para Paris (França), onde trabalhou como tradutor da Unesco e viveu até a sua morte, por leucemia, em 1984. A influência do existencialismo em sua obra é nítida, Cortázar inspirou um grande número de cineastas, entre eles o italiano Michelangelo Antonioni, cujo longa-metragem Blow-up foi baseado no conto As Babas do Diabo (do livro As Armas Secretas).

SOBRE O LIVRO

Devo afirmar que este grande clássico contemporâneo fora a peça de quebra-cabeça que faltara na minha parca literatura. A primeira coisa que eu pensei após ler Cortázar foi: "como eu não o conheci antes?" Uma sensação estupefata que faz total sentido. Cortázar é um verdadeiro craque, um camisa 10, um maradona das letras que domina a gramática como ninguém, brinca com ela subverte-a, aguça e instiga o leitor, convida-o para a partida e sabe exatamente o que faz. Talvez pela sua genialidade, padeça do defeito que todos os grandes craques da bola ou das letras possuem, em alguns momentos é marrento, abusado!, no melhor sentido que a palavra possa ter, diga-se de passagem. Seus personagens são densos, o livro, um verdadeiro clássico universal, um fla-flu das letras, tem uma dinâmica estritamente particular, que me lembrou dos livros-jogos produzidos por editoras de RPG(e digamos que me roubou idéias que eu nem mereci ter...). A estética de Cortázar é pós-moderna, flexível, fluida, seus personagens chegam a nós como irreversíveis tsunamis existenciais. Suas firulas são densas, seus dribles desconcertantes, o que poderia transparecer uma arrogância que ele talvez não possua. O fato é que o homem joga com as letras, faz delas o que bem quer e com muita, muita qualidade. Um clássico universal. Genial.

Letras Mastigadas - 2007

1- O jogo da Amarelinha / Julio Cortázar

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Dos Metafísicos Triângulos Amorosos

O quarto fedia a incenso barato. Anatole chegara às três e meia da manhã, com o maço de cigarros amassados no bolso, enquanto ouvia a vizinha entoar um Guantanamera sofrível que lhe dava vontade de espancar a velha do quarto 18 para talvez incentivar a cubana sofrida a abandonar a carreira amadora de cantora de cortiço 153. Claro, eram só elucubrações, Anatole era o homem das idéias, Vasilli o homem da ação, este sempre citava sua coragem em tom de ridicularização, o que não agradava decerto Anatole, mas o fazia queixar-se consigo mesmo dentro de sua posição no tabuleiro do jogo. Mastigava amendoins vendidos por um peruano insistente, enquanto imaginava Vasilli esbaldar-se com Laura durante toda a noite, este Anatole, um perdedor necrofágico, imaginava Laura, lassiva e potente com seus cabelos vermelhos metamorfoseados pelo seu humor tão brilhante, rolando como dados na noite, envolver o velho Vasilli, digo Anatole, digo Vasilli, num balé de auto-destruição e vontade orgástica. Quantas vezes assistiu Vasilli lubridiá-la em troco de trocos metafísicos. O puto escrevia e falava com o estômago, por que Anatole nunca reparara que Laura era o ácido clorídrico que faltava neste monólogo profano e vazio, que enciumava-o pelo fato dela ser uma deliciosa amante... uma amante metafísica é verdade... mas era uma deliciosa visão, enxergar aquela mulher dançar, dançar, dançar em torno de joelhos lassivos, olhares perniciosos que faziam os marmanjos de bar(mesmo acompanhados) ensaiarem olhadelas fugazes em torno de propagandas invisíveis, só para compartilharem(não tão bem quanto ele compartilhava diga-se de passagem) um pouco daquela sacro-santa beleza.

Uma beleza culpada.

Uma beleza que não armava-se na mera artificialidade dos anéis do destino, era simplesmente uma aura de lassividade e luxúria vermelha que contaminava os ambientes... Vasilli era um fraco, um perdedor nato para o joguete competitivo do mundinho reduzido dos "homens de bem", dos filhos da puta bem sucedidos, dos "escolhidos", "the chosen one', etecetera, etecetera, etecetera.

Entretanto lá estava o puto, divagando em russo seus sonhos, alimentando Laura com espasmos de sinceridade que acompanhavam fragmentos perdidos. Emoldurava frases de Baudelaire em polonês ou alemão, isso fazia Laura impressionar-se, momentâneamente(que sacana! ele poderia fazer melhor se tivesse todo o despreendimento suicida de Vasilli). Enquanto Anatole, o pobre Anatole, filho da senhora Justine, vendedora de Nabos-farmacêutica-prostituta-suicida, não nesta mesma ordem, este pobre ser que sonha, que ilude-se com este triângulo que não existe, demora a perceber, a se "aperceber" que o lítio que o dr. avental branco recomendou durante as últimas semanas não deslocou a intrigante e deliciosa vontade de entender e usufruir deste amor doentio que só o pobre-rico Vasilli poderia às três e trinta e cinco dominar. Na verdade, sua coluna dói, sua melhor aproximação hormonal fora um olhar a trinta e cinco graus no ônibus que rodopiava a avenida rio branco, como quem gira e escapa em torno do passado... com as carruagens, com os coxeiros e o "boulevair" improvisado que o fazia lembrar a velha paris, em distintíssimos momentos diga-se de passagem.

Acendeu um cigarro e olhou para a janela, sua visão era privilegiadamente desonesta, um prédio com uma tênue luz no terceiro andar, refletia aquela decadência usual do centro da cidade.

E Vasilli, Laura, os dois, envolvidos como tumores... divisões de células não apropriadamente habituais.

Anatole pois bem, e seu cigarro, pensavam que as analogias coercitivas eram parte de um processo intenso que o levavam até a velha monografia "les configurations allemandes dans l'exécution du sade principal", era um dia quente e o decanato de literatura o observava como leões em arenas romanas.

Quanto tédio. O cigarro no fim. Laura e um orgasmo vermelho. Vasilli na cama lendo Gutiérrez ou talvez Schopenhauer antes de emendar um soneto barato que ele escrevera num momento de fleuma. Impressionismo barato.

Anatole imaginava demais. Demais. E quem pensa demais, citava-se, "precisa dormir cedo", expirou em tom de desabafo. Precisa dormir cedo.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Eufemismos baratos

Vasilli. O puto Vasilli. O vazio Vasilli. Algo que se mexe como um amontoado de funções biológicas que insiste em manter-se vivo. O puto Vasilli. O merda Vasilli. Algo como um pedaço de fezes, que estrebucha neologismos contrários a gramática oficial só para se fazer de um ignóbil aspirante pseudo-letrista. Seis aulas por semana. Francês. O filho da puta do Anatole falara francês sem colocar os adjetivos pueris que ligavam os prosaicos perdedores prolixos pernósticos pró-prealumbações. O puto era um francês nato. Eufemismo ridículo. Torre eifell, cafés parisienses e pombos no brasil imitando praças francesas. Pragas urbanas. Eram todas parte de problemas urbanos.


-Vasilli.

-Diga, francês.

-Estamos aqui há exatos trinta minutos discutindo filosofia aristotélica. Não achas que minha entonação medieval significa que devemos levantar e dormir em algum colchão antes que eu começe cantar a marselhesa em português?

- Vasilli diz que suas terceiras pessoas não me endossam as labaredas metafísicas Vasilli diz que Vasilli dirá que tudo o que você pensa está recheado de um ódio francês barato.

- Trinta pesetas.

- Hahahahaha.... riu anatole...

- Você é um puto... fala em símbolos... (demorou mais do que o habitual pra xingar o puto em símbolos)

-Deveras... deveras... meu caro... chutou Vasilli, antes de tragar a garrafa de tequila até 1/4 do original.

- Deveras...

-Mas pense bem... quando eu finjo-me de inteligente... você cospe buracos vazios... nadas metafísicos... plágios argentinos... e coisas do tipo... não sei...

Noticiar o ambiente, fazia bem aos dois malandros. Os blocos passavam na avenida Rio Branco... A presidente vargas estava recheada de confetes, enquanto os dois jogados nas escadarias da igreja da candelária... ensaiavam uma marchinha de 1969. "Olha a cabeleira do zezé... será que ele é... será que ele é..."

-Não é 1969... seu estúpido! É 1979.

-Hahaha... Estás errado meu caro medievalista. O ano certo... digo correto... pelos proseadores...

-É algo em torno.. de...

Súbitamente, Anatole levantara e vomitou com força sobre o segundo degrau,

Vasilli entendeu a promessa. Tentou escapar, mas se viu naquele momento e respeitou Anatole por tudo que significava aquela escadaria, o bloco passando, os confetes, a solidão e tudo parte do" algo" não identificado, dos brinquedos metafísicos, das egrégoras, dos súbitos desmaios filosóficos que deixavam aquela situação mais ridícula.

-Ciências sociais ou história, Anatole?

- Os dois. Respondeu Anatole, ainda cuspindo parte da bílis enquanto o refrão por mais que motivado a contradizer os dois... inseria na cabeça de Vasilli uma derrota... do mestre Cartola.

- Deixe me ir... preciso andar... vou por aí... a procurar...

Sorrir, pra não chorar.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O blog está meio parado

Enfim, aguardando algumas definições para voltar a produzir algumas coisas interessantes...

Carioca só trabalha depois do carnaval mesmo...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Anatole e suas decisões

Anatole caminhava por entre os ladrilhos gigantes da praça vermelha, aguardando um sentimento de furor o invadir ou qualquer emoção intensa que valesse a pena perder uns quatro ou cinco minutos divagando deliciosamente meia dúzia de paradoxos filosóficos baratos.

Ele não tardaria a descobrir que a oposição entre as cores e as matizes, concordavam em lhe aplicar um golpe seco de dúvida que iluminava os caminhos ao seu redor, algo em torno de trinta ou sessenta centímetros, mas que no geral costumavam ofuscar as pessoas e os objetos mais distantes. Eram entre seis e sete da manhã, e esse era o período perfeito para saborear alguns quitutes metafísicos enquanto os passos apressados dos transeuntes e as lanchonetes lotadas do paço imperial esfriavam o clima quente que soçobrava em lençóis escuros os quadros recortados do cotidiano. Mas quem o enganava? Anatole nunca acordaria este horário...

Anatole via-se diante de problemas profusos, invasivos, pois afetavam toda a cadeia triste do jogo social/antisocial dos dominós humanos, olhar para o próximo naqueles momentos era refletir-se num espelho vazio de dó. E como se sentia tão tolo, ao visualizar a linha limítrofe do seu conhecimento; que atacasse a sociedade, a pirâmide injusta, os poderes podres do poder!, mas mesmo asssim Anatole não conseguia imbuir-se de medo ou respeito, apenas complacência; uma complacência tola, um tanto quanto viril em desmascarar todo a arquitetura da desigualdade por partes, mas sem o "punch" exato para golpear de cima para baixo.

Sua voz nada podia fazer, do que esboçar meras reclamações orto-dinâmicas, que emudeciam-se diante do barulho, do clarão intrépido de sons que caíam em volta de seus eventuais silêncios introspectivos.

Não podia mais obedecer, além do que sofrer por antecipação lhe causava uma úlcera estomacal que nem o mais cartesiano dos gastrointerologistas poderia corrigir sem reportar-se ao velho jargão: "Afinal, qual é o seu problema?". Afinal, qual é o seu problema velho Anatole? Qual é, perguntava-se no final daquele gole de ar engasgado que pontuava suas segundas-feiras, por pura maldade é claro.

A complexidade, a velha complexidade, emendou antes de sentar e observar os pombos digladiando-se por um pedaço de pão no meio da praça morta de cimento. Com pombos, seria mais fácil. Muito mais. Resolveu sair dali, era simplório e patético demais. A sua complexidade tornava um café de fim de tarde mais difícil do que o habitual.

Já era tarde e o velho Vasilli ainda não tinha chegado, seu atraso era sempre pontual, desde que acompanhasse um inusitado acontecimento sensorial que envolvia sua falta de horário ou uma nova descoberta perceptiva sobre problemas senso-comum do qual parecia ter elucidado. Era sempre óbvia a sua falta de dialética tradicionalmente obscurecida por algum comentário vivo. Vasilli costumava dar vida aos seus comentários e fazia com que eles dançassem ao lado dos raciocínios abstratos compartilhados por um pedaço de barulho às quatro e quarenta e cinco de uma segunda feira ao lado do sarcasmo estridente dos Arcos da Lapa. Uma vez atrasou cinqüenta minutos pois resolveu achar o umbigo do centro da cidade quando passeava na Rua da Alfândega.

Mas o pulha talvez não viesse. E Anatole decidiu escutar os passos da música e caminhar por aí até ver o que faria.

O que faria Anatole? O que faria?

São tantas escolhas... É uma soma de forças contraditórias... há um norte, isto é verdade, contudo sinto-me impelido por tantas questões... saudades de determinados lugares e momentos, pessoas, mas vejo que muita coisa passou, a estrada que eu cruzo não é a mesma estrada e nem eu sou a mesma pessoa após cruzá-la... É o velho devir heraclitiano, o caminho do todo escondido em bordas de alegria, de ódio, e de profunda exaltação diante do duvidoso, do desconhecido, do absurdo. E onde estaria o velho Vasilli? Perdido em suas execrações? Ou buscando novas formas de prazeres cotidianos? No fundo no fundo, Vasilli é um hedonista. Um hedonista movido a detalhes...


terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Uma volta sob si mesmo


Evitar falar de mim mesmo é fácil. Sempre acreditei que os egologs e os posts narcísicos refletiam o egocentrismo desesperado do isolamento destes relacionamentos de silício, mas mais do que isso são um verdadeiro pedido de ajuda, dentro de uma louca corrida desenfreada, de uma sociedade doente, verdadeiramente doente.

E eu adoeci, diante de um emprego e um curso de faculdade que eu odiava, simplesmente, por achar que por estar "traçado o caminho" o mais fácil seria deixar-se levar ao invés de reiventar com o giz da liberdade novos traçados, novos caminhos. Adoeci, por acreditar que tudo "seria do mesmo jeito", que a essência já estava pronta, sofrer, chorar e queimar emoções de forma concreta eram um sintoma de uma doença supostamente "inseparável".

Agora dei um basta. Ano passado foi transição, mas foi bom. Este ano será melhor. E se não o for farei-o melhor. Por que eu decidi VIVENCIAR minha liberdade(mesmo com as limitações desta sociedade doida...).

É mais fácil submeter-se ao pronto, reiventar-se é difícil, contudo profundamente prazeiroso, e eu pude respirar aos plenos pulmões a minha vontade de reinvenção. Guardei forças durante um longo ano e parti para a mudança interna. Com esta, reiventei-me externamente.

Espírito, corpo, mente... paixão... ah... paixão... tudo no momento certo! Tudo no momento certo... por que o momento certo é o agora, o que eu produzo e onde sou produzido...!

Enfim tranquilo e pronto a tomar aquele café com torta de nozes que eu sempre almejei.

Nova paixão, novo curso, nova faculdade, novas atitudes, novas concepções e percepções ajudaram a construir enfim, uma nova vida. Desta vez, nem um pseudoconto conseguiria explicar o que eu sinto. enfim merda! Enfim farei o curso que eu quero!!! A vida que eu quero!!!!

Foda-se o vestibular elite-pirâmidade-decadente-exclusivo! Foda-se!!! Eu passei e isto no momento é algo que importa!!! Estou dentro caralho!!!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Próximos capítulos

Em breve, textos sobre Vegetarianismo, antinomias libertárias e talvez a continuação do artigo Apontamentos sobre o marxismo.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Apontamentos sobre o marxismo

Já há algum tempo tenho despertado em mim a intenção de escrever este pequeno ensaio(que ao contrário do marxismo não é um ensaio definitivo, mas uma leve suposição) sobre o marxismo. Dividirei o tema em sub-temas, já que é um esforço considerável tecer considerações que abarquem todo o marxismo. É uma explanação que sem dúvida não abarca determinados posicionamentos(pelo menos a princípio).

Ao contrário do anarquismo, não podemos nos atrever a falar em marxismos. O marxismo ao contrário da diversidade de leituras do anarquismo[1], está baseado óbviamente como o nome exemplifica na figura do filósofo e economista Karl Marx.

Para fins de leitura, substancialmente encaremos a análise sobre o prisma de apenas UM marxismo, já que segundo a visão tradicional do marxismo(a ortodoxa) as distintas visões do marxismo(as heterodoxas) seriam as chamadas visões revisionistas[2].

Portanto, todo ensaio se dará básicamente na crítica deste chamado marxismo ortodoxo, no entanto esta não poderia estar alijada de um sustentáculo de análise sobre a teoria e a prática marxista; na verdade não iremos cindí-la, pois este texto destina-se à fazer uma crítica a aplicação das idéias marxistas tanto como filosofia da história quanto ideologia revolucionária.

O maior erro de alguns marxistas heterodoxos apesar de levarmos em consideração o senso crítico com que estes ousam atacar alguns canônes do marxismo é acreditar que o erro da prática marxista se deriva de uma concepção de leitura equivocada. É até peculiar e extremamente contraditório que consigam ser tão idealistas quando lhe convém, a realidade(refiro me a prática nos movimentos sociais sob a ideologia marxista) seria então fruto desta leitura equivocada do Marx "puro". Na verdade, infelizmente os marxistas heterodoxos são apenas uma exceção que confirmam toda a regra: o marxismo tem graves erros teóricos e metodológicos, o trabalho teórico de Marx está ligado essencialmente à sua prática como revolucionário e por mais que leituras distintas possam tentar transformar a imagem do velho Marx "autoritário" em um Marx supostamente "libertário", recordemos então sob uma análise oportunamente materialista(que aliás move os marxistas): as idéias de Marx são reflexos de suas posturas "reais", nos referimos as posições políticas tomadas por este na Associação Internacional dos Trabalhadores: autoritário, centralizador, profundamente homogeinizante.

O Marx "puro" não existe, o que existe é a aplicação das idéias marxistas aos movimentos sociais e a realidade. É isso que eu entendo como marxismo e é isso que eu irei julgar. Caso existam leituras mais coerentes feitas pelos marxistas heterodoxos, que os mesmos se esforçem como bons materialistas que são, para modificar a realidade do movimento marxista e não suas idéias, se não o termo pejorativo "academicistas" que os trotskystas lhe imprimem, terão total sentido. Mesmo que estejamos falando da leitura teórica aplicada à prática, a teoria de Marx também deve merecer atenção.

Neste momento, ao entender que não há como cindir a prática de Marx de sua idéia, (mesmo que acreditemos que não é a primeira que determina TOTALMENTE a segunda) podemos prosseguir no árduo caminho de iconoclastia que nos impele a derrubar pressupostos, mitos ou santos, sejam eles vermelhos, barbudos ou não.

Os marxistas heterodoxos caberiam um capítulo a parte, vulgarizados como "intelectuais-revisionistas", "pequeno-burgueses", estes encontram-se ou em número ou em vontade suficientemente reduzida para trazer a suposta "visão correta" do marxismo, ou a visão "pura" do velho Marx para dentro do movimento social, pois o que temos em frente é apenas a mesma estrutura autoritária de pensamento e atuação que remonta ao início da I internacional dos Trabalhadores dominado o marxismo como um todo. Estes infelizmente estão mais preocupados em analisar a sociedade capitalista do que modificá-la(como diria Marx os filósofos trataram de interpretar a realidade, agora devem modificá-la).

Seria interessante citar a visão marxista-leninista de dois partidos significativos, o Partido da Causa Operária(PCO) e o PSTU(Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados),ambos de caráter trotskysta sobre os marxistas heterodoxos.

Eis a posição do PCO[3]:
"Um conjunto de intelectuais burgueses, bastante heterogêneo e confuso, que nada tem a ver com a luta da classe operária, são considerados “marxistas” de acordo com as concepções difundidas na universidade: Lúckács, Karl Korch, Escola da Frankfurt (Adorno, M. Horkheimer, E. Fromm, Marcuse, W. Benjamin, Habermas), Sartre, Althusser. São intelectuais profissionais, cuja atividade política foi quase nenhuma ou exatamente nenhuma. São na maioria intelectuais burgueses, acadêmicos de universidade."

"As idéias do pseudo-marxismo ocidental vão ser desenvolvidas de forma acabada pela Escola de Frankfurt. [...] É uma concepção reacionária pequeno burguesa. [...]
A ideologia da Escola de Frankfurt é encontrada muitas vezes na universidade como Teoria Crítica.

Trata-se de uma inversão total do marxismo. Para os autores da Teoria Crítica, a parte mais essencial do marxismo não tem valor. Para a Teoria Crítica, não basta uma revolução social, a transformação completa do mundo material, mas é necessário fazer uma revolução espiritual.

A Teoria Crítica nasce da incapacidade dos intelectuais burgueses, que não é puramente teórica, mas política, de classe, de entender as condições da classe operária e os problemas da URSS nas décadas de 40 e 50.

E o PSTU diz[4]: " Para além de traços geográficos, geracionais ou lógicos; o signo oculto em Lukács, Gramsci, Sartre e Althusser, Marcuse e Della Volpe – em diferentes gerações, perspectivas e nacionalidades – era eminentemente histórico: todos eram produto de uma angustiante e no mínimo dupla derrota do movimento operário, o triunfo fascista no Ocidente e a consolidação stalinista no Oriente. [...]

Ao se distanciar do mundo dos trabalhadores, o marxismo ocidental foi sintonizando-se cada vez mais com diferentes tendências da cultura teórica liberal-burguesa (idealismo alemão, psicanálise, estruturalismo francês etc.)"

Percebe-se claramente, que o marxismo heterodoxo é visto como um produto de uma condição histórica(aliás quaisquer doutrinas revolucionárias não alinhadas ao marxismo ortodoxo serão vistas desta forma), não sendo aceito como uma crítica revolucionária e que no caso da crítica do PCO está presa essencialmente a uma visão obreirista aliado a uma perspectiva extremamente materialista. Em ambos, reside o desprezo e o estereótipo de "intelectual pequeno-burguês".

A visão particular do PCO é apenas uma face tímida, da visão marxista inquebrantável na fé com que a simples mudança de condições materiais provocadas por uma revolução social ocasionaria e determinaria quaisquer subjetividades. Explicaremos no entanto mais específicamente este conceito adiante. Incrível citar que muitos dos teóricos citados pelo PCO como não tendo nehuma ou quase nenhuma atividade política, não resiste a um exame menos superficial.

Na verdade a visão de que a ausência de atividade política atribuída pelo PCO aos marxistas heterodoxos como motivo para não fazerem parte do "verdadeiro marxismo" é um exame falseado da realidade. Lukács por exemplo, foi membro de vários círculos socialistas, participou do Partido Comunista da Hungria em 1918(na época clandestino), após a 2ª guerra mundial envolveu-se no estabelecimento do novo governo na Hungria e em 1956 tornou-se ministro do breve governo comunista liderado por Imre Nagy. Althusser também fez parte do Partido Comunista Russo, assim como Gramsci, um dos líderes do partido comunista italiano, representando o partido na rússia em 1922. O que determina o fato destes teóricos serem considerados pequeno-burgueses é o fato destes terem tocado em dogmas fundamentais do marxismo e como toda religião sem dogmas não sustenta-se, a excomungação é o que basta a estes teóricos. O marxismo não consegue nem em seu interior lidar com a diversidade, é algo inerente a seu próprio mecanismo teórico.

A grande questão que se aplica ao marxismo é o fato deste pretender-se advogar-se muito além do que uma ideologia revolucionária, mas sim verdadeiramente como uma filosofia da história.

O marxismo não pretende ser apenas uma ideologia revolucionária, deseja ensejar-se como uma explicação das leis naturais da história e do mundo, abarcando até a própria concepção de verdade(poderemos falar deste assunto em outro artigo).

Esta questão histórica se dá a partir do materialismo histórico, que objetiva a explicação da história das sociedades em todas as épocas a partir dos fatos materiais, técnicos, econômicos.

Filosofia da história e marxismo

A filosofia da história marxista deriva da filosofia da história de Hegel e seria inútil imputarmos uma análise sobre a tal, se não considerarmos os velhos estudos do filósofo alemão, explicitando como o velho Marx "inverteu" a filosofia Hegeliana. A filosofia da história surgiu com Immanuel Kant, segundo este, deveríamos nos esforçar para encontrar o plano "secreto"[5] da natureza que explicasse o sentido da história e da humanidade. Com o livro "Idéia de uma história universal sob o ponto de vista cosmopolita", de 1784 Kant reabre a procura da análise racional da história procurando uma "história universal geral" que abarcasse toda a humanidade.

Porém, somente com Hegel e seu livro "Lições sobre a filosofia da história universal"[6] publicado em 1830 que a filosofia da história ganha uma dimensão global, ou seja a história dos povos deveria ser escrita não mais localmente, mas numa perspectiva universal.


Retomando a idéia da "lei geral""o materialismo histórico se enuncia na obra de Marx e Engels na encruzilhada decisiva dos anos quarenta do séc. XIX"[7]. Assim, a partir da dialética, o marxismo estabelece o materialismo histórico pretendendo explicar a história das sociedades humanas através dos fatos materiais. A sociedade é comprarada com um edifício, onde as fundações, seriam representadas pelas forças econômicas(infra-estrutura) equanto o edifício em si seria representado pelas idéias, costumes, instituições políticas/religiosas/jurídicas(superestrutura).

Assim como Santo Agostinho, para Marx(Mikhail Bakunin também tinha uma concepção similar, apesar de ser menos materialista que Marx e não ter petrificado esta visão com a verve da "ciência") a história tem início, meio e fim. Segundo Marx, o fim da história seria o comunismo. A inevitabilidade da queda do capitalismo se daria pela contradição essencial que o sustenta. Na verdade a ânsia de Marx em encaixar a história econômica em seu modelo dialético provocou-o errôneamente a profetizar o fim do capitalismo, quando na verdade, sempre que os teóricos marxistas anunciam seu fim, este revigora-se com plenos pulmões neo-liberais. Interessante citar a novela "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley que profetiza justamente o contrário, um mundo perfeito, impregnado pela excelência da técnica, onde os habitantes estão profundamente controlados por mecanismos de condicionamento pavlovianos, assim como o "1984" de George Orwell, previsões não tão científicas mas mais coerentes com a realidade de nossa atual sociedade, que caminha lentamente para uma sociedade do "Vigiar e Punir".

Independente da visão profética que algum santo socialista tenha a ousadia de escamotear com a argamassa frágil da ciência e da escaramuça esguia da dialética marxista(dialética marxista, pois é uma dialética que serve a filosofia marxista) devemos ser honestos com os horizontes dos processos históricos antes de tecer considerações definitivas sobre todos os meandros que os envolvem; não há uma lei da história, existem análises sobre a história.

Esta visão de inevitabilidade da derrocada do capitalismo e da ascenção do comunismo sobre a terra é óbviamente imbuída do profundo espírito religioso herdado de Hegel(Vorlesungen über der philosophie der Geschichte, de 1830) que por sua vez fora influenciado por Santo Agostinho, que tinha uma concepção historiográfica que previa um inevitável desaguar na felicidade coletiva futura, sendo por igual herdada por diversos filósofos otimistas dos Tempos Modernos, tais como Condorcet (Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain, de 1795) e por vários reformadores sociais contemporâneos. Enterrando a visão historiográfica pagã e a existência eterna da physis grega idealizada por filósofos gregos.

O extremo determinismo econômico que move a história, viria a ser atenuado pela declaração de Marx de que há constante interdependência entre estas esferas e constante interação embora segundo o marxismo os fatores econômicos serão de fato os fatores preponderantes.

Esta super-valorização dos processos econômicos, como fator decisivo no processo das idéias, encontra seu primeiro crítico nos estudos de Weber, que em sua obra a "Ética protestante e o espírito do capitalismo" demonstra que se não houvesse determinadas condições ideológicas advindas do espírito religioso calvinista/protestante, as tais condições econômicas que segundo o materialismo histórico determinariam as idéias, na verdade não teriam sido consolidadas. Muito mais do que uma suposta inversão da idéia de Marx, Weber na verdade exemplifica que o cientista social deve estar pronto para o reconhecimento da influência que as formas culturais, como a religião, por exemplo, podem ter sobre a própria estrutura econômica em caráter determinante. Os estudos de Weber vão ser retomados por dois de seus mais importantes seguidores, David Landes e Ernest Gellner[8], este último dará ênfase na importância independente das forças políticas e
como elas influenciam o desenvolvimento econômico.

Landes por sua vez[9] exemplifica sua posição:

"Na verdade, é justo afirmar que a maioria dos historiadores hoje considerariam a tese de Weber como implausível e inaceitável: ela teve o seu momento e já passou.

Eu não concordo. Nem sequer a nível empírico, onde os registos mostram que os mercadores e manufacturadores protestantes desempenharam um papel de líderes no comércio, na finança e indústria. Em centros de manufactura (fabriques) em França e na Alemanha ocidental, os protestantes tipicamente eram os empregadores e os católicos os empregados. Na Suíça os cantões protestantes eram os centros da exportação das indústrias manufactureiras (relógios, maquinaria, texteis); os cantões católicos eram primeiramente agrícolas. Em Inglaterra, que no final do século XVI era predominantemente protestante, os dissenters (leia-se Calvinistas) eram desproporcionalmente mais activos e importantes nas fábricas e fornalhas da nascente Revolução Industrial.

Nem (sequer) ao nível teórico. O centro da questão situa-se na verdade na criação de uma nova forma de homem - racional, ordenado, diligente, produtivo. Estas virtudes, mesmo não sendo novas, estavam longe de ser um lugar-comum.. A segunda foi a importância conferida ao tempo. Aqui temos aquilo que o sociólogo chamaria de evidência moderada: o fabrico e a compra de relógios. Mesmo em áreas católicas como a França e a Baviera, a maioria dos fabricantes de relógios era protestante e o uso destes instrumentos de medida do tempo e sua difusão em áreas rurais era de longe mais avançada na Grã-Bretanha e Holanda do que em países católicos. Nada testemunha tanto como a sensibilidade ao tempo para a "urbanização" da sociedade rural, com tudo o que isso implica para a rápida difusão de valores e gostos.

Socialismo científico?

A coerência da doutrina filosófico-econômica marxista está ligada ao crescente status de superioridade que as ciências exatas gozaram prestigiosamente no final do século XIX. O próprio socialismo "científico" de Marx(que de ciência pouca coisa tem) extraiu muitas das suas teses[10] formuladas anteriormente por economistas liberais, socialistas e anarquistas, Sismondi, Victor Consideránt, Robert Owen, William Thompson, Adam Smith, Saint-Simon, Blanqui, Gustav Thierry, David Hume, Turgot Ricardo, Proudhon, etc. Posteriormente muitos dos socialistas deste grupo, foram acusados de "utopistas", atribuindo a palavra utopia que é formada pelo radical grego "ut" não e "topos" lugar um significante pejorativo, com intenção de desmerecer o trabalho destes pensadores. Na verdade é com Marx e Engels que a palavra utopia ganha contornos de "coisa irrealizável", sem base na realidade.

Não adentrando no caráter de Marx, toda esta concepção de cientificidade que não comporta distintas formas de pensamento dentro do movimento socialista diz respeito a
três condições básicas da qual podemos extrair conclusões:

A
primeira diz respeito as dificuldades para compreender quaisquer aspectos subjetivos ou visões como as fenomenológicas que não submetam-se a seus relatos totalizantes, pois trabalha sob uma visão imutável e global da história, do progresso e da filosofia(apesar do que a dialética nos diz exatamente o contrário). Esta visão totalizante leva ao equívoco da luta do marxismo em tomar o poder sempre pelo centro e concebe o marxismo como um relato que engloba e explica a existência humana a partir da história e dos processos econômicos. O massacre bolchevista das tendências revolucionárias(Massacre de Kronstadt e o expurgo dos anarquistas na revolução russa de 1917) é apenas a consequente aplicação deste relato totalizante.

A segunda condição é a visão que o marxismo tem sobre o indivíduo.

O conceito marxista de proletariado está instrísecamente ligado a um modelo industrial clássico que muitas vezes não corresponde às especificidades dos agentes de transformação dos quais acreditamos ser chaves para um processo de revolução social. Como bem referencia Jorge E. Silva: “O anarquismo, ao contrário do marxismo, não acredita na existência de um sujeito histórico único e predestinado, em uma classe ou grupo social capaz de realizar, em função de um destino histórico, a mudança social.” [11]

“(...)Desde Bakunin e Kropotkin, sempre estiveram no centro do pensamento anarquista, ao lado do proletariado, dos camponeses, todos os explorados e excluídos, os marginais e jovens, mas enquanto pessoas concretas, sujeitos capazes de assumirem sua liberdade historicamente.” [12]

Podemos perceber este conceito abstrato de proletariado atingir seu distanciamento da realidade, com os programas estratégicos e as propagandas das tendências marxistas em sua maioria, que reproduzem modelos simplistas de sujeitos. O assalariado seria o eterno alienado que aguarda o revolucionário profissional exportar a consciência de classe, como um elixir paregórico que teria a função de curar toda a “doença” capitalista. O marxismo imbuído dessas idéias de sujeitos simplistas, objetifica os indivíduos, mesmo atribuindo a importância necessária a tais, considera que estes desempenham papéis secundários dentro da dinâmica do processo de revolução[13], isto fica implícito no discurso, e na problemática que a maioria dos teóricos marxistas está debruçado: analisar a sociedade capitalista. É o indivíduo a serviço da história. É a metafísica marxista mostrando seus deuses e servos.

E finalmente a terceira diz respeito a visão pretensamente científica que o marxismo pretende advogar. Teriamos a definição de ciência segundo a enciclopédia livre Wikipedia como o "conhecimento ou um sistema de conhecimentos que abarca verdades gerais ou operação de leis gerais especialmente obtidas e testadas através do método científico".

Sem dúvida alguma, Marx nunca esteve próximo de abarcar verdades gerais, se isto fosse verdade a queda do muro de Berlim e a desintegração da URSS comprovariam pela lógica científica o fracasso da teoria marxista.

Podemos concluir que o socialismo marxista não é científico, pois não teve provas suficientes de seus principais pilares, é mais uma teoria dentro do espectro múltiplo das teorias socialistas.

Ao contrário de científico peculiarmente o marxismo torna-se extremamente religioso: O proletariado messiânico de Marx, o culto a imagem da maioria das organizações marxistas, a inevitabilidade dos processo históricos e da ascensão do comunismo(assim como a inevitabilidade do reino de deus sobre a terra) na sociedade, o maniqueísmo em que o marxismo engendrou a dinâmica da luta de classes e a consciência como um processo externo ao proletariado(assim como a iluminação divina é externa ao indivíduo). Esta visão pretensamente científica no entanto, não se sustenta diante de uma análise apurada, o marxismo, assim como qualquer doutrina revolucionária tem imensas e graves falhas. Já dizia o revolucionário Francês Joseph Pierre Proudhon[14] em carta à Marx:

"Em primeiro lugar, e embora neste momento minhas idéias sobre a questão da organização e da realização já estejam mais ou menos definidas - pelo menos em princípio - creio ser meu dever, como de todos os socialistas, manter ainda durante algum tempo uma atitude crítica ou dubitativa: resumindo, em público eu me declaro a fabor de um antidogmatismo econômico quase absoluto."

Podemos afirmar que toda teoria revolucionária que pretende propugnar verdades científicas deve afirmar sua validade com o tempo e não com a verdade. Aceitemos o óbvio, Marx foi um pensador como quaisquer outros pensadores socialistas, repleto de erros teóricos, não há nada de "científico" em Marx.

Podemos oportunamente, reproduzir o que seria o método científico segundo a wikipedia:

Os cientistas nunca falam em conhecimento absoluto. Diferentemente da prova matemática, uma teoria científica "provada" está sempre aberta à falsificação se novas evidências forem apresentadas. Até as teorias mais básicas e fundamentais podem tornar-se imperfeitas se novas observações estiverem inconsistentes a elas.

Ao que parece vejo-me impelido a aceitar a velha piada contada por um companheiro que me obriga a entender completamente seu sentido:

-Sabe por que o marxismo não é ciência?

-Não, por que?

-Por que até a ciência evolui.

Próximos Elementos a serem debatidos neste artigo:
- Partido Revolucionário
- Ditadura do Proletariado
- Vanguarda Revolucionária
- Centralismo vs autonomia

[1]Quando falamos de anarquismo, falamos de anarquismos como diria Bakunin: "La diversidad es la vida, la uniformidad es la muerte (Mikhail Bakunin)"

[2] Tragtenberg define o marxismo heterodoxo como uma “leitura de Marx não regida pelos moldes ‘ortodoxos’ definidos pelo chamado ‘marxismo-leninismo-stalinismo’ ou ‘marxismo-leninismo-trotskismo’”. Um marxismo que questiona “os dogmas aceitos acriticamente pelos militantes e teóricos dialéticos, especialmente a noção de ‘ditadura do proletariado’; uma heterodoxia que põe em xeque ‘a noção de partido hegemônico’.” (Tragtenberg, 1981: 07)

[3] http://www.pco.org.br/conoticias/atividades_pco_2006/3fev_acamp_audio.htm

[4] http://www.pstu.org.br/teoria_materia.asp?id=4188&ida=43

[5] http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2003/02/22/003.htm

[6](...) todas as diferenças que encontramos entre povos e países nada mais são do que as faces multiformes dessa mesma razão e que "uma vontade divina rege poderosa o mundo" e que nada está sujeito ao acaso, mas sim faz parte de uma ordenação regida por leis naturais perceptíveis pela mente humana. Retirado de http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2003/02/22/003.htm

[7] http://criticanarede.com/fil_historia.html

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Ernest_Gellner

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Landes

[10] Marxismo, escola de ditadores / Roberto das Neves - Ed. Mundo Livre

[11] Enquanto o marxismo estabelece o proletariado como a classe potencialmente revolucionária, o anarquismo enxerga o lumpemproletariado(descartado por Marx) como também potencialmente revolucionário, desde que encontre condições específicas para isto. Assim como o proletariado de Marx torna-se tão pequeno-burguês(vide os sindicalistas amarelos do ABC paulista) quanto os lumpem de sua teoria.

[12] O Anarquismo Hoje – Uma Reflexão Sobre as Alternativas Libertárias / Jorge E. Silva – Ed. Achiamé

[13] Hegel afirmava que "Tudo é uma história"; Marx seguindo seus passos vai afirmar que: só reconhece uma ciência, a ciência da história".

[14] Anarquismo: Uma história das idéias e movimentos libertários / George Woodcock - Ed. L & PM

[15] Para Jung a ciência é projeção psíquica dos cientistas e os modelos teóricos aproximações e não retratos fiéis da realidade. Nessa perspectiva, o conhecimento científico está mais perto de uma metáfora por meio da qual o mundo é interpretado que de um conjunto de dados articulados enunciadores de uma verdade confirmada.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

E Blisset ataca novamente

E aí está o camarada Blisset.

E Mr. Durden Poulain sempre atento aos ataques modernos da "onda" do fenômeno contemporâneo do co-indivíduo.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Todo desperdício será cobrado

Caminhava pelo centro da cidade tentando captar como aquele curto-circuito frenético respirarava e expirava um pouco de sua liberdade. Vasili procurou dançar todo aquele ritmo de pós-modernidade esquizofrênica que as ruas do centro pareciam exalar, mas definitivamente não conseguia ler mais as faces dos que cruzavam as esquinas emolduradas de gente, multidão, gente.

Era um balé sem sentido, apesar de primoroso nos primeiros atos e um tanto quanto multi-colorido, perdia a graça quando não se podia mais ficar imóvel em tom de platéia.

Caíra em si, quando percebeu que não conseguia acertar os passos certos da música, era melhor que se fizesse cair fora da sonata como uma semi-mínima de bancos de concreto, que prostados em frente à Igreja de São Francisco assumiam que nem mesmo no cimento daquele lugar poderia se confiar para uma pausa meio pseudo-aristocrática, que Vasili costumava realizar, independente da natureza morta que o rodeava, o concreto e o nublado competiam entre si para ver como poderia xerocá-lo entre os demais.

Desviava entre os passos rígidos da multidão, esgueirava-se por entre as teclas do dominó do trabalho e do ritmo incessante das engrenagens cinzas da rotina alheia, quando lhe pareceu a hora correta para fechar aquela conta do banco, que jazia há um certo tempo, só por graça pessoal, há um tempo longínquo que Latsaiev não conseguia lembrar-se.

Entrou como um lampejo de idéia no banco, e Vasili não podia deixar de aproveitar tais lampejos, vagalumes soturnos que lhe faziam falta nas madrugadas dos dias quentes.

Passou na porta giratória, o segurança esboçou um olhar acusador nível 02 pelas suas contas.

- Onde é o fechamento de contas?

- Ali em cima, respondeu o segurança mais calvo.

Dois lances de escada, uma lixeira azul escarlate e um senhor de pasta marrom descendo pelo corrimão esquerdo e voilá, estou no topo.

- É aqui que fecham as contas?, perguntou ao atendente distraído.

- Aguarde ali, pode se sentar por favor.

Sentou-se ao lado de um senhor de barbas brancas nível 02, vestido com suspensórios azuis e adornado por uma boina vinho, que portava uma bengala-ansiosa(repetitiva ela acertava os pés do estofado cinza-marfim provocando um estalo entre o metal e a madeira que agradava Vasili) mal ajambrada, mas que parecia simpática, assim como todo o conjunto do velho em si.

Teve vontade de dizer ao velho o gosto do suco de abacaxi que tomou achando que era caju e como tudo lhe pareceu indiferente naquele momento. Como o caju era o abacaxi e o abacaxi era o caju.

"Tenho que anotar tudo isto".

- Próximo.

-Bom dia.

- Bom dia.

- Desejo fechar minha conta do banco.

O gerente engravatado, devia ter uns 30 anos o filho da puta, deve ser um puto ambicioso, subiu rápido na empresa, tateia o teclado com gozo, espreguiça-se ligeiramente na cadeira, regorzija-se com as canetas esféricas personalizadas. Logotipo do banco, sacia-se com meia dúzia de divisórias beges e um pouco de carpete e ar condicionado. Este homem é um caju que acha que é abacaxi.

Esta sala está cheia. Posso sentir o cheiro do produto de limpeza. Sessenta centavos por litro, algo cítrico.

- Por que o senhor deseja fechar a conta?, recortou o funcionário após dois ou três cliques de caneta.

- Estou desempregado, finalizou Latsaiev.

-Hummm, reproduziu o funcionário medíocramente em tom de lamento.

Vasili teve vontade de rir, de chorar, de apontar para tudo aquilo gritando "você é um grande suco de caju que acha que é abacaxi", ou de até deixar um bilhetinho introspectivo, que o fizesse pensar: "Por que o suco de caju tem gosto de caju?"

Por que? Por que?

Avançou no tempo, transcendeu o tempo e o espaço e chegou no paço imperial: "O mais engraçado, foi a expressão dele. Recontorceu metade do lábio para a esquerda, mas eu não pude deixar de perceber os olhos indiferentes. O filho da puta era um etiqueta humana. É do tipo que apóia o controle de natalidade e assiste um filme do Almodóvar no mesmo final de semana, que puto! Eu gostei dele!

Quando pensou que o papo tinha dado por encerrado, ele estragou tudo:

- Olha o banco não está te cobrando nada por esta conta, tem certeza que quer fechá-la, você está procurando emprego não está? Vai precisar.

- Não obrigado, eu não posso sustentar essa conta. A situação do país está difícil, sabe como é.

- Oh, sim, posso entender.

(desemprego estrutural...) - sussurrou Vasili como resposta entre os lábios.

"Mais uma dessas e eu escrevo o bilhete", sorriu. Assinou. Sorriu. Apertou as mãos(o pulha era realmente bom...), deslizou por entre a porta giratória, e saiu sem saber dançar exatamente os passos certos das ruas do centro.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Novo Ano: coisas velhas

Violência, aumento da passagem, milícias paramilitares, disputa por bocas de fumo, mídia, PAN americano, governo de "esquerda"... É... Tudo me parece igual.

sábado, 23 de dezembro de 2006

Caravela do amor

Odeio traduzir poesias... mas esta fala de paciência, de deixar as coisas fluírem sem acomodar-se no entanto, de esperar e agarrar os momentos certos. O amor não chega num porto como um barco e nem está parado numa ilha. Ele apenas acontece com o movimento do mar e do marinheiro.

No horizonte interminável e pleno da vida
O marinheiro solitário embarca seus sonhos
Pelos olhos fixos despejados
Na moldura profusa do amanhecer despido
Dos quentes grãos de areia da praia das ilusões

O lenço vermelho e negro, esvoaçante
Amarrado nas velas da corveta da liberdade
Aponta obtusos caminhos dos cardeais
Do sol, do norte, do sul, do oeste
O viajante entediado e ansioso
Por soprar suas velas
Ao primeiro porto que o aguarda
Com o tempo rígido das navegações
Aprende que não é o navegante jocoso que dita o mar
O capricho do céu fluido do líquido da vida
É que dá ao pesqueiros e a pesca os tomados fachos da sorte

Aguarda que ela vem, velho guerreiro!
Navega sem pensar que o mar te pertence
Navega sem pensar que a terra te aguarda
Ou que o vento está contra ou a favor de tua pessoa
O mar, o ar e a terra apenas são
Apenas seja
E quando mal perceberes
Tua caravela do amor girará a estibordo
Para enfim com um sorriso do sol te buscar

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

...

Hoje eu olhei para o espelho e só vi cansaço. Talvez seja por que o negativo do retrato apareça mais do que o resto das coisas boas, da poesia e do cheiro de flores. Não que eu pense nisso a maior parte do tempo, mas na verdade eu posso sentir a pressão explodir metade dos meus ombros enquanto eu cito os mesmos aforismas emoldurados pelo cíclico conjunto de forças do ser humano.

Dormir em colchões de plástico não resolverão metades dos meus problemas enfeitados com metáforas redigidas sob sete copos de cerveja gelados.

Talvez eu possa mentir em tom de eufemismos filosóficos, porém isto me cansa, e o que me cansa me traz coisas tristes, contudo cotidianas. Laura está morta, e a paixão e a dúvida convivem nesse meu túmulo de esperança enquanto eu sinto o cheiro das rosas dominarem a trilha da mudança.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Deslize

Sem tempo para postar... então só me resta deslizar até o final do ano.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Prometo mudar este layout dos infernos. Em breve, mais sem pressa por que estou meio enrolado.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Você é responsável pelo seu mundo

Você é responsável pelo seu mundo. Não podemos ficar neutros num trem em movimento. Algumas pessoas acreditam que "nada mudará", que a pobreza existe "desde que o mundo é mundo" e que a mudança política e social independem da sua ação. Cada pequeno passo é um acontecimento, cada peão que reage a opressão desencadeia o prisma da mudança, cada sem-terra assassinado, cada ser humano massacrado, vilipendiado é produto direto de nossa passividade e ignorância. Ou agimos como solitários em faroleiros(escondidos atrás de luzes vindas do alto) ou tomamos consciência de que somos uma classe, estamos(somos) oprimidos e temos de reagir.

Cotovia de Stephen ou seria "somos responsáveis pelo nosso mundo"?

A cotovia-da-Ilha-Stephen (Xenicus lyalli) era uma ave passeriforme não voadora da família Acanthisittidae, que vivia exclusivamente na Ilha Stephen, no Estreito de Cook e que se extinguiu em 1894. A Ilha Stephen, com apenas 2,5 km2 de área, foi a distribuição geográfica mais reduzida registada para uma espécie de ave.

A cotovia-da-Ilha-Stephen era uma ave de pequeno porte, com cerca de 10 cm de comprimento. A sua plumagem era de cor verde-azeitona, salpicada de pontos amarelados no corpo e riscas da mesma cor nas asas. O vago dimorfismo sexual da espécie manifestava-se pelo facto de as fémeas serem de cor mais baças. O bico curto e as patas altas eram castanho-claro. As asas tinham cerca de 4,5 cm de comprimento e demasiado reduzidas para permitir o voo. A cotovia da Ilha Stephen era o único membro da ordem Passeriformes que não conseguia voar.
Pouco se sabe a respeito dos seus hábitos para além de que era um animal crepuscular, mas a sua trágica extinção está bem documentada.
Originalmente, a cotovia-da-Ilha-Stephen estava distribuida por toda a Nova Zelândia, incluindo Ilha do Sul e do Norte. A chegada dos Maori há cerca de 1000 anos atrás provocou perturbações no ecossistema das ilhas e teve um impacto negativo na biodiversidade das ilhas com a extinção de várias espécies, por exemplo a moa. Para a cotovia-de-Stephen, não voadora, o factor decisivo foi a introdução do rato-do-pacífico (ou kiore), uma espécie invasora que dizimou as populações desta pequena ave. Pouco tempo depois, a cotovia extinguia-se em 99% do seu habitat original, conservando-se apenas na diminuta Ilha Stephen, desconhecida do mundo científico. Em 1893, foi instalado um farol na ilha, que passou a ter pela primeira vez ocupação humana. Com o faroleiro David Lyall chegou um gato doméstico chamado Tibbles, apenas um mas o suficiente para provocar uma hecatombe. Ao longo dos meses seguintes, o gato caçou e matou todas as cotovias, que como não voavam, não lhe conseguiam fugir. O gato trouxe várias das suas presas ao dono, que achou graça aos passarinhos e vendeu cerca de nove corpos ao Barão Walter Rothschild, um ornitólogo que os identificou como espécie única. Era tarde demais, pois a voracidade do gato já tinha feito o seu trabalho.
A extinção das cotovias-da-Ilha-Stephen passou à margem da opinião pública na altura e a única polémica que está associada à espécie é uma acesa discussão entre Lord Rothschild e Sir Walter Buller (outro ornitólogo) sobre os direitos de prioridade na sua descrição. Houve num entanto um jornalista neo-zelandês que comentou na sua coluna que, de futuro, os faroleiros deviam ser proibidos de ter gatos.
O desaparecimento da cotovia da ilha Stephen é o único exemplo de uma extinção resultante das ações de um único indivíduo. Curiosamente, um felino e não um humano.
Pequenas ações, grandes reações, lembre-se disto.